sexta-feira, 25 de junho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 4


Capítulo 4


E o que era destino? Na manhã seguinte, enquanto todos ainda dormiam (meus tios e primos já tinham ido embora e ainda era cedo demais para me aprontar para a escola), eu fui até a sala e, subindo em uma cadeira, alcancei o dicionário de meu pai. A professora já nos tinha ensinado sobre ordem alfabética, mas levei algum tempo para encontrar a palavra que eu queria: destino. Li a definição:

 “DESTINO: poder superior à vontade do homem que se supõe fixar de maneira irrevogável o curso dos acontecimentos; fatalidade

2. sucessão de factos que constituem a vida de alguém e que se crê serem independentes da sua vontade; fado

3. fim para que se reserva alguma coisa; uso; emprego; aplicação

4. lugar a que se dirige alguém ou alguma coisa; rumo; direção.”

Não entendi muito bem, nem mesmo após ler várias vezes, e então, decidi procurar ‘fatalidade’:

“Acontecimento que não se pode evitar, adiar ou alterar. Acontecimento com consequências graves ou trágicas; desgraça.”

Após ler aquela definição, meu coração deu um salto enorme dentro do peito: eu sabia muito bem o que significava ‘desgraça,’ pois eu a escutara antes, ao ouvir adultos comentando sobre um acidente fatal que ocorrera na cidade há alguns meses. Eu entendi: minha vó temia uma desgraça na vida de nossa mãe.

O peso daquela palavra me oprimia: desgraça. Coisas ruins, acontecimentos inesperados, insuportáveis, tristes, conforme minha professora me explicara, reforçando o que eu tinha compreendido. É claro que ela depois me perguntou o porquê de eu desejar saber o significado daquela palavra, e eu menti, dizendo tê-la escutado em um filme na TV. 

Passei algumas noites sem dormir direito. Eu temia dormir e sonhar novamente com vovó. Eu não queria mais saber dela. Nada contei aos meus pais ou a Sara, pois não desejava preocupá-los. Na escola, minha atenção tornou-se dispersa, e logo minha professora mandou bilhetes para minha mãe, chamando-a para uma conversa. E mamãe foi ter com ela, e depois me chamou para uma conversa séria enquanto minha irmã tomava banho. Ela acariciou meus cabelos, me pegando no colo e me abraçando. Estávamos sentadas no sofá da sala. Ela murmurou:

-Você cresceu tão rápido, filha...

Eu escutava a voz dela soando dentro de mim, a cabeça encostada em seu peito. Eu a ouvia respirar vagarosamente, e as batidas do coração uma após a outra. Me lembro de que quando ela me segurava daquele jeito, eu ficava morrendo de medo de que as batidas do coração dela parassem, pois a professora nos tinha ensinado que quando as pessoas e animais morriam, o coração deles deixava de bater. Estar tão próxima à minha mãe que eu podia ouvir as batidas do seu coração me deixava, ao mesmo tempo, tranquila e angustiada. Eu não sabia o que era morrer. Só sabia que quem morria não era mais visto. Estava perdido para sempre, como vovó, e que talvez pudessem ser vistos em sonhos estranhos, mas que na manhã seguinte, teriam ido embora.

Ela ergueu meu rosto, sentando-me no sofá ao lado dela, circundando com o dedo as minhas olheiras: 

- O que a está deixando angustiada, Chiara? Por que você anda tão calada, e por que não consegue dormir bem?

Eu baixei os olhos, sem saber o que dizer, enquanto as lágrimas caiam, independentes da minha vontade. Minha garganta apertada doía enquanto eu tentava segurar o choro, até que de repente, ele explodiu em soluços altos e sofridos. Mamãe parecia apavorada, a boca entreaberta, tentando me acalmar:

-Calma, filha! Me conte tudo. Calma... não chore... eu estou aqui, eu estarei sempre aqui com você.

Ela me abraçou de novo, me embalando, até que eu me acalmei. Então ela secou o que restava de lágrimas no meu rosto com aponta da sua bata indiana:

- Agora respire fundo... isso, mais uma vez... e mais outra... calma... me conte o que a está deixando assim.

