quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

MALDADES







 Introdução - esta é uma estória que escrevi em 2003. Santo Onofre é uma cidade fictícia, que fica ao sul de um Brasil fictício, e fictícios são todos os personagens e fatos desta história. Menos a maldade, que pode morar em nossos mais escuros recônditos...







MALDADES - Parte I                                                             

Santo Onofre é minha cidade natal. Fica no sul do país, e geralmente é fria durante a maior parte do ano, a não ser durante os meses do verão, quando o céu  é quase sempre totalmente azul-anil na parte da manhã, começando, no meio da tarde, a encher-se de nuvens tão cinzentas que parecem azuis . Então, cai uma deliciosa tempestade morna, que levanta vapores das calçadas e telhados. As noites são sempre frescas, mesmo sendo  verão, e as pessoas andam pela calçada tomando sorvete, ou sentam-se nas mesinhas ao ar livre dos muitos cafés, mas trazem consigo um agasalho leve, pois mesmo no verão Santo Onofre não chega a ser insuportavelmente quente. Raramente a temperatura excede  vinte e nove graus nas horas mais quentes do dia.

A primavera é mágica. Nunca vi , em nenhum dos lugares que visitei, tantos campos coloridos, cobertos de flores amarelas, rosadas, brancas, arroxeadas, vermelhas, destacando-se no verde profundo e tranqüilo dos vales que se perdem no horizonte.

O outono é o mês dos ventos, das folhas amarelas cobrindo as árvores, do céu de chumbo . Chega a fazer bastante frio, e as lareiras começam a serem acesas, ás vezes mesmo durante o dia, continuando acesas até o começo da primavera. Já o inverno geralmente é bastante frio, chegando a gear e até mesmo a cair neve durante algumas raras noites de Junho e julho. É quando a cidadezinha se enche de turistas, salpicados pelas ruas, vestindo casacões e cachecóis coloridos feitos pela Tina e vendidos em sua loja de lembrancinhas. Ela jamais fabrica dois cachecóis iguais, sendo todos diferentes uns dos outros e tricotados com muita arte. Como se ela os fabricasse para si mesma.

Além de tricotar cachecóis ,Tina é também a melhor amiga de minha mãe. Ambas conhecem-se desde crianças – como a maioria das pessoas em Santo Onofre e nas demais cidades pequenas . Tinha sido casada durante cinco anos, mas seu marido – o pai de Clara – apaixonara-se por outra mulher durante uma viagem de negócios e meses depois, deixou Nina para viver com a nova mulher , em outra cidade. De vez em quando ele telefonava para Clara, mandava algum dinheiro. Uma vez por ano, ela ia passar alguns dias com ele e a nova esposa, mas elas simplesmente se detestavam, e essas ocasiões foram se tornando cada vez mais raras, e os telefonemas, mais escassos.

 Nina tinha um relacionamento estável com Johnny, o dono do maior e mais badalado bar da cidade, o Johnny’s. Apesar da insistência de Johnny em levar as coisas mais à sério, ela nunca concordou em casar-se com ele. Dormiam na casa um do outro algumas noites por semana. Viajavam juntos. Mantinham-se fiéis a maior parte do tempo (ela sabia que ele às vezes pulava a cerca com alguma turista, mas nunca pareceu se importar, já que ela fazia o mesmo). Eram felizes à sua moda.

Nina me viu crescer, e como era de se esperar,  sua filha Clara é minha melhor amiga.

 Era.

Não me lembro de uma época de minha vida em que eu não tenha conhecido Clara. Sempre que me recordo dos dias mais importantes, como as festas de Natal, aniversários, Halloween, Páscoa, etc., ela sempre esteve comigo. Também nos momentos mais tristes, por exemplo, o pior de todos, quando descobriu-se o câncer de meu pai; o longo tratamento, os meses doloridos e incertos nos quais eu acordava de manhã e corria para o quarto de meus pais para ver se ele ainda respirava. E, quando ele se foi, Clara deu-me forças – apesar de ter apenas quinze anos de idade na época – para lidar com a ausência de meu pai, a depressão profunda  de minha mãe que durou quase quatro anos após a morte dele, quatro anos durante os quais ela não cuidava da casa, nem de si própria, muito menos de mim.

