terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO IV








O ANJO NO PORÃO
CAPÍTULO IV



Deitada em sua humilde cama, Vicentina pensava na vida que tivera, e não na que ainda lhe restava – ela instintivamente sabia que não tinha muito tempo, e desejava deixar de viver, e quando pensava no futuro que não teria, sentia alívio. Sua amargura teria fim, e assim como suas preocupações com o destino dos filhos (principalmente, com o destino de Regiane), já que ela não  via esperanças de uma vida melhor. Nenhum homem se casaria com ela, e se continuasse vivendo, estaria condenada a levar aquela vida difícil como prostituta, a ser apontada nas ruas pelas mulheres dos muitos homens que a usavam, enquanto estas trocavam de calçada quando ela passasse, e também a ver seus filhos crescerem longe dela. Para Regiane, o passado da mãe poderia condená-la ao mesmo destino, pois as pessoas eram cruéis e preconceituosas. 

O fato de haver sido expulsa de casa pelo pai, com quem nunca tivera muita afinidade, não a magoava; porém, saber que o irmão, mesmo ciente de sua doença, não a procurara, fez com que o restinho de esperança que ainda tinha em pedir-lhe que cuidasse de Regiane quando esta faltasse, morresse. Por isso mesmo, enquanto ainda lhe restavam as forças necessárias, deixara a menina aos cuidados das cunhadas – que também ignoravam sua existência e nunca a visitavam, apesar de mandarem dinheiro para as provisões básicas. Mas Vicentina não sabia que, movida por pura piedade e um sentimento de solidariedade (pois sabia o que significava a dor de um coração partido), Rosa mandara avisar ao irmão sobre a doença dela. 

E transido de dor e de culpa por ter condenado a jovem a viver aquela vida de horrores ao abandoná-la duas vezes, Régis imediatamente pediu licença do trabalho e foi ficar ao lado dela. Mandou chamar um dos melhores médicos de Petrópolis para vê-la; fizeram todos os exames, pagos por ele, que passava as noites e os dias ao lado de seu leito, ministrando os medicamentos assiduamente – mesmo após o doutor ter-lhe dito que era tarde demais, pois a doença tomara conta dos ossos e órgãos internos, e já se apresentava sobre a pele em formas de pústulas e manchas. Sem contar que Vicentina costumava cuspir os comprimidos quando Régis dava-lhe as costas.

Ao ver Régis novamente, tão preocupado e solícito, fazendo-lhe mil promessas de uma vida nova e feliz assim que ela se curasse, Vicentina compreendeu que estava mesmo morrendo, pois sabia que se não fosse esse o caso, Régis não desejaria tanto que ela acreditasse nele mais uma vez. Apesar de ainda sentir por ele, estranhamente, o mesmo amor de antes, e de ser capaz de perdoá-lo por tudo o que a fizera  passar, Vicentina sabia que não podia acreditar nele; não o via como um homem ruim, mas como um homem fraco e covarde, incapaz de agir de outra forma.

Todas as tardes após o almoço – algumas colheradas de canja de galinha que ela vomitava logo em seguida – Régis atendia o pedido que Vicentina lhe fazia de abrir as grandes janelas do quarto, que davam para a copa de uma magnólia onde inúmeros pássaros cantavam, voejando de galho em galho. Ele se sentava ao lado dela na cama, ajeitando os travesseiros para que ela se acomodasse melhor, e ambos ficavam desfrutando da companhia um do outro (Régis descobrira que a amava de verdade, afinal) e faziam planos para o futuro de Regiane. Ela estudaria em boas escolas, e se casaria com um homem de bem. Vicentina fazia Régis prometer todos os dias que cuidaria da filha e que jamais a abandonaria. Ela pedia-lhe que reafirmasse a sua promessa de registrá-la como sua filha legítima e dar-lhe um nome respeitável. Às vezes, ele perguntava a ela sobre os outros dois filhos que Vicentina tivera, Antônio e Pedro. Ela dizia que não se preocupasse com eles, pois os meninos estavam bem e frequentemente tinha notícias deles. Viviam em uma fazenda no interior de São Paulo, eram amados e cuidados e estavam bem longe do destino cruel que o passado da mãe poderia impor-lhes, caso vivessem em Petrópolis. Régis perguntava-lhe quem eram os pais dos meninos, e ela garantia que não sabia. Eram filhos da própria vida, que nasceram através dela e do sêmen de seus pais, que ela ignorava quem fossem. Assegurava-lhe que os meninos estavam bem, cresciam fortes e saudáveis, livres de estigmas. Da mesma forma, ela perguntava a ele sobre o seu filho em São Paulo, e sobre a mãe do menino. Ele apenas dizia que o nome dela era Hanna, e que era descendente de alemães refugiada no Brasil. Falava sobre uma noite solitária em que dormiram juntos e a gravidez aconteceu, e que atualmente mãe e filho viviam com os pais dela. Dizia que não a via mais.

