segunda-feira, 18 de março de 2019

INOCÊNCIA - PARTE 1 - CAPÍTULO XII







O SEGREDO

Então nós tivemos “a conversa.” Passamos pelas abelhas e flores. Ela me explicou à grosso modo de onde vinham os bebês, e eu me lembrei da cena que eu presenciara na cozinha entre Marcelo e Cristina. Aliás, quando eu estava sozinha, aquela cena me vinha sempre à cabeça, me causando sensações estranhas. Eu comecei a perceber que quando eu me tocava exatamente no local onde eu vira Marcelo acariciando Cristina, aquilo me dava alívio. Aprendi a me masturbar, mas sem saber exatamente o porquê daquilo, mas depois que mamãe e eu tivemos “a conversa,” passei a compreender tudo bem melhor. Ela me explicou que estar com um homem era prazeroso, mas que eu deveria resguardar-me para aquele momento quando fosse madura o suficiente e tivesse um marido.

Meus momentos solitários na banheira ou em meu quarto passaram a contar com um segundo personagem, embora imaginário: um menino que eu gostava em sala de aula, na nova escola onde eu estudava em Rio da Prata. Eu imaginava que nós estávamos na cozinha da nossa casa em uma noite de tempestade, fazendo exatamente o que eu vira Cristina e Marcelo fazerem.

Notei que meus seios começavam a apontar sob a blusa de malha, e mamãe me levou à cidade para comprar sutiãs. Meu primeiro sutiã era de renda azul clara, de alças finas e delicadas. Eu mesma o escolhera. Além dele, mamãe ainda comprou-me mais alguns, e também uma anágua para usar debaixo dos vestidos mais transparentes; 

-Agora você está ficando mocinha, ela disse, - E precisa se cuidar.

O curioso, é que naquela mesma semana eu tive a minha primeira menstruação. Mamãe me explicou como usar o absorvente, prendendo-o na calcinha com alguns pontinhos de agulha, e trocando-o a cada quatro ou cinco horas. Eram três ou quatro dias muito incômodos.

Bem, eu estava usando um sutiã e um absorvente; tinha seios e alguns pelos pubianos, e já precisava depilar as axilas e as canelas. Tinha permissão de mamãe para usar esmalte cor-de-rosa transparente quando desejasse, e também um batom incolor. Corri para contar à Joana a novidade.

Nós estávamos sentadas no gramado da casa dela após a escola, perto da piscina. Ainda usávamos os nossos uniformes. Tia Aurora não estava em casa, pois ela e Marcelo tinham ido ao restaurante cuidar dos negócios. Contei a ela sobre o que estava me acontecendo. Ela arregalou os olhos, dizendo que aquilo já estava acontecendo a ela há algum tempo, mas que tinha vergonha de contar. Ficamos horas discutindo, trocando nossos “conhecimentos” sobre reprodução, sexo, garotos, menstruação e outras coisas afins. Ela me passou as informações que obtivera de sua mãe, e eu, as que obtivera da minha. Joana sempre tentava soar mais bem informada do que eu, e comecei a pensar que eu estava em desvantagem de alguma forma.

Novamente eu me lembrei sobre o dia em que vi Marcelo e Cristina na cozinha; já se passara quase um ano desde aquela cena, mas ela continuava viva em minha memória. De repente, encarei Joana. Ela logo percebeu que eu queria dizer alguma coisa, mas que estava em dúvida sobre se eu deveria ou não. E ela estava certa. Eu não sabia se poderia partilhar com ela o que vira, mas ao mesmo tempo, sentia a necessidade de mostrar-lhe que sabia mais do que ela, que vira coisas que ela jamais tinha visto. Ela me encorajou, dizendo que podia confiar nela, agora que éramos amigas íntimas.

E eu comecei dizendo que vira uma coisa na cozinha da minha casa, descrevendo a cena toda em detalhes. A cada detalhe, ela punha  a mão sobre a boca, como se estivesse escandalizada, mas os olhos dela brilhavam de curiosidade, e ela me incentivava a contar mais sempre que eu me calava. Finalmente, ela me perguntou quem eram os protagonistas da tal cena. Achei que ela estivesse duvidando de mim e de minha história, mas Joana me garantiu que não, e que se eu tinha contado a ela tudo aquilo, teria que confiar nela e contar a história toda, pois não seria justo deixá-la tão curiosa.

Hesitei; afinal, não queria colocar Cristina e Marcelo em maus lençóis. Mas a insistência de Joana fez com que, em um impulso zangado, eu dissesse: 

-Está bem, eu conto! Foram Cristina e seu irmão!

Ela se levantou do pedacinho de grama aonde estávamos sentadas com um salto:

-Meu Deus! Meu irmão e a … Cristina??? Mas ela é filha da empregada! E além de tudo, tem pele escura! Ele a beijou na boca, e... e... naquele lugar???

Fiquei zangada por ela se referir à Cristina daquela forma, mas me lembrei do dia em que minha própria irmã tinha feito um comentário semelhante. Implorei à Joana que não contasse aquela história a ninguém. Seria o nosso segredo. Ela concordou com a cabeça, mas baixou os olhos. Ficou calada e pensativa enquanto íamos para minha casa, onde almoçaríamos. Mal sabia eu que aquela pequena fofoca modificaria a vida de Cristina para sempre, e a de todos nós também. 

Ainda do lado de fora, peguei-a pelo braço, dizendo: 

-Lembre-se que você prometeu não contar nada a ninguém! Joana, eu confiei em você! Além do mais, já faz muito tempo que isso aconteceu.

Ela concordou com a cabeça, mas não disse nada.

Nós estávamos muito caladas durante o almoço, e mamãe percebeu. Mais tarde, veio me perguntar se estávamos brigadas uma com a outra, mas eu assegurei que não; disse que estava me sentindo indisposta por causa da menstruação, e ela acreditou.

Enquanto Cristina colocava as travessas de comida diante de nós, percebi os olhos de Joana presos nela, escrutinando cada movimento. E não era um olhar amigável. Joana parecia querer desintegrar Cristina com os olhos! Quando Cristina sentou-se à mesa conosco, como sempre fazia, Joana parecia que ia explodir de indignação, mesmo sendo aquele o mesmo procedimento de anos. Eu a cutuquei com um pé por debaixo da mesa, e ela me olhou, assustada, deixando de encarar Cristina, que sem saber de nada, às vezes interrompia o almoço para ir e voltar da cozinha com outra jarra de suco, mais salada ou arroz, tendo o habitual sorriso no belo rosto. Joana sempre gostara de Cristina antes daquilo. As duas andavam de mãos dadas, e se abraçavam. Cristina segurava as nossas mãos, e brincávamos de roda no quintal. Fiquei com medo de que aquelas cenas jamais se repetissem.

Eu só queria que meu mundo continuasse a ser perfeito. Já não tínhamos Tio Antônio conosco, o que me deixava triste e causava um arranhão no verniz, e apesar da descoberta de que ele enganara Tia Aurora por anos a fio, se ela podia negar o fato, eu não via motivos para que alguém interferisse, caso ele estivesse vivo. E acreditava que, caso a tal mulher não tivesse aparecido, Tia Aurora continuaria sendo a mulher doce que sempre fora. Não teria se transformado naquela mulher de negócios totalmente inadequada ao que se esperava de uma mulher nos anos setenta. Talvez tivesse aceito a oferta de ajuda de papai; talvez tivesse continuado a nos receber à porta de casa com um sorriso fabricado no rosto, avental sobre os vestidos caseiros rodados, mesas arrumadas para o chá da tarde como se fossem arranjadas para uma foto de capa de revista.

Eu não queria que as pessoas mudassem. Mas eu não sabia que elas não estavam mudando, apenas revelando o que realmente eram, e que eu estava ficando madura o suficiente para perceber aquilo. E quando descobri isso, a dor foi muito maior.

Joana era minha prima querida, que se transformara em minha melhor amiga, a amiga de infância com quem cresci e que sabia absolutamente tudo sobre mim. Jamais precisara enxergar seu lado preconceituoso e moralista. Jamais precisara escutar, de verdade, os comentários maldosos que ela fazia sobre algumas das meninas que como Cristina, eram bolsistas na escola, filhas de pessoas humildes: “Ela deveria estudar em uma escola para pessoas da classe dela, e não aqui. Acho que ela até se sentiria mais à vontade.” No começo, achei que tais comentários fossem apenas provocados pelo fato de ela estar zangada com Cristina, mas com o tempo, percebi que eles retratavam exatamente o que ela pensava – herança do que mais tarde descobri serem os pensamentos de Tia Aurora. A minha linda, elegante, admirável Tia Aurora. A mulher que, depois de viúva, superou todas as expectativas da sua época, e ao invés de choramingar, tomou a frente dos negócios e da família – mesmo que eu só a tenha admirado por isso após muitos anos. Ambas tinham a marca do preconceito sobre a pele e nas retinas com que olhavam para o mundo e para as pessoas. Apesar de serem pessoas admiráveis em outros aspectos, eram mesquinhas em um dos aspectos que eu considerava o mais importante.

Papai vivia dizendo que eu só olhava o lado negativo das pessoas, e ele tinha razão, e que por causa disso, caso eu não mudasse, poderia amargar uma vida de solidão. Novamente, ele estava certo. E eu nem percebia que o meu 'preconceito contra o preconceito' era nada mais, nada menos, do que uma outra forma de intolerância. Durante uma discussão, quando eu já era adulta, papai me acusou de ser uma “arrogante que achava que sabia mais do que todo mundo sobre todas as coisas”.  Chorei lágrimas amargas depois daquela afirmação, pois ela caiu sobre mim como uma pedra enorme, demolindo as convicções que eu tinha sobre mim mesma de uma pessoa justa, limpa, aberta e confiável. Enquanto eu tentava me recuperar do impacto da primeira frase, meu pai soltou uma outra: 

-Você é tão ou mais obtusa do que as pessoas que tanto critica! -  ele vociferou. Ficamos alguns dias sem nos falarmos depois daquilo.



(CONTINUA...)









terça-feira, 12 de março de 2019

INOCÊNCIA - PARTE 1, CAPÍTULO XI







VIDA QUE SEGUE


A transformação de Tia Aurora após o velório foi chocante: a dona de casa perfeita deu lugar a uma mulher de negócios dedicada e feroz. Nunca mais a vimos abrir a porta para nós usando um de seus aventais estampados, e ela mudou o corte de cabelo, cortando-o curto e tingindo-o de loiro escuro. As roupas também mudaram, dando lugar a uma nova Aurora: os vestidos esvoaçantes, as saias plissadas e românticas e as blusas com estampas florais delicadas de mangas três-quartos deram lugar a terninhos arrojados, calças de alfaiataria, blusas de seda lisas, saltos médios e confortáveis e cores neutras.

