domingo, 16 de fevereiro de 2014

MALDADES - PARTE III




Ela chegou durante a festa. Quando vi a moça de cabelos curtinhos no portão, com mechas alouradas e levemente espetadas , roupas totalmente ‘fashion’, demorei a reconhecer minha amiga; ela estava abraçada com Nina, Márcio e mamãe à volta dela, repetindo o quanto ela tinha mudado, o quanto ela estava linda. Paris realmente tinha tido um grande efeito sobre ela! Eu estava parada, olhando para Clara – sem saber que era Clara, e só a reconheci quando ela escancarou-me os braços e veio correndo na minha direção. Tínhamos tanto para contar uma para a outra! Ela me disse que estava realmente muito cansada da viagem, e que só tinha passado para conhecer o figurão que tinha roubado meu coração.

- Ana, estou morrendo de curiosidade. Mamãe me contou tudo por telefone há alguns dias atrás. Quero saber quem é o Don Juan que te arrebatou, já que você sempre disse que nunca iria se apaixonar por ninguém.

-É, você está certa, e eu estava errada. Foi amor à primeira vista, foi... tão incrível que ... bem, venha comigo que eu vou te apresentar o Sean.

Puxei-a pela mão e fomos para a varanda, onde ele, cercado por uma pequena multidão, tocava violão e cantava, sentado em sua cadeira predileta. Apaixonei-me novamente. Ele tinha o poder de me arrebatar. As pessoas estavam totalmente dopadas pela voz dele, algumas mulheres não conseguiam esconder seu fascínio nem mesmo diante dos maridos.  Quando ele acabou, fez-se silêncio por alguns segundos e de repente, os aplausos explodiram. Olhei para minha amiga, e ela estava passada. Perguntei:

-Você me entende agora?

Mas Clara não respondeu.

Apresentei os dois. Eles se olharam por alguns segundos , e finalmente Sean estendeu a mão, segurando a dela. Sorriu, e disse-lhe que eu já tinha lhe falado dela muitas vezes. Ela gaguejou ao responder:

- Bem, espero que ela tenha falado... bem de mim.

-Mas claro! Disse que vocês são amigas de infância. Só que ela me tinha dito que você era meio-feinha, mas agora vejo que ela mentiu.

Clara corou, virando-se para mim:

-Ora, Ana! Você não disse isso de mim!

Eu ri. Todos rimos.

A noite transcorreu da forma mais agradável possível. Clara acabou não indo para casa cedo, esquecendo totalmente o cansaço. Quando o dia amanheceu, ainda havia algumas pessoas sentadas à volta de uma fogueira, contando casos e cantando ao som do violão de Sean. Já bem de manhãzinha, quando apenas minha família e a família de Clara estavam presentes, ele anunciou que estávamos noivos, colocando um lindo anel de diamantes em meu dedo. Quase morri de felicidade. Comemoramos à mesa do café da manhã, que fora servido por nós por Rita, a  moça que ele contratara para os serviços de casa.

Marcamos a data para  Abril, o mês de meu aniversário. Sean disse que convidaria a família dele para nos conhecermos. Estávamos cheios de planos. Acho que aquela foi uma das épocas mais felizes de minha vida.

Eu achava que Clara e eu voltaríamos a ser grandes amigas. Tinha grandes expectativas quanto a isso também, e nada mais natural, agora que ela ficaria conosco por muitos meses, e que talvez nem voltasse à Paris; (estava pensando seriamente em terminar seus estudos no Brasil, pois sentia muita falta da mãe). Mas ela se mostrava cada vez mais arredia, parecia-me que quando estávamos juntas, ela estava forçando um comportamento que não era nada natural. Toquei no assunto com ela, e ela imediatamente me abraçou forte, desculpando-se.

- Não, Ana, é que... eu não te contei, mas deixei alguém em Paris.

-Mesmo? Como assim?

- O nome dele é Jean. Jean Marcus. Íamos nos casar também, tínhamos muitos planos, mas não deu certo. Ele me disse que jamais moraria no Brasil, e eu também não queria ficar a vida toda morando em Paris. No começo, não demos muita importância, mas conforme o relacionamento foi ficando mais sério, isso se tornou um ponto crucial sobre o qual não conseguimos chegar a um acordo.

