segunda-feira, 17 de março de 2014

A Ilha Sem Barcos - Parte VI




A noite fora longa. Há dias procuravam pelo barco de Carlos,desaparecido com o jovem casal a bordo, mas apesar da dedicação e do esforço da guarda costeira e dos pescadores locais, não havia nem sinal deles. Sequer destroços do barco tinham ido dar na praia, como geralmente acontecia quando havia algum naufrágio. 

Quatro dias se foram. Cecília levava uma bandeja de chá para Nina e seus novos hóspede, Genaro, pai de Décio e Antônio, pai de Liana. Antônio aceitou a xícara que lhe foi estendida, enquanto Genaro recusou-a com um breve agradecimento e um gesto de cabeça. Sentia-se culpado por tê-los mandado àquela ilha. Ouvira a história contada por Nina e Cecília várias vezes, e tentava entender o porquê daquela atitude intempestiva de sua nora. Já percebera que Liana era uma moça mimada e volúvel, mas ao mesmo tempo, gostava dela pela sua doçura. Não conseguia imaginá-la maltratando pessoas. Já Antônio entendia muito bem a atitude da filha em relação a Rosalba, que já conhecera de vista, pois a vira rondando o hotel e Nina a apontara para ele. Quando olhou para ela, Antônio entendeu imediatamente a reação da filha. Entretanto, decidiu calar-se, pois sabia que Liana não gostava de tocar naquele assunto. Mas lembrou-se com carinho e saudade de Diana, a gêmea de Liana, que nascera com problemas mentais, e que morrera aos quinze anos de idade.

Estava perdido em seus pensamentos, quando a voz de Nina despertou-o de seus devaneios:

-Você está bem, Antônio? Precisa de alguma coisa?

Ele suspirou:

-Estou bem, obrigado. Apenas angustiado, muito angustiado.

Ele se levantou, e foi sentar-se na varanda, olhando o mar que jogava sua espuma cinzenta contra a areia. Onde estaria sua filha? Estaria viva? Lágrimas vieram-lhe aos olhos, mas ele conseguiu contê-las. De nada adiantaria chorar; só conseguiria afligir os demais.

Nina e Genaro observavam Antônio, enquanto Cecília recolhia as xícaras de chá e as levava de volta à cozinha. Nina de vez em quando olhava Genaro com o canto do olho, tentando perceber melhor seus sentimentos.  Genaro estava calmo, apesar de triste, e não demonstrava a mesma ansiedade de Antônio. Ambos eram viúvos, e não tinham outros filhos. Ela notara que Cecília corava toda vez que Genaro falava com ela. Em todos aqueles anos, nunca vira a amiga agir daquela forma, quase como uma adolescente nervosa quando Genaro estava por perto. Mas ele  tratava Cecília com cortesia e distância. Ela sabia que aquela não era a ocasião propícia para que sua amiga e seu hóspede começassem um romance, mas ela sentia que havia algumas fagulhas entre os dois, e que fossem outras as circunstâncias, certamente os dois se envolveriam. Nina era muito experiente em assuntos de amor - tivera cinco maridos - e sabia reconhecer uma mulher apaixonada, e Cecília mal conseguia disfarçar.

Sua amiga Cecília ainda era uma bela mulher, e ela e Genaro formariam um belo casal.

Nina pediu licença a Genaro, e foi até a cozinha falar com a amiga:

-Como você consegue, Cecília?

Distraída com as xícaras que enxugava e guardava, Cecília exclamou:

-Hum?...O que?
-Ficar sozinha todos esses anos.
-Ora... por que a pergunta agora, Nina?
-Curiosidade... jamais indaguei sobre sua vida particular, mas eu ás vezes penso que você tem algum segredo do passado...

Cecília sorriu:

-Eu?! Mas não tenho mesmo... minha vida sempre foi comum... quero dizer, eu sempre fui uma mulher rica e tive dinheiro para gastar à vontade na minha juventude. Mas não tenho nenhum segredo. talvez você esteja achando isso porque tenho andado um tanto ausente ultimamente. Mas é por causa dos últimos acontecimentos. 

-Não, não é. Aliás, você está muito tranquila quanto ao destino daqueles três. Acha que estão vivos?

Cecília guardou a última xícara, dizendo:

-Tenho certeza absoluta... não me pergunte como, mas sei que eles estão vivos, e estão bem. Gostaria de poder dar a Antônio e Genaro esta mesma certeza, isso os acalmaria. Mas como dizer-lhes?... "escutem, não se preocupem com seus filhos, eles estão bem. Eu sei porque tenho um pressentimento?" Eles com certeza achariam que estou zombando deles.

