segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

MALDADES - FINAL






Conheci outra pessoa. Rogério é doce, terno, apaixonado. Com ele, sinto-me segura. Não posso dizer que o amor que sinto por ele seja tão forte quanto o que eu sentia por Sean, mas ao menos, levamos uma vida sem sobressaltos, feliz, e sinto-me segura.

Tivemos um bebê, uma linda menininha que hoje tem cinco anos de idade. Seu nome é  Ângela.

Um dia, vi-a brincando com um envelope amarelado. Reconheci a carta de Sean. Corri para ela:

-Onde achou isto, Ângela?

Sorrindo, ela me estendeu a carta:

- No armário da mamãe.

Quando cheguei ao quarto, vi que Ângela tinha aprontado uma das suas artes: toda a minha roupa estava jogada no chão, a porta do armário escancarada, e meu álbum de fotografias aberto, com várias fotos espalhadas pelo chão. Entre elas, o envelope que eu recebera de Sean há anos atrás. Lembrei-me que o tinha guardado dentro do álbum de fotos, e esquecido totalmente do assunto.

Eu agora estava curada. Sean era apenas uma sombra do passado, como em sombras se transformam todos os amores perdidos. Resolvi abrir a carta e lê-la. Por que não?

Sentei-me na cama. Rasguei o envelope, e vagarosamente, abri a carta.

“Minha Ana,

Eu nem sei como começar a dizer-lhe o que eu tenho a lhe dizer. O que fiz á imperdoável. Agi como um cafajeste. Você não o merecia. Mesmo assim, se você tiver que me julgar pelos meus atos, espero que possa me ver como um fraco, não como um cafajeste.

Mas eu não podia ficar ao seu lado convivendo com um fantasma: o fantasma da minha culpa.

Tenho uma confissão a fazer. Sei que depois de ouvi-la, você talvez tenha ódio de mim. Eu fui um fraco, e acabei me envolvendo com uma outra pessoa enquanto estava com você, e eu não consegui lhe contar a verdade, pois temia feri-la. Ainda mais sendo esta pessoa a sua melhor amiga: Clara.

Depois que ela morreu, vi o quanto você estava sofrendo por ela, e não suportava vê-la sofrer por alguém que não merecia. Ao mesmo tempo, eu sabia que eu mesmo também não merecia seu amor. Todas as vezes que eu olhava para você, o fantasma de Clara se colocava entre nós. Mesmo eu tendo decidido, na noite anterior, que eu não mais me relacionaria com ela, Clara ameaçou contar tudo a você.

Depois que a festa no Johnny’s terminou, ela apareceu  no sítio de madrugada. Eu já não agüentava mais olhar para ela. Clara estava sendo inconveniente, se impondo a mim, como se eu fosse alguma espécie de monstro que a seduzira, ela, a pobre mocinha inocente. Ela queria que eu me sentisse culpado por tudo. Mandei-a embora e afirmei-lhe que eu já tinha tomado a minha decisão, e que eu iria ficar com você. Ela saiu feito uma louca, dizendo que contaria a você tudo o que tinha acontecido entre nós dois; quando ela havia jurado, prometido, que se eu me decidisse por você, ela não interferiria e voltaria para Paris.

O resto você já sabe. Eu fui um covarde duas vezes: a primeira, por me deixar envolver com alguém como ela; a segunda, por ter praticamente fugido da cidade sem nem sequer ter me despedido de você.

Agora você já conhece meu lado negro.

Não tenho o direito de pedir a você que me perdoe. Mas, se ainda houver alguma esperança de ficarmos juntos novamente, ou se você ainda quiser esclarecer alguma coisa, ligue para o número de telefone que está nesta carta. Se você não ligar em uma semana, entenderei que você não quer mais me ver, e não voltarei a procurá-la.

Mas saiba que estar longe de você é uma dor constante. Sinto muito a sua falta, e se você ainda me quiser, apesar de tudo, tenha certeza de que será diferente. Eu prometo.

Você nem imagina o quanto está sendo difícil para mim ficar sem você.

Sean.”

