terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO XI










O ANJO NO PORÃO
CAPÍTULOXI



Após o que ele pensou terem sido as visões da filha, Régis conversou com os médiuns no centro espírita, e dois deles encarregaram-se de comparecer à casa de suas irmãs para fazer uma sessão durante a qual invocariam o espírito de Vicentina. Era o final da tarde de uma quinta-feira quando eles chegaram: Veridiana, uma mulher de meia-idade, antiga e respeitada médium do centro espírita, e Heitor, seu filho, um rapaz cuja mediunidade estava ainda em desenvolvimento. Foram recebidos no salão da casa principal, onde Régis e suas irmãs o aguardavam (João preferiu não participar, ficando no quarto de brinquedos com as crianças). Regiane, que já tinha retornado à escola, nem suspeitava do rebuliço que uma pequena mentira causara no coração do pai.

Fiorela serviu a todos xícaras de chá – não era aconselhável que comessem antes da sessão. Veridiana, observadora e calada, concentrava-se no que estava para acontecer, enquanto Régis e Heitor discutiam os detalhes do ritual, que aconteceria na casa da colina. Após o chá, juntaram algumas velas, e munidos de lanternas, subiram as escadas que levavam à casa. Rosa carregava consigo as chaves do chalé, sendo que ela já tinha varrido e espanado a sala principal antecipadamente para a ocasião, já que a casa não era limpa há anos, e Régis arrastara para o centro uma velha mesa de madeira e alguns caixotes que serviriam de bancos. Colocaram as velas sobre a mesa – único recurso de luz daquele cômodo.

Veridiana mandou que todos se sentassem em volta da mesa e dessem as mãos. Respirou profundamente algumas vezes, enquanto Heitor começava uma oração acompanhada pelos demais, de olhos fechados. Após a oração, permaneceram em silêncio por um tempo que pareceu a Fiorela, que não acreditava em nada daquilo mas era curiosa, uma eternidade. Rosa não sabia no que acreditar, mas dava a tudo o benefício da dúvida, enquanto Régis aguardava, ansioso. Veridiana pediu que  a sessão fosse assistida pelos bons espíritos, e que estes os protegessem dos espíritos zombeteiros e sem luz. 

Após algum tempo, como nada tivesse acontecido, Veridiana disse:

-Estamos aqui reunidos para pedir aos espíritos de luz que conduzam a nossa presença a boa alma de Vicentina Leme. Vicentina, você pode nos ouvir? Dê-nos um sinal de sua presença!

Após aguardar durante alguns minutos, ela repetiu:

-Vicentina Leme, você está entre nós? Por favor, se estiver presente nesta sala, dê-nos um sinal!

Foi quando todos sentiram um vento gelado soprando em suas costas. Alarmada, Fiorela abriu os olhos, mas Heitor pediu-lhe que permanecesse em silêncio e não soltasse as mãos, quebrando a corrente. Motivada, a médium continuou:

-Vicentina... posso sentir uma presença... quer se comunicar conosco?

Heitor começou a rezar novamente. Régis mal podia conter sua emoção, mas permaneceu calado. Após alguns segundos, a mesa estalou, assustando a todos. Fiorela e Rosa se entreolharam, mas permaneceram sentadas e em silêncio. A médium revirou os olhos, e o frio na sala tornou-se ainda mais forte. Veridiana inclinava a cabeça para a direita, e parecia estar ouvindo alguém que falava com ela. De vez em quando, balançava a cabeça. Régis olhava para ela, querendo saber o que ela estava escutando:

-É Vicentina? Ela está presente?

Heitor fez sinal para que ele se calasse. Finalmente, a temperatura da sala voltou ao normal, e Veridiana abriu os olhos, murmurando uma oração e dizendo a todos que a sessão terminara. Régis estava indócil:

-Mas... o que aconteceu? O que ela disse?

Veridiana encolheu os ombros:

-Ela não pode vir. Um espírito-guia veio em seu lugar. Veridiana ainda se encontra em estado de sono, pois seu períspirito precisa curar-se e restaurar-se. Isso pode levar muito tempo ainda. 

