segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Armadilhas - capítulo I





ARMADILHAS

Capitulo 1 – O Segrêdo 


Eduarda aprontava-se para mais um dia na escola. Manhã de segunda-feira de um dia frio e nublado. Sentada na frente do espelho embaçado da cômoda, ela escovava seus cabelos lentamente, sem vontade de terminar. Uma chuva fina e ininterrupta fustigava a vidraça do quarto. Ela sentia-se cansada e desanimada . Era terrível a ideia de que, em alguns minutos, ela estaria lá fora,exposta àquele clima tenebroso de uma manhã de inverno Petropolitano, a caminho de uma prova de matemática para a qual não tinha estudado.
Lembrava-se dos acontecimentos da noite anterior. Ainda podia ouvir, mais uma vez, a discussão que acontecera no quarto dos pais. O mesmo de sempre, desde que se lembrava de si mesma; os murmúrios iam tornando-se mais altos, até que se transformavam em gritos, acusações, a voz chorosa da mãe que reclamava da indiferença do pai, o tom acusatório do pai que se queixava do desempenho sofrível da mãe como dona de casa, pois o jantar nunca estava na mesa na hora certa, suas camisas nunca estavam passadas, etc.; então a mãe reclamando das noites em que Jorge, o pai, chegava tarde, sem dizer ao certo de onde vinha ou com quem tinha estado, cheirando a uísque e perfume barato, etc... e depois, a porta da sala batendo com força, o silêncio, um choro abafado no quarto dos pais. Pronto; acabara-se a possibilidade de concentrar-se em alguma coisa, muito menos numa prova de matemática que aconteceria na manhã seguinte.

Getúlio, o irmão mais velho, parecia alheio a tudo aquilo, deitado no sofá com seus fones de ouvido e suas músicas barulhentas, marcando o compasso com os pés no encosto do sofá e cantarolando desafinadamente.

Belo final para uma noite de domingo, depois de uma manhã monótona e silenciosa, e de uma tarde chuvosa em frente a TV, assistindo a ridículos programas de auditório e engolindo a horrível comida feita pela mãe. Dora, a mãe, até que se esforçava, mas não era mesmo possível cozinhar alguma coisa decente com um cigarro no canto da boca, depois de beber meia garrafa de uísque barato.

Eduarda tinha lido uma vez, numa publicação espírita, que todos escolhiam o tipo de vida que iriam levar antes de nascer, e que tudo contribuía para o nosso desenvolvimento espiritual. Mas ela se negava a acreditar que tinha escolhido aquilo. Às vezes chegava a duvidar se de fato amava realmente seus pais. Mas ao mesmo tempo sentia-se culpada, a culpa a perseguia sempre que tinha aqueles pensamentos. Pais existem para serem amados, e não é certo sequer imaginar a mais remota possibilidade de que não seja assim.

Invejava secretamente as famílias de suas amigas da escola, ou melhor, colegas de classe, pois não tinha amigas. Era sempre muito calada e reservada, pois imaginava que se tivesse amigas, mais cedo ou mais tarde teria de convidá-las para ir à sua casa, e assim teria que apresentar-lhes sua família, e aquilo estava fora de cogitação.

Olhava a triste figura de Dora, com seu cabelo escorrido já ficando precocemente grisalho, enfiada em seu eterno macacão jeans, que por ser largo, ela dizia, 'ajudava a esconder as ‘gordurinhas'. As unhas sem cuidado, a pele ressecada e sem-brilho, e o olhar cada vez mais triste. Eduarda se perguntava o que levava alguém a decair daquela forma. Pois já tinha visto fotografias do tempo em que sua mãe era mais jovem, e nas fotos, ela parecia outra pessoa, bonita e cheia de vida.

Depois de examinar a figura da mãe, Eduarda olhava para Jorge sentado no sofá e fingindo assistir televisão, segurando a lata de cerveja quente apoiada no joelho. Ainda era um homem bonito, mas também estava precocemente acabado. A barba sempre por fazer dava-lhe uma aparência de desleixo, e as camisas mal-lavadas e mal-passadas por Dora deixavam-no com um ar quase de mendigo.Ás vezes Eduarda ficava com pena do pai e lavava e passava-lhe as camisas, mas Dora a censurava tanto que ela acabava desistindo de fazê-lo.'Isso não é coisa para uma menina de treze anos fazer', ela dizia, ralhando com Eduarda e mandando-a ir para o quarto estudar.

Dora tinha sido de uma família muito rica. Gostava de contar estórias do tempo em que vivia numa casa de onze dormitórios, cercada por um lindo jardim,localizada na Rua Ipiranga, uma das mais caras da cidade. Suspirava de orgulho ao rever as fotografias nas quais aparecia lindamente vestida e penteada, em cenários paradisíacos que conhecera em suas muitas viagens.

Mas, aos dezenove anos de idade, seu pai fugira de casa com uma moça que tinha metade de sua idade; antes, pediu que a esposa assinasse alguns documentos relativos à alguma negociação da imobiliária, ele lhe dissera, mas na verdade, ela estava assinando procurações que ele usou para apoderar-se de tudo que era dela. Sua mãe, desesperada, suicidou-se com uma overdose de barbitúricos. Cinco anos depois a tal moça gastara quase todo o dinheiro de seu pai e depois trocou-o por um outro homem mais jovem .Ele enfartou de desgosto, deixando de herança para Dora uma linda casa hipotecada , um negócio imobiliário falido e muitas dívidas.

Foi nessa ocasião que Jorge apareceu em sua vida, Dora contava, um jovem idealista e bonitão que 'encheu sua cabeça de ilusões com toda aquela conversa mole sobre amor', segundo palavras dela mesma, para depois deixá-la em casa com duas crianças pequenas enquanto saía para se divertir, exatamente como seu pai fizera com sua mãe. 

Getúlio, seu irmão mais velho, parecia viver em outro mundo. Comunicava-se apenas quando necessário, só ia em casa para comer e dormir, o tempo todo com o fone cobrindo-lhe as orelhas, e quando não estava na rua com sua turma esquisita estava trancafiado no quarto, de onde vinham uns cheiros estranhos.Não era popular na escola, tinha notas ruins, era extremamente magro e não cortava o cabelo.As roupas que usava eram sempre grandes demais para ele, acentuando ainda mais sua magreza, e sempre pretas ou cinzentas.
A casa onde a família morava era grande, uma pequena mansão decadente, a única coisa que Dora conseguira poupar dos credores de seu pai, pois a herdara de sua mãe. Embora bem mais modesta do que sua antiga residência, ainda assim poderia ser considerada uma bela casa ( isso, há pelo menos vinte anos atrás). Atualmente, precisava de muitas reformas, mas tinha estilo. Ficava na mesma Rua Ipiranga, e por isso mesmo, servia-lhe como um sinal de que, embora tivesse perdido o trono, ainda fazia parte do reino. Dora já tinha recebido várias ofertas pela casa, mas nunca concordara em vendê-la; era sua última conexão com a nobreza. Este fato era o que mais contribuía para a s discussões de família. Jorge não conseguia compreender porquê eles viviam naquele elefante branco decadente enquanto vender a casa e comprar um pequeno apartamento no centro da cidade lhes daria uma vida mais folgada, com menos despesas , e o que sobrasse ainda daria para guardar para a educação das crianças. Mas Dora era implacável: ninguém 
venderia sua casa.

O jardim era totalmente tomado pelo mato, as árvores ressecadas, o gramado – ou o que um dia fora um gramado- tão alto que chegava acima dos tornozelos. Ás vezes Jorge ia até a garagem, pegava o velho aparador de grama quase cego e tentava melhorar tudo, mas isso era muito raro. Á esquerda da casa ficava a garagem, uma estrutura de madeira cuja tinta branca descascava em grandes pedaços. Lá dentro, além do carro popular da família, dormia uma velha limusine preta, herança de Dora. Estava coberta por uma lona encardida, mas a lataria estava em perfeito estado. Mais uma das excentricidades de Dora, a qual ela venerava. Uma ou duas vezes por ano, ela tirava a lona, lavava a lataria com a mangueira, aspirava o interior do carro. O motor há muito não pegava mais, mas um mecânico lhe dissera que , se o consertasse, poderia ficar perfeito. Mas eles não tinham dinheiro, e mesmo se pudessem consertá-lo, não poderiam circular por aí com uma limusine.

