quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Confissões de Uma Idosa Cínica - FINAL





Estar vivo ou estar morto; tudo uma questão de tempo! Se estamos do lado de lá, significa que voltaremos para o lado de cá a qualquer momento; se estamos do lado de cá, também podemos voltar para o lado de lá quando menos esperamos, e esta é a única verdade comprovada sobre a vida. Ninguém fica pra semente. Ir é apenas uma questão de estar. Nada há que possamos fazer a respeito: o corpo envelhece, fica cansado e desgastado, e precisa ser despido feito uma roupa velha e gasta. Mas por dentro dessa roupa velha, existe uma essência que nunca envelhece, nunca se desgasta. 

Não tenho o apego de ficar por aqui tempo demais, e Deus sabe quando será minha hora. Mas existem algumas coisinhas que eu gostaria de deixar acertadas antes de ir. E não pensem que sou melancólica; sou apenas prática. Depois de tantos anos de vida indo a funerais e missas de sétimo dia, tive tempo de observar o quanto essas cerimônias são chatas e extremamente cruéis para os parentes de quem morre. Não sei quando elas começaram, mas por que manter uma tradição que só causa dor? E de nada adianta para o morto, que já "está em outra" e nem se interessa pelo que pode acontecer ao corpo já em decomposição que vai ficar por aqui... portanto, já tomei algumas providências que eu gostaria que ficassem bem claras para os meus parentes. E nem se atrevam a não atender os meus últimos desejos, ou voltarei e puxarei as pernas de vocês enquanto eu for morta!

Vivi uma vida longa e muito feliz. Tive meus filhos, curti meus netos, morei em várias casas, viajei o mundo todo, tive muitos amigos - alguns eu dispensaria com alegria, mas tudo é aprendizado - aprendi muitas coisas. Tive uma vida muito boa, sim. Ainda tenho, e espero continuar a ter enquanto estiver por aqui. Adoro as tardes de biriba às quintas feiras com as amigas. Amo passear pelo meu jardim e observar a natureza, aprendendo com ela. Adoro ler, passear, almoços e jantares em família. Gosto da vida! Mas olhem, eu não me apego a nada. Nem mesmo a ela. E as minhas decisões - que espero, sejam respeitadas - são as seguintes:

Doei meu corpo à medicina. Que façam o que desejarem com aquilo que sobrar de mim, já que meus órgãos estão velhos demais para que possam servir a alguém. Façam experiências, ou então, dissequem e usem nas aulas de medicina. Não quero que sobre nada que justifique um velório, pois eu não quero ter um velório. Quem quiser fazer-me algum tipo de homenagem, embora não seja preciso, digam uma oração por mim e lembrem das coisas boas que vivemos juntos, e isso pode ser feito durante um jantar de família, com boa música de fundo e muitas flores em vasos enfeitando a casa.

Da mesma forma, esqueçam as missas de sétimo dia e missas para 'salvar' a minha alma de morta. Minha alma não precisa de padres e nem de sacerdotes de religião nenhuma! Dispenso alegremente a intervenção destas criaturas. Eles não sabem de nada, e acham que podem salvar almas e absolver-nos de nossos pecados. Tenho certeza de que o fim é só outro começo, e quem estiver esperando por mim lá do outro lado, o fará sem julgamentos e condenações ao fogo do inferno ou emanações de enxofre. Serei acolhida com generosidade e amor, assim como todas as almas que se vão deste mundo. Pois se existe um Deus julgador e punidor, não desejo encontrá-lo, pois o desprezo. Deus só pode ser bom e justo. De uma bondade e justiça que ninguém aqui é capaz de conceber - muito menos os religiosos, seus dogmas repetitivos e suas palavras vazias de sentidos, pronunciadas automaticamente com pompa e frieza. Para vocês, aqui ó! Uma banana bem grande!

Minha casa e meus poucos bens podem ser vendidos e distribuídos entre vocês, e não faço questão de determinar quem herdará o quê, pois estas coisas, conforme a minha hora vai chegando, significam apenas peso e inconveniência para mim. Divirtam-se com elas!

Não chorem por mim. É bobagem chorar por quem já morreu, pois eu tenho certeza de que a vida é assim, é um eterno encontrar-se, despedir-se, e encontrar-se novamente para despedir-se de novo. Por que chorar? Lembrem-se de mim, se assim o desejarem, como alguém que fez parte da vida de vocês, errou e acertou, tentou fazer o melhor, cumpriu sua missão e se foi. Continuem com suas vidas, e se algo de bom ficou da minha, guarde dentro de vocês como uma lembrança querida, algo para ser assunto de conversas ao pá da lareira nas noites de inverno. 

Minhas roupas e sapatos, doem aos necessitados, e não guardem nada, nadinha! Nem um lenço sequer. E façam-no sem culpas, pois eu quero que seja assim. Esvaziem todos os meus armários! Joguem fora toda a tralha acumulada durante minha vida ( o que sobrou dela, pois já doei quase tudo), e doem, doem, façam alguém feliz! Depois, se quiserem, encham tudo com as coisas de vocês, coisas novas, bonitas, com cheirinho de loja! Aproveitem bastante, pois chegará o dia em que alguém também terá que esvaziar seus armários. Não deixem suas melhores roupas para usar em dias de festa; usem sempre o que tiverem de melhor, em qualquer ocasião! Gastem tudo, aproveitem tudo, e depois, enquanto ainda estiverem em boas condições de uso, doem. Doem sempre. E comprem tudo novo. Respeitem o ciclo. Não retenham nada.

E lá no final, quando chegar a hora, vão em paz, sem olhar para trás, sem culpas, sem medos e sem saudades. E pelo amor de Deus, sem velórios.


FIM



2 comentários:

  1. Eu acho que fico para semente...sou um tipo tão porreiro, lool

    Gostei muito de ler...Felicidades

    Deixo abraço
    *******
    http://pensamentosedevaneiosdoaguialivre.blogspot.pt/

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  2. Ana,
    Gostei da sua idosa, mas, em muitos casos, o velório ou, pelo menos o funeral, é um "tempo" que faz falta para quem fica, para se despedir, habituar à ideia e fazer o luto.

    Abraço

    Teresa

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