quinta-feira, 21 de março de 2013

O Velório




Bianca era uma mulher de meia-idade, cuja vida solitária não lhe trazia grandes aventuras. Vivia uma vida morna e sem gosto.

 No começo, a solidão tinha sido para ela uma opção, após uma grande desilusão que sofrera com seu marido, João,  e sua melhor amiga, Tamara. Tornara-se desconfiada, e por mais que tentasse, não conseguia mais confiar em ninguém. Simplesmente não se sentia pronta a perdoar e esquecer a traição daquela amiga de tantos anos e do homem que ela aprendera a amar. As pessoas insistiam que ela esquecesse o que acontecera, mas ela apenas se irritava quando alguém mencionava o assunto: eles não estavam sob a sua pele! 

Tornara-se calada e arredia. Seus velhos amigos - e até suas irmãs - passaram a evitá-la, devido ao seu ar taciturno e sarcástico. Como não cria mais em felicidade, zombava da felicidade alheia. Nem se lembrava mais dos tempos em que tinha sido uma pessoa totalmente diferente, alegre e de bem com a vida, pronta a correr riscos e lutar por tudo o que desejava, crente nas pessoas e rodeada de amigos.

Afundou-se ainda mais no trabalho, e tornou-se ainda mais competitiva do que sempre fora. Chegou a um dos mais altos cargos dentro da empresa, e todos a temiam ou odiavam.

O acontecimento que mudou sua vida aconteceu quando ainda tinha vinte e seis anos. Era o dia de seu casamento, e Tamara, sua melhor amiga, naturalmente tinha sido convidada a ser a sua madrinha. Após a cerimônia, durante a festa, enquanto dirigia-se ao toilete a fim de retocar a maquiagem, Bianca ouviu vozes abafadas por trás de uma porta fechada. Achou estranho, pois reconheceu, primeiramente, a voz de Tamara:

-Não podemos continuar assim, agora que vocês se casaram, João. Bianca vai acabar desconfiando... aliás, ela já estava desconfiada de você, confessou-me! 
-É mesmo? E o que você disse?
-Ora, eu disse a ela que aquilo era um absurdo, pois vocês estavam de casamento marcado! Ela pareceu acreditar, ficou mais calma.
-Mas a verdade é que eu não deveria ter me casado com ela. É a você que eu amo, Tamara! Bianca sempre me deixa em segundo plano, desde que nos conhecemos... só pensa em si mesma e na carreira.

Enquanto escutava aquela conversa, Bianca sentia que estava ficando cada vez mais gelada. Começou a sentir-se tonta, e amparou-se na parede para não cair. 

-Então, por que casou-se com ela, João?
-Porque eu gosto das duas. Não queria que ela sofresse. Mas há uma maneira de contornarmos tudo, Tamara. Eu esperarei alguns meses, e depois, peço o divórcio. É só o tempo de passar toda essa parafernália do casamento, e...
-Mas eu não entendo! Por que se casou com ela, se já pensa em pedir o divórcio?
-Por pena. Você sabe, a festa já estava toda encomendada, os convites já tinham sido mandados...
-Maldita noite aquela, quando seu carro quebrou no momento em que passava próximo à minha casa! Seu carro tinha que quebrar justo naquela noite? E logo ali, na minha rua?
-Mas você tem que confessar: foi uma noite inesquecível!

Bianca não suportou mais: caiu ao chão, desmaiada, chamando a atenção dos dois, que ouviram o baque de sua queda no piso de mármore.

Depois daquele triste acontecimento, o casamento foi desfeito, e apesar das desculpas pedidas por Tamara e João, Bianca jamais foi capaz de perdoá-los. Os dois se casaram alguns meses após o fato, vindo a se divorciar logo em seguida: João a traíra.

Anos se passaram, e estamos de volta ao acontecimento que dá título a este conto: o velório.

Durante uma tempestade, Bianca vai abrigar-se em uma capela mortuária que ficava próxima ao seu local de trabalho, pela qual passava todos os dias, sem perceber. Pensou que estivesse vazia, pois já era tarde da noite. Não gostava de estar ali, mas era melhor do que estar debaixo daquela chuva torrencial, já preparando uma enchente. Sentia-se esfomeada e cansada, após um dia de trabalho que terminara em um longo serão. Passava das dez da noite, e as ruas estavam desertas e silenciosas. 