Papai saiu do hospital, contrariando as mulheres cuja conversa escutei no banheiro do velório. Ele  chegou em casa numa tarde de quinta-feira, magro e abatido. Seus cabelos tinham caído totalmente, e ele ainda ficou em casa, de repouso, durante alguns meses, mas os médicos diziam que ele estava curado e que só precisava se fortalecer. Assim, nós nos mudamos de vez para a casa de campo e vendemos o apartamento da cidade, e papai contratou um sócio para ajudá-lo a cuidar dos negócios. Ele dizia que seria bom ficarmos perto de Tia Aurora, pois ela, sendo apenas uma mulher, não poderia gerir os negócios do marido sozinha, mas ela já tinha o controle de tudo, e estava preparando Marcelo para assumir os negócios em alguns anos. Ele, que queria estudar odontologia, viu-se forçado a desistir e optar pelo curso de administração de empresas, a contragosto, pois Tia Aurora deixou claro que não admitiria lidar com caprichos e teimosias; o que tinha que ser feito seria feito, segundo ela mesma.

O sócio de meu pai chamava-se Duílio. Era um belo homem aparentando estar se encaminhando para a casa dos quarenta. Era alto, moreno e tinha olhos negros inescrutáveis, segundo escutei mamãe dizer a papai após um jantar de apresentação. Tio Duílio, como acostumei-me a chamá-lo já na primeira vez em que nos conhecemos, era viúvo e não tinha filhos. Morava com os pais idosos desde que a esposa falecera, pois assim, dizia ele, poderia olhá-los mais de perto. Enquanto papai estava em recuperação, ele nos visitava nos finais de semana para deixá-lo a par do que acontecia no escritório, e naquelas ocasiões, passava as noites de sexta-feira lá em casa, e às vezes, ficava para o almoço de sábado. Após o almoço, papai ia descansar e mamãe ficava fazendo sala para ele. Às vezes eu passava pelo corredor e escutava os dois conversando na varanda ou na sala de estar. Sentia o cheiro do cachimbo que, como papai, ele fumava: perfumado e másculo. Eu me sentia segura com ele ali, tomando conta dos negócios de papai e fazendo com que mamãe se distraísse um pouco. Às vezes, eles iam dar uma volta à pé pelas redondezas.

Eu simplesmente o adorava, assim como as demais mulheres da família, que diziam que ele era “um pão” - gíria usada naquela época para definir os homens bonitos. Porém, depois que papai se recuperou totalmente, as visitas de Tio Duílio rarearam bastante, limitando-se às vezes em que papai o convidava para o fim de semana, o que era raro. Nós nos reuníamos em volta dele, que trazia presentes para mim, Berta, Cristina, Marcelo. Um dia, ele trouxe flores para minha mãe, e uma caixa de chocolates para Flora. O cheiro do fumo que ele usava invadia os cômodos da casa, e Eugênio dizia que o cheiro o deixava enjoado. Eugênio e Flora o tratavam muito bem, mas eu os conhecia e sabia que os dois não gostavam de Duílio. Eu não conseguia entender como alguém poderia não gostar dele!

Mamãe andava abatida; Flora dizia que era por ter passado tantas noites em claro cuidando de papai, sem admitir que alguém a ajudasse, pois fazia questão, ela mesma, de cuidar dele. Assim, passou a fazer gemadas e tônicos caseiros, obrigando mamãe a tomá-los, o que ela fazia entre caretas. Porém, nada parecia deixar mamãe contente. Ela andava pelos cantos da casa, taciturna e calada, e perdia a paciência conosco à toa, o que fazia com que andássemos como se estivéssemos pisando em ovos. E Flora, após as crises de mamãe, levava-a para o quarto, despindo-a e fazendo com que se deitasse para descansar. Eu comecei a ficar muito preocupada com ela, mas Berta me disse que era coisa de mulher: mamãe estava passando pela menopausa.

Fiquei mais confusa ainda. Será que eu também passaria pela menopausa? Perguntei à mamãe , um dia em que ela estava mais calma, o que aquela palavra significava. Estávamos no quarto de meus pais, e ela estava deitada na cama descansando. Eu tinha passado por lá para desejar-lhe boa noite. Eu tinha então doze anos de idade. Papai ainda estava no escritório, o que facilitou para que eu perguntasse a ela o que era menopausa, já que eu intuía que era algo que não se discutia na frente dos homens. Ela me encarou durante algum tempo, e respirando profundamente, fez sinal para que eu me sentasse na cama ao lado dela. 

(CONTINUA...)





segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Capítulo XI, Parte I









CONVENÇÕES

- Às vezes, minha pequena amiga, é preciso ir contra as convenções.

 Cristina me disse aquilo na tarde do dia seguinte, enquanto nós duas caminhávamos de mãos dadas pela estradinha que levava até o riacho. Tudo já tinha sido limpo, e os caminhos estavam desobstruídos outra vez. Meus primos voltaram para sua casa, Berta estava trancada em seu quarto e ela me chamou para dar uma volta à pé antes do jantar. Eu olhei para ela, tentando desvendar em seu olhar meigo e incerto, o mistério daquelas palavras, profundas demais para mim. Perguntei a ela o que significava a palavra 'convenções.' Cristina sorriu: 

- São coisas que as outras pessoas dizem que a gente tem que fazer. É como os outros querem que a gente viva, entende? Eu não quero saber de convenções, Yara. Vou ter o meu próprio salão de beleza um dia, e não vou depender de ninguém, nem mesmo dos meus pais. Ou do meu marido.

 -E você vai se casar com o Marcelo?

 Ela deu um longo suspiro, e parou para colher um dente de leão, soprando-o devagar, vendo as sementes que alçavam voo a um destino tão desconhecido quanto a resposta àquela pergunta.

-Não sei... mas eu gostaria.

 E eu perguntei a ela por que alguém poderia ser contra. Ela me puxou para um tronco caído, onde nos sentamos e ficamos olhando o rio, que estava caudaloso por causa da última chuva. Cristina disse: 

-Bem, segundo as convenções – estas que eu nunca vou seguir – eu e seu primo jamais poderemos nos casar. Ele é rico, eu sou pobre; ele é branco, e eu sou mulata, filha de uma negra; ele tem estudo, vai se formar na faculdade... e eu nem posso sonhar com isso.

 Parei para pensar longamente no que ela tinha me dito. Foi a primeira vez que eu estive diante daquelas ideias, e analisei-as com cuidado. Então havia uma diferença entre a família de Cristina e a nossa, e eu acabara de descobrir, definitivamente, qual era. Lembrei-me do dia em que Berta a apresentara a Sebastian como sendo “Cria da casa.” E do quanto ela aparentara estar triste e cabisbaixa depois daquilo, e também da bronca que os pais deram nela naquela mesma noite, e que eu ouvira por acaso.

Senti-me solidária com a minha amiga, e deitei a cabeça no ombro dela. Ficamos assim durante algum tempo, e depois ela se levantou e me puxou, me desafiando para uma corrida de volta à casa.

Quando chegamos, estavam todos reunidos na sala de estar. Logo vi que as coisas não iam bem, através do olhar preocupado de todos. Flora enxugou uma lágrima furtiva no avental quando me viu, e Eugênio cutucou-a com força, falando alguma coisa em seu ouvido. Berta estava sentada no sofá, o rosto entre as mãos, a expressão preocupada. Logo pensei que alguma coisa poderia ter acontecido a papai. Flora e Berta se entreolharam, como a se perguntarem quem nos daria a notícia. Berta adiantou-se:

-Gente... acabamos de receber um telefonema de Tia Aurora...

Senti um aperto por dentro ao perceber que poderia se tratar de papai. Ela continuou:

-Tio Antônio e ela sofreram um acidente de carro. Infelizmente, ele faleceu.

Eu logo pensei em Joana, e Cristina deixou escapar, sem querer, o nome de Marcelo entre os lábios aflitos, o que não passou despercebido pelos olhos e ouvidos de águia de Flora. Em tom de ironia, Flora disse a ela que “Seu” Marcelo – enfatizando bem o “seu” - estava bem, e que o acidente tinha sido com Tia Aurora e Tio Antônio.

Cristina não respondeu. Eu comecei a chorar, e pedi a Flora se eu poderia ver Joana. Ela me respondeu que Joana estava em casa de uma amiga da escola  e que  Marcelo estava na capela, a espera da chegada do corpo – o acidente tinha sido em São Paulo, onde o meus tios  estavam – e que mamãe logo estaria em casa para nos buscar. Cristina mais uma vez deixou escapar uma indiscrição: 

-Meu Deus! O Marcelo está lá, sozinho? Alguém precisa ficar com ele, dar-lhe apoio!

 Eugênio vociferou: 

-Alguém da família fará isso, ouviu, minha filha? Não precisa se preocupar.

Cristina correu da sala, em direção à cozinha. Flora mandou que eu e Berta tomássemos banho e nos aprontássemos. Como não tínhamos nenhuma roupa escura, mamãe traria algo para vestirmos. Dizendo aquilo, ela foi para a cozinha.

Enquanto eu subia as escadas, ouvi os protestos de Cristina quando ela descobriu que não tinha permissão para ir conosco.

Três horas mais tarde, nós já tínhamos almoçado quando mamãe chegou. Não vi mais Cristina. Perguntei por papai, e ela disse que ele não poderia ir, pois estava fazendo um tratamento sério. Não podia deixar o hospital. Mamãe estava muito abatida, e tinha perdido alguns quilos. Mesmo assim, achei-a bonita. Eu estava com tantas saudades dela, que a abracei durante muito tempo quando a vi.

Foi meu primeiro velório. Tia Aurora, com o braço enfaixado e alguns arranhões superficiais no rosto, muito bem disfarçados por maquiagem, estava sentada em uma cadeira ao lado do caixão. Ela segurava um lenço de renda branca, e estava toda vestida de preto: vestido, chapéu, óculos escuros e um par de sapatos de saltos altos. Parecia pronta para um desfile de modas fúnebre. Mamãe nos empurrou na direção dela, e nós a abraçamos rapidamente, repetindo a frase que mamãe nos ensinara exaustivamente durante a viagem, no carro: 

-Meus sentimentos, Tia Aurora. Agora ele descansa em paz.