Claro, também tínhamos nossas desavenças; ela sempre tivera personalidade forte, gostando de tomar decisões a respeito de tudo sozinha, raramente pedindo minha opinião ou concordando comigo quando eu me manifestava. Mesmo que o assunto em questão envolvesse meus interesses diretos; por exemplo, uma vez nos desentendemos e ficamos sem nos falar vários dias por causa de minha festa de aniversário de treze anos. Ela encheu a casa de balões coloridos, apesar de eu ter deixado claro que não queria nada daquilo, pois achava que não tinha mais idade para aquele tipo de coisa. No início, ela fingiu concordar comigo, e pediu-me que eu não me preocupasse, pois ela organizaria tudo para mim. Seria como uma surpresa.

Mal contive meu desapontamento quando cheguei em casa no início daquela noite e deparei com todos aqueles balões coloridos , e as pessoas usando chapéus de papelão colorido em formato de cone. Odiei cada detalhe da decoração. Discutimos, ela foi embora da festa e tive que suportar as críticas de minha mãe por causa dela.

Depois da morte de meu pai e do grande período de depressão de minha mãe eu almoçava quase todos os dias na casa de Clara, e quando ia embora, ela e Nina faziam um prato para eu levar para minha mãe; Nina dizia: “ Ana, leve este prato para Eugênia. Ela precisa comer alguma coisa.” Eu  respondia: “ Mas não vai adiantar, ela só come chá com torradas. Ou uma fruta.” Então, Nina e Clara iam para casa comigo, e faziam minha mãe comer alguma coisa. Foram anos difíceis. O dinheiro que recebêramos pelo seguro de vida de meu pai estava acabando, e devido à indiferença com que minha mãe vinha administrando nosso pequeno negócio – uma loja de roupas prontas – as dívidas iam se acumulando. Eu tentava ajudar, mas  eu era apenas uma adolescente e não podia fazer muita coisa. Além do mais, tinha que terminar o segundo grau e tentar manter a casa pelo menos aceitavelmente limpa.

Minha mãe às vezes aparecia na loja durante uma tarde ou outra, assinava alguns cheques para que eu fosse ao banco pagar duplicatas, recebia alguns fornecedores. Mas todos notávamos que ela o fazia automaticamente, olhando para nós por trás de seus óculos e de suas olheiras, o rosto macilento emoldurado pelos cabelos desgrenhados que caíam de seu rabo-de-cavalo mal-feito.

Se não fosse por Clara e Nina, eu não teria aguentado administrar tudo sozinha. Com certeza, teríamos perdido a loja.

Mas, três anos e meio após a morte de meu pai, na véspera de minha formatura, Nina adentrou o quarto de minha mãe. Ela estava furiosa, pois eu acabara de dizer-lhe que minha mãe não participaria da cerimônia, muito menos da festa de formatura.

Eu e Clara ficamos na sala de estar torcendo as mãos, enquanto ouvíamos as duas gritarem dentro do quarto.

- Eugênia, levante-se desta cama porque você vai conosco à formatura de sua filha.

-Eu não tenho a menor condição, Nina. Me deixa em paz.

Neste momento, a voz de Nina se elevou ainda mais.

- Eu não estou sugerindo que você vá, estou ordenando! E se você não me escutar, pode ter certeza de que eu desisto, Eugênia. Desisto de você, da nossa amizade, de tudo o que nos liga. Eu já estou farta de limpar sua bagunça, não agüento mais me desdobrar em duas para tomar conta de sua casa, de sua filha e de seus negócios. Tudo tem limite! Carlos morreu há três anos e meio, e quer você queira quer não, a vida continua!

Ouvi mamãe chorar. Mas nem mesmo suas lágrimas conseguiram desanimar Nina.

- Ana precisa de você! Ela é sua única filha e hoje é a formatura dela! Pelo amor de deus, Eugênia, e se Ana morresse?

-Nem fale uma bobagem dessas!

