quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A OUTRA MARGEM - PARTE VI







Na noite de terça-feira, Rayssa e Luciano foram jantar na casa dos pais dele. Joana recebeu-os à porta, toda cheia de sorrisos, mas Rayssa viu seu sorriso morrer no momento em que ela pôs os olhos na presilha de madrepérola que ela ostentava em seu elaborado penteado, feito especialmente para aquela noite. A sogra perdeu a fala enquanto levava os dois para o interior da sala de estar, mas recuperou-se rapidamente. Rayssa podia quase escutar o som  das engrenagens maldosas do cérebro de sua sogra trabalhando. Mas o jantar correu aparentemente leve, as conversas foram amenas e Joana não tocou no assunto da presilha, fingindo ignorá-la.

Após o jantar, após Carlos recolher-se para dormir (ele estava dormindo cada vez mais cedo, e durante períodos cada vez mais longos, segundo Joana), todos foram tomar um licor na sala de estar. Rayssa pensou que a sogra perguntaria alguma coisa, mas Joana permaneceu impassível. Foi então que Rayssa pediu a Luciano que fosse até a cozinha pegar mais um café para ela, criando uma oportunidade de ficar sozinha com Joana. Ela inclinou a cabeça, fingindo olhar uma suposta unha lascada, de modo que a persilha ficou ainda mais evidente para a sogra. mesmo assim, Joana nada disse. Rayssa não aguentou mais, e tentando parecer casual, comentou:

-Ah, Joana, como você pode ver, acabei encontrando a minha presilha de madrepérola! Imagine, estava caída atrás de minha gaveta de roupas íntimas. Uma das peças ficou presa, e precisei tirar a gaveta do lugar, e lá estava ela! Ainda bem que não quebrou.

Joana ficou tão embarassada, que gaguejou ao dizer:

-Que-que bom, não é, Rayssa? Por um momento pensei que você tinha duas presilhas...

Rayssa não deixou aquele deslize escapar:

-Duas? Como assim, Joana? Você sabe que eu a recebi de presente de minha falecida avó, e que é uma peça única, muito antiga e valiosa.

Ela plantou os olhos no rosto de Joana, absorvendo com prazer o seu constrangimento. Joana riu, sem-graça, e tentou mudar de assunto:

-É... parece que o tempo vai melhorar a partir de amanhã... plena primavera, e um frio desses?

Naquele instante, Luciano voltou, trazendo o café. O tom da conversa voltou ao normal, e Rayssa achou melhor não insistir.


. . . . . . . 

No dia seguinte, Rayssa conversou com Cláudia ao telefone, a fim de contar as novidades: 

-Você deveria ter visto a cara dela, Cláudia! Ela nem sabia onde ia enfiar a cabeça...

Do outro lado da linha, Cláudia deu uma gargalhada:

-Sinto-me quase vingada, e fico feliz que as coisas tenham se ajeitado entre você e Luciano, Rayssa. Mas tome cuidado: vem chumbo grosso por aí. Joana não é mulher de recuar quando quer alguma coisa. Você precisa ser cautelosa, e tentar rcolher provas de que ela está tentando jogá-la para escanteio. 

-Mas como? Só se eu gravasse alguma coisa....

Ao dizer aquilo, houve silêncio do outro lado da linha, e ambas descobriram que aquilo poderia dar certo. De repente, Cláudia exclamou:

-Mas que ideia excelente! De agora em diante, sempre que estiver com ela, deixe o celular gravando!

-Sabe que é uma boa ideia? Pode mesmo dar certo.

-Mas cuidado, Rayssa. Ela não é fácil.

. . . . . .

Em sua casa, Joana tentava chegar a alguma conclusão sobre o que acontecera na noite anterior. Com certeza, a única conclusão plausível, é que Cláudia tinha devolvido a presilha a Rayssa. Será que as duas tinham tido uma briga, ou... tornaram-se aliadas? Se aquilo fosse verdade, ela precisava ter cautela. Queria o filho de volta. Precisaria de alguém que tomasse conta dela após a morte do marido. E para ela, a morte de Carlos não significava o momento em que ele deixaria de viver, mas seria quando ele não a reconheceria mais, e ela teria que passar o resto de seus dias junto a alguém que seria apenas um vegetal. A ideia da solidão apavorava Joana, mais do que tudo; mais até do que a própria morte. 