A pintura das paredes descascava dentro de casa, e do lado de fora, tinha desbotado tanto que era difícil perceber que um dia a casa tivera uma cor. No meio do jardim havia uma fonte – quebrada – que fora trazida da França pelo avô de sua mãe. O mármore estava tão sujo que parecia feita de cimento.
A casa tinha vários banheiros, mas o encanamento era velho e vivia entupido, e como não tinham dinheiro para efetuar os consertos, eles apenas fechavam as portas e passavam a usar um outro. Nenhum dos banheiros das suítes funcionava, e agora todos usavam o banheiro do andar térreo, pois era o único cuja descarga funcionava e de cujas torneiras e chuveiro ainda saía um pouco de água. Na cozinha, os azulejos por cima da pia estavam caindo, e a cada dia aparecia, por entre os antigos azulejos portugueses caríssimos pintados a mão, uma nova janela de cimento escura e feia. Os azulejos soltos que não tinham se quebrado eram empilhados num canto sobre a pia, na esperança de que um dia alguém os colocasse no lugar.
Quanto á arrumação da casa, se é que havia uma, constava de alguns móveis de boa qualidade entre muitos outros baratos e sem qualquer estilo. Rolos de poeira pairavam sobre os tapetes desbotados e o assoalho de tábuas corridas mal-varrido. Não podiam pagar uma empregada – o salário de funcionário público de Jorge não o permitia - e Dora jamais aprendera, em sua juventude, como cuidar de uma casa. Além disso, fazia questão de frisar que jamais deixaria sua linda princesinha 
( Eduarda) pegar numa vassoura.

Quando não estava em casa, enfiada em seu macacão jeans, Dora usava um de seus velhos vestidos dos tempos em que era rica. Mas eles já estavam desbotados e fora de moda, sendo que a maioria deles estavam apertados e não lhes caiam bem.

Todos na casa, com exceção de Eduarda, fumavam muito. As cortinas pesadas da sala de estar, de sêda cor-de-rosa desbotada, cheiravam a fumaça de cigarro, e cinzas eram acumuladas no chão junto aos sofás e poltronas. Os cinzeiros sobre a mesinha de centro da sala quase nunca eram limpos, e viviam transbordando de guimbas de cigarro.

Eduarda observava suas colegas de classe, sempre bem arrumadas e penteadas, e comparava-se com elas. No caminho de casa, depois das aulas, passava pelas suas casas limpas e bem-cuidadas, e secretamente invejava os gramados verdes, as paredes pintadas, as cortinas brancas que esvoaçavam com a brisa. Estudava num dos colégios mais caros da cidade apenas porque era bolsista, o que conseguira devido ao seu próprio esforço e empenho. Ela mesma se inscrevera para tentar a bolsa, e quando a conseguiu, seus pais foram a escola e assinaram a autorização, Dora com lágrimas nos olhos, dizendo à diretora o quanto tinha incentivado a filha, enquanto Jorge apenas a observava,
calado. 

Seu irmão, enquanto isso, tinha sido reprovado novamente no colégio estadual. Mas ninguém parecia se importar. Ás vezes Eduarda tinha a impressão de que os pais temiam Getúlio, talvez devido às suas más companhias, ou quem sabe, evitavam vasculhar demais a vida dele porque no fundo, sabiam o que encontrariam, e ou não queriam se dar ao trabalho ou não tinham estrutura emocional para tomar uma atitude. Algumas vezes Eduarda tentara se comunicar com o irmão, mas ele respondia com grunhidos monossilábicos e afastava-se logo, irritado.
Bem, naquela manhã de segunda-feira, enquanto Eduarda penteava seu cabelo em frente á cômoda, Dora entrou no quarto da filha e pôs as mãos em seus ombros, olhando Eduarda pelo espelho:
-Filha, tenho algo muito importante para lhe dizer.
Eduarda tentou desconversar, dizendo que estava atrasada para a escola, mas Dora insistiu:
-Você sabe, a caixa...



Eduarda sabia exatamente do que a mãe estava falando. Tratava-se de uma caixa de madeira forrada de veludo azul, achatada, com um fecho dourado, que sua mãe guardava na prateleira mais alta do seu guarda-roupas. Somente ela, Dora, sabia o que a caixa continha, e não permitia que ninguém mais a tocasse, nem mesmo Jorge, ou melhor, muito menos Jorge. Eduarda percebeu que uma grande revelação estava para ser feita. 
Dora sorriu e continuou, agora sentando-se na beirada da cama da filha e convidando-a para sentar-se em frente a ela.
- Dentro daquela caixa está o seu futuro. Digo seu porque não tenho muita certeza se seria uma boa idéia dizer a Getúlio o que está lá dentro, você sabe.
- Então, mãe, o que tem na caixa?
- É um colar de esmeraldas verdadeiras, e um par de pingentes de diamantes, muito valiosos. São jóias de família, herança de sua avó, e estão na família há muitas gerações.São muito antigas e valiosas.Nunca deixei que ninguém soubesse, com medo de que quisessem vendê-las, ainda mais seu pai, você sabe... ele sempre quis vender a casa, mas é o patrimônio da família, é o que tenho para deixar para meus filhos. Não vou deixar que ele a venda e torre o dinheiro com suas mulheres, como meu pai fez com minha mãe.
Eduarda estava tentando digerir o que a mãe acabara de lhe dizer. Mas não conseguia acreditar. No mínimo, Dora estava exagerando.

-Mãe... você disse que as jóias são valiosas? Como assim?
-Elas valem... alguns milhares de dólares. Foram trazidas da França pela bisavó de minha avó materna, adquiridas durante um leilão. Valem mais que o suficiente para você concluir seus estudos da maneira como desejar, na melhor faculdade do mundo, onde quiser, o curso que quiser, sem precisar se preocupar com dinheiro para despesas, acomodação, etc.
-Mas como você tem certeza de que elas valem tanto?
-Eu mandei avaliá-las há alguns dias. Para dizer a verdade, eu sabia que eram valiosas, mas nem mesmo eu tinha idéia do quanto. Daria para comprar um bom apartamento, financiar seus estudos na Europa, viajar pelo mundo.

Eduarda olhou para fora. A chuva continuava caindo, mas ao invés de uma paisagem triste, teve a impressão de que agora tudo estava mais bonito. Dora parecia perdida em seus pensamentos.
-Lembro-me do dia em que mamãe as deu para mim, pouco antes de minha festa de quinze anos. Queria que eu as usasse, mas na época, achei-as muito pesadas, e usei apenas os brincos. Ah, como foi maravilhosa aquela noite... felizmente, quando papai se foi, minha mãe as tinha escondido em um lugar secreto, ou ele as teria levado, como levou tudo o mais... bem, elas serão suas, agora. Você é a única mulher da família, você sabe.
- Mas.. e Getúlio?
-Getúlio... ele tem o sangue ruim, filha. Há muito tempo eu percebo que anda se drogando. Falei com seu pai, mas ele finge não perceber. Eu, sinceramente, não sei o que fazer. Tentei conversar com ele, mas ele me deixou falando sozinha. 
- Mas você e papai têm que tomar uma atitude mais drástica! Não podem simplesmente desistir de seu filho!
-O que quer que façamos?
- Como assim?! Você é quem deveria saber. Poderiam... interná-lo em algum lugar, poderiam falar com ele, saber até que ponto ele está envolvido com drogas. Mãe, ele foi reprovado de novo!
- Eu sei... na verdade, ele não aparece na escola há algum tempo. Eduarda, você tem o sangue da minha família, é inteligente, esforçada, dedicada, brilhante! 
- E daí?
-Daí que... você sabe, acho que você merece mais que seu irmão. Quero dizer... é claro que esse dinheiro dá para os dois se educarem bem, mas sei que ele não vai usá-lo para isso, vai gastar tudo sabe Deus em quê... então eu quero que você fique com a maior parte.
-O que eu não entendo é que durante esses anos todos nós passamos o diabo nesta casa, comemos mal, nos vestimos mal e o tempo todo você tinha dinheiro suficiente para que tivéssemos uma vida melhor...
Dora levantou-se e foi até a janela.
- Mas eu não podia deixar que seu pai soubesse. Eu não queria que ele fizesse como meu pai. Mas você vai fazer quatorze anos daqui a dois meses, e quero que você saiba que essas jóias existem.Você sabe, a gente nunca pode prever o que vai acontecer.

