quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Minhas Tias - Parte X





A notícia da viagem antecipada de Tia Olga causou uma mudança nos planos de tia Rosana. Ao saber da viagem, ela permaneceu calada por algum tempo, como se estivesse determinando o que fazer. Após pensar, andando de um lado ao outro de sua sala, iluminada pelos raios fracos do sol da manhã, ela anunciou:

-Alana, será preciso antecipar meus planos, ou eles terão que ser adiados indefinidamente, e eu não tenho mais tempo.

Fiquei feliz. Finalmente, eu ia saber de toda a verdade! Perguntei-lhe:

-Você vai me contar tudo agora, tia Rosana?

-Vou mostrar uma coisa a você, Alana.

Pensei que ela fosse finalmente mostrar-me o retrato que pintara de mim e minha mãe, mas ao invés disso, ela desapareceu pelo corredor e voltou trazendo uma caixa pequena. Sentou-se no sofá e convidando-me para sentar ao lado dela, abriu-a. Havia fotos e alguns documentos na caixa. Notei que algumas delas eram iguais as que eu tinha em casa, no antigo álbum de família que costumava olhar quando criança, e outras eram diferentes. Ela remexia as fotografias, até que encontrou um pequeno rolo de papel amarelado, que me entregou. Abri-o; era uma certidão de nascimento. Comecei a ler, e vi que se tratava da minha certidão de nascimento, mas o nome de minha mãe era diferente do que constava na certidão que eu tinha em casa! Naquele papel, o nome de minha mãe não era Sarah; era Diana!

Senti meu coração bater em minha garganta. Como poderia ser verdade? Minha mãe era Sarah, pelo menos, foi a mãe que eu conheci! Diana era minha tia, a que eu nunca vira! Olhei para tia Rosana. Achei-lhe muito pálida naquele momento. Corri para o retrato que ela pintara, descobrindo-o, e lá estávamos eu e a estranha que ela dizia ser minha mãe, ambas pintadas de frente uma para a outra à janela daquela casa, a luz diáfana da manhã iluminando nossos perfis. No rosto de Diana - aquela que tia Rosana dizia ser a minha mãe - li uma angústia indizível... Realmente, constatei, minha tia era excelente pintora, e conseguiu captar um omento que ainda não acontecera- e seria quando eu e minha verdadeira mãe estivéssemos frente a frente pela primeira vez.

Tia Rosana deixou que eu absorvesse os últimos acontecimentos, enquanto servia-me uma xícara de chá em silêncio. Tomei um pequeno gole da bebida esverdeada e límpida que ela me oferecera, e um sabor refrescante desceu pela minha garganta. Imediatamente, senti-me melhor, como se a dureza da angústia que petrificara-se em meu peito começasse a dissolver-se de repente. E foi então que as perguntas começaram a surgir, uma a uma, dançando em volta de minha cabeça. Entre elas, uma destacou-se:

-Então... minha verdadeira mãe está viva?!

Tia Rosana pareceu imensamente triste e cansada. Como em um sonho, vi quando ela lentamente negou com um gesto de cabeça. Depois, segurando minha mão entre suas mãos brancas e frias, ela disse:

-Não da maneira como você gostaria, querida sobrinha...

-Não entendo...

-Sua mãe... Diana morreu um mês após você nascer. Mas acredite em mim: ela ainda vive, assim como ainda vivem todos aqueles que se foram antes. A morte não determina o fim da vida, é apenas uma passagem para uma nova verdade. Pode ser que não acredite em mim agora, mas mais tarde, você vai lembrar-se deste momento, e saberá que é verdade. Você vai chorar agora, mas depois voltará a sorrir.

Eu não acreditava em nada daquilo. Sempre fora materialista. Meus pais não me ensinaram nada sobre religião, e como estudasse em uma escola laica, nunca tinha parado para pensar naquelas coisas. para mim, a morte era o fecho que trancava alguém longe dos que o amavam para sempre. alguém que deixara de existir, simplesmente. O que eu aprendera, convivendo com Sarah - a mulher que eu acreditara ser minha mãe - é que a vida pode ser muito triste, na maior parte do tempo. Aprendi que os pequenos momentos de alegria, por mais fugidios que fossem, deveriam ser intensamente vividos, pois duravam muito pouco. Aprendi que as pessoas eram cheias de segredos, pois temiam ser julgadas pelas outras. Aprendi que a morte chegava sempre inesperadamente, mas que na verdade, todos a carregávamos no bolso desde o nascimento.

