quarta-feira, 27 de julho de 2016

A RESENHA DO MAL – CAPÍTULO XVI








Décio deixou Caio em sua casa, e os dois se despediram como dois verdadeiros irmãos. Aqueles dias juntos fizeram com que Décio visse o irmão de uma outra forma – como alguém real, de carne e osso, uma pessoa bacana – e não um fantasma que tirou dele o amor do pai. Enquanto dirigia para o seu apartamento, mil ideias para escrever a história de Endora passavam pela sua mente. Ainda pensava em Sophie com saudades, lamentando o fato de nunca mais poder revê-la. Achava que ela era uma mulher e tanto, e que seria difícil esquecê-la ou namorar qualquer mulher depois de ter estado com ela. Mas ela não deixara telefone ou itinerário. Apenas sabia seu sobrenome – Damata. Décio sentia-se melancólico por deixar Sophie, e ao mesmo tempo, aliviado por retomar a sua vida.

Fora um alívio subir a serra Petropolitana, sentindo o ar fresco e limpo característico da região, deixando para trás o calor poeirento daquela cidadezinha. Chegar em seu apartamento, olhar pela janela e ver a Praça Rui Barbosa em clima de festa – as pessoas passeavam naquele final de tarde, levando as crianças para andar de bicicleta e também para brincar nos balanços e gangorras – tudo aquilo trazia-lhe muita paz de espírito. Ele desfez as malas, jogando a roupa suja na máquina de lavar e foi tomar um merecido e demorado banho de chuveiro.

Quando terminou, vestiu as calças do pijama, ficando sem camisa - estava um pouco frio, mas sentir o toque do vento fresco em suas costas, peito e braços novamente era maravilhoso – e ligou para Sérgio a fim de contar-lhe que estava de volta.

-Que bom, Décio. Espero que a semana tenha sido produtiva. Conseguiu a história?

-E o que eu não consigo? É claro! Vou passar o resto da tarde colocando minhas anotações em dia e acho que daqui a dois ou três dias eu a entregarei a você.

-Ótimo! Tenho certeza que ela vai te render um prêmio. Mas... e a tal mulher? Deve ser uma criatura horrorosa, hein?

Décio sentiu-se triste.


-Endora? Não... ela era uma mulher forte, corajosa. Maravilhosa.

-Como assim, era?

-Ela morreu. Um dia antes de eu voltar.

-Que chato... bem mas a gente sabia que isso poderia acontecer. Ela estava muito doente.

Décio não respondeu. Sérgio sentiu que o amigo estava triste.

-Não vai me dizer que se apegou a ela?

-Me apegar a Endora? Não! Claro que não.

-Décio... está tudo bem com você?

-Sim. Tudo ótimo. Te ligo quando a história estiver pronta. Estou muito cansado, e morrendo de fome. Tchau.

Dizendo aquilo, Décio desligou o telefone, pois sabia que se ficasse conversando com Sérgio ele acabaria descobrindo que a história que ele escreveria não era a verdadeira história. Sérgio tinha um faro de jornalista impecável e infalível.

Enquanto isso, Brian abriu a porta vagarosamente e encontrou a casa semi escurecida, apesar da linda tarde lá fora. Colocou a mochila no chão e abriu as persianas da sala de estar, e dando alguns passos em direção ao seu quarto, deparou com a mãe sentada no sofá. Estranhou que ela apenas o cumprimentasse sem gritos ou cobranças. Foi até ela:

-Mãe? Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

-Patrícia olhou para ele. Tinha os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, e usava um robe preto. Parecia alguns anos mais velha, pois estava sem maquiagem (Brian nunca via a mãe sem maquiagem ou desarrumada).

Ela bateu na almofada do sofá ao lado dela:

-Sente-se aqui, filho. Precisamos conversar.

Brian sentou-se ao lado dela devagar, achando que ia levar a maior bronca de sua vida. Mas Patrícia apenas fungou, e então ele notou que ela andara chorando.

-Mãe, você está me assustando!Olha, se é porque eu sumi por uns dias, eu estava com meu irmão, e a gente estava numa fazenda maneira, a gente acabou se entendendo de vez, já estou de volta, estou inteirinho e... mas e o papai? Cadê ele? Aconteceu alguma coisa com o papai!

-Está tudo bem com ele, Brian. Mas você precisa saber... nós estamos nos divorciando.