 Eu e Berta dissemos exatamente a mesma frase, e aquilo me pareceu estranho. Tia Aurora nos cumprimentou com um aceno de cabeça, dizendo um “obrigada” choroso. Meu rosto ficou molhado depois que tocou o dela, e aquilo me incomodou, então enxuguei-o com as costas da mão disfarçadamente.

Ao lado dela, de pé, estavam Joana e Marcelo.

Nós os abraçamos também, e eles choravam muito. Depois fomos nos sentar. Fiquei observando as pessoas que entravam e saiam da sala, e tentando escutar o que diziam no meio do burburinho. Acabei com vontade de ir ao banheiro, e fui até lá, fechando a porta de um dos compartimentos. Enquanto eu esvaziava a minha bexiga, escutei ruídos de saltos e duas mulheres entraram conversando. Uma delas disse: 

-Que infelicidade, um homem tão jovem e tão bom, com dois filhos  para cuidar!

A outra concordou, respondendo: 

-Pois é... e todos esperavam que fosse o outro a  morrer... o cunhado! Dizem que ele tem a doença ruim e que vai a qualquer momento.

Aquela conversa me atingiu em cheio. Fui tomada de um choro convulsivo, que consegui controlar até as duas saírem, e depois que explodi em lágrimas, lavei o rosto com água gelada da pia e voltei para a sala de velório. Durante o resto do tempo, eu acho que chorei mais do que qualquer um dentro daquela sala. Mas todos pensavam que era por causa de Tio Antônio.

Aquele foi um velório estranho. Minha tia Aurora estava “dopada”, diziam vozes em sussurros. Perguntei à Berta o que aquilo significava, e ela me explicou que alguém tinha feito com que ela engolisse um calmante. Ela olhava para o rosto de Tio Antônio – ou o pedacinho do rosto que estava exposto, pois todo o corpo tinha sido cuidadosamente coberto por flores – e balançava a cabeça para os lados, como quem diz “não”, e murmurava palavras inaudíveis que mamãe me dissera serem orações pela alma dele. Alma? Eu nunca tinha parado para pensar na morte antes, já que era o meu primeiro velório, pois não cheguei a conhecer meus avós, que morreram quando eu ainda era bebê ou antes disso.

Se Tio Antônio tinha uma alma – que, segundo me explicou Berta, era um vento que morava dentro da gente e que fazia com que o corpo se movesse, e que continuava existindo depois que a gente morria, no inferno ou no paraíso, então eu também tinha uma. E todo mundo tinha uma. E os animais? Será que também tinham?

Eu estava mais calma, sem pensar em papai e na possibilidade de sua alma deixar o corpo em breve, tão entretida que estava com esses pensamentos, quando de repente uma mulher toda de preto, usando um chapéu de onde saía um véu preto que cobria seu rosto, adentrou a sala. Ela pareceu estudar as pessoas cuidadosamente, hesitando antes de entrar. Olhou para Tia Aurora, que a olhou de volta, retirando os óculos escuros devagar, e então caminhou até ela cuidadosamente, estendendo-lhe a mão em sinal de pêsames. Tia Aurora a cumprimentou automaticamente. Ela cumprimentou meus primos com um aceno de cabeça, e eles corresponderam. Perguntei à mamãe quem ela era, mas apesar das sobrancelhas franzidas e dos lábios cerrados em sinal de protesto, mamãe me respondeu, sem tirar os olhos dela, que não sabia. Mas eu entendi, na hora, que a maioria daquelas pessoas sabiam quem ela era, e que ela não era bem-vinda ali.

Berta murmurou: 

-Mas quem ela pensa que é? Que cara-de-pau, aparecer aqui assim!

 Mamãe calou-a com um “shsh...” apressado. Fiquei ainda mais curiosa, e tentei andar pelo salão a fim de ouvir as conversas. Fragmentos que me chegaram: 

-Veja como Aurora é digna e consegue manter a compostura! Ah, se fosse comigo!

 Ou: 

-Mas que pouca vergonha! Eu a teria colocado para fora!

 -Quem ela pensa que é? Dizem que era amante dele há anos.

Eu logo compreendi por que Tio Antônio viajava tanto. E fiquei com muita pena de Tia Aurora. A mulher fez uma oração, e enxugou um rio de lágrimas que escorria pelo seu rosto. Tia Aurora tinha recolocado os óculos, e como eles eram grandes, ficava muito difícil tentar adivinhar quais seriam as suas emoções. Meus primos continuaram como se nada tivesse acontecido, e concluí que eles não tinham ideia de quem era aquela mulher. Quando olhei para minha tia novamente, notei que suas mãos tremiam ao levar o lenço ao rosto e secar as lágrimas sob os óculos. Mamãe, sem nada dizer, caminhou até a mulher, pegando-a pelo cotovelo e murmurando algo em seu ouvido. Vi que ela estava muito zangada. Conduziu-a para fora, e as duas desapareceram pelo corredor. Alguns minutos depois, mamãe voltou. Minha tia olhou para ela, e disse um pouco alto demais: 

-Obrigada, Mirtes.

 Mamãe caminhou até ela, e segurando sua mão, fez com que ela se sentasse um pouco no sofá, servindo-lhe uma xícara de café.

Nunca mais eu vi a mulher misteriosa, mas depois fiquei sabendo que ela e Tio Antônio tinham sido amantes durante mais de dez anos, e que ele comprara para ela uma casa mobiliada, um carro e algumas joias valiosas. Achei que minha tia, agora que o marido morrera, tentaria reaver os bens, mas ela viveu a vida inteira ignorando a existência da tal mulher e também o fato de que Tio Antônio jamais pusera a tal casa em nome da amante. A mulher, pelo que sei, vive lá até hoje, apesar de ter se casado apenas alguns meses após a morte de meu tio.

(continua...)





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - PARTE I, Capítulo X








A TEMPESTADE

Quando chegamos em Rio da Prata, Flora e Eugênio nos fizeram ficar na sala de estar, enquanto Cristina abria as janelas. A casa estava silenciosa sem papai e mamãe, e nosso estado de espírito não era dos melhores também. Vi quando Flora abriu a geladeira e disse que precisava fazer compras, e Eugênio respondeu que não tinha feito compras porque tinha sido decidido antes que ficaríamos na cidade. Flora começou a fazer uma lista. Eu fiquei no sofá, observando o movimento. Vi quando Cristina e Berta se afastaram juntas, subindo as escadas em direção ao quarto de Berta, mas compreendi que não estava convidada a participar daquela conversa.

Flora e Eugênio anunciaram que iriam às compras e estariam de volta antes do anoitecer. Mal eles saíram, nossos primos chegaram, e eu nunca sentira um alívio tão grande com a presença deles! Abracei Joana, que me abraçou demoradamente de volta, e também Marcelo.

Ao ouvir as vozes deles, Berta e Cristina desceram as escadas correndo. Berta, que estava aborrecida por ter deixado Sebastian na cidade, conseguiu superar seu mau-humor ao ver os primos. Os dois faziam de tudo para nos animar. Trouxeram discos de vinil novos para que pudéssemos escutar música, e também uma cesta com vários biscoitos, sanduíches, frutas e sucos que Tia Aurora mandara preparar para nós antes de viajar(é claro que ela não queria um bando de crianças sujando a cozinha dela, mas pelo menos, ela se preocupava). Ficamos sabendo que mamãe pedira a ela que eles dessem uma ajuda com a gente. Joana ganhara de presente uma máquina fotográfica Polaroid, e nós fomos lá para fora e tiramos várias fotografias que hoje devem estar guardadas em uma das gavetas desta casa. Tivemos que voltar para casa porque o céu começou a ficar muito escuro, e uma ventania inesperada prometia uma tempestade que poderia desabar a qualquer momento.

Flora e Eugênio estavam fora de casa, fazendo compras, e éramos um bando de crianças e adolescentes sem supervisão. Meus tios estavam fora também, pois Tio Antônio precisou viajar a negócios de repente e levou Tia Aurora junto. Joana e Marcelo estavam aos cuidados dos empregados da casa.

Quando a chuva finalmente caiu, rompendo a barreira cinzenta e pesada de nuvens, tínhamos a impressão de que a terra seria varrida do mapa. As luzes se apagaram, e ficamos sem eletricidade durante mais de seis horas. Felizmente, a casa tinha um gerador , pois tempestades como aquela eram comuns àquela época do ano, do final de novembro até meados de fevereiro, e papai achou melhor comprarmos um. Assim, pudemos ficar escutando os discos de vinil que Marcelo e Joana tinham levado com eles. Eu me lembro que a maioria deles eram dos Beatles e também de Petula Clark, favorita de minha irmã. Quando enjoamos de escutar música, começava a anoitecer, e nada de Eugênio e Florença voltarem. Comemos nossos sanduíches, tomamos o suco e guardamos as frutas para mais tarde.

O telefone tocou, para nossa surpresa, pois com uma chuva daquelas era certo que ficaríamos sem linha. Era Flora, avisando que as estradas estavam intransitáveis, e que eles teriam que passar a noite na cidade, mas que logo pela manhã, assim que o trator limpasse a lama do caminho, estariam de volta. Berta ficou feliz com a notícia; afinal, não era sempre que tínhamos a chance, naqueles tempos, de ficar longe da supervisão dos adultos. Flora disse a ela que tinha um pacote de macarrão no armário da cozinha, e um pouco de molho de tomate também, e que poderíamos ralar o queijo parmesão na geladeira, providenciando um jantar improvisado.

Berta desligou o telefone dando 'urras' de alegria, nos deixando curiosos durante algum tempo antes de dar a notícia que fez com que todos nós ficássemos dando pulinhos pela sala de estar. Depois, Cristina foi até a cozinha preparar o macarrão, já que Berta não sabia sequer acender o fogo do fogão, e então ela pendurou-se ao telefone com Sebastian. Eu tinha certeza que aquela ligação duraria muito tempo e ficaria caríssima, e que mamãe e papai ralhariam com ela por isso. Eu e Joana fomos jogar varetas no meu quarto, e Marcelo ficou na sala, tirando um cochilo no sofá e escutando música.

