quinta-feira, 3 de março de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 2

 





Parte 2

 

Desperto na manhã seguinte com um barulhinho na vidraça. Abro a cortina devagar, e vejo que é um passarinho bicando o vidro. Ele voa para longe quando me vê. Pela posição do sol eu percebo que já passa das dez da manhã, e ao olhar o relógio na mesa de cabeceira, confirmo. De repente, o tal passarinho volta a pousar à janela, bicando o vidro e piando de mansinho. É uma saíra azul, a espécie preferida do meu pai. Ela agora parece não ter medo de mim. Fico olhando para ela, me deixando acreditar que aquela é apenas uma manhã normal, como tantas outras.

São as férias de julho da escola. Estou no último ano. Penso em voltar ao hospital, e ao mesmo tempo, me pergunto o que eu vou fazer lá, se meu pai já não está mais lá. Mas é o meu dever estar lá quando acontecer. Não quero que ele se vá sozinho, então visto meus jeans, calço meus tênis de lona encardidos, escolho uma camiseta cinza no armário e um casaco de moletom preto. Passo as mãos e uma escova pelo meu cabelo ondulado e castanho, desembaraçando os fios. Me olho no espelho: apenas uma adolescente normal, penso.

Mas quando pego meu celular, percebo que houve várias ligações do hospital naquela manhã, e eu me esqueci de ligar o som do telefone antes de dormir. Enquanto seguro o aparelho, ele toca. Atendo.

- Por favor, é da casa do senhor Otávio Moreno?

Concordo com a cabeça, engolindo em seco. Ela repete a pergunta, e percebo que não a respondi em voz alta.

-Sim.

-Com quem falo, por favor?

-Sou Valentina, filha dele.

- Senhorita Valentina, precisamos que compareça ao hospital e que traga documentos e uma muda de roupas para o seu pai.

-Ele... melhorou?

- Não posso informar. Por favor, peço que compareça ao hospital imediatamente.

Desligo o telefone, pensando que se me pediram para levar roupas para o meu pai, é porque ele acordou e melhorou. Escolho uma camisa azul que ele adora e um par de jeans. Antes de sair, ligo para o tio Heitor:

-Tio, ligaram do hospital pedindo para eu levar documentos e uma muda de roupas. Acho que o papai melhorou!

Ele diz alguma coisa para minha tia, mas não consigo ouvir o que é. Depois, ele responde:

-Estamos indo para lá também.

Entro no ônibus após esperar durante vinte intermináveis minutos. O ar frio da manhã deixa meus dedos arroxeados, mas eu não ligo. Entro no ônibus e dou bom dia às pessoas, e algumas respondem, enquanto outras me olham com uma cara indiferente. Começa a chover no caminho até o hospital, e a chuva bate no vidro da janela do ônibus. Após uma viagem de meia hora, finalmente chego ao hospital. Meus tios estão me aguardando na recepção, e me abraçam de uma forma estranha. Digo:

-Eu trouxe as roupas e os documentos. Como ele está?

Olho por cima do ombro e vejo o médico de braços cruzados, e a cara dele não é boa. Ele se aproxima ao me ver.

Entendo tudo, meu pai não melhorou. Ele não melhorou, e eu não estava lá com ele. Eu o deixei ir embora sozinho. Digo aquilo em voz alta. Tio Heitor diz para eu ficar calma, e não me preocupar, pois ele “vai cuidar de tudo.” Só quero ver o meu pai, mas o médico me diz que ele ainda está no necrotério, e me pede as roupas. Meu tio pega a sacola da minha mão e faz sinal para Tia Atena me tirar dali, e ela me puxa para a cafeteria do hospital. Eu me deixo levar, pois não sei o que mais eu poderia fazer. Olho para trás e vejo meu tio conversando com uns homens de terno, que mais parecem urubus. Minha tia me diz que são agentes funerários. Ela me diz para não me preocupar com nada, pois o Tio Heitor ia cuidar dessa parte.

Estou sentada em frente a minha tia na cafeteria do hospital. Ela assopra um café preto, dando pequenos golinhos, e eu seguro uma xícara de café com leite entre as mãos sem tomar nada. Diante da gente, um cesto com cookies de chocolate que me embrulham o estômago só de olhar. Ela me pede para comer algo, pois o dia seria longo. Mas eu não consigo. Minha tia começa a mastigar os biscoitos um a um, enquanto chora. Mas eu não consigo chorar. Ela segura a minha mão por cima da mesa:

- Valentina, você não está sozinha, e é importante que você entenda isso. Vamos arrumar um quarto lá em casa para você passar a noite, não se preocupe com nada. Depois tratamos da sua mudança para a nossa casa...

Eu a interrompo:

- Não precisa, tia Atena. Eu vou para a minha casa. É lá que eu vou morar.

-Mas você não pode... ainda é menor de idade.

-Posso sim, eu sou emancipada. Meu pai me emancipou. Ele sempre soube que eu posso tomar conta de mim mesma.

Ela parece surpresa, e ao mesmo tempo, aliviada. Não consegue suprimir um longo suspiro que eu interpretei como sendo de alívio. Tia Atena é uma ótima pessoa, mas nunca gostou de tomar conta de crianças, e eu sei que ela pensa que eu sou uma criança.

Alguns minutos depois, meu tio senta-se à mesa conosco. Diz que o velório foi marcado para a manhã seguinte, e que ele já estava avisando a todo mundo. Agradeço, pois eu não saberia como fazer isso: “Oi, aqui é a Valentina, e estou ligando para avisar que o meu pai morreu.” Olho para o meu tio, e de repente ele me parece dez anos mais velho. Ele e meu pai eram muito próximos. E eu sei que ele me ama. Pergunto:

- Você avisou aos meus avós?

-Sim, Valentina. Eles disseram que sentem muito por não poderem comparecer, mas seu avô está com a pressão muito alta. Disseram que vão te ligar mais tarde.

Pensei que nem precisaríamos avisar à tia Agnes, pois ela com certeza não conseguiria chegar a tempo, e talvez nem estivesse interessada. Ela e meu pai nunca tinham sido exatamente amigos, mas meu tio disse que tinha mandado uma mensagem para ela.

Quando terminamos o café, fomos novamente até a recepção do hospital, pois eu queria ver o meu pai antes de ir, mas me informaram que ele já tinha sido levado para ser preparado para o velório. Olhei para meu tio zangada, pois ele tinha me prometido que eu ia ver meu pai. Ele me disse:

-Querida, é só o corpo dele, ele não está mais entre nós. Eu só quis te poupar de um sofrimento desnecessário. Amanhã você terá a chance de se despedir do seu pai.

Meus tios disseram que iam passar a noite na capela mortuária, mas perguntei a eles:

-Para quê? Vão para casa. Meu pai não está lá, é só um corpo.

 E foi assim o dia em que meu pai morreu.


 (continua)




terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 1






Esta é a história de uma adolescente que precisa seguir com sua vida após a morte do pai, que a emancipou antes de morrer. Porém, antes, ela precisa descobrir a verdadeira história de sua família, aquela que ninguém lhe contou.


