sábado, 10 de outubro de 2015

A OUTRA MARGEM - PARTE III






Naquela sexta-feira de manhã, Luciano abraçou a esposa mais uma vez, antes de fechar a mala e levá-la para o hall de entrada da casa. Rayssa pendurou-se em seu pescoço  à porta, e disse, com voz manhosa:

-Você tem mesmo que ir, amor?

Ele a beijou apaixonadamente mais uma vez antes de responder:

-Você sabe que sim. Mas estarei de volta antes que você possa dizer "saudades."

Mais que depressa, Rayssa exclamou:

-Saudades! Pronto, você já voltou!

Ambos riram, e ele se foi, prometendo ligar assim que chegasse no hotel. Ela foi terminar uma tradução que começara no dia anterior, e duas horas depois, deu o dia de trabalho por encerrado; afinal, era sexta-feira! Andou pela casa, dando apenas um jeitinho aqui e ali, já que Andrea, a faxineira, tinha feito a limpeza no dia anterior. Consultou o relógio: quase dez da manhã. Lembrou-se de que ainda estava de camisola, e foi tomar um banho e trocar de roupa enquanto pensava no que faria com o resto do seu dia. Na banheira, teve uma ideia: iria ver a mãe. Era uma viagem de pouco mais de duas horas. Chegaria lá por volta das uma da tarde, e poderia voltar às cinco, chegando em casa entre sete e trinta e oito da noite, dependendo do trânsito.

A manhã estava linda, e Rayssa colocou uma música suave no carro. Queria fazer uma surpresa para Georgina, por isso não avisou que estava indo. A viagem foi tranquila, e ela não parou no caminho, economizando alguns minutos. Sabia que Georgina estaria no Segundo Lar àquela hora, e foi direto para lá.

Rayssa percebeu as mudanças na velha casa de campo, agora toda pintada de branco, as janelas azuis. Havia bancos espalhados pelo jardim, onde pessoas conversavam. Pela aparência, ela sabia que eram pacientes de câncer. Admirou-se com a expressão tranquila deles, e com os sorrisos que lhe dirigiam enquanto ela passava, cumprimentando-os. Pensou na importância que o trabalho da mãe tinha sobre a vida daquelas pessoas, e sentiu-se grata por poder ter nascido filha de uma pessoa como Georgina. Passou pela nova ala, construída no mesmo estilo vitoriano da casa principal. Na verdade, quase uma réplica da mesma. Calculou que as duas casas poderiam bem abrigar mais de vinte pessoas, mas Georgina já planejava novas ampliações, ou quem sabe, alugaria um prédio próximo ao hospital para facilitar a locomoção dos doentes mais graves. 

Finalmente, avistou a mãe. A luz do sol sobre os cabelos dela criavam uma espécie de aura de luz. Georgina estava mais linda do que nunca, usando um vestido azul-claro justo na cintura, que fazia com que parecesse alguns anos mais jovem. Rayssa ficou um tempo admirando a mãe, que conversava com uma das acompanhantes na entrada da casa. 

Quando a mãe a viu caminhando em sua direção, seu rosto abriu-se em um sorriso. Mãe e filha abraçaram-se, e depois Georgina conduziu-a em uma vsita pela nova área. havia mais quartos do que Rayssa pensara, pois apesar de manter a fachada igual a da casa original, Georgina transformara o interior em um espaço prático e bem dividido, com um grande hall com TV e sofás, uma cozinha média, dois banheiros, cinco quartos no andar inferior e dez no andar superior. Cada quarto abrigava quatro pessoas e tinha seu próprio banheiro. Uma estrutura grande, Rayssa pensou. Sabia que Georgina trabalhava muito a fim de manter tudo aquilo e conseguir ajuda de pessoas físicas e jurídicas. Descobriu que a mãe também conseguira algum suporte do govderno local, o que não a admirou, pois sabia o quanto Georgina era empenhada em conseguir o que desejava.

As duas saíram para almoçar na cidade, e Rayssa pode rever alguns vizinhos, amigos e conhecidos  no caminho, parando para conversar rapidamente com eles. Após o almoço, georgina  achou que era hora de perguntar à filha sobre aquela ruga de preocupação em sua testa, que tinha notado desde que Rayssa chegara:

-E então, como vão as coisas? Como está Carlos?

-Ah, infelizmente as notícis sobre ele não são nada boas... a doença está avançando bem rápido. Há alguns dias, ele se esqueceu do nome de Luciano, e vive me chamando de Cláudia, que é o nome da ex-noiva do filho. Mas eu compreendo, e não me importo. Sinto muito por ele, por Luciano e até mesmo por Joana, mas não vejo uma boa perspectiva pela frente... bem, é uma doença degenerativa, e todos sabemos o que vai acontecer.

Georgina suspirou profundamente, dizendo:

-Acho que é ainda pior do que o câncer. Eu posso ver esperança no rosto daquelas pessoas no Segundo Lar. Certa vez, alguém me perguntou se eu não ficava desesperada ou deprimida ao lidar com tanto sofrimento, e ao responder, eu vi que na verdade, o que eu sinto, é esperança. Eles me passam muita fé. Mesmo quando não conseguem resultados nos tratamentos.

-E alguém já morreu lá?

-Não. É apenas uma casa de passagem. Quando em fase terminal, ou eles voltam para suas casas ou então vão para um hospital. Não temos médicos ou enfermeiros que possam cuidar deles, e nem autorização para tal. 

Ambas tomaram os últimos goles do vinho. Georgina continuou:

-E como estão as coisas entre você e Joana? Melhores, espero.

-Bem, parece que ela está mais calma, digamos assim. Convidou-me para um chá amanhã à tarde. 

-Mas você parece apreensiva, filha.

-Sim. Como você se sentiria se alguém abertamente hostil a você te convidasse para um chá, ainda mais quando Luciano não estará lá?

-Bem, eu pensaria que talvez aquela fosse uma tentativa de reconciliação.

-Mamãe, você é sempre tão generosa!

Georgina sorriu brandamente, segurando a mão da filha:

-Tente dar um crédito a ela. Vá de boa vontade. Quem sabe, as coisas não estejam se encaminhando para um bom final?

Rayssa sorriu:

-Eu vou tentar.

Após deixarem o restaurante, Rayssa despediu-se da mãe com um beijo e um abraço apertado, e antes de voltar para casa, deu uma passada no escritório para rever os colegas e acertar algumas trabalhos pendentes. Depois, pegou a estrada de volta, com o sol se pondo em lindas cores. 





Um comentário:

  1. Engraçado, como na vida, as pessoas que fazem intrigas, são sempre olhadas com brandura.
    Amei conhecer a mãe de Rayssa, vamos ver como se sai, diante da situação armada pela sogra.
    É, Ana, as relações humanas, são mesmo complicadas.
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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