terça-feira, 1 de setembro de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 7





 PARTE 7 


Naquele mesma hora, liguei para a escola e pedi que me substituíssem. Entrei no carro e fui para a casa de minha mãe a fim de conversarmos; afinal, ela não podia continuar pensando aquilo sobre mim! 

O trânsito estava terrível, e a ansiedade que eu sentia era crescente. Quase me envolvi em uma discussão no trânsito, e juro que se não estivesse com tanta pressa para falar com minha mãe, eu teria descido do carro e literalmente surrado a outra motorista. Eu estava realmente à beira de um ataque de nervos, pensei, mas então percebi que estivera naquele mesmo estado desde o dia da morte de Betina. Era como se eu tivesse ficado congelada no tempo. Era como amanhecer todos os dias e perceber, exatamente como acontece em alguns filmes, que o meu dia anterior estava se repetindo.

Finalmente, cheguei e fui direto ter com minha mãe. Encontrei-a ainda de camisola, tomando seu café no jardim de Paola, que já tinha saído para o trabalho. Ela me olhou enquanto eu me aproximava, a xícara parada a caminho da boca. Pousou-a no pires sem tomar o café. 

Eu levava comigo a caixa com o anel e o vestido. Sentei-me diante dela, e jogando o conteúdo da caixa sobre a mesa, quase gritei:

-Então esses anos todos você pensa que eu... que eu... mãe, eu só tinha treze anos! Estava amedrontada, eu não sabia oi que fazer com... com tudo aquilo que estava acontecendo, e as coisas acabaram saindo de controle, e de repente, não fazia mais sentido dizer a verdade, contar o que eu vi.

Ela franziu a testa, e segurando minhas mãos trêmulas, acariciou-as durante algum tempo, tentando me acalmar. Quando viu que eu parara de chorar, ela disse:

-Minha filha, foi muito difícil para mim também passar todos esses anos sem confrontar a verdade. Você precisa fazê-lo agora. Não quero que carregue esse peso pelo resto de sua vida.

-Puxei minhas mãos de sob as dela e berrei:

-Então você ainda acha que eu... que eu matei a Betina??? Se pensava isso, por que não me confrontou naquela época? Talvez eu não tivesse a vida de merda que eu tenho hoje se você tivesse feito isso! A culpa é sua, mãe, por não saber como lidar com sua própria filha de treze anos de idade!

Ela gritou:

-Se acalme, por favor!

Aquilo me chocou, pois a minha vida inteira, minha mãe gritara comigo pouquíssimas vezes. Respirei fundo e fiquei em silêncio, balançando os joelhos de tão nervosa. Ela continuou:

-Acho que você precisa contar essa história, Mônica. 

Eu me levante e comecei a andar de um lado para o outro, juntando cacos de memória. Comecei:

-Naquela tarde, depois que vocês saíram, eu fui até a casa de Betina ficar na piscina, porque estava muito calor. Ela tinha convidado, lembra? Mas cheguei lá e não encontrei ninguém. Eu fui à cozinha e tomei suco de laranja que achei na geladeira – fiz isso duas vezes, os copos que Helena encontrou tinham sido usados por mim. 

Fui logo para  a piscina, pois chamei por Betina e ela não respondeu. Achei ter ouvido risadas no quarto, e assim pensei que ela não estava a fim de ser perturbada porque deveria estar com alguém. Eu fui para a piscina e fiquei lá o resto da tarde. Lembro-me de que quando saí da água, meus dedos estavam até murchos. Eu cheguei a ouvir ruídos de algo se quebrando em algum lugar, mas por preguiça, não fui ver o que era. 

Mais tarde, ouvi a porta da cozinha sendo aberta... fui ver quem poderia estar saindo pelos fundos, só para saber, por curiosidade, quem poderia estar com Betina em seu quarto. E então me escondi atrás do muro que separa o quintal dos fundos do jardim. Foi quando eu o vi... Breno. Estava muito nervoso. Parecia desesperado. Andava de um lado para o outro e segurava a cabeça com as mãos, até que ele olhou para o muro dos fundos... deu impuldo e correndo, conseguiu alcançar a borda. Ele tentou duas vezes antes de conseguir. E então pulou para o outro lado, desaparecendo. 

Fiquei curiosa e ao mesmo tempo, amedrontada. Achei melhor ir embora. 

Mas eu sabia que ele tinha feito algo errado, alguma coisa não estava certa. Então eu achei melhor verificar.

Antes de ir embora, subi ao quarto de Betina e a encontrei... caída sobre o tapete branco junto à cama, e o tapete estava manchado de sangue... o cachorro de ferro que ela usava para prender a porta da sacada estava caído sobre vidro quebrado, como se alguém o tivesse empurrado, achei que ela tinha caído sobre ele de cabeça e o empurrado em direção ao vidro com a queda. Eu verifiquei se ela estava viva... mas ela tinha os olhos vidrados, a mão parecia quebrada...  acho que foi ali que sujei a barra do vestido no sangue dela e nem percebi. Senti náuseas... corri ao banheiro... havia uma fileira de pó branco sobre a pia, e um canudo de plástico. Betina estivera usando drogas. 

Eu fiquei com muito medo! Imagine, eu só tinha treze anos! Não sabia como lidar com aquilo...

Minha mãe me ouvia pacientemente, mas havia algo nos olhos dela que dizia que ela não acreditava no que eu estava falando. Naquele momento, surgiram Sandrinha, Paola... e Breno! Ele estava diferente do Breno que eu guardava na memória, mas era ele, pude reconhece-lo logo.

De repente, eu me senti cercada e confrontada. O pânico começou a tomar conta de mim. Eles me olhavam, eles me acusavam com os olhos. Eu me sentia com treze anos de idade novamente!

Paola me segurou pelo braço, me obrigando a sentar-me à mesa novamente e sentando-se ao meu lado. Na minha frente, mamãe e Sandrinha me encaravam. Breno sentou-se ao lado de Paola. Olhei para ele:

-O que você está fazendo aqui? Veio espalhar mentiras sobre mim?

Paola respondeu:

-Não, Mônica, ele veio porque mamãe pediu. Nós estamos aqui porque ela nos pediu. 

Apavorada, retruquei:

-Vocês também pensam que eu a matei, não é?

Sandrinha, que estivera calada, se pronunciou:

-Não é nada disso! Até ontem, nós não sabíamos de nada disso, nem desconfiávamos que Betina poderia ter sido assassinada. Mas a mamãe nos contou sobre o vestido, sobre o anel... e ontem mesmo Paola conseguiu localizar Breno pela rede social e pediu a ele que ele viesse aqui, já que ele está de volta à cidade. 

Eu não estava entendendo nada! Como Breno poderia ser tão cínico, a ponto de me confrontar? Apontei para ele, acusando-o daquilo que eu sabia há tantos anos.

-Você a matou! Eu estava lá, mas como sempre, vocês me ignoraram. Você a matou e depois pulou o muro dos fundos para o terreno baldio. Eu vi tudo! Mas eu só tinha treze anos, e fiquei com medo... não sabia como agir, não sabia como explicar à polícia que eu estava ali. Eu tinha medo!

Minhas irmãs olharam para Breno, e depois de volta para mim. Minha mãe perguntou, a voz contida e fria:

- Filha, o que o anel de Betina estava fazendo entre as suas coisas?

-Ela o emprestara a mim dias antes de morrer!

Paola me interrompeu:

-Mônica, você e eu sabemos que ela jamais tirava esse anel! Tinha sido presente da avó dela, que ela adorava, e era a única coisa que ela não emprestava a ninguém! 

Fiquei confusa; minha cabeça era um turbilhão, e nem eu acreditava mais em mim. Até que voz de Breno me fez tremer, voltando à realidade:

- Mônica... pense bem! Como você poderia ter me visto lá na casa naquele dia, se eu estava fazendo prova de vestibular em São Paulo?

Paola o apoiou:

- É verdade, irmã. Falei com ele pelo telefone naquela mesma noite. Ele só voltou à cidade no dia seguinte de manhã, antes de Helena descobrir o corpo de Betina. E Breno tem testemunhas! Os pais dele o levaram à rodoviária onde ele pegou o ônibus para São Paulo, e ele fez a prova e passou, tanto que logo depois foi estudar na USP. 

Eu não sabia o que dizer. Minha boca se entreabriu, mas a minha voz não saiu. 

(CONTINUA...)





segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 6



 PARTE 6


Meu pai faleceu durante a noite, quando eu tinha 30 anos. Foi meu terceiro velório. Minha mãe não se conformava, dizendo que naquela noite eles tinham ido jogar uma partida de biriba no clube, e que ele estava tão feliz, tão sorridente, tão bem. Mas a morte não liga para essas coisas. Ela até parece gostar de pegar as pessoas saudáveis e felizes de surpresa, sadicamente se esquecendo das tristes, deixando-as para o final, aguardando ansiosamente o encontro fatal. E então, quando ela, a Morte, chega para os infelizes, ela se diverte um pouco antes de leva-los, escutando sobre o quanto eles gostariam de ter uma nova chance, o quanto eles poderia ter

Sido

Felizes. 

A morte de meu pai também me abalou profundamente, pois eu tinha certeza de que ele me preferia às minhas irmãs, e éramos muito próximos. Porém, minha vida estava em um estado de torpor tão grande, que eu logo me conformei com a morte dele. Nada conseguia me despertar emoções duradouras naqueles dias. 