Lá fora, a chuva recomeçara a cair, após um dia quente e ensolarado. Era a primavera dando adeus. Logo seria verão. Joana sentou-se em sua cadeira de balanço, junto à janela, e ficou olhando a chuva cair, lembrando-se de um outro anoitecer como aquele, há muitos anos, antes de Luciano nascer.

Ela e Carlos estavam voltando de uma consulta médica, e ambos estavam muito felizes, pois tinham acabado de descobrir que Joana estava grávida de gêmeos. Eles pensavam se seriam meninas ou meninos, ou quem sabe, um menino e uma menina?

Passaram os dois meses seguintes decorando o quartinho dos bebês. Joana e Carlos estavam muito felizes. Naquela época, viviam com os pais de Carlos, em uma linda mansão. Iam às compras nos finais de semana, e compravam as roupinhas mais lindas que encontravam, não se importando com preços. Ela vivia um momento idílico em sua vida. Seu grande sonho de ser mãe tornar-se ia realidade, e em dose dupla!

Um trovão fez com que Joana fosse adiante naquelas memórias, até o dia em que despertou de madrugada sentindo fortes cólicas e viu o sangue no lençol. Estava grávida há quase quatro meses. Acordou Carlos, e ele a levou ao hospital imediatamente, mas não houve jeito: ela perdeu os bebês. 

Enquanto se lembrava daquele dia fatídico, Joana deixou escorrer uma lágrima. Depois, recordou os dois anos seguintes, durante os quais tentou engravidar novamente sem sucesso. Até que, finalmente, Luciano veio. Planejava ter mais filhos, construir uma família numerosa, de modo que ela nunca ficasse sozinha novamente. Apesar de desejar muito ter uma família grande, a gravidez e o parto de Luciano foram muito difíceis, e Joana teve que passar por uma histerectomia após o parto, no qual ela quase morrera.

Joana Vinha de um lar destruído: tinha sido filha única de um pai alcoólatra que espancava a esposa, até que um dia, ele batera forte demais, e Joana, ainda bem pequena, vira quando sua mãe fora colocada em uma ambulância e levada para longe de casa. Nunca mais tornou a vê-la. O pai desaparecera. Sem parentes que quisessem cuidar dela, Joana foi levada a uma instituição de caridade. Conhecra, bem cedo, o medo e a solidão de não ter ninguém no mundo que se importasse com ela.


Aos dezoito anos, teve que deixar a instituição, sendo encaminhada para trabalhar em uma casa de família, onde conhecera Carlos. Apaixonou-se por ele, mas para ela, o que mais importava, era a vida confortável e segura que ele poderia proporcionar-lhe. A família a tratava com gentileza, mas deixavam bem claro que ela era apenas uma empregada. Mas Carlos começou a olhar para ela de maneira diferente. Joana sabia que era uma jovem bonita.

Com seu primeiro salário, ela foi a um salão de beleza e fez um corte de cabelo; também comprou um vestido novo, e um pouco de maquiagem. Na folga de domingo, ela apareceu na sala de estar da família, enquanto todos estavam reunidos jogando cartas, e ao despedir-se, dizendo que ia ao cinema, ela viu os olhos de Carlos derramaram-se apaixonadamente sobre ela. Ela sorriu para ele. 

Dias depois, eles estavam namorando em segredo. Carlos estava ficando cada vez mais apaixonado por ela, e ao conhecer sua história difícil, passou a admirá-la ainda mais. Ela contou-lhe que queria estudar Direito e tornar-se uma profisisonal de sucesso, e que juntaria dinheiro para aquilo. Ele a incentivou, apesar de na verdade pensar que mulheres deveriam ficar em casa, cuidando de seus filhos, como sua mãe fazia, o que ela só viria a descobrir mais tarde, quando casaram-se.

 Joana não escondeu nada sobre sua história: contou-lhe sobre as surras que o pai bêbado dava em sua mãe, e do quanto ela sofria vendo a mãe machucada. Carlos comovia-se até as lágrimas, e a abraçava forte, enquanto ela mesma tentava contê-las. 