Eduarda notou um tom estranho na voz da Dora. Na verdade, nunca houvera nenhuma prova de que seu pai tivesse outras mulheres, e ela mesmo achava que tudo não passava de paranóia de sua mãe. Apesar de ser um homem bonito, que mulher estaria interessada em se envolver com um homem complicado como Jorge, sempre mal-vestido, com um empreguinho insignificante na repartição pública e ainda por cima, casado com uma alcoólatra e pai de dois filhos?

Lembrou-se do dia em que sua tia Annette veio visitá-los. Dora inundou os ouvidos da cunhada com estórias sobre suas suspeitas a respeito de Jorge. Annette disse-lhe que Dora estava precisando de um médico, pois seu irmão era um marido fiel e dedicado, mas que ela, Dora, precisava urgentemente de um tratamento, pois não estava muito bem da cabeça. Parecia obcecada pelo passado.
Dora colocou-a para fora de sua casa.
Bem, naquela manhã de segunda feira, uma Eduarda feliz e satisfeita foi para a escola e fez um teste de matemática para o qual não tinha estudado. Tirou 9.5.


(Continua...)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

ALMAS GÊMEAS





ALMAS GEMEAS

Foi durante uma festa que eles se conheceram. Após o casamento, em um salão de baile lotado, ele ocupava uma mesa à direita, com a esposa e alguns membros da família, enquanto ela ocupava uma outra mesa à esquerda em frente à dele, com um grupo de amigas.
Ela, 23 anos, olhava em volta procurando alguém para flertar e divertir-se. Quem sabe, dar uma esticadinha após a festa. Ele, 50 anos, olhava em volta despreocupadamente, embora não tão inocentemente assim, até que seus olhares se cruzaram. Ela percebeu que já o tinha visto, no momento em que ele estacionava seu carrão. Ele lembrou-se que já a tinha visto na igreja, usando um tubinho curto, apertado e chamativo, sem perceber que parte da etiqueta da loja de aluguel aparecia nas costas. No momento em que seus olhos se encontraram, uma série de pensamentos começou a fluir entre eles:
Ele: “Nossa, que corpão! Se eu pudesse tocar aqueles seios enormes, arrancaria dela gemidos de prazer!”
Ela: “Nossa, que carrão! Se eu pudesse tocar aqueles bolsos volumosos, arrancaria deles até o último centavo!”
Ele: “Ah, o volume daquele traseiro sob o vestido apertado!...”
Ela: “Ah, o volume daquela carteira sob aquela calça apertada!”
Ele: “Eu daria casa, comida e roupa lavada se conseguisse conquistá-la!”
Ela: “Eu faria plástica nos seios, na bunda e no rosto, e ainda por cima, tomaria um ‘senhor’ banho de loja se conseguisse conquistá-lo!”
Ele: “É de largar a família!”
Ela: “É de largar a balada por uns tempos...”
Ele: “Aposto que ela está me olhando e admirando meu ar másculo e experiente!”
Ela: “Aposto que ele está me olhando e pensando que eu estou admirando seu ar másculo e experiente!”
Àquela altura, ele sorri discretamente para ela. E ela sorri discretamente dele.
Ao saírem, ele deixa cair sobre a mesa dela o seu cartão de visita. Ela pisca, rindo abertamente. Ele pensa: “Está no papo!” E ela, finalmente, pensa a mesma coisa que ele. 



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A CHAVE NO VASO - CONTO MINIMALISTA






A CHAVE NO VASO



bastante preensiva, o coração aos pulos, quase saindo pela garganta, eu caminhava pela rua reta. As casas ainda dormiam. Era manhã de domingo. Enquanto eu me dirigia ao meu destino, olhava tudo à minha volta e percebia que nada mudara. Os anos que passei longe pareciam não ter passado por ali.
Um sol fraco tingia de vermelho o horizonte, que queria amanhecer. Coloquei no chão minha valise, e fiquei contemplando aquela cena, mas na verdade, estava apenas tentando ganhar coragem.
Quando eu fui embora, saí pisando duro e batendo a porta. Não me importei com as súplicas de quem me pedia para ficar: "O mundo lá fora pode te despedaçar... aqui, estarás segura! Fique, pois esta é a tua casa."
Mas o horizonte gritava aventuras. 
Saí, e não olhei para trás. Mas pude vislumbrar, em meu pensamento, a figura de pé à porta, olhos presos às minhas costas até que eu desapareci na curva do caminho.
E agora, anos mais tarde, aqui estou novamente. 
Respiro fundo, e pego minha valise. Caminho mais um pouco. Pássaros cantam, e algumas janelas já começam a se abrir.
Paro em frente a casa que deixei há tanto tempo. Sobre o peitoril da janela, os três vasinhos de violeta carregados de flores. Sempre deixávamos a chave sob um dos vasinhos, caso um de nós chegasse mais cedo ou mais tarde. Poderíamos ter feito uma cópia da chave, mas isso teria tirado a emoção de procurar por ela. Era um jogo que gostávamos de jogar.
Levanto o primeiro vaso. 
Levanto o segundo vaso.
Levanto o terceiro vaso...




quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A COR DO TEU SORRISO





DOM OU MALDIÇÃO: E SE VOCÊ PUDESSE ENXERGAR A VERDADEIRA COR DOS SORRISOS DAS PESSOAS? SE FOSSE POSSÍVEL PERCEBER COM CLAREZA TODAS AS MENTIRAS QUE OS OUTROS CONTAM, COMO SERIA A SUA VIDA?

Desde muito pequeno, quando começou a falar, João percebia coisas estranhas que ele não sabia explicar. Notaram isto pela primeira vez enquanto a mãe ensinava-o a reconhecer as cores. Ela pegou uma fotografia em um livro de histórias, e mostrando a ele os desenhos pintados de árvores, princesas, animais e flores, ia apontando e dizendo: “Azul.” O menininho olhava curioso, e repetia: “Azul.” João aprendia rápido, e jamais esquecia. Os pais muito orgulhavam-se dele, pois falava fluentemente com apenas um ano e meio, e de forma tão eloquente, que surpreendia até mesmo ao pediatra que o assistia. Pronunciava corretamente as palavras, distinguindo gênero, número e grau com perfeição. Também não fazia as confusões normais que as crianças pequenas faziam ao utilizar os verbos; sabia muito bem a diferença entre passado, presente e futuro.
João gostava muito de animais e plantas. Passava horas brincando no jardim de sua casa, entretido com a variedade de flores, perfumes, texturas e cores. Era gentil, e sempre tratava bem os animais. Apesar de muito pequeno, ele sabia, de alguma forma, que eles sentiam dor e outras emoções ‘humanas,’ como medo, tristeza, alegria e amor. João entendia muito bem de emoções. Quando via alguém triste perto dele, ele parava de brincar e ficava olhando para a pessoa, e então, se aproximava , sentava-se ao lado dela e a consolava com carícias; certas vezes, se a tristeza fosse forte demais, ele chorava. As lágrimas iam nascendo e rolando de seu pequeno rosto, sem que ele conseguisse controlá-las.
Já ia esquecendo de mencionar; quando nasceu, João já tinha dois irmãos: Tatiana, de cinco anos, uma menina doce, esperta e bonita, que às vezes, tinha ataques de sonambulismo, e Pedro, de sete anos, um garoto arteiro, o espevitado, como seu pai costumava chamá-lo. O nascimento de João causou muito ciúme entre os irmãos, que se viram privados da total atenção e dedicação de seus pais. Era difícil, para eles, lidar com as reações exageradas e pirraças de seus filhos mais velhos. Por mais que tentassem demonstrar que amavam igualmente a todos, os pais sempre os viam enciumados e ranhetas em relação ao irmãozinho recém-nascido. Com o tempo, Tatiana conseguiu vencer um pouco o ciúme, abrindo-se à chegada de João de forma mais positiva, mas Pedro continuou guardando muitas reservas quando ao irmão. Recusava-se a emprestar-lhe os brinquedos, e gostava de colocar seus amigos contra o irmão mais novo. O grupinho de meninos se juntava e causava muitos constrangimentos a João, que pequenino, não entendia que estava sendo ridicularizado ao desfilar entre os meninos usando os vestidos da irmã; ele via os garotos rindo, e gostava de agradá-los. Mas quando a mãe pegava Pedro submetendo o irmão, ainda quase um bebê, àquelas sessões de bullying, ela o repreendia e colocava de castigo, o que só servia para causar ainda mais ressentimentos em Pedro. João passava pelo irmão sentado no corredor, rosto virado contra a parede, e não entendia por que ele o olhava daquela maneira esquisita.



