quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

MALDADES - PARTE V





À noitinha, Sean apareceu. Estava mais carinhoso. Parecia mais relaxado. Eu tentei parecer natural, mas havia uma barreira crescendo entre nós que me deixava cada vez mais desesperada. Eu o estava perdendo. E, presa àquela cama, isso aconteceria sem que eu pudesse ao menos lutar por ele.

Depois que me recuperei, Sean não voltou a falar em apresentar-me à sua família. Já estávamos em janeiro, e nosso casamento estava marcado para Abril, mas ele parecia nem sequer perceber aquilo. Eu estava cada vez mais desiludida. Pensei até em terminar tudo com ele, antes que me ferisse mais seriamente, mas mamãe protestou, achando que eu precisava aprender  a ser forte e lutar pelo que eu queria, e não entregar minha felicidade de bandeja às circunstâncias, só porque elas não se mostravam muito favoráveis. Ela achava que eu deveria tentar uma reaproximação, conversar com Sean. Se ele nem tinha terminado comigo ou falado em anular ou adiar o casamento, é porque, fosse lá o que estivesse acontecendo com ele, ele ainda não tinha certeza do que realmente queria, e que eu tinha que ajudá-lo a decidir. Ao meu favor.

Meu relacionamento com Clara continuava frio e distante, a cada dia.  Paramos de nos visitarmos, ou de sair juntas. Apenas quando havia alguma ocasião em que nossas famílias se juntavam, procurávamos fingir que estava tudo bem e que nada havia mudado. Mas todos perceberam que nossa amizade já não era mais a mesma. Eu não sei o que ela dizia, mas eu afirmava que tanto tempo separadas tinha mudado muito a nós duas, mas que eu continuava gostando dela. Mentia.

Numa dessas ocasiões de família – o aniversário de Johnny – algo aconteceu que me obrigou a desistir de fingir.

Fomos todos comemorar no Johnny’s, é claro. Eu estava até feliz, e Sean parecia ter voltado a ser o mesmo homem carinhoso e atencioso de sempre. Dançamos, bebemos, comemos e rimos. Ele cantou algumas canções, e até cantei uma junto com Clara no karaokê.

A festa estava animadíssima, e parecia que a cidade em peso tinha comparecido. Eu me sentia mais segura, depois de tanto tempo com medo. Tinha me vestido muito bem para a ocasião, estava realmente muito bonita e segura de mim e de meu poder de sedução, pois vários homens tinham me olhado mais prolongadamente do que o normal. Acho que Sean percebeu, e sentiu ciúmes, pois passou o braço à volta de minha cintura e não me deixou mais sozinha. Clara percebeu o que ele tinha feito, e uma sombra passou pelo rosto dela, mas ela sorriu e continuou a se divertir. Acho que só eu percebi.

Já quase no final da festa, quando algumas pessoas começaram a se retirar, eu estava me sentindo totalmente exausta e abafada após ter dançado três músicas seguidas. Johnny pediu que Sean cantasse mais uma, para “a saideira”, e como todo mundo formou um coro com direito á palmas e gritaria quando Sean recusou, ele não teve outra saída senão atender ao pedido do aniversariante.

Enquanto ele cantava e todos estavam distraídos, de repente senti uma grande vontade de tomar ar fresco. Achei que não faria mal se eu saísse para dar uma volta. Minha mãe, Clara, Nina e Márcio estava sentados à mesa com mais dois casais amigos ouvindo Sean cantar. Esgueirei-me salão afora.

A noite, como eu esperava, estava fresca e convidativa. Respirei fundo e logo senti-me recuperada. Não queria voltar para dentro, queria ficar ali, ouvindo a música que tocava lá dentro e olhando o luar, que estava simplesmente fantástico. Sentei-me num banco de madeira que ficava na calçada, logo na frente da  varanda do bar. A varanda estava vazia, pois todos estavam lá dentro, ouvindo Sean. Mas  se alguém chegasse  na varanda não conseguiria me ver, pois havia um muro baixo de tijolos  entre a varanda do bar e a calçada que impedia que, quem quer que estivesse sentado, fosse visto por quem estava à varanda. O banco onde eu estava sentada ficava escondido pelo muro.

Nem sei exatamente quanto tempo fiquei ali, pois a canção terminou e ele emendou uma outra, mais romântica, com gosto de fim de festa. Então, a música eletrônica começou a tocar novamente . Ouvi passos na varanda atrás de mim. Um casal passou por mim, saindo do bar, e nem sequer me viu, pois viraram à direita, e eu estava sentada à esquerda da saída.

De repente, ouvi vozes conhecidas. Eram Clara e Sean! Fiquei paralisada, com medo até de respirar. Ela disse:

-O que está fazendo aqui? Veio atrás de sua noivinha?

-Por favor, Clara, não fale assim da Ana. Acho melhor você voltar lá para dentro antes que ela perceba que você saiu atrás de mim.

-A gente tem que resolver esta situação, Sean. Daqui a pouco chega Abril e vai ser pior.