Ao terminar de ler a carta, e relê-la algumas vezes mais, eu ainda não tinha certeza do que estava sentindo. Aquele número de telefone... será que ele ainda poderia ser encontrado através dele? Num impulso, corri para minha bolsa, apanhei o celular e disquei. Não tinha a menor ideia do que diria se ele atendesse, e nem sequer pensei em Rogério. Agi por impulso. Meu coração pulava dentro do peito a cada toque. De repente, após o quarto toque, ouvi o ‘click’, indicando que alguém tinha atendido. Mas a voz que me disse ‘alô’ do outro lado da linha não era de Sean. Tratava-se de uma voz feminina. Mesmo assim, apesar do medo que eu sentia, tinha que ir até o final daquela estória, nem que fosse para revê-lo ainda uma vez mais e concluir o adeus que ficara no ar.

-Alô! Gostaria de falar com Sean, por favor.

Silêncio do outro lado da linha.

- Quem está falando?

-Aqui é... é uma velha amiga, eu pensei... não nos vemos há muitos e muitos anos, e acabei de chegar de uma longa viagem e achei que talvez Sean, ainda ...

-Aqui é Judy. A mãe dele. Qual o seu nome?

- Meu nome é Ana.

-Bem, Ana... eu sinto muito, mas Sean não poderá falar com você. Ele... ele faleceu há dois anos.

Senti o mundo girar. Não podia desmaiar, pois estava sozinha em casa com Ângela. Sentei-me na beirada da cama e procurei respirar fundo algumas vezes.

-Como aconteceu?

- Eu... ele...

Notei que tinha despertado lembranças dolorosas na pessoa que falava comigo, e me senti muito cruel e indiscreta.

-Olhe, não precisa falar nisso se não quiser, está bem?

-Está tudo bem, é que ainda é muito difícil.  Mas eu estou bem. Você está bem?

- Não. Não tenho certeza. Você sabe quem eu sou?

- Não... quero dizer, você é uma velha amiga de Sean, pelo menos é o que você me disse.

- Meu nome é Ana. De Santo Onofre. Ele nunca falou de mim?

Silêncio do outro lado. Um suspiro.

-Oh, Ana, sim claro, eu sinto muito, muito mesmo...

Ela começou a chorar.

-Gostaria de poder encontrá-la pessoalmente. Tenho muitas coisas a lhe contar. Estou morando em uma cidade próxima da sua.

Anotei o endereço. Marcamos um encontro para o dia seguinte. Pedi a mamãe que ficasse com Ângela e disse a Rogério que iria viajar para ajudar uma velha amiga de faculdade que precisava de mim, mas que voltaria no dia seguinte.

Nos encontramos em um restaurante no centro da cidade onde ela estava morando. Quando cheguei, Judy já esperava por mim. Era uma mulher muito bonita, aparentando ter uns sessenta e poucos anos. Mal pude conter minha emoção ao ver nos olhos dela os olhos de Sean. Os mesmos olhos que me olharam tantas vezes, os olhos que haviam me cativado completamente desde a primeira vez que nos víramos.

Ela me cumprimentou com um aperto de mão polido, e convidou-me a sentar com um gesto tímido e um pequeno sorriso.

- Como vai, Ana?

-Eu estou bem.

Mas as lágrimas finalmente começaram a jorrar, enquanto a imagem dela ficava cada vez menos nítida diante de mim.

-Eu sei de tudo o que aconteceu. Sei de tudo. Sean contou-me tudo em detalhes. Ana, você não imagina o quanto ele estava arrependido do que fez. Ele amava muito você. Posso dizer com segurança que você, Ana, foi a única mulher que meu filho amou na vida. Ele nunca conseguiu se perdoar pelo que fez com você. Meu filho ... fraquejou. Mas sua amiga Carla era uma mulher vivida, experiente, e muito bonita. Ele simplesmente não conseguiu resistir às investidas dela. Você deve saber que é difícil para um homem... mas ele amava você. Ele mesmo me disse isso muitas e muitas vezes.

-Por que ele nunca disse isso a mim?

- Porque ele achava que não tinha o direito, depois de tudo que tinha feito com você. Sabendo que você estava inocente naquela estória sórdida.

Olhei-a nos olhos. Estava mais calma.

-Não, Judy. Eu não estava inocente. Eu sabia de tudo. Descobri na noite anterior à morte de Clara.

Ela levou uma mão à boca, num gesto de surpresa.

-Eu ouvi uma conversa entre os dois. Mesmo antes daquela noite eu já desconfiava, mas não queria confrontar Sean. Achava que seria melhor se eu lutasse por ele de uma outra forma. Mas após a morte de Clara acabei achando que as coisas se ajeitariam e voltariam a ser como eram antes. Triste ilusão...  ele se foi, fugiu de mim.

