quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO II







O ANJO NO PORÃO


CAPÍTULO II



Regiane crescia a olhos vistos. Era mantida nos fundos da casa, e quando a mãe estava trabalhando, a cozinheira tomava conta dela. No começo, Vicentina não conseguia entregar-se aos clientes, até que passou a beber. Quando bebia, era como se assumisse uma outra personalidade, saindo de dentro de si mesma e esperando do lado de fora, enquanto uma outra alma assumia seu corpo. Tornou-se uma das preferidas daquele lugar, e tinha vários clientes em uma só noite. Certa vez, suas regras não vieram por dois meses, e ela viu-se em frente à Diana contando-lhe sobre sua desgraça. Esta mandou que o doutor viesse imediatamente, e ele apenas confirmou suas suspeitas: Vicentina estava grávida novamente!

Diana ficou furiosa. Tantas e tantas vezes tinha ensinado a ela como evitar filhos, e mesmo assim, ela aparecia com mais uma gravidez! Chorando, Vicentina argumentava, dizendo que estava sempre tão embriagada, que nem se dava conta do que acontecia com ela. Diana decretou:

-Você vai tirar essa criança!

Vicentina mostrou-se apavorada; há apenas uma semana, uma das meninas morrera ao fazer um aborto. Não queria morrer, por mais desgraçada que sua vida fosse, pois aprendera a amar sua filha, e não podia imaginar deixá-la sozinha no mundo. Diana, que era durona mas tinha bom coração, ficou em silêncio por algum tempo, e finalmente, falou:

-Então você mandará a criança para minha irmã, em São Paulo. Ela será criada em uma fazenda, comerá do bom e do melhor. Terá uma vida bem melhor que a sua. Você poderá visitar seu filho uma vez por ano, durante as férias. Minha irmã não pode ter filhos, e vai ficar feliz. Mas não diga a ela que tipo de negócio temos por aqui! Ela nem desconfia, pensa que estou trabalhando em casa de família.

E assim foi feito. Vicentina sentiu-se muito triste ao separar-se do filho recém-nascido, mas conformou-se quando Diana ofereceu-se para pagar sua viagem até a fazenda em São Paulo a fim de conhecer seus novos pais, e foi onde ambas deixaram o bebê – um menino que ela batizou como Antônio, pois desconfiava que este era o nome do pai biológico. Dora, irmã de Diana, que ignorava as atividades da irmã em Petrópolis, e recebeu-as com gosto e gentileza, derramando-se em mimos sobre Antônio. O marido também logo apaixonou-se pelo menino. Trabalhavam na fazenda, onde ocupavam uma pequena casa e levavam uma vida simples, mas nada lhes faltava. 

Vicentina despediu-se entre muitas lágrimas. Concordou em mentir sobre sua verdadeira identidade, e assumiu diante do casal a personagem que Diana criou para ela: uma jovem viúva de guerra passando por dificuldades financeiras. Ela achou que seria melhor para o bebê. Durante a viagem, acabou por consolar-se com as palavras de Diana, que disse:

-Pense bem, você fez o melhor por ele. Minha irmã e o marido ficaram muito felizes e o tratarão muito bem, assumindo-o como filho, e ele terá uma boa vida. Que outra vida melhor você poderia oferecer a ele? Se eu fosse você, faria o mesmo a respeito da pequena: daria para adoção!

Aquela última frase indignou Vicentina:

-Jamais! Minha filha há de ficar comigo, e acredito que Deus proverá para que ela cresça feliz e saudável. Não pretendo levar essa vida que levo para sempre, Diana. Um dia, eu terei um lar, e darei um lar digno à minha filha!

Diana suspirou, assumindo uma expressão de incredulidade, e nada mais disse a respeito. Dias depois, Vicentina voltou ao trabalho no bordel.

Certa manhã, por volta das dez horas, quando todas dormiam a fim de recuperar-se da longa noite, as mulheres foram despertadas por fortes batidas na porta da frente. Algumas vestiram seus robes, ajeitando os cabelos com as mãos e prendendo-os em coques no alto da cabeça, seguindo Diana em direção às escadarias de madeira, de onde podiam ver quem as estaria incomodando àquela hora, enquanto outras, como Vicentina, viraram para o lado, continuando a dormir. Diana abriu a porta e deparou com um rapazola pálido que segurava um chapéu, nervosamente. Foi logo explicando:

-Estamos fechados, senhor. Volte mais tarde, após as nove horas.

Já ia fechando a porta, quando ele a empurrou devagar, e perguntou:

-Por favor, senhorita... Vicentina Leme vive nesta casa?

Diana abriu a porta, olhando-o dos pés à cabeça, perguntando:

-Depende... quem é o senhor?

-Por favor... meu nome é Régis Costa. Estou à procura de Vicentina Leme. Ela mora aqui?