Não sei como, mas o barulho da chuva lá fora, as luzes da casa um pouco mais fracas e o cansaço da viagem e das estripulias do dia, fizeram com que eu e Joana caíssemos no sono também. Quando acordei, havia uma vela acesa na mesinha de cabeceira. Já quase havia parado de chover, e o quarto estava na penumbra. Olhei o despertador sobre a mesinha: dez e quarenta da noite. A casa estava silenciosa. Achei que todos tinham ido dormir. Meu estômago roncou forte, porém, e apesar de tentar fingir que não o tinha escutado, meu apetite falou mais forte e me fez descer até a cozinha. Na escuridão, não encontrei meus sapatos, e fui descendo a escada devagar, descalça e em silêncio para não acordar os outros.

Ao chegar lá em baixo eu vi que havia uma luz fraca vindo da fresta da porta da cozinha, e escutei algumas vozes abafadas. Não sei bem porque, achei que minha presença seria melhor se não notada, e então comecei a respirar devagar para tentar escutar o que estavam dizendo; identifiquei as vozes de Cristina e Marcelo, mas não conseguia escutar o que diziam. Cheguei mais perto, e do corredor escuro, espiei para dentro da cozinha.

Eu não estava preparada para o que vi, e mesmo estando assustada, a curiosidade me fez ficar ali, olhando tudo, calada e quieta para não despertar a atenção dos dois.

Cristina estava de frente para a porta, sentada sobre a pia da cozinha, e por trás dela havia pratos sujos do jantar. Marcelo estava acomodado entre as pernas dela, as calças arriadas, e ele fazia movimentos para frente e para trás que eu não compreendia. Ambos gemiam baixinho, dizendo coisas que eu também não entendia, e Cristina enterrava a mão nos cabelos dele, puxando-o para si com força, enquanto ela mesma também se movimentava em direção a ele, jogando a cabeça para trás. Em determinado momento, ele abaixou-se em frente a ela, colocando a cabeça entre suas pernas. Ela quase gritou, abrindo os olhos de repente, e foi quando ela percebeu que eu estava ali. Eu não consegui me mover. Ela pareceu assustada, e cobriu a cabeça de Marcelo com a saia rodada, mas permaneceu aonde estava, sentada na pia, enquanto eu observava os olhos dela se fechando devagar e seus quadris começando a se mexer muito rapidamente.

Eu não sabia que um homem e uma mulher podiam fazer coisas como aquelas. Eu estava fascinada, e ao mesmo tempo, sabia que o que eles estavam fazendo era considerado errado pelos adultos, e que eu não deveria jamais dizer a ninguém o que estava vendo ali. Quando ele finalmente terminou o que estava fazendo, os dois se abraçaram. Ela abriu os olhos de novo, e eu fugi dali, indo para a minha cama e me esquecendo totalmente do meu estômago vazio.


(continua...)




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - PARTE 1, Capítulo IX








AQUELA DOENÇA

Naquele ano de 1976  eu tinha onze anos, e ficou decidido que nós não poderíamos ir para a casa de campo nas férias. Ao invés disso, mamãe chamou Flora e Eugênio para virem ficar conosco no apartamento do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro, onde morávamos a maior parte do ano. Pela primeira vez, nós os receberíamos em nosso apartamento. Cristina viria também. Ainda não sabia como Berta reagiria à presença dela, porque após aquela noite na casa de campo, as coisas entre as duas haviam mudado. Berta não mais a convidou para sair com seus amigos, e Cristina parou de cumprimentá-la ou falar com ela.

Mamãe viajaria com papai para São Paulo, a fim de acompanhá-lo em um tratamento de saúde. Eu escutara dizer que ele estava com “aquela doença,” mas não fazia ideia sobre qual doença eles se referiam, e mamãe e papai se recusavam a tocar no assunto; aliás, a palavra para “aquela doença” era impronunciável naqueles tempos, como se dizê-la significasse desencadear uma maldição sobre quem a utilizava. Eu tinha a impressão de que Berta e Cristina sabiam exatamente do que se tratava – aliás, todos sabiam, menos eu – mas ninguém me dizia nada.

Flora e Eugênio chegaram com Cristina na mesma manhã na qual meus pais viajariam, e as duas famílias se encontraram, tomando o café da manhã juntos. Notei que meu pai estava pálido e magro, mas que tentava aparentar que tudo estava normal, rindo e brincando conosco como sempre. Aquela palidez já vinha de alguns dias, mas quando Berta ou eu perguntávamos alguma coisa, meus pais diziam que ele estava com um forte resfriado, mas nós sabíamos melhor: havia conversas murmuradas pelos cantos, e frascos de remédios na mesinha de cabeceira e no armário da suíte. Havia vozes reprimidas durante a noite, luzes acesas fora de hora e conversas com 'doutores' ao telefone, após as quais os dois desapareciam da casa por horas seguidas. Havia “viagens” que papai fazia de repente, e sumiços sem explicação de mamãe que podiam durar um dia inteiro, e para os quais ela não dava qualquer explicação; havia olhos vermelhos à mesa no café da manhã, olheiras e bocejos no meio da tarde. E agora, a chegada de Flora, Eugênio e Cristina ao nosso apartamento, lugar onde eles nunca tinham pisado antes. E a escola ainda nem tinha acabado.

Mamãe despediu-se de nós com abraços e afagos, e papai também. Ele tinha lágrimas nos olhos, mas sorria, desculpando-se de que as lágrimas eram resultado do resfriado. Antes de sair, à porta, mamãe disse para Flora que ficassem no quarto de hóspedes, e que armassem a cama de montar para Cristina em nosso quarto. Olhei para Cristina, e ela e Berta se entreolharam, sérias, mas nada disseram.

Naquela noite, Cristina e Berta fizeram as pazes. Não sei se era uma trégua, mas as duas voltaram a se falar. Conversaram até tarde, e a conversa terminou quando Berta anunciou que ela e Sebastian estavam namorando sério e pensando em noivar. Eu passei a noite toda sem conseguir dormir, pois sem meus pais, a casa parecia um lugar estranho. Era a primeira vez que eu estava sentindo um medo enorme que eu não sabia de onde vinha, mas que eu sabia que era devido a alguma coisa muito perigosa que estava acontecendo, como se houvesse um monstro à espreita. Senti que meu mundo e minha família poderiam ruir a qualquer momento, e não sabia como lidar com aquilo.

No dia seguinte na escola, uma colega veio me perguntar se meu pai estava mesmo “Com aquela doença.” Li comiseração nos olhos dela, e também um pouco de curiosidade hipócrita, e não sabendo o que responder, eu a empurrei, dizendo que meu pai estava muito bem, e que tinha viajado em uma segunda lua-de-mel com mamãe. Também disse um palavrão, mandando que ela parasse de bisbilhotar a vida alheia. A garota começou a chorar e chamou a professora, que veio conversar comigo. Tive que entregar a Flora um bilhete da diretora quando voltei da escola.

Mamãe telefonou no final da tarde, conversando com todas nos por alguns minutos – até mesmo com Cristina, que desejou-lhes sorte. Na minha vez, perguntei a ela o que era “aquela doença” que todos diziam que papai tinha, e ela me fez passar o telefone para Flora sem responder a minha pergunta.

As duas conversaram durante algum tempo, e Flora contou a ela sobre o bilhete da professora. Houve um longo momento de silêncio, no qual Flora apenas concordou com a cabeça. Depois, ela desligou o telefone. Nós ficamos olhando para ela aguardando alguma explicação, mas Flora limitou-se a dizer que ia preparar o jantar, retirando-se para a cozinha.

Na tarde seguinte, quando eu estava pronta para ir à escola, ela disse que ia me levar ela mesma, ao invés de me deixar ir no transporte fornecido pela escola.

Flora me fez entrar na sala de aula, enquanto ela ficou no corredor aguardando ser chamada pela diretora da escola. Não sei o que as duas conversaram, mas eu sabia que era a meu respeito. Fiquei achando que poderia ser expulsa por ter dito palavrões no dia anterior. Mal consegui prestar atenção à aula, e notei que as outras meninas me olhavam de soslaio e faziam comentários sussurrados sobre mim. Aquilo estava me deixando muito desconfortável. Eu queria saber o que estava acontecendo.

Na hora do recreio, minha professora me fez pedir desculpas à menina que eu havia empurrado, e eu me desculpei. Ela me olhou, ainda magoada, mas me perdoou.

Quando saí da sala de aula, Flora ainda estava ali, me esperando. Fomos para casa de ônibus naquele fim de tarde. Durante a viagem, ela anunciou: 

-Você vai fazer as provas finais e será dispensada das aulas. Vai entrar de férias mais cedo. E então, iremos todos para Rio da Prata!

 Perguntei por Berta, mas ela me explicou que Berta também iria adiantar as provas finais, e que já estava tudo resolvido, a pedido de minha mãe. Hoje eu entendo que aquela era uma maneira que meus pais encontraram de nos proteger da dor de saber a verdade. Eles queriam que acreditássemos que tudo estava bem, e que nosso lar era um lugar seguro, e que logo tudo voltaria ao normal. Não queriam que pessoas curiosas destruíssem a nossa paz de espírito e causassem inseguranças.

Ainda permanecemos em casa naquela semana, e terminamos as provas finais, entrando de férias quase um mês antes. Foi muito estranho entrar na Rural de Eugênio e ir para Rio da Prata sem meus pais, com todo aquele silêncio forçado dentro do carro, sem as costumeiras brincadeiras que papai fazia e as músicas que cantávamos durante o trajeto. Estávamos todos emburrados, e a atmosfera estava tão carregada que eu podia sentir a eletricidade que circulava entre nós. Eu tinha medo de falar e provocar um ataque de nervos em Berta, que permanecia séria, olhando pela janela. Ela estava aborrecida porque estávamos viajando sem Sebastian, que ainda estava em período de aulas. Eu também temia aborrecer Eugênio, carrancudo ao volante, resmungando sobre os outros motoristas. Cristina era a única que parecia calma, mas não dizia nada, e de vez em quando, ela estendia a mão e cobria a minha, com uma carícia leve.

Eu queria apenas que tudo voltasse a ser como era antes.

(continua...)





quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I - Capítulo VIII









SOBRE MAMÃE

É claro que eu amava minha mãe! Ao contrário de sua irmã, Tia Aurora, minha mãe era uma pessoa calada e sem afetações. Alta, magra e elegante, vestia-se com simplicidade e esmero, mas não se preocupava com aparências. Costumava prender os cabelos em um rabo de cavalo ou em um coque, e raramente aparecia com eles soltos. Mas apesar de amá-la muito, eu era bem mais próxima de meu pai. 

