domingo, 13 de outubro de 2013

Confissões de uma Idosa Cínica - Parte III




Os cientistas fazem questão de desenvolver métodos, remédios e mais uma porção de tranqueiras a fim de prolongar a vida das pessoas. Antigamente, uma pessoa era considerada velha aos quarenta anos, e idosa aos cinquenta. Alguém que vivesse até os sessenta, setenta, era um milagre! Por causa disso, as pessoas casavam-se muito cedo. Minha bisavó conheceu meu bisavô aos doze anos, e casou-se - virgem - aos treze, tendo doze filhos. Hoje em dia, ela seria considerada vítima de pedofilia!

As pessoas mudam, os tempos mudam, os conceitos mudam...

No meu tempo de juventude, a comida não fazia mal à saúde, e se fizesse, ninguém ficava sabendo; apenas adoecia e morria. Viver e morrer eram coisas naturais. Nos funerais, a gente se sentava e conversava sobre a vida. Marcava encontros e reuniões - afinal, a gente não se via há tanto tempo! Depois, na hora do 'enterro', cada um jogava no caixão seu punhado de terra, dava seu suspiro, derramava sua lágrima e seguia com a vida...  hoje, morrer é sinal de derrota e fracasso! Os médicos se sentem fracassados quando alguém morre, a família não se consola. Cultua-se o morto como se ele tivesse virado santo só porque morreu. E se ele cometeu alguma falta, ninguém falará sobre ela.

Estive em um velório recentemente; mais um. É incrível como, de repente, o evento principal na vida de alguém passa a ser ir a velórios. Até que o o show principal somos nós. Enfim: a viúva aturou aquele cabra por mais de quarenta anos, humilhando-a, pisando nela, impedindo-a de ser quem queria (seu grande sonho era ser poeta, publicar seus poemas em livros), diminuindo-a diante dos amigos e da família, talvez porque isso o fazia sentir-se melhor em relação a si mesmo. Ela nunca fazia uma escolha sozinha, nem mesmo quando ia a um restaurante. Ele não deixava. Decidia tudo por ela. Um dia, encontrou seus cadernos de poesia, e queimou-os todos, só pelo prazer de vê-la destruída. Vivia gabando-se de sustentar a casa e não deixar faltar nada a ela e aos filhos, que cobria de dinheiro e a quem satisfazia todas as vontades a fim de receber deles o apoio que precisava. Bem, talvez ele deixasse faltar apenas uma coisinha sem importância: respeito! Mas isso não era tão relevante assim para ele.

Bem, durante o velório, as pessoas iam cumprimentá-la, lamentando pela "terrível perda." Ela enxugava uma lágrima com o lencinho bordado, e agradecia, sentada à cabeceira do morto, que nem mesmo depois da morte, assumira um ar menos arrogante. Aquela coisa toda, aquele ritual macabro foi me enchendo por dentro, e finalmente, chegou à minha garganta.

De repente, eu me levantei, e batendo palmas, pedi a atenção de todos. As pessoas me olharam, caladas e atentas, com certeza, pensando que eu fosse dizer alguma coisa em favor do morto. Mas as palavras simplesmente escorregaram da minha boca, e não pude me conter mais. Meu discurso foi mais ou menos assim:

"Todo mundo sabe que a Dora (viúva) foi casada com Guilhermino aqui (apontei para o caixão)   por mais de quarenta anos. Todos aqui também sabem que Guilhermino era um crápula rude, hipócrita, arrogante, mulherengo e mentiroso. Sugou desta mulher (apontei para a viúva) todos os seus anos de juventude. Os filhos, contanto que recebessem seu quinhão, jamais se levantaram para defendê-la durante as muitas humilhações pelas quais ela passou." (Naquele momento, os três bastardos ergueram-se de seus assentos, vindo em minha direção. Mas como eu sei que ninguém vai atrever-se a tocar em uma idosa de oitenta e tantos anos, não me intimidei): "pois é... e agora vocês vem aqui, dizer o quanto sentem pela morte desse crápula? Vocês deveriam estar é comemorando!" 


Dirigi-me diretamente à viúva: "Querida, você ainda tem sessenta e poucos anos, se não me engano. Pegue a grana que esse safado deixou e vá conhecer o mundo! faça uma viagem! Não deixe que seus rebentos interesseiros ponham a mão no dinheiro antes que você morra. Viva o que lhe resta com dignidade e em grande estilo!"

Depois daquilo, a viúva ficou me olhando de olhos esbugalhados, e quando o pessoal começou a murmurar, e conforme o murmúrio foi aumentando de intensidade, peguei minha sombrinha e saí dali apressada.

Mais tarde, soube que Dora, a viúva, partiu em um cruzeiro pelas Bahamas com seu motorista, quinze anos mais jovem, que sempre estivera interessado nela, mas para quem ela nunca dera uma chance em respeito ao marido. Limpou o dinheiro da conta bancária naquela mesma tarde, após o velório,  transferindo tudo para um paraíso fiscal, para que os filhos não conseguissem bloquear-lhe os bens. Ainda fechou a venda de algumas propriedades que já estavam iniciadas pelo marido antes de sua morte, escondido dos filhos. O  novo casal, com o dinheiro da herança e da venda das propriedades, mudou-se para Buenos Aires, onde abriram um hotel cassino. 

Ando pensando em dar uma passadinha por lá nas minhas férias.


3 comentários:

  1. Vai, Dora! Vai-se Dora! Que grande momento das letras de Ana! Ou, que graça é ter Ana por perto, ela sempre nos seus grandes momentos literários! Obrigado, Ana!

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  2. Boa noite Ana.. gostei da parte do velório.. é sempre a mesma coisa em todos.. aquele bando de gente que nunca vimos aparece nessas horas.. linda noite amiga

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  3. Querida vim agradecer sua visita e felicitações pelo dia do professor.
    Guardarei este carinho no coração, porque ser lembrada neste dia foi muito importante. Obrigada, fiquei emocionada com suas palavras.
    Ser professor(a) e educador(a),Deus reservou aos educadores a arte com abundância de ensinar,professor, uma profissão! Educador, a mais nobre de todas as missões!
    Muitas bênçãos para todos nós, que Jesus lhe proteja sempre e que você tenha muito sucesso na sua vida, toda profissão é abençoada.
    Parabéns, mais um lindo e emocionante conto. Desculpe, apaguei um comentário para correção. Abraços com carinho:
    Profª Lourdes Duarte.

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