quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O HOMEM MARROM





"O Homem Marrom" é baseado em fatos reais - embora eu tenha incluído personagens e fatos fictícios. São reais: a festa de aniversário e a aparição de um homem marrom visto por uma das crianças - minha irmã. Todo o restante da história é apenas ficção.

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Era o ano de 1970. Lembro-me de que eu e Sônia, minha irmã cinco anos mais velha,  estávamos em uma festa de aniversário na casa vizinha. Eu tinha então sete anos de idade, e a aniversariante – Julia, uma menina um tanto temperamental e autoritária que me considerava sua melhor amiga por falta de opção – assim que as crianças chegavam à festa, anunciava: “Mamãe mandou avisar para não brincar lá fora!” Carla, sua irmãzinha mais nova, apenas assentia com a cabeça, concordando com a irmã.

Acho que Julia sentia-se muito importante repassando as ordens da mãe, Dona Geralda, uma mulher corpulenta e escandalosa que adorava usar vestidos multicoloridos e maquiagem pesada. A família – Pai, mãe e duas meninas – tinha se mudado para a nossa vizinhança há apenas um ano, e já dera várias festas. Adoravam comemorar, e qualquer motivo era motivo. A única regra da casa era que à noite, ninguém podia brincar lá fora. Dona Geralda dizia que tinha medo que alguma criança se aventurasse para perto do riacho que ficava atrás da casa e desaparecesse dentro dele. Mas antes que eles se mudassem para aquela casa, as crianças do bairro tinham por hábito banharem-se naquele rio em dias muito quentes. Todos sabíamos que ele não era profundo ou perigoso. Foi minha mãe quem explicou: “É que Dona Geralda perdeu um filho há algum tempo. Ele se afogou. Por isso eles mudaram para cá.”

Aquela explicação foi suficiente para que não mais contestássemos as ordens de Dona Geralda.

Ficamos brincando dentro da casa apesar do forte calor, embora não houvesse muitas opções de brincadeira, já que formávamos um grupo de dezesseis crianças em uma casa não muito grande. Alguns (os mais velhos) escutavam música e os menores dividiam-se entre o jogo de varetas e a brincadeira de passar anel. Por volta das sete e trinta da noite, Dona Geralda chamou-nos para cantar parabéns e cortar o bolo. Eu tive a honra de ficar perto da aniversariante, o que significava sair em quase todas as fotografias, que foram reveladas quinze dias após a festa. Lá estávamos: eu, Carla – a irmã mais nova – e Julia com seu vestido cor-de-rosa de babados e sapato boneca de verniz branco.

A maquiagem pesada de Dona Geralda começava a derreter com o calor, e uma grossa camada de base escorria-lhe sob os olhos. Estávamos todos amontoados na sala de jantar, em volta da mesa onde colocaram o bolo e os doces miúdos. O pai de Julia já tinha subido para o quarto. Ele nunca participava das festas, e tinha um temperamento totalmente diferente do de sua esposa e filhas. Um homem taciturno, que nunca sorria ou cumprimentava os vizinhos. Dona Geralda sempre se desculpava por ele, dizendo que trabalhava demais e sofria de uma doença rara que fazia com que ele se tornasse antissocial, mas que era um ótimo homem. Nós raramente o víamos. Ninguém chegara perto dele o suficiente para poder descrever com detalhes o seu rosto.

Cantamos a tradicional canção, e começou a distribuição das fatias – a avó de Julia servia os copos de refresco. Foi quando ela perguntou: “Onde está o Paulo Jorge?”

Paulo Jorge era um menininho de cinco anos que estava na festa. Dona Geralda gritou: “Paulo Jorge! Venha comer bolo!” E logo depois, ainda cortando e distribuindo as fatias, pediu que Carla fosse verificar se ele estava no banheiro. Quando ela voltou, negando com a cabeça, Dona Geralda e a avó se entreolharam preocupadas, e as crianças, antes falantes e animadas, arregalavam os olhos e cochichavam.

Foi naquele momento que eu olhei em volta, a procura de Sonia, e não a vi. Fui tomada por um certo pânico sem saber o motivo. Afinal, ela poderia estar em qualquer lugar. Mesmo assim, como não queria colocar Sonia em maus lençóis por ter desobedecido as regras da casa, fiquei quieta.

Nós permanecemos à mesa, comendo nossas fatias de bolo e docinhos, enquanto Dona Geralda e a avó foram lá para fora procurar por Paulo Jorge. Acenderam todas as luzes do terreno, e começaram a chamar por ele. Em Pânico, Dona Geralda, suada e com a maquiagem borrada, levou as mãos a cabeça, correndo para perto do rio carregando uma lanterna. Procurou, mas não encontrou o menino. Àquela altura, todas as crianças já estavam do lado de fora, ansiosas por notícias. As regras da casa haviam sido novamente quebradas!

Nós esticávamos os pescoços em direção à escuridão do rio, e vislumbrávamos as saias amarelo-canário de Dona Geralda movendo-se na escuridão. Após alguns minutos que pareceram horas, ela voltou, trazendo minha irmã Sonia pela mão. Nós, crianças, fizemos uma roda em volta delas. Lá no céu, a lua cheia testemunhava o fato. Sonia, encorajada por Dona Geralda, que não parava de perguntar onde ela estivera, contou-nos sobre a sua aventura:

“Eu estava com calor, e então vim aqui para fora. Não pretendia ir para longe da casa! Foi quando eu vi Paulo Jorge correr na direção do rio, e achei melhor ir atrás dele; mas quando cheguei lá, não o encontrei, e fiquei procurando. Tive medo... estava muito escuro...”

