terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO I






O ANJO NO PORÃO


CAPÍTULO I

Carruagens e alguns automóveis passavam na rua em frente à confeitaria D’Ângelo naquela tarde fria de sábado. Vicentina torcia os dedos sobre a mesa, diante da xícara de chá quase vazia, enquanto olhava o movimento da rua pela vitrine de vidro que separava sua mesa da calçada. As árvores da Praça D. Pedro estendiam sua sombra sobre os transeuntes, e algumas manchas de sol formavam pontos de luz no calçadão da praça. Vicentina olhava as outras mulheres que passeavam, desfilando com suas sombrinhas e saias plissadas, algumas de braços dados com cavalheiros distintos que usavam ternos e chapéus de feltro aparentemente caros. Pensava em sua própria vida, enquanto sentia o medo correr pela sua espinha dorsal como se fosse algum bicho criado em suas próprias entranhas. A ansiedade passava pelo seu coração acelerado e subia pela sua garganta, causando espasmos de nervosismo. Apesar do dia frio, ela suava sob a blusa creme de gola alta e punhos rendados. 
Régis sempre a deixava esperando. Uma bela dama sozinha, sentada à mesa de uma cafeteria, despertava muitos olhares masculinos mal-intencionados, e alguns cochichos femininos. Vicentina já tinha falado sobre aquilo com Régis algumas vezes, e ele sempre prometia que não se atrasaria mais. E jamais cumpria sua promessa. Régis jamais cumpria qualquer promessa, se esta demandasse algum esforço de sua parte, e embora soubesse muito bem disso, Vicentina sempre o perdoava, quando ele chegava e derramava a luz de seus olhos azuis no rosto dela, tirando-lhe o juízo. Ela o perdoava, como se estivesse feliz por ele deixa-la perdoá-lo.

Vicentina viu que um cavalheiro solitário na mesa em frente a dela a olhava fixamente, sem o menor pudor. Sentiu o rosto corar quando viu que ele se levantava, caminhando em direção a ela. Tentou ignorá-lo, mas quando ele estava de pé diante dela, viu-se obrigada a olhá-lo. Ele fez uma leve mesura, e com uma voz que denotava ao mesmo tempo demasiada autoconfiança e uma pitada de arrogância disfarçada de gentileza, ele disse: 
-Fico me perguntando o que uma jovem dama tão bonita estaria fazendo sozinha em uma tarde fria como esta, neste café tão movimentado.
Ela ergueu os olhos, sem saber o que dizer, pois a voz lhe faltou. Foi quando uma voz conhecida sobrepôs-se à frase que ela começava a emoldurar no fundo de sua garganta:
-Ela aguarda seu esposo, cavalheiro. Agora, se nos dá licença...
Vicentina olhou por trás do cavalheiro arrogante, e deu com os olhos faiscante de Régis. O invasor desculpou-se e colocou o chapéu, retirando-se da confeitaria de cabeça erguida e a passos largos. 

Régis sentou-se junto a ela, demonstrando preocupação:
-Ele a molestou?

Ela controlou a voz assustada, e respondeu:
-Nada disso teria acontecido se você chegasse no horário marcado, mas acho que isso é esperar demasiado de você, não é, Régis?

Ele desculpou-se dizendo com um leve tom de impaciência:
-Sinto muito... mas Madame Fonseca deu um almoço para quinze pessoas. Não pude vir mais cedo, já que, como você já sabe, eu sou o copeiro. 

Ela rebateu:
-Se você sabia disso, por que concordou com o horário que eu determinei? Poderíamos nos encontrar mais tarde.

Ele relaxou as feições do rosto, e Vicentina viu o vinco entre as sobrancelhas dele se desmanchando, e o sorriso que ele deu em seguida desmanchou a zanga que ela tentava sustentar.
-Me perdoe, querida. Não voltará a acontecer.

E embora ela soubesse que se tratava de mais uma mentira, acreditou nele. Régis chamou o garçom, pedindo um cálice de licor, e outra xícara de chá e doces para Vicentina. Após o chá, vendo que a tensão no rosto dela não se aliviava, e notando seu gesto nervoso de apertar os dedos das próprias mãos sobre a mesa, Régis indagou:
-Mas vejo que você está muito tensa, Vicentina. O que aconteceu?

