quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - FINAL


 



Parte 11


O contrato da casinha alugada venceu, e eu não quis mais renová-lo. Achei que nada havia para mim naquela pequena cidade, onde não conheci ninguém, nem mesmo a mim mesma. Coloquei minhas poucas roupas na mala do meu carro velho e fui embora dali, sem destino, deixando o espelho para trás. Comecei a dirigir, apenas seguindo adiante. Dirigi durante um dia e uma noite inteiros, cruzando rodovias e mais rodovias, sem parar para descansar ou comer. Tinha uma garrafa de água comigo, e quando sentia vontade de ir ao banheiro, eu parava no acostamento e me aliviava atrás do carro. 

Ainda tinha bastante dinheiro, mas um dia ele acabaria. Quanto tempo mais ele duraria? Um bom tempo, se eu continuasse a economizar bastante, pensei. 

Foi quando eu resolvi morar no carro. Afinal, para que eu precisava de uma casa, de quatro paredes em volta de mim? Assim, eu dirigia durante os dias e dormia no acostamento ou em qualquer lugar de qualquer cidade durante a noite. Raramente tomava um banho ou trocava de roupa. Parecia uma mendiga e nem me importava. Sequer sabia o nome das cidades onde eu parava. 

Eu era alguma coisa solta no mundo, sem peso, sem consistência, que um dia acabaria desaparecendo sem deixar qualquer vestígio. Por isso, não precisava de um endereço. 

Um dia, parei para descansar junto a uma praia. Encostei no carro e fiquei observando as poucas pessoas por ali, que se divertiam na areia – era uma tarde de terça-feira. Eu olhava as crianças e as pessoas sorrindo e se divertindo, e pensava que logo elas iriam para suas casas, para suas famílias, jantares, escolas, empregos e vidas. Talvez assistissem às notícias na TV, ou lavassem suas roupas. As meninas pintariam as unhas e os meninos sonhariam com os lindos corpos femininos que tinham visto na praia. Eu não tinha nada: nem uma vida sequer, nenhum lugar para onde voltar, ninguém que se importasse comigo. 

  Vi quando uma mulher se aproximava. Ela usava uma saia rodada verde-folha, cheia de camadas de babados, e uma blusa florida que parecia conter todas as cores do planeta em sua estampa. Os cabelos longos e cheios estavam presos em um rabo de cavalo que chegava até a cintura. Ela usava argolas grandes nas orelhas e muitas pulseiras, anéis e colares baratos. Aparentava ter algo entre quarenta e cinquenta anos, mas ainda guardava uma beleza da sua juventude e tinha um certo ar altivo. 

Fiquei olhando para ela, que parou na minha frente com a mão na cintura. Carregava uma sacola vermelha de veludo. A cigana  me encarou e disse:

- Futuro?

Neguei com a cabeça, rindo levemente e desviando os olhos para a praia. Que futuro? Ela só poderia estar brincando.  Eu sequer tinha um presente. Ela insistiu, após me olhar longamente:

-Eu posso ler o seu futuro de graça. Você parece estar precisando.

Olhei para ela de soslaio, tentando demonstrar minha impaciência:

-Escuta, moça, eu não acredito nessas coisas.

-Em leitura de sorte?

-Não: em futuro.

Ela concordou com a cabeça, e após um tempo no qual ela passou me olhando, como se estivesse procurando por alguma coisa, disse:

-Tudo bem, mas me deixe dizer apenas uma coisa ou essa moça não vai me deixar em paz! Se eu não disser o que ela quer, vai ficar me seguindo, entende?

Olhei para ela, engolindo em seco:

-Que moça? Do que você está falando?

-Essa moça loira e bonita, dos olhos azuis, que usa uma pedra azul no anel.

Meu coração acelerou, e eu tentei falar, mas minha voz não saiu. A cigana continuou:

-Você a carrega durante muitos anos ao seu lado, dentro de você. É ela que você vê quando fecha os olhos... ela não consegue ter paz, e nem você. 

-Eu desencostei do carro, olhando para ela:

-Do que você está falando? Eu... eu...

-Essa moça que você arrasta é sua prisioneira, e você é prisioneira dela. Mas ela me mandou dizer uma coisa: não foi você. Ia acontecer de qualquer jeito. Ela pede desculpas, implicava muito com você quando eram crianças. Mas ela gostava de provocar, era só brincadeira. Era o jeito dela. E ela... ela... 

A mulher arregalou os olhos. 

Eu sabia que ela estava enxergando o que eu fizera. Ao pensar aquilo, ela segurou minha mão, prendendo-a entre as suas:

-Não, não foi você! Ela o faria de qualquer jeito. A moça loira ia se matar naquele dia. Você apenas a interrompeu e depois, sem querer, acabou ajudando-a naquilo que ela queria fazer. Ela se sentia muito solitária, era infeliz por causa dos pais sempre ausentes e porque era frustrada no amor. Ela carregava um vazio enorme que já vinha de outras vidas, e o vazio que você sente hoje, é dela. Era assim que ela se sentia. Ela quer que você a liberte e se liberte também. Ela pede a você que a deixe ir. 

Dizendo aquilo, a cigana soprou sobre o meu rosto e eu fechei os olhos, enquanto ela continuava a segurar a minha mão. 

