domingo, 31 de março de 2013

A Cria - Parte III - Final




A cria - Parte III

A Fuga


Quase soltei um grito, e caí sentada sob a janela. O que eu poderia fazer? Deveria entrar na casa e pegar a criança à força? Deveria voltar e chamar a polícia? Deveria telefonar para Pedro? Fique sentada ali alguns minutos, tentando me acalmar e deliberar o que fazer. Estava com os nervos à flor da pele, e mal percebi quando a mulher saiu da casa, batendo a porta. Assustei-me com o estrondo, que me trouxe de volta à realidade. ainda tonta pela minha descoberta, escondi-me nos fundos da casa. Vi quando ela se afastou, indo pela trilha até a estrada. Quando achei que ela já estava a uma distância segura, entrei correndo na cabana.

Encaminhei-me para o quarto aonde eu tinha visto o bebê. Quando cheguei à porta, vi o berço no meio do cômodo, e me aproximei com cuidado, para não assustá-lo. Ele dormia, feliz e tranquilo. Fiquei olhando para ele por alguns instantes, sentindo um certo alívio, e não via a hora de entregá-lo aos pais. Mas... de repente, ouvi um grito atrás de mim. Pensava que estivesse sozinha, mas quando olhei para trás, apavorada, deparei com a mulher mais estranha que já vi:

Era muito magra e feia, e estava imunda; seus cabelos longos eram brancos e desgrenhados, e seus olhos, negros e injetados, parecendo grandes demais para o crânio. Sua estatura era baixa - quase uma anã. Apesar da desvantagem do tamanho, ela partiu para cima de mim como se pudesse fazer-me em pedaços, e eu gritei como nunca havia gritado antes. Ela me perseguiu pelo cômodo, as unhas enormes como garras tentando arranhar minha pele, e eu me desvencilhava dela. Era louca! Só podia ser! Consegui pegar uma cadeira que estava em um canto, e a ameacei com ela. A mulher aquietou-se um pouco, respirando pesadamente, e nunca desviando seus horríveis olhos de mim. Eu tinha que sair dali. Estava em perigo, e senti que o bebê também poderia estar. O que aquelas duas loucas queriam com ele?

Foi quando vi, transida de horror, a velha mulher entrando no cômodo. Quando me viu, ela também soltou um grunhido, mas encaminhou-se para a mais jovem, chamando-a de  filha, e passando os braços em volta dela, acariciava sua cabeça, para tentar fazer com que se acalmasse, mas ela agarrada à mãe, chorava baixinho e tremia.

Pela primeira vez, veio-me à mente a sensação de que elas tinham mais medo de mim do que eu delas. Isto me deu coragem. Larguei a cadeira, dizendo:

-Eu vim buscar o bebê que você roubou, e só saio daqui com ele. Se me deixar levar a criança, prometo não comunicar à polícia!

As duas se entreolharam, espantadas, mas logo começaram a gargalhar. A velha vociferou:

-Você quer o bebê, hein? Hum... você quer o bebê... mas você já tem um!
-Você sabe muito bem que aquela criança não nasceu de minha amiga! Esta criança - apontei para o berço - pertence a ela!

Ela veio andando em minha direção, mas tentei parecer forte e corajosa. Empertiguei-me, tentando ficar mais alta do que já sou. Cruzei os braços à frente do corpo. Ela chegou bem perto, e embora eu tremesse por dentro, tentei parecer fria.

- Você não sabe o que diz, moça... não sabe... eu ajudei. Se não fosse por mim, a outra morreria. Eu a salvei, e cobrei meu preço. Tudo tem um preço.
-Não quero saber! Eu vou levar a criança.

Encaminhei-me para o berço, mas vi-me paralisada, incapaz de mover-me, por mais esforço que fizesse, e ela começou a andar à minha volta., seguida pela filha. Comecei a sentir-me tonta e enjoada. Quanto mais eu me esforçava para mover-me, pior eu me sentia, e quando compreendi esta lógica, aquietei-me. Entendi que o filho de Sérgio, supostamente 'salvo' do afogamento por ela, também tinha sido levado, e que o menino que ela devolveu a ele, também era uma criança trocada.

