segunda-feira, 14 de março de 2016

O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XVI







O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XVI



Regiane pediu licença para ir ao banheiro durante a aula de Irmã Teresa. Disse não estar se sentindo bem. Há vários dias procurava por Ricardo, mas não o encontrava. Sua angústia crescera tanto, que sentia os braços dormentes a maior parte do tempo. Mal comia, pois não conseguia engolir, e à noite, não conseguia dormir, revirando-se na cama até que finalmente, percorria descalça os corredores escuros e vazios indo parar no porão, a procura dele. Não o encontrava, e deitava-se na cama onde ambos tinham se amado e, agarrada a um dos livros de Ricardo, chorava por ele. Estava cada vez mais pálida, magra e com aparência cansada, olheiras profundas e lábios caídos numa máscara de tristeza. Morria de medo de nunca mais vê-lo. 

E de repente, ele voltava, sem nunca dizer para onde tinha ido, ou se voltaria novamente. E quando ele voltava, sua vida ganhava forças novamente, e os dias voltavam a ser belos, e suas notas na escola melhoravam, e seu sorriso voltava também, junto com ele. Ela jamais se preocupava em evitar ficar grávida (Regiane já sabia de onde vinham os bebês, pois ele próprio a ensinara); sabia que só ficaria grávida quando ela e Ricardo estivessem casados, morando na tão sonhada casinha branca. A vida lhes sorriria. 

E de repente, ele sumia durante períodos cada vez mais longos. Ela precisava saber onde ele estava, aonde ele ia naquelas horas! 

E foi assim que ela pensou que precisava descobrir quem era a mãe de Ricardo, pois somente ela poderia ter aquela informação. Durante as aulas, tentava olhar para as freiras tentando ver semelhanças entre elas e seu amor. Mas sabia que precisava ser cuidadosa, pois se ela se enganasse, estaria arriscando a permanência de Ricardo naquela escola, revelando sua presença indevidamente e traindo seu segredo. Assim, ela apena observava, e pensava...

Dois dias após a morte de Margarida, Dália perguntou a Regiane se ela iria mudar-se para sua casa. Sentia-se muito só. Assim, Regiane fez suas malas e despediu-se de Ricardo entre lágrimas, prometendo-lhe que entre eles nada mudaria, pois ela estaria na escola todos os dias. Ele tentou mostrar a Regiane que estava feliz por ela. E estava; mas também estava triste, pois sabia que um dia, teriam que despedir-se de verdade, e aquele dia se aproximava, cravando aos poucos as unhas em suas costas como um animal de rapina. 

Na casa de Dália, onde Regiane pode ter seu próprio quarto (passou a ocupar o quarto da falecida Teresa; Dália insistiu que ela não era obrigada a dormir ali, podendo dividir o quarto com ela, mas Regiane não se importava). Apenas trocaram o colchão, a colcha e as cortinas, pintaram elas mesmas as paredes do quarto de azul, fizeram uma boa limpeza e colocaram um vaso de flores sobre a mesinha de cabeceira. Regiane sentiu que aquilo era o mais próximo que ela já tinha estado de um lar de verdade! Ali, sentia-se muito bem-vinda sempre. Dália a tratava como a uma irmã. As duas passavam muitas horas conversando. Às vezes, Regiane tinha vontade de falar-lhe sobre Ricardo, mas resistia à tentação apenas pela promessa que fizera a ele; mas cada vez mais, a língua coçava, a ansiedade chegava até a ponta do abismo... mas ela a recolhia, e calava-se. Certa vez, Dália 
perguntou-lhe:

-Você nunca teve um namorado, Regiane?

Ela sorriu e mentiu, encolhendo os ombros:

-Não...

-Nunca foi beijada?

-Não... mas por que pergunta?

-Ora... você já tem dezessete anos, e está na hora de pensar em casar! Logo estará com dezoito. 