-Realmente... melhor não dizer nada mesmo. Mas acho que você poderia ajudá-los de outra forma, quero dizer... pelo menos, ajudar Genaro. 
-Mas como?
-Aproxime-se dele. Ele parece ser mais frio que Antônio, mas no fundo, acho que é só fachada. Aproxime-se, converse com ele. Tente deixá-lo mais tranquilo.

Cecília sorriu, olhando a amiga com o canto do olho, a mão na cintura:

-Ora, você hein? O que está sugerindo, Dona Nina?

-Eu? Nada... mas confesse que você tem uma quedinha por ele...

Cecília corou, baixando os olhos e estendendo a mão sobre a mesa, para segurar as mãos de Nina:

-Ele é um homem atraente... sim, confesso que faz meu tipo. E que desde que cheguei aqui, ele foi o único homem que realmente me despertou esse tipo de ... sentimento.

Nina olhou-a firme nos olhos:

-Invista! Dê a si mesma mais uma chance!
-Não é o momento. Ele só consegue pensar no filho e na nora.
-Fique por perto. Estenda-lhe a mão. Não fuja. Agora vá lá.

Cecília olhou bem nos olhos de Nina, que estava muito séria. Depois, levantou-se e encaminhou-se para o salão, onde Genaro ainda estava sentado pensativo, o queixo na mão. Ela respirou fundo, ajeitando os cabelos com a mão, e foi sentar-se em frente a ele. Genaro saiu de seu transe apático, olhando para ela e dando um leve sorriso que derreteu-lhe o coração. 

-Gostaria de poder ajudá-los. Não sei o que dizer. Gostaria de conversar?

Genaro olhou-a por alguns instantes antes de responder:

-Essa angústia... nem mesmo os homens que contratei conseguem algum sinal de vida. Você, que conhece bem essas ilhas... acha que eles estão vivos ainda?

Cecília pensou antes de responder, tentando escolher bem as palavras:

-Bem... eu não sei como dizer-lhe isso, mas... 

Ela olhou para ele, procurando coragem para concluir seus pensamentos.

-Continue...
-Eu sei que eles estão bem. Estão vivos, e bem.

Alguma coisa no olhar dela acendeu nele uma chama forte de esperança, e Genaro sentiu seu coração aquecer-se de repente. Ao mesmo tempo, ao olhá-la melhor, percebeu o quanto era bonita. Encantou-se por seu corpo ainda esguio, e reparou nos lindos olhos azuis de Cecília, encantando-se com seu sorriso.

-Não sei o motivo, Cecília, mas eu acredito em você. 

Ela sorriu. Ficaram se olhando durante um tempo, e por alguns segundos, Genaro esqueceu-se de sua dor. Naquele momento, Antônio entrou, esfregando as mãos:

-Está gelado lá fora!

Cecília levantou-se, dizendo:

-Vamos acender a lareira.

Genaro seguiu-a com o olhar.

* * * * 

Na ilha, Carlos observava o casal adormecido sobre o colchão. Chovia lá fora, e ele tinha acendido um fogo na velha lareira da casa. Tinham limpado um pouco o lugar, tornando-o pelo menos habitável. Ele pescara alguns peixes e caranguejos, e Décio colhera cocos, bananas e amoras. Percebia que Décio fazia de tudo para que Liana não precisasse trabalhar, protegendo-a como se ela fosse uma criança, e Liana deixava-se ser tratada assim, sem fazer a menor questão de colaborar com nada. Carlos pensava no quanto Décio era manipulado pela jovem e linda esposa, e que aquilo não poderia acabar bem... 

Acreditava que em breve alguém os encontraria naquela ilha, e não estava preocupado. Mas Liana estava sempre choramingando, assustada e mau-humorada. E agora dera para ter pesadelos e acordar chorando no meio da noite, despertando todos. Falava de visões com uma menina. Décio tentava acalmá-la, até que ela adormecia novamente nos braços dele.

As noites envolviam a casa, e outros personagens circulavam por ali, além deles. Personagens que em breve conheceriam pessoalmente.

(continua...)


Um comentário:

  1. Boa noite Ana.. começando pelo título que faz nossa imaginação ir além do que nossos olhos físicos podem ver.. os dialogos sempre muito bem construidos.. ainda preciso pegar o ritmo nisso pois estou a fazer uma história.. tudo esta na cabeça só falta montar cenas e passar no papel.. achei legal o nome Genaro.. um vizinho tem este nome dado pelo pai.. todo mundo zoava ele.. mas é tri..
    sobre teu comentério muito grato.. o teu blog tá leve mas tem uns que tá triste viu... desisto realmente.. sem condições.. bjs e uma linda notie

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