sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO V








O ANJO NO PORTÃO 
CAPÌTULO V




-Régis, você vai ter que levar a menina embora. Fizemos de tudo que foi possível, mas ela vive fugindo de casa! Imagine, nós a encontramos após duas horas de procura, sentada à mesa de um restaurante tomando um prato de sopa! O garçom nos olhou como se fôssemos um casal de irresponsáveis e disse que já estava para chamar a polícia. Estou grávida novamente, não posso tomar conta dela... Rosa mal pode tomar conta de si mesma, só vive trancada...

-Mas Fiorela, onde poderei deixa-la? Não posso leva-la para casa de Madame... e ainda tem Hanna, ela não entenderia!

-Isto é problema seu. Você sabe o quanto gostamos de Regiane, mas ela é responsabilidade sua, meu irmão. Não nossa! Tenho um bebê pequeno, e estou grávida de meu próximo filho... não posso ficar me preocupando com ela! Vai mal na escola, foge de casa e fica andando pela rua. É perigoso! É responsabilidade demais! Ela já tem seis anos, e é madura demais para a idade... tenho medo do que possa acontecer a ela em uma de suas fugas. Regiane é uma menina muito rebelde. Você é o pai dela, e terá que assumir a responsabilidade.

-Acredito que este problema se deva ao fato de Regiane ter perdido a mãe tão cedo...

-Pode ser... mas eu acredito que faça parte da personalidade dela. Mas seja qual for o motivo, precisa ser controlado. E eu não tenho tempo, paciência ou até mesmo condições físicas. 

Uma semana após esta conversa,. Régis levou a filha para tomar um sorvete. Enquanto a menina saboreava sua taça de sorvete de morango com calda de chocolate, ele a observava e via nela traços cada vez mais fortes da falecida mãe. Após a morte da mãe de sua filha, Régis mudara; tornara-se mais responsável, maduro e religioso. Esqueceu os velhos companheiros de farra, as longas caçadas regadas à uísque, os bordéis e as muitas mulheres. Vivia para Hanna e os filhos. Gostaria que Regiane conhecesse o irmão, mas Hanna não admitia que a filha de uma prostituta pudesse corromper a alma pura de seu filho. Não desejava aquela sombra em suas vidas. 
Régis esperou que a menina terminasse seu sorvete, e após limpar o cantinho de sua boca com um guardanapo de papel, anunciou, tentando fazer parecer à filha que estava dando a ela a melhor das notícias:

-Regiane, preciso contar-lhe uma novidade: você vai se mudar para outra casa!

Regiane olhou para o pai, e ele notou a tensão nos olhos dela. A criança estava alarmada.

-Mas... eu gosto de morar no casarão com a tia Rosa, a tia Fiorela, o tio João e a priminha!

-Mas filha, você vai para um lugar bem melhor! Sabe a moça que tomou conta da mamãe? Ela agora tem uma porção de crianças aos cuidados dela, e vai cuidar de você também. Você vai ter amiguinhos da sua idade para brincar com você.

Regiane, que era de poucos amigos, ensaiou uma pirraça:

-Mas eu não quero! Prefiro morar no casarão. Lá eu tenho um quarto só meu, e posso brincar com os gatos da Tia Rosa!

Régis suspirou:

-Não, você não entendeu: lá também tem gatos, e um cachorro. Você não queria ter um cachorro?
Ela concordou com a cabeça.

-Então, filha! E a escola é bem mais perto de sua nova casa, não será necessário acordar tão cedo.
E dali a dois dias, Régis levava a menina pela mão, e uma maleta com seus vestidos e demais roupinhas. Regiane olhou para trás, e acenou para suas tias, que estavam à porta de casa e lhe acenaram de volta. Na sua inocência, estava quase feliz.

Chegaram a uma casa branca e simples, de quintal de terra, onde dois meninos maiores que ela brincavam, mas pararam de brincar assim que os viram. Um deles correu para dentro de casa e chamou Celeste, que veio atende-los limpando as mãos em um avental. Imediatamente, Regiane lembrou-se dela na casa da mãe, naquele dia em que Tia Rosa a levara até lá, e no quanto Tia Rosa gritou com ela, chamando-a de nomes cujo significado ela ignorava. Não gostou dela logo de primeira, e teve a impressão – apesar do sorriso de Celeste – que também não era apreciada. Agarrou-se à perna do pai quando Celeste aproximou-se, pegando a mala de Regiane. Ele fez as apresentações:

-Regiane, esta é Celeste, ela vai tomar conta de você. Aqueles são os netos dela, Romualdo e Rômulo. 

Celeste passou a mão pesada sobre a cabeça da menina, desmanchando o seu laço azul:
-Não se preocupe, Régis. Vamos nos dar muito bem. Não é, Regiane?

