domingo, 10 de março de 2013

O Círculo dos Duendes





"Não sei se foi a luz daquele luar branco e penetrante. Não sei se foi a refeição tardia da noite anterior, quando minha família comemorou o aniversário de minha irmã mais nova, que me deixara indisposta. Só sei que, no meio da noite, acordei sentindo uma estranha opressão, e a luz branca do luar entrando pela janela do quarto, trazendo uma brisa fresca e restauradora, pareceu-me convidativa.

Estávamos hospedados em um sítio de uma família amiga - eu, meus pais, meus dois irmãos mais velhos e minha irmã, mais a família deste amigo de meu pai, que nos ofereceu aqueles dias de férias que até aquele momento, tinham sido simplesmente perfeitos. Passáramos muitas horas felizes, pescando, passeando e nadando no riacho, e à noite, nos reuníamos  para ouvir as histórias maravilhosas contadas junto ao fogo da lareira por vô Juventino, um senhor muito idoso, que era avô deste amigo de meu pai. 

Nós assávamos nossos marshmellows no fogo da grande lareira após o jantar, e então, nos enroscávamos para ouvir as histórias. Eram narrativas sobre a vida nos tempos da guerra, e também algumas histórias fantásticas sobre duendes, sacis, Iaras e outras criaturas fantásticas que tinham sido avistadas ao redor do sítio. Minha irmã mais nova, de apenas oito anos, sempre acabava dormindo, e era levada para o quarto por um de meus irmãos - Julio, de quinze anos, ou Pedro, de dezessete.

Nossos anfitriões eram um casal de meia-idade, seu único filho João e vô Juventino. Ainda moravam, em um outro prédio no terreno, várias pessoas que trabalhavam na casa. 

Bem, este era o cenário da minha história. Acho que agora posso voltar a contá-la.

Como eu já disse, acordei à noite com a luz do luar dentro do quarto e uma brisa refrescante que me convidava a ir lá para fora, esperando que o ar fresco curasse minha indisposição. Calcei meus chinelos, e de camisola, caminhei pelo casarão escuro e silencioso e fui sentar-me à varanda, em uma velha cadeira de balanço, enquanto, de olhos fechados, aguardava a náusea passar. Lembrei-me das várias advertências dos adultos da casa, para que nunca fôssemos lá para fora sozinhos durante a noite, pois havia relatos de onças que ocasionalmente  andavam por ali, alimentando-se dos animais do sítio. Bem, eu não tinha medo de onças. Na verdade, nem acreditava que, em um lugar como aquele, elas pudessem existir! Com certeza, eram apenas histórias para manter-nos dentro de casa. Assim como as 'aparições' de duendes, iaras e demais seres fantásticos, narradas não apenas por vô Juventino, mas também pelos peões do sítio.

De repente, senti que a náusea aumentava, e comecei a ter a sensação de que ia vomitar. Levantei-me depressa, tentando conter a ânsia, e com medo de entrar em casa e despejar tudo no tapete da sala, fui correndo em direção aos fundos da casa. Ao chegar perto da cerca que dividia o terreno do jardim e o pasto dos animais, não consegui mais segurar: coloquei para fora o jantar daquela noite. 

Comecei a sentir-me melhor logo após aquele despejo repentino. Ainda ofegante, olhei para o céu cheio de estrelas, sem nunca me cansar de admirar o quanto elas eram tão lindas e brilhantes. Foi quando comecei a ouvir uma musiquinha que me chegava com a brisa. Prestei atenção, e ouvi também risos e vozes. Decidi seguir o som, e passando sob a cerca de arame farpado (e deixando nela um pedaço da saia de minha camisola), atravessei o pasto e comecei a andar pela trilha da mata. 




Mal pude crer nos meus olhos, quando cheguei a uma clareira e vi pessoas pequenas - achei que elas deveriam chegar quase à altura de minha cintura - que dançavam em circulo em torno de uma fogueira. Usavam roupas estranhas, que pareciam antigas, e alguns dos homens tinham chapéus esquisitos e pontudos, como carapuças. Pareciam muito alegres, e bebiam alguma coisa de um garrafão que um deles carregava sobre o ombro. Fiquei ali, escondida atrás de uma moita, observando-os. Havia uma claridade em torno deles que eu tinha certeza, não vinha do fogo. Notei que eram muito bonitos, apesar do tamanho diminuto, e não se pareciam em nada com anões comuns, pois seus corpos eram proporcionais; era como se fossem gente normal, só que pequena. 

Olhei para uma árvore próxima, e descobri que a música que eu escutava vinha de alguns deles que sentavam-se nos galhos da árvore, tocando instrumentos musicais: sanfonas, flautas, banjos, gaitas e um tambor.

Sem querer, assustei-me com um pequeno inseto que pousou sobre meu rosto, e dei um gritinho. Apesar de ter sido um gritinho bem abafado, imediatamente, a música parou de tocar e todos passaram a prestar atenção em volta, alguns, farejando o ar. Gelei de medo. Mas um deles, um jovem bastante bonito, que vestia uma túnica verde, saiu do círculo, e aproximou-se da moita aonde eu me escondia, dizendo: "Não tenha medo! Sabemos que você está aí. Sabemos também que se chama Helena, e que está hospedada no sítio."