Ela enxugou rapidamente uma lágrima que tentava cair, e depois, outra, antes de responder, a voz abafada, com medo de que alguém mais a escutasse, embora no burburinho do salão fosse praticamente impossível escutar o que alguém estaria conversando na outra mesa. Ele a fez repetir, desta vez, chegando a cabeça mais para perto dela, e ela disse mais uma vez:
-Eu estou esperando um filho.

Era o ano de 1935, época em que as mulheres deveriam casar-se virgens, e viver para seus maridos, filhos e lares. Mulheres solteiras grávidas representavam uma desgraça para si mesmas e também para suas famílias, e muitas delas eram expulsas de casa com seus rebentos na barriga, enquanto outras mais abastadas eram afastadas de casa até que parissem suas crias, que eram então colocadas para adoção ou jogadas em internatos, e então a mãe poderia voltar para casa como se nada tivesse acontecido e arranjar rapidamente um bom casamento. 

Vicentina viu o sangue sumir do rosto de Régis. Ela começou novamente a chorar. Algumas pessoas das outras mesas a observavam discretamente, sussurrando comentários umas com as outras. Pelo menos, era o que ela pensava que estaria acontecendo. Sentia-se o alvo de todos os olhares, a vítima de todas as acusações. Uma mulher perdida, de reputação duvidosa, que não mais se encaixaria entre os grupos de senhoras e senhoritas distintas. Talvez passasse a ser disputada por homens de má fama, e quem sabe, teria de vender seu corpo para sobreviver, como faziam as meretrizes de quem sua mãe falava com tanto desdém (Ela mal sabia que estava profetizando sobre si mesma!). Mas tudo aquilo só aconteceria se Régis não quisesse assumir a paternidade de seu bebê, casando-se com ela e dando-lhe seu nome. Vicentina brincava com a renda do punho de sua blusa, evitando encarar Régis. Ele segurou a mão dela, obrigando-a a olhar para ele:

-Não se preocupe, minha querida. Vamos nos casar, tudo será consertado. Providenciarei os papéis. Será uma cerimônia discreta, apenas para os membros de nossas famílias. Alugaremos uma casinha nas Duchas, e seremos felizes.

Ela sentiu que um enorme peso saia de suas costas. Todas as promessas que Régis quebrara até então foram totalmente apagadas de sua memória, e restou, sentado em frente a ela, segurando sua mão, o olhar doce espalhado por toda a superfície do seu rosto, um homem digno de confiança, honrado, responsável, que a amava a cima de tudo. Vicentina conseguiu sorrir. Eles saíram de braços dados, como todos os casais felizes que ela observava com inveja minutos antes, ela mesma, voltando a ser uma daquelas dignas moças de família. 

Régis deixou-a no portão de casa (os pais de Vicentina não o apreciavam), pedindo que mantivesse segredo dos pais por enquanto, e ela prometeu não dizer nada. Tentou mostrar-se tranquilo para ela, mas assim que ela entrou em casa, o desespero que sentia veio à tona. Como poderiam casar-se, se ele era um simples copeiro que morava na ala de empregados da casa onde trabalhava? Além de tudo, não tinha certeza se a amava... lembrou-se da jovem que conhecera no dia anterior, quando caminhava pelos jardins do Museu Imperial... seu nome era Hanna, e ela era descendente de alemães. Falava português com um sotaque carregado, cometendo charmosos erros de pronúncia e gramática. 

Ao chegar em casa, porém, recuperado o seu senso de responsabilidade, anunciou às irmãs, Rosa e Fiorela: “Vou casar-me.” Rosa arregalou os olhos:

-Com quem, se me permite perguntar? Com a mulher do padeiro, ou a tal Hanna que conheceu no museu ainda ontem, ou quem sabe, com ... como é mesmo o nome dela? Vicentina, a filha do dono do mercadinho? Bem, é claro, esqueci-me do nome das outras duas, mas talvez você possa me refrescar a memória.

Ele pareceu zangado:
-Ora, não seja sarcástica, irmã. O sarcasmo não lhe cai bem.