Ela  deve ter lido meus pensamentos, pois respondeu-me:

- É verdade, é verdade sim... aquele outro bebê no rio não morreu. Eu peguei. Eu peguei, e minha filha cuidou muito bem dele, cuidou sim! Eu ajudei. Eu ajudei, eu sempre ajudo! E as pessoas, hum... as pessoas são ingratas, elas são... hum... eu não entendo...mas o moço, não. Ele aceitou o meu bebê. Ele não foi ingrato.

Ela tinha um senso de lógica impossível de combater. Ninguém poderia argumentar com uma louca. Relaxei ainda mais, e aos poucos, recuperei meus movimentos. Entendi que teria que negociar com ela, de alguma forma. Olhei-a nos olhos.

-Você me disse que tudo tem um preço.
-Ela concordou com a cabeça.
-O que quer para deixar a criança ir comigo? E também o filho verdadeiro de Sérgio?

A mulher mais jovem começou a agitar-se e gritar, ma a velha acalmou-a novamente. Ela me olhou, e dessa vez, chegou tão perto de mim, que senti seu bafo horroroso, apesar de ela ser bem mais baixa que eu. Suas roupas também tinham um cheiro nauseabundo.

-Hum, hum... o filho do moço não está mais aqui. Eles sempre vem buscar as crianças quando estão maiores... ele partiu, vive longe, vive lá... agora, é um de nós, é sim. Mas o menino no berço...
-Sim!
-Hum... o que você me dá por ele, o que?

Pensei rápido; pelo que percebi, a mulher estava disposta a negociar, e gostava de crianças.

-Bem, eu devolvo o seu bebê, que está lá na casa grande. E prometo que meu primeiro filho será seu.

Mais uma vez, elas se entreolharam.

-Mas aí não tem bebê - ela passou a mãozinha encardida em minha barriga, causando-me arrepios de nojo. Dei um passo para trás.

- Vou casar-me em breve!

Ela pereceu considera a ideia, conversando baixo com a outra numa língua que eu jamais ouvira. Aquilo tudo era tão surreal, que eu nem tinha mais medo. Senti que venceria o argumento. Ela foi até o berço, e pegando a criança, estendeu-a para mim; mas antes que eu a tocasse, ela o aconchegou, dizendo:

-É uma promessa. E eu vou buscar criança, eu vou... mesmo longe, na cidade. Eu vou buscar.

Concordei com a cabeça, e ela me entregou o menino. De posse dele, saí da cabana o mais depressa que podia, sem olhar para trás.


Alguns metros mais à frente, olhei para trás pela primeira vez, e a cabana não estava mais lá.

Cheguei em casa, e quando fui ao quarto para colocar o bebê no berço, Sarah e Pedro dormiam na cama. Tinham a expressão pesada e triste. Cheguei perto do berço, e ao olhar para dentro, dei com os olhos escuros olhando para mim, arregalados. Por incrível que pareça, a forma daquela horrenda criatura foi desaparecendo aos poucos diante dos meus próprios olhos! Sumiu completamente, sem deixar vestígios. Coloquei o bebê no berço. Finalmente, Saulo estava em casa!

Naquele instante, Pedro e Sarah despertaram. Ela levantou-se, e veio me abraçar. Contou-me que ambos tinham visto, em sonho, tudo o que acontecera. Pedro já estava com Saulo no colo, olhando o filho com lágrimas nos olhos. Sarah juntou-se a ele, e a imagem daquela família feliz e unida, aqueceu-me o coração.

Sarah trocou um olhar significativo comigo, mas não dissemos nada, pois alguns segredos devem permanecer em silêncio, e jamais pronunciados. 

Cinco anos já se passaram, e ainda hoje, quando vejo Saulo correndo feliz e saudável pela casa em ocasião de minhas visitas aos meus amigos, sinto-me feliz por ter participado daquela alegria. 

Filhos? Jamais os tive, e nem os terei. Sou uma freira. Tornei-me freira assim que terminei a faculdade. Casei-me com Jesus.






Um comentário:

  1. NOSSAA, UFFA QUE SUFOCO. UM FINAL SURPREENDENTEMENTE FELIZ, JA TINHA VISUALISADO A MULHERZINHA ROUBANDO O FILHO DELA,AINDA BEM QUE NÃO!

    NOSSA EU AMEI, QUANTA IMAGINAÇÃO E DAS BOAS. QUERO MAIS CONTOOO, TENHO MTA FOME, RSRSR.

    BJS QUERIDA, E LINDO!
    PATTY.

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