Para não ficar morando sozinha, minha mãe, agora com sessenta e oito anos, vendeu nossa antiga casa e mudou-se para um apartamento pequeno que ficava sobre a garagem de Paola. O lugar era muito jeitoso, bem dividido e arrumado, e todas achamos que ela poderia passar ali os seus dias de velhice sendo relativamente feliz sem papai, só que ela nunca se conformou com a morte dele. Minha mãe tornou-se uma sombra da linda mulher que costumava ser. Passei a visita-la de vez em quando, com mais frequência do que antes, pois achava que finalmente, estávamos parecidas uma com a outra. Nós nos sentávamos juntas e assistíamos TV em silêncio. Depois, eu fazia um café para nós duas, e Paola e Sandrinha às vezes apareciam para ver como estavam as coisas, trazendo um bolo ou alguns biscoitos. Mamãe tentava sorrir e responder às nossas expectativas do quanto a vida deveria continuar e sobre como ela deveria tentar continuar a ver os amigos e a ser feliz, mas eu sabia que ela só fazia aquilo – concordar conosco – para que nós a deixássemos em paz. Aqueles dias após a morte de meu pai nos uniu novamente, pois eu era calada, não fazia perguntas e nem tentava dizer a ela como deveria viver sua vida sem ele. Meu silêncio melancólico a trouxe para perto de mim outra vez.

Mas quando assistíamos TV naquelas tardes em que eu a visitava, eu olhava para ela de soslaio e notava que ela não estava entretida com a TV. Eu sabia, porque eu também não estava. Éramos duas estátuas vazias. Por isso ela passou a gostar de mim novamente.

Um dia, ela olhou para mim e comentou:

-Parece que não temos muito a conversar, não é filha?

Respirei profundamente, pensando no que responder, e disse:

-É verdade, mãe. Sabe, eu sei que a senhora nunca teve muita coisa para me dizer... sei que prefere minhas irmãs, mas eu não ligo, fique em paz.

Ela arregalou os olhos, e colocou a mão sob o meu queixo, me obrigando a olhá-la. 

-Não! Eu... amo você, sempre amei!

Aquela declaração tardia e sem contexto me surpreendeu. Fiquei boquiaberta, sem saber o que dizer, olhando-a, sentindo o toque de sua mão sob o meu queixo e me lembrando de que há muito tempo ela não me tocava daquela forma. Então ela falou bem devagar:

-Filha... às vezes, o nosso silêncio é a forma mais eloquente que encontramos para amar alguém. 

Pela primeira vez em todos aqueles anos, percebi que minha mãe não apenas sabia que eu tinha estado na casa de Betina no dia de sua morte, mas que ela pensava que EU a matara!

Aquilo era demais para mim!

Fiquei sem visita-la durante dois dias. Na manhã do terceiro dia, chegou-me pelo correio uma caixa de sapatos embrulhada em papel pardo. A letra caprichosa de mamãe escrevera o meu endereço. 

Instintivamente, eu sabia o que a caixa continha, mas abri-a assim mesmo, e sem nenhuma surpresa, o anel de pedra azul de Betina, embrulhado ainda no mesmo lenço branco, caiu sobre a mesa. Mas havia algo mais, um outro pano  dobrado pra ficar bem pequeno. Abri-o, e reconheci o meu vestido leve de algodão branco. O mesmo que eu estava usando no dia em que vi Betina pela última vez. Eu tinha me esquecido completamente dele! Depois que o lavara e pendurara no varal, eu nunca sequer pensara nele outra vez. 

Tirei-o da caixa, e fui engolfada por uma torrente de lembranças. Minha memória parecia ter sido acionada, e comecei a me lembrar de coisas que aconteceram naquele dia que seriam impossíveis para qualquer pessoa lembrar em condições normais: o que tínhamos comido no almoço, o que as pessoas na minha casa estavam usando, o clima terrivelmente quente.

Coloquei o vestido de costas sobre a mesa, e o que vi, me encheu de terror: a barra da saia estava manchada! Era uma mancha seca, envelhecida e amarronzada, mas só podia ser sangue – o sangue de Betina! Minha mãe escondera aquele vestido durante todos aqueles anos, só para me proteger! Imaginei o quanto deveria ter sido difícil para ela pensar que sua filha caçula era uma assassina, e o quanto deveria ter sido horrível guardar aquele segredo do resto da família, inclusive de papai!

Eu precisava contar a verdade a ela. Precisava contar a ela o que eu vira naquele dia. Precisava falar sobre Breno fugindo da casa a pulando o muro, mas... havia algo estranho naquela história para o qual eu nunca tinha atentado antes. 


(continua...)




domingo, 16 de agosto de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 5





 PARTE 5 

Os anos se passaram. Minhas irmãs fizeram faculdade, se casaram e se mudaram para suas próprias casas. Paola abriu um escritório de advocacia, e Sandrinha, que estudara moda, sua própria loja de roupas. Ambas eram felizes e realizadas em suas profissões, e eu as evitava, inventando desculpas para não ter que aceitar seus convites para ir às compras ou almoçar. 

Paola me contara que Breno tinha se mudado para outro estado depois que se formara. Dei graças a Deus por nunca mais ter que encontra-lo. 

Eu me formara como professora, só porque era mais fácil e eu não teria que me esforçar muito para fazer uma escolha. Aos vinte e seis anos de idade, eu aparentava bem mais. As olheiras das noites mal dormidas se fixaram sob os meus olhos, e minha magreza extrema deixava minhas faces encovadas. Meus cabelos, agora sem vida, foram cortados curtos e mantidos sempre em um rabo de cavalo sem graça. Eu passei a fumar e a beber de vez em quando em meu apartamento pequeno e sem graça onde eu vivia sozinha, que eu comprara com a ajuda dos meus pais. Meu casamento durara apenas dois anos, e um dia, vi meu marido sair pela porta carregando uma mala e dizendo que “Simplesmente não aguentava mais viver com alguém tão emocionalmente fechada.” 

Não fiz nada, a não ser assinar os papéis do divórcio e comprar o tal apartamento sem graça que eu nunca mobiliei de verdade, as coisas todas dentro de caixas. 

Às vezes, meus pais me visitavam, e aqueles momentos eram torturantes, com minha mãe tentando arrumar as coisas em prateleiras que não eram suficientes para tudo, e procurando cadeiras onde pudesse colocar as roupas que ela dobrara e que tinha encontrado em uma pilha no canto do meu quarto. 

Eu dava aulas de História. Era uma péssima professora, e sentia, quando eu entrava na sala de aula, os alunos se entreolhando e fazendo caretas atrás de mim. Eu os mandava abrir os livros e eles se intercalavam nas leituras do capítulo. Era só. A aula estava dada. Aplicava as provas, dava as notas e fim. Ganhava meu salário no final do mês, comprava alguma comida, cigarros e bebida. As roupas que eu usava eram todas em tons de preto e bege. Não havia outras cores penduradas nas araras ‘temporárias’ que meu pai montara em meu quarto “Só-até-você-comprar-um-guarda-roupa” e que já estavam lá há anos.

Eu não tinha uma vida.

A não ser quando dormia e reencontrava Betina. E ela parecia nunca envelhecer, sempre tão bonita e sorridente, sempre tão jovem, sempre tão morta e sempre me perguntando por que eu a tinha deixado sozinha. 


(continua...)




segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 4


 PARTE 4


Era uma tarde de domingo, e minhas irmãs tinham saído. Meus pais descansavam no quarto após o almoço, e eu deixava a minha mente vagar entre a realidade de um filme antigo na TV e a modorra silenciosa da tarde de domingo, jogada no sofá, sem ter a menor ideia de sobre o que era o filme. E de repente, do nada, me veio a lembrança do anel de Betina. Aquilo me despertou feito um choque elétrico; comecei a escutar o barulho vindo da rua – crianças brincando, alguns carros, um rádio tocando rock. De repente, eu estava viva novamente, e alerta. Corri até o quarto, trancando a porta atrás de mim, e abri a gaveta, jogando minhas calcinhas, anáguas e sutiãs no chão, procurando pelo embrulhinho de lenço branco. 

Mas nada encontrei. Nem lenço, nem anel, nem nada. Alguém o tinha encontrado. Alguém o pegara!

Logo desconfiei que tinha sido minha mãe, e por isso, ela andava tão estranha comigo. Pensei no que fazer; não sabia há quanto tempo o anel tinha sumido, pois simplesmente me esquecera da existência dele. Não sabia nem com certeza se tinha sido a minha mãe que o pegara, e nem se ele realmente estivera comigo ou se tudo tinha sido fruto da minha imaginação.

Às vezes, Breno nos visitava, e quando isso acontecia, eu me trancava no quarto ou arranjava uma desculpa para sair. Será que ele, sabendo do anel de alguma forma, tinha entrado em meu quarto quando eu estava fora e pego o anel? 

O que fazer? Tentei deliberar um plano de ação, caso alguém me perguntasse sobre o anel. Responderia que ele estava comigo há muito tempo, desde antes da morte de Betina, pois ela o emprestara a mim... mas... se Breno a matara, com certeza sabia que o anel estava no dedo dela, e encontrando-o comigo,  saberia que eu estivera na casa no dia do crime. Novamente, me vi tomada de desespero. 

Já não rezava desde a minha primeira comunhão. Caí de joelhos no chão do quarto, juntando as mãos na frente do rosto, e pedi a Deus que me desse uma solução. Foi quando uma grande paz me invadiu, e eu então soube o que fazer: nada. Absolutamente nada. Não diria nada sobre o anel, e se me perguntassem, dependendo de quem fosse, eu daria uma resposta diferente. Ou simplesmente diria que não tinha a menor ideia de como ele tinha ido parar na minha gaveta. 

Mas com o tempo, tive certeza absoluta de que minha mãe o pegara. Porque ela um dia se aproximou de mim, logo depois que voltei da escola. Eu estava sentada almoçando. Minhas irmãs tinham ido almoçar na casa de alguém, e meu pai estava trabalhando. Minha mãe sentou-se ao meu lado e ficou me olhando enquanto eu comia, a cabeça descansando em uma das mãos, me examinando como se eu fosse um ET ou algo assim. Senti um leve rubor cobrir o meu rosto, mas continuei comendo como se nada estivesse acontecendo. Ainda pude olhar para ela e dar um sorrisinho.