-Mas... Regiane a viu! Falou com ela! As duas brincaram de pegar... e Vicentina colocou uma flor em seu cabelo! Disse que voltaria!

A médium cruzou as mãos sobre o tampo da mesa, lamentando:

-Bem, talvez tenha sido por um momento apenas... ou então a menina imaginou toda a situação. Crianças tem a imaginação muito fértil! Ela pode ter visto o que desejava ver.

Quando os médiuns se retiraram, Fiorela serviu o jantar, convidando Régis para passar a noite no casarão. João juntou-se a eles, e as crianças já dormiam. Durante o jantar, Régis manteve-se calado e triste. Ao vê-lo tão angustiado, Rosa indagou:

-Irmão... por que você quer tanto falar com o espírito de Vicentina? Há alguma coisa que precisa dizer a ela? Porque se houver, você pode fazê-lo através de uma oração. 

Régis pousou os talheres na beirada do prato intocado:

-Fiz muitas besteiras na vida. Cometi muitos erros, Rosa... você é uma das pessoas a quem eu prejudiquei através do meu egoísmo e da minha irresponsabilidade.

Rosa não respondeu. No fundo, ela concordava com ele, mas não desejava magoá-lo ainda mais. Fiorela ergue as sobrancelhas:

-Ora, Régis, de nada adianta lamentar o passado! Você errou por irresponsabilidade e egoísmo, mas aprendeu a lição. Ficar preso ao passado não vai mudar nada, o que aconteceu está escrito no livro da vida e não poderá ser apagado. Mas você pode criar um futuro melhor. Você tem que fazer a coisa certa daqui para frente. Faça o melhor que puder! Deixe que os mortos enterrem seus mortos.

Régis olhou para a irmã. Ela era sempre tão prática e sincera! Às vezes, sua sinceridade exacerbada cortava a pele da alma. Perdoou-a do fundo de seu coração, pois sabia que ela tinha razão. Fiorela sempre fora a mais sensata entre eles, enquanto Rosa era toda emoção. João pigarreou, e pôs a mão sobre a mão da esposa:

-Minha amada, acho que você está sendo dura demais com seu irmão. Todos nós cometemos erros! 
-Não estou sendo dura, apenas digo a verdade. Se a verdade é dura, a culpa não é minha.
Rosa colocou o guardanapo sobre a mesa. Lembrou-se do quanto a irmã lhe dissera coisas que a magoaram em seu momento mais triste, quando seu ex-noivo cancelou o casamento. Apesar de saber que ela estava certa – precisava seguir em frente, esquecer Alfredo e cuidar da vida – Fiorela era sempre tão dura! Por sua causa, Regiane não estava ali com eles, partilhando daquela casa e daquela refeição. Ela recordou-se da ocasião em que pediu a ela que recebesse Regiane, e a resposta que teve fora:

-Ora, ela não é responsabilidade minha, ou sua! Você precisa parar de passar a mão na cabeça de 

Régis, ele tem que amadurecer e assumir os próprios atos. Regiane será bem tratada na escola. Terá a chance de receber uma boa educação e aprender boas maneiras. Além disso, a criança é muito rebelde, e conviver com as freiras em um ambiente onde haja disciplina será bom para ela. Eu já estou cansada! Já tenho duas crianças – uma a caminho -, esta casa, um marido, você, minha irmã. E se você tiver boa memória, lembrar-se há que você não se casou com Alfredo por causa de Régis, que envolveu-se com uma prostituta.

-Ela não era uma prostituta antes de conhecer nosso irmão, Fiorela!

-Mas era uma mulher fraca, e não tinha boa índole, ou não teria caído nas artimanhas dele! Mamãe sempre dizia: “Diga-me com quem andas, e te direi quem és!”

Aquelas memórias vieram à tona à mesa do jantar, naquela noite de quinta-feira. Após colocar o guardanapo sobre a mesa antes de terminar sua refeição – o que fez com que os outros olhassem para ela surpresos – Rosa disse, antes de erguer-se e deixar a mesa:

-Você é uma pessoa muito dura, irmã. Não conhece o significado da palavra tato.

