sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Minhas Tias - Parte VIII





MINHAS TIAS – PARTE VIII

Na manhã seguinte, após o café, saí de casa e dirigi-me para a casa de Tia Rosana, pois queria muito contar-lhe as novidades. Lá chegando, fui recebida com o mesmo carinho e atenção dos outros dias, e ela comentou que já terminara o esboço do retrato e tinha começado os acabamentos. Achei que ela trabalhava rápido, pois eu só posara para ela durante dois dias.

Era estranho, mas toda vez que eu entrava na casa de Tia Rosana, tinha a impressão de que o mundo todo ficava lá fora, isolado, em algum canto, e que nós duas estávamos completamente sós. Reparei que não passavam carros na rua; assim que eu entrava, a única coisa que eu escutava era o canto dos passarinhos no jardim. As flores eram todas muito bonitas e de cores suaves, mas a não ser pelas roseiras de uma pálida cor creme, eu não conhecia as outras espécies de flores.

Estávamos ambas à janela, apreciando as flores, e eu comentei que não conhecia  maioria delas. Ela sorriu de leve, dizendo que eram de outros países distantes,  e que um dia talvez eu viesse a visitá-los. Eu ficava sempre surpreendida com a beleza de tia Rosana, e o quanto ela parecia jovem, bem mais jovem que mamãe e tia Olga, embora ela fosse a mais velha das irmãs. Após conversarmos por alguns minutos, decidi contar-lhe as novidades:

-Tia Rosana, adivinhe quem nos visitou ontem? Cheguei em casa e ela estava lá, passou o dia todo conosco.
Ela me olhou por alguns segundos, intrigada; de repente, vi que seu sorriso murchou. Ao perguntar-me quem tinha nos visitados, eu notei que ela já sabia da resposta; mesmo assim, eu respondi.
Tia Rosana deixou-me à janela, e foi sentar-se no sofá, muito pálida. Fiquei preocupada, e sentei-me ao seu lado. Lá fora, nuvens escuras encobriram a luz vívida do sol, e trovões soaram ao longe. Comentei, olhando o movimento das nuvens no céu, que parecia que ia chover a qualquer momento. Ela pareceu despertar de um curto transe, e balançando negativamente a cabeça, fez um rápido gesto com a mão. Por incrível que pareça, as nuvens se dissiparam rapidamente após aquilo. Perguntou-me, parecendo mais calma:
-Sobre o que conversaram?

-Ela contou-me a verdade, tia Rosana. Sobre meu pai e vocês... contou-me que foi a primeira namorada de papai, e que depois disso, quando ele conheceu minha mãe, deixou-a para ficar com ela; mas papai teve uma rápida aventura com tia Diana, o que deixou mamãe furiosa. Mesmo assim, eles se casaram. Mas papai manteve um caso com... você.

Ela ergueu-se do sofá, parecendo furiosa. As nuvens voltaram a encobrir o céu antes claro.
-Mentiras! É tudo o que eles contam sempre, sobre tudo! É tudo o que sabem fazer... contar mentiras!
Um trovão cortou o silêncio da tarde. Os pássaros calaram-se, e começou a chover muito forte. As gotas de chuva batiam no parapeito da janela, resvalando para o chão de linóleo. Levantei-me para fechar a janela, e intrigada, perguntei-lhe o que ela queria dizer.
Ela cruzou a sala, e num gesto rápido e zangado, retirou o pano que cobria o retrato que ela estava pintando. Tentei aproximar-me para ver melhor, mas ela me impediu, dizendo:

-Alana, está na hora de deixar seu pai saber que você e eu nos conhecemos, e que é aqui que tem passado as últimas manhãs...
Ela hesitou. Respirou profundamente, e sentou-se, cobrindo o rosto com as mãos. Aproximei-me dela, abraçando-a para que se acalmasse.

-Não... ainda não. Haja como se estivesse tudo bem, Alana. 

Ela ergueu o rosto para olhar para mim, e o azul de seus olhos estava cinzento. A chuva lá fora diminuíra, e as nuvens dissipavam-se mais uma vez.

-Mas tia Rosana, eu não entendo... então a história que me contaram é mentira?!

