quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO IX








O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO IX



Na manhã seguinte, após as aulas, Regiane foi até o porão a fim de saborear seus doces. Mal abriu a porta, deparou com suas três inimigas – Alice e as irmãs Bia e Dora -  sentadas no chão do porão, calmamente dividindo entre elas tudo o que lhe pertencia. Regiane tapou a boca com a mão, para conter um grito de indignação:

-Vocês não podem fazer isso! Esses doces são meus, meu pai me deu!

Dora ergueu os olhos, dizendo:

-Ele tem bom gosto, pirralha. 

As outras duas riram, e Alice falou:

-Olhe, dê-se por sortuda por não termos dedurado você à madre Superiora. Você infringiu duas regras: entrou no porão e escondeu comida!

Bia arrematou:

-E você vai reclamar com quem, me diga! Você está errada, e quem anda errado, Deus castiga. 

Considere isso como uma espécie de castigo divino.

Regiane sentiu o choro apertando sua garganta. Tinha esperado por aquele momento durante toda a aula: o momento de saborear seus doces preferidos. Guardaria um pedaço deles apenas para suas melhores amigas, Célia e Dóris, mas agora tinha perdido tudo para as três meninas mais malvadas da escola. Será que elas tinham razão, e Deus a estava punindo por seu pecado mais uma vez? Tirara-lhe a mãe, as tias, os vestidos e sua boneca preferida. Deus deveria ser alguém muito malvado, ou então alguém que não gostava nada dela!

Dora chamou-a:

-Não pense que somos cruéis. Guardamos um pouquinho para você. Venha buscar!

As três se levantaram, erguendo a caixa para que Regiane a pegasse. A menina permaneceu à porta do porão, até que Bia chamou-a:

-Venha, Regiane. Não tenha medo! Venha buscar seus doces, ainda tem bastante.

Regiane hesitou; deveria confiar nelas? Deu um passo em direção a caixa, e para dentro do porão, quando uma delas agarrou seu braço e puxou-a totalmente para dentro. As outras duas riam, enquanto a caixa vazia caía no chão. Seguraram-na contra a parede. Regiane tentou soltar-se, mas além de ser bem menor, era mais fraca. Alice sacudiu uma grande chave de ferro na frente dela antes que as três saíssem rindo do porão e deixassem Regiane sozinha, trancada no escuro.

Regiane socou a porta, mas aquele pedaço do pátio era deserto; quase ninguém ia lá. Estava apavorada. Escutava os passos das três meninas do lado de fora, se afastando cada vez mais. Gritou para que alguém a tirasse dali, mas não foi ouvida. Seus soluços ecoavam nas paredes de pedra do porão e o som voltava para ela, como se houvesse um acordo tácito para que qualquer coisa que acontecesse naquele porão permanecesse ali. 

Regiane aquietou-se, mas mesmo tentando permanecer calma, podia ouvir as batidas do próprio coração. Os nós dos dedos estavam ardendo. Ela olhou para trás, e só viu a escuridão. Sentiu o cheiro de mofo que impregnava o ar em volta. Achou que nunca mais conseguiria sair daquele lugar, que morreria ali e que ninguém se lembraria dela. Começou a pensar sobre como seria morrer. O que será que sentia alguém que morre? Celeste dissera que sua mãe estava morta; se ela morresse também, será que se encontraria com ela? Se fosse assim, então ela não deveria ter medo.

Deixou-se escorregar até sentar-se no chão, as costas apoiadas na porta, abraçando os joelhos. Aos poucos, seus olhos acostumaram-se à escuridão e ela pode vislumbrar algumas formas. Havia uma pequena janela no alto da parede em frente a ela que deixava entrar um facho de luz do sol. Regiane olhou para cima, à sua direita,  e viu uma pequena corda pendurada, um interruptor. Ela ergueu o braço e puxou-o, e o porão iluminou-se com uma lâmpada fraca como luz de velas, mas era melhor que nada. Além da mesa velha e coberta de poeira, ela viu algumas cadeiras, um baú fechado com cadeado, algumas garrafas vazias empilhadas em um canto, vassouras, ancinhos e outras ferramentas de jardim que pareciam não ser usadas há muito tempo – estavam cobertas de teias de aranha – um pouco de lenha e uma lamparina velha. Escutou um som vindo de um dos cantos, e assustou-se. Ficou bem quieta, com medo de mover-se, mas logo sorriu ao descobrir que estava sendo observada por um gatinho bem pequeno. Ela ergueu a mão para chama-lo, e logo outros dois gatinhos juntaram-se ao irmãozinho, seguidos pela mãe, que a olhou desconfiada, estancando atrás da pilha de lenha e miando para chamar seus filhotes de volta. 

-Não vou machucar vocês, nenéns! Fique tranquila, Dona Gata. Eu não sou malvada como aquelas outras que acabaram de sair... aqui... ah, vocês são mesmo umas gracinhas! Devem morar aqui desde que nasceram. Tomem cuidado para que a Madre Superiora não encontre vocês. Ouvi dizer que ela manda o capataz coloca-los em uma caixa e abandonar debaixo da ponte. Se eu conseguir sair daqui, dou um jeito de trazer leite para vocês.