Ele suspirou de alívio, e relaxou no sofá ao lado dela. Brian estava quase feliz, pois o relacionamento  dos pais andava infernal há anos, o que refletia nele. Teve pena de Patrícia, e segurando a mão dela, disse:

-Sinto muito, mãe. Mas... é melhor assim. Vocês não se curtiam mais mesmo. E...eu vi você. Com aquele cara.

Patrícia não disse nada, mas ele notou que ela se sentiu desconfortável com o comentário dele. Enxugou os olhos na manga do robe, e ficou fitando o vazio. Finalmente, respondeu:

-Aquele homem não significava nada, Brian. E não foi por causa dele que nos separamos. Seu pai e eu... a gente não se entendia mais. Acho que nunca nos entendemos totalmente. Ele não era apaixonado por mim.

Brian respondeu rápido demais:

-E nem você por ele, né?

Patrícia riu tristemente.

-Mas ficou algo de bom: você.

Ele sorriu de volta. Nunca tinha visto a mãe falando tão baixo, de maneira tão não-afetada, totalmente sem maquiagem e sem máscaras. Muito menos, tão afetuosa.

-E a gente vai continuar morando aqui?

-Vamos sim. Seu pai fez questão que ficássemos com a casa e também prometeu que não vai nos faltar nada. A vida é tão irônica!

Ele encolheu os ombros, sem entender:

-Por que?...

-Imagine só... há anos, eu o roubei de Lana. Fiz de tudo para que Mauro ficasse comigo, e agora, os dois estão voltando. Ele vai voltar a viver com ela. Ele mesmo me disse.
Brian deixou escapar uma lufada de ar, e coçou a cabeça:

-Incrível!

Patrícia olhou-o, magoada.

-Como assim, incrível?

-Desculpe, mãe, eu não quis ofender você. Mas eu sempre achei que os dois tinham tudo a ver. Ele sempre falou muito bem dela, e ela, dele, apesar de tudo o que ele fez com ela. Acho que agora as coisas estão nos lugares certos.

Patrícia concordou com a cabeça, e respirando fundo, tentou sorrir, e retomando seu tom de voz autoritário, ordenou:

-É verdade, tenho que admitir. Agora vá tomar um banho para o jantar. Você está fedendo a suor.

Brian beijou a mãe no rosto, e obedeceu.

Décio olhou mela janela do apartamento, e viu a usual reunião dos jovens lá em baixo. Escutou a música alta e os sons das vozes e motores de motocicletas. Após algum tempo, viu uma cabeça ruiva olhando exatamente na direção dele; era Rafaela. Ela sorriu e acenou. Ele fez sinal para que ela subisse. Achou que precisaria de ajuda para escrever a história, afinal de contas. E precisava conversar com alguém, e sabia que Rafaela era uma ótima ouvinte.

Ele foi vestir uma camiseta de malha, e quando estava no corredor indo para a sala de estar, a campainha tocou, e ele abriu a porta para ela. Rafaela corou no momento em que o viu, abrindo um lindo sorriso, os olhos faiscando de paixão. Décio tentou olhar para ela da mesma forma, mas não conseguiu; só pensava em Sophie. Ela percebeu, mas não se deixou abater; beijou-o no rosto, dizendo:

-Que bom te ver, Décio!

-Tudo bem? Como você soube que eu estava de volta?

-Sérgio me disse. Achou que você talvez precisasse de ajuda.

-Entre. Vou fazer um café pra gente.

-Eu tomei a liberdade de encomendar uma pizza, ela vai chegar daqui a alguns minutos. Espero que não se importe.

-Não, foi genial a sua ideia, Rafaela. Estou morto de fome e não tenho nada em casa. Preciso fazer umas compras...

-Se quiser, amanhã de manhã eu passo no mercado e escolho alguns itens. Mandarei entregar aqui.

-Você realmente faria isso?

Ela sentou-se no sofá, cruzando as pernas e deixando um bom pedaço de coxas à mostra sob a saia curta:

-Claro! Logo de manhã, antes de vir para cá. O Sérgio me liberou para ajudar você no que precisar - (“no que precisar” foi acompanhado de um olhar maldosamente sexy).