Pensou em ficar à porta, mas os raios a amedrontaram, e ela foi penetrando no corredor semi-obscuro da capela, caminhando entre as portas fechadas. Acabou chegando a uma das capelas, a do final do corredor, de onde vinha a luz mortiça de velas. Estava aberta, e ela entrou.

Sentou-se em uma das poltronas, sentindo-se totalmente desconfortável diante daquele caixão aberto, onde uma mulher jazia sem ninguém que a velasse. Movida por uma curiosa morbidez que ela preferiu chamar de respeito, Bianca levantou-se e aproximou-se do corpo. Olhou: as mãos cruzadas sobre o peito, onde havia um pequeno terço entre os dedos entrelaçados. Da cintura para baixo, flores murchas cobriam todo o corpo, e exalavam o cheiro da morte. Foi subindo o olhar. A manga rendada de uma roupa preta. Bianca sentiu indiferença por aquela mulher, até que, olhando em seu rosto, reconheceu sua antiga amiga Tamara.

Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha! Quase gritou, mas conteve o grito na concha das mãos. Há muitos anos não a via, nem sabia dela. A última notícia que tivera, foi quando os dois se divorciaram, o que causou-lhe um sentimento de triunfo. mas vê-la ali, totalmente só, pareceu quebrar a barreira de gelo em seu coração, pois vieram-lhe à memória os tempos em que estudaram juntas, as festas que frequentaram, as viagens que fizeram juntas a vários países. Recordou-se nas noites em que dormiam na casa uma da outra, e  varavam as madrugada comendo chocolates e assistindo filmes. Eram tão íntimas! 

Bianca voltou a sentar-se, com as mãos ainda cobrindo o rosto. Chorou durante alguns instantes. Mas logo vieram também as últimas lembranças, a traição , a festa de casamento... seus sentimentos misturavam-se. Um ódio começou a crescer dentro dela. Decidiu ir embora, mas teve uma péssima surpresa ao chegar à saída: 

A chuva caía lá fora, em torrentes ininterruptas, e o rio transbordara. Impossível sair dali! Teria que passar a noite dentro daquela capela mortuária, com sua melhor amiga e sua pior rival. Apesar dos pensamentos sombrios, Bianca estava tão cansada que acabou adormecendo. Nem sabe quanto tempo se passou, mas quando despertou, a chuva lá fora ainda caía, embora mais fraca, mas a enchente ainda não escoara. De repente, ela ouviu um ruído vindo de dentro do esquife, um farfalhar estranho e inexplicável. Será que haveria ratos ou baratas por ali? Aquele pensamento a amedrontou. Nem sequer cogitou outra possibilidade, pois não acreditava em fantasmas.

Até que ouviu uma voz fraca, dizendo: "Preciso que você me perdoe."

Bianca sentiu calafrios na espinha, mas levantou-se da poltrona, e foi até o caixão. Olhou para o rosto marmóreo da ex-amiga, e quase caiu para trás quando a viu abrir os olhos. Ela estava viva! Como a ouvir seus pensamentos, Tamara murmurou:

-Não, eu não estou viva. Estou morta!

Bianca gritou, dando alguns passos para trás. Quis correr, mas a porta fechou-se com um estrondo antes que pudesse alcançar a saída. estava apavorada! Principalmente depois que Tamara sentou-se, dizendo: "Não tenha medo de mim!"

Com o coração aos pulos, Bianca apontou para ela, gritando:

-Mas você... você...

-Eu a trouxe aqui de propósito. Jamais me perdoei pelo que fiz com você. Você, Bianca, sempre foi a minha melhor amiga... aquela que eu podia contar sempre, e depois do que fiz, as pessoas - nossos amigos - viraram as costas para mim. Acabei sozinha. E o resto da história, você já sabe... mas o que importa, agora? Tudo o que eu fiz, tudo o que João fez, por que odiar-me, agora, que já não mais faço parte deste mundo?

Bianca, de olhos bem arregalados, murmurou:

-Vocês me traíram! Eu a tinha como uma irmã!
-Você nunca cometeu erros, Bianca?