SOZINHA

Parte 1

Quando alguém está muito doente, quem o acompanha é quem mais sofre, e é visitado por sentimentos inconfessáveis. Estar diante da dor de quem se ama em uma posição totalmente impotente é, talvez, uma das piores dores. Chega um momento em que não aguentamos mais. Passamos a desejar que alguma coisa – qualquer coisa – possa acontecer e mudar aquela situação. Porém, não se pode dizer isso aos outros, pois eles não estão prontos. Eles não sabem como é. Eles têm suas crenças e opiniões sobre tudo, e gostam de acreditar que as outras pessoas pensam e sentem da mesma forma. Eles passam por aquele quarto, e da porta, lamentam e dizem palavras que consideram como sendo motivadoras: “Ele vai melhorar.” “Confie em Deus.” “Você precisa ter fé.” Depois, caminham pelo corredor, se afastando cada vez mais, tentando esquecer o que viram e voltar para suas vidas e seus problemas, dando graças a Deus por não estarem no nosso lugar.
Mas eu não os culpo. Não há muito mais que se possa fazer.
Certa vez, achei absurda a fala de alguém que há muitos anos me disse; “Só quero que tudo isso acabe.” 
Mas hoje, sou eu quem digo a ele: “Só quero que tudo isso acabe.” E peço aos céus que seja logo. Eu me sinto presa aqui, eu me sinto impotente, fraca, vulnerável, imensamente triste, e com aquela sensação de que ainda temos um longo caminho pela frente, um caminho cheio de dor, noites sem dormir, crises de desespero (que preciso viver o mais silenciosamente possível, trancada no banheiro do quarto de hospital para que ele não me escute).
E a comida esfria na mesa, me embrulhando o estômago. E a cada dia, um pouco mais dos meus ossos se tornam visíveis sob a blusa de malha. Às vezes, chego a pensar que eu vou primeiro, e que não seria nada mal. Assim, não teria que lidar com o que vem depois que tudo acabar.
Os amigos e familiares telefonam para saber como ele está. Mas na verdade, eles não querem ouvir. Raramente, me perguntam como eu estou. E nas raras vezes em que eu respondo – estou um caco, não sei mais como eu estou, já passei do desespero – eles só me dizem para ter fé e continuar acreditando. Daí eu olho para ele, deitado naquela cama, cercado por aparelhos e tubos, e me pergunto se essas pessoas sabem, realmente, com o que eu estou lidando.
Ontem, após três dias, ele acordou e me olhou. Abriu os olhos lentamente. Não sei se me reconheceu (eu ando irreconhecível até para mim mesma). Depois, fechou os olhos novamente, como quem não deseja mais ficar. Falei com o médico, e ele me disse que isso pode acontecer nessa fase, mas ele me disse que isso é normal, e não significa que o paciente está melhorando. É apenas um reflexo. O médico me olhou com aquela cara de pena e me disse para ir para casa. Que se houvesse alguma mudança, eles me avisariam.
Pela primeira vez em dias, eu concordei com ele.
A visão da minha cama me trouxe sentimentos controversos: eu só queria me jogar nela e dormir para sempre. Ao mesmo tempo, como eu podia estar pensando em dormir quando meu pai estava naquele estado? Achei melhor comer alguma coisa, forçando cada gole de café e cada pedacinho de pão garganta abaixo. Depois, tomei meio iogurte. O resto eu joguei fora. Simplesmente não desceu. 
Fico feliz que meu pai tenha antecipado a minha maioridade. Aos dezessete anos, por lei eu teria que ser acolhida por algum parente ou então ir para uma instituição. Mas assim que ele soube do quão grave era a sua doença, ele fez questão de me antecipar: “Não quero que ninguém estrague o trabalho que eu e sua mãe fizemos em você.” Ele também cuidou de toda a parte legal da coisa, para que eu não tivesse que me preocupar com nada. Pelo menos, não com nada material.
Meu pai só tem cinquenta e seis anos. Poderia viver muito, ainda, poderia ver eu me formar, casar, e quem sabe, me transformar naquilo que ele mais temia: uma pessoa comum. Ele vivia me dizendo o quanto eu sou extraordinária, o quanto eu tenho talento, e que eu jamais deveria me deixar levar pelas pressões alheias para ser isso ou aquilo. 
Minha mãe morreu quando eu tinha apenas sete anos e meio, e meu pai fez questão de terminar de me criar. Ele me ensinou a ser seletiva quanto às minhas amizades, e só desejar a companhia de pessoas que me acrescentassem alguma coisa. No começo, eu não entendi bem, mas depois, quando cheguei ao ginásio, eu compreendi o que ele quis dizer: a superficialidade das outras meninas me enjoava. Elas só queriam saber de garotos, vestidos, roupas, maquiagem. Falavam mal umas das outras sempre que podiam, competiam entre si, mesmo sendo “amigas” e viviam contando vantagem, como se estivessem em algum tipo de concurso de popularidade.
Os meninos, ah, os meninos... eles só queriam uma coisa. Só uma coisa. E achavam que tinham o direito de ter o que queriam, o que era concedido sem muito esforço da parte deles pela maioria das meninas. E foi no ginásio que eu comecei a me afastar cada vez mais de tudo. Achava que eu e meu pai nos bastaríamos. E passamos muitos bons momentos juntos. Ele lia para mim, ele me indicava livros e músicas. Mas às vezes, ele sumia nos finais de semana, ou chegava tarde em casa à noite. Minha tia Atena costumava tomar conta de mim naquelas ocasiões, ou então ele contratava uma baby sitter.
Quando minha mãe morreu, ele vendeu a nossa casa de condomínio em Teresópolis e comprou uma outra bem menor, junto a uma floresta que ficava em Lumiar, em uma rua afastada do centro da cidade. Eu não me lembro muito da outra casa, mas todos diziam que ela era muito bonita e bem maior do que esta, e que tinha sido um presente dos meus avós quando minha mãe se casou com meu pai. Meus avós eram muito ricos, e aquela casa era apenas uma das muitas propriedades que eles tinham. Eles não eram muito próximos da gente, pois não gostavam muito do meu pai, como fiquei sabendo mais tarde. Depois que minha mãe morreu, eles se afastaram ainda mais, embora me mandassem presentes de Natal e aniversário, cartões e convites para passar férias com eles, mas meu pai sempre arranjava outras coisas para fazermos nas férias, então eu nunca cheguei a visitá-los.
 A nossa casa é rústica, feita com largas toras de madeira. É aconchegante. Mas a Grota do Retiro não é exatamente um bairro residencial, é mais uma estrada, uma passagem. Os vizinhos mais próximos ficam a quinze minutos de carro, e não há muitos deles. A nossa água vem de uma mina, que meu pai me ensinou a limpar e a cuidar, e a nossa eletricidade vem de painéis fotovoltaicos e também de um gerador de emergência que fica no celeiro. Plantamos muitas coisas: tomates, verduras, frutas, para consumo próprio. Meu pai me ensinou a cuidar de tudo e a ser o mais independente possível. Mesmo assim, temos um senhor que vem duas ou três vezes na semana para fazer algum serviço de manutenção e dar uma olhada nas minas e nas hortas. 
Meu pai trabalhava como marceneiro, e ganhava o suficiente para termos uma boa vida. Minha mãe deixou para mim sua parte na herança da avó dela, mas meu pai jamais usou o dinheiro, dizendo que ele ficaria para eu usar como eu quisesse. Tive acesso às contas, através do advogado do meu pai, e é uma boa quantia de dinheiro que vai me permitir fazer muitas coisas e ficar anos sem ter que trabalhar. Se eu poupar bastante, pode ser que eu nunca precise, pois as nossas despesas são muito baixas, já que nossa casa é totalmente sustentável e nosso estilo de vida, bem simples.
Nossa casa, em si,  não é muito grande; temos cerca de 80 metros de área construída e um terreno de aproximadamente quatrocentos metros, por onde corre um riacho que nasce no alto da montanha e cruza toda a floresta até chegar ao nosso quintal. Usamos a água para regar as hortas e abastecer a cozinha e o banheiro. Estamos próximos a uma área de preservação, então eu acho que não vou ter problemas quanto a isso.
Nosso estilo de vida fez com que eu fosse vista na escola como a ermitã esquisita. Mas na maior parte do tempo, meus colegas me deixavam em paz, pois percebiam que seus ataques não surtiam nenhum efeito em mim. Além disso, hoje eu tenho nos fundos da casa uma pequena plantação de algo que eles adoram, e sendo eu uma boa fornecedora, eles me deixam em paz.
Temos muito pouco contato com alguns dos nossos poucos parentes – Tia Agnes, irmã de mamãe, que mora na Europa com meus dois primos; Tio Heitor, irmão de meu pai e sua mulher, Atena, que moram por perto, e com eles, temos contato regularmente; e meus avós por parte de mãe moram em outro estado. A última vez que vi Tia Agnes, meus avós e meus primos, foi no velório de minha mãe. Tio Heitor e tia Atena costumam vir nos finais de semana para jogar cartas com meu pai, e passamos alguns momentos divertidos, isso é, quando Tia Atena não resolve cozinhar, pois a comida dela é péssima. Mas depois que meu pai piorou, eles só o visitam no hospital e não vem mais aqui quando sabem que eu estou sozinha em casa. Acho que é porque não sabem o que me dizer, ou o que fazer comigo quando meu pai se for. Acredito que não querem a responsabilidade de assumir uma garota de dezessete anos, já que nunca tiveram filhos por opção. Mas eles não sabem que meu pai me emancipou.
Estou sentada no sofá da sala, enrolada em uma toalha de banho. Tenho na minha frente, sobre a mesinha, os documentos que me conferem a minha liberdade, e também os números das contas bancárias e os dados e documentos de um pequeno apartamento que meu pai aluga para uma família no centro da cidade. Estou ciente de tudo. Eu ficarei bem, financeiramente. Meu pai me ensinou a ser forte e independente. Segundo ele, eu ficarei bem. 
Mas eu não sei se posso. É muita coisa. É assustador. Minha vida é um grande ponto de interrogação. Mas quando ainda estava bem, meu pai me disse um dia que a vida de todos era um grande ponto de interrogação, mas as pessoas gostavam de fingir que tinham tudo sob controle. 
Ele também me ensinou a aceitar a morte, e eu fingi que aprendi. Meu pai me explicou que morrer faz parte da vida, que todos morreremos um dia, que o que importa não é com quantos anos, e sim viver de forma intensa, etc., etc., e mais um monte de clichês. Meu pai nunca foi um homem religioso, mas ele me confessou que acredita que a vida continue em algum lugar, e me falou sobre umas coisas que aconteceram com ele após a morte de minha mãe. Ele me disse que a viu em vários sonhos, e que uma noite, enquanto ele estava tomando café na cozinha, ela apareceu para ele. Acho que ele me disse a verdade – ou pelo menos, o que ele acha ter sido verdade. Porque meu pai jamais mentiu. E eu acho que por achar que minha mãe continua viva em algum lugar, ele nunca se casou, embora ainda fosse jovem, bonitão e muito assediado pelas mulheres. Saiu com algumas delas – ok, muitas delas – mas jamais trouxe nenhuma para a nossa casa.
De vez em quando, no hospital, uma delas aparece com flores, derrama algumas lágrimas, olha para o meu pai com saudades. Elas se apresentam como “amigas” de meu pai.  Depois, elas me abraçam talvez pensando que poderiam ter se tornado minhas mães, e vão embora, dizendo que se eu precisar de alguma coisa, é só chamar. Mas elas nunca se lembram de deixar um telefone ou um endereço. Todas são sempre muito bonitas, e vi que algumas tinham alianças de compromisso na mão esquerda. Meu pai gostava de viver perigosamente, pelo jeito.
Às vezes, ele viajava por alguns dias, geralmente, um final de semana, e eu ficava com o Tio Heitor e Tia Atena, ou seja, eles vinham ficar comigo. Mas meu pai sempre voltava na segunda-feira. Sempre sozinho, e às vezes, calado e cabisbaixo. Uma vez perguntei por que ele não se casava de novo, e ele me disse: “Quem teve uma mulher como a sua mãe, jamais encontrará outra à altura.” Pensei que aquilo soou como uma maldição.
Me deito para dormir entre os lençóis e cobertores macios e aconchegantes da minha cama. Meu último pensamento é para o quarto impessoal e frio onde meu pai dorme.
(continua...)




quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Um Relâmpago


Ele passou diante dos seus olhos antes distraídos, e despertou-a da sua indiferença.

Marta estava quase adormecida dentro do metrô naquela tarde calorenta, indo para casa após um exaustivo dia de trabalho. Os olhos estavam presos a alguma coisa que não estava ali,, e quem passava, poderia imaginar que ela estava pensativa. Porém, há muito tempo ela não pensava mais; não se atrevia.

Cumpria a sua rotina de acordar às quatro e trinta da manhã, se aprontar para o trabalho (antes preparava o lanche das crianças e deixava café para o marido, aquele estranho que morava com ela), pegar um ônibus até a estação e depois o metrô, e depois outro ônibus até chegar, finalmente, ao escritório no outro lado da cidade, onde trabalhava como secretária há quase dez anos.

Nos finais de semana, adiantava a faxina, cozinhava e congelava para a semana toda e dava uma olhada nos deveres de casa das crianças. Marta nem se perguntava para onde tinha ido a tal felicidade, pois temia a resposta.

E lá estava ele, aquele estranho perfeito, sentado no metrô diante dela, que mais parecia ter saído de uma revista de modelos - daquelas, que ficavam na recepção do escritório onde ela trabalhava. Ela sentiu o rosto corar quando, por acaso, os olhos dele pousaram nela e ele deu um meio sorriso de educação e reconhecimento. Ela nem sorriu de volta; imaginou-se no lugar dele, olhando para ela, e vendo aquela mulher cansada, de rabo de cavalo, agarrada a uma bolsa de couro velha, usando roupas surradas e fora de moda. Passou a mão pelo rosto, e sentiu a pele precocemente envelhecida, imaginando os círculos escuros em volta dos olhos que ela nem tentava mais disfarçar.

Mas ela não conseguia tirar os olhos dele, e de repente, uma fome enorme tomou conta dela: fome dele. Ela queria tê-lo, nem que fosse só uma vez. Nem que fosse a última coisa que ela faria na vida.

Na sua mente, ela viu a si mesma se levantando e indo na direção dele, erguendo a barra da saia e mostrando a perna ainda bonita que a saia escondia, enquanto mordia o lábio inferior. Ele ficaria surpreso, mas logo perceberia que estava diante da mulher da sua vida, e de mãos dadas, eles sairiam do trem e se perderiam pela vida, deixando tudo para trás.

O sonho foi tão forte e perfeito, que quando Marta voltou a si, viu que o estranho já não estava mais parado diante dela. Ela olhou em volta, mas ele já não estava mais por perto, e nem depois que ela saiu pelos vagões a procurar por ele, teve sucesso em encontrá-lo. Ele simplesmente desaparecera - mas ficaria ainda durante muito tempo em sua lembrança.

Mas pelo menos, seus dias já não eram tão vazios e sem sentido, pois ela agora tinha a esperança de um dia reencontrá-lo. Passou a cuidar-se melhor e redescobriu sua beleza. O marido então voltou a notá-la e a admirá-la, e os dois se reaproximaram. O chefe percebeu sua mudança, eficiência e boa vontade, e deu-lhe uma promoção e um aumento de salário.

Marta tornou-se mais confiante, e quando finalmente o estranho reapareceu no trem, meses depois, ela o olhou e não sentiu nada. Percebeu que não mais precisava dele. Mas antes de sair, ela o olhou, sorriu e murmurou um "obrigada" que ele jamais entendeu.



quarta-feira, 10 de novembro de 2021

AS ESTRELAS QUE CONTEI - CAPÍTULO 14 - FINAL

 


Havia na fazenda uma casa menor para hóspedes, que geralmente ficava fechada, e nós nos mudamos para lá. Uma semana depois do incêndio, Afonso reuniu construtores para começarem a reconstruir a casa principal conforme a planta original, o que seria um árduo trabalho que levou quase três anos para ser concluído. Mas mais tarde, todos achamos que a casa nova tinha também ares muito mais leves; os móveis e paredes eram de cores mais claras, as cortinas eram mais leves, enfim, não tinha o ar pesado e difícil de respirar da casa antiga, que tinha sido cenário de acontecimentos funestos. 

Após o velório de Tamara, que foi acompanhado por grande parte dos moradores da pequena cidade, contei aos outros tudo o que eu sabia sobre o que tinha acontecido naquela casa, há muitos anos; disse-lhes tudo o que Clara, Elvira, Teo e as crianças me contaram. Minha mãe não gostou de ouvir minha história, me dizendo que aquele não era o momento para invencionices, e que eu deveria respeitar a dor de Afonso; porém, ele me apoiou, dizendo à minha mãe que eu não poderia ter inventado todos aqueles acontecimentos; ele pegou um velho álbum de fotos de família que tinha sido salvo do incêndio, e apontando as pessoas, eu as fui identificando e contando particularidades sobre elas que ninguém poderia saber, como por exemplo, uma pinta que Clara tinha do lado esquerdo do pescoço e que não aparecia em nenhuma daquelas fotos.