Décio agradeceu, e eles começaram a conversar sobre a reportagem, e também sobre o livro que ele queria escrever. Ele contou a ela tudo sobre Endora, e Rafaela ouviu-o com atenção. Lá  de baixo, os sons de risos e música chegavam ao apartamento. A pizza também chegou, e após comerem, Rafaela sugeriu que fossem tomar um drink no bar, e Décio concordou. Há algum tempo não tinha um vislumbre do que ele chamava ‘uma vida normal’ – sem fantasmas, lágrimas e sombras o perseguindo.

Décio descobriu que Rafaela não era uma cabecinha vazia, afinal de contas. Em alguns momentos de sua narrativa, ele notou que os olhos dela marejaram, e que ela realmente comoveu-se com a triste história de Endora e Sophie. Ela disse ter pena principalmente de Endora, por ter pago por crimes que não cometera durante tantos anos, e que imaginar a figura de Sophie a transtornava e a deixava com medo. No bar, continuaram a conversa, e em certa altura, ela disse:

-Sabe... eu nem sequer conheço esta moça, esta Sophie. Mas sinto que ela tem uma energia bem pesada, pelo que você me conta. Mas... estou enganada, ou ela também é uma mulher muito bonita?

-Você está certa; Sophie é a mulher mais bonita que eu já vi.

Ela baixou os olhos, e passou a brincar com as gotículas de água que escorriam sobre o copo.

-E vocês dormiram juntos?

Por que mentir? Décio concordou com a cabeça, e Rafaela não disse nada – porém, sentiu o ciúme queimar dentro dela, insinuando-se como uma nuvem de fumaça negra. Mas ela pensou: “Eu não tenho o direito de sentir ciúmes; afinal, Décio não é meu namorado... ainda!” Sendo assim, Rafaela pigarreou, sorriu e mudou de assunto.

Na manhã seguinte, Décio decidiu visitar a mãe antes de iniciar os trabalhos, e ambos marcaram de almoçar na casa dela. Quando chegou lá, Décio surpreendeu-se ao encontrar seu pai sentado no sofá, lendo um jornal despreocupadamente. Lana ainda tentou explicar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Décio disse, hostilizando a presença de Mauro:

-O que você está fazendo aqui? (ele olhou para Lana em busca de uma resposta). Foi Mauro quem falou primeiro:

-Olá, filho. Acho que vamos nos ver com muita frequência agora... eu e sua mãe reatamos. Digo, nós estamos dando a nós mesmos uma segunda chance.

Décio perdeu a paciência:

-Como assim? Você nos abandona para ficar com aquela... aquela caçadora, e agora volta sem mais nem menos? Está traindo ela também? Pai, você não se envergonha? Sabe quantos anos se passaram??? E mãe, como você pode...

Lana o interrompe, com voz firme:

-Décio, esta é a minha vida, e não lhe darei o direito de intrometer-se nela. Mauro é seu pai, nunca deixou faltar nada para você enquanto estivemos separados, e o que aconteceu entre nós não é problema seu. Tenha mais respeito por ele, por favor, filho.

-Décio, eu errei, errei muito, e pode ter certeza que eu paguei caro! Gostaria que você me desse uma chance também, de sermos novamente uma família. Por favor.

Mauro levantou-se e estendeu a mão para ele. Lana observou o rosto do filho passar por várias transformações: de ódio e raiva, que faziam as veias de suas têmporas saltarem, ela o vou perder a cor vermelha e  finalmente, as lágrimas que ele estava tentando conter escorreram. Décio as secou rapidamente com as costas da mão. Hesitou um pouco, colocando as mãos na cintura e respirando profundamente, e finalmente, após um silêncio constrangedor durante o qual Mauro permaneceu com a mão estendida, esperando, ele apertou a mão do pai, mas ainda com hesitação. Foi quando Brian surgiu pelo corredor, e viu a cena entre os dois. O rapaz sorriu, e começou a aplaudir:

-Valeu, irmão!

Décio olhou para ele, e sorriu, alegre por vê-lo por ali.

-Não vai dizer que você agora vai acampar por aqui também.

Brian gargalhou:

-Só de vez em quando. E Lana me disse que posso usar seu quarto, já que não mora mais aqui. Tudo bem pra você?

-Tudo bem, desde que não mexa em nada.

Ambos riram. Lana suspirou de alívio, observando as coisas voltarem aos seus devidos lugares.