Na verdade, Hanna conseguira, através dele, um emprego na mesma casa onde Régis trabalhava em Niterói, e viviam maritalmente em um dos muitos quartos da mansão sob a permissão de Madame, que mimava a criança como se fosse seu próprio filho. Enquanto os pais trabalhavam na mansão, a criança ia com ela a passeios de carro, durante os quais Madame o mimava, comprando-lhe brinquedos, sorvetes  e roupinhas. À noite, entregava Paulinho - o filho de Hanna e Régis - aos pais. 

Hanna era uma mulher belíssima: loira, de olhos muito azuis, alta e esbelta, com postura refinada e altiva. Mostrava logo que vinha de boa família, e Madame gostava de tê-la por perto no comando dos outros empregados, principalmente quando dava seus jantares formais. Através dela, Régis aprendera a portar-se com mais altivez, camuflando seus trejeitos de cafajeste mulherengo (antes, tinha mania de flertar com as convidadas de Madame, que por causa de seus olhos azuis e belo rosto, às vezes correspondiam aos seus flertes), aprendendo a servir uma mesa como se deve. Através de Hanna, Régis refinou seus modos e passou a ser mais discreto. Logo, Hanna foi promovida à governança da mansão e passou a ocupar, junto com Régis e Paulinho, um quarto fora da ala dos empregados. Madame tinha muito apreço pelo casal e principalmente, pelo lindo menininho ilegítimo gerado por eles, fruto daquele amor clandestino.

Muitas vezes, enquanto Vicentina dormia, Régis olhava para as paredes desbotadas e para o tapete gasto do quarto; demorava-se sobre os lençóis remendados que cobriam Vicentina, abria o armário onde ela pendurava seus dois únicos vestidos e o casaco. Ia até a cozinha, onde ela mantinha as poucas louças lavadas sobre um escorredor na pia pequena e quebrada. Depois, voltava ao quarto e olhava o pobre rosto magro, tenso e manchado pelas marcas das feridas, e para o peito que subia e descia arduamente na dificuldade de cada respiração; lembrava-se da beleza e da juventude fresca que o atraíra na primeira vez que pusera os olhos nela, a bela e inocente menina que ele corrompera. Chegava à janela do pequeno quarto no sobrado e olhava as ruas, os transeuntes que iam e vinham, as damas despreocupadas em seus chapéus enfeitados e terninhos, algumas delas sendo conduzidas pelo braço de seus maridos, outras levando pelas mãos os filhos pequenos. Pensava que tinha sido aquela vida que ele roubara de Vicentina. Pensava também que aquela mulher que ali jazia não tinha mais que vinte e cinco anos de idade, e já deixava a vida.

Chorava lágrimas amargas, por ela e por sua própria alma condenada, e pensava no que poderia fazer para redimir-se. 
Passou a frequentar um centro espírita no centro da cidade, próximo ao local do apartamento de Vicentina. Ali aprendeu sobre a Doutrina Espírita, a vida após a morte, o amor, a caridade e o perdão – palavras que antes não faziam parte de sua vida desregrada. Enquanto ela dormia durante as horas de ausência que se tornavam cada vez mais longas, ele frequentava as reuniões e tentava entender melhor a vida, procurando por algo que fizesse com que as coisas tivessem mais sentido. Queria recomeçar sua vida e seguir por caminhos mais corretos. Parou de alimentar-se de carne. Diminuiu a quantidade de vinho que tomava todas as noites desde que se lembrava de si. Deixou de procurar as mulheres da vida e limitou-se a relacionar-se sexualmente apenas com Hanna. 