- É que... eu não quero mais sonhar com a vovó. Então eu não quero dormir. Ela fica falando umas coisas estranhas, ruins... fala que eu preciso ser forte. Fala em desgraça. Eu não quero escutar mais.

Minha mãe arregalou os olhos:

-Mas... como assim, filha, que desgraça seria essa?

- Eu não sei! Eu só queria que ela parasse, mamãe.

Comecei a chorar novamente, e ela não sabia o que fazer ou como agir. Era desconcertante estar diante de um adulto que não sabia como lidar com uma criança. Ela tentava me abraçar, mas eu chorava mais ainda; então ela foi até a cozinha e me trouxe um copo com água e açúcar, me fazendo tomar até a metade, embora eu não estivesse com sede. Me acalmei. Naquele momento, Sara gritou do banheiro:

-Mããe! Terminei o banho! Quero uma toalha!

Mamãe gritou de volta:

-Já vou, Sara. Espere um pouquinho.

E olhando para mim:

- Escute bem, filha: não existe nada de desgraça, e quem está falando sou eu: sua mãe. A sua avó é só um sonho, alguém que não existe mais. Ela morreu. Ela se foi. Eu e seu pai e Sara estamos aqui. Não se preocupe com nada, eu vou levar você a um médico e ele vai receitar alguma coisa para ajudar você a dormir.

-Eu não quero dormir! Se eu durmo, ela aparece!

- Então vamos fazer uma coisa: eu vou falar com ela agora: - ela ergueu a voz: - Mamãe! Aqui é Vanessa, sua filha! Você está assustando a Chiara! Pare de dizer tantas bobagens para ela, me ouviu? Senão, eu vou colocar algumas pedras bem pesadas sobre o seu túmulo para você não sair nunca mais dele...

Ela disse aquilo e olhou para mim, e ambas começamos a rir. Sara chamou:

-Mamãe! Meus dedos estão ficando enrugados!

Nós rimos mais ainda, e mamãe foi andando até o banheiro, berrando:

-Eu já estou indo!

Sei que, depois daquilo, ela falou com papai a respeito. Eles conversavam à noite, depois que nós tínhamos ido dormir, e eu podia escutar as vozes deles murmurando entre as batidas do relógio de parede do corredor. Um dia, ela começou a pingar algumas gotas em um copo d’água e me fazer beber antes de dormir. Dizia que eram para que eu crescesse forte e saudável. Ela também dava as tais gotinhas à Sara. Às vezes, ela mesma as tomava. Depois das tais gotinhas, eu não tive mais problemas para dormir, e de manhã, não me lembrava de nenhum sonho. Minha vida voltou ao normal, e aos poucos, fui me esquecendo de vovó. As crianças geralmente esquecem-se com facilidade daquilo que elas fazem questão de não lembrar.

A vida corria normalmente, e as férias de final de ano chegaram. Uma tarde, eu, mamãe e Sara estávamos assistindo desenhos na TV quando ouvimos um motor de carro parando na entrada da casa e uma buzina. Mamãe olhou pela janela:

- Pedro! O que?... de quem?...

Nós nos juntamos a ela à janela: papai estava em um carro azul, de teto creme. Papai, todo sorridente, ficava ainda mais bonito dentro dele: ele convidou:

- Quem quer dar uma volta?

Nós três fomos até a calçada, e vimos os vizinhos curiosos nos olhando, enquanto papai dava gargalhadas alegres, enlaçando mamãe pela cintura e fazendo-a girar. Depois ele nos ergueu, uma por vez, dando urros de alegria. Entramos no carro reluzente, e ele foi explicando:

-Comprei esse carro ontem. Adivinhem só: ganhei um aumento de salário e uma promoção! Sou gerente regional e não vou mais precisar viajar vendendo coisas! Quero dizer, só de vez em quando, não sempre... vou ficar muito mais tempo em casa com vocês, minhas bonecas! 