Ela ficou distraída durante algum tempo, brincando com os gatinhos. Mamãe gata percebeu que ela não representava nenhuma ameaça para ela ou seus filhotes, e a observava de longe, as patas sob o corpo, em posição de iogue. Regiane começou  agostar da paz úmida, silenciosa e fria daquele porão, onde ela podia fazer o que quisesse, dizer o que quisesse e sentar com maus modos sem que ninguém a corrigisse. Estava distraída brincando com os gatinhos, até que um deles se afastou, e ela foi atrás dele. O gatinho escondeu-se por trás de uma pilha de caixas de madeira, junto a uma porta que ela não tinha notado antes. Regiane viu que havia um facho de luz vindo por debaixo da porta, e escutou alguns ruídos lá dentro: estava salva! Com certeza, era o jardineiro, que tinha uma chave a tiraria dali!

Segura de si, bateu à porta três vezes, e esperou; como ninguém respondesse, ela bateu de novo. Escutou alguém encaminhando-se lentamente até a entrada, mas a pessoa não abriu a porta. Encostou o ouvido na madeira, tentando escutar melhor, e bateu outra vez:

-Olá! Será que você pode me ajudar? Preciso sair daqui! As meninas me prenderam, e logo darão falta de mim na sala de aula... Irmã Malvina vai me castigar!

Com um click, a fechadura girou, e Regiane deu um pulo para trás. A porta foi se abrindo aos poucos e bem devagar, e ela, de olhos arregalados e já arrependida por ter batido, aguardou, os pés colados no chão. 

O que ela viu foi a silhueta de um rapaz contra a luz que brilhava por trás dele. Percebeu que ele vestia uma camisa branca simples, e calças também brancas, como se fossem calças de pijama, só que não eram. Atrás dele, Regiane viu uma cama de solteiro coberta com um cobertor pardo, como os que elas usavam nos dormitórios, uma pequena escrivaninha cheia de livros e uma poltrona estofada onde ele provavelmente se sentava para ler - (havia livros empilhados também no chão), uma lamparina, um castiçal, algumas velas. Em frente à cama, um tapete redondo, de cor azul escura. Havia também uma mesinha de cabeceira, onde estavam uma garrafa com um copo emborcado por cima, um pequeno abajur e mais livros. À direita, Regiane pode vislumbrar metade de uma cadeira (o restante, bloqueado pela porta). O rapaz nada disse; ficou parado, olhando para ela. Parecia estudá-la. Talvez quisesse ter certeza de que ela era confiável. Regiane apertou os olhos, tentando ver os traços do seu rosto, e se aproximou, e ele deu um passo para trás. Era mais alto, como um adulto, mas parecia bastante jovem ainda. Tinha cabelos louros e cacheados, e a pele tão branca, que mais parecia pintada à cal. Regiane estava um pouco assustada, mas notou que ele também estava. Ela chegou ainda mais perto:

-Como é o seu nome?

A voz dele saiu como se despertasse de um sono profundo:

-Ricardo.

-Você mora aqui?

Ele não respondeu. Afastou-se da porta, e fez sinal para que ela entrasse. Regiane entrou devagar, reparando nas coisas em volta dela, e sentou-se na beirada da cama. Ricardo a olhava com certa curiosidade, e ela devolvia seu olhar com o mesmo sentimento. Regiane pousou os olhos nas capas dos livros, e também nos outros objetos do quarto, que não tinha janelas – apenas uma pequena abertura junto ao teto, um retângulo por onde poderia entrar um pouco de ar e luz do dia, mas que estava coberto por um pedaço de vidro e um quadradinho de cortina bege entreaberta. Ela repetiu sua pergunta:

-Você mora aqui?

-Sim. Mas ninguém pode saber, será o nosso segredo.

-Por que ninguém pode saber?

-Porque se souberem, serei expulso! Não terei mais onde morar.

-E por que você mora aqui?

-É uma longa história.

-Eu gosto de histórias.

Ricardo sorriu:

-Eu já percebi que você gosta também de fazer muitas perguntas. Qual o seu nome?

-Regiane. Eu moro lá, na escola. Mas por que você mora aqui em baixo, no escuro?

-Eu conto, se você prometer não dizer a ninguém que eu estou aqui!

Ela concordou com a cabeça. Ricardo sentou-se na poltrona em frente a ela:

-Eu nasci aqui. Sou filho de uma das Irmãs.

Regiane lembrou-se do pai dizendo que as freiras eram santas, nunca se casavam ou tinham filhos, pois eram casadas com Jesus. Coçou  a cabeça:

-Mas... as freiras não tem filhos!

-Todo mundo sabe disso, mas às vezes pode acontecer.

-Então você é filho de Jesus Cristo? Porque meu pai me disse que as freiras são casadas com Jesus!