-E?...

Ela suspirou.

-Bem, resolvemos dar um tempo. Resolvemos ficar um tempo separados para ver como as coisas ficam. E quando eu penso nele, e vejo você e Sean tão felizes, eu confesso que eu não me sinto muito bem. Não por vocês, mas é que eu sinto tanta falta dele! E vocês me lembram ele, entende? Vocês me lembram de nós dois, quando tudo ia tão bem...

Ela começou a chorar. Eu a abracei, tentando consolá-la.

-Por que você não o convida para vir aqui?

-Eu já tentei. Mas ele disse que , se eu quiser ficar com ele, terei que deixar o Brasil. Ele diz que não suporta calor, detesta o clima daqui, e que toda a sua vida está lá, seus negócios, sua família.

-Mas ele tem que entender que é o mesmo com você! Sua família, seus amigos estão aqui!

-Ele sabe disso. Ontem à noite falamos por telefone, e acho que vamos acabar terminando o namoro. Ele parecia tão frio... na verdade, eu não vejo muitas opções para nós dois. Não posso exigir que ele largue sua vida inteira por mim, e ele também já me disse que não pode exigir isso de mim. Resolvemos dar um tempo para ver se nesse ínterim, um dos dois muda de idéia.

-Mas, pelo que eu conheço de você, você não vai mudar de idéia.

-Não sei. Acho que não.

Depois daquela conversa, eu e Sean fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para alegrar minha amiga. Nós a convidamos para jantar fora, fomos dançar, nos divertimos no karaokê do Johnny.

Um dia, estávamos no Johnny’s quando o celular dela tocou. Ela pediu licença e foi até o banheiro para atender. Ficamos na mesa com um grupo de amigos conversando. Passaram-se alguns minutos, e Sean pediu licença, encaminhando-se para o banheiro masculino. Eu estava preocupada com minha amiga, pois já fazia mais de dez minutos que Clara tinha se retirado da mesa. Resolvi ir atrás dela para ver se estava tudo bem.

Quando me encaminhava para o banheiro feminino- que ficava em frente ao masculino, num pequeno hall  – meu coração quase parou: Clara e Sean estavam abraçados. Ele passava a mão pelo cabelo dela, e ela agarrava-se a ele. Quando eles me viram, imediatamente se soltaram. Ela veio em minha direção, e vi que estava chorando muito. Eu fiquei meio-sem saber o que fazer ou como agir. Será que eu tinha sentido alguma coisa no ar ou era impressão?

Ela estendeu os braços para mim, procurando consolo.

- Ana, Ah, Ana... era Jean ao telefone. Ele terminou tudo comigo.

Imediatamente senti-me a pior das criaturas por estar com ciúmes de minha amiga. E principalmente, por desconfiar de Sean. Fiz de tudo para fazer com que Clara se sentisse melhor. Como ela não tinha condições de dirigir, nós a levamos em casa. Ela foi no carro de Sean e eu conduzi o carro dela. Contamos tudo à Nina, que deu-lhe um chá calmante e a colocou na cama.

Depois, ficamos sentados na sala, conversando. Nina estranhou:

-Eu não sabia que ela estava tão apaixonada por esse tal Jean. Nunca falou muito dele  nas nossas conversas, e sempre que se referia a ele, era como se falasse de um namoradinho qualquer. Essa me pegou de surpresa.

-Estranho, Nina, pois ela estava totalmente transtornada no Johnny’s.

Eu e Sean nos entreolhamos, mas não dissemos nada.

Os dias se passaram, e Clara foi melhorando aos poucos. Na noite de Natal ela parecia totalmente recuperada. Dois dias antes do natal, saímos juntas para fazer compras, e Sean nos pegou na porta do shopping. Levamos as compras para casa e fomos para o orfanato de Santo Onofre, onde Sean tinha preparado uma linda festa para  as crianças.

Realmente, a cada dia que se passava, eu sentia que tinha tirado a sorte grande na vida.

Clara estava bem melhor, mas às vezes eu a pegava meio pensativa. Durante a festa de Natal das crianças, parecia que eu não conhecia  mais certas expressões que eu notava em seu rosto, principalmente quando ela não percebia que eu estava olhando para ela.



Continua...

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