terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O ÚLTIMO FINAL DE SEMANA - FINAL






O Último Final de Semana – Parte VIII

A manhã veio encontra-los todos espalhados pelos sofás, tapetes e almofadas da enorme sala de estar. Na lareira, ainda crepitavam algumas brasas. De repente, uma música suave, mas em alto volume, ecoou pela Casa, despertando a todos. Eram sete horas da manhã. 

Valéria foi a primeira a abrir os olhos, seguida de Fernando, Ronaldo, Carol e Gina. A música vinha da sala de TV, e eles se entreolharam, esfregando os olhos e bocejando, achando que finalmente, Rodrigo chegara à casa. Todos se levantaram e foram até a sala de TV, onde descobriram que a música vinha do aparelho de DVD que ligara automaticamente. Valéria já ia desliga-lo, quando o rosto de Rodrigo apareceu na tela. Todos se sentaram, prestando atenção. Na tela, um Rodrigo macilento e de aspecto cansado – bem diferente daqueles que eles tinham conhecido – parecia olhar diretamente para cada um deles. Quando a música terminou, ele começou a falar:

“Olá, todo mundo... espero que estejam todos presentes. Esta é uma mensagem de desculpas e reconciliação. Não que eu me sinta culpado por alguma coisa que eu tenha feito, mas alguém que eu conheci há algum tempo me disse que, se eu desse o primeiro passo para reconciliar-me com meus desafetos, talvez a minha situação lá do outro lado melhorasse. Eu não acreditava em nada, até descobrir que eu estou doente. Continuo não acreditando, mas como diz o ditado, “Eu não creio em bruxas, mas...”

Naquele trecho, ele riu tristemente.

Bem, na verdade, eu não acho que eu deva desculpas de verdade... pensando bem, eu fui exatamente o que eu sou de verdade, com cada um de vocês, mesmo que vocês não tenham gostado do que eu sou. De uma coisa podem ter certeza: eu não fingi quando estávamos nos divertindo. Foi realmente divertido, cada momento que ficamos juntos. E sabem, eu gosto realmente de vocês, amigos. Principalmente de você, Valéria. Quando estávamos juntos, eu me sentia leve... eu podia me soltar sem medo de cair, pois você não deixaria. Sinto tê-la decepcionado, não sendo quem você esperava; mas no fundo, você sabia quem eu realmente era. Afinal, como um menino poderia ter tanta experiência na cama? Você nunca desconfiou que não tinha sido a minha primeira ou simplesmente não quis saber? E nunca reparou nas cenas de ciúme que a sua mãe fazia quando estávamos juntos? Ela nem conseguia disfarçar! E a maneira como as amigas dela me abraçavam... você mesma viu, e preferiu ignorar. Eu fui quem eu pude ser, quem eu sabia ser. Não poderia ter sido melhor. Mas se isso a consola, saiba que foi com você que eu mais gostei e fui mais feliz. Não vou dizer que a amo, porque eu não sei o que é isso, nunca aprendi; mas eu adorava a sua companhia. Nunca quis nada de você, a não ser você mesma, enquanto não posso dizer a mesma coisa de vocês, Gina e Carol. Porque de vocês eu quis sexo, dinheiro, atenção. Eram boas para o meu ego.  Mas olhe, Carol eu gostei de você... embora o maior motivo por eu tê-la escolhido, foi para provar a mim mesmo que eu poderia vencer o Fernando, o garoto mauricinho da faculdade, cheio da grana, família perfeita, nascido em berço de ouro. Ele me irritava quando falava com a família ao telefone. Desculpe, Fernando, mas minha experiência familiar foi bem diferente da sua.

Mas Carol, ainda dá tempo de vocês dois ficarem juntos. Sabe muito bem que ele sempre gostou de você, e lerdo do jeito que é, quem sabe ainda goste... não me leve a mal, Fernando, você foi um bom amigo. Eu é que não fui. 

Quanto a você, Ronaldo, eu jamais o enganei; você é que olhou para mim e me viu como gostaria que eu fosse! Cara... como é que alguém segue os conselhos de um perfeito estranho, colocando na conta bancária dele todas as suas economias? Você pediu, implorou para ser enganado, Ronaldo! Qualquer outro cara teria sido bem mais espero, e pelo menos, verificado meus antecedentes... mas você não! Acreditou em tudo o que eu falei sem questionar. Mas uma coisa ficou de bom desse relacionamento: você saiu do armário, descobriu do que realmente gosta. E eu também. Saiba que cada momento na cama com você foi um tremendo sacrifício, embora você seja um cara legal, porque eu gosto é de mulher. Fiz apenas por dinheiro. Mas olha só como a vida é irônica: tenho muito dinheiro, mas não vou a lugar nenhum com ele. Mas foi divertido obtê-lo. Obrigada por me ajudar e confiar tanto em mim. Desejo sinceramente que você esteja feliz. 

E você, querida Gina... nenhuma mulher hoje em dia é tão ingênua! Vai me dizer que você não sabia que aquela clínica era de aborto? E que nem desconfiou o que estávamos fazendo lá? E como é que você vai confiar em um cara que, mesmo namorando sua melhor amiga, dá em cima de você? Ou seja: você não é muito melhor que eu. Não mesmo... você foi comigo àquela clínica e deixou que a culpa toda caísse em cima de mim pelo que você mesma queria fazer, mas não tinha coragem. 

