terça-feira, 18 de março de 2014

ILHA SEM BARCOS - PARTE VII





Quando Décio abriu os olhos, levou um susto, pois viu-se de volta em sua cama, em seu quarto de adolescente. Sentou-se na cama, o coração aos pulos, e olhou em volta: suas flâmulas de times de futebol na parede, o velho computador, os livros da escola sobre a escrivaninha e a colcha com motivos espaciais ao pé da cama. Um raio de sol entrava pela greta da cortina, e passarinhos cantavam lá fora. Décio esfregou os olhos: como podia ser? Só poderia estar sonhando! Pulou da cama e olhou-se no espelho, deparando com seu rosto aos dezessete anos de idade. Passou a mão pela barba ainda rala, reparando nos cheiros do perfume que usava naquela época ainda em sua pele.

Lembrou-se de que naquela época, Vitória, sua mãe, ainda vivia, e que seus pais já eram divorciados. Sentiu um estranho enjoo na boca do estômago, e seu coração acelerado fazia com que respirasse mais depressa que o normal; tudo aquilo era demais para ele. Se era um sonho, era real demais. Olhou no relógio: seis da manhã. Com certeza, sua mãe ainda dormia (se estivesse viva). Era hora de aprontar-se para ir à escola; seu amigo passaria de carro para apanhá-lo em trinta minutos. Mas não. Ele não iria a lugar algum, pois sabia que naquele momento, ele não tinha dezessete anos, e sim vinte e oito; era casado com uma linda jovem e ambos eram náufragos em uma maldita ilha deserta.

Lembrou-se que a melhor maneira para saber se alguém estava ou não sonhando, era um bom beliscão. Tentou, e sentiu que doeu de verdade. Não era um sonho. Talvez algum tipo de realidade alternativa?

Vestiu-se, escolhendo uma calça jeans (a sua favorita nos tempos de adolescente, velha, desbotada e bastante puída, que fazia com que sua mãe brigasse com ele sempre que a vestia) e uma camiseta branca simples - tinha uma dezena delas no armário. Calçou seus sapatênis marrons muito gastos, escovou os dentes e passou a mão pelos cabelos, ajeitando-os antes de descer as escadas.

Tudo era inusitado demais. Parou no sopé da escada, olhando para baixo, e viu, na névoa de poeira da manhã, entrecortada pelos raios de sol, sua antiga casa. De repente, lembrou-se de sua mãe. Resolveu ir até o quarto dela, pois se ele estava ali, vivendo aquele momento, ela também deveria estar, pois só veio a falecer cinco anos mais tarde. Encaminhou-se à porta do quarto, empurrando-a devagar. Achava que estaria pronto para o que veria, mas na verdade, não estava; afinal, não é todo dia que se deparar com a mãe morta há mais de seis anos, calmamente adormecida em sua cama. Décio deixou escapar um grito de horror ao vê-la.

Vitória sentou-se na cama, muito assutada:

-Mas... o que aconteceu, meu filho? Que gritaria é essa?

Décio não conseguia falar. Seus olhos apavorados fitavam a mãe morta - agora, viva - enquanto ela se levantava da cama e caminhava até ele.

-Mas... o que deu em você, menino? Responda! Perdeu a língua? E o que está fazendo em meu quarto a essa hora da manhã?

A voz dela era ríspida como sempre, e Décio lembrou-se do quanto ele fazia tudo para tentar agradá-la e corresponder às suas expectativas quanto a ele, todas sempre muito altas. Temia aborrecê-la, pois detestava ter que ouvir aquela voz alterada e magoada em seus ouvidos. Passara a infância e adolescência tentando achar uma maneira de agradar a mãe, sempre fazendo tudo o que ela mandava sem jamais questionar - sua única rebeldia, as calças jeans velhas, para as quais ela estava olhando naquele momento:

-E vá já tirar esse lixo! Não gastei uma fortuna com advogados para conseguir uma pensão decente de seu pai para vê-lo mal-vestido assim. Quando as tiver trocado, traga-as para mim. Vou jogar essas calças no lixo agora mesmo. E vá tomar seu café, pois senão ficará atrasado para a escola. 

Ela falava alto, a voz cortante e autoritária rasgando a manhã ao meio. Aproveite e calce sapatos decentes, pois os sapatos que alguém calça demonstram sua condição social e seu esmero e cuidado consigo mesmo. Já mandei você jogar fora esses sapatos! Calce os pretos de verniz, e por favor, ponha uma camisa decente. Você parece um mendigo!

Enquanto ia de volta para o quarto, Décio recordou-se da época da doença da mãe - que ao invés de enfraquecer sua vontade de ferro, só fez aumentar sua tirania sobre ele. Nos dois últimos meses, como ela se recusara a ir para um hospital, Décio passara a dormir no quarto dela, limpando-a, alimentando-a (ela não aceitava ser tocada por estranhos) e satisfazendo cada uma de suas vontades, enquanto ela descarregava toda a sua dor física e moral sobre ele. Ela dizia que ele tinha a obrigação de filho de cuidar muito bem dela, e quando ele sugeria que contratassem uma enfermeira (dinheiro não lhes faltava para aquilo) ela desandava a esbravejar e a ameaçar deserdá-lo. Ficava tão alterada, que Décio precisava chamar o médico, que sempre terminava a consulta administrando a ela um calmante forte (momentos de paz que Décio sempre ansiava) e dizendo a ele que tivesse paciência, pois ela não podia ser contrariada. 