-Bem, na verdade, você sabe que eu tenho quinze... ainda é cedo para pensar nessas coisas.

-Mas... nos seus documentos, você tem dezessete,  é isso que importa.

-Ainda não estou pronta! Prefiro ficar para titia do que me casar com qualquer um sem amor, só por casar!

Elas ficaram em silêncio durante algum tempo, e Regiane indagou:

-Você ama o Otávio?

-Bem... ele é um bom partido, filho de boa família, trabalhador, tem saúde. E é um pão!

Regiane riu:

-Sim, concordo com você, mas... esta não foi a minha pergunta: você ama o Otávio, Dália?

Dália refletiu por um momento antes de responder:

-Aprenderei a amá-lo! Já gosto muito dele, ele é muito bom para mim, é responsável e muito galanteador... e respeitador também! Será um ótimo pai para meus filhos. É tudo o que uma mulher pode querer!

-Quer dizer que vocês nunca?...

-Dália ficou vermelha:

-É claro que não! Essas coisas uma mulher direita só faz depois de casar!

Dália percebeu o quanto tinha sido indelicada (conhecia a história de vida da mãe de Regiane) e desculpou-se, constrangida:

-Eu sinto muito, eu não quis ofendê-la, querida.

-Eu sei! Não se preocupe. Mas você em disse que ele é tudo o que uma mulher pode querer; mas ele é o homem do seus sonhos? Você está apaixonada por ele?

-Dália caminhou até a janela, debruçando-se por um pouco de tempo antes de responder:

-Minha mãe dizia que quando se casou com meu pai, não o amava, mas aprendeu a amá-lo. Ele era um homem bom, e a tratava com carinho e respeito. Ela me ensinou que uma mulher precisa encontrar um bom homem, e ao encontra-lo, casar-se com ele. Precisa ser uma boa esposa, mãe e dona-de-casa dedicada. Este é o papel de uma mulher na sociedade. Ela também me disse que a paixão só faz as pessoas perderem a cabeça, e contou-me de uma amiga que se perdeu por causa de uma paixão. Ficou com a reputação arruinada, e nunca mais arranjou marido. 

-Como a minha mãe?

-Eu não quis dizer isso, Regiane...

-Mas é a verdade. Foi o que aconteceu à minha mãe. Quando penso nela, eu às vezes sinto muita raiva de meu pai. E dos pais dela, meus avós, que nunca conheci, só vi passar na rua. E das minhas tias, que nunca a ajudaram, e não me acolheram depois que ela morreu.

Dália aproximou-se e sentou-se ao lado de Regiane, segurando sua mão:

-Querida, a raiva e o ressentimento são coisas horríveis que a gente não deve alimentar! As pessoas erram. Todos erramos. É preciso perdoar e seguir em frente, pois se formos eliminar e odiar todo mundo nas nossas vidas pelos erros que cometeram, acabaremos totalmente sós! E a vida é tão curta!
-Engraçado, você me dizer isso. Uma pessoa já me disse a mesma coisa, há algum tempo.

-Quem?

-Um amigo. 

-Você quer dizer um amigo? Um homem?

Regiane percebeu que despertara suspeitas na amiga, e mentiu a fim de desconversar:

-Sim, mas já não o encontro mais... ele costumava ir à escola quando visitava a irmã, aos domingos, mas ela foi embora, e ele nunca mais voltou. Foi há mais de um ano... mas Dália, você é tão boa! Gosto muito de você e fico feliz que tenha aparecido em minha vida. E gosto muito de Otávio também. Vocês vão ser muito felizes juntos. 

