quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Minhas Tias - Parte XII - FINAL






Entre os lábios quase fechados, murmurei:

-Vocês acabam de dizer-me que tia Rosana faleceu em um acidente de avião quando voava de Paris para o Brasil... é verdade? Você confirmaram isso? Não há a possibilidade de que a morte dela tenha sido um engano? Porque todo mundo sabe que é muito difícil identificar os corpos após a morte por carbonização...

Meu pai e tia Olga se entreolharam, e foi Nana quem respondeu à minha pergunta:

-Querida, nós temos certeza... foi feita a identificação do corpo através da arcada dentária... e foi encontrado um colar de pequenas esmeraldas junto ao corpo, colar que ela sempre usava. E o corpo não estava totalmente carbonizado. Era possível reconhecer parte das roupas, algumas jóias... e é claro, o DNA. Sua tia Rosana realmente faleceu naquele acidente de avião. Estas identificações são feitas muito cuidadosamente!

Minha cabeça deu um nó cego naquele momento. Levantei-me do sofá, apoiada em meu pai, pois ainda estava um pouco tonta. Já melhor, decidi:

-Sigam-me! Vou mostrar-lhes onde consegui esta manta. Fica a poucos quarteirões daqui. Quem sabe, fui enganada por uma impostora...

Mais uma vez, vi que todos se entreolharam, demonstrando alarme e confusão ao mesmo tempo. Apesar das muitas perguntas, mantive-me calada durante o caminho, e finalmente, chegamos ao portão daquela que eu acreditava ser a casa onde Tia Rosana morava. 

Apontando para a casa, mas sem olhar para ela, eu disse: "Foi aqui que eu e tia Rosana nos encontramos durante as últimas semanas. Nós nos conhecemos quando voltamos de viagem, pai. Naquele dia em que fui levar algumas flores à minha mãe no cemitério. Ela veio caminhando em minha direção... nós nos reconhecemos imediatamente, e ela me trouxe até esta casa..."

Mas quando olhei para dentro do portão, vi apenas uma ruína;  a mesma casa que antes tinha sido belíssima, mas que agora tinha as janelas lacradas por tábuas, e a pintura descascada. O caminho que conduzia à porta, ao invés das flores e do belo jardim, não passava de um matagal confuso. A porta da frente estava encostada. Sem falar com ninguém, e tendo o coração aos pulos, tentando compreender o que acontecia naquele momento e o que acontecera desde o momento em que conhecera tia Rosana, empurrei o portão e entrei. Atrás de mim, meu pai chamou por meu nome várias vezes, mas quando viu que eu não responderia ou voltaria, ele me seguiu, e Nana e tia Olga também.

Entrei na sala, e olhei em volta: apenas uma velha casa vazia. A não ser por um objeto que estava junto à lareira: um cavalete coberto por um pano de cor parda. Caminhei até ele, e lá estava o retrato que minha tia Rosana pintara, onde eu e Diana, minha verdadeira mãe, nos olhávamos à janela daquela mesma casa em algum tempo que ninguém compreendia. A luz difusa da manhã estava sobre nós, dando um ar surreal à cena. Os outros chegaram por trás de mim, e escutei suas exclamações de espanto. Tia Olga estava lívida, e meu pai, branco feito cera, apoiava-se em uma Nana petrificada.

Tia Olga gaguejou:

-Quem... quem pintou este retrato?

Virei-me para eles, dizendo:

-A mesma pessoa que vocês dizem ter morrido naquele acidente: tia Rosana! Ela mesma pintou este retrato durante nossos encontros. 

Meu pai murmurou:

-Não pode ser... isto é impossível!

De repente, algo ocorreu-me:

-Pai... você sabe a quem pertence esta casa?

Ele murmurou:

-Esta casa está fechada há muitos anos... era aqui que eu e sua mãe... digo, sua tia Sarah nos encontrávamos às escondidas. Ela mudou-se para cá a fim de facilitar as coisas para nós. Depois que ficamos juntos, e que tudo aconteceu, nós nos mudamos para a casa onde hoje vivemos, que pertencera à família delas. E esta casa permaneceu trancada, totalmente abandonada... nunca mais conseguimos vir aqui ou fazer qualquer coisa a respeito dela. Ela permaneceu assim durante todos estes anos, trancada, como se guardasse nossos segredos.

Tia Olga deixou escorrer uma lágrima. Nana suspirou. Ninguém tinha uma explicação plausível para o que tinha acontecido. Será que eu tivera uma alucinação?... Mas... e o quadro? Chegando mais perto, tia Olga examinou a pintura:

-Sem dúvida, o estilo é o de Rosana! E a assinatura, inconfundível... foi Rosana quem o pintou! Mas... pode ser que o tenha feito há muitos anos, e que tudo tenha sido simulado!