Bem, mas como já foi explicado mais acima, algo estranho aconteceu enquanto a mãe ensinava João a reconhecer as cores; de repente, ele olhou a mãe, perguntando:
-Mamãe, por que algumas pessoas tem os dentes pretos e outras tem os dentes brancos quando tiram fotos?
A mãe ficou sem fala; não entendeu a pergunta, e apenas sorriu, explicando que todas as pessoas tinham os dentes praticamente brancos; algumas os tinham um pouco amarelados, mas dentes eram geralmente brancos. Então, João correu até a estante, aonde havia uma fotografia de família, tirada em uma festa de casamento, e mostrando-a à mãe, foi apontando as pessoas cujos dentes eram negros. A mãe percebeu que as pessoas que João apontava eram consideradas como as mais difíceis da família do marido: Tio Jorge, um senhor autoritário, sempre preocupado em como ganhar e jamais perder dinheiro; Tia Margarete, uma mulher bonita, cínica e extremamente vaidosa, esposa de Tio Jorge, que adorava fofocar sobre a vida alheia e aproveitar todas as oportunidades possíveis para sair em colunas sociais. Joana, uma prima viciada em sexo, que apesar de casada, tinha vários amantes. Todos sabiam, a não ser Teo, o marido – também apontado por João como alguém que tinha dentes pretos: Teo era viciado em jogo e bebida, e quase dilapidara a fortuna da família.


Enquanto o menino apontava as pessoas que enxergava como tendo dentes pretos, a mãe ia ficando cada vez mais constrangida. Então, ele apontou as pessoas de dentes brancos, normais: os avós, alguns primos. Aquela fotografia era da família do marido, e como sua família não estivesse na foto, Joana sentiu-se curiosa para saber quem, entre eles, teria dentes pretos. Ao mesmo tempo, achou melhor não perguntar, pois não queria causar ainda mais confusão na cabeça do menino.
Aquele episódio terminou com a mãe zangada dizendo ao menino: “Jamais aponte pessoas com dentes pretos em fotografias, OK, filho? É muito feio! Se você fizer isso de novo, eu o colocarei de castigo!” João assentiu com a cabeça, os olhinhos arregalados e cheios de lágrimas.
Os anos se passaram, e os irmãos cresceram. Na escola, João era brilhante, enquanto Pedro só causava problemas. Tatiana tornou-se uma beldade, e todos os garotos queriam namorá-la, e João sabia quais deles tinham intenções sinceras a respeito da irmã, pois ele via uma pequena fumaça negra saindo do alto da cabeça das pessoas quando elas mentiam. A irmã ainda sofria de sonambulismo, e um dia, acordou no jardim da casa, à beira da piscina. Depois daquele perigoso episódio, os pais colocaram um alarme na porta do quarto da mocinha. Era sempre Pedro que ia acudi-la quando o alarme soava. Com o tempo, estas ocasiões foram ficando mais e mais raras.





Aos poucos, João foi aprendendo a entender os sinais que sempre estiveram com ele ao longo de sua vida, conseguindo estabelecer um padrão sobre seus significados. Por exemplo: as pessoas de dentes negros em fotografias, eram pessoas sem caráter, que ambiciosas, não se importavam com nada nem ninguém, a não ser elas mesmas; quando  mentiam, as pessoas emitiam, aos olhos de João, uma fumacinha negra saindo do topo de suas cabeças; quando João assistia ao noticiário na TV, percebia que alguns políticos e criminosos tinham, ao mesmo tempo, os dentes negros, a fumaça negra e também olhos vermelhos – sinal que ele aprendeu a interpretar como extrema crueldade. As pessoas circundadas por uma aura cor de rosa eram extremamente vaidosas e superficiais, mas geralmente, inofensivas (algumas das amigas de sua irmã eram assim).
Assim, quando João queria saber mais a respeito de alguma pessoa, ele as fotografava ou filmava. E as pessoas, quase sempre vaidosas, adoravam deixar-se ser fotografadas e filmadas – principalmente quando ele dizia que era para postar na rede social.
Infelizmente, era com muita tristeza que João via, em várias ocasiões, a fumaça negra saindo do topo da cabeça de seu irmão; principalmente quando ele pedia dinheiro ao pai para sair com os amigos, e prometia que não estava mais usando drogas. A maioria dos amigos do irmão também tinham fumaças negras, dentes negros e alguns, olhos vermelhos.
Mas havia também, em raríssimas ocasiões, pessoas com auras azuis; quando as encontrava, João sabia que estava diante de seres de muita bondade, pessoas verdadeiras e altruístas, desprovidas de maldade, arrogância ou vaidade extrema. Mas estas ocasiões eram bem raras. Geralmente, pessoas assim estavam envolvidas com trabalhos de caridade (caridade sincera e não alardeada como meio de autopromoção) e ajudavam muitas pessoas a livrarem-se de suas fumaças e dentes pretos. Não guardavam ressentimentos, não mentiam e nem ambicionavam acumular coisas materiais. E João sabia que muitas das pessoas que se diziam caridosas e altruístas, comandando ONGS e relacionando-se com Associações protetoras do meio-ambiente e  vida animal, mentiam e tinham outros propósitos.



A maioria das pessoas, eram neutras; João não via nada especial emanando delas, a não ser quando mentiam (a fumaça negra). Nesta classificação, estavam também , às vezes, seus pais e sua irmã Tatiana.
Certa vez, quando sua irmã tinha vinte anos, e João, quinze, ela chegou em casa radiante; era um almoço de domingo. Estava acompanhada de um belíssimo jovem, que apresentou como seu namorado. Ele estava se formando em Direito, tinha porte atlético, participava de clubes locais como atleta (jogava tênis e tinha ganho alguns campeonatos estaduais no passado) e pertencia à família rica e tradicional. O sonho de todas as sogras. Sua mãe e seu pai não cansavam de paparicá-lo de todas as formas, enquanto Pedro o tratava com cordial indiferença e Tatiana derretia-se toda ao olhar para ele. Mas desde que pusera os olhos nele, João tivera péssimas impressões: ele tinha a fumaça negra constantemente emanando de sua cabeça altiva; seu olhar orgulhoso às vezes mostrava sinais de riscos finos e vermelhos na íris, que apareciam como raios promissores (antes de conhecer César, João só conseguia ver tais raios vermelhos em fotos e filmes); e ao examinar algumas fotografias de um passeio em que os dois (ele e a irmã) mostraram, João viu os dentes mais negros e brilhantes que já tivera a chance de enxergar!
João permaneceu calado durante todo o jantar. Não conseguiu evitar seu desconforto na presença daquele rapaz simpático, bonito e inteligente, que aos olhos dos outros, emanava brilho e virtude. Quando o jantar terminou, João procurou a mãe, e tentou, em particular, falar-lhe de suas impressões; a mãe o repeliu com energia, afirmando que ele estaria apenas com ciúmes da irmã, o que era normal. César – o rapaz em questão – era a pessoa mais adorável que ela já conhecera, e além disso, de boa família. Enquanto ela falava, uma aura cor de rosa formava-se em volta de sua cabeça.