Muitas coisas passavam pela minha cabeça naquele momento. Depositei a xícara sobre a mesinha. Tia Rosana estava de pé perto de mim, e estendeu-me um embrulho:

-Sua mãe deixou isto para você.

Peguei o pacote, e comecei a desembrulhá-lo devagar. Era uma colcha muito colorida, maravilhosamente trabalhada por mãos que só poderiam ser de alguém muito especial. As tramas e cores pareciam ter nascido juntas, de tão perfeitas que eram. Pareciam uma fotografia! Bem no meio, havia um sol, e em volta, uma paisagem que logo reconheci: a casa onde eu morava! Ali estavam o jardim, e o banco sob as roseiras brancas... a fonte... o gramado, as sombras das árvores em vários tons de verde. Ali do outro lado, as frésias. Sempre as frésias...

Estendendo a colcha no chão, segui a trama do desenho com os dedos. Logo ali, quatro meninas brincavam, e reconheci minhas tias e minha mãe. Meu pai estava ao portão, como se chegasse. E eu entendi que quando ele abrisse o portão e entrasse, as vidas daquelas meninas seriam modificadas para sempre, e toda aquela alegria e inocência teriam fim. Eu lia a história daquelas meninas nos desenhos que minha mãe fizera. Nas beiradas da colcha, em azul profundo, a noite chegava em degradé. Uma noite onde a lua, em todas as suas fases, passeava pelas bordas. Olhei para cima, e entre as lágrimas, avistei minha tia me olhando ternamente. Ela ajoelhou-se ao meu lado, passando a mão devagar sobre a colcha. as fibras moveram-se ao seu toque, revelando um fundo com as cores de um arco-íris. Então percebi que havia um desenho sob o desenho principal, e eram as cores de um lindo arco-íris, cobrindo toda a extensão da colcha! Como era possível que alguém tivesse feito algo tão belo?

 Tia Rosana disse:

-Sei que ainda há perguntas a serem respondidas, querida. Mas é dever de seu pai respondê-las. E de Olga, já que ela também fez parte desta trama. Mas quero que saiba que a intenção de ambos foi a melhor possível. Queriam realmente protegê-la desta história dolorida. Como se fosse possível inventar novas verdades e plantá-las pelo jardim da vida como se fossem simples flores... não; a verdade sempre brotará, e prevalecerá sobre as flores plantadas de maneira artificial, sufocando-as. Não importa quanto tempo leve. Agora enxugue suas lágrimas, e vá para casa. Peça ao seu pai e a Olga que terminem esta história. Isso mesmo... e leve esta colcha, guardando-a com carinho. Sua mãe a teceu para você enquanto estava grávida.

Eu carregava a colcha pela rua com medo de que se desmanchasse, abraçada ao pacote. Carregava a minha história. De alguma maneira, eu sentia que tudo estava chegando a uma conclusão, e eu não sabia ainda se deveria estar alegre ou triste. Eu suspeitava que não mais iria rever minha tia Rosana, e de repente lembrei-me de que deixara o retrato lá... quando saí, esqueci-me totalmente dele. Mas algo me dizia para não voltar, e seguir para casa. 

Quando abri a porta da frente, deparei com Tia Olga e papai sentados no sofá da sala, conversando animadamente, enquanto Nana servia-lhes um café. Ambos olharam para mim quando entrei, e vi que seus sorrisos foram morrendo conforme notavam minha expressão e as lágrimas em meu rosto. Percebi que papai engoliu em seco ao ver o pacote que eu carregava, e logo entendi que aquela não era a primeira vez que ele o via. Nana correu em minha direção, preocupada, ao me ver chorando. Soube naquele instante que ela também conhecia a origem daquele pacote. Vi, como se fosse em câmera lenta, a xícara cair da mão de Tia Olga e espatifar-se no chão, enquanto meu pai se levantava e sua voz distorcida chegava até mim:

-Onde você achou isso, filha?

Depois, senti que tudo escurecia, e acho que fui amparada pelos braços de Nana.


(continua...)



2 comentários:

  1. Bonito de ler...que continue a história

    Deixo cumprimentos.

    Estou por aqui:
    http://pensamentosedevaneiosdoaguialivre.blogspot.pt/

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