Ela queria me dizer alguma coisa, mas não sabia como. Por baixo da minha máscara de paz de espírito, meu coração queria ser digerido junto com a comida. Finalmente, ela disse:

-Mônica, existe alguma coisa que você queira me dizer sobre o dia da morte de Betina?

Me choquei com a maneira direta dela falar. Bebi o suco quase engasgando, e arregalei os olhos, respondendo rápido demais:

-Não! Por que?

Fiquei esperando ela colocar o anel diante de mim. Mas não. Ela ficou me olhando nos olhos, me encarando muito séria. Me aprontei para responder uma saraivada de perguntas que, com certeza, iam me desmentir ali naquele momento e colocar tudo a perder. Eu era uma péssima mentirosa quando confrontada, e minha mãe sabia disso. Mas depois eu descobriria que ela pensava que a verdade era tão terrível, que seria melhor não conhecê-la. 

Apertei os lábios, limpando-os com o guardanapo de papel. Meu calvário estava começando, pensei. Só que não; ela ainda abriu a boca para dizer algo, mas então colocou a mão rapidamente sobre a minha, fazendo uma leve carícia, e levantando-se da mesa, carregou meu prato e meus talheres para a cozinha. 

Então era só isso, pensei.

Mas a distância que começou a nos afastar era um abismo que só nós duas conseguíamos enxergar; para os outros, conseguíamos fingir que tudo ia bem, que tudo estava normal. Quando ficávamos sozinhas, evitávamos nos olhar e só falávamos quando estritamente necessário, mas quando estávamos junto com as outras pessoas, conseguíamos fingir que tudo estava bem.

Meus pesadelos recorrentes nunca me abandonaram, nem mesmo depois que meu pai me levou a um psiquiatra que me receitou alguns medicamentos leves para dormir. Eu sonhava com Betina todas as noites. Eu a via morta, os olhos vidrados; eu via o sangue escurecendo o tapete; eu sonhava com ela quando viva, rindo e brincando, sentada no nosso tapete da sala com minhas irmãs; eu tocava suas pupilas com a ponta do indicador; eu sonhava com as tardes de verão juntas na sua maravilhosa piscina. Mas em todos os sonhos, eu sabia que o momento chegaria no qual, na frente de todo mundo, ela me perguntaria: “Por que você me deixou sozinha?” Todos me olhariam ao mesmo tempo.  E naquele momento, o chão se abriria sob os meus pés e eu afundaria rapidamente em um buraco escuro, e muitas vezes, acordava gritando, as cobertas no chão, coberta de suor frio. 

Ir dormir era uma tortura para mim, e então o médico achou melhor aumentar as doses. Elas me faziam ter um sono pesado e acordar me sentindo péssima, mas não impediam os pesadelos. Uma vez, durante uma consulta, ele me disse:

-Eu sei que você guarda algum trauma profundo dentro de você, Mônica, e você não quer falar sobre ele. Mas enquanto não falar sobre os seus fantasmas, eles jamais a deixarão em paz e a visitarão todas as noites.

A palavra “fantasmas” era por demais adequada. Entre todos nós, eu era a única que ainda não tinha sepultado Betina. Até mesmo os pais dela tinham saído em uma viagem ao redor do mundo. Certa vez encontramos Helena na feira, e ela nem tocou no assunto; estava sorrindo, e conversamos sobre tomates e o preço da carne. Era como se Betina nem tivesse existido. Mas eu me lembrava, só eu me lembrava o tempo todo dela.


(continua...) 


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 3









PARTE 3

A manhã estava quase terminando. Como Paola não estivesse conseguindo falar com Betina, acabou programando outra coisa para fazer durante o dia: iria ao cinema com amigos. Já tinha ligado para a Márcia, o Pedro, a Jan e o Breno.

Ao ouvir o nome dele, eu gelei. Então era isso? Ele matava a amiga e ia ao cinema? Como podia ser tão frio? 
Na hora do almoço, tentei comer um pouco. Minha mãe preparou uma macarronada deliciosa. Já estávamos quase terminando o almoço quando o telefone tocou. Meu coração quase parou. Mamãe foi atender, e era apenas papai. Eles falaram durante algum tempo, e depois ela desligou. 
Por volta de meio-dia e trinta, eu enxugava as louças do almoço quando o telefone tocou novamente. Daquela vez, Sandrinha atendeu. Pude ouvi-la:

-Oi, Helena! Tudo bem? Tentamos falar com Betina a manhã toda... não... você chegou em casa agora? Não, ela não está aqui! Ah, tirou o dia de folga ontem, hein? Que bom! ... está bem. Se ela aparecer, eu digo que você já chegou. Beijo.

Eu, que ouvira toda a conversa, encostei-me na parede para não cair. Sandrinha me olhou:

-Você está branca feito um papel, Mônica. Aconteceu alguma coisa?

Eu não conseguia responder. Meu coração estava tão acelerado, que eu sufocava. Me senti escorregar parede abaixo, tudo em volta foi ficando embaçado, e vi minhas irmãs e minha mãe correndo em minha direção, até que tudo escureceu. 

Acordei em uma sala branca, e havia uma agulha espetada no meu braço. Em volta de mim, todos pareciam muito preocupados. Ao ver que eu tinha acordado, Paola, de olhos vermelhos, cutucou minha mãe, e então ela veio correndo até a maca aonde eu estava deitada na emergência do hospital. Olhei para ela ainda grogue por causa dos medicamentos e pisquei várias vezes, me sentindo tonta e confusa. Ela disse:

-Não se preocupe, eles te deram um calmante. 

E foi naquele momento que eu cometi meu terceiro erro: perguntei a ela:

-Já acharam o corpo?

Ela arregalou os olhos, e sorriu:

-Que corpo, querida? Acho que você está delirando por causa dos remédios. Mas logo vamos para casa. 
Meu pai estava de pé ao meu lado, e me deu um beijo na testa. Apaguei de novo. 
Quando acordei, minhas irmãs não estavam no quarto, e não vi meu pai. Já estava escurecendo, pois as persianas estavam fechadas e havia uma luz fraca acesa por trás da maca. Ao me ver acordada, meu pai me disse:

-Oi, filha. Melhorou?

Pisquei novamente, repetidas vezes. 

-Estou bem, sim, pai. Cadê todo mundo?

Ele não respondeu, e mudou de assunto. Parecia bem triste:

-O médico disse que você poderia ir para casa assim que acordasse, mas ela quer dar uma olhada em você antes. Disse que você teve um mal-estar por causa do calor. 

Ele saiu do quarto e voltou com o médico, que me examinou e disse que eu podia ir. À porta, ele disse ao meu pai:

-Evite que ela tenha emoções muito fortes por hoje... conte amanhã...

Assim que ele saiu, meu pai e eu fomos para o carro e de volta para casa. Eu sabia que eles já tinham recebido a notícia. O silêncio entre nós já dizia tudo. Não pude me conter:

-Pai... aconteceu alguma coisa?

Ele parecia que estava pronto para desabar. De repente, encostou o carro no meio-fio, e com as duas mãos sobre o volante, parecia estar tomando coragem para me contar. Esperei, até que ele achasse as palavras:

-Mônica, aconteceu uma coisa, sim. Vou contar agora, pois quando chegarmos em casa, vai ser pior. Suas irmãs estão muito abaladas. Bem, é que... a Betina... ela morreu. 

Eu achei melhor fingir surpresa:

-Morreu??? Mas... como? Ela... ela é muito nova ainda, pai!

-Eu sei, querida. Eu sei...

Ele chorou um pouco, e nos abraçamos. Chorei também, sinceramente, querendo acreditar que eu não soubera daquilo antes de todo mundo. Fingi que nunca estivera naquele quarto no dia anterior. Mas os olhos dela, de vidro verde, me olhavam de algum lugar que eu não tinha como escapar. 

Depois daquilo, houve o velório. Minhas irmãs estavam arrasadas. Os pais de Betina choravam muito, se sentindo culpados. Houve perícia, e acharam a cocaína sobre o mármore da pia do banheiro. A causa mortis tinha sido overdose, e também o ferimento na cabeça, que segundo a perícia, tinha sido ocasionado por uma queda acidental sobre uma estatueta de ferro. Mas eu sabia que não, e só eu sabia. Aquilo fez toda a diferença em minha vida. 

No velório, olhei de soslaio para Breno, pois não conseguia encará-lo. Ele era o mais abalado de todos nós, amigos de Betina. Precisaram medicá-lo com calmantes. Seria uma forma de disfarçar tudo? Notei que havia um rapaz ao lado dele que nós não conhecíamos, e depois ficamos sabendo ser seu namorado. Mas então, por que Betina estava nua com ele quando morreu? Aquela era uma pergunta que eu jamais poderia fazer a ninguém. Ninguém sabia que eu tinha sido a primeira pessoa, ou melhor, a segunda pessoa a vê-la morta.

Falamos com Helena; ela desconfiava que havia alguém mais na casa no dia da morte, pois encontrou dois copos com restos de suco de laranja na pia, e Betina não tomava suco de laranja, pois a acidez da fruta provocava-lhe dores de estômago – ela sofria de gastrite. Helena tinha comprado o suco para si mesma. 

Fiquei muito preocupada, pois sabia que a polícia poderia tirar impressões digitais dos copos e comprovar que eram minhas. Por que eu não lavara os copos? E por que estava tão preocupada, afinal de contas? Não era eu a assassina! Passei várias noites sem dormir também por causa daquilo, mas nada aconteceu, já que descobri que automaticamente, assim que chegou em casa e antes de saber da morte de Betina, Helena tinha lavado os copos. Não havia mais qualquer impressão digital neles, e a polícia nada pode fazer, concluindo que talvez Betina tivesse tomado o suco, afinal. 

Me senti aliviada ao saber daquilo. Sem perceber, eu começara a agir como se eu tivesse matado Betina, como se eu tivesse algo a esconder!