Mamãe dava urros de alegria enquanto nós, crianças, ajoelhadas no banco traseiro, víamos a paisagem que ficava para trás.  O carro era muito confortável, e parecíamos tropeçar em nuvens a cada vez que papai passava sobre uma protuberância na estrada. Depois, ele nos ensinou a dizer o nome do carro: Aerowillys. Fiquei repetindo aquele nome, deixando-o rolar sobre a minha língua enquanto a paisagem passava rapidamente pela minha janela. Eu acariciava o banco macio do carro, chegando perto do encosto para sentir o cheiro do couro. Nós nuca tínhamos possuído um carro antes – segundo meus pais, eles eram coisa de ente rica. Somente pessoas “abastadas”, como Tia Samira e Tio Helvécio, podiam ter carros.

E papai, que estava de férias do trabalho, ficou a semana toda em casa conosco, nos levando para passear em vários lugares. Até concordou quando mamãe pediu a ele que nos levasse para visitar Tia Samira. Quando ela nos ouviu parando em frente à sua casa, meu pai buzinando freneticamente, ela veio correndo. Nós acenamos para ela de dentro do carro, e papai saiu, dando a volta para abrir a porta para mamãe. De mãos dadas, os dois foram em direção de tia Samira, que não parecia muito feliz, as sobrancelhas mais arqueadas que de costume. Enquanto isso, Joana e Décio entraram no banco de trás e se sentaram conosco, olhando o carro por dentro. Eles diziam coisas como “Uau!” “Lindo!” e enquanto eles e minha irmã conversavam eu tentava prestar atenção ao que estava acontecendo lá fora.

Tia Samira dizia:

- Nem sequer faz uma reforma decente na casa, e compra um carro desses! Que falta de juízo!

Meu pai parecia querer bater nela, de tanta raiva, e olhava para mamãe, gritando: 

- Eu não avisei que seria um aborrecimento vir até aqui? Ela é uma invejosa, eu vivo dizendo isso e você não acredita, Vanessa! Vamos embora agora!

Mamãe também parecia um tanto zangada, e seguiu papai até o carro, olhando para tia Samira com uma expressão magoada. Tia Samira ficou à porta da casa, olhando-nos, enquanto papai entrava no carro e mandava nossos primos saírem. Ele deu partida no carro e fez uma curva fechada, derrubando de propósito um boneco de ferro que enfeitava o portão de Tia Samira. Ainda pude ouvir os gritos dela: “Cuidado, seu louco, olha só o que você fez!”

Depois daquele dia, ficamos bastante tempo sem ter notícias de Tia Samira, até que em um dia de domingo, tio Helvécio apareceu lá em casa. Mamãe estava tomando banho, e papai o deixou entrar, dizendo:

-Você e as crianças são sempre bem-vindos, Helvécio, mas já estou cheio de Samira se metendo nas nossas vidas. 

-Mas eu vim justamente por causa dela. Ela quer se desculpar, Pedro. Se arrependeu do que disse. Samira se preocupa demais com a irmã e os sobrinhos, você sabe, ela é muito dominadora, mas é uma ótima pessoa e faz tudo por eles... aliás, ela sempre faz tudo por todo mundo.

Meu pai respirou fundo antes de responder:

-Sinceramente, Helvécio, não sei como você a aguenta. Samira sempre trata você tão mal! Ela vive cortando a sua fala, interrompendo suas ideias e dando ordens em você. Você é um cara muito legal, um sujeito bacana, rico, dá a ela tudo do bom e do melhor. Ela deveria tratar você com mais respeito.

Tio Helvécio arregalou os olhos, e em seguida baixou-os, olhando para a ponta dos sapatos, e até nós, crianças, sentimos pena dele. Imediatamente, meu pai percebeu o quanto o deixara magoado, e se corrigiu:

-Desculpe, eu não... eu não queria...

Mas Tio Helvécio o interrompeu:

-Você está certo, amigo, mas é o jeito dela. Samira é assim. Mas eu tenho certeza de que ela é uma boa pessoa, uma mulher de caráter.

Papai concordou com ele, balançando a cabeça freneticamente:

-Claro, claro, claro, eu nunca disse o contrário... desculpe. Além disso, eu não tenho nada a ver com a vida de vocês. Bem... se ela realmente sente muito e se estiver tudo bem para a Vanessa, por mim... ela pode voltar aqui.

Naquele momento, mamãe entrou na sala, os cabelos ruivos ainda molhados:

-É claro que ela pode. É minha irmã, meu único parente vivo. Nós somos uma família, e uma família tem lá seus desajustes.