Olhava-se no espelho e via os primeiros sinais de calvície começando a avançar por sua testa, e as primeiras rugas que a natureza desenhava ao redor de seus olhos. Estava com trinta e dois anos. Era um belo homem, disso tinha a mais absoluta certeza. Porém, ao olhar-se no espelho, não podia deixar de lembrar-se do um romance que lera, escrito por um tal Oscar Wilde: O Retrato de Dorian Gray. Na história do livro, um belo jovem praticava suas maldades mas permanecia sempre jovem e belo, enquanto uma pintura de seu rosto feita por um amigo tornava-se cada vez mais terrível. Sua beleza exterior não poderia esconder a feiura de sua alma por muito mais tempo, e então, assegurava-se de que precisava mudar de vida. 

Passou a ver na filha uma boa razão para isso, um incentivo. Visitava a menina frequentemente, e quando ela colocava os bracinhos em volta de seu pescoço, a vida fazia sentido. As irmãs, Rosa e Fiorela, observavam a cena e se entreolhavam, ainda duvidosas das promessas de mudança do irmão. João, o marido de Fiorela, gostava sinceramente do cunhado, e os dois passavam muito tempo conversando, suas vozes ecoando pelas paredes altíssimas do grande salão do casarão. 
Régis comprou um terço de contas negras, de onde pendia um grande crucifixo, e sempre que sabia de alguma doença, passava a rezar pelo enfermo enquanto fazia o sinal da cruz com o crucifixo sobre a pessoa. Passou muitas tardes debruçado sobre o corpo de Vicentina, sinceramente acreditando que poderia curá-la com a força de seu pensamento. Passou a colecionar muitos livros sobre ocultismo, que devorava nas noites em que a respiração pesada de Vicentina o impedia de cair no sono. 
Voltou a trabalhar na mansão em Niterói, mas deixou Vicentina aos cuidados de uma senhora viúva, chamada Celeste, que tinha sido enfermeira. Visitava Vicentina e a filha, que já estava com seis anos de idade, religiosamente nos finais de semana, mas algumas vezes, Vicentina não o reconhecia. Piorava cada vez  mais rapidamente, pois Celeste era uma enfermeira um tanto relapsa: não tinha paciência de ministrar-lhe as refeições às colheradas como Régis fazia, e quando a doente recusava-se a comer, não insistia. Às vezes esquecia-se de dar-lhe os medicamentos nas horas certas, entretida que estava em um dos livros que Régis deixara na casa, e também limitara os banhos a apenas uma vez por semana, o que fez com que as feridas do corpo da paciente infeccionassem. Vicentina encaminhava-se cada vez mais rapidamente ao seu destino final.

Rosa e Fiorela discutiam se não seria humano deixar que a mãe visse a filha mais uma vez antes de partir na longa viagem. João concordou que seria a coisa certa a se fazer. Assim, numa tarde de domingo, Rosa vestiu e penteou a menina, prendendo um laço de fita azul em seus cabelos, e dizendo-lhe:

-Hoje vou levar você para rever a mamãe. 

Regiane, ao ouvir aquele nome, sentiu que uma imagem já quase esquecida do passado voltava de repente à sua mente, com todas as suas cores e dimensões. Ouviu a voz da bela e jovem mulher que lhe falava sempre com doçura. Vieram-lhe lembranças de uma outra casa bem grande, onde à noite, na escuridão de um quarto, em sua cama ao lado de uma mulher negra e enorme, ela escutava as gargalhadas histéricas de mulheres entrecortando a música alta. Lembrou-se do dia em que a mulher a levara embora, deixando-a naquela casa e dizendo: “Você agora vai morar com suas titias.” Lembrou-se também do terror que sentia, quando acordava no meio da noite e não reconhecia o lugar onde estava, e das vezes em que começava a chamar inutilmente por aquele nome que agora lhe era tão distante: “Mãe.”  Agora, disseram-lhe que ela ia rever a mãe. Não sabia se deveria ficar alegre ou triste. Não sabia mais quem era a sua mãe. Acostumara-se a viver longe dela, e nem se incomodava mais. 

Rosa foi caminhando com ela pelas calçadas quadriculadas de Petrópolis. Ao passarem pela Padaria Alemã, Regiane puxou-a pelo braço, e pediu: “Quero um sonho!”  Alguma coisa mais forte a levara a fazer aquilo. A tia pagou-lhe o doce, e enquanto ela comia, vieram-lhe imagens esfumaçadas dela mesma em um carrinho de bebê, e do casal diante dela: seu pai e uma linda jovem (seria sua mãe?) que comiam aquele mesmo doce, enquanto ela esperava por eles no carrinho, a luz do sol matinal brincando de fazer sombras com as folhas das árvores, que se mexiam sobre seu cobertor e que ela tentava pegar. 