Dália concordou com a cabeça, mas alguma coisa dentro dela estava diferente após aquela conversa. Muitos anos depois, enquanto ela esperava Otávio chegar em casa em uma das noites nas quais ele saía sem dizer aonde ia, ela lembrou-se daquele dia, e daquela conversa. E manteve-se forte, sem fazer perguntas, pois aprendera que era a mulher a responsável pela manutenção do casamento, pelo bem dela mesma, dos filhos e da sociedade, e que por isso, deveria evitar fazer perguntas demais ao homem ou questionar seus motivos. Uma mulher verdadeira, uma boa esposa, acatava as vontades do marido e ignorava seus defeitos. E foi assim que ela ensinou suas filhas a se portarem, lembrando-as sempre que o amor era uma coisa que surgia coma convivência, com o tempo. Porém, ela nunca aprendeu a amar o marido, como pensava que aconteceria com o tempo. Olhava para ele, enquanto ele lia o jornal, ignorando a presença dela, e via nele o retrato do próprio pai. Via em sua vida a vida da própria mãe. Agora, só agora, ela compreendia. Só esperava não ter o mesmo fim que a mãe tivera.

Mas o dia de seu casamento foi lindo, e inesquecível! 
Vestido de cauda que caía em volta dos pés como se fosse um glacê de cetim perolado... grinalda de flores brancas e véu comprido, que após a chegada da noiva ao altar, esticava-se até a porta da igreja. O buquê de rosas brancas e flores de laranjeira, símbolo de sua pureza, que ela guardara para entregar ao homem que a desposara. O Grande Dia inesquecível, o mais feliz de sua vida, a fotografia sobre o aparador da lareira para a qual ela olhava todas as noites, lembrando, e se perguntando o que teria sido de sua vida se...


.     .     .     .     .     .     .


Um mês após sua mudança para a casa de Dália, Regiane recebeu uma carta, que foi-lhe entregue por uma das freiras da escola, Irmã Catarina, a que era responsável pelas correspondências. Ela percebeu que a mesma tinha sido aberta, e pelo olhar da freira ao entrega-la, viu que ela fora a pessoa que a tinha lido... mas o que fazer? A freira percebeu seu olhar de desgosto, e comentou:

-Carta vinda de remetente masculino precisa ser fiscalizada, para sua própria proteção.
Regiane nunca recebera uma carta antes. Cheirava o papel, passava os dedos sobre os selos. Estava morta de curiosidade para abri-la, mas queria fazê-lo na presença de Ricardo. Esperaria até o dia seguinte, após as aulas. Colocou-a sob o travesseiro e ficou pensando quem seriam aquelas pessoas que lhe escreviam – Pedro e Antônio.

No dia seguinte, ela mal pode prestar atenção às aulas, e Irmã Teresa chamou sua atenção várias vezes. Acabou ficando de castigo por trinta minutos no final da aula, quando todas se foram para o refeitório. Trazia a carta no bolso da saia, o papel farfalhando ao roçar contra o tecido e incitando sua curiosidade. Finalmente, cumpriu sua punição e teve licença para retirar-se e almoçar, o que ela fez rapidamente, mal engolindo a comida.

Ao chegar ao porão, bateu à porta e Ricardo mandou que ela entrasse:

-Veja, Ricardo! Recebi uma carta! Queria que você a lesse comigo.

Ele a abraçou, olhando a carta que ela entregou a ele e dizendo:

-Ora, será que tenho um rival?

Ambos sentaram-se lado a lado sobre a cama, e ele começou a leitura:

“São Paulo, 23 de agosto de...