Ele riu discretamente:

-Não... e sim! Somos todos, pelo menos, é o que dizem. Mas tive um pai de carne e osso, como você tem um.

-E onde ele está agora? Ele também trabalha longe, como o meu? A minha mãe morreu. A sua mãe morreu também? O que é morrer?

Ele riu mais uma vez:

-Calma, você pergunta demais mesmo, hein? Pensei que quisesse escutar a minha história!
-Eu quero!

-Então fique quieta, e ouça: 

Ela se inclinou na direção dele, para escutar melhor, e Ricardo continuou:

-Minha mãe chegou aqui comigo na barriga ainda. Ela ainda não era freira.  A família dela não a quis em casa depois que descobriram que eu estava a caminho.

Regiane buscou na memória frases de uma história parecida que ela escutara na casa das tias, e comparou as duas. Descobriu que aquela história que o menino contava era muito parecida com a dela.

-Bem... Irmã Malvina deixou que minha mãe morasse aqui, e ela acabou virando freira também, mas com a condição de me manter fora da vista das demais pessoas. Porque... você sabe, as pessoas não entendem.

-Não, elas não entendem... mas gostam de explicar tudo!

-Você é uma menina esperta, Regiane.

-E você nunca sai? Fica aqui o tempo todo?

Ricardo levantou-se, e pegou um dos livros, abrindo-o:

-Saio sim. Viajo pelo mundo todo. Viajo por mundos onde a maioria das pessoas não viaja. Sabe como? Através disto aqui! (Ele bateu na capa do livro).

Regiane ficou pensando no que ele acabara de dizer durante algum tempo:

-Mas... sair de verdade...

Ele baixou os olhos, colocando o livro de volta no lugar:

-Bem... não posso ficar andando por aí durante o dia, mas eu saio à noite, ou quando ninguém está olhando.

Ela pareceu lembrar-se de algo de repente, e disse com entusiasmo:

-Eu também tenho um segredo! Mas só conto se você prometer não contar para ninguém.

Ele beijou os dedos em cruz:

-Pode confiar em mim!

-É que... eu não tenho oito anos. Tenho seis e um pouquinho.

-Ora, ora... sabe que eu nem adivinharia? Bem, agora eu sei um segredo seu, e você sabe um segredo meu. Então, somos amigos!

Ele estendeu a mão para ela, e ambos se cumprimentaram. Naquele momento, eles ouviram alguém tentando abrir a porta do porão. Alarmado, Ricardo levou Regiane à porta, e antes de fechá-la, segredou, implorando com os olhos:

-Lembre-se! Somos amigos! Ninguém pode saber que eu estou aqui!

Dizendo aquilo, ele trancou a porta. Regiane ainda olhou por baixo da greta, mas não havia mais nenhuma luz vindo de lá. Ela caminhou na semiescuridão, e esperou em frente a porta. Irmã Dulce a aguardava:

-Pobre menina! Deve estar muito assustada... mas não se preocupe, as responsáveis já foram punidas, ficarão de castigo.

Regiane, que de assustada não tinha nada, olhou para trás antes de saírem do porão, e sorriu para si mesma.

(continua...)






5 comentários:

  1. Ana, como nos culpamos por conta dos julgamentos!
    A história está cada vez mais emocionante.
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

    ResponderExcluir
  2. Ana Bailune, mas que história tão emocionante, que prende o leitor durante a leitura da telenovela. Fica-se a desejar a continuação, acho que tem emoção.
    Parabéns!
    Abraços

    ResponderExcluir
  3. Wow such an amazing story...you have me totally hooked!
    This is brilliant...:))

    ResponderExcluir
  4. Emocionante, misteriosa e outros adjetivos meticulosos desenham a saga do anjo e da menina. Linguagem de fácil acesso, estrutura bem delineada... e a gente vai ficando assim... cativa da sua escrita.

    Bacios

    ResponderExcluir
  5. Meus olhos até secaram quando Ricardo revelou sua origem! Não que eu não saiba que isso aconteça, é que certas informações, acabamos deixando "no porão da memória" rs...

    Confesso que estou aliviada, achava mesmo que Regiane seria "o anjo do porão" acho que isso vai render muito entre os dois...

    Quanto as crianças, é complicado julgá-las, pois que cada uma deve ter uma razão, alguns traumatizam-se tanto dos traumas que vão pelo caminho oposto, do bem mesmo, outros, afundam-se tanto, que perdem completamente o discernimento.

    Demais Ana, adorei a chegada do anjo!

    Um beijo, boa noite pra si.

    *Gratidão pelo que levo comigo, para ser descoberto ainda.

    ResponderExcluir

Obrigada por visitar-me. Adoraria saber sua opinião. Por favor, deixe seu comentário.

AS ESTRELAS QUE EU CONEI Capítulo 13

 CAPÍTULO 13 Achei estranho que o sol parecia nunca se por naquele lugar, e perguntei sobre isso. Imediatamente, começou a escurecer, e lind...