Rosa pegou um lenço branco dentro da bolsa, umedecendo-o em água de colônia e limpando as mãos meladas da menina, continuando a caminhada até o apartamento de Vicentina. Chegando lá, precisou bater três vezes antes que Celeste viesse para abrir-lhes a porta, esbaforida como se tivesse sido pega de surpresa. Assim que entraram, Rosa torceu o nariz ao cheiro acre de urina e lençóis sujos. Constatou que Vicentina não estava sendo bem cuidada. Pediu que Regiane esperasse na varanda do sobrado, e entrando na casa, ralhou com Celeste, que desculpou-se: 

-A senhora não avisou que viria...

Rosa respondeu-lhe, furiosa:

-Você é paga para que cuide dela durante o tempo todo, e não apenas quando alguém vem visita-la! Sua incompetente! 

Arregaçou as mangas e escancarou as janelas, enquanto ajudava Celeste a varrer o apartamento e dava ordens para que ela banhasse Vicentina, trocasse suas roupas e lençóis. Foi até a cozinha e deparou com a pia cheia de louças sujas e baratas andando sobre elas, e tratou de ir lavando as louças, espantando as baratas e arrumando tudo como podia. Recolheu as roupas sujas e juntou-as em um balde com água e sabão, deixando-as de molho e dando ordens para que Celeste as enxaguasse e pusesse para secar dali a duas horas. Preparou uma sopa de legumes e levou o prato até Vicentina, que mal abria os olhos, mas que teve um lampejo de lucidez e a reconheceu. Rosa já quase se esquecera da menina esperando por ela na varanda, quando Vicentina perguntou pela filha. Rosa correu até a varanda, onde encontrou a menina entretida com o movimento da rua. Estava daquele jeito há mais de uma hora, e Rosa achou que poderia deixa-la esperando mais alguns minutos, enquanto Vicentina terminava sua sopa. 

 Enquanto Rosa servia a sopa às colheradas, Celeste trabalhava com afinco a fim de limpar o apartamento, usando o desinfetante que Régis trouxera na última visita. Finalmente, Vicentina afastou a colher com a mão, virando o rosto, e Rosa entendeu que ela não queria mais comer. Comera apenas umas cinco colheradas. Vicentina passou por Celeste, dirigindo-lhe seu olhar mais furioso, e deixou o prato sobre a pia, indo buscar a menina. 

Regiane deixou-se ser levada pela mão, até que a tia colocou-a diante do leito da mãe, dizendo:

-Regiane, esta é a mamãe. Diga olá para ela. 

Regiane olhou para aquele rosto macilento e feio, os cabelos ralos que deixavam ver o couro cabeludo, a pele coberta de feridas, e teve que tentar conter sua repulsa, por pura educação. Mesmo assim, após a primeira impressão, conseguiu ver na mulher os traços da sua mãe, da sua antiga mãe, e pode dizer-lhe um “Olá”. Vicentina olhou a filha, cujo olhar debruçava-se sobre ela com indiferença, e sentiu vergonha por sua aparência. Pediu que Rosa a levasse embora, e nunca mais a trouxesse.

Regiane só saberia da mãe novamente cinco dias depois, quando ouviu partes de uma conversa entre os adultos da casa comentando sobre sua morte:

-A pobre descansou...

-Foi melhor assim... a menina...

-Não, acho melhor não... ela ainda é muito pequena...

- O funeral foi de caixão fechado...

-Nem o pai compareceu...

-Régis está muito abalado...


(continua...)

4 comentários:

  1. Ao som de River flows in You, estou lendo e chorando. Pobre Regiane. Pobre Vicentina. Ansiosa!

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  2. Que emocionante seu conto... também fui às lágrimas Ana.Bom ler suas pérolas querida!
    Bjs!

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  3. É muito emocionante, é como a vida, nua e crua!
    Chorei, Ana!
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  4. Ah que triste...
    Enquanto uns precisam ver a dor para se sensibilizarem, outros nem assim... As relações humanas, tão falhas...
    Lindo Ana, triste e lindo!

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