Minha mãe me olhava de uma maneira muito estranha durante o velório, e mesmo depois dele. 
Alguns dias depois, abri os olhos no quarto durante a noite e deparei com minha mãe de pé ao lado da minha cama, me olhando. O abajur ao lado da cama estava aceso, e pude ver que seus olhos eram frios e indagadores. Levei um susto. 

-Mãe? O que aconteceu?

Ela me encarou por algum tempo antes de responder. Depois, com voz firme, ela me disse:

-Você teve outro pesadelo. Estava quase gritando!

Sentei-me na cama: o que ela tinha ouvido? O que eu tinha dito? Minha mãe completou:

-Você ficou assim depois que sua tia-avó morreu, lembra-se?

-E como poderia esquecer? Claro que eu me lembro. 

-A morte de Betina a abalou muito, não foi?

Concordei com a cabeça e me deite, virando-me de lado e de costas para ela. Ela saiu do quarto, fechando a porta. 

O Natal daquele ano foi muito triste, e não houve comemorações na nossa casa, nem ceia. Fomos todos dormir mais cedo. 

Uma semana após a morte de Betina, todos fomos à missa de sétimo dia. Paola chorava muito, abraçada a Breno e Sandrinha. Eram melhores amigos desde crianças. Eu olhava toda a cena do meu lugar na igreja, me sentindo oprimida e sofrendo por causa do calor, sentindo o suor escorrer pelas minhas costas me fazendo cócegas. Só queria que tudo aquilo ficasse para trás.

Morávamos em uma cidade pequena, e o caso foi manchete no jornal local por vários dias. Havia uma foto três por quatro de Betina estampando uma das  matérias que não fazia jus à sua beleza. Somente eu guardara comigo o último vislumbre de Betina ainda bonita, sem a cor esverdeada dos cadáveres.

Daquela noite em que acordei com minha mãe me olhando em diante, eu sentia como se um abismo fosse sendo cavado entre mim e ela. Com o passar dos meses, minhas irmãs se recuperaram da perda – eram jovens e tinham muitos amigos. Mas minha mãe parecia cada vez mais triste e calada. E quando ela me olhava, seu olhar era tão profundo, que eu sabia... que ela sabia de alguma coisa! Um silêncio criou-se entre nós. Ela só falava comigo sobre coisas absolutamente indispensáveis, e eu apenas respondia, pois temia que ela tocasse no assunto. Eu me lembrava de que, no dia em que fui para o hospital, eu perguntara a ela se já tinham achado o corpo. Com certeza, ela ligara os pontos. Sabia que de alguma forma, eu tinha alguma conexão com a morte de Betina. 

E então, após quase três meses e meio da morte de Betina, eu me lembrei do anel em minha gaveta. 


(continua...)




sábado, 25 de julho de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 2







O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA

Parte 2

Eu até hoje me pergunto o porquê de eu ter me escondido naquela ocasião. Eu poderia ter simplesmente caminhado normalmente até a parte de trás da casa, mas não o fiz, me esgueirando junto à parede até chegar ao muro, me escondendo atrás dele. Quando vi Breno, que eu conhecia bem, poderia ter me erguido e dito: “Ah, é você! Me deu um susto!” Ou qualquer outra coisa, mas não o fiz. Apenas o observei. Por que? Não sei! 

Eu poderia ter subido até o quarto de Betina ao ouvir o som de vidro se quebrando, mas fingi que não ouvi. Continuei na piscina por muito tempo ainda, saindo talvez uma hora depois do ruído.
Muitas coisas eu poderia ter feito, e eu não fiz, e até hoje, eu não sei o porquê. Porém, aquele dia mudou toda a minha vida e o que ela poderia ter sido, pois naquela mesma tarde, uma sombra negra começou a pairar sobre a minha cabeça e nunca mais me deixaria. 

Eu poderia também ter ido embora sem olhar para trás; sair pelo portão da mesma forma que eu entrei e pronto. Mas eu achei que deveria me despedir de Betina, que aliás, nem tinha vindo falar comigo, mesmo sabendo que havia alguém na casa que poderia ser eu ou uma das minhas irmãs. 
E então eu tirei os meus chinelos úmidos para não marcar o linóleo da sala. Eu voltei até a cozinha e, pegando outro copo, tomei mais suco de laranja, colocando-o junto com o outro na pia. Depois, subi os degraus até o segundo andar um a um, assoviando “Mistake Number Three.” E estava a apenas alguns passos de cometer meu segundo e terceiro erros. O primeiro, tinha sido tomar a decisão de ir àquela casa naquela tarde.

Andei pelo corredor descalça sobre o tapete macio, e fui ao quarto de Betina. Eu conhecia bem aquele caminho. Chamei: “Betina? Sou eu! Estava na piscina!”  Mas ela não respondeu. Eu poderia ter ido embora ali e me poupado de uma cena dantesca, mas a curiosidade não deixou, e eu parei à porta do quarto. O quarto de Betina era um espetáculo à parte: o carpete era todo branco e felpudo. A colcha da cama era rosa-bebê, cheia de almofadas peludas e fofas em cima, uma de cada cor, todas em tons pastel. As cortinas eram de voil branco, com sanefas rosa-bebê, e eu amava a forma como aquelas cortinas dançavam ao vento. Havia uma cômoda antiga e linda, que ela havia mandado repintar com as cores da bandeira dos Estados Unidos. Sobre a cômoda, seus cremes, perfumes e caixinhas de joias. Na parede por cima da cômoda, um espelho ocupava quase toda a extensão, refletindo a linda paisagem que a janela de vidro da sacada mostrava ao ser aberta. 

Por trás da cabeceira e acima da cama havia em um painel fotografias dela em várias poses, e também de seus amigos – minhas irmãs estavam lá, mas eu, não. Ela vivia dizendo que ia pendurar a foto que eu dera para ela, mas jamais o fazia.

Ao lado da cama havia uma mesinha de cabeceira branca, e do outro lado, um abajur de pé alto com cúpula vermelha. A cabeceira da cama era toda cheia de luzes de fada, que estavam acesas quando entrei. Eu amava aquelas luzinhas! Em frente à cama havia uma pequena lareira, e sobre o aparador, mais fotos dela e também dos pais. Nas paredes, o papel branco decorado por rosinhas miúdas esfumaçadas completava o meu sonho de quarto. Betina tinha seu próprio banheiro e seu próprio closet recheado de roupas de marca. Enfim, a vida que toda adolescente pediu a Deus, mas apenas poucas conseguiram ganhar. 

Eu ainda estava de pé à porta, adorando tudo aquilo. Mas algo escuro sobre o tapete branco me chamou a atenção. Era uma grande mancha que só aumentava aos poucos, muito lentamente, como se alguma coisa muito negativa estivesse se espalhando pelo quarto, e acabaria se esparramando pelo corredor, descendo as escadas e se espalhando pela casa toda. 

Achei aquilo estranho, mas não me assustei- ainda. Entrei e fui até aonde a mancha se encontrava. Olhei por cima da cama e visualizei uma das mãos de Betina no meio de uma mancha vermelho-escuro. Ainda brinquei: “Entornou o esmalte?” Ela não respondeu, ela não se mexeu. Dei a volta devagar, já tendo certeza de que veria alguma coisa muito chocante. Eu não queria fazer aquilo, mas era como se estivesse sendo puxada com força naquela direção. 

Com uma rápida olhadela, notei o último vidro da janela quebrado, junto ao tapete.
Dei a volta na cama e então eu vi tudo: Betina estava deitada de costas no chão, sobre o tapete branco, usando apenas uma calcinha de renda preta. Notei que seus seios eram pequenos e arredondados. Os olhos estavam fixos no teto, verde-esmeralda esparramados e brilhando como vidro. O braço direito dela estava erguido ao longo do corpo, a mão em um ângulo estranho – a mesma mão cujos dedos eu vira na poça escura. O outro braço estava displicentemente jogado sobre o abdômen. No anelar da mão quebrada, ela usava um anel de pedra azul que eu adorava, e que ela já havia se recusado a me emprestar mais de uma vez, pois tinha sido um presente de sua falecida avó. Ao lado do corpo de Betina – sim, ela estava morta, embora eu demorasse a perceber – havia uma estátua de ferro caída e suja de sangue, um cachorro sentado que ela usava para segurar a porta da sacada da janela para que o vento não a batesse. 

Com certeza, ela caíra de costas sobre o objeto, atingindo-o com a parte de trás da cabeça – ou alguém o usara contra ela? A queda de Betina sobre o cachorro de ferro fizera com que parte do objeto caísse para fora da varanda, quebrando o vidro da janela. Concluí sem dificuldade que aquela tinha sido a causa da morte de Betina e a explicação para todo aquele sangue que saia sob a cabeça dela, sujando todo o tapete branco. 
Eu subi na cama para não me sujar com o sangue, e de bruços, toquei no rosto dela. Queria me certificar do óbvio: sim, Betina estava morta. Toquei de leve sua pupila com a ponta do meu indicador; úmida, dura como uma bola de gude verde. Puxei a mão correndo, a sensação úmida na ponta do meu dedo. Por que fiz aquilo? 

Mais tarde, eu sentia arrepios ao me lembrar daquela atitude um tanto macabra!

O grito que eu queria dar ficou preso na garganta, não apenas naquele momento, mas durante os muitos anos nos quais aquela imagem me assombrou e me acordou durante a noite. Meu coração descompassado me fez descer depressa da cama e olhar para o outro lado, caindo de joelhos no tapete, na parte limpa. Fiquei ali, sem saber o que fazer. Betina estava morta. Provavelmente, Breno a matara. Só eu conhecia aquele segredo. 