Falei também sobre uma deformação que Elvira, a avó dele, tinha no dedo mindinho esquerdo, provocado por artrite. Mas minha mãe só conseguiu se convencer de que eu realmente dizia a verdade quando a polícia encontrou as ossadas das pessoas mortas. Elas foram todas devidamente sepultadas no cemitério da família, que ficava na própria fazenda, e uma missa foi dita por elas. Felizmente, o baú com as provas do crime, que tinha sido encontrado debaixo da cama de Rosália, tinha sido entregue à polícia antes do incêndio.

Mas Rosália escapou. Ninguém mais sabia onde ela estava escondida, para onde ela tinha ido. A polícia estava à procura dela, e havia fotos dela espalhadas por toda cidade. Ela nem sequer participou do velório da mãe, pois aproveitou a confusão para fugir.

Aquelas férias ficariam para sempre na minha memória, e na memória de todos nós. Voltamos para a cidade e então Afonso e mamãe puderam finalmente fazer sua viagem de núpcias. 

Mal chegamos em casa, tratei de colocar toda aquela história no papel, com todos os detalhes. Minha alma de escritora ainda se agitava. Sara e eu terminamos as férias em casa, cuidadas por Geraldo e Elga e na companhia de minha amiga Fernanda, que foi passar uns dias conosco. 

A história poderia ter terminado ali, mas uma noite eu acordei me sentindo muito aflita e oprimida, e quando me levantei para ir até a cozinha, encontrei minha irmã no meio do corredor, visivelmente abalada. Perguntei:

-O que você está fazendo de pé a essa hora?

Ela coçou a cabeça, e esfregando os olhos, respondeu:

-Pelo mesmo motivo que você, eu acho. Tive um sonho ruim.

Eu não me lembrava de ter tido um sonho. Peguei minha irmã pela mão e fomos nos sentar na cozinha, onde preparei um chá para nós duas. Todos na casa estavam dormindo, e nós estávamos sozinhas na cozinha. Escutávamos o tique-taque pesado do relógio que ficava na parede do corredor.

-Me conte sobre esse sonho, Sara.

- Eu... eu sonhei com ela. Com Rosália. Chiara, eu tenho medo dela.

Abracei minha irmã:

-Calma, ela jamais se atreveria a vir aqui. A casa tem muros altos. Ela não conseguiria entrar. E se for pega, vai ser presa. 

Ela insistiu:

-No meu sonho, ela estava aqui dentro. Ela tinha uma arma. Não me lembro bem do que aconteceu. Eu estou com muito medo...

Senti um arrepio na coluna, mas me mantive aparentemente calma:

-Tome, beba este chá. Vai se sentir melhor. Olhe, Geraldo, Elga e Carlos estão dormindo logo aqui, ao lado da cozinha, em seus quartos. Fernanda está lá em cima, e eu estou aqui com você. A casa está toda trancada. Nada vai acontecer. Estamos seguras aqui. Mamãe e Afonso estarão de volta em uma semana. E na semana que vem, as aulas recomeçam. Assim que tudo voltar ao normal, nós nos esqueceremos do que se passou.

Levei-a para o meu quarto, e dormimos juntas. 

Porém, duas horas depois acordei com o ruído de alguma coisa de vidro se quebrando. Meu coração deu um salto. Olhei para o lado, e Sara dormia tranquilamente. Fiquei sentada na cama, escutando, e minutos depois, pensei ter ouvido passos leves na escada de madeira, que tinha um degrau que estalava sempre que a usávamos. Achei melhor ver o que era, e criando coragem, saí da cama e abri uma greta da porta do quarto. Olhei o corredor silencioso e escuro. Um arrepio de desconforto percorreu minha espinha, e o suor começou a brotar nas minhas costas. Tirei a chave da porta, e trancando-a, fui até o quarto onde Fernanda estava. Ela dormia. Tirei a chave dela, trancando-a no quarto também para sua própria segurança. Apertando as chaves na mão, cheguei ao meio do corredor, esticando o pescoço para ver as escadas. Então eu a avistei: Rosália não me viu, pois olhava para o chão. Ela subia as escadas devagar, e carregava um revólver. 

Dei o grito mais alto de toda a minha vida:

- Geraldo! Carlos! Socorro! Ela tem uma arma! Ela está armada!

Corri de volta para o quarto, e entrando, tranquei novamente a porta. Fernanda tinha acordado e tentava sair: 

- Chiara, o que está havendo? Estou trancada aqui! – ela gritou; 

Fui até a sacada, chamando-a, e disse-lhe que ficasse no quarto e não saísse por nada. Àquela altura, Sara tinha acordado, e nós duas nos trancamos na sacada. Fernanda, da sacada do seu quarto, nos olhava, o rosto apavorado. Expliquei a ela que a casa tinha sido invadida por Rosália. Vi as luzes do andar inferior se acenderem, iluminando parte do jardim. Geraldo e Carlos estavam no jardim, e eu gritei novamente, avisando-os de que Rosália estava armada. Eles nos mandaram ficar calmas e permanecermos nos quartos, pois a polícia já estava a caminho.

Naquele instante, ouvimos um tiro. Nós três gritamos ao mesmo tempo. Alguém bateu à porta, e eu dei um pulo. Reconheci a voz de Elga:

-Meninas, não saiam por nada! Acabou! Fiquem tranquilas, mas não saiam!

Escutamos as vozes de Carlos, Elga e Geraldo conversando alto. Soavam muito aflitos. Elga disse, a voz chorosa:

-Eu não tive como evitar! Oh, meu Deus! Tive que atirar nela!

A sirene da polícia parou diante do nosso portão, e Carlos foi abrir. Vimos os policiais entrando. Muitas coisas aconteceram no andar inferior da casa, mas achei melhor, por causa de Sara, não descer para verificar. Fernanda foi ficar conosco, e nós três permanecemos sentadas no tapete, aguardando notícias. 

Uma ambulância chegou, e corremos até a janela. Vimos quando o corpo de Rosália, cujo rosto estava coberto por um lençol, deixou a casa, carregado em uma maca. As casas vizinhas estavam todas acesas, e algumas pessoas estavam paradas nas calçadas com roupas de dormir.

Finalmente, aquele capítulo terrível da história de Afonso tinha sido devidamente encerrado. Um dia, após o jantar, eu estava sentada em minha cama quando ele bateu à porta. Disse que queria conversar.

Sentou-se em minha cama, me olhando profundamente:

- Chiara, você já deve saber que eu tenho por você e por Sara um amor paternal. Para mim, vocês duas são minhas filhas. Mas quero que saiba que eu sou muito grato a você, pois me ajudou a resolver um grande problema que eu carregava comigo. Me ajudou a desvendar a morte de minha esposa, que eu pensei ter fugido e me abandonado.

Ele riu discretamente, baixando os olhos por alguns instantes.

-Jamais pensei que um dia, uma criança me ajudaria a seguir em frente. Nunca acreditei que eu pudesse ser feliz novamente, casar-me com sua mãe e ganhar duas filhas de presente. 

Eu fiquei calada, pois não sabia o que dizer. Ele continuou:

- Sei do seu sonho em tornar-se escritora. E eu quero ajudar você a realizá-lo!

Sentei-me na cama, as pernas cruzadas, o coração descompassado:

- Mas... eu... eu... meu Deus, eu...

Uma grande insegurança tomou conta de mim, e passei a andar pelo quarto de um lado para o outro. De repente, duvidei da minha capacidade de escrever. 

-Eu não sei se posso, pai. 

Eu o chamara de pai tão espontaneamente, que nem percebi. Ele corou de satisfação. 

- É claro que pode. Sua mãe me falou sobre os concursos literários que venceu na escola, e do quanto as outras crianças adoram escutar suas histórias. Ela também me disse que você tem uma missão que deve ser realizada através dos seus escritos. Então, quanto mais cedo começarmos, melhor! 

Comecei a pular de alegria, e abracei-o pelo pescoço, dando-lhe um sonoro beijo no rosto:

-Obrigada, pai! Obrigada!

E então, eu escrevi.