Porque mamãe sofria de depressão, uma doença que naquela época era ignorada, considerada muitas vezes como “fricote de madame.” A doença a afastava de nós por longos períodos, nos quais ela se trancava no quarto e não falava com ninguém, e perdia a paciência facilmente. Naqueles períodos, ninguém ousava aproximar-se dela. Papai principalmente. 

Eu hoje vejo o casamento deles como uma relação que era cheia de silêncios e hiatos. Algo formal, quase forçado. Eles se davam muito bem, andavam de mãos dadas pela rua, recebiam os convidados com graça e simpatia, eram respeitosos um com o outro e pareciam apreciar a companhia um do outro, mas havia uma camada de gelo entre eles, algum mistério, que hoje eu sei o que é, mas que naquela época me deixava intrigada. 

Minha mãe era como um quadro na parede que eu passava horas apreciando, alguém cujos trejeitos eu às vezes tentava copiar. Eu a admirava. Durante um tempo, eu a odiei, e até mesmo desprezei. Na verdade, eu não a compreendia, como acontecia com a maioria das pessoas (exceto tio Duílio, sócio de papai, com quem ela parecia se abrir). Eles passavam horas conversando, e quando ele ia embora, mamãe parecia melhorar muito, e nossas vidas voltavam ao normal. Por isso, para mim as visitas dele eram sempre bem-vindas. 

Mamãe foi uma verdadeira leoa em ocasião da doença de meu pai, sempre ao lado dele, sempre tentando superar os próprios problemas a fim de cuidar dele. Passava dias a fio no hospital sem admitir que alguém a substituísse. Depois, caía em um longo período de letargia e sono. Acredito que estivesse sob o efeito de medicamentos. 

Pena que nossos últimos anos foram tão distantes... eu gostaria de poder fazer o tempo voltar a fim de acertar minhas diferenças com ela. Mas a gente sempre pensa que as pessoas estarão ali para nós a vida toda. 

(continua...)



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - parte I- CAPITULO VII






MEU PAI

Meu pai era advogado, e chamava-se Nelson. Um nome simples para um homem de coração e hábitos simples. Era calado, e passava horas no escritório lendo jornal e estudando seus casos. Se era um homem bonito, não tenho muita certeza, mas minha tia Aurora de vez em quando comentava que ele era sim, um belo homem, ao contrário de seu marido, Tio Antônio, que ela dizia ter as pernas um pouco tortas. 

Meu pai era meu escudo, e existir sabendo que ele estava por perto me deixava sempre muito mais tranquila. Naqueles tempos, os pais tinham uma importância hierárquica muito diferente dos dias de hoje, e eram respeitados de uma maneira que os jovens de hoje não compreenderiam. Meu pai despertava respeito naturalmente, sem impor-se. E eu o amava loucamente!

Minhas melhores lembranças de infância são dos momentos que passamos juntos. Jamais me esquecerei da maneira como eu segurava seu polegar com meus dedos pequeninos de criança, enquanto passeávamos pela calçada de Rio da Prata e ele parava para cumprimentar conhecidos, que afagavam o topo da minha cabeça. Papai dizia: “Esta é a minha mais nova, Yara.” E o orgulho na voz dele me fazia inflar o peito. 

Muitas vezes ele foi severo comigo, e me disse coisas que me magoaram muito – talvez porque o amor que eu sentia por ele era tão profundo, que magoar-me era muito fácil. Passei algumas noites sem dormir pensando em como fazê-lo me amar de novo, após as broncas, sem nem imaginar que elas existiam justamente por causa do amor dele por mim. 

A insegurança que senti durante sua doença enchia minhas noites de fantasmas. Sofri muito, e amadureci precocemente por isso. O medo de perder meu pai era tão grande, que eu às vezes rezava e pedia a Deus que, se ele tivesse que ir embora, que me levasse junto. Secretamente, eu preferiria perder mamãe a perdê-lo, mas não confessava isso nem a mim mesma. Meu pai, mesmo doente, sempre foi a mão firme que me segurava nos meus momentos de fraqueza. E ele nem precisava dizer nada: bastava me olhar. Bastava puxar o lenço que sempre carregava no bolso e estendê-lo para mim quando eu chorava, passando a mão de leve sobre o topo da minha cabeça antes de ir embora. 




(CONTINUA...)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I, Capítulo VI







SOBRE SEBASTIAN

 Berta e Sebastian se conheceram no penúltimo ano letivo, quando ele começou a estudar na mesma escola conosco. Sua família tinha acabado de mudar-se, vindos de Porto Alegre, e quando os dois se olharam, foi amor à primeira vista. Berta tinha quinze anos na ocasião, ele, dezessete. Papai não queria que minha irmã namorasse, e houve muitos episódios estressantes por causa disso, mas mamãe acabou convencendo-o de que o que quer que os dois pombinhos pudessem fazer juntos seria melhor se o fizessem com o conhecimento dos pais, ao invés de sem a presença deles. Assim, os dois começaram a namorar em casa, o que naqueles tempos, era sinônimo de namoro sério. Porém, só podiam se encontrar duas vezes por semana, e sempre na companhia de alguém.

Sebastian era atleta na escola. Bonitão, estava sempre cercado de amigos e principalmente, de garotas. Mas ele abdicou de todas elas quando conheceu Berta. Eu tinha uma quedinha por ele, e gostava de fantasiar o dia em que ele olharia para mim e diria: “Nossa, Yara, como você cresceu! Isso me faz pensar que a mulher da minha vida, na verdade é você!” E então ele me beijaria e nós nos casaríamos, vivendo felizes para sempre. Eu tinha apenas nove anos naquela época, e Sebastian me tratava como a uma criancinha. Quase o odiei quando, em um aniversário, ele me presenteou com um fogãozinho de brinquedo!

Quando Sebastian foi à nossa casa pela primeira vez, eu me lembro que me sentei nos degraus mais altos (de onde ele não podia me ver) e fiquei olhando para ele. Uma coisa que eu nunca contei a ninguém, nem mesmo anos depois, foi o seguinte: Cristina entrou na sala com uma jarra de suco, e começou a servi-lo. Ela tinha prendido os cabelos, e estava muito bonita em um vestido azul-claro que fora de Berta. O vestido marcava sua cintura fina e mostrava suas canelas bem torneadas. Quando ela se inclinou para servi-lo, vi que Sebastian quase mergulhou dentro do decote do vestido dela. Cristina sorriu para ele, e ele retribuiu o sorriso, perguntando: “Quem é você?” Ela baixou os olhos, e murmurou seu nome. Os dois ficaram se olhando por um tempo, e ela finalmente deixou a sala. Naquele momento, Berta passou por mim, que ainda estava sentada nas escadas, e começando a descer, me disse para não ficar bisbilhotando. Meus pais chegaram na sala e os três cumprimentaram Sebastian.

Apesar das advertências de  Berta, eu não deixei meu posto, e continuei bisbilhotando aquele moço bonito que tinha ido namorar a minha irmã. De repente, Cristina entrou na sala novamente para avisar que o jantar estava servido, e vi que os olhos de Sebastian novamente se arregalaram ao olhar para ela. Vi também o olhar ressentido de Berta em direção a Cristina, que sorria. Berta se ergueu do sofá, e pegando Cristina pela mão, apresentou-a a Sebastian: 

Deixa eu te apresentar Cristina. Ela é filha de Eugênio, nosso jardineiro, e Flora, nossa empregada. É cria da casa.

 Vi o rosto de Cristina ficar muito vermelho, enquanto Sebastian a cumprimentava com um sério 'muito prazer' e um leve aceno de cabeça. Ela voltou para a cozinha e não reapareceu naquela noite.

Eu não entendi o que estava acontecendo naquela época, mas mais tarde compreendi que Berta tentara colocar Cristina “em seu verdadeiro lugar.”  Eu gostava de escutar atrás das portas quando criança, e naquela mesma noite, quando escapei do meu quarto de dormir para ir ver estrelas no jardim como gostava de fazer, escutei vozes alteradas na casa de Cristina; Eugênio gritava: 

-Você não pode continuar achando que é uma deles! Foi bem feito para você!

 Cristina tinha a voz chorosa e era difícil entender o que ela dizia, mas ouvi fragmentos como 

Ela me humilhou... não esperava isso dela... pensei que era minha amiga...

 E então a voz de Flora os interrompeu, firme e forte: 

-Seu pai tem razão, Cristina. Somos empregados aqui. Que ideia foi aquela de olhar para o namorado da patroa? Está querendo arranjar problemas para nós? Quer que sejamos mandados embora daqui?

 Eu não consegui ouvir mais nada, pois saí correndo dali, a garganta doendo pelo aperto que eu sentia. Desabei junto ao riacho, onde a lua se refletia na água corrente.

Como eles poderiam dizer aquelas coisas para Cristina, que era a própria filha deles? Ela não era uma empregada! No dia seguinte, perguntei discretamente à mamãe o que significava ser uma “cria da casa,” e notei que ela compreendeu que eu andara ouvindo conversas; ela respondeu, sem me dar muita atenção: 

-Cria da casa é alguém que trabalha em um lugar desde pequeno. Uma empregada, por exemplo.

A verdade daquilo doeu em mim: Cristina era uma empregada. Eugênio e Flora eram empregados. Não eram como eu. Não eram como nós.

Cristina jamais poderia sonhar com alguém como Sebastian.

(continua...)




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I, capítulo V





TIA AURORA E TIO ANTÔNIO

Tia Aurora era uma “mulher de revista” – era assim que eu me referia a ela, quando ela não estava presente. Era parecida com aquelas mulheres que apareciam na capa da Revista Cruzeiro dos anos 60, que estavam esquecidas sob a mesinha de telefone do corredor lá em casa: sempre impecável, maquiada e bem penteada, com um sorriso branco demais no rosto, emoldurado por um batom vermelho berrante. Gostava de usar um avental leve sobre o vestido quando estava em casa, embora todos soubéssemos que ela só entrava na cozinha para dar ordens. Extremamente preocupada com aparências, muito doce, de fala mansa e calculada, Tia Aurora era o retrato de tudo o que se podia chamar convencional. Nunca dizia ou fazia nada que fosse imprevisível, nunca contestava ninguém, nunca discutia as regras. A esposa perfeita, a mãe perfeita, a dona de casa perfeita, a grande dama da sociedade. Eu nunca escutava Tia Aurora perder a paciência ou gritar, e se ela o fazia, jamais o fazia em público. Chamava sempre Tio Antônio de 'querido' em público. Nós crianças costumávamos imitá-los quando eles iam embora, e mamãe ralhava conosco quando isso acontecia, enquanto papai dava gargalhadas.

