segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Minhas Tias - Parte XI




Acordei com o rosto preocupado de meu pai debruçando-se sobre mim, e Tia Olga me estendia um copo d'água com açúcar enquanto Nana, alarmada, abanava-me com uma revista. Quando me sentei, garantindo a todos que estava bem, meu pai repetiu a pergunta que havia feito antes de meu desmaio: "Onde você encontrou este pacote, filha?

Encarei-os, com ar desafiador:

-Você sabe muito bem o que ele contém, não é mesmo? Assim como vocês duas também! Ele contém uma linda manta confeccionada pelas mãos da minha verdadeira mãe!

Tia Olga levou a mão à boca, e Nana baixou os olhos. Meu pai, alarmado, deixou escorrer uma lágrima:

-Mas como você soube?
-E vocês pensaram que poderiam esconder a verdade sobre minha verdadeira história a vida toda?

Tia Olga gaguejou:

-Não, querida... nós só queríamos protegê-la desta história... mas... mas quem contou-lhe a verdade?

-Ainda não sei de toda a verdade, e só direi quem me contou o que sei quando vocês me disserem qual é a minha verdadeira história.

Tia Olga e Nana sentaram-se, e depositei o copo com água e açúcar sobre a mesa, após tomar um gole. Elas olharam para meu pai, e ele entendeu que cabia a ele aquela narrativa. Respirando fundo, meu pai cruzou as mãos em frente aos joelhos e começou a sua - a nossa - história. Ouvi tudo, sem interrompê-lo, e tia Olga assentia com a cabeça, enquanto Nana enxugava algumas lágrimas furtivas de vez em quando.

-Bem, Alana... o que eu contei sobre como conheci sua mãe, a história de nosso amor, é verdadeira. Eu falava de Diana, sua verdadeira mãe. Nós nos conhecemos quando eu ainda namorava sua tia Olga, e terminei tudo com Olga para ficar com ela. Nos casamos como você já sabe... mas eu estive dividido o tempo todo entre ela e aquela que a criou, que você acreditou ser a sua verdadeira mãe, na verdade, sua tia Sarah. Eu amava as duas. Não tinha culpa, o sentimento que eu tinha por elas era forte demais e eu não consegui fugir dele, e nem elas. Fiz o possível para ser fiel à Diana, mas Sarah não desistiu de mim, e não me deixou desistir dela. Como você, ela acreditava que não se desistia de um amor verdadeiro, e que deveríamos lutar por ele até o final, doesse a quem doesse. Este pensamento parece ser partilhado por todas as mulheres da família...

Tia Olga enrubesceu, ao dizer:

-É... dividimos não só este pensamento, como também você, meu caro Rodrigo...

Meu pai olhou-a com carinho. O tempo todo, eu notava os olhares apaixonados de nana. Apaixonados e desesperançosos, de uma mulher que aguardou pelo impossível a vida toda, sem qualquer esperança. 

Meu pai continuou sua história:

-Bem, neste entremeio, dividido do jeito que eu estava, ainda chegou-me sua bela Tia Rosana... conheci-a quando já estava casado com sua mãe, pois ela estivera estudando artes em paris, e apaixonamo-nos de imediato. Vivemos um romance tórrido e breve. Foi quando sua mãe descobriu toda a verdade sobre nós.

-Tia Diana... digo, minha mãe descobriu seu relacionamento com todas as outras irmãs?

-Não; no início, ela ficou sabendo de Rosana, mas depois que desmanchamos e ela voltou à Paris, ainda mantive o relacionamento com aquela a quem eu verdadeiramente amava: Sarah. Mas nós fazíamos tudo com muito cuidado, pois não queríamos magoar Diana. Até que um dia, não resistimos mais nos encontrar às escondidas como dois criminosos, e nós dois chamamos Diana para uma conversa e confessamos tudo. Naquele momento, que foi um dos mais difíceis de minha vida, eu estava cheio de arrependimento e culpa... mas se quiséssemos ser honestos com todos, era preciso confessar a verdade!

Só não contávamos com o que Diana tinha a nos dizer: ela estava grávida. De você. Foi um momento desesperador! Mas Sarah foi muito firme, e as duas tiveram uma enorme briga...Sarah disse que não desistiria de mim, e fiquei ao lado dela. Achávamos que um bebê não deveria ser empecilho à nossa felicidade. 

Mudamo-nos para nossa própria casa, e a gravidez de Diana foi adiante. Acompanhei-a em tudo, nunca deixei que faltasse nada a ela... ela recusava-se a ver-me. mesmo assim, eu sempre escrevia-lhe cartas, pensando que um dia pudéssemos ser amigos e que ela me perdoaria... triste ilusão de juventude... Como alguém poderia perdoar o que nós tínhamos feito? Eu a traíra com suas irmãs! Com todas elas...

Naquele momento, meu pai parou. As lembranças e a culpa do que tinha feito ainda queimavam-lhe a alma. Senti muita pena dele. Afinal, a vida pode dar voltas inesperadas, e levar-nos a caminhos estreitos e decisões difíceis. Ele continuou:

-Bem... quando você nasceu, ela impediu-me de visitá-la no hospital. Plantou seguranças à porta para que eu não entrasse. Acho que ela enlouqueceu, pois era vista andando descalça na rua. Tentei ficar com sua guarda, arranjando um bom advogado - e logo consegui, pois aleguei a insanidade da mãe. E eu estava certo, pois logo depois, ela precisou ser internada em uma clínica, e sua tia Rosana levou-a a Paris para cuidar melhor dela. Ela parecia estar melhorando, mas um dia, o inesperado aconteceu: quando estava de viagem marcada de volta ao Brasil, juntamente com sua tia Rosana para ver você, Diana matou-se. Deixou uma carta à irmã e esta manta, pedindo que a entregasse a você - mas algo ainda mais terrível aconteceu...

O impacto daquela história chocou-me profundamente. Comecei a chorar de pena de minha verdadeira mãe... agora eu finalmente entendia o porquê da depressão profunda daquela que acreditei ser minha mãe! O sentimento de culpa, o pânico, o pavor de carregar sempre uma história com um final medonho como aquele: o suicídio da própria irmã, cujo amor ela roubara! Meu pai olhou-me tristemente. Nana e tia Olga choravam. Ele continuou:

-Depois de tudo, resolvemos que seria adequado criar você como se fosse filha legítima de Sarah. 

-Então foi por isso que ela não saía de casa... vergonha!

-Exatamente... embora as pessoas não soubessem de toda a verdade. Todos acreditam que  Diana morreu no mesmo acidente de avião que matou sua tia Rosana... fizemos tudo para que a história fosse abafada, e conseguimos.

Algo estava errado... minha mente dava saltos... devagarinho, percebi o que estava errado, o que não se encaixava naquela história toda: meu pai acabara de dizer que Tia Rosana - aquela, que pintou meu retrato e entregou-me a manta que minha mãe confeccionara para mim, tinha morrido em um acidente de avião há anos! Como em um filme de terror, ainda ouvi tia Olga perguntar-me:

-Agora, querida, conte-nos como você conseguiu esta manta, já que quando sua tia Rosana a enviou para o Brasil antes de embarcar em sua última viagem, nós a recebemos e escondemos em um cofre de banco sem que Sarah soubesse.

(continua...)






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