O tempo passava, e logo os dois ficaram noivos. João desesperava-se ao ver o casal, e desejava contar à irmã (que já se aborrecera e brigara com ele pela maneira como João tratava seu noivo) que César era a pessoa errada para ela. Mas a mãe o fez prometer várias vezes que não ‘estragaria’ a vida da irmã com suspeitas infundadas; afinal, o que eram impressões e intuições em um mundo concreto? A mãe, sendo a única que sabia das intuições do filho e o proibira de falar delas com mais alguém, temendo que considerassem seu filho ‘esquisito’, achava que com o tempo, elas desapareceriam. Por isso, não mereciam a menor atenção.
Um dia, durante um almoço familiar de sábado, a mãe, rodeada por uma aura rosa choque, mencionou que o pai estava envolvido em um importante projeto na empresa; tão importante, que estava trabalhando duro para vê-lo realizado, fazendo serões todas as noites. Rindo, ela contou a César que às vezes, o marido chegava após a meia-noite, e voltando-se para o marido pediu confirmação, toda coquete: “Não é verdade, querido?” Naquele momento, enquanto o pai respondia “Sim”, dando alguns detalhes superficiais e logo desconversando, João viu sair do topo de sua cabeça uma negra fumaça. Ao mesmo tempo, César emanou um raio vermelho brilhante de sua íris. Na mesma hora, o rapaz sentiu câimbras no estômago e pediu licença para deixar a mesa.
Sentou-se em sua cama, rememorando o local aonde acabara de estar: a mãe e a irmã, rodeadas de um rosa choque nauseabundo, teciam elogios a César – que emanava fumaça preta enquanto contava vantagens; o irmão, emagrecido, cheio de olheiras e um tanto taciturno, também soltava faíscas vermelhas ocasionalmente ao olhar para as pessoas à mesa; o pai – a pessoa que João mais amava – estava mentindo para sua mãe.
O dia passou, e João permaneceu em seu quarto com a desculpa de que não estava se sentindo muito bem. Quando César foi embora e seu irmão saiu para mais uma de suas noitadas, seguido por um rastro de fumaça negra e prometendo que não estava mais usando drogas – o rapaz esperou a mãe ir para a cama, e então, aproximou-se do pai:
-Pai, você mentiu para a mamãe. Por que?
O pai parou de ler o jornal, olhando para João, desconcertado:
-Não sei do que está falando, meu filho. Pode explicar melhor? (João viu a fumaça negra se formando no topo da cabeça do pai)
-Hoje, à mesa, você mentiu. Não existe projeto nenhum, certo? Pai, você tem uma outra mulher?...
-O pai jogou o jornal sobre a mesinha, e tirou os óculos, exclamando:
-Quem você pensa que é para me fazer esse tipo de pergunta, João? Acha que eu lhe dou o direito de meter-se na minha vida?
-Mas eu também estou em sua vida, pai, e esta é a minha família! Por que?... Eu... só queria entender! Você vai deixar a mamãe? Você... vai nos deixar?
O pai levantou-se, zangado, e caminhando na direção do quarto, esbravejou:
-Nunca mais diga besteiras, menino. Não ponha minhocas na cabeça de sua mãe. E não quero mais ouvir você falar desse assunto!
João escutou a porta do quarto bater e os pais conversando em voz baixa; depois viu, pela fresta da porta, a luz apagar-se. Depois daquele episódio, o pai passou a evitar João, o que muito o entristeceu. Chegava em casa cada vez mais tarde, e João percebia a tristeza nos olhos da mãe – que continuava fingindo que tudo estava muito bem.




Um João infeliz teve que assistir, meses depois, o casamento de sua irmã com o desclassificado do César. Na igreja, percebeu que várias pessoas da família de César tinham as mesmas características que ele. O ar durante a recepção era quase irrespirável.
Quando a irmã voltou da lua de mel, querendo mostrar o pendrive com as fotografias e filminhos, João deu um jeito de sair de casa. Não suportaria ver as verdadeiras cores daquela festa. Tatiana ficou muito magoada, e César, fingindo bondade, disse a todos que adolescentes eram assim mesmo, e que ele também já tinha vivido aquela fase de ciúmes da irmã. Ela sorriu, abraçando-o. Mas César não suportava João e Pedro, e apenas tolerava os pais de sua esposa. Quanto a ela, César sentia desejo e posse, além de interesse na empresa do sogro, embora repetisse a todo momento o quanto a amava.
O tempo quase trouxe à tona a verdade a respeito de César; um dia, meses depois do casamento, a mãe telefonou à filha, que já não aparecia para visitar ou dava notícias há alguns dias. Ela fingiu estar muito ocupada na arrumação de sua nova casa, mas a mãe sabia que tudo já tinha sido organizado antes mesmo do casamento, e que Tatiana dispunha de duas empregadas domésticas. A mãe também notou a falsa alegria no tom de voz da filha. Assim, decidiu fazer-lhe uma visita surpresa, chamando João para acompanhá-la. Ele já sabia da verdade sobre o casamento da irmã, mas sempre que tentava tocar no assunto, a mãe o repreendia.
Lá chegando, uma das empregadas- uma senhora altiva e formal, que João detestou imediatamente - atendeu à porta e perguntou se eles tinham hora marcada. João surpreendeu-se ao ver a mãe enfrentá-la:
-Quem você pensa que é para me fazer essa pergunta? Eu sou a mãe dela, e você, uma simples empregada. Exijo que vá chamar Tatiana.
A mulher ainda tentou barrar-lhes a entrada, dizendo que tinha ordens do patrão para não admitir ‘estranhos’ sem hora marcada na casa, mas a mãe a empurrou com energia, dizendo que se ela não fosse chamar Tatiana imediatamente, ela mesma iria procurá-la. A empregada bufou de indignação, e subiu as escadas pisando pesadamente.


Mãe e filho ficaram de pé no imponente hall de entrada (a empregada nem sequer os conduziu até a sala de estar). Quase meia hora se passou até que a empregada retornasse, e de má vontade, indicasse o sofá da sala, grunhindo que “Madame Tatiana já iria recebê-los.” Mãe e filho esperaram, até que Tatiana surgiu à porta. Ambos perceberam que ela tinha emagrecido um pouco, e estava pálida. Apesar do calor, usava um vestido de mangas compridas, que a deixava muitos anos mais velha. Ela demonstrou uma alegria forçada e coquete enquanto conversava com mãe e irmão, afirmando que nunca tinha sido tão feliz na vida. Mas ambos perceberam que havia muitas coisas erradas por ali.
João dirigiu-se à irmã, perguntando o motivo de ela estar usando um vestido como aquela em um dia de verão, e ela dissera que tinha sido um presente da sogra, e que gostava de agradar o marido. Inesperadamente, ele pulou sobre a irmã, erguendo a manga do vestido e mostrando marcas roxas em seu braço. Ela tentou negar, dizendo que tinha adquirido as tais marcas enquanto varria sob a cama, mas ninguém acreditou. Enquanto isso, rolos de fumaça negra emanavam de sua cabeça.
A mãe, indignada, disse que ela deveria fazer as malas imediatamente, e que a levaria de volta para casa. João sentia na pele o medo e a angústia da irmã. Tatiana respondeu:
-Eu não posso, quero dizer, não quero ir, mãe. Estou bem, não se preocupe. É que César às vezes fica um pouco nervoso, mas a culpa foi toda minha. Eu o desafiei... eu o irritei demais... ele me trata muito bem, é um bom homem. Nada me falta...
-Tatiana, esta mulher mais parece uma carcereira! Não queria nos deixar entrar na casa.
-Ela apenas não os conhece, mãe.
-Eu disse a ela que sou sua mãe!
Tatiana suspirou fundo, e sorriu, tentando relaxar:
-Dora às vezes é muito superprotetora... mas ela me trata muito bem.
João não resistiu, gritando com a irmã:
-Você está mentindo! Por que?