-Pois eu acho que é preciso que mais alguém morra para você parar de olhar apenas para o seu próprio umbigo! A vida continua! Life goes on! O tempo passa, você precisa continuar a viver! Carlos está morto, e isso é definitivo!

- Não, não, não! Saia daqui, eu não quero te ouvir!

-Pois vai ter que me ouvir! Aqui está seu vestido, ( neste momento escutamos portas de armário sendo abertas e sons de roupas sendo atiradas sobre a cama) e aqui estão seus sapatos! Ainda dá tempo de transformar esta coisa que você chama de cabelo em algo decente. Posso fazer um coque razoável. E um pouco de maquiagem vai disfarçar suas olheiras. Mas não sem antes você tomar uma boa chuveirada.

Minha mãe chorava copiosamente, pela primeira vez , depois de ter enterrado meu pai. Parecia que ela estava deixando sair tudo, toda a dor acumulada durante todos aqueles anos .

De certa forma, a morte de meu pai, além de causar muita dor, também causou um grande alívio em todos nós. Não precisávamos mais conviver com o cheiro de éter, as doses de morfina, as fraldas geriátricas que ele precisou usar no final. Nem com seus gemidos de dor, quando finalmente a morfina tinha perdido o efeito.

Lembro-me do velório. Minha mãe só chorou quando o caixão baixou na sepultura, mesmo assim, um choro manso, conformado. Depois disso, ela até parecia que ia reagir bem, mas algumas semanas depois, veio a depressão. Acho mesmo que ela se sentia culpada por não estar sentindo tanta dor assim. Mas isso eu nunca vou saber.

Bem, o fato é que, naquela tarde, fomos todos à cerimônia de formatura. Minha mãe estava até bonita, não fosse por sua magreza excessiva. E depois daquele evento, ela começou a melhorar aos poucos, voltando às suas atividades normais, reassumindo o controle dos negócios e da casa, saindo para ir ao cinema com as amigas. Ela ainda era uma mulher jovem e bonita – tinha apenas quarenta anos – e o apelo da vida era muito forte.

Algum tempo depois, ela conheceu Marcio. Marcio era um veterinário recém- chegado e recém-divorciado. Seu primeiro casamento durara doze anos, e não tinha filhos. Alto, bonito, extremamente charmoso, inteligente e bem-humorado. O homem que eu mesma sonharia para mim, não fosse ele tão mais velho e namorado de minha mãe. Casaram-se seis meses depois de se conhecerem, e estão juntos e felizes até hoje. Eu pensava que meus pais se amavam e que tinham sido felizes, mas quando vejo Marcio e minha mãe juntos, percebo o que é amor de verdade.

Enquanto isso, eu e Clara crescemos e fomos estudar fora. Ela foi cursar Artes em Paris , e eu fui para a capital estudar Psicologia. Na verdade, eu nunca realmente quis fazer faculdade, mas minha mãe foi imperativa, dizendo que economizara anos para que eu pudesse ter uma boa educação, etc, etc. Como Santo Onofre tornara-se muito sem-graça depois que Clara se fora, resolvi atender ao pedido dela.

Foram cinco anos morando fora. Eu voltava para casa durante as férias de fim de ano, quando ás vezes reencontrava Clara, mas ela nem sempre vinha. Afinal, Paris não era “logo ali”, e passagens de avião eram caras. Consequentemente, nossa amizade foi ficando menos sólida, apesar de nos comunicarmos por telefone e internet, mas começamos a desenvolver outros interesses e conhecer novas pessoas.

Eu me perguntava se algum dia , se voltássemos a nos ver todos os dias, nossa amizade voltaria a ser o que era.

Tive outras amigas, e muitos namorados. Mas nunca uma amizade tão forte quanto a que tive com Clara.


(Continua...)




5 comentários:

  1. Que narrativa tão apelativa e cheia de detalhes.

    Uma história bem estruturada.

    Gostei muito.

    Beijinhos

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  2. É trista. Tenho 3 amigos de infância com os quais mantenho um relacionamento parecido. Éramos muitíssimos amigos, mas a distância, o tempo, as esposas e o trabalho consumiu nossas amizades.

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