Eu me vi em um longo túnel escuro, iluminado apenas por tochas esporádicas que se apagavam quando eu passava. Eu ia seguindo em frente, me embrenhando cada vez mais, e quando eu parava e olhava para trás, havia apenas escuridão, negra, densa e aveludada. Eu sabia exatamente o que eu encontraria no final daquele túnel, depois de todas aquelas curvas.

E eu a vi agachada no chão em uma clareira no fim daquele túnel, em um canto, os braços em volta dos joelhos. Usava a mesma camiseta roxa rendada daquele dia fatídico. As pernas nuas e brancas traziam marcas arroxeadas, e ela chorava baixinho. Mesmo com medo, eu me aproximei dela devagar. Eu via cada detalhe: o cabelo loiro empapado de sangue, a pedra do anel brilhando e cintilando à luz da tocha, os pés descalços, o pulso qujeb rado em um ângulo estranho. Chamei-a baixinho, talvez com medo que eu mesma despertasse:

-Betina...

Ela parou de chorar e ergueu a cabeça na minha direção. Reparei nas olheiras roxas e nas lágrimas escuras e escorridas pelo rímel. Era ela, a mesma Betina que eu conhecera há anos, mas sem a mesma vitalidade de antes. Ela parecia fraca e esgotada, e visivelmente, ela sofria uma dor que era tanto física quanto mental e anímica. Ela esticou um braço na minha direção, sorrindo, e eu a segurei pela mão. Estava muito gelada. Ela se levantou com a minha ajuda. Senti a respiração gelada dela no meu rosto. Eu comecei a chorar:

-Me perdoe, por favor, me perdoe!

Ela ergueu meu queixo com seus dedos magros e gelados. Olhei dentro dos olhos dela e pela primeira vez, deparei com meu próprio vazio, aquele que eu não conseguira enxergar no espelho. Ela murmurou, lendo meus pensamentos:

-Você sentia aquele vazio e não conseguia lidar com ele porque ele não era seu; era meu o tempo todo! Por isso você não conseguia livrar-se dele. Mas eu preciso que você me deixe ir.

-Mas... o que eu preciso fazer, Betina?

Ela soltou meu queixo, deixando os braços ao longo do corpo. Quase sorriu:

-É só me esquecer e continuar vivendo. Eu preciso que você faça isso.

-Mas... eu... eu a matei!

-Não, você não me matou. Acha mesmo que uma menina de treze anos teria forças para me derrubar? Eu era bem maior do que você. Eu me joguei. Sabia exatamente onde iria cair. 

-Mas... você tentava segurar-se!

-Porque eu me arrependi no último segundo. Mas era tarde. A quantidade de drogas que eu havia tomado teria me matado, de qualquer maneira. Só tive medo. E desde aquele dia, eu tenho estado presa aqui, dentro de você. Esta tem sido a minha punição. 

Conforme ela falava, todo o vazio e tristeza que eu carregava saiam para fora de mim no formato de uma longa cauda acinzentada, e eu me sentia cada vez mais leve e tranquila. Desde os meus treze anos, eu me esquecera completamente o que significava me sentir leve e tranquila, feliz e dona de mim. A terrível sombra que ficava sempre entre mim e as outras pessoas estava se desfazendo: a sombra da culpa e da vergonha, o peso de um segredo obscuro e equivocado. 

Ela começou a ficar cada vez mais transparente. Eu conseguia ver a parede do túnel através dela. Ela sentiu aquilo, e sorriu, pela primeira vez, parecendo aliviada:

-Está acontecendo!... Eu estou... eu... 

E então ela desapareceu. No mesmo instante, me senti sendo rapidamente sugada para fora daquele túnel e abri os olhos. A cigana me olhava, tranquila. Sem dizer nada, ela acenou com a cabeça e segui seu caminho sem olhar para trás.

E foi naquele dia que o mar ficou mais azul, e eu pude escutar o canto dos pássaros outra vez; naquele mesmo dia em que eu pude me libertar de uma culpa que não era minha, perdoando a mim mesma e à Betina, desvencilhando-me dos laços apodrecidos do passado. 



FIM













 





8 comentários:

  1. Um conto simplesmente belo. Obrigada :))
    -
    São os filhos, o nosso bem maior
    -
    Beijos, e um excelente dia

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  2. Hi Ana...I have just been catching up with your fantastic story! It had me on the edge of my seat, right to the very end!
    Oh thank you so, so much for sharing your amazing talent with us!😊😊

    I do hope you are all safe and well there.
    Take care, my friend...

    Hugs xxx

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  3. Gracias por su visita interesante entrada en su blog Saludos

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  4. Olá Ana,
    Li o conto de um fôlego só, sou fascinada pela cultura cigana, qdo criança quis fugir com um bando. Certa vez em São Paulo, uma cigana me falou que carrego uma cigana comigo, e ela acertou em varias coisas que me aconteceram, como foi a pergunta pq minha mãe não me criou.

    Lindo conto amei, uma aventureira, literária, você.

    Bom final semana.

    Abraço

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  5. Apesar de para mim, tudo seja ficção; fiquei presa à leitura e gostei.
    Agradecendo a sua visita ao Refúgio dos Poetas...
    Boa semana e dias agradáveis. Abraço amigo.
    ~~~~~

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  6. Lindo. Um maravilhosos mes de dezembro para você.

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  7. Fascinante conto!
    Um doce sorriso!🐦😇🐦
    Megy Maia🌈

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