A vida retomou seu rumo de sempre. A reportagem ficou pronta, e Décio sentiu-se muito grato pela ajuda de Rafaela, que fez o favor de não se arrastar para ele; quando finalmente eles terminaram, numa noite de quinta-feira, e Décio pode recostar na cadeira e relaxar após a última revisão que fizeram juntos do material, ele olhou para Rafaela, iluminada pela fraca luz do abajur e a da tela do computador; achou-a bonita, apesar da aparência um tanto cansada e do coque que estava desmanchando. Ela estava distraída, olhando algo na tela, e não percebeu o olhar dele. Ela se moveu, e o perfume que usava chegou até Décio, despertando-lhe desejo. Pela primeira vez, após vários dias, ele não sentira falta de Sophie.

Decidiu que após entregar a reportagem a Sérgio, escreveria seu livro como se fosse ficção, mas incluindo detalhes da verdadeira história, a versão contada por Sophie.

Sérgio adorou o trabalho dos dois, e a publicação foi um grande sucesso. Houve uma festa no escritório para comemorar, e Décio estava em um momento profissional muito bom. Achou que era hora de mudar de apartamento, procurar um lugar mais tranquilo, sem barulho e sem tantas caixas empilhadas pelos cômodos, mas com mobília de verdade; algum lugar realmente agradável, organizado. E foi Rafaela quem o ajudou nesta tarefa. Acabou encontrando para ele um apartamento no final da Rua Ipiranga, em um antigo condomínio. O lugar era espaçoso e tranquilo, e ainda dispunha de uma área de lazer e um pequeno jardim.

A mudança foi fácil; todas as poucas coisas que Décio possuía couberam em uma viagem de um pequeno caminhão. O apartamento precisava de decoração e mais mobília, um toque feminino, e novamente, ele pode contar com a ajuda de Rafaela. Os dois estavam juntos, mas segundo Décio deixou claro, sem compromissos, para ver no que ia dar. Ela dormia com ele algumas noites, eles saiam juntos com amigos ou sozinhos, e Décio continuava vendo outras garotas ocasionalmente, até que ele finalmente achou que poderia ter algo mais sério com Rafaela e parou de sair com outras mulheres. Para ela, aquela decisão foi tão esperada, que ela teve que se segurar para não sair cantando e pulando pela rua!

Também ficou feliz no dia em que eles, de mãos dadas, fizeram a comunicação sobre o namoro oficial aos amigos.

Seis meses depois, o livro estava progredindo aos poucos; Décio achou que não faria mal contar a Rafaela que aquela era a verdadeira história de Sophie e Endora, e Rafaela não se surpreendeu:

-Eu já desconfiava. Nossa... que vida elas tiveram! Tomara que a Sophie consiga ser feliz, encontrar alguém, sei lá...

Décio notou que ela estava sendo sincera. Falar de Sophie, conversar sobre ela, já não o machucava 
mais. Estava começando a gostar de Rafaela de verdade. Ela era uma mulher muito bonita, uma grande amiga, sexy, companheira, excelente companhia e não ficava pegando no pé dele como ele pensara que aconteceria. Não era ciumenta e insegura, era madura e forte. E estava completamente apaixonada por ele. Ele não podia dizer o mesmo em relação a ela, mas o sentimento que ele tinha por Rafaela era bem mais forte do que tivera por outras mulheres – a não ser Sophie, é claro. De repente, ele pensou em onde ela estaria, o que estaria fazendo...mas aquele pensamento fugaz  passou rapidamente entre os beijos de Rafaela.

(continua...)














4 comentários:

  1. Um obrigada e um beijinho.
    De Portugal,
    Dilita

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  2. Oi, querida amiga, Ana Bailune !
    Nossa !
    Vou esperar o próximo capitulo.
    Fiquei muito curioso !
    Parabéns e um carinhoso abraço.
    Sinval.

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  3. Oi, querida amiga, Ana Bailune !
    Nossa !
    Vou esperar o próximo capitulo.
    Fiquei muito curioso !
    Parabéns e um carinhoso abraço.
    Sinval.

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  4. Boa noite, Ana, ainda bem que os pais do Décio se acertaram.
    Quem sabe ele também se acerte, não?
    A vida sempre nos reserva surpresas, qual será a deles?
    Aguardando pelo próximo capítulo, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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