Um dia, o pai de Carlos surpreendeu os dois namorando na cozinha, já de madrugada, e ficou furioso: disse que Joana poderia fazer suas malas e deixar a casa na manhã seguinte. Joana ficou apavorada! Mais uma vez, estaria por sua própria conta, sozinha no mundo. Carlos tentou argumentar, mas quem daria ouvidos a um rapaz de apenas vinte e um anos? Ele ainda disse que, se ela fosse embora, ele iria junto com ela; mas os pais de Carlos foram categóricos, dizendo que lamentariam a escolha do filho, mas que não estavam criando um filho para casar-se com uma empregadinha sem eira nem beira. Se ele quisesse ir atrás de Joana, que fosse, mas estaria sozinho no mundo, sem dinheiro e sem proteção. Não pagariam, sequer, pela conclusão de seus estudos. 

Ao ouvir aquilo, Carlos conteve-se. Será que amava tanto assim aquela jovem, ao ponto de sacrificar sua vida pela dela?

Joana foi embora na manhã seguinte, voltando a viver na pequena e dilapidada casa que fora da mãe. Conseguiu um emprego de datilógrafa, que mal dava para pagar suas despesas, mas pelo menos, ela tinha um canto onde morar e não passaria fome. Chorou amargamente, noites a fio, pensando não apenas em Carlos, mas principalmente no conforto e no luxo da casa onde tinha morado. Comparava as paredes escurecidas e o teto com goteiras com a beleza e a limpeza da enorme mansão da família de Carlos, onde passara algum tempo. Mesmo as acomodações dos empregados, eram bem melhores que as da sua casa. 

Alguns meses depois, surpreendeu-se com batidas à porta. Ela jamais recebia visitas, pois não tinha família ou amigos. Quando abriu, deparou com Carlos. Ele descobrira, afinal, que não conseguiria viver sem ela. Mas também não achava sábio viver sem o dinheiro dos pais, já que ainda estava estudando. Assim, decidiram que a melhor solução, seria que namorassem escondido por algum tempo. Ele terminaria seu curso, e depois, assim que estivesse empregado, caser-se-ia com ela, mesmo contra a vontade dos pais. Enquanto isso, com sua renda pessoal (Carlos recebia uma gorda mesada dos pais, e a renda de alguns imóveis alugados) ele pagaria para ela o curso de Direito que ela sempre sonhara.

Assim, relacionado-se às escondidas, os dois foram levando a vida, até que Carlos formou-se, mas ainda não estava estabilizado no novo trabalho. Preferiu trabalhar em um negócio próprio, no que foi incentivado pelos pais; seu irmão mais velho tomaria conta dos negócios da família. Abriu sua própria firma de advocacia, e os primeiros clientes começaram a chegar. Enquanto isso, Joana aplicou-se com louvor em seu curso de Direito, formando-se dois anos após Carlos. 

Carlos recebeu a ajuda de uma grande amiga de infância, que concordou em fingir que eles eram namorados, para que seu pai não desconfiasse de seu relacionamento com Jona. Carmen, a amiga, acabou tornando-se também grande amiga de Joana. As duas tornaram-se como irmãs: Carmem ajudava Joana nos estudos, e também dava-lhes dicas e aulas sobre etiqueta, como vestir-se, pentear-se, portar-se. Para ela, não fazia diferença que Joana fosse de origem humilde, o que fazia com que Joana gostasse dela ainda mais, e  a amizade entre as duas tornou-se cada vez mais forte. Carmen dizia:

-Você é uma jovem inteligente e muito bonita, Joana. Apenas não teve muitas oportunidades na vida. Mas agora,  que você está estudando e quase formada, e após as nossas alinhas de etiqueta, tenho certeza de que estará pronta para entrar na família de Carlos,e eles a aceitarão.

Quando Carlos tinha um número razoável de clientes, ele decidiu que era hora de contar a verdade aos pais.

Em uma tarde de domingo, pediu uma reunião de família, onde apresentaria sua futura esposa. Imediatamente, os pais ficaram muito felizes, pois tinham certeza de que Carmen seria a moça escolhida. Ao invés disso, Carlos fez entrar na sala uma mulher muito fina e  lindíssima, bem arrumada e muito discreta. De mãos dadas com ela, estava Carmen. Carmen apertava a mão fria e trêmula da amiga, dando-lhe segurança. O pai de Carlos quase  deixou cair sua taça de champanhe ao reconhecer Joana:

-Mas... Joana??? 