Era muito comum, ao visitá-la de surpresa, encontrá-la vestida e maquiada, arrumando flores em um vaso grande sobre a mesa de jantar. Ela olharia para nós e diria: “Oh, querida, que surpresa agradável!” Deixando todos com a impressão de que, na verdade, não era surpresa nenhuma, e que ela calculara cuidadosamente aquela cena. Um dia, Joana me contou que era verdade; se sua mãe olhasse pela janela e visse alguém chegando na estradinha que levava à casa, ela corria para a sala de jantar, e retirando as flores do vaso, passava a arrumá-las de novo.

Tia Aurora parecia inofensiva, e era assim considerada pela maioria das pessoas: frívola, alegre, coquete. Mas por trás daquela máscara de perfeição e solicitude (eu descobriria mais tarde) havia o medo de ser julgada e uma disposição imensa para julgar a todos. Casara-se com Tio Antônio, dez anos mais velho, quando ainda tinha dezesseis anos, e todos diziam que tinha sido um casamento arranjado. Mamãe era considerada a rebelde da família, enquanto Tia Aurora era a filha perfeita. Não conheci meus avós muito bem, pois morreram quando eu ainda era bem pequena, mas Berta me contava que os pais de mamãe e Tia Aurora eram um casal quatrocentão, tradicional e cheios de convenções e preconceitos.

A casa de meus tios era o oposto da nossa: sempre muito arrumada, limpa e organizada, impecável em todos os aspectos. Não havia sequer uma parede com marcas de umidade; a casa era sempre repintada, e qualquer pequeno problema era imediatamente consertado. Havia muitas peças de arte, vasos caríssimos dos quais nós crianças estávamos frequentemente sendo advertidos para mantermos distância, pisos espelhados de tão brilhantes, e roupas de cama perfumadas. O jardim devia ser uma réplica do jardim do Éden, eu acho. Nenhuma flor fora do lugar, nenhuma folhinha fora dos limites da poda. Eles tinham três empregadas trabalhando dentro da casa, e dois jardineiros. Mesmo assim, em casa Tia Aurora usava aqueles aventais impecáveis em tons pastel sobre seus vestidos perfeitos.

Tio Antônio era muito mais simples e menos sofisticado, embora seguisse os padrões impecáveis de vestir-se. Eu não prestava muita atenção nele, talvez porque ele estivesse sempre trabalhando, ora na fábrica de laticínios, ora no restaurante luxuoso que mantinha na cidade. Costumava chegar tarde em casa todas as noites – muitas vezes, de madrugada – e também viajava muito. Mamãe maliciosamente dizia que por isso os dois ainda eram casados, pois quem poderia suportar conviver com alguém tão perfeito como Tia Aurora? Enfim: meus tios eram a parte rica da família. Meu pai era advogado e mantinha sua própria firma, o que era considerado uma profissão muito rendosa naqueles tempos, mas estávamos longe de sermos ricos. Além disso, meus pais nunca gostaram de ostentar.

Nossa casa era limpa, mas um tanto bagunçada, pois era para lá que as crianças iam quando queriam brincar. Porque  lá nós podíamos correr no jardim sem medo de pisar no gramado,  brincar de guerra de água de mangueira, ficar enlameados até a alma e depois tomar banho no banheiro do jardineiro, que ficava do lado de fora. As crianças podiam brincar de esconde-esconde dentro de casa, por trás dos sofás, sem medo de quebrar coisas valiosas, pois elas não existiam em nossa casa de campo. Mas quando as brincadeiras terminavam, mamãe nos punha – eu, Berta, Cristina e até Joana – para limpar tudo e guardar os brinquedos. Não gostava de sobrecarregar Flora por causa de nossas “artes.”

Mas em casa de meus tios, só podíamos ouvir música (sem dançar), assistir TV ou pular corda no quarto de brinquedos – um espaço no sótão da casa onde meus tios tinham forrado o piso com um carpete grosso, para não fazer muito barulho, e colocado caixas e prateleiras cheias de brinquedos com os quais ninguém mais brincava por medo de quebrá-los e ficar de castigo.

Eu amava meus tios, e sei que eles nos amavam à sua maneira. Tia Aurora era carinhosa comigo e com Berta, e sempre nos presenteava com coisas caras em nossos aniversários. Mamãe e ela eram boas amigas, apesar das diferenças, e costumavam fazer compras juntas quando estávamos por lá. Nós nos visitávamos e comíamos juntos com frequência. E eu simplesmente amava entrar naquele restaurante maravilhoso que pertencia aos meus tios, e que ficava situado em uma enorme mansão na cidade, e ser atendida por garçons de luvas brancas que nos levavam até a nossa mesa e nos serviam com toda cerimônia. Aquelas eram ocasiões muito felizes, e eu me lembro com carinho de todas elas. Mamãe nos fazia vestir nossos melhores vestidos. Às vezes, quando nós insistíamos, ela deixava que Cristina nos acompanhasse, mas ela mesma fazia questão de escolher um dos vestidos de Berta para ela usar, e também fazia com que Cristina nos acompanhasse ao salão de beleza antes dos eventos.

(continua...)



Inocência - Parte I, capítulo IV





SOBRE MARCELO E JOANA

Marcelo e Joana eram nossos  primos. Nós nos encontrávamos durante as férias, todos os anos. Eles viviam em Rio da Prata, e fora por isso que mamãe e papai quiseram comprar a casa de campo lá. Assim, mamãe poderia continuar mantendo contato com sua única irmã e seus sobrinhos, já que elas só tinham uma a outra.

 Marcelo era um menino bonito, mas não bonito demais. Lembro-me de que até os dezesseis anos, ele era muito magro e alto, tinha espinhas na testa e pés grandes demais, e nós colocávamos apelidos nele por causa disso. De repente, parece que os hormônios masculinos começaram a fazer o seu trabalho, e as espinhas desapareceram, o queixo ficou mais quadrado, os músculos surgiram e ele se transformou em um belo exemplar masculino, um “partidão”, como se dizia na época, pois o pai era dono de um restaurante e uma fábrica de laticínios na cidade, e a família podia ser considerada rica para os padrões locais. Mas a vida toda ele só teve olhos de verdade para uma mulher: Cristina.

Joana era uma menina mimada, um tanto afetada. Não sei como ela gostava de andar comigo, pois ela era o padrão perfeito da menina rica e mimada, e eu, a menina de classe média revoltada e rejeitada. Mas Joana parecia gostar de mim de verdade, o que era um ponto a meu favor, já que ela era muito seletiva com suas amizades. Durante o ano, quando não estávamos na casa, eu sabia (de ouvir falar) que ela só andava com as meninas de classe alta da cidade. Mas quando eu chegava, ela parecia tirar férias daquilo tudo. Um dia, Joana me confessou que achava suas amigas chatas e pedantes, e que só andava com elas porque as meninas mais simples não lhe davam atenção, e seus pais (principalmente tia Aurora, que se preocupava muito com aparências) lhe pediam que ela tivesse boas relações com as pessoas que realmente “faziam a diferença.”

Quando estávamos por lá, quase sempre encontrávamos nossos primos. Às vezes eles viajavam de férias para outros lugares, mas sempre voltavam antes que nós fôssemos embora. Gostávamos sinceramente uns dos outros. Principalmente naqueles tempos em que eu não procurava defeitos nas pessoas, aceitando-as como eram sem discutir, e dando o melhor de mim sempre, sem ficar pensando se eu recebia a mesma coisa de volta. Mas se existe uma coisa que a inocência nos tira, é essa coisa de doar-se sem restrições. O medo de ser ferido faz com que nos tornemos cínicos, hesitantes e desconfiados. E eu fui me tornando assim com o passar do tempo, sem perceber. Papai tentou conversar comigo sobre isso algumas vezes – em uma delas, ele já estava doente – mas eu simplesmente não quis ouvir.

Zangado, após eu procurá-lo após uma discussão com Berta, mesmo fraco e acamado, ele me segurou pelo braço, e me olhando nos olhos, disse: 

-Você vai acabar sozinha se não aprender a controlar esse gênio terrível e parar de julgar as pessoas segundo seus padrões limitados de comportamento!

 Chorei muito naquele dia, e fiquei zangada com ele.


(continua...)

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

INOCÊNCIA - PARTE 1, CAPÍTULO III







SOBRE BERTA

Quando eu nasci, Berta tinha seis anos. Mamãe contava que começara a sentir as dores do parto na véspera do aniversário de Berta, e devido a correria, todos tinham se esquecido de comprar-lhe um presente. Até mesmo vovó, que ainda era viva naqueles tempos. Quando me trouxeram para casa (as pessoas contavam aquelas histórias achando muita graça, menos Berta, que escutava tudo de braços cruzados e cara fechada), mamãe pareceu se lembrar do aniversário de sua filha mais velha de  repente, e por falta de presente, sentou Berta no sofá, colocando-me no seu colo e dizendo: “Tome! Aqui está o seu melhor presente: uma irmãzinha!” Dizem que Berta pareceu confusa, e depois começou a chorar e berrar tão alto, que tiveram que me tirar do seu colo!

Nossos aniversários – meu, de Berta e de Cristina - eram comemorados juntos, já que havia apenas uma semana de diferença entre as datas de Berta e Cristina e  um mês de diferença entre as datas de Berta e eu, e minha irmã odiava ter que aturar as decorações nas festinhas. Cristina não se importava, e até ajudava nos detalhes.

Não sei se por causa do nosso começo traumático, sempre senti que Berta guardava um pouco de ressentimento contra mim. Sabia que ela me amava, assim como eu a amava muito, mas às vezes, ela agia de maneira um pouco cruel, e sabia ser competitiva – principalmente quanto à afeição de papai, de quem sentia muito ciúme. Mas para seu desgosto, papai sempre demonstrou um carinho enorme por mim. Ele me chamava de “Minha Bonequinha.” Até mesmo depois que me tornei adulta. É claro que ele amava Berta, mas às vezes, ele se esquecia de deixar aquilo bem claro para ela. Berta orbitava em volta dele, principalmente quando eu estava por perto. Ela o rodeava quando ele estava no escritório, lendo seu jornal, e eu brincava de recortar minhas bonecas de papel sobre a sua escrivaninha. Berta chegava por trás dele e o abraçava, cobrindo-o de beijos. Papai às vezes ralhava com ela em tom de brincadeira: “Hey! Desse jeito, você vai acabar me enforcando, menina!”