Cara Srta. Regiane,

Esperamos que esta lhe encontre em perfeita saúde. 
Somos Antônio e Pedro, vossos irmãos. Acho que a senhorita não sabe da nossa existência. Nossa mãe biológica, Vicentina Leme, não podendo tomar conta de nós, mandou-nos para esta fazenda onde fomos adotados por um maravilhoso casal que cuidou de nós e nos tratou como filhos legítimos, adotando-nos. A senhorita, disseram-nos nossos pais, era ainda muito pequena quando tudo isso aconteceu, e talvez nunca tenha ouvido falar de nós; porém, sendo nossa irmã por parte de mãe, gostaríamos de conhece-la. Nós temos 
Seu genitor, o senhor Régis Costa, esteve aqui na fazenda acompanhando sua patroa, madame Fonseca, ocasião em que nós o conhecemos e ficamos sabendo de sua existência. Ficamos muito curiosos e ansiosos para saber se estás bem. Se for de vossa vontade conhecer-nos, por favor, responda-nos esta carta, e ficaremos muito felizes. Pretendemos fazer-lhe uma visita em sua cidade assim que pudermos.
Sem mais para o momento, nos despedimos carinhosamente, e assinamos:

Antônio e Pedro Figueiredo,

Vossos irmãos.”


Enquanto escutava a leitura, vinham à memória de Regiane cenas imprecisas de sua mãe com uma grande barriga passando diante de seu berço. Cenas que ela jamais lembraria, não fosse aquela carta, pois era muito pequena ainda quando aqueles fatos se deram. Ficou muito feliz, e lágrimas vieram-lhe aos olhos:

-Eu... afinal, eu tenho irmãos, uma família, Ricardo!

Ele sorriu:

-Parece que sim, Regiane. Vai responder a carta? 

-Sim, imediatamente! Você me ajuda?

Ele hesitou:

-Não sei se posso... preciso ...

Ele se levantou da cama, ficando de costas para ela:

-Eu não sei se estarei por aqui nos próximos dias... talvez nas próximas semanas...

Regiane caminhou até ele, obrigando-o a olhá-la de frente:

-Você não ficou feliz, quero dizer, não gostou que eu tenha irmãos?

-Não, não é nada disso... é que eu terei que ficar ausente durante algum tempo...

-Mas... para onde vai? Por que?...

-Eu não posso dizer ainda, mas prometo que voltarei assim que puder. Você não vive dizendo que eu preciso sair daqui um pouco, tomar sol...

-Sim, mas... por que não pode me dizer aonde vai? Por que?
-Regiane, querida... há coisas que não posso contar a você, e preciso que me entenda e confie em mim... 

Ela novamente sentiu o fantasma de um segredo sobrepondo-se entre eles.

-É alguma coisa com sua mãe, não é? Ela descobriu sobre nós?

-Não... ela...

-Ricardo, quem é sua mãe?

-Eu já disse, é uma das freiras...

-Mas qual delas?

-Não me pressione, Regiane, por favor. Não posso dizer, preciso protegê-la de um escândalo.

-Não confia em mim? E pede que eu confie em você? Se sua mãe o amasse, não o obrigaria a passar a vida dentro deste porão!

Ele tornou-se ainda mais pálido, a respiração alterada:

-Não diga isso! Não fale de coisas que não sabe! Não seja leviana.

Ao ouvir aquela palavra saindo da boca de seu amor, Regiane sentiu-se como quem leva um soco no rosto. Ela sentiu a face esquentar, e as lágrimas turvaram sua visão. Virou as costas e saiu do porão, sem olhar para trás.

Estava decidida: descobriria quem era a mãe de Ricardo, de uma vez por todas, e acabaria com todo aquele mistério que só os separava. Estava tão aborrecida, que se esquecera da carta por um momento. Pediria a Irmã Dulce que a ajudasse a responde-la. 


(continua...)





3 comentários:

  1. Diga o que você pensa com esperança.
    Pense no que você faz com fé.
    Faça o que você deve fazer com amor!

    ---Ana Carolina----

    Abraços com carinho!

    └──●► *Rita!!

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  2. Estava ansiosa e continuarei...
    Está muito interessante!
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  3. Boa noite Ana.
    Andei ausente das leituras, voltando com muito gosto aqui.

    Essa impaciência de Regiane pela verdade... Curiosa para saber o desfecho.
    Perfeita a forma como descreve as expectativas da época sobre o casamento.
    Mais um capítulo muito bem escrito, parabéns!

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