Saí de meu esconderijo aos poucos, sabendo que de nada adiantaria continuar ali, e senti que eles não eram hostis. Ao ficar de pé perto do rapaz, senti-me uma gigante. Ele esticou o bracinho em minha direção, convidando-me para juntar-se a eles no círculo. Achei que poderia ser divertido, mas hesitei, achando que acabaria pisando em um deles sem querer, pois era bem maior que todos eles.

Naquele momento, os outros começaram a bater palmas, juntando-se à minha volta, e os músicos recomeçaram a tocar.  Eles dançavam, rodopiavam e soltavam 'urras'. Meu novo amigo, segurando-me pelas mãos, começou a dançar comigo, e nós dois rodopiávamos no meio do círculo. Bebi da garrafa que me ofereceram, e continuamos dançando, enquanto eu percebia que eles iam crescendo e ficando do meu tamanho - ou será que era eu que encolhia?

O que aconteceu depois é muito nebuloso em minha memória; lembro-me de um lugar estranho e belo, onde  fui conduzida por eles. Havia muita paz e quietude, e meu amigo, colocando-me para dormir em uma cama de folhas, deitou-se ao meu lado. Acho que ele me beijou, mas não tenho certeza. Só sei que era bom estar ali, ao lado dele, e os sentimentos que me afloraram eram totalmente novos para mim. Deram-me algo para comer, e eu aceitei. Não sei dizer o que era, mas era muito bom... parecia um doce, e mesmo que eu comesse grandes quantidades, não me sentia enjoada. Lembro-me de banhar-me nua em uma fonte, junto com meu novo amigo. Nós nos abraçamos, e as sensações dos nossos corpos se tocando, eram indescritíveis e maravilhosas. Ele dizia que me amava, e que tinha esperado por mim durante muito tempo.

Depois, eu me lembro de uma criança, um bebê. Sei que se parecia conosco. Eu cuidava dele, e o amava, mas não posso dizer quem era aquela criança, ou como ele foi parar em meus braços.

E havia as danças, a música, a cama de folhas, o luar que nunca se escondia. Havia risos e felicidade. 



Mas de repente, eu acordei e comecei a lembrar-me (como se tivesse perdido a memória durante algum tempo) que eu tinha uma família esperando por mim, e que eles podiam estar muito preocupados, e à minha procura. Desejei voltar. Ao mesmo tempo, não queria deixar aquelas pessoas e aquela vida maravilhosa que eu tinha ali.

Meu amigo demonstrou ficar muito triste com a minha decisão. Todos pareceram ficar muito tristes e decepcionados!  Antes que o dia clareasse, despedi-me deles, com lágrimas nos olhos, dizendo que voltaria na noite seguinte. Vi estampado nos olhos deles, um misterioso adeus, e soube então que nunca mais estaríamos juntos. Antes de virar a curva na trilha, enquanto caminhava de volta para casa às primeiras luzes da madrugada, ainda pude ver meu amigo de pé no meio da clareira, tendo no colo a criança, acenando-me tristemente. Meu coração apertou-se, e derramei lágrimas profusas enquanto caminhava.

E foi através das lágrimas que pude ver o caminho, e cheguei junto à cerca onde encontrei um pedaço de tecido apodrecido preso no arame farpado. Percebi que minha camisola estava em farrapos, e muito suja. Caminhei de volta para cá, pensando ser a casa do sítio, mas achei-a muito mudada. E foi assim que vim parar aqui. Acho que estou perdida! Vocês poderiam me ajudar a chegar em casa?"

O casal idoso olhava a menina com curiosidade e preocupação. A mulher respondeu-lhe:

-Não existe mais nenhum sítio por estas bandas, moça. Depois da estrada, só a cidade grande. Muitos edifícios, prédios enormes, carros, shopping centers...

-Mas o que é um ... shopping center?

O velho casal entreolhou-se. 

2 comentários:

  1. MEUS SAIS! Ana do céu que conto é esse minha amiga? Que final mais que surpreendente e arrrepiante. Ufa... preciso de fôlego rsrsrsss
    Sinceramente? Não dá pra imaginar esse desfecho, nem de longe, tá?
    Contista das boas tu heim?!

    Um dos teu melhores contos que li até agora.
    Inusitado, permeado de magias (como eu gosto) hehe...

    Quer dizer que aquele tempo (sabe-se lá quanto tempo), que ela passou com os duendes, frações de segundo, talvez. No mundo real houve a tal transformações equivocadas da modernidade.

    Feliz dela se tivesse ficado com eles.

    Nossa, que conto espetacular.
    Aplausos
    bacios, cara mia!!

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  2. Show, Ana! Um conto que puxa um lado de nossa imaginação e é concluído de forma surpreendente. Pensei que ela fosse, simplesmente, acordar em sua cama aconchegante e pensar ter sonhado. Parabéns!! Bjs.

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