Aquilo era o suficiente para que Berta saísse da sala pisando duro e me olhando de soslaio, como se eu tivesse alguma culpa.

Papai adorava sair com a gente. Aos sábados, enquanto mamãe e Flora cuidavam da casa e preparavam o almoço, ele colocava a mim, Berta e Cristina no carro, e nos levava ao zoo, à praia ou a qualquer outro lugar que crianças adoravam. Às vezes ele nos levava para pescar no lago. Quando  meus tios Aurora e Antonio compraram uma casa de campo perto da nossa, ele também levava meus primos Joanna e Marcelo. Éramos cinco crianças ao todo, e Berta quase tinha um ataque de nervos se ela não viajasse no banco da frente, perto de papai. Nós nos ajeitávamos na traseira do Aero Willys de papai. Aqueles eram dias felizes! Por volta do meio-dia e meio, estávamos todos em casa, e corríamos para tomar banho antes do almoço. Eu e Berta tínhamos permissão para usar o banheiro da suíte dos nossos pais, que tinha uma banheira enorme, enquanto meus primos tomavam banho em sua casa e Cristina podia tomar banho na nossa casa, no banheiro do corredor. Ela adorava usar nosso banheiro, pois dizia que ele era grande e arejado, diferente do banheiro do apartamento sobre a garagem onde ela morava com os pais, que era pequeno e escuro, sem janelas, com apenas um pequeno basculante.

Depois almoçávamos todos juntos. Se o dia estivesse bonito, Flora e Eugênio armavam uma grande mesa no jardim, debaixo da jabuticabeira, e juntavam-se a nós. Aquelas tardes sempre terminavam com todo mundo dançando “Twist” no piso escorregadio da varanda. Às vezes, eu me afastava de todos e ficava sentada em um canto, observando tudo aquilo, sentindo uma saudade estranha e sem razão de ser. Intuitivamente, eu sabia que um dia tudo aquilo seriam apenas memórias... eu nem suspeitava, ainda, que a perda da minha inocência seria uma coisa gradativa, e que cada episódio causaria muita dor. Aqueles dias se aproximavam no horizonte. Vinham junto com as nuvens negras de chuva que os derramavam sobre o telhado feliz da nossa casa. Aos poucos, eles aguardavam nos cantos da casa, em volta do jardim, prontos para esperar a hora certa para destruir tudo.

Berta tinha muitos amigos na escola. Era muito popular, e muito bonita também, embora eu achasse que ela não fosse tão bonita quanto Cristina. Ela tinha uma personalidade alegre, quase esfuziante, dominadora. Uma líder nata. Aonde quer que Berta estivesse, estaria cercada de admiradores. Os rapazes se apaixonavam por ela facilmente, embora raramente fossem correspondidos, e as moças tentavam copiar seu modo de vestir e se pentear. Eu a admirava, mas a maneira condescendente e distante com a qual Berta me tratava, fazia com que eu me mantivesse longe. Eu queria muito que ela me amasse. Faria qualquer coisa para que aquilo acontecesse, e quanto mais eu tentava e fracassava, mais eu me aproximava de Cristina. Berta não me tratava mal; simplesmente me ignorava a maior parte do tempo. Quando eu forçava as circunstâncias para tentar ficar por perto, ela se irritava e me colocava para correr, dizendo que eu não passava de uma criança. Se eu conseguisse ficar longe dela e de seus amigos, e fizesse tudo o que ela queria (às vezes ela precisava de mim para que papai a deixasse ir a certos lugares aos quais não permitiria que fosse sozinha, principalmente quando começou a namorar Sebastian) ela me tratava muito bem. Se eu concordasse em fazer pequenas tarefas para ela, quando estava em casa rodeada de seus amigos, como ir até a cozinha e pedir que Flora preparasse um lanche para todos, ela me tratava bem e permitia que eu ficasse por perto observando, “desde que eu não fosse uma intrometida.”

Quando eu reclamava com mamãe sobre essas coisas, ela apenas dizia, sem dar muita atenção às minhas mazelas: “Sua irmã já é uma mocinha. É natural que ela queira estar entre pessoas da sua própria idade. Você precisa fazer seus próprios amigos, Yara.” E eu tentava. Mas acho que na tentativa de parecer-me com o que eu achava que Berta era, e de agir como ela agia, as outras crianças acabavam me achando autoritária e metida, se afastando de mim. Daí eu me agarrava à Joana, e ficava pendurada na saia de Cristina quando me sentia fragilizada.

Eu tinha poucos amigos na escola, e era muito comum que eu fosse excluída das festinhas. Muitas vezes, na segunda-feira, eu escutava os comentários dos colegas antes das aulas, enquanto eles falavam das festinhas de aniversário no final de semana anterior – as quais eu quase nunca era convidada. Eu sofria com aquilo, mas fingia não ligar.

Mas Berta era convidada para tudo. Tanto, que muitas vezes tinha dois eventos em uma só noite. Todos a queriam por perto. Eu crescia à sombra de minha irmã mais velha, amando-a e me sentindo sempre apagada junto a ela, que nada fazia para que eu me sentisse bem-vinda. Se eu sabia que ela gostava de mim, eram por causa das raras ocasiões em que ela me defendia do bullying no pátio da escola, e convencia mamãe a me comprar presentes caros de aniversário que ela sabia que eu gostaria de receber. Então eu me sentia no céu! Quando eu e Berta estávamos bem uma com a outra, eu era a pessoa mais feliz e realizada do mundo.

Mais velhas, os ciúmes e a impaciência de Berta diminuíram. Nos tornamos boas amigas. Mas eu não mais precisava da amizade dela tanto assim, pois crescera sem a atenção dela, e acabei me acostumando com aquilo. Então eu me sentia mais tranquila em relação a ela, sem a necessidade de chamar sua atenção ou conseguir sua aprovação. Por incrível que pareça, aquela atitude a trouxe para mais perto de mim – não sei se por curiosidade ou admiração. Com o tempo, compreendi que aquela mania de Berta de sempre fazer questão de estar cercada de pessoas, era carência, e não auto confiança. Ela liderava porque tinha medo de desaparecer; ela temia a solidão. Ela precisava estar no centro para saber quem ela era. Ela tinha uma necessidade quase mórbida de saber-se amada, pois ela se via dentro dos olhares alheios, e não diante do próprio espelho. Berta precisava de aprovação constante, e não sabia lidar com críticas ou fracassos.

Mesmo durante os muitos anos que passamos separadas, ela tentou me procurar poucas vezes, e não insistiu quando não lhe dei atenção. Na verdade, eu queria que ela tivesse insistido; mas Berta tinha medo de ser deixada ao relento. Ela não queria insistir, pois não suportava a rejeição. Não sabia lidar com uma pessoa que não fizesse exatamente o que ela queria, e eu não estava disposta a continuar fazendo. Eu pensei que ela tinha desistido de mim porque não me amava, mas não tinha sido por isso que ela simplesmente me deixou ir embora. Descobri isso muito mais tarde – quem sabe, tarde demais. É que ela não conseguia sentir-se rejeitada. É que ela me amava demais para isso.

Quando papai morreu, eu tinha vinte e cinco anos, e ela, trinta e um. Ela não derramou uma lágrima sequer durante o velório, enquanto eu simplesmente me desmanchava. Mas quando todos foram embora, encontrei-a sentada na sala escura, os olhos vermelhos, as mãos trêmulas. Eu não sabia que ela estava ali. Quando acendi a luz e deparei com ela ali sozinha, ela se levantou e veio até mim, implorando:


-Por favor, Yara, não vá embora... eu não sei ficar sozinha...

 Eu segurei as mãos dela, repetindo que ela jamais estaria sozinha, pois tinha Sebastian, tinha mamãe e tinha seus amigos. Ela ficou me encarando durante muito tempo, e vi quando parou de chorar e suas sobrancelhas se crisparam de dor. Na hora, eu não compreendi aquilo, não sabia por que ela me olhava como se eu não tivesse entendido alguma coisa... ela respirou fundo, suprimindo um novo soluço, e concordando com a cabeça, deixou a sala. Hoje eu entendo o que ela quis dizer com aquele gesto e aquela súplica: Era de mim que ela precisava. Era a mim que ela queria ter por perto. Ela abriria mão de tudo se eu apenas ficasse e a ajudasse a passar por tudo aquilo.

Quando Berta compreendeu a minha importância, eu compreendi que, apesar de importante, ela não era indispensável à minha vida. Entendi que era capaz de me virar sozinha, e foi ela quem me ensinou a não depender dela, a não confiar em ninguém. Quando ela finalmente compreendeu que precisava de mim, eu já não mais precisava dela. A vida é engraçada.

(continua...)





segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Inocência - Parte I, capítulo II






SOBRE CRISTINA

Porque eu tinha crescido acreditando que eu tinha uma família perfeita, eu me orgulhava muito daquela ideia. Enquanto as casas dos meus amigos da escola começavam a ruir – eram os anos setenta, e os divórcios começavam a modificar as estruturas familiares, eu me orgulhava do casamento sólido dos meus pais, da estrutura segura da qual eu e minha irmã dispúnhamos. Adorava acordar no meio da noite e escutar, no corredor vindo do quarto dos meus pais, a respiração deles enquanto dormiam.

Lamentava ver os lares desfeitos dos meus colegas de escola, que ficavam divididos entre seus pais e suas mães, que brigavam na justiça para obter pensões ou a guarda deles. Algumas situações eram ainda piores, pois os pais simplesmente saíam de casa portando suas jovens namoradas e nunca mais queriam saber dos filhos. E as mulheres divorciadas eram vistas com receio pela sociedade, caso os maridos as tivessem deixado, e com desprezo, caso elas tivessem deixado seus maridos. De qualquer forma, a culpa era sempre da mulher, não importando se seus maridos tinham ido embora, trocando-as por exemplares mais jovens.

Mas eu me considerava livre daquelas classificações, pois tínhamos “um lar sólido”, como Flora gostava de dizer.