Com remorsos, Décio recordou-se dos momentos em que desejou de verdade que ela morresse. E quando seu pedido finalmente foi atendido, viveu um período de culpa e remorsos longo demais. Seu pai precisou levá-lo a um psiquiatra, e durante anos, Décio fez análise e uso de medicamentos para aliviar sua culpa. Finalmente, seu pai vendeu a casa e convidou-o para morar com ele e sua nova jovem esposa - da qual viria a divorciar-se dois anos mais tarde.

Na faculdade, Décio conheceu Liana, e apaixonou-se imediatamente pela beldade de cabelos loiros e olhos verdes. Ela era doce, frágil e delicada. Às vezes ficava um pouco irritada quando ele a contrariava, mas bastava ceder aos seus desejos e ela se transformava novamente em uma gatinha manhosa e submissa. Que ele amava!

Envolto em suas memórias passadas e presentes, Décio foi trazido de volta à realidade daquele sonho quando Vitória gritou atrás dele:

-Está esperando o que? Ainda não fez o que eu mandei?

Despertou com o rosto suado na velha casa da ilha, os ecos da voz de Vitória ainda em seus ouvidos. Sentou-se no colchão enxugando o suor do rosto com as palmas das mãos. Sentiu alívio por estar ali, náufrago, em uma casa velha, longe de todos. Liana dormia docemente ao seu lado, e Carlos, de costas para ele, avivava o fogo da lareira com um galho.

* * * *

Liana caminhava pela praia deserta. Era um lindo dia ensolarado, e a areia branca parecia estar de caso com o azul do mar. Tudo era perfeito. Ela via algumas conchas peroladas no chão, que brilhavam lindamente, e ela as recolhia e levava-as ao ouvido. Depois, atirava-as de volta ao mar. De repente, ela avistou alguém ao longe; uma menina caminhava em sua direção. Seus passos eram desconexos, e ela, de vez em quando, abria os braços e rodopiava, rindo muito. Liana apertou os olhos para ver melhor, e levou o maior susto de sua vida quando reconheceu na estranha, a sua irmã gêmea, Diana, morta há seis anos.

Liana tentou fugir. Saiu correndo pela praia, e enquanto corria, vinham-lhe à mente lembranças de quando a irmã era viva. Sentiu novamente a vergonha que ela lhe causava; lembrou-se da festa de aniversário das duas, quando Diana, ao soprar as velas do bolo, teve um acesso de tosse e vomitou groselha sobre ele. Viu novamente as faces chocadas de seus amigos, e seus pais vindo em auxílio da irmã doente, levando-a para longe, secando-lhe as lágrimas e deixando Liana sozinha na sala de estar, sem saber o que fazer a respeito dos convidados e do bolo arruinado junto com sua festa.

Lembrou-se de Jonas, seu primeiro namorado. Liana era totalmente apaixonada por ele. Ambos estavam sempre juntos, e eram motivo de inveja de suas amigas, pois formavam o par mais lindo entre eles. Viu novamente o dia em que Jonas convidou-a para conhecer seus pais, e do encanto que sentiu ao ver-se diante deles - pessoas finas da alta sociedade. A mansão onde moravam parecia uma daquelas casas que Liana via nos filmes de Hollywood. E eles a adoraram imediatamente!

Liana decidiu não falar ainda sobre sua irmã doente; não queria estragar os bons momentos que viviam naquela época de sonhos e felicidades. Concordou em apresentar Jonas à sua família, contanto que tudo fosse feito em um restaurante, e sem a presença de Diana ou a menção de seu nome. Dizia que gostaria de ter mais tempo para contar sobre a irmã. Enquanto isso, apaixonava-se cada vez mais por Jonas. Tinha apenas quinze anos, mas sabia que tinha encontrado o grande amor de sua vida.

Certa vez, perto da Páscoa, Jonas apareceu de surpresa em sua casa, e ao ver Diana de costas, sentada em um banco no jardim, pensou tratar-se de Liana. Aproximou-se devagar, cobrindo seus olhos com as mãos. A menina assustou-se e começou a gritar e chorar, deixando-o atordoado, pois não entendia o que estava acontecendo. Logo, vieram Liana e seus pais, e então ela teve que contar-lhe a verdade. Desde então, Jonas tornou-se cada vez mais frio, até que finalmente, rompeu o namoro.

Liana foi até a casa dele para tentar conversar, mas foi recebida pela ex-sogra:

-Sinto muito, Liana, mas Jonas não deseja mais vê-la. Não queremos nosso filho envolvido com uma moça que tem histórico de deficiência mental na família. Sentimos muito, e esperamos que você entenda.

Enquanto todas aquelas lembranças voltavam, Liana corria. Mas de repente, Diana apareceu bem na frente dela, barrando-lhe o caminho. As duas ficaram se olhando, os rostos bem juntos. Liana podia sentir o hálito cheirando a remédios da irmã.

* * * *

Bem longe dali, na praia da ilha de Pérola, Rosalba brincava com um pequeno barquinho feito por ela, que era uma cópia quase exata do barco à vela de Carlos. Colocou-o sobre um pequeno monte de areia, entre alguns rochedos longe do mar aonde a maré raramente chegava. Olhou para ele, satisfeita:

-Daí você só sai quando eu quiser.
Virou-se de costas e foi caminhando para longe, sem olhar para trás.

(continua...)


Um comentário:

  1. Boa noite Ana, hoje a visita é rápida. É mais para desejar um feliz dia do blogueiro. Luz e paz. Beijo no coração

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