Nana resolveu a questão. Aproximou-se, cheirando a pintura:

-Não pode ser, pois cheira à tinta fresca. A tela é nova também. Este quadro foi pintado recentemente, e isto é óbvio!

Meu pai assentiu:

-Sim... e eu reconheceria este estilo em qualquer lugar, mesmo sem a assinatura! Será que... ela está viva?!

Enquanto eles discutiam, deixei-me guiar pelo impulso repentino me afastar e de entrar sozinha na cozinha; e foi lá que eu a vi novamente, mas desta vez, como uma aparição transparente. Ela me olhou, enquanto cada fio de pelo de meu corpo arrepiava-se, e sorriu para mim. Ao seu lado, havia uma outra mulher - Diana, minha verdadeira mãe -, que também me sorria, e jogou-me um beijo: imediatamente, eu compreendi (suas palavras vieram à minha cabeça) que ela estivera presa durante muito tempo devido ao seu suicídio, mas que agora estava finalmente livre. Junto a elas, outra forma apareceu: minha outra mãe - na verdade, tia - Sarah. Ela parecia mais jovem, e sua aparência era tão saudável como nunca fora. Ela pediu-me perdão por tudo, e disse que sempre me amou como se eu fosse sua filha verdadeira. Mentalmente, respondi-lhes que eu era uma menina de sorte, pois tinha quatro mães maravilhosas. Então eu me lembrei das mesmas palavras que tia Rosana havia dito quando nos víramos ali pela última vez há apenas algumas horas:

 "A morte não determina o fim da vida, é apenas uma passagem para uma nova verdade. Pode ser que não acredite em mim agora, mas mais tarde, você vai lembrar-se deste momento, e saberá que é verdade. Você vai chorar agora, mas depois voltará a sorrir."

Um ano depois, estávamos em Paris, hospedados em casa de Tia Olga, após o casamento de Nana com papai. Lembrei-me novamente daquela frase, principalmente da última parte: "Você vai voltar a sorrir!", e foi quando, em uma noite em que estávamos todos reunidos - eu, papai, Nana, Tia Olga e meu tio, minha prima Luiza e seu noivo Jean -, em volta da mesa do restaurante de Tia Olga em Paris. Era antevéspera de natal, e todos estávamos comemorando e brindando à família, que reunira-se novamente. Nós ríamos muito, envolvidos pelas bolhas do champanhe que tomávamos, pela atmosfera alegre daquela época, a beleza da cidade e a excelente comida.

De repente, eu escuto, em uma mesa ao lado, uma voz masculina, entre outras tantas vozes que estavam naquele restaurante. Uma voz que tinha algo especial, e que eu escutaria mesmo se estivesse no meio de uma explosão barulhenta de fogos de artifício! Alguém fazia um pedido:

-Camarão com aspargos à moda italiana, por favor.

Olhei para trás, e dei com os olhos dele, o homem da minha vida, que se prenderam aos meus. Ele ergueu sua taça, e eu ergui a minha...


FIM





6 comentários:

  1. Parabéns pelo texto Maravilhoso!!
    Amei ler

    Beijinho e dia feliz
    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  2. Misericórdia miga!!!! Terminei ontem a noite... quer dizer, na madruga, de ler teu conto que pode muito bem ser uma novela. Meus sais...
    Sabe Ana, logo de início eu tive uma impressão de que Alana não era filha de Sarah e que uma de suas irmãs é que era a verdadeira mãe. Isso vc deixou transparecer amiga. Agora, o restante da trama é simplesmente sensacional.
    Gosto demais das pitadas de mistério e sobrenatural que você insere em tuas histórias e olha, eu não via a hora de virar a página pra saber o resto.
    Parabéns mais uma vez por esse trabalho.
    Bj de fã

    Lu C

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  3. Ah, eu falo demais né kkkkk esqueci de dizer que vou fazer uma análise tipo um resumo da tua novela sob minha ótica. Pode ser? Adooooro.

    abraços de primavera

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  4. Gosto tanto do que você escreve, que as vezes parece que quero agradar a você por dizer. Lindos escritos, que no prendem a atenção historias maravilhosas que me dão esperanças, e me acrescentam

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  5. Vengo del blog A Viagen de Evanir y me ha encantado este Rincón de buena vibraciones; por lo cual, si no te importa, me hago seguidor de tu Fascinante Blog.
    Abraços.

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