Fiorela ficou boquiaberta. Fez menção de ir atrás da irmã, mas João a impediu, segurando-a pelo braço e fazendo com que permanecesse sentada:

-Deixe-a, Fiorela. Você já falou demais por uma noite.

Indignada, ela respondeu:

-E eu disse alguma mentira? Não sei o que significa a palavra ‘tato?’ E como ela pode ter coragem de dizer isso, depois que a acolhi em minha própria casa, sob o meu teto?

João mandou-a calar-se:

-Cale-se! Não quero que sua  irmã a ouça e se sinta ainda mais humilhada!

A expressão de Fiorela era de alguém que acabara de ouvir algo para o qual não estava preparada, uma verdade que desconhecia totalmente. Estarrecida, ela conseguiu balbuciar:

-Humilhada? Mas eu... eu nunca a humilhei...

João respirou fundo, acalmando-se e voltando a controlar o tom de voz:

-O tempo todo. O tempo todo, Fiorela. Você faz questão de deixar claro para Rosa que a casa é sua, que você é a senhora. Ela sabe disso, não há necessidade de lembrá-la o tempo todo. Rosa passou por momentos muito difíceis, e você poderia ser mais solidária com sua irmã. Além disso, ela a ajuda muito com a casa e as crianças.

Régis permanecia calado, e sem conseguir tocar na comida. Pediu licença e retirou-se da mesa. 

.    .    .    .    .    .    .    .
Naquele domingo, a maioria das crianças foi passar o final de semana em casa dos pais ou parentes. Somente ficaram na escola algumas das crianças órfãs, pois as outras foram escolhidas para acompanharem Irmã Dulce e Irmã Malvina a um passeio no Rio de Janeiro – e Regiane não ficou surpresa quando não foi uma das escolhidas. Apenas entristeceu-se porque suas amigas, Dora e Célia, foram escolhidas, o que significava que ela teria que ficar sozinha. Bem, pelo menos, suas três arqui-inimigas também tinham sido escolhidas, o que a deixava um pouco mais tranquila, já que as freiras que permaneceram na escola, olhando as poucas meninas, trancavam-se em seus dormitórios para ler e passavam horas lá dentro, sem se preocuparem com o que estava acontecendo do lado de fora. Apenas as meninas mais velhas ficavam olhando as menores, mas estas também tratavam de arranjar outras atividades, deixando as menores à mercê da sorte.

O pai e as tias também não poderiam visita-la naquele final de semana. Ele precisava trabalhar, pois Madame daria uma recepção, e as tias estariam ocupadas com convidados. 
No fundo, aquele arranjo não era tão ruim: Regiane lembrou-se de seu amigo que vivia no porão, e que poderia passar o sábado inteirinho em sua companhia, se desejasse. E foi o que ela fez. Ela agora já tinha sete anos de idade (nove para os demais), e sentia-se muito grande! Disseram que ela era uma mocinha, o que fez com que ela se sentisse ainda mais orgulhosa de si mesma. Sentia saudades do seu vestido novo e de seus sapatos de verniz, que ficaram em casa das tias. Lamentava não poder mostra-los a Ricardo. 

Regiane às vezes escutava as meninas mais velhas conversando sobre os meninos que conheciam fora da escola quando faziam passeios ou iam para casa nos finais de semana e nas férias, ou então sobre Padre Augusto, que lecionava História às meninas mais velhas. Elas comentavam o quanto ele era bonito, e que era um pecado que tivesse se tornado padre. Regiane não compreendia muito bem aquela parte, mas ria quando as meninas fingiam estar abraçando e beijando o ar quando se referiam a ele. Ela mesma já o tinha visto algumas vezes saindo de salas de aula, e ele sorrira para ela. Regiane o achou muito simpático e bonito, mas não conseguia entender o que as outras realmente enxergavam nele que ela não enxergava. Sua sexualidade ainda não tinha sido despertada.
Porém, quando ela pensava em Ricardo, seu coração batia mais forte, embora ela também não entendesse o porquê. Só sabia que gostava muito dele. Ele conversava com ela como se ela fosse uma pessoa importante, digna de ser ouvida, digna de ouvi-lo. Ajudava-a de boa vontade nas matérias que tinha dificuldades, sem demonstrar tédio ou impaciência. Lia para ela histórias fantásticas, de reinos encantados e terras que ela só poderia visitar em sua imaginação ou então em seus sonhos. Aquelas histórias ficavam, em sua cabeça quando ela ia dormir, e Regiane sonhava que estava com Ricardo passeando por aqueles reinos encantados. Ele era a pessoa que ela mais gostava no mundo, mais ainda do que seu pai e suas tias. 