Ela assentiu com a cabeça. Mas segurando-me as mãos, suplicou-me:
-Mas deixe que eles pensem que você acredita neles por enquanto, Alana. Logo – prometo – terão uma bela surpresa. E olhe, não fique contra eles, pois eu sei – tenho certeza – que se mentiram para você novamente, é porque tentam protegê-la. Não o fazem por maldade.

Notei que os passarinhos voltaram a cantar lá fora. O sol já brilhava, seus raios entravam pela janela e partiam-se em um belo arco-íris ao passar pela vidraça de cristal. Ela suplicou-me:

-Por favor, confie em mim.
-Mas tia...
-Preciso que você confie em mim. Por favor...

Concordei com ela. Naquele dia, ela não trabalhou no retrato. Disse que não seria necessário, e que ele logo estaria pronto. Talvez no dia seguinte. Quando saí, a chuva havia terminado. Conforme eu me afastava da casa, via que o chão sob meus pés ia ficando seco, e que parecia que chovera apenas naquela parte da rua.
Cheguei em casa, e sentei-me à mesa da cozinha enquanto Nana trabalhava no fogão. Ela andava pela cozinha totalmente senhora de si, e ás vezes, cantarolava. 

Observando-a melhor, vi que Nana ainda era uma bela mulher, apesar de já estar passando dos cinquenta anos, e que dedicar todos os anos de sua vida à minha família daquela maneira deveria significar que ela amava muito meu pai. Pensei: cinco mulheres absolutamente fascinadas por um homem, ao ponto de se afastarem umas das outras por causa dele, e de criarem uma mentira que destruiu-lhes as vidas.  Uma destas mulheres, tão dedicada e amorosa que abriu mão de sua vida a fim de cuidar de sua esposa e filha! Naquele momento, amei Nana ainda mais.

Ela me olhou:

-Por que está me olhando assim, menina?

Suspirei:

-Porque eu a amo muito, Nana. Você sabe disto, não?

Ela corou de satisfação, e vindo até minha cadeira, abraçou-me, acariciando meus cabelos:
-Eu sei sim, minha menina. Você nem imagina o quanto... seria capaz de qualquer coisa para vê-la feliz. É como se fosse a minha própria filha.
-Posso fazer-lhe uma pergunta?
-É claro, meu bem...
-Você é apaixonada pelo meu pai também, não é? Quero dizer, todos esses anos...

Ela hesitou antes de responder, a sua mão ficando parada sobre minha cabeça. Senti que ela respirava fundo. 

-Bem, você já tem dezessete anos, e percebe muito bem as coisas, Alana. Como eu poderia dizer que não? Sim, é verdade. Eu amo seu pai. Mas amo você e amei sua mãe. Eu jamais faria qualquer coisa para tentar ficar entre os dois.

Levantei-me, e segurei seu queixo, obrigando-a a olhar para mim:
-Mas minha mãe está morta agora, Nana.

Ela sorriu tristemente:

-Seu pai jamais me olhou como olhava para ela. Ele não sente, nunca sentiu ou sentirá nada por mim.

Uma ideia louca passou-me pela cabeça:

-Mas você e ele também... quero dizer...vocês dois já?...

Ela riu alto:

-Oh, não, não... sou sete anos mais velha que ele. Acho que ele sempre me viu como uma matrona envelhecida, a empregada da casa, só isso. 

-Não! Está enganada, ele tem muita consideração e carinho por você, Nana.
-Sim, eu sei... mas é só o que ele tem por mim. Mas minha menina, quando a gente ama alguém de verdade, pouco importa se esta pessoa nos ama de volta. O que realmente tem importância, é ficar o mais perto desta pessoa, e vê-la feliz, mesmo que seja nos braços de outro alguém.

Discordei veementemente:

-Ah, eu não penso assim. Se eu amasse alguém investiria fundo nele. Faria de tudo para que ele ficasse comigo, e talvez por este motivo eu entenda o que aconteceu entre meu pai e minhas tias: elas investiram no amor que sentiam.
-E para quê? Apenas uma delas ficou com ele, e a família se dissolveu! Tanta dor, tanta solidão... será que valeu a pena? A isto, eu chamo de egoísmo! Não se deve nunca disputar o amor de alguém. Ele tem que ser espontâneo, pois só assim será verdadeiro. A paixão causa sempre muitas desgraças. A disputa por um coração apenas separa as pessoas e causa infelicidade.