Eu tinha visto nos filmes que quando algo assim acontecia, a coisa certa era chamar a polícia. Mas eu não sei porque, mais uma vez, eu não fiz a coisa certa, cometendo meu segundo erro. Eu não podia acreditar que 

Breno tinha matado Betina. Eram amigos de infância, e ele era a pessoa mais doce do mundo! 
Eu senti que ia vomitar, e corri para o banheiro dela. Sobre a pia, uma carreira de pó branco e um canudinho de plástico. Mal pude conter o vômito. Não sabia que Betina se drogava! Sequer desconfiava que ela poderia se drogar! Aquilo estava ficando perigoso demais: como eu explicaria à polícia que eu estava ali, e que eu não usava drogas? Perguntas seriam feitas. Perguntas que eu não queria e nem sabia como responder. E se eles pensassem que eu a tinha matado? Quem, acreditaria em mim? Minhas irmãs sabiam que eu não gostava muito dela. A própria Betina devia saber. Poderiam pensar que eu a matara!

Aqueles pensamentos e medos sombrios eram demais para a cabeça de uma menina de treze anos de idade, que até então não sabia nada da vida.

Voltei ao quarto. O relógio da cabeceira marcava cinco da tarde. Logo minha família estaria de volta à casa, e se eu não chegasse antes deles, teria que explicar aonde estava. Logo todos ficariam sabendo da morte de Betina e poderiam concluir que eu estivera por lá. 

Saí correndo do quarto, alcancei as escadas, a porta da casa e o portão dos fundos por onde entrara, tomando o cuidado de verificar pela greta do portão se a rua estava vazia; ninguém poderia me ver saindo de lá. Antes de sair, ainda olhei mais uma vez para a fachada da casa, a piscina, o céu da tarde avermelhado pelo sol, a porta de vidro quebrada da varanda. Havia cigarras cantando no jardim, e passarinhos nas árvores. E lá em cima, uma garota morta que não ouvia mais nada daquilo. Betina nunca mais mergulharia naquela piscina maravilhosa, nem olharia para mim com seu olhar levemente zombeteiro. Nunca mais frequentaríamos aquela casa, ou a encontraríamos na ruas do bairro, nem lancharíamos juntos na praça de alimentação do shopping. Todas aquelas roupas, joias, maquiagens e sapatos lindíssimos nunca mais seriam usados por ela, ou por uma de nós. 

Ainda um pouco antes de sair, olhei para o muro que cercava a casa, achando-o alto demais, e me perguntando como Breno conseguira pular para o outro lado.
O ano letivo recomeçaria. Minha irmã faria o último ano, mas Betina, não. Ela acabara de se formar na escola da vida. Ou na escola da morte. 

Escutei passos na calçada e fechei devagar a greta do portão, até que eles sumiram na curva da rua ao longe. Mais uma vez, olhei pela greta e como não vinha ninguém, dei uma rápida olhada para as casas próximas e saí, me esgueirando como uma lesma pela greta do portão e alcançando a calçada. Após a curva, corri de volta para a minha própria casa. Entrei pelo nosso portão, girei a chave na porta, batendo-a atrás de mim. Graças a Deus, ninguém tinha chegado em casa ainda. Corri para o banheiro e me joguei sob o chuveiro, lavando o cloro dos cabelos, e depois lavei também sob o chuveiro o meu biquíni e o meu vestido branco. Depois, penteei os cabelos e vesti uma camisola, indo pendurar a roupa nos fundos da casa. 

Meus pais e minhas irmãs chegaram por volta das sete da noite, rindo e falando alto e carregando muitas sacolas. Eu fingi que estava dormindo na minha cama. Minha mãe foi falar comigo para perguntar se eu estava bem. Disse que tinha trazido alguns presentes para mim – o que normalmente bastaria para me tirar da cama ou de qualquer outro lugar, mas naquela noite, eu só murmurei que estava adoentada e que veria tudo no dia seguinte. Não quis jantar, e embora estivesse na cama, fingindo dormir, passei a noite toda em claro. A cena de Betina com os olhos arregalados e verdes. O sangue no chão. A mão naquele ângulo estranho, parecendo quebrada. Os seios redondos. A carreira de pó branco sobre a pia, e o cachorro de ferro. Antes, eu adorava aquele cachorro, como adorava tudo o que ela tinha. O sangue, o sague, o sangue...

E o anel de pedra azul. De repente, passei a mão em volta do meu dedo anelar esquerdo e pude sentir a pedra, mas não conseguia me lembrar de como o anel de Betina tinha ido parar no meu dedo. Não me lembrava de tê-lo retirado dela! Num gesto de pura repulsa, arranquei-o do dedo e lancei-o no chão, vendo-o cair numa greta entre a tábua do assoalho e o rodapé. Me levantei, e pegando meu compasso da escola, tentei alcançar o anel. Após algumas tentativas, apesar de estar tremendo, consegui, e coloquei-o na palma da mão, pensando no que faria com ele.

Acabei escondendo-o na minha gaveta, sob as roupas íntimas, embrulhado em um lenço branco. Na manhã seguinte eu decidiria o que fazer com ele.

Minha cabeça atormentada dava voltas, e doía. Havia muitas lacunas que eu não estava conseguindo compreender. O muro alto, e como Breno conseguira pulá-lo; o anel de Betina no meu dedo. Angústia, angústia, angústia.

Quando o primeiro galo cantou, eu sabia que viveria o dia em que o corpo de Betina seria encontrado. Ela já deveria estar dura, fria e esverdeada, como o cadáver de minha tia-avó. Alguém colocaria, quem sabe, um véu de tule sobre o rosto dela, cobrindo o corpo com flores. O cheiro seria insuportavelmente sufocante. 

Eu tinha ido a um único velório naqueles meus treze anos de vida, e ficara muito impressionada. Eu tinha apenas nove anos quando minha tia-avó morrera em um acidente de carro. Nós não tínhamos muito contato com ela, apenas no natal. Mesmo assim, eu me lembrava do quanto ela era simpática, bonita e faladora, e dos presentes que ela nos dava naquelas ocasiões. A escolha de ir ao seu velório para despedir-me tinha sido minha, e logo que eu olhei para o rosto dela sob o tule lilás, me arrependi de estar ali, mas era tarde. Encontrei um lugar para me sentar no canto da sala e fiquei ali, sem me mexer. Depois, foram meses de pesadelos nos quais ela me aparecia com aquele mesmo véu de tule sobre o rosto, e ficava me olhando, as flores caindo do seu vestido como se ela tivesse acabado de se levantar. 

Minha mãe teve que me levar a um psicólogo para que eu conseguisse superar aqueles pesadelos que me faziam acordar berrando durante a noite. 

E agora eles recomeçariam. Eu tinha certeza. Betina era a segunda pessoa morta que eu via na minha vida. E daquela vez, eu a tinha tocado, e tinha sentido o cheiro do seu sangue e visto seu corpo nu. De alguma forma, usara em meu dedo o anel que ela estava usando quando morreu. Com certeza, eu tinha criado com ela um elo de ligação muito forte que faria com que ela me perseguisse para sempre. Eu tocara em uma pessoa morta, e tinha o seu anel! Mais do que tudo, eu conhecia seu assassino. E não dissera nada a ninguém. Betina não ia me perdoar. Enquanto ela morria, eu usava a sua piscina, tomava seu suco e escutava seus discos. E ainda pensava nela e no quanto eu adoraria ter todas as coisas que ela tinha para mim. 

Fazendo um esforço sobre-humano, eu me levantei antes que todo mundo. Fui preparar o café, pois não aguentava mais ficar parada, pensando. Sem dormir a noite toda, tinha círculos escuros sob os olhos e mesmo debaixo do meu bronzeado, dava para se notar a minha palidez. Eu coloquei xícaras na mesa e arrumei o pão, os biscoitos e o bolo. Minha irmã Paola foi a primeira a se sentar à mesa e encher uma xícara. Perguntou se eu tinha caído da cama. Fingi irritação, dando-lhe a língua. Ela disse:

-Hoje vai fazer calor como ontem. Estou pensando em ligar para a Betina e quem sabe... cair na piscina. Quer ir?

Aquilo foi o suficiente para me provocar náuseas, e corri para o banheiro sem responder. Ela foi atrás de mim, batendo à porta:

- Mônica! Você está passando mal?

Vomitei apenas ar, pois estava com o estômago totalmente vazio. Saí do banheiro pálida feito uma parede branca. Ela me olhou, passando a mão sobre a minha testa:

-Vou chamar a  mamãe. Melhor você voltar para a cama!

-Não, eu... eu estou bem. Mas acho melhor ninguém ir à casa da Betina hoje. 

Ela ignorou minha fala.

-Deve ser do calor! Tem estado muito quente nos últimos dias. Bom... vou ligar para ela.

Eu nada disse, sentando-me do lado de fora, nas escadas da cozinha. Escutei minha irmã discando o telefone, uma, duas, três vezes. Ela voltou e se sentou ao meu lado, dizendo:

-Estranho. Ninguém atende. 

Olhei para ela, mas logo desviei os olhos. Eu sabia porque ela não estava atendendo: mortos não atendem ao telefone! Eu queria gritar aquilo na cara de Paola, mas engoli em seco. Deparei com ela me olhando, a testa franzida:

-Você tá tão estranha, Mônica!

-Claro! Estou passando mal. Olha, eu vou voltar para o meu quarto.

Quando subia as escadas, encontrei com meus pais e Sandrinha descendo para o café. Expliquei que não me sentia bem e que passaria o dia no meu quarto. Minha mãe foi atrás de mim:

-O que você comeu quando eu estava fora, Mônica? Aposto que se encheu de sorvete.

-Não, mãe. Pode olhar, o pote está cheinho na geladeira. Nem toquei nele. Só estou indisposta por causa do calor. 

-Podia ter aceito o convite da Betina para ir à piscina ontem, já que não quis sair com a gente. 