Contei as histórias de toda a minha família – daqueles que eu conheci e daqueles que eu não cheguei a conhecer aqui. Criei histórias que falavam sobre os seres da natureza que eu costumava ver quando criança, e embora elas tenham sido classificadas como histórias infantis, ninguém soube o quanto aqueles personagens são verdadeiros. Fiz o que eles me pediram: tentei conscientizar as pessoas sobre a importância do respeito às coisas da natureza, do quanto são necessárias coisas como árvores, rios, animais, água, ar. Sei que as coisas que eu tentei ensinar ficaram nas mentes de pelo menos, algumas pessoas. Sinto não ter podido atingir a todos. 

Também consegui, através das minhas histórias, levar um pouco de esperança a todos aqueles que perderam entes queridos, dizendo a eles que a vida continua em outro lugar, independente da ilusão que cultivamos de um adeus para sempre. 

Hoje, sou uma mulher velha. Há muito tempo minha mãe e meu padrasto se foram essa vida. Da minha família, só restaram minha irmã Sara e meus primos, que eu nunca mais encontrei. Sara teve muitos filhos: cinco no total. Ela hoje vive em uma cidade distante da minha, e quase não podemos mais nos encontrar. Mas o amor que temos uma pela outra e nossas histórias e segredos nos mantém sempre unidas, além do tempo e do espaço. 

Eu nunca me casei, nem tive filhos. Dediquei minha vida à missão que os seres da natureza me confiaram. Enquanto termino de escrever essa história, eles estão em volta de mim, me inspirando e amparando. Sei que logo deixarei esta vida. Minha missão aqui está no final. Mas sei que existem uma nova vida e uma nova missão esperando por mim. Espero poder cumpri-la. 



FIM






sábado, 9 de outubro de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI Capítulo 13



 CAPÍTULO 13


Achei estranho que o sol parecia nunca se por naquele lugar, e perguntei sobre isso. Imediatamente, começou a escurecer, e lindas estrelas apareceram num céu colorido de lilás e rosa, que escureceu gradativamente. Senti vontade de voltar para casa, e disse aquilo em voz alta. Naquele instante, olhei para o lado e as duas mulheres não estavam mais lá. Mas Téo, o avô de Afonso, estava sentado ao meu lado, e disse:

-Você já vai embora, mas antes de ir, achei que gostaria de em encontrar algumas pessoas.

Ele apontou para frente, para a mesma entrada junto à floresta por onde eu tinha chegado, e eu avistei três sombras que se aproximavam devagar. Apertei os olhos para enxergar melhor, e lá estavam papai, Tia Samira e minha avó Dora. Senti como se meu coração fosse sair pela boca de tanta alegria, e me levantando da cadeira, desci as escadas da varanda correndo, ganhei a distância que nos separava e me joguei nos braços de meu pai, chorando tanto que mal podia me controlar. Deixei-me ficar nos braços dele, sentindo sua mão acariciando meus cabelos, aproveitando a certeza de ainda poder ser amada por ele. Quando o olhei, ele sorria, tranquilo. Abracei minha tia Samira também, e minha avó. Nós os sentamos no gramado, que estava fresco e perfumado. Acima de nossas cabeças, planetas giravam, estrelas cintilavam e uma lua muito branca iluminava tudo. Avistei pontos de luz nas árvores, e eu logo soube que eram minhas amigas.

Meu pai foi quem falou primeiro:

-Você cresceu tanto, Chiara, está tão linda! 

Minha avó e tia Samira permaneceram em silêncio. Respondi:

-Pai, você é feliz?

Ele demorou um pouco, mas acenou positivamente com um leve gesto da cabeça. 

-Eu seria bem mais feliz junto de vocês. Mas é a vida... 

-Vocês três... moram juntos?

Tia Samira respondeu:

-Não, nós nos encontramos aqui apenas para ver você, mas estamos em lugares diferentes. Não se preocupe, não havia nada entre seu pai e mim antes, e não há nada agora. Diga a todos que eu sinto saudades. 

Ela começou a desaparecer devagar, e  junto com ela, minha avó.

Olhei para o meu pai, e abracei-o com força, com medo de que ele também desaparecesse. Fechei os olhos e tentei imaginar que sempre estaríamos juntos, que ele jamais iria embora para longe de mim, e ele disse, como se adivinhasse meus pensamentos:

- De certa forma, jamais a deixarei, minha filha querida. Sempre que precisar de mim, basta pensar. Não poderei responder a você sempre, mas saiba que estarei sempre ouvindo, e farei o que for possível. 

A voz dele foi sumindo nas últimas palavras que ele disse. Senti que nós desaparecíamos juntos daquele lugar, como se voássemos. Ainda olhei para trás, e vi a casa se afastando. 

Comecei a me sentir levemente tonta e indisposta. Senti minha visão tornar-se turva, enquanto o rosto de meu pai, inclinado em minha direção, ia aos poucos desaparecendo. Tudo começou a girar, e eu me senti muito enjoada. Quando abri os olhos novamente, eu estava deitada junto ao tronco de árvore, no meio da floresta. Uma dor aguda fez minha cabeça latejar, e levando a mão até a parte de trás da cabeça, senti uma protuberância úmida; era sangue. Eu pensei que havia caído e batido a cabeça, desmaiando. Sentei-me devagar no solo, olhando em volta. Será que eu tinha sonhado tudo aquilo?

Ao ter aquele pensamento, senti uma presença perto de mim. Era uma fada, que sentada no tronco junto a mim, me olhava. Ela balançou a cabeça me sorrindo, e tive certeza de que tudo fora real. 

Escutei ruídos de passos e vozes  na floresta, chamando meu nome. Olhei para cima, e o sol estava alto, como se muitas horas tivessem passado. Virei para o lado e vomitei. A sensação de enjoo começou a desaparecer. Logo vi surgirem as figuras de Afonso e mamãe, aflitos. Procuravam por mim, acompanhados de dois homens que trabalhavam na fazenda. Ao me verem no chão, um dos homens gritou: “Ela está aqui!” Mamãe correu na minha direção, e me abraçou com força:

-Estávamos tão aflitos, Chiara! O que aconteceu?

-Eu... acho que eu desmaiei. Bati a  cabeça. Mas... 

Naquele  momento, vários homens e mulheres da fazenda nos rodeavam, conversando baixinho. Afonso me ajudou a me levantar, me perguntando se eu conseguiria andar, e eu disse que sim.

Logo chegamos à fazenda, e me colocaram na cama imediatamente. Tamara nos seguiu, parecendo muito preocupada. Minha irmã Sara também nos seguiu até o quarto.  Mamãe pediu:

- Tamara, por favor, traga alguma coisa para ela comer.

Protestei:

-Não precisa, já comi. 

Minha mãe me olhou:

-Como assim? Você deve estar confusa, pois  saiu de casa ainda de madrugada, e já são quase quatro da tarde. Perdeu o café e o almoço. Filha, nunca mais quero que você adentre a floresta sozinha. 

-Mãe, eu não estou com fome. Mais tarde eu como. Preciso descansar. Quero ficar sozinha. Mas antes, me deixe conversar com Afonso. A sós.

Minha mãe e Sara me olharam, confusas, mas saíram do quarto seguidas por Tamara. Afonso sentou-se na beirada da cama, pegando minha mão devagar.

-Ficamos todos tão aflitos, Chiara. Nunca mais faça isso. A mata pode ser perigosa. 

- Prometo. Mas eu preciso te dizer uma coisa importante. Não sei se minha mãe já falou de mim... sabe, eu... eu tenho sonhos e visões. 

Falei aquilo com muito medo de que Afonso pensasse que eu era uma menina louca, ou que simplesmente não acreditasse em mim, mas ele me olhou com todo respeito, sem nada dizer, disposto a me escutar. Gostei dele ainda mais. Ele me ouviu em silêncio, acenando com a cabeça, e lágrimas caíram de seus olhos muitas vezes. Mas ele nunca me interrompeu. Finalmente, quando terminei de contar tudo a ele, ele me disse:

-Eu acredito em você, Chiara. Porque na noite passada, tive um sonho com Clara, e ela me pedia para escutar a sua história. Eu não consegui parar de pensar nisso o dia todo, enquanto procurava você. Eu... jamais... nunca tinha sonhado com ela antes. O sonho foi confuso e muito rápido, mas ao mesmo tempo, muito forte. Era como se estivéssemos conversando por um telefone com muitos chiados.