Olhei pela janela da cozinha, e vi que a manhã já avançava, e logo seria hora do almoço.

 Naquela época, não consegui perceber a sabedoria nas palavras de Nana. Pensei que seria inútil discutir com ela um assunto sobre o qual eu já tinha a minha opinião formada: se um dia me apaixonasse por alguém, lutaria por ele, fossem quais fossem as condições! Mudando de assunto, perguntei:

-Nana... onde está meu pai?
-Ele deu uma saída, mas disse que não demora. Por que?
-Nada não... é que já está quase na hora do almoço, e ele sempre está em casa a esta hora.
-Hum... mas ele costuma sair quase todas as manhãs também. Vamos lá, desembuche: por que perguntou por ele?

Eu tentei disfarçar meus pensamentos, mas Nana conhecia-me bem demais. Acabei confessando, apesar de temer magoá-la:

-Sei lá, eu pensei que talvez... ele pudesse estar com tia Olga. Porque ontem, depois da nossa conversa, os dois pareceram ficar amigos de novo. Ele foi tão hostil quando ela chegou!
-Seu pai estava apenas com medo, Alana. Temia sua reação. Só isso. E ele não tem nada com sua tia Olga, tire isso da cabeça. Conheço seu pai muito bem, e conheço Olga, que hoje está casada, tem uma filha e mora fora do Brasil há muitos anos. E como ela mesma disse, tiveram apenas um namoro passageiro, nem chegaram a se apaixonar um pelo outro.
-Isso é o que ela diz...

Ela evitou olhar-me de frente, apesar de eu procurar os olhos dela. Ficou picando alguns legumes que estavam sobre a tábua, na pia. Respirei fundo:

-Nana, eu sei que eles mentiram, mas não conte a ele.

Ela largou a faca, me olhando de repente:

-Do que você está falando, menina?

-Eu sei que a história que me contaram é mentira. Ou pelo menos, não é totalmente verdadeira...
-Tire estas bobagens da cabeça, Alana. Por que mentiriam para você?
-E por que mentiram todos esses anos? Para me protegerem? Não; para protegerem a eles mesmos, Nana!

Ela caminhou até a geladeira e abriu a porta, fingindo procurar alguma coisa lá dentro, mas eu sabia que estava apenas evitando me encarar.

-Você não sabe o que está falando.

-Sei sim, e você também sabe, Nana. Você sabe tudo o que acontece nessa casa.

-Olha, eu vim para cá depois que você nasceu. Não sei de tudo, como você está dizendo.

Andei até ela, e fechei a porta da geladeira, obrigando-a a me olhar:

-Mas as coisas aconteceram depois que eu nasci, e você sabe muito bem disso.

-Não! Elas aconteceram antes de você nascer...

Fez-se silêncio na cozinha, e Nana caiu em si, notando que falara mais do que devia. Ela sabia que eu não a deixaria em paz até que me contasse tudo. Mas naquele instante, eu me lembrei do pedido de Tia Rosana: fingir que estava tudo bem, e confiar nela. Escutei a porta da frente sendo aberta. Meu pai chegava em casa. Olhei para Nana, e abraçando-a, pedi-lhe desculpas. Sabia que a colocara em uma situação difícil e incômoda.

Meu pai adentrou a cozinha assoviando. Parecia mais moço, desde a visita de Tia Olga. Foi logo anunciando:

-Tenho boas notícias para você, filha. Estive com sua tia Olga, e ela disse que sua prima chega amanhã para passar uns dias com você.

(continua...)



Um comentário:

  1. Sempre histórias maravilhosas de ler...
    .
    Desejo bom fim de semana com muita Paz, saúde e amor
    .
    Querendo, visite(m)-me ...eu gostava
    .
    http://pensamentosedevaneiosdoaguialivre.blogspot.pt/

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