Fiorela interferiu:
-Ela tem razão! Você é um moleque irresponsável quando se trata de mulheres, Régis! Vai casar-se com quem? Espero que seja alguém de bem, pois eu e Rosa precisamos também arranjar bons casamentos, já que não temos pais que os providenciem para nós... não acabe com a reputação desta família!

Os três perderam os pais dois anos antes, devido a tuberculose, e desde então, Régis passou a viver na mansão de seus patrões, pois não era conveniente que continuasse a viver sozinho com as irmãs. Dulce, uma velha tia viúva do Rio de Janeiro, passou a viver com elas, mas teve um mal súbito e faleceu um ano depois de mudar-se.

Ele parou em frente ao espelho, e alisando o cabelo com a mão espalmada, retrucou:
-Pois vou casar-me com a mais bela de todas: Vicentina!

Rosa revirou os olhos:
-A filha do dono do mercadinho... bem, pelo menos dizem que é moça direita. 

Fiorela zombou:
-Se fosse, não andaria com alguém como nosso irmão.

As duas riram, e Régis saiu, batendo a porta, zangado. 

Naquela noite, não dormiu. Revirava-se de um lado para o outro na estreita cama em seu quartinho gelado na casa dos patrões, e não era por causa do frio petropolitano. Imagens de um homem casado, precocemente envelhecido, gordo, barrigudo e com crianças gritando penduradas em seus braços e pernas de calças, acompanhado de perto por uma mulher gorda e reclamona, não saíam de sua mente, assombrando cada minuto de sua insônia. Em sua imaginação, a linda Vicentina tornara-se uma feia matrona, sem graça, descompensada e irritadiça. Ele lembrou-se de que tinha apenas  vinte e sete anos de idade (naqueles tempos, homens desta idade já estavam casados e com famílias formadas ou formando-se, mas para ele, sentia-se ainda jovem demais para tais responsabilidades). Enganava a si mesmo, dizendo, com orgulho, que antes pretendia tornar-se doutor; mas ninguém o via empenhado em tal tarefa. Procurara um emprego que lhe permitia uma pequenina renda, mas que era suficiente para suas noitadas, e proporcionava-lhe um lugar para onde ele podia voltar de madrugada sem escutar as censuras das irmãs. 

Quando os primeiros raios de sol filtraram-se entre as venezianas do seu minúsculo quartinho, Régis não aguentou mais: fez suas malas às pressas, encaminhou-se para a rodoviária e tomou um ônibus para Niterói, deixando seus problemas para trás – mais uma vez. 

A pobre Vicentina foi expulsa de casa, assim que o pai percebeu seu ventre aumentado. Colocou-a para fora com a roupa do corpo e um casaco, enquanto sua mãe chorosa a tudo observava sem nada poder fazer. Ela perambulou pelas noites frias de Petrópolis, dormindo em lugares de má fama, mas onde era acolhida pelas prostitutas de maneira caridosa e sem perguntas, desde que pagasse com trabalho pelas suas refeições. Finalmente, fixou-se em um deles, onde ela lavava as louças, limpava o salão, encerava as escadarias, polia a prataria. A grande barriga impedia que ela fizesse “outros serviços.” 

O que mais lhe doía, não eram os olhares escandalizados das “boas senhoras petropolitanas,” e nem o abandono dos pais; não era a falta de dinheiro, os sapatos gastos que ela forrava com jornais e que viviam sempre úmidos, ou a sua marcante e sempre presente solidão. Doíam-lhe as suas memórias dos tempos com Régis, doíam-lhe a falta daqueles olhos azuis derramando-se sobre ela, e a falta da  maciez de sua voz mentirosa em seus ouvidos. Vicentina chegou a indagar às irmãs de seu amor sobre por onde ele andava. Foi recebida na cozinha, pela porta dos fundos, para que os vizinhos não a vissem. As duas trataram-na com certa cordialidade, e lamentaram a covardia do irmão. Mas não puderam dar a ela nenhuma informação sobre o paradeiro dele, pois fora embora sem despedir-se delas. Ofereceram-lhe um pouco de dinheiro, e ela aceitou e agradeceu.