A menina, arrumando os cabelos que a outra lhe despenteara, não respondeu. Olhando em volta, não viu sinal dos cães e gatos dos quais o pai lhe falara, e nem das muitas crianças que iriam brincar com ela - e ela tinha certeza de que Rômulo e Romualdo não pareciam nada amigáveis. Olhou para o pai:

-Não quero ficar aqui.

Ele insistiu:

-Por favor, filha, não crie problemas. Celeste é boa, será como uma mãe para você. Virei vê-la sempre que puder, e nada lhe faltará. Tia Rosa prometeu que a levará para os finais de semana sempre que possível. Seja uma boa menina.

Dizendo aquilo, ele colocou-se de joelhos para ficar da altura dela, e abraçou-a forte. Ela não queria larga-lo, e choramingou:

-Eu não quero ficar aqui, papai... eu não gosto dela (apontou para Celeste, que devolveu-lhe um olhar gelado). Essa casa é feia.

-Não diga isso, filha! É falta de educação.

Ela começou a chorar, e Régis, de coração partido, achou que seria melhor despedir-se de vez, como Celeste aconselhara:

-Vá agora, Régis, ou a menina não vai parar de chorar nunca. É questão de costume, você vai ver. Fique tranquilo, vou cuidar tão bem dela quanto cuidei da mãe.

Ele gelou ao ouvir aquelas palavras, mas não tinha outra alternativa senão deixa-la com Celeste. Já na calçada, ainda podia ouvir os gritos e soluços da filha. Apertou o passo, virando a esquina.
Celeste pegou Regiane pela mão, levando-a com ela para dentro da casa, seguidas pelos dois garotos, Romualdo e Rômulo, que iam zombando das lágrimas dela. Abriu lima porta que dava para um cômodo escuro e feio, com paredes mofadas e uma pequena janela que dava para o telhado de um galinheiro, e foi logo dizendo:

-Bem, se quiser ser feliz nesta casa, siga as regras. E elas são: faça tudo o que eu mandar sem ranhetar!

Dizendo aquilo, abriu a mala da menina e começou a vasculhar as roupinhas, separando os melhores vestidos em uma pilha sobre a cama, e dizendo:

-Estes estão bons demais para ficar aqui em casa. Vou mandá-los às minhas netinhas de presente. Para correr no quintal, você não precisa de vestidos rendados e cheios de laçarotes. Basta usar estes, mais simples.

Regiane ia protestar, mas Celeste calou-a com um grito que a fez estremecer:

-NEM UMA PALAVRA! Você precisa entender quem é que manda aqui. (Os meninos davam gargalhadas, enquanto lágrimas quentes desciam do rosto de Regiane). A menina abraçou sua única boneca, como se a estivesse protegendo das garras de Celeste. Após separar as roupas, Celeste saiu, batendo a porta do quarto que trancou por fora, dizendo:

-Eu a chamarei na hora do jantar. Enquanto isso, nem um pio!

Ainda era de manhã, e Regiane ficou sentada naquela cama que cheirava a colchão de crina mofado, abraçada à sua boneca, com medo até de respirar muito alto. As sombras da noite começaram a entrar pela janela, e ela sentiu frio. Também tinha fome e sede. Escutava Celeste chamando os meninos para o almoço, e mais tarde, para o lanche, o barulho das xícaras, talheres e copos aumentando seu apetite. Mas ninguém a convidava para comer. Somente às seis horas da tarde teve permissão para sair do quarto e sentar-se à mesa com eles. Celeste deu-lhe um pedaço de pão e serviu-lhe uma concha de sopa, que ela devorou. Depois, tomou um copo de leite que já começava a azedar, e que causou-lhe uma disenteria que a fez sujar os lençóis, pois a porta estava trancada por fora e ela não tinha acesso ao banheiro. Na manhã seguinte, Celeste bateu nela por conta do acidente noturno, fazendo com que ela ficasse nua no quintal a manhã toda, enquanto suas roupas secavam. Os meninos riam dela, e atiravam-lhe pequenas pedrinhas de barro que a deixavam ainda mais suja. Ainda sentia cólicas, e escondeu-se em um matagal por trás da casa para aliviar seu intestino. Não tinha com o que limpar-se. Sentia-se suja, com frio, com fome e ao mesmo tempo, enjoada. Vomitou duas vezes, e ficou muito pálida. 