Eu me sentei na cama:

-E agora, Afonso, o que vai fazer, sabendo que Rosália é tão perigosa? 

Ele respirou profundamente, baixando os olhos.

-Sinto muito por Tamara, mas... eu vou ter que chamar a polícia. Mas antes, precisamos encontrar o corpo de Clara, e reunir provas contra ela. Precisamos provar que essa história louca é verdadeira.

Eu me lembrei do que Rosália me dissera:

-As provas estão todas em um baú, debaixo da cama de Rosália. Clara me disse.

Ele ficou boquiaberto. Vou lá imediatamente.

Dizendo aquilo, ele se ergueu da cama. Quando Afonso chegou à porta, eu disse:

-Tome muito cuidado, ela é perigosa!

Ele sorriu de leve antes de fechar a porta. Depois, caí em um sono profundo e sem sonhos  que durou até o dia seguinte, quando despertei varada de fome. Levantei-me da cama e tomei uma chuveirada, me vestindo. Achei que era cedo e que todos ainda dormiam, tal o silêncio dentro da casa. Calcei meu tênis e abri a porta do quarto, me dirigindo até a cozinha, mas ao chegar lá, não encontrei as pessoas trabalhando, como sempre. Tudo estava vazio e silencioso. 

Fui até o quarto de mamãe e Afonso, e eles ainda dormiam. Chamei-os da porta, tentando acordá-los, mas eles não responderam.  Corri até o quarto de Clara, e ela também dormia profundamente. O mesmo aconteceu ao procurar por Tamara e pelas cozinheiras. Todos na casa dormiam. 

Lembrei-me de que eu tinha sido a única a não comer nada que tinha sido preparado no dia anterior, e senti um medo enorme tomar conta  de mim. Corri até o telefone, e aliviada, escutei o sinal de linha ativa. Abri o caderninho de endereços, trêmula, e localizei o telefone da polícia, que disquei. Uma voz fria me respondeu:

-Delegacia de polícia, bom dia.

Eu estava tão nervosa, que minha voz custou a sair, e a pessoa do outro lado teve que dizer “alô” duas vezes. Finalmente, minha voz saiu pela garganta, alta e histérica:

- Estou na Fazenda Santa Clara, e tem alguma coisa errada. Ninguém acorda, estão todos dormindo e não acordam!

O homem do outro lado respondeu:

- Calma, fique calma. Qual é o seu nome, menina?

-Chiara. Sou enteada de Afonso, dono da fazenda. Eles não abrem os olhos! Acho que alguém colocou remédio no jantar de ontem. Venham rápido, por favor!

Foi quando escutei um ruído de algo queimando, e pensei ser a lareira. Mas ao olhar para o meu lado direito, percebi que havia um fogo começando na cozinha. Eu podia ver o corredor longo, e a fumaça começando a se formar. Gritei ao telefone:

-Venham logo, a casa está pegando fogo!

- Já estamos a caminho. Mandei uma viatura agora mesmo. Você consegue sair da casa? Saia da casa!

-Mas não posso deixar todo mundo aqui dentro! Minha mãe, Afonso, minha irmã, as pessoas...

-Corra e busque ajuda! Levaremos pelo menos vinte minutos até conseguirmos chegar, então vá buscar ajuda!

Desliguei o telefone, e ao passar pelo corredor, vi que o fogo na cozinha estava crescendo. As cadeiras e a mesa já começavam a queimar. Tentei abrir a porta da sala, mas ela estava trancada. As janelas da sala também. A fumaça começava a se espalhar mais rapidamente. Olhei em volta, procurando alguma coisa com a qual pudesse tentar quebrar uma janela, e vi o atiçador da lareira. Peguei-o, e arremessando-o contra a vidraça com toda a minha força, consegui quebrá-la. Saí pela janela, gritando por socorro. 

Para meu alívio, alguns trabalhadores vieram em meu auxílio, e eles conseguiram tirar as pessoas de dentro da casa antes que o pior pudesse acontecer. Porém, infelizmente, não pudemos salvar a vida de Tamara. O fogo se alastrou rapidamente, destruindo toda a casa. Quando a polícia chegou com os bombeiros, não havia mais nada que pudesse ser feito. 

Tamara se tornaria mais uma estrela no céu da minha vida. 


(continua)














terça-feira, 14 de setembro de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 12


 Capítulo 12


-Ela nos matou porque estava apaixonada por Afonso, e nós éramos contra o relacionamento deles. Sentíamos que Rosália tinha alguma coisa de selvagem, inominável, ruim. Apesar de tentar fazer tudo para nos agradar, sabíamos que cada gesto seu e cada palavra gentil era eivada de falsidade. Ela queria possuir Afonso. Chegou a ficar grávida dele, mas felizmente, perdeu a criança após dois meses de gravidez. Os preparativos para o casamento estavam sendo feitos quando Afonso descobriu que ela não estava mais grávida. Tamara, a própria mãe de Rosália, contou a ele. Ela tinha então dezessete anos, e ele, dezoito. Viveram uma paixão adolescente que, na cabeça dela, era a solução para a sua vida. Na verdade, ela só queria saber do dinheiro de Afonso. Tamara tentava controlar a filha, mas nunca conseguiu deter a impulsividade dela. Lembro-me de que ela ia para o quarto de meu filho à noite. Eu podia escutar os dois. Disse a ele que tivesse cuidado, mas ele não nos ouviu. Até que o mandamos embora da fazenda, para estudar no exterior, numa tentativa de afastá-los.

- Mas... por que não mandaram Rosália embora? Não teria sido mais simples? 

- Nós tentamos, mas ela não quis ir, ameaçou um escândalo. E tínhamos muito apreço por Tamara, sua mãe, que é uma pessoa maravilhosa. Mas Rosália herdou a amargura e a frieza do pai. Ele foi um homem mau, que seduziu Tamara quando ela ainda era bem jovem. Engravidou-a, e assim que a criança nasceu, foi embora da fazenda com outra.

-Uau! Que história! 

Ela ignorou meu comentário:

-Bem, assim que Afonso partiu, ela se tornou insuportável. Ficava pelos cantos, nos olhando com raiva. Se recusava a ajudar Tamara nos trabalhos da fazenda. 

O olhar dela voltou a ficar cheio de horror, enquanto Elvira narrava seus últimos momentos de vida:

-Um dia bem cedinho, quando Téo e eu nos aprontamos para ir pescar, deparamos com uma mesa maravilhosa. Rosália nos esperava com um farto café da manhã, e parecia outra pessoa. Seu olhar estava mais doce e conformado, e ela se desculpou por tudo o que fizera, jurando que melhoraria dali para frente. Nós acreditamos nela, e nos sentimos aliviados. Tomamos o café da manhã, e assim que chegamos ao barco e nos afastamos da margem, começamos a nos sentir tontos e pesados. Eu tentei me mexer, mas meu corpo parecia anestesiado. Téo e eu compreendemos que ela tinha colocado alguma coisa na nossa comida. Apavorados, mas incapazes de reagir, vimos quando ela se aproximou do barco nadando, e então nos puxou para dentro da água. 

Depois, usando um machado, Rosália fez um buraco no fundo do barco, que afundou, e então... ela segurou nossas cabeças dentro da água. Simulou um acidente. 

Eu estava horrorizada e preocupada ao ouvir tal narrativa. Afinal, minha mãe e minha irmã estavam lá naquela casa de fazenda, com aquela criatura horrorosa.

O restante da história me foi contado por Clara. Notei que Clara estivera de pé atrás de nós o tempo todo. Elvira levantou-se, e Clara sentou-se no lugar dela, ao meu lado. A presença dela emanava frio. Senti que a energia dela não era tão tranquila quanto a de Elvira. Clara continuou a história de onde Elvira tinha parado.

-Quando cheguei na fazenda, sete anos após a morte pais de Afonso, estávamos casados. Ele tinha se formado e assumira os negócios da família. Éramos felizes, nos amávamos. Maldita a hora em que concordei vir para cá.

Seu rosto crispou-se de raiva, mas ela logo se controlou:

Os avós estavam idosos, e ele decidiu que deveria tomar conta deles, já que devia muito a eles, que o criaram após a morte dos pais. Seu avô tinha câncer terminal, e a avó sofria de problemas cardíacos sérios. Achei nobre a atitude dele. O médico nos dissera que, infelizmente, ambos morreriam em breve. Concordei em ficar e ajudar. 