E a partir daquele dia, Tia Samira voltou a frequentar a nossa casa – até tornou-se mais boazinha com papai durante um tempo, mas logo voltou a ser a Tia Samira de sempre, e estava tudo bem.

Aquele foi o melhor verão de nossas vidas: íamos de carro visitar as cidades vizinhas, e meus tios e primos iam conosco, no carro deles. Chegamos a nos hospedar por cinco dias em um hotel, onde havia uma grande piscina, quadra de esportes e área de lazer para crianças. Mamãe e tia Samira, bronzeadas, viravam todas as cabeças masculinas por onde passavam. Principalmente mamãe, com seus olhos de gata e cabelos ruivos. Já meu pai – forte, musculoso, bronzeado e de riso fácil – recebia olhares diretos de outras mulheres, o que ele às vezes retribuía com um sorriso discreto, o que causou alguns breves desentendimentos com mamãe, que incentivada por tia Samira, ardia em ciúmes. Já tio Helvécio, sempre discreto e apagado, estava sempre conosco, mas mantinha-se neutro. 

Nunca mais me esquecerei daquele verão maravilhoso que vivemos, todos juntos, e da noite em que meu pai pegou um violão emprestado de alguém no hotel (eu nem sabia que ele tocava) e dedilhando-o, cantou uma canção romântica, dedicando-a à mamãe. As outras mulheres pararam para ouvi-lo, e percebi que papai poderia ter se tornado um cantor de sucesso, se quisesse. Durante a pequena apresentação à beira da piscina, enquanto o sol se punha, pude notar que Tia Samira mantinha os olhos presos em papai o tempo todo. Várias vezes, ela engoliu em seco e levou a mão discretamente ao canto dos olhos. Eu era apenas uma criança, mas sabia o que significavam aqueles olhares, aquelas lágrimas furtivas.

Tive muita pena de meu tio. Em um impulso, fui até ele, que estava sentado em uma cadeira de piscina, e enlacei seu pescoço por trás. Surpreso, ele me olhou e acariciou meus cabelos. Notei o quanto ele parecia triste. Meu tio não era um homem feio, mas estava longe de igualar-se ao meu pai, tanto em aparência quanto em magnetismo.

Quando estamos vivendo certos momentos da vida, nós nunca sabemos, ao certo, quanto tempo eles vão durar, ou quando se tornarão apenas lembranças dolorosas de dias que jamais voltarão. Eu era uma criança, e nem pensava nessas coisas. Sentia-me segura ao lado de minha família, apesar das pequenas brigas e crises de ciúmes, invejas escondidas e indiretas mais do que diretas. Nós éramos felizes, e nos amávamos. Nós protegeríamos uns aos outros para sempre, e até mesmo papai protegeria Tia Samira se fosse necessário. Eu me sentia totalmente segura, com todas as possibilidades que a vida tinha para me oferecer a felicidade. Nem passava pela minha cabeça que meu pai era um homem muito sonhador, e que talvez essa característica pudesse ser um aspecto negativo em nossas vidas, como tia Samira vivia repetindo para mamãe. Pois eu confiava no amor dele por nós.

Eu às vezes me pegava imaginando meus pais idosos, e que eu tomaria conta deles. Pensava no meu primeiro namorado, na minha formatura, na minha festa de quinze anos, no meu casamento. Eu também conversava muito com Sara sobre o que seríamos quando crescêssemos. Ela queria ser professora, e eu, escritora. Sonhar era tão fácil! Não havia nenhum impedimento para que nós sonhássemos tão alto quanto queríamos. Papai ia muito bem no trabalho, e nossa vida tinha melhorado muito. Ele estava começando a guardar dinheiro para o nosso futuro, como ele mesmo dizia: o futuro das suas meninas. Nossos estudos e sonhos.


 (CONTINUA...)


2 comentários:

  1. Estou a gostar de acompanhar a estória... Obrigada :))
    .
    Sonhei ser o calafrio do momento ...
    .
    Beijos, e um excelente fim de semana..

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  2. WOW, your story just gets better and more intriguing the more I read!!
    Thank you so much for keeping me entertained...in the most delightful way!😊😊

    Have a super weekend, my dear friend Ana!

    Hugs xxx

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