Bianca sabia muito bem a que Tamara estava se referindo. Somente ela a conhecia profundamente, e sabia das coisas mesquinhas que tinha feito a fim de ter a sua tão bem-sucedida carreira no mundo dos negócios. E Tamara jamais ficara contra ela, pois jamais a julgara, embora tentasse fazer com que ela percebesse seus erros, de maneira sutil. Ninguém mais sabia das coisas que Tamara sabia! 

Bianca pensou no que sua vida tinha sido: um suceder de erros causados pela sua ambição desmedida e pelo rancor que alimentara durante todos aqueles anos! Olhou para a amiga morta, que ainda estava sentada em seu caixão, numa cena bizarra. Pensou no quanto ela a tinha amparado em seus momentos mais difíceis, quando a culpa pelo que fazia vinha à tona. Somente Tamara fora capaz de ouvi-la e perdoá-la, sem julgá-la, apesar de tentar fazê-la enxergar que havia coisas mais importantes na vida do que uma carreira bem sucedida e dinheiro. 

Perdoou-a, e de todo coração. Assim que ouviu que estava perdoada, Tamara voltou a deitar-se em seu caixão, cruzando as mãos sobre o peito e fechando os olhos, de onde lágrimas ainda brotavam. Seu semblante , antes angustiado, agora era calmo e sereno.

Bianca conseguiu, finalmente, voltar para casa. Quando saiu, logo nas primeiras horas da manhã, a luz do sol infiltrava-se entre as copas das árvores, onde passarinhos cantavam, e ela olhou, pela primeira vez em muitos anos, o movimento de carros e pessoas que iam e vinham, e sentiu-se parte de tudo aquilo; sentiu-se, finalmente, viva! 

Muitas coisas mudaram em sua vida a partir daquela manhã.




Conto dedicado à Lu Chavichioli, pois além de leitora assídua do meu blog de contos, sugeriu que eu escrevesse alguma coisa com um final feliz. Este final feliz é dedicado a você.


5 comentários:

  1. Boa tarde, Ana!
    Um conto envolvente copm um leve toque de suspense.
    Parabéns!

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  2. POOxa, no começo fiquei com medo, inclusive do título rsrsrs, mas depois lendo e compreendendo a essência, concluo que você escreveu outro conto/fábula. Justamente porque no final, Bianca descobriu que a vida é mais importante do que aqueles erros que cometeu, e até proposital (segundo meu entendimento). Bem como a mensagem final que pra mim é a moral da história.

    Very Good my friend!

    Ahh, obrigada pela dedicatória com o final feliz!
    bacios bella

    *fiquei contente que tenha gostado do parecer sobre você e tua obra literária.
    Continue escrevendo minha amiga, porque tua imaginação chega a ser incansável e por vezes inesgotável.*

    LU C.

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  3. Um conto que se torna "fato aos nossos olhos" pela cadência do texto. A mistura perfeita do natural e do sobrenatural dá o toque especial de que a narradora está à nossa frente. Um conto com toda a categoria de Ana Bailune.

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  4. ESTOU PARALISADA AINDA. ADOOOOOOOOOOOREEEEEEIII. VC É REALMENTE DE UM TALENTO INCANSÁVEL, JA SOU VICIADA NA LU C. AGORA GANHASTE UMA NOVA FÃ, E EU VIREI FÃ DE MAIS UMA MARAVILHA, OOOWWW SORTE A MINHA!

    ESTE CONTO EU FIQUEI REALMENTE LOUCA PARA SABER O QUE IA ACONTECER, E SÃO OS MEUS TEMAS PREFERIDOS, SUSPENS, TERROR, FINAL FELIZ, NEM SEMPRE, MAS EU REALMENTE AMEI. MEUS PARABÉNS ANA, VIREI AQUI TODOS OS DIAS.

    E TE CONVIDO A ME CONHECER,

    www.chocolatrasdapoesia.blogspot.com

    www.photoshopearte-patty.blogspot.com

    ESTES SÃO OS QUE MAIS POSTO, TENHO MAIS, MAS NÃO POSTO MAIS NADA. RSRRS. BJS GRANDE.

    PATTY.

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  5. Vamos lendo com ansiedade. Você consegue prender nossa atenção e chegamos a tecer ideias sobre como vai terminar o conto (sem acertar). Demais, Ana!! Bjs.

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