O irmão de Carlos, que já sabia de tudo e aprovava a ação do irmão, apenas sorriu. Joana, por sua vez, estendeu ao sogro sua mão de unhas polidas e bem feitas, e sorrindo, apresentou-se:


-Doutora Joana, às suas ordens. 

A mãe de Carlos aproximou-se dela, e segurando sua mão, que ficara estendida diante do rosto do marido, anunciou:

-Seja bem-vinda à nossa família, Joana. Agora, não vejo porque não considerá-la uma de nós. 

Mas o pai de Carlos nunca a ceitou completamente, não perdendo a oportunidade de humilhá-la sempre que possível, diante dos amigos ou da família. Carlos e Joana se casaram, e Joana passou a habitar a mansão, agora como esposa de Carlos, mas nem mesmo assim, ela conseguia sentir-se como eles. Trabalhou durante um ano na firma de advocacia do marido, até que ele a chamou para uma conversa. Disse-lhe que seu pai era um homem conservador, e que talvez, se ela parasse de trabalhar e os dois tivessem um bebê, ele passaria a aceitá-la. Joana conversou com Carmen, perguntando-lhe o que ela achava da ideia, e a amiga respondeu:

-Querida amiga, pense bem: você já conseguiiu o que desejava. O pai de Carlos é realmente conservador, antiquado; se você tiver um bebê, ele vai aceitá-la  melhor, pois dá muito valor à família.

-Eu adoraria ser mãe, mas gosto tanto do meu trabalho! Acho que poderia fazer as duas coisas. 

-Uma mãe que trabalha não é bem a ideia que seu sogro tem em mente, Joana. Além disso, você não pecisa trabalhar.

-Mas... não consigo pensar em ficar aqui nessa casa o tempo todo, vagando por esses cômodos, sentindo-me tão... deslocada!

Carmen aproximou-se, secando as lágrimas de Joana com um lencinho que tirou da bolsa:

-Pare de chorar. Você não tem que se sentir assim, faz parte da família, é esposa de Carlos! Todos a aceitam e a tratam bem, exceto seu sogro, mas isso vai mudar. Você pode mudar isso, amiga. Além disso, eu venho visitá-la todos os dias.

E Joana cocordou em largar seu adorado trabalho como advogada. Mas Carmen só cumpriu sua promessa durante as primeiras semanas, pois morreu em um acidente de carro, deixando Joana se sentindo muito só e entristecida. Até que ela soube da gravidez dos gêmeos, e sua vida voltou a termais cor.

Joana voltou ao presente, olhando em volta e percebendo que a sala tinha escurecido. Levantou-se para acender algumas luzes, e ouviu Carlos chamando-a do quarto de dormir. Quando chegou lá, encontrou-o sentado na cama, olhando em volta, confuso:

-Que casa é essa? Onde estão meus pais? 

E de repente, ele a olhou, exclamando:

-E quem é você?

Joana sabia que aquele momento chegaria, mas não sabia que seria tão rapidamente. Devagar, para não assustá-lo, ela sentou-se ao lado do marido, segurando sua mão:

-Sou Joana, sua esposa. Você está em casa.

Ele pareceu ter um lampejo de reconhecimento, e sorriu. Deitou-se e voltou a dormir.

Enquanto Joana o cobria, lembrou-se de todas as suas perdas: perdera a mãe ainda criança, devido a um pai que sempre estivera perdido; depois, perdeu a segurança de um lar onde se sentira bem. Quando a recuperou, perdera Carmen, sua melhor amiga, uma das  pessoas que mais amara, e anos depois, sua sogra, de quem muito gostava. Perdera seus bebês gêmeos, e agora, estava perdendo seu marido. 

Não perderia Luciano. Não aguentaria!

(continua...)






Um comentário:

  1. Ana, que história linda, cada vez mais intrigante e emocionante.
    Embora Joana tenha sofrido muitas perdas, ela não aprendeu a lidar com a vida, que é cheia de ganhos e perdas.
    Nada justifica seu comportamento egoísta e manipulador.
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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