Celeste agarrou-a pelos cabelos, dando-lhe um banho de bacia na cozinha. Depois, deu-lhe roupas velhas de menino para ela vestir, e serviu-lhe um copo de água com a mesma sopa do dia anterior. Quando Regiane foi para o seu quarto, logo procurou por sua boneca, que deixara sobre a cama, mas não a encontrou. Pensou em perguntar a Celeste se a tinha visto, mas ficou com medo, e saiu para o quintal a procura dela. Encontrou-a – ou melhor, encontrou seus restos carbonizados – ardendo em uma fogueira. Não conseguiu conter seu grito de horror e ódio, enquanto os meninos riam dela às gargalhadas. Avançou sobre Rômulo, o menor deles, derrubando-o no chão e socando-o como podia, até que sentiu as mãos do menino maior puxando-a de cima do irmão, cujo nariz sangrava, e deitando-a no chão, ele subiu sobre ela, enchendo seu rosto de tapas. Regiane gritava e chutava, mas ninguém vinha acudi-la. De repente, ela olhou para o lado e viu as chinelas de Celeste, que se aproximava, levantando poeira do chão de terra.

Os meninos correram quando a viram, deixando Regiane caída no chão, o rosto vermelho pelos tapas e as roupas e cabelos sujos de terra. Ela não teve tempo de se levantar, e Celeste mais uma vez agarrou-a pelos cabelos, levou-a para a cozinha, deu-lhe um banho de água fria, e a fez vestir as mesmas roupas, que sacudira à janela, mas estavam sujas de terra. Seus gestos eram brutos, e machucavam a menina, que não se atrevia a reclamar. Estava tão apavorada, que parara de chorar.
À noite, no escuro do quarto, ela respirou fundo e sentiu o cheiro do galinheiro entrando pela janela. Sombras dançavam nas paredes. Ela sentia-se muito sozinha, e chorou por si mesma. 
Celeste advertiu-a sobre não contar nada a Régis ou a ninguém sobre o que se passava na casa, ou ela a afogaria no tanque dos patos. Apavorada, a menina ficava em silêncio. Quando o pai a visitava, Celeste banhava-a, desembaraçava seus os cabelos, e vestia nela um dos vestidos bonitos. O pai achava estranha a atitude calada da filha, mas se perguntava se ela estava sendo bem tratada, Regiane deparava com os olhos de Celeste fixos nela, e engolindo em seco, concordava com a cabeça. 
Seu martírio durou cerca de dois meses e meio, até que Régis percebeu que a menina esfregava repetidamente um local sobre as costelas. Ergueu seu vestido, e deparou com uma mancha azulada, que cobria parte da lateral de seu corpo. Apavorado, foi ter com Celeste, que explicou que a menina caíra do balanço. Perguntou à filha se aquilo era verdade, e ela concordou com a cabeça. Mas Régis fingiu despedir-se da filha e de Celeste e foi ter com uma vizinha, que contou a ele que Regiane era frequentemente surrada, que Celeste não a levava à escola todos os dias e que os dois meninos praticavam com ela todo tipo de tortura, inclusive eles a amarravam em uma árvore e a fustigavam com um bastão, dizendo que ela era uma índia, e portanto, de raça inferior a dos homens brancos.
Enfurecido, Régis voltou à casa de Celeste. Silenciosamente, aproximou-se da janela e escutou o seguinte monólogo:

-Você está aqui porque eu a recebi, sou uma mulher caridosa, pois ninguém mais quis você porque sua mãe era uma puta. Você sabe o que é isso? Significa uma mulher da vida, perdida, vagabunda que se deita com muitos homens em uma só noite e faz muitas coisas feias com eles. Nem mesmo suas tias querem ficar com você. Acha mesmo que elas se importam? Nem vieram visita-la! Seu pai a abandonou, e o que acontece com você não é da conta de ninguém. Você é uma enjeitada! Merece apanhar, isso sim!

Régis entrou na casa dando um chute na porta. Pegou amenina no colo para leva-la embora, mas antes de sair, quebrou todos os móveis da casa. Celeste gritava, chamando-o de louco e dizendo que ia chamar a polícia. 

Enquanto isso, os dois meninos correram, escondendo-se no matagal. Quando ele acabou de quebrar tudo o que queria, parou diante de Celeste, que imediatamente parou de vociferar contra ele, aquietando-se de medo. Os dois se encararam por um longo tempo, no qual Celeste sentiu-se apavorada pelo que poderia acontecer em seguida. Então, Régis deu meia volta e saiu da casa, levando a filha, que chorava. 


(CONTINUA...)





3 comentários:

  1. Cruzes... que mulher nojenta essa Celeste, não merece o nome que tem. rs
    Tadinha da menina, espero que logo ela possa ser feliz.
    Estou amando a história.
    Aguardando a continuação!!!

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  2. Ana, sua história me faz lembrar de coisas parecidas que vivenciei aos 5 e depois aos 8 anos, enquanto aguardava vaga para o colégio interno.
    Espero, sinceramente, que a Regiane consiga se superar.
    Tenha um excelente fim de semana!
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  3. Nossa, arrepiada.
    Tão triste saber que isso acontece mesmo. Espero que as marcas não fiquem na alma, que ela possa perdoar seu passado e ser feliz.
    Tão intenso Ana...

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