Diana logo lembrou-se do nome do cavalheiro que engravidara uma de suas meninas, e que era o pai de Regiane. Sem tentar ser gentil, mandou que ele entrasse e se sentasse, enquanto o fuzilava com o olhar:

-Ela mora aqui, sim. Ela e sua filha, Regiane! Não sei se Vicentina deseja vê-lo novamente. Mas vou perguntar.

E sumiu escadaria Acima. Régis olhou para o topo das escadas e deu com as muitas “meninas” que o observavam, e fez uma leve mesura, erguendo a aba do chapéu e sorrindo-lhes. Elas soltaram gritinhos de satisfação. Uma delas desceu e foi até a cozinha preparar-lhe um café, enquanto as outras, sentadas nos degraus, aguardavam o desfecho da história. 

Súbito, todos escutaram um grito agudo vindo do quarto ocupado por Vicentina, e logo depois, ela desceu as escadas ainda de camisola, esquecendo-se de vestir seu robe, correndo em direção a Régis. Quis abraçá-lo, quis beijá-lo; mas parou diante dele, com lágrimas nos olhos. Ele também parecia muito emocionado, e logo abriu os braços e estreitou-a entre eles. Para Vicentina, foi como se de repente o mundo voltasse a girar da maneira certa novamente, após um longo período de enjoos e tonturas. Para Régis, que já quase arrependera-se de ter voltado (percebeu que Vicentina obviamente tornara-se uma das prostitutas da casa; se ele estava ali, era por pura culpa, e por insistência das irmãs, que achavam que ele deveria assumir a filha, que não deveria pagar pelos erros dos pais) aquele abraço era muito difícil. 

Vicentina nem queria saber por onde ele andara. Não importava que ele a tivesse abandonado, pois afinal de contas, estava de volta. 

Ela afastou-se dele e segurou-lhes as mãos, dizendo:

-Eu sabia, dentro do meu coração, que você voltaria e nos levaria para casa com você!

Régis tentou não magoá-la mais uma vez, e novamente, não disse a ela a verdade: que não a queria de volta, apenas viera pela filha pequena. Ao invés disso, ele improvisou uma história mais suave:

-Sim, querida, mas você há de compreender que eu não tenho onde cair morto... 

Viu a decepção estampada nos olhos dela:

-Certamente, pretendo dar a você e à pequena um lar, mas você precisa ter paciência. Estou ainda trabalhando de copeiro em outra cidade, mas estou economizando, e acredito que em breve...

Vicentina nem esperou que ele terminasse de falar, disposta a crer no que quer que ele pudesse dizer a ela que lhe oferecesse um pouco de esperança. Abraçou-o com força, beijando-o apaixonadamente. As mulheres bateram palmas. Somente Diana parecia impassível, olhando a cena com ares críticos.

Régis olhou no rosto da mãe de sua filha:

-Onde ela está?

Vicentina sorriu:

-Dorme. Mas vamos, quero que você a conheça logo!

Conduziu-o pela cozinha até o quarto da cozinheira, onde a menina dormia em um berço, ao lado da cama da senhora que tomava conta dela, e que dormia profundamente. Régis olhou pela primeira vez o rosto da filha, e sentiu que uma imensa camada de gelo acabava de quebrar-se ao meio em seu peito. Tocou-lhe as bochechas rosadas de leve, e com ternura, sussurrando:

-Qual a idade dela?

-Vai fazer três anos.

-Ela é... linda, absolutamente linda! 

Vicentina pegou-o pela mão, levando-o para fora do quarto. Na mesa da cozinha, aguardavam-nos duas xícaras de café e um prato de biscoitos. As moças tinham sido mandadas de volta aos seus quartos por Diana, e eles estavam a sós. Tomaram o café. Régis parecia faminto, e devorou todos os biscoitos do prato. Confessou que acabara de chegar de viagem, e que não comera no trem porque estava muito nervoso. Vicentina achou melhor contar logo a ele:

-Régis... quando você me deixou, eu... meu pai expulsou-me de casa, e me vi em maus lençóis. Diana acolheu-me, e em troca, eu... bem... você precisa saber que... 

Ele interrompeu-a:

-Não importa. Não diga mais nada. 

Aquelas palavras fizeram com que uma luz brilhasse, deixando o coração de Vicentina aquecido. Régis continuou:

-Como já disse, não tenho condições de tirá-la dessa vida agora; mas farei de você a minha exclusiva. Pagarei para que apenas eu visite seu quarto, você será somente minha. Cuidaremos de nossa filha, e...

Vicentina sentiu as lágrimas quentes de indignação começando a jorrar de seus olhos:

-Está me propondo que eu seja a sua... a sua... prostituta particular?