-Ele fez aquilo porque era fraco. Sentia-se muito mal pelo que tinha feito. Eu sei que é difícil acreditar no que vou lhe dizer, mas Sean era muito ético e muito digno. Acho que na verdade ele estava confuso, não sabia lidar com a situação, ou como contar a você, e ao mesmo tempo, não conseguiria viver com você tendo aquela mancha negra entre vocês. Eu o aconselhei a colocar tudo em uma carta. Ana, estive ao lado dele durante aqueles seis meses antes dele tomar coragem e escrever para você, e sei o quanto ele estava sofrendo. Vi meu filho definhar aos poucos, emagrecer, perder o interesse pela vida. Posso afirmar-lhe que apesar de ter agido mal, ele fez o melhor que sabia.

- Eu entendo.

- Depois que ele escreveu a carta, contando tudo, ele começou a sentir-se mais leve. Esperou por sua resposta durante toda a semana. Mas como não a obteve, chegou à conclusão de que ele não a merecia e que você não o tinha perdoado.

-Eu não li a carta. Quero dizer, eu a li  ante-ontem, quando minha filha... eu sou casada agora. Minha filhinha derrubou umas coisas de dentro do armário, e acabei encontrando a carta, e aqui estou eu.

-Fico feliz que você tenha refeito sua vida.

-Sim, eu agora vivo ... bem. Mas eu tenho que desabafar, me desculpe pelo que vou lhe contar, afinal, mal nos conhecemos.

- Diga o que quiser, Ana.

- Eu nunca deixei de amar Sean. Nunca o esqueci. Ele lhe contou da festa de aniversário no Johnny’s?

-Sim, contou. Disse-me que após a festa Clara o procurou, ameaçando contar tudo a você se ele não o fizesse. Foi quando ele terminou tudo com ela.

-Mas ela me procurou no dia seguinte pela manhã. Judy, eu nunca contei isso a ninguém, nem a minha mãe.

Ela inclinou-se em minha direção, para ouvir-me melhor.

- Eu estava lá. Quando ela morreu. Assisti toda a cena.

-Oh... mas por que você...nunca contou isso a ninguém?

-Porque eu poderia ter evitado. E não o fiz. Eu sabia que ela estava ali para me contar toda a verdade, e para tentar me afastar de Sean. Ela queria virar a estória a seu favor, fazendo-me terminar o relacionamento com ele, deixando o caminho livre para ela.

Ela pareceu confusa. Contei-lhe toda a estória, e foi como se tudo estivesse acontecendo novamente diante de mim. Judy ouviu tudo em silêncio, e quando terminei, ela respirou fundo. Achei que ela estaria escandalizada com minha frieza, mas ela pousou sua mão sobre a minha, fazendo uma breve carícia.

-Eu teria feito o mesmo. E não tenho certeza de que você teria conseguido evitar o acidente, se tivesse gritado. Essas coisas acontecem rápido demais, é difícil prever o que teria acontecido se, e se... não se sinta culpada por isso, Ana. Considere que Deus tem seus caminhos, e se Ele quisesse, Ele teria evitado a morte de Clara.

Senti um grande peso saindo de meus ombros. Passara todos aqueles anos sentindo-me sufocada por guardar aquela estória dentro de mim, e por tanto medo de ser censurada ao contá-la para alguém, que jamais o fizera. E aquela mulher, uma perfeita estranha, mas que no fundo, tinha tantas coisas a ver comigo, me ouvira e me compreendera sem me censurar um só minuto.

-Agora sei porque Sean escolheu você.

Vi que ela estava tentando conter as lágrimas, e eu também. Ficamos em silêncio por alguns instantes, olhando para a toalha de mesa. O garçon trouxe-nos as bebidas que tínhamos pedido, e tomei um gole generoso de vinho. Ela também.

-Mas Ana... por que você ligou? Se agora você é uma mulher casada?

-Porque eu queria ver Sean mais uma vez...

Recomecei a chorar.

-Precisava passar tudo a limpo. Quem sabe, para recomeçar minha vida com meu marido e deixar o passado para trás, ou até mesmo... não sei, fazer tudo diferente e ter uma nova chance com Sean.

-Você deixaria tudo para ficar com ele? Mesmo depois de tudo?

- Eu não sabia, mas agora eu sei: sim, Judy. Eu deixaria tudo para ficar com ele.