Mas aquele demônio de mulher... ela o seduziu novamente. Ela ficava o tempo todo rodeando meu marido, me afrontando... e eu não queria causar problemas para os avós de Afonso. Mesmo após as surras que Tamara dava nela, Rosália não tomava jeito. Tanto fez, que conseguiu o que queria: meu marido em sua cama. 

-Que coisa horrível! 

Pensei no quanto minha mãe estava em risco naquela fazenda, e desejei voltar para alertá-la. Mas eu sabia que precisava escutar o final da história, então me calei. O dia ali parecia não passar nunca. Eu tinha perdido a noção do tempo. Não tinha ideia de quanto tempo já estivera ali. Clara continuou:

- Eu e Afonso tivemos uma discussão horrível, e ele se desculpou, mas eu não consegui perdoá-lo. Mesmo assim, ficamos juntos até que seus avós faleceram com uma diferença de apenas duas semanas entre suas mortes. 

Logo após o falecimento dos avós de Afonso, decidi que o perdoaria, se ele concordasse em ir embora daquele lugar. E eu estava justamente me aprontando para dizer aquilo a ele, assim que ele voltasse de uma viagem que tinha feito a São Paulo a fim de organizar alguns papéis referentes à sua herança. Tamara tinha ido junto com ele, pois os avós de Afonso tinham deixado para ela algum dinheiro em testamento. Eu estava sozinha com Rosália na fazenda, esperando-o voltar.

Mas uma noite na qual fui dormir me sentindo exausta, acordei de repente na caçamba de um caminhão. Estava amarrada e amordaçada. 

Notei que estava junto a mim a minha mala de roupas. Rosália me obrigou a escrever um bilhete a Afonso, dizendo que eu estava indo embora do país e que ele não me procurasse nunca mais. Ela sabia que eu não tinha uma família, e que ninguém procuraria por mim. Achei que se eu fizesse o que ela queria, ela me levaria para longe dali e me deixaria em algum lugar distante, não sei... jamais pensei que ela seria capaz de... escrevi o tal bilhete, enquanto ela segurava uma arma de fogo contra a minha testa. Havia fúria em seus olhos. Assim que terminei, ela me atingiu com a arma. Ela me deu um tiro. Mas eu ainda estava viva quando ela me enterrou na floresta. 

Deixei escapar um grito de terror, cobrindo a boca com a mão. Àquela altura, Clara chorava muito. Ela se conteve, finalmente, e me disse:

-Mas fico feliz que ele não tenha ficado com ela. Pelo menos, isso ela não conseguiu.

-Eu sinto muito, Clara... de verdade. 

Ela me olhou, segurando minhas mãos:

-Você precisa dizer a ele a verdade. Precisa mostrar a ele onde está o meu corpo, precisa contar o que aconteceu aos pais dele. Enquanto alguém não fizer isso, estaremos presos aqui. A arma de fogo, o machado e a corda que ela usou para me amarrar estão no quarto dela, em um baú sob a cama. São as provas que precisam para acusá-la.

As crianças se aproximaram de nós, e uma delas disse:

-Faça isso pela gente também. Ela também nos matou, pois nós vimos tudo o que ela fez com os pais do senhor Afonso. Ela cortou os freios do carro escolar. Todas as crianças morreram naquele acidente. 

Ainda mais apavorada, prometi que os ajudaria a todos. 

Naquele momento, Clara projetou em minha mente uma imagem perfeita do lugar onde seu corpo estava enterrado, e de como chegar lá. Eu jamais me esqueceria. 



(CONTINUA...)







segunda-feira, 6 de setembro de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 11

 


CAPÍTULO 11

Eu gostava de acordar bem cedo e caminhar sozinha pela fazenda, quando a neblina ainda estava sobre os campos antes do sol nascer, e observar os trabalhadores ordenhando as vacas, escovando os cavalos, arando o campo e colhendo lindos maços de verduras que comeríamos horas depois no almoço. Eu já conhecia algumas pessoas, que me cumprimentavam e me chamavam pelo nome, me oferecendo fatias de queijo fresquinho, frutas ou doces em compotas que eram fabricados na fazenda.

Pensei que aquela era exatamente a vida que eu gostaria de ter, e decidi que no futuro, estudaria alguma coisa que me permitisse trabalhar na fazenda. Já Sara preferia a vida na cidade, o movimento, o burburinho dos centros comerciais. Eu só pensava nas histórias maravilhosas que poderia escrever naquele lugar inspirador.

Eu olhava as copas das árvores e arbustos em busca de minhas amigas de infância, mas não conseguia vê-las; achei que tinham ido embora para sempre. Até que um dia, enquanto caminhava pela trilha da floresta, que eu já conhecia bem àquela altura, deparei com uma estradinha calçada por pedras que eu não tinha visto antes, pois havia uma árvore enorme caída sobre a entrada. Sobre o tronco coberto de musgo, avistei uma criaturinha transparente que me olhava, mas que logo desapareceu. Senti uma dor aguda na cabeça, que me levou a fechar os olhos e cobrir a cabeça com ambas as mãos, enquanto um forte zumbido em meus ouvidos me deixava surda. Acho que quase perdi a consciência, e quando reabri os olhos e olhei adiante, vi uma estradinha limosa, uma trilha coberta de mato que teria passado despercebida se eu não tivesse me sentado naquele tronco.

O caminho era um tanto estreito, se perdendo em uma curva onde as árvores se juntavam umas às outras tornando o local bastante sombrio; apenas alguns raios de sol conseguiam penetrar as copas. A curiosidade, que era algo natural em mim, me fez passar sobre o tronco e seguir o caminho.

Caminhei por alguns minutos, ainda hesitante, sempre olhando em volta, e com a forte sensação de estar sendo observada. Pensei em voltar, mas eu sentia como se uma força me atraísse a continuar naquela direção, e ela me impelia para frente, além do medo que eu sentia, além do arrepio na base da coluna e de algo em um canto do meu cérebro que me dizia para voltar. Acho que andei durante quase uma hora – não estou certa, pois os caminhos no meio das florestas nos iludem. O sol já estava alto, e todos deveriam estar acordados, procurando por mim, mas eu simplesmente tinha que seguir.

E foi logo depois de uma curva que eu comecei a escutar vozes: risos de crianças e cães latindo alegremente, e então comecei a andar mais rápido; mal pude conter o folego ao chegar a uma enorme clareira gramada e ensolarada, onde havia uma casa que parecia ser muito antiga, de dois andares, branca e convidativa. Fiquei parada diante daquela linda visão, o ar preso nos pulmões, uma alegre sensação de ter chegado em casa após muito, muito tempo.  As crianças (havia uma meia dúzia delas) voltaram os olhos para mim e pararam de brincar, me observando em silêncio. Uma delas gritou: “Olhem!” Imediatamente, um menino ruivo disse “Eu acho que ela pode nos ver!” Eu estava confusa, assustada, surpresa, curiosa, feliz, enfim, eu era uma mistura de vários sentimentos e pensamentos que se moviam todos em círculos ao redor de mim, sem encontrar uma certeza. Na varanda da casa, um casal  me observava, parecendo muito surpresos. Havia também uma mulher mais jovem que eles, de longos cabelos negros, lindíssima, parada junto à porta de entrada, que parecia tão perplexa quanto os demais. Senti que uma mão nas minhas costas me deu um leve empurrão na direção da casa, mas quando me voltei para olhar, não havia ninguém. Caminhei, hesitante, e logo estava cercada pelas crianças, que me puxavam pela mão em direção à casa, acariciavam meus cabelos e davam risadinhas. Uma delas sussurrou: “O nome dela é Chiara. Está hospedada na fazenda!” No que a outra respondeu: “Sim! Ela é filha adotiva dele.” Eu fiquei surpresa pela maneira como as notícias corriam naquele lugar.

Quando cheguei à porta, a mulher mais velha estendeu os braços para mim, dizendo:

-Entre, menina. Você parece cansada. Venha comer alguma coisa! Posso apostar que ainda não comeu nada hoje.