Naquele instante, pela janela aberta entrou um enorme besouro negro, de aparência ameaçadora e enormes antenas, e começou a sobrevoar a sala indo pousar próximo à Tatiana. O animal era quase tão grande quando um punho, e Tatiana deu um gritinho, o que fez com que Dora, a empregada, entrasse na sala. Mãe e filho perceberam que ela estivera ouvindo a conversa deles o tempo todo, tal a rapidez com que entrou. Tatiana mandou que ela pegasse uma vassoura e colocasse o animal para fora. Mas João ficou com os olhos presos no inseto, sentindo coisas terríveis... olhou para a irmã, aproveitando a saída de Dora, e disse, desesperado:
-Tati, vamos sair por aquela porta agora! Já! Deixe suas coisas aí, a gente compra tudo outra vez...

Tatiana levou uma das mãos à garganta, mas nada disse. Os três se entreolhavam na sala silenciosa, e João percebeu o desespero da irmã e a sua hesitação. O besouro soltou um ruído horroroso, que fez com que arrepios percorressem o corpo de João. Ele se pôs de pé, insistindo para que fossem embora. Sabia que já tinha conseguido convencer a irmã. Ela segurou a mão dele, mas naquele momento, Dora voltou com a vassoura, e César entrou na sala. Todos ficaram surpresos com a presença dele àquela hora em casa, e João concluiu que Dora o tinha avisado. Tatiana olhou para ele transida de pavor. O olhar que César dirigiu a ela estava cheio de raios vermelhos. O besouro voou para fora antes que a vassourada de Dora o atingisse.
César permaneceu olhando os visitantes por alguns segundos, e de repente, sua face carrancuda abriu-se no mais lindo sorriso, e ele estreitou a sogra nos braços, dando-lhe as boas vindas, mas ignorou João. Convidou-os a sentar-se novamente com um gesto. Tatiana estava muito tensa. João percebeu a troca de olhares entre César e Dora, e ela deixou a sala, voltando com uma bandeja de chá gelado. A atmosfera era muito tensa, e um ar de falsidade pairava sobre César. João começou a sentir as terríveis câimbras no estômago.



A conversa tornou-se amena, habilidosamente conduzida por César e seu ar sedutor e conciliador. A mãe tinha quase relaxado, mas ainda mostrava as sobrancelhas franzidas. De repente, César levou as mãos aos olhos, enxugando algumas lágrimas, e murmurando repetidamente:
-Me desculpem, me desculpem, o que eu fiz foi... foi terrível... jamais voltará a acontecer...
Todos se entreolharam. João percebeu que além de negra, a fumaça que saía da cabeça de César tinha um fedor nauseabundo. Ele nunca antes sentira cheiros acompanhando suas visões. Viu que a mãe olhava seu odiado cunhado com um olhar confuso. Tatiana aproximou-se de César, abraçando-o, e dizendo: “Está tudo bem, querido...” mas ele olhou-a nos olhos, e voltou a secar algumas lágrimas com um lenço que tirou do bolso. Foi sentar-se perto da sogra, e segurando suas mãos, confessou que tinha, sem querer, ferido Tatiana. Disse amá-la demasiadamente, e sentir muitos ciúmes. Pedia perdão pelo seu ato abominável: ele a segurara com força demais durante uma pequena discussão, e ele nem percebeu que a estava ferindo. Mãe e filha passaram a consolar o algoz, enquanto João tentou acalmar suas câimbras estomacais com um gole de chá gelado. Sabia que a batalha estava perdida, e que se ele tentasse tirar Tatiana daquela casa naquele momento, todos estariam contra ele.
Após servido um delicioso lanche (Dora fingindo simpatia e solicitude daquela vez) mãe e filho deixaram a casa, sendo conduzidos à porta pelo ‘feliz’ casal. João sentia uma amargura inexplicável no peito, e ao olhar para trás após despedir-se, procurando no rosto da irmã algo que justificasse seu sentimento, viu apenas um rosto feliz e um olhar tranquilo. Ela abraçava a cintura do marido, que acariciava seus cabelos. Engolindo em seco, João ainda tentou, a caminho de casa, convencer a mãe de que algo estava errado, mas ela mais uma vez não acreditou nele, dizendo que casais às vezes brigam, mas que César fora muito honesto confessando seu erro e pedindo desculpas.



Três dias depois, o telefone tocou às duas e trinta e cinco da manhã, despertando a família. Era César, aos prantos. Tatiana havia caído e rolado as escadas. Ele mal falava coisa com coisa, mencionando um dos ataques de sonambulismo da esposa. Sua fala, entrecortada por soluções, deixava o pai, que atendera o telefone, ainda mais nervoso. Apenas João, que via a fumaça negra saindo do bocal do aparelho de telefone, sabia a verdade: César tentara matar sua irmã!
Ao chegarem ao hospital, a família descobriu que o estado de Tatiana era gravíssimo. César, de olhos vermelhos, andava de um lado ao outro do corredor, sempre consolado por seus pais. Contou que chegara tarde em casa, após visitar os pais e participar de um jogo de gamão com eles, e encontrara Tatiana caída nos degraus da escadaria que conduzia ao segundo andar. Disse que Tatiana mencionara ter sofrido de sonambulismo na infância, mas que ela mesma havia dito que os ataques cessaram há anos.
Tatiana morreu naquela mesma noite. Apenas João sabia da verdade, mas concluiu que de nada adiantaria fazer acusações sem provas. Foi aberto inquérito policial, e como César tinha um álibi forte, confirmado por seus pais e por sua empregada Dora, e sendo a família rica, importante e com excelentes advogados, a história terminou ali. João não contava sequer com o apoio da mãe, a única que sabia sobre seus pressentimentos e visões. 



Uma semana após o funeral, César e seus pais apareceram para uma visita.
Foram muito bem recebidos pela família – até Pedro estava comovido com a presença deles. Principalmente depois que César entregou-lhes alguns objetos da esposa falecida, contando histórias sobre os momentos felizes nos quais tinham sido adquiridos. Dizia que achava importante que a família os guardasse, como prova do imenso amor que ele nutria por Tatiana.
Somente João percebia a aura de fumaça negra que rodeava aquelas três pessoas, a falsidade explícita em seus olhos. Foi quando de repente, ele viu que a aparência física daqueles três ia se modificando diante de seus olhos, a fumaça negra sendo intensificada e emitindo um cheiro de cadáveres em decomposição, enquanto a pele deles adquiria um tom cinzento e os olhos vermelhos e os dentes negros davam-lhes aparência de demônios. João piscou os olhos com força, sentindo seu estômago contrair-se de dor. Não pode evitar erguer-se, interrompendo a conversa, gritando: “Assassinos!” E depois daquilo, deixando a sala.
Atrás de si, o silêncio, seguido de murmúrios de desculpas. Logo depois, enquanto estava sentado em sua cama, chorando muito, sentiu a mão forte e pesada de César como garras em seu ombro direito. Quando ele o tocou, João sentiu-se muito nauseado, e as câimbras estomacais se intensificaram, obrigando-o a permanecer sentado e encurvado. Mas ele conseguiu resistir ao desmaio que tentava nocauteá-lo. César, com voz complacente, murmurou:
-Eu o desculpo, João. Sei que deve estar sendo muito difícil para você.
Sem olhar para ele, João respondeu:
-Pare de fingir, César. Só estamos nós dois aqui.
-Não estou entendendo o que você quer dizer, João; aliás, estou, mas fingirei que não, pois sei que você está muito emocionado, e quando estamos emocionados, podemos dizer ou fazer coisas das quais nos arrependemos mais tarde.
-Sim, eu sei. Inclusive, assassinar pessoas. Você matou Tatiana, empurrando-a daquela escadaria. Eu sei. Eu sei!
Retirando a mão do ombro de João – o que deu ao jovem um grande alivio – César respondeu:
-Você sabe, cunhadinho? E como é que você vai provar? Você tem um nome apropriado: João! João-ninguém. Eu tenho um álibi confirmado por três pessoas. E você, o que tem? Nada! Apenas suspeitas infundadas. Apenas... ‘sentimentos...’ você acha que é apenas a sua mamãezinha interesseira que sabe sobre as suas maluquices? Tatiana também sabia, e contou-me tudo. Todo mundo sabe que você não passa de um esquisito, um desequilibrado emocional que não tem amigos e vê pessoas com dentes negros, fumaças pretas e olhos vermelhos. E o   que mais, seu retardado mental?
Tentando controlar-se, pois não sabia que a mãe tinha traído seu segredo, João virou-se para César, deparando com seu rosto de demônio. Engoliu o grito que chegou-lhe à garganta ao olhar para ele e deparar com sua verdadeira aparência – a de sua alma imunda, e esforçou-se para lembrar-se que César nada poderia contra ele naquele momento. Tentando colocar frieza na voz, João continuou a conversa:
-Eu sei que você matou minha irmã, seu assassino. Você não passa de um filho da puta.
César respirou fundo, e João percebeu as ondas de cinismo que transfiguravam-lhe a face. Assassinos gostam de falar sobre seus crimes, pois sentem um prazer mórbido em revelar suas técnicas quando sabem que não serão descobertos.