Depois, vitimizou-se. E você sabe muito bem que eu estou dizendo a verdade.
Mas eu vou dizer agora o motivo de vocês estarem todos aqui, mesmo depois do que eu fiz: é que no fundo, todos pensaram que talvez eu pudesse ter mudado e me transformado no que vocês queriam. Mas não, eu sou o mesmo cara, só que bem mais feio agora, e quase morto. É bom que me vejam desse jeito, pois assim será mais fácil para vocês me esquecerem.”
Dizendo aquilo, ele retirou o boné e mostrou sua cabeça totalmente calva. Ergueu a camiseta, e mostrou as marcas arroxeadas pela pele, a magreza acentuada de seu corpo, o tubo que saía entrava em seu abdômen e o outro por onde passavam suas fezes, que descansavam em um saco ao lado do corpo. 

“Vejam, nem cocô eu consigo fazer mais. Agora, Fernando, quando você acordar de manhã e perguntar ao espelho se existe alguém no mundo mais bonito que você, ele vai responder que não. Isso não é ótimo?”

Valéria chorava copiosamente. Aliás, todos choravam. 

“Mas eu tenho ótimas notícias: vou devolver a vocês tudo o que tomei,  com juros e bônus. Vocês vão ficar todos bem. No fundo, o que eu tomei de vocês foi apenas dinheiro. O resto, vocês me deram de livre e espontânea vontade. Todo o dinheiro que tirei de vocês foi muito bem aplicado, rendeu juros e correção, triplicou de valor. E até quem deu menos, como vocês, Gina e Carol, vai ficar muito bem. Assim que eu bater as botas, meu advogado disponibilizará uma quantia muito boa de dinheiro para todos vocês, que cobrirá tudo o que roubei e muito mais. Valéria, além do dinheiro de Cleide, devolvo-lhe esta casa e o apartamento. Faça bom proveito de tudo, e saiba que cada momento que passamos juntos foi verdadeiro. Mas eu sou como eu sou. Talvez eu a ame. Se amor for o que eu estou sentindo agora, então eu a amo.”

Ele fechou os olhos durante algum tempo, permanecendo em silêncio, e quando os abriu, tinha-os rasos d’água.

“Agora adeus a todos. Eu, que sempre adorei entradas triunfais, despeço-me da mesma maneira.”

O vídeo terminou, e a tela ficou azul. 

Após algum tempo de silêncio, Fernando exclamou, tentando disfarçar a emoção:

“Bem, jamais saberemos se dessa vez ele disse a verdade.”

Gina retrucou:

“Onde será que ele está agora? Será que ainda está vivo?”

Ronaldo abraçou Valéria, dizendo:

“De você ele gostava. Deu para sentir. Pelo menos, ele tomou uma única atitude digna na vida, enquanto tantas pessoas falsamente dignas morrem sem fazer isso.” 

Carol aproximou-se deles, abraçando-os também, e logo Gina e Fernando juntaram-se ao abraço. 

Valéria disse, ainda enxugando as lágrimas:

“Tudo tem um motivo. Pelo menos, ficamos nos conhecendo. Espero que possamos ser amigos, e que esta casa continue sendo o nosso principal ponto de encontro.”


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A muitos quilômetros dali, Padre Antônio encheu o copo com água, oferecendo-o a Rodrigo, que semi-adormecido, apenas molhou os lábios levemente. Rodrigo estava muito fraco e pálido, ele pensou. Mas logo tudo estaria acabado.
Rodrigo despertou de repente, abriu os olhos, inclinando a cabeça na direção dele:

“Oh, padre Antônio... o senhor voltou!”

“Sim, eu voltei. Estarei por aqui enquanto você precisar.”

Rodrigo puxou o ar com dificuldade:

“Grato... acho que não vai demorar muito tempo, não é?”

“Não, não vai.”

Padre Antônio ajeitou-lhe as cobertas e o travesseiro, e depois impôs as mãos sobre ele, fazendo uma oração silenciosa de olhos fechados. Quando terminou, caminhou até o pé da cama.

“Sente-se melhor?”

Rodrigo respirou fundo, e percebeu que sua respiração estava um pouco mais fácil.

“Sim, obrigada. Sabe, morrer aqui sozinho não seria uma experiência muito boa. Mas por que o senhor veio ficar comigo, que não passo de um canalha?”

O padre riu:

“Acredite-me há canalhas piores que você. E vejo um grande potencial em você, meu jovem.”

Agora foi a vez de Rodrigo rir:

“Como? Não passo de um canalha terminal!”

“Isso é o que você consegue enxergar, meu menino. Há muito bom potencial em você, que se desenvolverá e fará de você um grande homem!”

Rodrigo riu novamente. Padre Antônio passou a mão sobre sua testa, já quase fria, e ele adormeceu.
Duas funcionárias que faziam a limpeza do quarto observaram a cena, e conversaram:

“Pobre rapaz. Tão jovem, tão bonito! Uma pena!”

“Eu só queria saber com quem ele tanto conversava... “

Nisso, a outra respondeu, com ar de mistério:

“sabe-se lá...”



FIM





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