Vicentina deixou a casa sentindo-se totalmente perdida, arrasada. Arrastava sua existência pelo mundo sem nenhuma vontade de viver. Chegou a pensar em dar cabo da própria vida, muitas vezes, e se não o fez, não foi pela criança que carregava no ventre, mas porque  faltou-lhe a coragem.
Enquanto isso, a mãe de Vicentina adoeceu e veio a morrer de desgosto – poucos dias antes que Vicentina desse à luz sua filhinha, Regiane. 

Após o parto, as freiras do hospital explicaram que ela e seu bebê não poderiam permanecer ali;  porém, como fossem muito caridosas, deram-lhe ainda mais uma semana para decidir o que faria de sua vida e da vida de sua pequena filha. Findo o prazo estipulado, ela só teve uma saída, ou seja, voltar para o prostíbulo com sua menininha. Diana, a proprietária, ao ver que Vicentina trazia a filha nos braços, logo aceitou-a de volta, e a menina passou a ser mimada por todas as outras moças. 

Dias depois, prevendo os lucros, mas dizendo que era uma oferta vantajosa principalmente para Vicentina,  Diana chamou-a para uma conversa:
-Você agora tem uma filha, uma vida que depende de você. Não pode mais trabalhar em troca de comida e abrigo, Vicentina. Precisa de um trabalho que lhe dê dinheiro.

Vicentina não entendeu a proposta da outra, e em sua inocência, perguntou:
-Você faria isso por mim?

A outra também não entendeu o que Vicentina estava pensando, e respondeu:
-É claro! Será um prazer.
-Então começarei a procurar um trabalho amanhã mesmo, senhora!

Diana ergueu as sobrancelhas:
-O que? Procurar trabalho? Como assim, menina?
-Bem, a senhora se ofereceu para olhar Regiane enquanto eu trabalho... não é?

A prostitua riu alto, negando com a cabeça:
-Você não entendeu! Eu mesma estou lhe oferecendo um trabalho. O que paga mais por aqui. Você terá direito a assistência médica, dentista, cabeleireiro e massagista. Também ganhará algumas roupas de presente, para começar. 

Finalmente, Vicentina entendeu o que Diana queria dizer:
-Mas... você quer que eu... quer que eu...

Ela nem terminou de falar. 

-Vicentina, você é uma bela mulher. Sabia que algumas de minhas meninas conseguiram arranjar bons casamentos por aqui? E há Genara, que é exclusiva do banqueiro... dá-se apenas a ele. Quem sabe, você não tem essa sorte? 

Vicentina sentiu-se escandalizada, e teve ânsias de vômito, mas achou melhor guardar sua indignação para si mesma. Foi sábia e pediu à Diana um tempo para pensar. 
Na manhã seguinte, ela foi de porta em porta pedindo emprego como criada ou faxineira, mas quando as pessoas ficavam sabendo que tratava-se de mãe solteira, batiam-lhe a porta na cara. Alguns ainda zombavam dela, ou ralhavam com ela. 

Cometera um único erro em sua vida, e era praticamente apedrejada por ele. Compreendeu que o seria pelo resto de sua vida. Nunca mais faria parte daquele mundo, o mundo das moças direitas e senhoras distintas. Nenhum homem se casaria com ela. Fora desprezada até mesmo por sua família. Seu irmão passava por ela na rua, e virando a cabeça para o outro lado, cuspia na calçada. Ao passar pelo pai, este assumia uma postura empertigada, olhando sempre para frente, ignorando-a. 
À noite, tomou a decisão mais difícil de sua vida, e foi falar com Diana. 

(CONTINUA...)





3 comentários:

  1. Está linda na foto, Ana!
    Essa história promete, aguardando a continuação...
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. Opa, esse continua me deu coceiras rsrsr.... não demora muito pra postar a segunda parte, tá?

    Logo que vi o título e a imagem, parei e disse: Olha só, mais um conto daqueles que instigam e aguçam a leitura. E cá estou aguardando.

    bacios

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  3. Ana, que história!
    Ah pois é, decidi começar pelo começo, rs...
    As imagens, a roupa, o café, a época me encantaram demais, porém, já estou toda tensa pela situação de Vicentina...
    Amo os teus contos, pois me subtraem deliciosamente para o cenário, parabéns pelo rico começo!

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