quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A FLOR JAMAIS COLHIDA





Quando tinha sete anos, Gabriel estava a caminho da escola de mãos dadas com Bela, sua jovem mãe. Bela era uma mulher religiosa, e apesar de sua conhecida doçura, um pouco rígida em seus conceitos, e tentava criar seu menininho dentro dos preceitos que aprendera de seus pais. Ensinava-lhe tudo o que era 'ético' e 'correto.' Naquela manhã, Bela parou para conversar com uma amiga junto ao jardim de uma casa.

Foi quando Gabriel olhou para cima e viu, esgueirando-se entre as grades do jardim da tal casa, uma rosa. Mas não era apenas uma rosa qualquer; era quase tão escura quanto o vinho que papai e mamãe tomaram no último natal, durante o brinde da ceia; suas pétalas só podiam ser de veludo, daquele veludo que a gente logo tem vontade de tocar e acariciar, e passar sobre a pele do rosto. Ele esticou-se todo, e conseguiu sentir-lhe o perfume: apesar de não estar ainda totalmente aberta, ele sentiu um perfume que nunca sentira em nenhuma rosa do mundo (das que ele já vira). 

Puxou a saia da mãe e mostrou-lhe a rosa. Ambas, mãe e amiga, após comentarem sobre a beleza da flor, continuaram a conversar. Mas Gabriel decidiu que aquela rosa tinha que ser da Tia Janete, sua professora. Como todos os meninos da sua turma, tinha uma paixãozinha platônica pela bela e bondosa professorinha. E aquela rosa ficaria perfeita no vaso junto à janela, no canto direito da mesa... Gabriel pode até mesmo sentir o beijo que ela daria em seu rosto assim que ele lhe entregasse a rosa, e do olhar admirado e invejoso das outras crianças. Quando a amiga se despediu, ele anunciou:

-Mãe, vou levar aquela rosa para a Tia Janete!

Bela, já sorrindo, respondeu-lhe:

-Querido, sei o quanto gosta da sua professora, mas a rosa pertence a alguém. Não é certo retirá-la sem autorização! Não é correto colher flores nos jardins alheios sem pedir antes.

Mas vendo o ar de tristeza no rosto do filho, Bela decidiu:

-Já sei: vamos tocar a campainha! Quem sabe, a dona da casa permita que nós levemos a rosa, se explicarmos a ela direitinho?... 

O menino logo mostrou-se animado, e ele mesmo tocou a campainha. Duas vezes. Três vezes. Mas ninguém foi atender a porta. Bela ainda tentou animá-lo: 

-Quem sabe, amanhã?

Mas no dia seguinte, apesar da rosa estar no auge de sua beleza, mais uma vez ninguém atendeu a porta. Finalmente, no terceiro dia, uma senhora idosa foi até o portão e perguntou-lhes o que queriam. Bela explicou o desejo que o filho tinha em presentear sua professora com a rosa. A velha senhora sorriu, dizendo:

-Eu entendo! Também já fui professora e adorava ganhar flores! Aguardem um momento que eu vou lá dentro buscar uma tesoura para cortarmos o caule sem ferir a roseira!

Gabriel e Bela se entreolharam, e ela ficou muito feliz ao ver o sorriso do filho. Pensou no quanto tinha dado a ele uma importante lição. mas quando a senhora voltou, ao tocar o caule da roseira - mesmo apesar do seu cuidado - a rosa começou a despetalar-se. Desesperado, Gabriel viu, com lágrimas nos olhos, as pétalas aveludadas pousarem em volta dos seus pés. A senhora lamentou profundamente, dizendo:

-É mesmo uma pena... e esta roseira demora tanto a dar rosas... quando dá, geralmente é umazinha só. Mas tenho certeza que sua professora adorará margaridas! 

Dizendo aquilo, ela cortou algumas e entregou a ele.

Mãe e filho continuaram o trajeto até a escola em silêncio. Quando chegaram, Bela falou:

-Pelo menos, você aprendeu uma importante lição, Gabriel: nunca pegar alguma coisa que não é sua sem autorização. E com certeza, a rosa despetalou-se porque, no fundo, também não é certo desejar as coisas alheias. Lembre-se sempre disso!

E Gabriel lembrou-se daquilo muitas vezes, principalmente vários anos depois, quando, aos vinte e um anos, olhava para o rosto frio da mãe durante o seu velório. Mas ele não sabia que, mais uma vez na vida, estaria de frente com a tentação; é que Gabriel tinha um amigo de infância, o Nuno, que após o funeral, foi abraçá-lo acompanhado de uma moça belíssima que apresentou-lhe como sua namorada. Seu nome era Hilda. Gabriel, apesar da tristeza, não conseguia parar de admirar os cabelos lisos e levemente ruivos da moça. Não conseguia tirar os olhos dos seus olhos muito azuis. E quando ela o abraçou, sentiu nela o mesmo perfume que sentira naquela rosa de sua infância, a rosa tão desejada que ele jamais colheu. 

Nuno nem sequer percebeu o que se passava com seu amigo; achava que sua estranheza era devida ao luto. Quando eles se despediram, Ela ainda olhou para trás, e os olhos dele se encontraram mais uma vez. Hilda sorriu-lhe, e de repente, a tristeza que Gabriel sentia pela morte da mãe aliviou-se. Foi para casa levando o sorriso dela em seu ombro, carregando seu olhar dentro dos próprios olhos, e sentindo o perfume que ela exalava. Naquela noite, mal dormiu, e sonhou com ela. 

Mas ele sabia que ela era a flor no jardim alheio. A rosa desejada que não poderia ser colhida. 

(continua...)


Um comentário:

  1. Contagiante enredo Ana, aprecio muito sua versatilidade e a riqueza que nos apresenta em seus blogs!

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