Ergueu-se da mesa tão depressa, que derrubou a cadeira atrás de si. Régis ergueu-se também, e recolocando a cadeira no lugar, pensou rápido, e disse:

-Não, você não me entendeu, querida... é temporário! Não tenho como acomodá-las em outro lugar, e a proprietária da casa não vai aceitar que você fique aqui de graça, então vou pagar por isso, e serei seu único homem! É como se estivéssemos alugando um quarto na casa, é apenas isso!

Vicentina levou a mão ao peito, aliviada, deixando um sorriso desenhar-se em seu rosto. Régis percebeu que ela acreditaria em qualquer coisa que ele dissesse, e teve pena dela por um momento. A culpa novamente arranhou seu coração. Aproximou-se dela, tentando ser mais terno:

-Estou cansado... vamos subir para o seu... para o nosso quarto, querida? 

E assim foi feito. Passaram dias e dias na cama. Régis recebera por seu período de férias no trabalho conforme combinado com seus patrões, e pagava Diana semanalmente pela exclusividade com Vicentina. De manhãzinha, enquanto as outras dormiam, eles vestiam Regiane com as roupinhas que o pai lhe comprara, e iam passear nos jardins do museu, ou então, empurravam a menina em seu carrinho pelas calçadas da avenida Quinze de Novembro, parando para comer sonhos na Padaria Alemã. Vicentina nunca se sentira tão feliz!

E Régis nunca se sentira tão pressionado!

Amava a menina de todo coração, mas não sentia o mesmo em relação à mãe. Dormiam juntos, e quando isso acontecia, era muito bom, mas quando pensava nas centenas de outros homens que já haviam passado por aquela mesma cama, sentia um certo asco, o que não acontecia ao olhar Vicentina como se ela fosse apenas uma prostituta comum. Sabia, em seu coração, que não conseguiria casar-se com ela. Não poderia fazer dela a sua esposa. Tentava pensar no que poderia dizer-lhe quando a hora de voltar a Niterói e reassumir seu trabalho chegasse. Pretendia levar a menina e colocá-la aos cuidados de suas irmãs, ou quem sabe, pagar alguém para tomar conta dela em Niterói, mas não queria a mãe por perto. O que faria?

Tentava aparentar que amava Vicentina, enchendo-a de mimos e cuidados. Comprava-lhe vestidos finos, do tipo que as senhoras distintas usavam, e andava com ela pelas ruas de braços dados, mas sempre que percebia uma pessoa conhecida olhando para eles, sentia vergonha. 

Enquanto isso, Rosa, sua irmã, estava comprometida com o filho de um rico médico local, de família muito tradicional. Estavam noivos, e a data do casamento seria marcada em um jantar formal dali a alguns dias. A família do noivo queria a presença da família da noiva, e aquilo estava deixando Régis apreensivo. Poderia ir sozinho, mas se Vicentina ficasse sabendo, seria profundamente magoada. Pensou em pedir conselho às irmãs. Rosa achou que ele deveria assumir de vez a família, casando-se com Vicentina e dando-lhe uma vida digna, deixando o passado para trás; Fiorela , indignada, foi totalmente contra a ideia, fazendo uma lista dos motivos pelos quais o irmão deveria ficar longe de Vicentina:

-Pense bem, irmão; ela é uma prostituta! Dizem até que teve outro filho... ela não lhe contou nada?! Viu, é uma mentirosa! O que? Você também tem um outro filho, em Niterói? Filho da empregada da casa, que está sendo criado por madame??? Ora! Mas que complicação! E você também não disse nada a ela... bem, mas dizem que o vício fica na mulher da vida... ela nunca conseguirá ser fiel a um homem só, precisará de muitos outros homens para satisfazer-se!

Rosa, perdendo a paciência com a fala incoerente da irmã, gritou:

-Cale-se, Fiorela! Nunca ouvi tantas bobagens juntas! (virando-se para o irmão) E você teve mais um filho em Niterói? Na verdade quantos são? Apenas dois. E você diz isso assim, com essa calma toda? Você arruinou sua vida, Régis! Espero que não arruíne a nossa. 

Finalmente, após um longo silêncio, durante o qual os três irmãos fitaram os desenhos do tapete, Rosa decidiu:

-Leve Vicentina ao jantar. Ela é uma mulher educada, afinal. Só espero que o tempo no prostíbulo não tenha mudado isso. Depois, vocês se casarão e mudarão o destino de minha sobrinha, dando a ela um lar cristão. Quanto ao seu filho bastardo em Niterói... bem, outros estão tomando conta dele. Pelo menos, não está crescendo em um prostíbulo. Ou está? Não? Graças ao bom Deus!



(CONTINUA...)


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Um novo blog, todo em inglês.


2 comentários:

  1. Aiiii Help, tá muito bom esse conto. Esperando ansiosa a continuação.

    Bacios

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  2. Caramba, como as coisas se complicaram, rs...
    Ana, que inspiração! Quase tive um treco, quando soube que ela teve outro filho, ainda não sei se a vejo como mocinha da história...
    Amando!

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