Meu coração quase saiu pela boca, mas entrei no quarto e fechei a porta entre nós duas. Dez minutos depois, escutei o telefone tocar lá em baixo, e meu pai bateu à porta do meu quarto. Pensei que ele ia me dar a terrível notícia, e me sentei na cama, mandando-o entrar. 

-Era da loja. Me pediram para ajudar por lá, já que é sábado e está dando muito movimento. Você quer que eu a leve a um médico antes, filha?

-Não, pai, já estou melhor. Pode ir. 

-Acho que as meninas vão passar o dia na casa da Betina. Você quer ir também? Eu levo vocês.

-Não. Eu vou ficar aqui mesmo. Vou tentar dormir um pouco, não dormi bem à noite. Mas... a Betina as convidou hoje também?

-Não sei. Paola está tentando falar com ela. Bem... beijos. Aproveite o dia. Logo você melhora.

-Beijo, pai. 


(CONTINUA...)




terça-feira, 21 de julho de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA






Eu lembro que fazia muito calor naquela tarde logo após o almoço. Eu sentia que seria possível fritar um ovo na calçada, literalmente, e o asfalto amolecido parecia emitir ondas em direção ao céu quando eu olhava para ele. A rua do meu bairro estava deserta, e o ruído do portão batendo quando saí de casa ecoou no muro da vizinha. Nenhuma brisa soprava. Apesar de ter acabado de sair do banho, onde depilei as pernas, virilhas e axilas com o aparelho de gilete da minha irmã, meu rosto já escorria suor. Meus pais e minhas duas irmãs tinham saído para ir ao shopping (quem vai ao shopping numa tarde como aquela, meu Deus?) E eu resolvi aceitar o convite de Betina, minha vizinha, para ir à piscina da casa dela. Ela tinha nos convidado no dia anterior. Na verdade, ela tinha convidado Paola, minha irmã mais velha, que era sua amiga e cuja idade batia com a dela; ambas tinham dezessete anos. Mas Paola tinha resolvido ir ao shopping, e convenceu nossa mãe e Sandrinha, minha irmã de dezesseis anos, a ir com ela. Quanto ao meu pai, tinha sido alugado como motorista. Eu sabia muito bem que papai as levaria de carro ao shopping e depois de dar uma passadinha na loja para ver como as coisas estavam indo, se refugiaria na piscina e no bar do clube, aguardando até que as duas ligassem para ele e pedissem para busca-las no final da tarde.  

Eu me recusara veementemente a acompanha-las, tal o calor que fazia, e fiquei esticada no sofá, ventilador ligado, assistindo a um filme velho na TV, quando de repente me lembrei de Betina e do seu convite. 
Na verdade, eu sequer gostava de muito de Betina. Como ela e minhas irmãs fossem bem mais velhas que eu, ela sempre me tratava com uma condescendência irritante, e eu detestava quando ela e minhas duas irmãs começavam a conversar, na minha frente, em uma língua que só elas entendiam, cheia de indiretas e palavras-chave cujo significado eu não imaginava. Elas davam risadas altas e Betina me olhava de soslaio, piscando para mim, como se eu fosse uma criança. 

Mas ela tinha uma casa e uma piscina maravilhosas, e uma porção de coisas que meninas adoravam, como maquiagens, roupas caras da moda que ela nos emprestava às vezes, perfumes, cremes importados e bijuterias finas e caríssimas que nós jamais poderíamos comprar. 

Era o ano de 1985, férias de dezembro. Meus pais tinham uma fábrica de roupas femininas que fechava em dezembro e uma loja onde vendiam as peças. Tínhamos uma vida confortável, embora não fôssemos ricos. Os negócios iam bem, e como estávamos na época do Natal, as mercadorias que tinham sido fabricadas até novembro vendiam muito. Eu tinha então treze anos, mas aparentava mais, pois era alta e esguia para a minha idade. Tinha cabelos pretos, longos e brilhosos partidos para o lado esquerdo, e pele dourada, como era moda na época - ninguém colocava uma saia nos anos 80 se não estivesse com as pernas devidamente bronzeadas. 
Enquanto caminhava, carregando minha bolsa de pano com uma toalha e um bronzeador (o biquíni estava por baixo do vestido leve e solto de algodão branco), eu procurava a sombra das árvores plantadas ao longo da calçada do lado esquerdo, pois a calçada do lado direito era quase completamente nua de árvores. Meus chinelos brancos e um pouco gastos faziam um ruído leve ao roçarem contra a calçada. 

Betina era uma deusa loira de dezessete anos; magra e alta, cabelos lisos até a cintura, olhos verde-esmeralda e pele bronzeada. Todos os garotos da escola queriam ficar com ela, mas ela só tinha olhos para um único garoto: Breno, que, infelizmente, era gay, mas ela vivia dizendo que ia “convertê-lo”, e para isso, usava todo o seu charme. Diziam as más línguas que os dois tinham ficado juntos uma única vez durante uma festa, e  Betina afirmava que perdera sua virgindade com ele, mas ele negava tudo. Eram amigos desde a infância, porém. De vez em quando, Betina namorava um ou outro garoto, mas nunca levava nenhum deles à sério e nem ia até os “finalmente” com eles. 
 
A casa de Betina ficava a apenas um quarteirão da nossa, mas por causa do forte calor, eu tinha a impressão de que não chegaria nunca! Finalmente, avistei o portão pintado de branco, ladeado por dois enormes vasos onde plantaram miniaturas de coqueiros. A casa de Betina era muito bonita. Dei a volta pela casa até a esquina, como sempre fazíamos, e encontrei o portão lateral aberto (sempre entrávamos por ali, e nunca pelo principal). O esguichador do gramado estava ligado, e a porta de vidro da varanda, que dava para a enorme sala de estar estava aberta, e uma música de Boy George tocava: “Mistake number three.” Uma de minhas músicas prediletas. Esse era um dos motivos que eu aturava Betina: ela tinha discos ótimos e sempre me emprestava alguns. 

Chamei por Betina. Sabia que ela estaria sozinha em casa, pois os pais dela viajavam muito a negócios e ela sempre ficava em casa em companhia de Helena, a empregada de muitos anos. 
Ela não respondeu, mas decidi não insistir. Pensei que ela talvez estivesse dormindo, pois estava realmente muito calor. Também achei que era melhor assim, sem a companhia dela, pois a piscina seria só minha. Nem mesmo Helena veio me receber, e como eu estava doida para tomar um copo de refresco, entrei pela porta da varanda, como sempre fazia, e fui até a cozinha. Abri a geladeira, enchi um copo de refresco de laranja e me recostei no azulejo gelado enquanto o tomava bem devagar, sentindo o alívio do contato frio contra a pele. Naquele momento, escutei risadinhas vindo do quarto de Betina, que ficava no andar superior. Era uma casa grande, e havia na cozinha um elevador de comida, e o som veio através dele. Porém, não ouvi mais nada.

Depois que terminei de beber, coloquei o copo na pia sem lavar, molhando o rosto com a água da torneira, e caminhei até a piscina. Agora o toca-discos reproduzia “Karma-chamelion”, mas eu fui até lá e coloquei “Mistake number Three” para tocar de novo. Nesse momento, antes que a agulha tocasse novamente o disco, escutei mais risadinhas e alguém fazendo ‘shshshs,’ como se não quisesse ser escutado. Concluí que Betina estava em casa e tinha companhia, e também que ela – ou eles – não desejavam serem importunados.

Fui até a piscina e tirei o vestido e os chinelos, ajeitando o biquíni em volta do busto, e enchendo o peito de ar,  pulei na piscina, mergulhando até o fundo e sentindo o frescor e o silêncio sob a água. Estava intensamente feliz agora. Subi à tona e me deixei ficar boiando, o sol na pele, os cabelos molhados esticados atrás da cabeça, enquanto vislumbrava a fachada imponente da casa. Eu simplesmente amava aquela casa, aquele jardim e principalmente, aquela piscina! Meu sonho era ter uma piscina, mas meu pai dizia que construir uma significaria ocupar todo o espaço livre do nosso jardim, que era pequeno. A parte de trás da casa também não era grande o suficiente para uma piscina. Eu estava ali, pensando em todas essas coisas sem importância: no quanto eu amava a casa de Betina, no quanto eu amaria ter uma piscina como aquela e no quanto meu sonho era impossível, a não ser que nos mudássemos, e enquanto cantarolava baixinho trechos de “Mistake Number Three.” 

De repente, ouvi dentro da casa um ruído de algo caindo e se quebrando, alguma coisa de vidro. Depois, silêncio novamente. Pensei em entrar para ver se Betina precisava de alguma ajuda, mas a água estava tão boa que eu não queria sair.

Nem sei quanto tempo eu fiquei boiando na água maravilhosa e azul; só sei que quando eu saí, meus dedos das mãos já estavam ficando murchos, e o sol já quase se escondera por trás do telhado, deixando metade da piscina à sombra. Sentindo um pouquinho de frio, saí da piscina e me enxuguei. Olhei para dentro da sala, onde o toca-discos já silenciara há muito, e vi as horas no relógio sobre o aparado: quatro e trinta e cinco. Hora de voltar para casa. Achei estranho que nem Betina nem Helena tivessem aparecido, Mas Betina às vezes era uma menina meio-estranha, e talvez tivesse dado a tarde de folga à Helena.

Estava fora da piscina me aprontando, quando escutei o barulho da porta dos fundos batendo e passos de alguém que corria. Pensei no porquê de alguém sair da casa pela porta da cozinha, e então terminei de me vestir e fui dar uma olhada, tomando cuidado para não ser vista. Estava escondida por trás do muro baixo que separava o jardim da frente da parte dos fundos. Estiquei o pescoço para olhar, e deparei com Breno. Ele parecia muito nervoso, olhando para os lados e segurando a cabeça com as mãos. De repente, ele deu impulso em uma corrida, subindo no muro dos fundos da casa, que dava para um terreno vazio. Tentou duas vezes antes de conseguir alcançar a borda e pular para o outro lado, desaparecendo da minha vista. 