Ela entrou no porão, sem a preocupação que tinha de não ser vista quando a escola estava cheia de freiras e alunas circulando o tempo todo. Levava seu caderno de matemática como desculpa para estar ali, mas na verdade, apenas queria conversar com seu amigo. Ela viu a luz sob a porta e ficou feliz que ele estivesse em casa – nem sempre ela o encontrava. Bateu e esperou. Ele disse lá de dentro:

-Entre, Regiane! A porta está destrancada. 

Ela entrou, abrindo a porta devagarinho e olhando para dentro antes de entrar:

-Como você sabia que era eu?

-Um amigo conhece a respiração de outro amigo. Mas venha sentar-se! Trouxe seu caderno de matemática outra vez?

Ela balançou a cabeça, concordando.

-Mas nós tivemos uma aula de matemática ainda ontem!

Regiane, que era sempre sincera, respondeu:

-Mas eu queria ver você.

Ricardo sorriu:

-Não precisa de desculpas. Venha sempre que quiser.

E eles passaram a tarde de sábado debruçados sobre livros de histórias coloridos à mão por Ricardo. Tão bem coloridos que pareciam ter sido pintados por um artista! Ele ensinou-a a desenhar e pintar algumas coisas, e Regiane adorou saber que tinha jeito para desenhar. Nunca tinha dado importância àquilo antes, pois nunca mostrava seus desenhos a ninguém. Os adultos que a cercavam não os valorizavam. Ricardo elogiou seus trabalhos, dizendo que ela poderia tornar-se uma grande artista. 

Ela encolheu os ombros, tímida. Ele perguntou:

-Não acredita em mim, Regiane?

-Acho que sim, não sei... mas é que ainda não sei o que eu vou querer ser quando crescer. Meu pai diz que eu devo aprender a costurar e cozinhar, limpar a casa e ser uma boa mãe, pois as mulheres devem sempre casar-se. Mas eu acho que eu não vou querer me casar! A não ser...

Ela ficou bem vermelha de repente, deixando a frase suspensa no ar. Ricardo olhou para ela, divertido:

-A não ser o quê?

Ela olhou para o livro, para disfarçar seu constrangimento. Ia dizer: “A não ser que você se case comigo!” Mas não soube explicar por que não achou que fosse uma boa ideia dizer aquilo. Ao invés disso, ela só disse:

-Deixa pra lá. Eu acho que não vou me casar, e pronto. E não quero ter bebês. Bebês são um problema.

Ricardo notou que ela estava repetindo algo que ouvira.

-Por que você acha que bebês são um problema, Regiane?

-Porque eu sou um problema, desde que eu era bebê. Por minha causa, mamãe morreu e papai está infeliz, e minha tia não se casou. 

Ricardo tentou não dramatizar o que ela dissera, procurando tornar sua fala o mais leve possível.

-Ora, bebês não são problemas nunca! O problema são os adultos, que não tem responsabilidade e não cuidam deles como deveriam! Você não é problema para ninguém, querida, e se alguém disser que você é, está errado e não enxerga um palmo diante do nariz. Fui claro? 

Dizendo aquilo, ele fez uma carícia na ponta do nariz dela, o que a fez sorrir. 

(continua...)





3 comentários:

  1. Ela ficou bem vermelha de repente, deixando a frase suspensa no ar. Ricardo olhou para ela

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  2. Assim vamos criando nossas armaduras, à medida que vão nos rotulando ou culpando!
    Ana, aguardando o próximo!
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  3. Engraçado, logo no começo "as pessoas veem o que querem ver" como que uma confirmação do que já havia me inquietado no anterior.

    Ricardo tem tato e sabe muito bem como direcionar a conversa, adorando isso.

    Um beijo...

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