-Me deixa ficar sozinho, tá? Eu preciso pensar.

-Você está pensando há mais de um mês.

-Eu nem sei direito o que eu quero, tudo foi rápido demais, eu preciso de tempo...

- Você me ama, Sean?

Meu coração praticamente parou de bater. Eu estava ali, engolindo em seco, as lágrimas descendo involuntariamente de meus olhos, a mão na boca para segurar os soluços. Eu precisava ouvir a resposta para aquela pergunta.

- Sim. Mas eu amo a Ana. Eu amo as duas, acho. Ou talvez eu esteja apenas apaixonado por você.

-Apenas apaixonado? Como pode? Aquilo tudo que aconteceu entre nós quando ela estava doente não significou nada pra você?

-Se não tivesse mexido muito comigo, eu teria falado com meus pais sobre ela. Mas eu simplesmente não consegui. Como dizer a eles que eu ia me casar com outra quando eles batem à porta de meu apartamento e você atende só de roupão?

-Você estava no banho!

-E você fez de propósito! Sabia muito bem que eles estavam para chegar. Disse que ia embora, eu pensei que você tinha ido, mas você vestiu meu roupão e ficou ali esperando por eles, para abrir a porta de propósito.

-Eu te salvei, Sean. Se você amasse a Ana, não teria ficado comigo.

-Mas você tem que confessar que você foi bastante... persuasiva!

-E você gostou. Tanto que repetiu depois. Várias vezes.

Eu mal podia acreditar no que estava ouvindo! Era muita humilhação. Eu estava totalmente arrasada, mas não tinha forças para me levantar e acabar com a farsa. Eles continuaram:

- Amanhã vence o prazo que eu te dei para se livrar dela.

-Não fale assim. Ela não é alguma coisa que se joga fora, é a mulher que eu amo!

-E que você trai  comigo!

-Eu não queria que nada disso tivesse acontecido. Se você não tivesse dado em cima de mim, eu...

-Bem, você não me deixa outra saída: eu mesma vou ter que falar com a Ana. É melhor falar de uma vez do que continuar fazendo ela de boba.

-Você sabe muito bem que eu não gosto que você fale assim dela! E eu te proíbo de falar qualquer coisa a esse respeito com a Ana! Você provocou esta situação, e agora quer me separar dela...

-Se você a ama tanto assim, como é que continua dormindo comigo? Eu vou falar com ela! Ou você pretende se casar com ela e me manter como sua amante?

- Clara, por favor, não me pressione! Prometa que você vai me deixar decidir. Só mais alguns dias! Afinal, se eu ficar com você, você não quer que eu tenha certeza, ao invés de ficar porque fui pressionado?

Ela não respondeu.

-Tudo bem, mas só mais dois dias. É tudo o que eu vou te dar. E se depois disso você não me der nenhuma resposta, eu conto tudo para ela!

-Mas... e seu eu decidir que é a Ana que eu quero?

- Eu saio de cena. Volto para Paris e não perturbo mais vocês. Mas eu preciso de uma resposta, e ela também. Acha que ela é boba e não percebeu nada? Acha que vai conseguir ficar com as duas por muito mais tempo?

- Você tem razão. Agora vamos lá para dentro, está na hora de irmos embora.

Fiquei ali, esperando que minha mente assimilasse tudo o que eu tinha acabado de ouvir. Mas eu sabia que o jogo ainda não estava perdido. Se fosse um outro homem qualquer eu teria me levantado e acabado com aquilo, mas Sean era diferente; eu tinha certeza de que ele era o homem de minha vida, e que eu tinha ainda chances de recuperar o amor dele que, afinal de contas, ele  mesmo disse que ainda sentia por mim. Eu tinha que pensar. Tinha que fazer o que minha mãe dissera: ir à luta e recuperar minha vida. Eu não ia deixar tudo para Clara: meus sonhos, meu homem, meu casamento.

Na adolescência, ela havia me roubado alguns namorados, mas eu nunca dera importância, pois não tinha sido realmente apaixonada por nenhum deles. E ela logo terminava com eles , assim que conseguia tirá-los de mim. Era uma espécie de jogo para ela. Mas ela sabia que não era nada sério, que eu não estava apaixonada por nenhum deles. Depois, ficávamos as duas rindo deles. Eu mesma já havia roubado algumas de suas paqueras. Mas agora não era um jogo entre adolescentes, e ela sabia disso.

Respirei fundo, voltei lá para dentro pelos fundos do bar e fingi que estivera todo aquele tempo no banheiro, me sentindo meio-tonta por causa do vinho. Na curta viagem para casa, pedi a ele que fosse direto para o sítio; eu iria com Marcio e minha mãe. Sean estava cansado, e acabou concordando. Nos despedimos na porta do bar. Fiz questão de dar-lhe um beijo bem demorado, pois percebi que Clara estava nos olhando de dentro do carro.

Nem sei como tive sangue frio para fazer aquilo depois do que ouvira. Acho que estava mesmo meio-bêbada.


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