Minha irmã pareceu recordar-se de algo muito apavorante, e parou de falar, os olhos perdidos no vazio. A avó estendeu-lhe um copo de refresco, e ela tomou alguns goles antes de continuar. As crianças estavam todas caladas em volta da cena.

“Eu vi um... um homem! Ele era muito estranho.”
Dona Geralda perguntou-lhe: “Estranho? Como assim?”
“Ele era todo marrom! E havia uma luz em volta dele. Ele... eu não consegui ver bem o seu rosto, mas ele era sim, completamente marrom: as roupas, a pele. E eu poderia jurar que ele estava encharcado.”

Dona Geralda e a avó se entreolharam mais uma vez. Vi que elas trocaram um olhar de compreensão e pavor, mas nada disseram. Minha irmã continuou, após mais um gole do refresco:

“Eu me aproximei dele. Não pude evitar! Era como se ele fosse um daqueles ímãs de geladeira que a mamãe tem em casa: ele me puxava para perto dele, mas sem me tocar. Quando cheguei bem perto, eu parei, e ele ficou olhando para mim. Ele usava um chapéu estranho, de abas muito largas que fazia sombra no seu rosto. Eu não conseguia me mover. Ele me perguntou se eu tinha medo dele. Eu disse que não com a cabeça, mas estava apavorada,  e perguntei quem ele era. Ele deu uma gargalhada. Não respondeu. Naquele momento, eu acho que era a pessoa mais apavorada do mundo. Ele estendeu a mão para mim, e senti um ar gelado percorrer meu corpo. Quando ele tocou minha cabeça, eu desmaiei. Acordei quando Dona Geralda chamava por Paulo Jorge.”

Naquele momento, a avó começou a chorar. Dona Geralda anunciou: “É melhor chamarmos a polícia.” Ela se afastou, abraçando a avó. Elas murmuravam coisas, e consegui ouvir apenas a seguinte frase: “Pode não ter sido ele...”

A polícia chegou. Nossas mães vieram nos buscar e nos levaram para casa. Minha irmã teve que repetir a mesma história muitas vezes, tanto para a polícia quanto para amigos e parentes curiosos.

Muitos dias se passaram, mas ninguém encontrou um traço sequer de Paulo Jorge. A polícia continuou a investigação por vários meses, mas sem sucesso. Enquanto isso, Dona Geralda decidiu mudar-se novamente com sua família, e um dia antes da mudança, veio até a nossa casa despedir-se de nós. Ela parecia imensamente triste. Nós as convidamos para sentar – ela, Julia, Carla e a avó. Quando papai perguntou pelo marido (cujo nome não consigo lembrar-me) ela disse que ele estava terminando de carregar o caminhão de mudanças.

Vi quando Sonia se levantou e caminhou até a janela. Também vi o momento em que ela levou uma das mãos à boca, os olhos arregalados de pavor. Corri para perto dela, e perguntei-lhe o que acontecera, e ela apontou-me o homem do outro lado da rua que carregava o caminhão de mudanças: ele usava um chapéu esquisito de abas largas e um sobretudo marrom. Pareceu ter percebido que o observávamos, pois parou o que estava fazendo e olhou em nossa direção. Quando nos viu à janela, levou a mão ao chapéu fazendo um ligeiro cumprimento. Foi quando Sonia desmaiou.

Meus pais vieram correndo para acudi-la, deixando as visitas no sofá. Vi quando elas saíram correndo e entraram no caminhão,sem se despedirem de nós, partindo para nunca mais voltar.

Minutos depois, quando Sonia despertou, perguntei a ela mais coisas sobre o homem do caminhão de mudanças – pai de Julia – mas ela simplesmente não se lembrava de nada. Quando insisti, ela perdeu a paciência e disse que não sabia do que eu estava falando. Nunca descobri se ela realmente esqueceu o acontecido ou se estava apavorada demais para voltar a falar no assunto. E ninguém nas redondezas lembrava-se da história do homem marrom que apareceu no mesmo dia em que Paulo Jorge desapareceu. Dele e das pessoas que ocuparam aquela casa em frente a nossa por um breve período, nunca mais ninguém teve notícias.





4 comentários:

  1. ANA BAILUNE,

    seguindo você ,também aqui!

    Quanto ao texto entre estupeficado e aplaudindo de pé sua corretíssima narrativa fico como todos ficaram ao final da história do homem marrom que apareceu no mesmo dia em que Paulo Jorge desapareceu,pedindo emprestado as suas próprias palavras.

    Afinal,citar aqui novamente Shakespeare,e suas interrogações sobre os mistérios dos interregnos entre as coisas que acontecem entre o céu e a terra,seria simplificar e reduzir demais, toda esta belíssima narrativa.

    Prefiro reler o texto.

    E vou fazer isso agora.

    Um abração carioca.

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  2. Ana,
    Quanto da imaginação infantil é imaginação? Quanto, é uma realidade que nós adultos perdemos a capacidade de ver?
    Abraço

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  3. É linda a imaginação...de coisas impensáveis se faz o conto...real

    Deixo cumprimentos...
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    http://pensamentosedevaneiosdoaguialivre.blogspot.pt/

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  4. A imaginaçao infantil nem sempre é so fantasias...

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