terça-feira, 9 de setembro de 2014

Minhas Tias - Parte VII





Houve um acordo silencioso entre Tia Olga e meu pai, que fez com que ela começasse seu relato, contando a sua versão da história. Enquanto ela falava, eu sentia que a tensão no rosto de meu pai ia magicamente dissolvendo-se aos poucos, e até mesmo seus ombros relaxaram de repente. A antipatia com a qual recebera minha tia também transformou-se em uma expressão aliviada e cooperativa, conforme a história se desenrolava. Achei que talvez a verdade estivesse trazendo-lhe algum alívio, afinal. Ela falava, e ele assentia quando eu olhava para ele. Minha tia falava baixo e pausadamente, para que eu tivesse tempo de absorver toda a história:

-Cara sobrinha, se alguma coisa foi escondida de você durante todos estes anos, foi apenas porque quisemos protegê-la de nossos erros. Tenho uma filha, e acho que faria qualquer coisa para que ela fosse feliz. Portanto, compreendo seu pai e sua... mãe. Bem, me diga o que você sabe para que eu não repita coisas desnecessárias.

Respirei fundo, tentando lembrar-me das histórias que meu pai contara. As memórias vinham caminhando devagar, e as cenas desdobravam-se diante dos meus olhos.

-Bem, seu sei que meu pai e minha mãe conheceram-se em um teatro, durante uma ópera, e se apaixonaram perdidamente. E sei que minha mãe sofreu muito, a vida toda, por causa de algum segredo de família que  todos escondem. Sei também que as irmãs - vocês e minha mãe - não se falam há muitos anos, que você adora cozinhar, que possui restaurantes no mundo todo, que Tia Rosana é uma grande pintora de fama internacional... e tem dons mediúnicos, segundo papai...e que minha mãe escrevia poemas que eu nunca li. E nunca quis ler, desde que ela morreu, pois acho que ficaria muito triste. Sei que meus pais se amavam profundamente. Sei que  Tia Diana era a mais rebelde das irmãs, teve muitos namorados, e sabia tecer. Dela, nada mais sei. E isso é tudo o que eu sei...

Ela ergueu as sobrancelhas, e meu pai e ela se entreolharam. 

-Pois bem, querida. Acontece que todas nós... todas as irmãs ... 

Ela lutava para encontrar as palavras certas.

-Bem, a verdade é que seu pai namorou todas nós. Por isso houve tantos desentendimentos. Por isso sua mãe rompeu conosco. Por esta razão passamos anos sem nos ver ou nos falar. Seu pai não queria que você soubesse por motivos óbvios, ele se sente culpado, pois sua mãe ficou muito deprimida quando descobriu tudo.

-Mas... foi isso?

Então era aquilo? Amores de juventude?

-Sim! E não. Seu pai teve um caso com uma de nós quando já estava casado com sua mãe. Bem, eu fui a primeira namorada dele, a primeira que ele conheceu, e com quem ficou durante apenas um mês, até que ele conheceu as outras. Nós não estávamos tão apaixonados assim, mas nunca é confortável perder um namorado para uma de suas irmãs! Imagine, fiquei muito aborrecida.

-E para qual delas você perdeu papai?

Ela e papai se entreolharam novamente, e ela corou:

-Para... sua mãe.

Tentei pensar um pouco sobre a história. Não era tão grave quanto eu pensava. Pessoas muito jovens apaixonam-se e desapaixonam-se. Ainda mais quando se trata de mulheres lindas como as irmãs, e de um homem tão desejável quanto meu pai. Triângulos amorosos podem acontecer.

-Mas então... meus pais se casaram, e ele namorou minhas duas outras tias?
-Bem, uma delas ele não namorou. Apenas ficaram uma noite juntos.
-Com qual delas, pai?

Ele gaguejou:

-Com... com sua tia Diana. Pa... passamos uma noite juntos. É isso. Depois de casar-me com sua mãe, e depois mantive um relacionamento paralelo com sua outra tia.
-Por quanto tempo?
-Alguns meses...

O rosto dele tornou-se melancólico, e lágrimas brotaram de seus olhos. Logo, estávamos os três chorando.

Abracei-o, penalizada pelo seu embaraço. Tia Olga continuou:

-Isto é tudo. O resto, as consequências, você já sabe. 
-Mas... por que minha mãe sentia-se tão culpada ao ponto de ter sido infeliz a vida toda, se quem foi traída foi ela?

Tia Olga pareceu levemente embaraçada:
-Bem, ela praticamente roubou seu pai de mim...sem o menor escrúpulo. Fui a primeira a deixar de falar com ela.
-Mas... e Tia Rosana? Ela também sentiu-e culpada?

Mais uma vez, os dois se entreolharam, e tia Olga respondeu:

-Sim... todas nós nos sentimos mal, no fim das contas.

Meu pai murmurou:

-Perdoe-me filha, mas sinto-me muito envergonhado por tudo isso...
-Não há o que perdoar, pai... e já faz tanto tempo...

Nana acenou-nos da varanda, chamando a todos novamente para o café da tarde. Tia Olga olhou seu relógio de pulso, dizendo:

-Fica para uma outra vez. 

E virando-se para mim:

-Gostaria de conhecer sua prima?
-Mas é claro!
-Então venha passar algum tempo comigo. Vou ensiná-la a cozinhar um prato muito especial.
-Mas acabo de voltar de uma viagem! Acho que não poderei viajar por enquanto. Preciso voltar aos meus estudos, decidir sobre a faculdade...
-Bem, então telefonarei à minha filha Luiza e pedirei que ela venha ao Brasil. Ainda vou ficar aqui por um ou dois meses. Gostaria que ela viesse?
-Sim, muito! E adoraria aprender a fazer este prato que você deseja tanto que eu aprenda! mas por que ele é tão especial?
-Ela segurou meu braço, e fomos caminhando para o portão juntas, meu pai um pouco mais afastado:

-Porque é através dele que você conhecerá o homem de sua vida. Um dia, você estará em um restaurante, e ele pedirá este prato. Quando isto acontecer, fique bem atenta!

Eu ri bem alto:

-Ora, pensei que Tia Rosana fizesse as profecias na família!

-É verdade - ela riu. -Mas eu também. Cozinhar torna-me bem mais sensível. O ato de mexer a comida às vezes me deixa em transe... 

Achei aquilo estranho, mas lembrei-me de que tratando-se de minhas tias, nada poderia ser considerado muito estranho.

Todos rimos. Ao portão, meu pai apertou-lhe a mão e agradeceu-a, olhando-a profundamente nos olhos. Desculpou-se por ter sido grosseiro, e tia Olga sorriu-lhe de volta, pedindo a ele que deixasse para lá. 

O sol já tinha se escondido por trás das montanhas quando tia Olga se foi. Fiquei algum tempo ainda olhando a poeira do seu carro, que se afastava, e feliz por saber que ela voltaria.

(continua...)


3 comentários:

  1. gostei muito desta parte.
    que interessante!
    espero então a continuação.
    beijo
    :)

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  2. Sempre didáctico as suas publicações. Continuarei a acompanhar

    Deixo cumprimentos
    ......
    Estou aqui:
    http://pensamentosedevaneiosdoaguialivre.blogspot.pt/

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  3. Bom dia Ana.. muito bem detalhados os fatos.. e como se vê coisas assim nos dias de hj..
    cada familia é uma história cheia de segredos.. por vezes brigas.. amores e intrigas.. te desejo um lindo dia abração

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