(CONTINUA...)




sexta-feira, 22 de maio de 2020

AS CASAS VELHAS E AS VIDAS ABANDONADAS - Parte 3




Ao ler a última carta de Leonardo, Bob percebeu que o dia já ia longe. O céu tingira-se de vermelho, e ele ainda não tinha sequer começado a fotografar a velha casa. Ainda tomado pela forte emoção do que acabara de vivenciar, ele dobrou as cartas, colocando-as de volta na caixa, mas ao fazê-lo, percebeu que a mesma tinha um fundo falso. Devagar, com a ponta da faca, ele ergueu o fundo e encontrou um saquinho de veludo azul. Ao abri-lo, deparou com as pedras preciosas mencionadas na carta!

Boquiaberto, Bob entornou o conteúdo do saquinho no chão da escada, e elas brilharam. Deveriam valer uma fortuna! Eram diamantes, esmeraldas e pequenos rubis. Sem saber porque, Bob se viu tomado de grande emoção. Recolheu as pedras, colocou dentro da caixa e levou tudo para dentro. Comeu o sanduíche que sobrou, bebeu o restante do refrigerante e preparou-se para dormir. 

 O casarão estava escuro e silencioso. Ruídos leves da noite entravam pelas vidraças quebradas: pássaros noturnos, zumbidos de insetos, grilos. Mas minutos depois de cair no sono, Bob despertou com o toque sutil de uma mão em seu ombro. Abriu os olhos, e deparou com a sombra de um rosto que o fitava, alguém ajoelhado no chão ao lado dele. Pensou que estivesse sonhando e esfregou os olhos, mas ao abri-los novamente, a pessoa ainda estava lá; era uma mulher. Bob Sentou-se, assustado, mas a voz dela, doce e tranquila, o acalmou:

-Não tenha medo! Não consegue me reconhecer?

Ela estalou o dedo, e a sala se iluminou como em um toque de mágica. Mas ao invés de detritos e ruínas, Bob encontrou uma sala muito bonita, bem conservada  e arrumada. Pensou que estava sonhando novamente. Mas era tudo tão real! Olhou para a mulher e reconheceu nela a mesma jovem das fotografias que estavam dentro das caixas. Ao mesmo tempo, percebeu que as roupas que ambos vestiam eram de uma outra época. Bob se levantou do tapete, ficando de pé, e ao olhar para o lado, deparou com um rosto no espelho que não era o seu, mas... ele levou as mãos ao próprio rosto, e seu ato foi refletido pelo espelho. Bob era Leonardo! Eram a mesma pessoa! A moça na sua frente era Bernadete!

Ele disse, confuso:

-Não entendo... estou morto? Estou sonhando? O que aconteceu?

Ela sorriu:

-Não, não está morto nem sonhando. Isso é real!

Dizendo aquilo, ela pegou o saquinho de jóias e colocou nas mãos dele, fechando-as sob as suas:

-Quero que fique com isso! Elas são o preço que pagaram pelo meu coração, pela minha vida. Não achei justo que ficassem com um homem que me vendeu  a alguém que eu nunca amei. Se alguém merece ficar com isso, esse alguém é você.

Bob - ou Leonardo - sentiu o calor das mãos dela sobre as dele, e todo o amor que os unia voltou com força total. Eles se abraçaram com força, e mataram a fome e a sede de uma paixão que estava adormecida há quase um século. Mais tarde, quando estavam juntos na grande cama de abóboda do quarto, Ele perguntou:

-Eu... estou tão feliz de encontrar de novo, Bernadete! Mas... por que não fez isso quando ainda estávamos juntos e vivos? Por que esperou tanto tempo? Nós poderíamos ter pego essas pedras e fugido juntos, poderíamos ter vivido o nosso amor!

-Eles nos encontrariam! Eles fariam de tudo para nos separar, e eles conseguiriam, pois eram poderosos! Logo, seguiriam nossos rastros e nos separariam. Eu preferi esperar, Leonardo! Esperar a hora certa, até que pudéssemos estar juntos novamente sem qualquer interferência!

-Mas... que lugar é esse?

-Aqui é um universo paralelo. As pessoas podem vir para cá e recriarem suas vidas e sonhos após morrerem. Isso é, se elas quiserem.

Ele a tomou em seus braços, com medo de que de repente ele acordasse e ambos se separassem outra vez. Ela murmurou:

-Você quer ficar aqui comigo, Leonardo?

Nenhuma dúvida o confundia quando respondeu:

-Sim! Para sempre! Nunca mais eu quero deixar você!

Ela ergueu a cabeça, deitando-se de bruços e acariciando os cabelos dele de leve:

-Mas isso não poderá acontecer agora. Você precisa voltar antes. Viver toda a sua vida. Só então poderemos nos reencontrar e ficar juntos para sempre! Poderemos também, mais tarde, renascer juntos!

A ideia de deixá-la e viver o resto da sua vida sem ela deixou Bob muito triste. 

-Mas... se eu estou aqui agora, por que preciso voltar? Por que precisamos nos separar de novo, Bernadete?

-Porque existem as leis do tempo. Elas não podem ser burladas. Escute... quero que você volte e converta essas pedras em dinheiro. Quero que restaure a casa. Procure nos cartórios e verá que é um herdeiro natural dela. Mas ela foi abandonada há muitos anos pela sua família, depois que Leonardo... digo, que você se suicidou ao saber da minha morte. 

Conforme ela falava, cenas dos acontecimentos de uma outra vida vinham à memória de Bob. Ele lembrou-se da arma com a qual atirou na própria cabeça ao receber a notícia de que Bernadete e o filho ao qual ela dava à luz morreram durante o parto. Depois, houve um período de escuridão... e ele renasceu. Sempre fora alguém solitário. Perdera os pais muito cedo, não tinha irmãos, nem amigos íntimos. Seu único passatempo era seu canal, onde publicava vídeos sobre casas abandonadas. Agora ele descobrira o motivo de sua fascinação por elas! Era sempre alguém melancólico, com a sensação de um vazio que nada nem ninguém podia preencher. E agora ele sabia o motivo.

O destino fez com que ele fosse levado de volta àquela casa, a fim de reviver seu amor. 

Bob (ou Leonardo) e Bernadete fizeram suas juras finais, e quando o dia finalmente nasceu, Bob despertou sozinho no chão da casa em ruínas. Mas desta vez, ele tinha um motivo para viver, uma inspiração. Fotografou a casa e colocou-a no seu canal, contando toda a experiência que vivera nela. O vídeo teve mais de cinco milhões de acessos em poucas semanas!

Ele usou o dinheiro das pedras para restaurar a casa, exatamente como Bernadete sugerira. Passou a viver nela e a cobrar por visitações. As cartas foram colocadas à vista sob vidros, em um cômodo que ele reformou para tornar-se um museu.  As pessoas de corações partidos, os que tinham perdido seus amores para a morte, iam ali para encontrar um pouco de esperança.

Ele morreu aos 86 anos, sozinho na casa. 

Ninguém sabe se ele reencontrou Bernadete. Mas eu acho que sim.


FIM



terça-feira, 12 de maio de 2020

AS CASAS VELHAS E AS VIDAS ABANDONADAS - CAPÍTULO 2





Bob teve um sonho estranho naquela noite: sonhou que era uma criança, um menino que usava roupas antigas e corria alegremente pela casa. Viu pessoas que pareciam muito familiares a ele no sonho, mas que não conhecia na vida real. Todas elas usavam roupas do começo do século passado. Havia uma mulher loira de cabelos cacheados presos em um coque mal-feito, muito jovem e bonita, a quem ele chamava de mãe. Ele podia sentir seu espírito livre e alegre, pela maneira como ela andava pela casa arranjando vasos de flores, seu riso fácil e pouco condizente com os costumes da época, a mania de andar descalça pelos cômodos da casa e até pelo jardim. Ela conseguia arrancar sorrisos de seu pai carrancudo, embora ele sempre tentasse resistir, mas logo se rendia a ela e aos seus encantos. 

 Já seu pai era um homem sisudo que aparentava ser bem mais velho que a delicada jovem que acolhia o filho de braços abertos enquanto brincava com ele descalça, no lindo jardim gramado. 

Sentado em uma cadeira de balanço na varanda da casa, seu pai os observava por cima do jornal que fingia ler. A moça acenava para ele, chamando-o para que se juntasse a eles no gramado, mas ele apenas sacudia o jornal e continuava a ler, fingindo impaciência. Mas no fundo, Bob sabia que ele era um homem bom, e sentia-se amado por ele. 

Havia também uma menina de uma casa vizinha que vinha brincar com ele. Eram da mesma idade - cerca de onze anos - e ela era esguia, de longos cabelos negros e olhos coloridos, como dois pedaços de vidro azul-cobalto brilhantes. Bob sabia que ela se chamava Bernadete. Os dois corriam pelo jardim, rindo e brincando de pique-esconde. Em um determinado momento, deram a volta por trás da casa e Bernadete ajoelhou-se no chão, junto à porta que dava para o porão, e cavando com um pedaço de madeira, desenterrou uma pequena caixa. Bob olhou para a caixa que ela abrira, e visualizou coisas como pedras coloridas e brilhantes  que estavam guardadas em um saco de veludo azul-marinho, papéis de carta dobrados em envelopes amassados e algumas fotografias. Ela olhou para ele e fez sinal de silêncio, enterrando novamente a caixa.

Quando Bob despertou, sentiu um peso no coração ao abrir os olhos na casa vazia e suja. Podia sentir que toda a vida que ali existira há muito estava ausente, e que as pessoas que moraram na casa a tinham deixado contra a vontade. Como ele sabia daquilo? Bob não tinha  menor ideia!