-É verdade, meu amiguinho. Eu matei sua irmã. Empurrei-a daquela escada porque ela não passava de uma vagabundazinha de terceira classe que só queria saber de bater pernas na rua e gastar o meu dinheiro. Imagine que naquela noite, eu tinha contratado algumas prostitutas para me divertir um pouco no quarto de hóspedes, porque sua irmã frígida não me dava mais nenhum prazer, e ela teve a ousadia de invadir minha privacidade e expulsar minhas amigas! Sem contar as vezes em que ela me enchia o saco quando eu chegava tarde em casa das minhas noitadas. Ora, eu lhe dava tudo! Ela tinha uma casa confortável, dinheiro, joias, roupas. Eu precisava apenas de alguém que marcasse presença ao meu lado nas reuniões da sociedade, pois isto abriria portas para meus negócios. E a vadia da sua irmã não servia nem para isso. Foram oito meses de tortura ao lado dela, pois logo após as primeiras semanas de casamento, ela colocou as garras de fora com aquele papo de “Você não me beija mais e sempre chega tarde em casa.” Eu não aturo esse tipo de coisa.
João via o rosto do ex-cunhado transfigurar-se em imagens cada vez mais temíveis. Ele era capaz de ver os fatos que César narrava, desta vez, sem fumaças negras – pois ele estava dizendo a verdade. Mas seus olhos estavam cada vez mais injetados e vermelhos, a pele, cinzenta, e seu hálito, fétido. Seu riso negro e brilhante, de dentes pontiagudos e terríveis, era o que mais causava-lhe pavor, mas João consegui controlar-se.


-Você é um canalha sórdido, César, e seus pais também são. Vocês nunca me enganaram! Vocês são pessoas podres, mereciam estar atrás das grades, seu... seu...
César soltou uma risada, tapando a boca com as mãos.
-Cuidado, cunhadinho, ou o próximo será você. Adoraria mandar uma companhia para sua irmã, que, coitadinha, deve estar se sentindo tão só no inferno... tsc... tsc... agora eu vou lá para baixo; já fiz o social. Daqui a algum tempo, casarei com alguém que saiba merecer a minha generosidade. E você, vai acabar em um manicômio.
-Você está me ameaçando de morte? Você disse que eu poderei ser o próximo, é isso mesmo?
-Sim. Não leve como nada pessoal, caro cunhado. É só um aviso. Suma da minha vida, e mantenha sua boca fechada, e ficará tudo bem, ou então, daremos cabo de você, do seu irmão drogado e depois, do papai e da mamãe.
Dizendo aquilo, César saiu do quarto.
João respirava pesadamente, pois tentava encontrar algum oxigênio no quarto. Correu até as janelas, escancarando-as, e pode ver os três deixarem a casa. Antes de entrar no carro, eles se voltaram e olharam para João.
Depois, quando o carro se foi, João foi até a prateleira e pegou a câmera de vídeo que deixara ligada o tempo todo, e apertando ‘play’, reviu toda a conversa entre ele e o cunhado. Era uma confissão de assassinato, seguida de ameaças que ele prontamente mostrou aos pais e ao irmão.
Com aquelas provas, eles conseguiram levar o caso à julgamento e colocar César atrás das grades.
Seis anos se passaram. Aos vinte e um anos, João sabia que o pai ainda estava com a outra mulher, com quem agora tinha um filho. Sua mãe desconfiava, mas não queria saber a verdade, pois não estava a fim de destruir as aparências de lar feliz e família unida que, mesmo após a morte da filha, ela tentava mostrar aos outros. Muito menos, perder as vantagens financeiras e o status que estar casada com um grande empresário lhe proporcionava. Seu irmão Pedro finalmente deixara as drogas, dedicando-se aos estudos e conseguindo um emprego. A morte da irmã tivera um forte impacto sobre ele.
Cada um estava vivendo da maneira como conseguia e sabia. Mas apesar de tudo, João ainda via sorrisos negros – não apenas em fotografias, mas em situações reais, e aquilo era insuportável para ele. Também visualizava fumaça negra emanando das pessoas que mentiam, o que deixava a vida insuportável, tal a quantidade de mentirosos com que ele cruzava diariamente. Evitava assistir ao noticiário na TV, pois os olhos vermelhos e injetados das pessoas faziam com que ele se sentisse cada vez mais desanimado quanto à natureza das pessoas e o futuro da humanidade. Também via olhos vermelhos em algumas pessoas que encontrava na rua, até mesmo estranhos. Era terrível para ele estar caminhando por uma calçada lotada em um lindo dia de céu azul e ver os flashes de luz vermelha na multidão.
A aura cor de rosa, frequentemente vista em sua própria mãe, e que ele antes pensava ser apenas sinal de uma inocente superficialidade, mostrou ser também uma característica de pessoas egoístas que passavam a vida envolvidas por vaidades; por exemplo,  elas gastavam fortunas em operações plásticas, fazendo de tudo para permanecerem jovens, pouco cuidando de seus espíritos e das coisas  que realmente tinham importância. Não havia nelas solidariedade ou interesse pelo próximo. Eram pessoas aparentemente agradáveis e alegres, mas indiferentes ao que se passava ao seu redor, a não ser que estivesse relacionado com elas mesmas e seus interesses. João tivera algumas namoradas assim, que o atraíram pela beleza física, mas não conseguira ficar muito tempo com elas. 