Concordei com a cabeça e me deixei ser guiada para dentro da casa, seguida pelas crianças e pelos outros dois adultos, o homem e a mulher de cabelos negros.

 O interior da casa não era menos impressionante do que o exterior: a luz do sol entrava em faixas pelas janelas enormes, iluminando a casa magicamente, caindo sobre os jarros de flores coloridas, o piso de madeira brilhante, as cadeiras e sofás brancos, as cortinas finas e transparentes também brancas. O pé direito alto acolhia as vozes das crianças, transformando-as em música para os ouvidos, e reverberava os cantos dos pássaros da floresta. Fiquei pensando em como uma casa no meio de uma floresta e cheia de crianças podia ser tão limpa, tão branca. A casa era mágica, eu tinha certeza!

A mulher mais velha sentou-me à uma mesa na cozinha, e foi colocando sobre a mesa o café mais perfumado que eu já tinha visto, potes de geleias de frutas caseiras  brilhantes e cheirosas, pão feito em casa ainda quente, biscoitos e um bolo de laranja que eu devorei quase a metade. Enquanto eu comia, a mulher mais nova ralhou com as crianças e fez com que fossem continuar suas brincadeiras lá fora, pois elas faziam um ruído enorme, mexendo no meu cabelo, falando todas ao mesmo tempo e dando risadas. Eu interagia com elas apenas sorrindo. Eu me sentia totalmente à vontade entre eles, embora não os conhecesse. O homem estava sentado diante de mim, me olhando com carinho, como se eu fosse uma de suas netas (achei que era esse o grau de parentesco entre ele e as crianças). Reparei em sua camisa branca e simples, e também que o rosto dele era belíssimo, ornado por uma barba grisalha cerrada. Parecia haver uma aura de luz em volta dele e das demais pessoas, até que eu percebi, estendo a mão na frente do meu rosto, que ela estava também sobre mim.

Ele me disse, assim que pousei a xícara vazia sobre o pires:

-Você veio de longe, minha menina. Estamos muito alegres e surpresos de você ter chegado até aqui.

Eu sorri, confusa:

-Mas a fazenda fica a apenas alguns metros daqui... ou quilômetros? Bem, não é muito longe, o senhor sabe.

Eles três trocaram olhares, e nada disseram, mudando logo de assunto. A mulher mais velha disse:

-Deixe a gente se apresentar: meu nome é Elvira, e este é Téo, meu marido. A moça é Clara, nossa nora.

-Eu sou Chiara. Estou hospedada na fazenda com minha irmã Sara e minha mãe Vanessa, como vocês já sabem, e minha mãe se casou com Afonso. Vocês o conhecem, não é?

A mulher respondeu, quase sussurrando:

-Sim, nós o conhecemos.

A voz dela parecia muito triste, mas quando olhei para ela, ela sorriu.

Clara, a moça de cabelos longos, parecia ter uma tristeza dentro dela que se derramava em cada gesto. Ela não sorria muito, e mantinha os olhos presos em mim. Ela perguntou, a voz quase sumida:

-Como está Afonso?

-Bem. Ele está ótimo. Você o conhece bem?

Os olhos dela ficaram marejados, mas ela não respondeu; ao invés disso, pegou a minha xícara usada e levou-a para a cozinha, de onde não voltou. Téo foi atrás dela, e fiquei sozinha com Elvira, que sentou-se ao meu lado, cortando mais um pedaço de bolo e colocando em meu prato, apesar da minha recusa. Perguntei a ela:

-O que deu em Clara? Ela está bem?

-Sim, e... não. Chiara, você sabe que esta casa não é uma casa normal, não é?

Meditei um pouco naquelas palavras antes de responder, e conclui que ela estava certa: aquela casa não era uma casa normal. Não podia ser. Como aquela casa poderia existir ali, no meio de uma densa floresta, imaculadamente branca, mesmo cheia de crianças? Como podiam as pessoas que ali estavam – inclusive eu mesma – emanar aquela luz branca? Não respondo. Ela acariciou meu ombro levemente, e disse:

-Venha comigo.

Segui-a até a varanda da casa, e de lá ficamos olhando as crianças e os cães, que brincavam juntos novamente. Percebi que uma menina estendeu a mão e um passarinho pousou nela. Não, aquela não era uma casa normal. Perguntei quem eram as crianças.

-Elas... bem... são crianças que vieram morar aqui por escolha. Elas costumavam morar na fazenda antes de...

Completei a frase:

-...de morrerem?

Elvira concordou com a cabeça. Eu logo entendi tudo: todos naquela casa estavam mortos! E se eu estava ali, entre eles, estava morta também. Instintivamente, apertei meu punho, tentando sentir as batidas do meu coração. Nada. Nem um sinal. Minha pele era uma coisa branca e brilhante, nem fria nem quente, macia e fluida ao mesmo tempo. Mas eu podia sentir alguma solidez no meu corpo, pois estivera sentada comendo e bebendo, sentia cheiros, ouvia, falava, enfim: não estava entendendo nada. De repente, as coisas começaram a fazer sentido, como se a verdade se desenhasse devagarinho dentro de mim. Tudo começou a se desembaraçar, e percebi a verdade. Eu não sabia se era Elvira quem estava fazendo aquilo comigo, mas a compreensão vinha aos poucos, sem deixar qualquer sombra de dúvidas. Sim, estávamos todos mortos. Ao mesmo tempo, mil perguntas novas brotavam na minha cabeça.

- Afonso nos disse que sua ex-esposa tinha ido embora da fazenda e que eles tinham se separado. No entanto, ela está aqui, morta!

- Clara jamais deixou a fazenda. Ela foi morta aqui, e seu corpo está enterrado na floresta.

O horror daquelas palavras quase me sufocou.

- E vocês... a senhora e seu marido Téo... vocês ... Afonso nos contou que ele foi criado pelos avós. Vocês são os pais de Afonso, não são? Se Clara é sua nora...

Ela concordou com a cabeça.

-E o que aconteceu com vocês? Afonso jamais nos contou, sempre muda de assunto. Só explicou que vocês morreram quando ele era ainda adolescente.

Ela concordou com a cabeça.

-Sim. Talvez ele não tenha contado a verdade porque as lembranças relacionadas a ela sejam muito tristes. Nós nos afogamos.

Ela fechou os olhos, e suas sobrancelhas se crisparam, trazendo de volta momentos certamente muito dolorosos. Elvira continuou:

-Eu e Téo adorávamos sair de barco pelo rio, pescar, ir até a ilhota...

-Ilhota?

-Claro, Afonso não falou dela a vocês... bem, há uma ilha, uma pequena ilha na fazenda que fica há quinze minutos de barco à remo, onde os pais de Téo construíram um chalé de toras de madeira muito confortável e bonito. Gostávamos de ir até lá, às vezes, passar a noite...  Téo adorava remar...

Ela ficou em silêncio, envolta pelas boas memórias, enquanto seu rosto assumia um ar mais tranquilo e feliz.

-A ilha não é muito grande; tem apenas dois quilômetros e meio de extensão. Há muitos pinheiros por lá, alguns eucaliptos, flores que os avós de Afonso plantaram, muito verde. Você ia adorar. Pena que está abandonada agora. Há também algumas criaturas...

Naquele momento, pelo olhar dela, senti que ela falava de fadas. Sorri para ela, e ela me sorriu de volta, concordando com a cabeça.

-Sim, elas estão por lá. Onde não são perturbadas. Eu não sabia da existência delas, não antes de morrer. Mas sempre amei aquele lugar, pois eu sentia que havia alguma coisa muito boa ali. Mas... muitas coisas aconteceram. Você conheceu Rosália?

-Sim. Para dizer a verdade, não gostei muito dela. Minha mãe me disse que as pessoas do campo às vezes são assim, meio ariscas...

Ela cortou minha fala:

-Fique longe dela.

Eu fiquei boquiaberta; afinal, se eu estava morta, é claro que ficaria bem longe dela. Eu disse aquilo em voz alta, e ela respondeu:

-Você não está morta. Seu corpo descansa na floresta, e você vai voltar para ele. Mas antes você precisa saber do resto da história.

 

(Continua...)




 

 

 


 

A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...