Ele se levantou, guardando o saco de dormir e foi para a cozinha preparar um café com alguns utensílios que encontrou por lá. O bule e a chaleira estavam fechados em um armário. Ele usou a água que trouxera com ele para lavá-los e preparar o café em um fogareiro que montou sobre a pia após limpá-la um pouco. Mas enquanto tomava o café, Bob começou a lembrar-se de elementos do sonho, e também da caixa que Bernadete enterrara junto à entrada de um porão que ele nem sabia se existia.

Ainda mastigando os últimos pedaços de pão, ele foi até a parte de trás da casa e encontrou um ambiente exatamente igual ao do sonho, embora coberto pelo mato. Não precisou muito para que identificasse o local onde Bernadete havia enterrado  a caixa em seu sonho! Ele afastou o mato com o facão, e jogando-se no chão de joelhos, começou a cavar o chão com a ponta da lâmina do facão. Não demorou muito para esbarrar em algo duro. Com o coração aos pulos, Bob terminou de desenterrar a caixa de madeira com as próprias mãos.

Era uma caixa pequena, e havia restos de alguma pintura feita na tampa, provavelmente por uma criança. Era fechada por um pequeno cadeado que Bob conseguiu abrir facilmente após usar a ponta de um canivete. O coração de Bob dava saltos dentro do peito: o que haveria na caixa? 

Agarrado a ela, Bob foi até os degraus da varanda da casa, onde o sol da manhã brilhava. Reparou que havia muitos pássaros cantando nas árvores, e por instantes, sentiu que já tinha vivido uma experiência parecida com aquela. Ao abrir a caixa, deparou com os envelopes e com o saquinho de veludo marinho. Abriu um dos envelopes: era uma carta de amor onde uma letra infantil confessava seu amor por um menino chamado Leonardo. De repente, Bob sentiu-se aquele menino! Não ficou surpreso ao ver a assinatura: Bernadete. Encontrou outras cartas dela para Leonardo - ou para ele, e também as respostas que ele escrevera para ela. As letras nas cartas iam amadurecendo conforme o tempo passava, e Bob percebeu que elas tinham sido escritas em um período de oito anos. 

Nas fotografias amarelecidas, Bob identificou Leonardo e Bernadete em diferentes fases de suas vidas. As cartas falavam em um amor que começou cedo, aos onze anos de idade, mas que por interferência da família dela, foi interrompido. Aos dezenove anos, Bernadete menciona um noivo escolhido para ela por seus pais, e do dote em pedras preciosas que ele, seu pai,  receberia por ela após o casamento. A família estava em sérias dificuldades financeiras, e não havia outra saída a não ser o casamento. Mas Bernadete, profundamente infeliz, acabou encontrando as pedras preciosas dadas ao seu pai e as escondendo na caixa que enterrara no jardim da casa de Leonardo. Se ela fosse obrigada a se casar com alguém que não amava, não admitiria que seu pai lucrasse através daquilo! 

Ao dar pelo sumiço das pedras, o pai de Bernadete esbravejou, demitiu empregados, culpou Leonardo e sua família pelo desaparecimento, acionou investigadores policiais para investigar o caso, sem sucesso, e até surrou Bernardete... mas ela não confessou a ele o seu crime, ou onde estavam as pedras. No fim, ele acabou desistindo de encontrar as pedras preciosas, e a família do noivo fez uma nova doação, já que eram muito ricos.

Assim, o casamento aconteceu. Os dois namorados não mais podiam se ver, embora vivessem tão próximos um do outro, mas continuaram se correspondendo secretamente. As cartas iam todas sendo colocadas na caixa de madeira que ficava enterrada nos fundos do jardim de Leonardo. Bernadete as escrevia, ele as respondia e depois ela  remetia as respostas de volta para ele, junto com uma nova carta. Havia uma jovem  empregada da casa de Leonardo que servia de pombo correio ao jovem casal: ela esperava que o marido de Bernadete saísse para o trabalho e então ia até lá, entregar as novas cartas de Leonardo e recolher as respostas de Bernadete e as cartas já lidas por ela. 

 Mas Leonardo escrevia também cartas a si mesmo, nas quais falava sobre como se sentia mortificado e infeliz pela ausência física de sua amada. Enquanto lia tais cartas. Bob experienciava as emoções de Leonardo com todo o realismo, como se as emoções fossem suas, e a dor de Leonardo era ressuscitada e revivida através dele. 

(continua...)







sexta-feira, 8 de maio de 2020

AS CASAS VELHAS E AS VIDAS ABANDONADAS - Capítulo 1









Bob tinha uma página no YouTube na qual ele postava vídeos sobre velhas casas abandonadas - e seus fantasmas, caso eles existissem. O nome do canal era VIDAS ABANDONADAS. A atividade o levava a viajar muito nos finais de semana, assim que ficava sabendo de uma nova velha casa - e quase sempre, os próprios seguidores do canal o alertavam sobre elas. Quando Bob tirava férias do trabalho, ele geralmente viajava para locais mais distantes, onde passava todo o tempo visitando velhas casas e fazendo vídeos sobre elas. Era sua atividade preferida.

Mas tal atividade fez dele uma pessoa bastante solitária. Solteiro aos 33 anos, embora fosse considerado um homem atraente, Bob decidira que, como as freiras que se casavam com Jesus Cristo, ele se casaria com suas casas velhas. E dentro dele, a cada visita, ele ia acrescentando-as à memória uma a uma. Seu interior era cheio de velhas casas abandonadas, nas quais ele morava. Muitas vezes, Bob as revisitava e fazia novas postagens sobre elas; "afinal, é preciso rever os velhos amigos", ele dizia. E a cada vez que revisitava uma de "suas" casas, Bob encontrava-a mais  vazia, pois as pessoas as invadiam e depredavam. Ele não: sempre deixava-as intactas após as suas visitas e filmagens, e jamais revelava os endereços das casas, exatamente para não encorajar os vândalos.

Um dia, ele ficou sabendo sobre uma casa dentro de uma floresta, que estava abandonada há mais de trinta anos, sem que ninguém a tivesse habitado ou visitado naquele período de tempo. A pessoa que o informou sobre a casa não se identificou: deu-lhe apenas as coordenadas para que Bob encontrasse a tal casa. Naquele mesmo final de semana, Bob entrou no seu carro com o equipamento de filmagem e os habituais suprimentos, como velas, baterias, comida, um cobertor (caso precisasse passar a noite) e uma garrafa de vinho tinto. Dirigiu durante horas. Passou a entrada duas vezes, tendo que voltar quilômetros, mas finalmente, encontrou a estradinha de terra que levava floresta adentro, em direção à casa. O caminho era difícil, e o jipe chacoalhou durante quase uma hora. Bob já estava pensando em desistir quando finalmente avistou um imponente portão de ferro no meio de uma clareira. Estava trancado à cadeado. Bob desceu do carro e forçou-o, e o cadeado, devido à ferrujem, caiu no chão. Ele olhou para dentro do portão e avistou um terreno muito grande e um caminho tomado pelo matagal. Seria difícil entrar alí. Mas ele voltou ao carro, pegou um facão de cortar mato que levava em suas empreitadas e começou o trabalho de desbravar o caminho, até que após meia hora de trabalho, um Bob suado avistou finalmente a casa.

Entrou no jipe e dirigiu até a porta. Era uma casa em estilo vitoriano, de dois andares, a varanda suportada por duas grossas colunas gregas. No andar inferior havia uma porta de madeira, e de cada lado desta porta, três janelas envidraçadas abertas, de venezianas - todos os vidros estavam intactos. A parede ainda era branca, embora suja e tomada por ervas que se arrastavam sobre ela e entravam pelas telhas. No segundo an dar havia quatro janelas iguais às do piso inferior, também com as venezianas abertas e os vidros intactos.

Fascinado, Bob fez sua primeira tomada de vídeo. Descreveu a casa e a emoção ao encontrá-la ainda tão conservada após tantos anos de abandono. Depois, colocou luvas e a máscara cirúrgica para proteger-se de poeira tóxica e mofo e subiu os degraus da varanda.

Bob forçou a porta: estava trancada. A madeira, apesar de velha, era muito sólida e forte. Tentou a brir uma das janelas, e foi experimentando-as até que encontrou uma que não estava trancada. Ele passou o equipamento de filmagem pela janela, e também pegou no carro as suas provisões, pois já tinha decidido passar a noite ali.

Antes de filmar o interior da casa, que apesar de empoeirado, estava totalmente conservado, com móveis, fotografias, copos, talheres e demais utensílios, Bob decidiu dar uma olhada no local. O teto mofado desabava aqui e ali, mas de um modo geral, a casa estava firme. Ele passou pelos sofás de brocado que ficavam sobre um tapete empoeirado e úmido, olhou os armários cheios de copos de cristal, bibelôs antigos e louças maravilhosas, as cadeiras cuidadosamente arranjadas em volta da mesa de jantar de madeira, ainda arrumada para uma refeição que não acontecera, e subindo as escadas curvas de madeira , Bob  percorreu os seis quartos do segundo andar, todos ainda mobiliados , as camas arrumadas como se as pessoas ainda fossem dormir ali. Abriu os armários e encontrou roupas muito antigas dependuradas nos cabides. Em um dos quartos, as roupas eram de uma criança. Um menino.

Em uma das gavetas da cômoda, encontrou documentos que datavam  dos anos trinta aos anos cinquenta, e também muitas fotografias. O coração de Bob dava saltos: aquele seria o seu melhor vídeo! Nunca tinha encontrado uma casa tão bem conservada e com todos os objetos dentro, ainda intactos, como se a família tivesse apenas viajado! 

Como já estivesse começando a escurecer, Bob decidiu deixar as filmagens para a manhã seguinte. Escolheu um dos quartos, pelo qual passou uma vassoura que encontrou na cozinha, e arrumando seu saco de dormir no chão, preparou-se para a noite.

(continua...)

A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...