Ela enxugou uma lágrima com a ponta do dedo.

-Obrigada por estar sendo tão sincera comigo, Ana. Muito me conforta saber que ele era amado, e que você o perdoa.

-Eu o perdoo, é claro que eu o perdoo! Como poderia não perdoá-lo? Eu ainda o amo, Judy, eu o amo demais, e nem sequer sabia disso!

Tomamos mais um gole do vinho. O garçon trouxe nosso pedido, e em silêncio esperamos que ele nos servisse. Mas nenhuma de nós tocou na comida.

- Judy, eu sei o quanto deve ser difícil para você... mas como Sean morreu?

Ela respirou bem fundo, fechando os olhos por um instante. Quando me olhou, só pude ver uma grande paz em seus olhos, e não a dor que eu esperava; paz, ou resignação.

- Ele sofreu um acidente de carro. Tinha saído para buscar o pai no aeroporto. Aconteceu quando eles estavam voltando.

-E seu marido? Ele está bem?

- Ele também faleceu no acidente.

Fiquei muito chocada por tê-la feito reviver tudo aquilo.

-Oh, Judy, eu sinto muito, por favor, me perdoe!

-Está tudo bem, Ana. Você foi sincera comigo, e serei com você; nós estávamos nos divorciando. Iríamos contar a Sean naquela noite. Mas ele nunca ficou sabendo. Meu marido tinha uma outra mulher. Eu havia descoberto tudo há algum tempo , e quando tentei falar com ele sobre o assunto, ele simplesmente disse que queria o divórcio.

Percebi que ambas tínhamos partilhado grandes segredos.

Ela sorriu para mim, tranqüila.

-Mas tudo isso agora é parte do passado.

Após o almoço, perguntei-lhe se eu poderia visitar o túmulo de Sean. Ela assentiu, e fomos juntas ao cemitério, e deixei algumas flores no túmulo de Sean, junto com as últimas lágrimas que chorei por ele. Judy se afastou enquanto eu estava ajoelhada, olhando a pequena fotografia de Sean que estava na lápide. Quando ergui os olhos, ela tinha ido embora.

Nunca mais nos encontramos.

Voltei para casa e para Rogério. Quando cheguei já era noite, e ele foi me receber à porta de braços abertos, envolvendo-me num caloroso abraço. Ângela veio correndo juntar-se a nós. Compreendi que minha vida agora é esta, e que consigo ser muito feliz a maior parte do tempo, vivendo-a.

Basta deixar para trás as sombras e erros que todos cometemos no passado.


FIM




4 comentários:

  1. Bom dia Ana.
    Li cada detalhe da sua história.A vida as vezes nos pega uma peça.
    Depois de anos,fez você saber de toda verdade.
    E ao mesmo tempo,aliviou á sua alma,daquilo que você guardou por muitos anos.
    Lindíssima carta,lindíssima história.Parabéns.
    Confesso que não gosto de ler textos muito grande,mas a sua história é linda,prende qualquer pessoa,á não desistir de ler.
    Um linda semana,beijinhos.

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  2. Adorei a estória, Ana! A leitura foi cativante e gratificante!
    Estória com muito realismo. A pesar da maldade, «[...]que pode morar em nossos mais escuros recônditos...» os personagens encontraram o seu caminho com resignação e algum altruísmo (a Ana ficcional).
    Parabéns!!

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  3. Essa história me chorar até meus olhos incharem

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  4. Ana, confesso que de início não estava entendendo muito a história e achei meio cansativa, mas mesmo assim fui lendo e entrando na vida de seus personagens e consegui viver com eles cada situação.

    As duas últimas partes foram muito bem urdidas e precisaram ser lidas com muita atenção e calma para não perder nenhuma letra.
    A história é comovente e eu vi aí uma troca de maldades que ao final ficou elas por elas, culminando com a morte de Sean, a torre do triangulo amoroso.

    Ao final você traça um caminho de confissões e perdão mútuos, virando a página com ponto final e um novo parágrafo que é a meu ver , sua marca registrada em seus contos ou pequenas novelas que seja, que é a moral da história. Pequenas mensagens que você deixa para reflexão do leitor.

    Você é genial minha amiga. Queremos Ana Bailune nas prateleiras das melhores livrarias do BRASIL! Eu torço por isso.
    bjs querida amiga que admiro tanto por sua poética bem como na prosa.

    LU C.

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