E é claro, eu tinha Flora, a minha segunda mãe. A minha Mãe Preta. Ela estava conosco desde que eu nascera, ou melhor, antes disso. Ela sempre existira em nossas vidas, e era parte da nossa família, e quando casou-se com Eugênio, segundo mamãe contava, eles tiveram muito medo de perdê-la. Assim, meus pais ofereceram a ele um emprego de jardineiro e caseiro, e Eugênio passou a ser um novo membro da família. Mais tarde descobri que a história não era bem aquela, mas durante anos, ela bastou para mim.

Eugênio e Flora viviam em um pequeno apartamento de dois quartos que ficava sobre a garagem. Tomavam conta de tudo enquanto estávamos na cidade estudando ou trabalhando. Quando a família chegava, nas épocas de férias, natal ou finais de semana prolongados, eles estavam lá para nós. No começo, chamavam a atenção de todos por serem um casal inter-racial – Eugênio era branco e tinha olhos azuis, e Flora era negra. Esse tipo de coisa costumava chamar a atenção, principalmente numa cidade pequena como Rio da Prata. Mas o casal logo deixou de ser a curiosidade local, sendo aceito pela maioria dos moradores – a não ser algumas velhas famílias mais “tradicionais” que faziam questão de torcer o nariz quando um deles passava por Eugênio ou Flora no mercado.

Rio da Prata, que fica no interior de Minas Gerais, é uma cidade pequena, que naqueles tempos sobrevivia principalmente da atividade do comércio local e de uma ou duas fábricas que existiam por lá, sendo que uma delas, de laticínios, pertencia ao meu tio Antônio, casado com a irmã de minha mãe. Tínhamos apenas dois cinemas, um hospital, alguns restaurantes (o maior e mais tradicional também pertencente ao meu tio Antônio), o coreto da praça, um clube de elite, uma piscina pública e mais ou menos trinta mil habitantes.

Em Rio da Prata passou-se a história que eu vou contar. Apesar de só ter passado a morar em Rio da Prata na minha segunda infância, minha família estava sempre ali, nas férias e em alguns finais de semana e feriados prolongados. Foi na nossa casa de campo que eu fiz as minhas primeiras descobertas sobre mim mesma e sobre os rostos ocultos disfarçados sob as máscaras que as pessoas usavam. Nossa história começou bem antes de eu ter nascido, e o que eu escutei dela através de meus pais, Flora ou Eugênio, não era totalmente verdadeiro. Mas tudo começou assim:

Quando minha mãe engravidou de Berta, Flora também engravidou de sua única filha, Cristina. As duas meninas nasceram com apenas uma semana de diferença, e tornaram-se amigas, comemorando aniversários juntas, e sempre que minha família chegava em Rio da Prata para uma temporada, as duas não se largavam. Eu só cheguei seis anos depois. Cresci tendo Cristina, Eugênio e Flora sempre por perto, e jamais considerei-os como empregados da casa, principalmente porque eu era inocente demais para saber a diferença. Eram eles que tomavam conta de mim quando meus pais saíam à noite com minha irmã mais velha para irem aos bailes dançantes onde as crianças não entravam. Quando eu me machucava, quase sempre era Flora quem cuidava dos meus joelhos ralados, aplicando um medicamento que ardia, e soprando quando eu chorava. Às vezes, Cristina fazia isso.

Cristina era uma menina excepcionalmente bonita; tinha a pele morena, quase mulata, os olhos azuis do pai e cabelos negros e ondulados. Logo começou a chamar a atenção pela sua extrema beleza, e por onde passava, as pessoas olhavam para ela. Eu a considerava uma irmã mais velha – ela era uma irmã mais velha, nunca me ensinaram a vê-la de outra forma. Pelo menos, não até os meus cinco, seis anos de idade. Eu era uma criança pequena, e não me perguntava o motivo pelo qual ela dormia no quarto comigo e Berta quando estávamos lá, enquanto Eugênio e Flora dormiam no apartamento sobre a garagem. Tinha sido sempre daquela forma. Também nunca tinha me perguntado por que Cristina voltava para o apartamento e meus pais trancavam as portas da casa quando íamos embora, deixando as chaves com Eugênio e Flora, recomendando que “a menina” (Cristina) não ficasse brincando lá dentro sozinha. Era assim que as coisas se davam, e pronto.

Algumas vezes eu via minha mãe dando ordens na cozinha, e notava que Flora a chamava de Dona Mirtes, mesmo que as duas tivessem a mesma idade, e eu não entendia muito bem aquilo; mas acabava concluindo que era coisa de gente grande e que não era da minha conta. Da mesma forma, Eugênio se dirigia aos meus pais chamando-os por Dona Mirtes e 'Seu' Nelson. Mas meus pais os chamavam pelos seus nomes, simplesmente.

Cristina era meu 'role model.' Eu não era lá muito bem-vinda junto à Berta quando ela estava com os amigos, pois eram todos bem mais velhos que eu. Ela simplesmente aturava a minha presença, livrando-se de mim sempre que podia, dizendo que os lugares que eles frequentavam não aceitavam crianças. Cristina muitas vezes era convidada para sair com minha irmã e os amigos, e às vezes, Berta emprestava-lhe algumas roupas mais bonitas – embora Cristina sempre ganhasse as roupas usadas de Berta, mas eu também “herdava” as roupas da minha prima Joana, um ano mais velha, quando elas não serviam mais. Eu me sentava na cama e ficava olhando as duas se arrumando para sair, passando lápis preto nas pálpebras inferiores, usando o mesmo brilho labial rosa discreto e perguntando uma à outra se a calcinha estava 'marcando' sob a calça comprida justa estilo pantalona.

Eu adorava Cristina, não somente porque ela era linda, mas porque ela sempre me tratava bem. Quando Berta perdia a paciência comigo, era nos braços dela que eu chorava. Ela me pedia que tivesse um pouco de paciência, pois logo estaria maior e teria meus próprios amigos. E para me fazer parar de chorar, ela pegava o estojo de maquiagem usado que ganhara de Berta e começava a me pintar. “Beeem clarinho,” ela dizia, enquanto espalhava a sombra azul sobre minhas pálpebras fechadas e eu sentia seu hálito com cheiro de chicletes de hortelã. Minha mãe não gostava de me ver maquiada, e sempre ralhava com Cristina quando isso acontecia, e quando mamãe ralhava com Cristina, Flora também ralhava com ela. Dizia que ela estava ali para se comportar e fazer o que tinha que fazer. E logo dava a ela uma tarefa – buscar os ovos no galinheiro, ou um pé de alface na horta. Ela obedecia sem contestar, rindo e piscando um olho para mim, e eu ia com ela.

Eu também amava Flora, e guardo memórias dos tempos em que eu era muito pequena e ela me punha para dormir. Ainda posso sentir seu cheiro, uma mistura de sabonete e desodorantes baratos com os cheiros de laranja, maçãs e temperos das muitas comidas que ela cozinhava para nós. Flora era um pouco gordinha, e tinha seios grandes. Era naqueles seios que eu muitas vezes deitava a minha cabeça de criança antes de adormecer. Meus pais me contavam que mamãe não tivera muito leite quando Berta nascera, e que Flora tinha sido sua ama de leite.

Eu era uma menina magrinha, cabelos castanhos muito lisos e escorridos cortados em estilo channel na altura dos ombros. Usava uma franja lisa que vivia precisando ser aparada, pois eu detestava cortar a franja, e então mamãe muitas vezes me obrigava a usar grampinhos que mantinham a franja 'no lugar' e não prejudicavam a 'vista,'. Eu detestava aquilo! E quando Cristina descobriu o quanto eu detestava, ela mesma passou a aparar a minha franja a cada duas semanas, mantendo-a sempre do mesmo tamanho – escondido de mamãe, é claro. E eu não me importava quando era ela que cortava meu cabelo. Ela tinha mãos precisas e firmes, e o fazia muito bem. Dizia que um dia teria seu próprio salão de cabeleireira – o que mais tarde realizou-se. Me ensinava a fazer tranças e coques, e para isso, eu penteava os cabelos dela, que eram longos. Eu adorava quando nos sentávamos nas escadas da frente da casa, ela na minha frente, cotovelos apoiados nos meus joelhos, enquanto eu trançava seu cabelo.

Gostava de andar com ela pela rua, quando Flora pedia que ela fosse ao mercado comprar qualquer coisa, pois todo mundo olhava para ela, e consequentemente, eu também me sentia observada. Eu andava de mãos dadas com ela pelas calçadas, sorrisinho maroto no rosto e cabeça erguida. Um dia, ao passarmos por um grupo de rapazes, um deles sorriu para nós e perguntou-me, em tom de graça, qual era o nome da beldade.  Enquanto passávamos por eles, olhei para trás e respondi. “É Cristina. Ela é minha irmã!”

Somente anos mais tarde eu entenderia o porquê das gargalhadas deles e das pessoas que estavam próximas, e das lágrimas que arderam no rosto de Cristina enquanto ela começou a andar mais rapidamente, puxando-me pela mão. No mercado, ela me chamou em um canto, secando as lágrimas com as costas das mãos, e me disse: 

-Nós não somos irmãs, Yara, e você não pode ficar repetindo isso por aí, entendeu?

 Eu não entendi nada, e tentei argumentar com ela, que me explicou: 

-Irmãos são filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Irmãos têm a mesma cor de pele.  

Eu disse: 

-Mas eu gosto mais de você do que da Berta!

 Ela sorriu um pouco, mas logo ficou séria de novo: 

-Nunca mais diga isso, Yara. Berta é a sua irmã. Eu sou negra, e não posso nunca ser chamada de sua irmã.

Naquele dia, eu cheguei em casa muito magoada, e não quis almoçar. Ignorei o convite de uma amiguinha para brincar. Acho que eu tinha uns cinco anos naqueles tempos, e não compreendia o porquê de Cristina não querer ser a minha irmã. Mas não tive coragem de perguntar a ninguém sobre aquilo, talvez temendo, instintivamente, que alguma coisa se quebraria. Então, eu simplesmente esqueci. Continuei fingindo que Cristina era minha irmã, e ignorei todo o resto, embora nunca mais tivesse dito aquilo em público.

(continua)





INOCÊNCIA - PARTE 1 - CAPÍTULO XII

O SEGREDO Então nós tivemos “a conversa.” Passamos pelas abelhas e flores. Ela me explicou à grosso modo de onde vinham o...