Raramente, ele cruzava com alguém de aura azul. Mas um dia em que estava especialmente aborrecido e enfadado, ele viu, de repente, um brilho azul cintilante na multidão; decidiu segui-lo.
Tratava-se de um senhor já avançado em anos, com cabelos longos presos em um rabo de cavalo e olhos amendoados. Parecia um chinês, e quando ele entrou em um restaurante, João seguiu-o e sentou-se em uma mesa diante da dele, de onde podia observá-lo melhor. Notou que ele era gentil, tratando bem os garçons e sorrindo para as pessoas nas mesas próximas. Encantava as crianças, e algumas se aproximavam dele, olhando-o tímidas. O velho senhor logo notou que estava sendo observado por João. Seus olhares se cruzavam, e após um sorriso, o senhor convidou-o para sentar-se com ele.
João sentiu-se tão bem na presença daquele homem, que logo os dois estavam conversando animadamente. A tarde avançou, e quando percebeu, João já tinha contado ao estranho – que chamava-se Artur – toda a história de sua vida. Artur escutou-o com interesse e atenção. Não achou que ele fosse um louco quando João contou a ele sobre suas visões e pressentimentos. Após seu longo relato – entrecortado por perguntas e sábias observações de Artur, João suspirou fundo. Já era noite.
Já que estavam em um restaurante, Artur sugeriu que pedissem o jantar. Ambos comeram em silêncio, tomando uma garrafa de bom vinho. Ao terminarem, Artur assumiu um ar solene, e perguntou:
-João, o que você mais gostaria que acontecesse em sua vida?
João nem precisou pensar muito, e respondeu:
-Gostaria de não ter esse dom.
-Pelo que ouvi, este não é um dom, mas uma maldição. Saber o que vai na mente das pessoas e conhecer suas verdadeiras intenções pode tornar a vida insuportável! Gostaria muito de poder ajudá-lo.
-E o senhor pode?
Artur balançou a cabeça devagar, olhando-o profundamente:
-Infelizmente, não. Mas você pode transformar esta maldição em algo que possa, quem sabe, ajudar as pessoas. E embora sua vida no futuro tenda a ser sempre difícil, você poderá facilitar a vida de alguns. Você me disse que nunca conseguiu namorar por muito tempo, porque no final, elas sempre mentem. Não consegue andar muito tempo entre a multidão, pois enxerga fumaças e dentes negros, olhos vermelhos... isto é terrível, João! Fico imaginando a sua situação. Mas quem sabe, a sua maldição – ou dom, como queira – possa ajudar as pessoas?
-Mas... como?
-Bem, você é um vidente!
Pela primeira vez na vida, João ouviu alguém nomeando as coisas que ele sentia, e o que ele era. Após tomar mais um gole de vinho, Artur completou:
- Você pode usar seu dom para fazer previsões para as pessoas. E pode ganhar um bom dinheiro através disso!
-Você quer dizer... assumir minha vidência, e ter filas e mais filas de gente à minha porta, interessadas em previsões sobre seu futuro, e se seus maridos e esposas as estão traindo ou não? Ah, Artur... não, obrigada.
Artur sorriu.
-Vejo que você realmente conhece demais a natureza das pessoas, João. Sua resposta é muito sábia! Na verdade, eu sabia que você daria esta resposta. Mas sabe, há uma outra solução... você pode vir comigo, e eu o ensinarei tudo o que aprendi.




-E onde você mora?
O velhinho olhou para um lugar que não estava diante de João, mas cuja imagem era forte diante dos olhos dele.
-Venho caminhando pelas ruas há anos, tentando encontrar alguém que possa assumir a minha posição. Eu vivo em um templo no Tibete. Lá, educamos crianças que farão um mundo melhor. Ensinamos a elas valores verdadeiros, tentando edificar-lhes na alma sentimentos de bondade sincera, verdade, compreensão, altruísmo e, é claro, amor. Você seria de grande ajuda, pois nos ajudaria a identificar falhas de caráter nestas crianças a tempo de que pudessem ser devidamente corrigidas.
-E de onde vem estas crianças?
-Elas vem de toda parte... são abandonadas, viviam nas ruas, ou vem de lares esfacelados onde são maltratadas pelos pais. Carregam muita dor dentro de si, mas nós estamos conseguindo fazer um bom trabalho. Muitas delas partiram para o mundo e fundaram instituições como a nossa, onde ajudam outras crianças como elas. Eu mesmo sou uma destas crianças. E então, João, qual a sua resposta? Quer vir comigo?
João compreendeu que finalmente, encontrara seu caminho e sua missão na vida.
Ambos partiram em poucos dias.  Artur ensinou a João tudo o que Ele sabia. Mostrou a ele seu novo trabalho, que se não tinha qualquer recompensa financeira, tinha uma outra recompensa muito maior. A amizade e o carinho entre os dois era enorme.
Três anos mais tarde, quando ambos olhavam o por do sol juntos, debruçando-se em uma das janelas do templo, um enorme besouro de antenas impressionantes, que soltava um ruído triste, entrou pela janela e foi pousar junto a Artur.  João recordou-se da última vez que vira aquele inseto, e de que logo depois, sua irmã morrera, e ficou muito apreensivo. Artur percebeu a mudança em João, que tornou-se taciturno e calado.
O sol já deitava seus últimos raios, e a estrela Dalva apareceu diante deles. Artur apontou-a, e falando de sua beleza, profetizou:
-Vê aquela estrela? É bela... ninguém sabe como ela surgiu, ou quando vai desaparecer; mas ela está lá, e brilhar é a sua função. Um dia, ela se apagará. Algumas estrelas brilham mais, outras menos... mas todas tem o seu brilho, embora muitas não saibam como lidar com ele, e acabem contaminando a si próprias e as que estão em volta. Mas mesmo estas, um dia, aprenderão a brilhar. Assim são os homens: não sabemos por que estamos aqui, e não temos certeza de onde viemos. Mas somos todos como aquela estrela, cuja função é brilhar e encantar vidas alheias. E fazer nascer novas estrelas, para que um dia, o céu esteja totalmente repleto delas, e não haja mais buracos negros e meteoros cinzentos e ameaçadores. Esta é a sua missão: criar estrelas para o céu da vida. E um dia, você se apagará. Mas haverá outras estrelas... sempre haverá! E muitas vezes, estas estrelas se apagam no céu para que possam voltar a brilhar para as pessoas na terra. Nunca se esqueça disso.
João concordou com ele. E quando despertou na manhã seguinte, soube que Artur era uma estrela que já brilhava em outro lugar.





segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

LIMBO



Eu não me lembro como cheguei a esta casa. Um dia, abri os olhos e despertei em uma grande cama de dossel, em um quarto todo pintado de branco ornado com cortinas brancas e esvoaçantes que cobriam duas grandes janelas que davam para um pátio gramado e sem horizontes. Nada há em volta da casa. O sol nasce de manhã por trás do telhado, e deita-se todas as tardes na frente da casa, as cores tornando-se vermelhas, alaranjadas, rosadas e, finalmente, de um leve dourado, quando o sol encontra a linha reta e fina entre o céu e o chão. Quando a noite chega, há um céu sem estrelas e sem luar. Apenas o negro profundo e intransponível. Acredito que, vista de fora, a casa aonde me encontro deve ser como um ponto de luz isolado no meio de um grande deserto quando é noite, e uma mancha branca no meio de um extenso gramado esmeralda quando é dia.

 Às vezes eu me debruço nessas sacadas, tentando ver além daquilo que meus olhos já viram, mas sempre encontro a mesma paisagem desolada e vazia. Não há pássaros. Não há estradas. Não há árvores, montanhas, rios ou qualquer sinal de presença humana ou animal.

O que há é este quarto onde durmo e acordo todos os dias. Tão branco, tão solitário, tão triste... e há o silêncio, entrecortado por alguns breves sussurros (ou será a minha imaginação?) que parecem surgir dentro de minha cabeça; de repente, tenho a sensação de que ouço meu nome sendo sussurrado: “Helga!” Mas quando começo a prestar atenção para ouvir de novo, o som já fugiu. Penso que posso enlouquecer a qualquer momento. Ou que já enlouqueci, quem sabe, e meu corpo esteja aprisionado em uma cela acolchoada em algum manicômio...

Não sei que horas são, que dia é hoje, ou há quanto tempo estou aqui. Não me lembro de nada antes disso, e não espero por nada depois. Não sei de onde vim, quem é minha família – se algum dia eu tive uma – ou quem são meus amigos. A simples noção do significado destas palavras – lar, família, amigos, emprego, vida, relacionamentos – me espanta. Sei o que significam, mas não consigo recordar-me se alguma vez já fizeram parte de minha vida. Minha mente é tão branca quanto tudo o que me cerca. Sei que passo longas horas (ou seriam minutos, dias, anos?) adormecida. Quando desperto, sinto um torpor que me envolve completamente, e não consigo ficar acordada durante muito tempo. Levanto-me meio-tonta, olho à janela o tapete verde que se estende diante da casa cujas paredes não consigo divisar, pois estão constantemente cobertas por uma densa neblina branca, olho para o céu azul profundo e sem nuvens ou então totalmente negro, se for noite. Vejo o sol erguer-se e deitar-se. Olho para a camisola branca e simples que estou usando sobre meu corpo também branco-leitoso. Isso é tudo. Quando dou por mim, estou coberta com um lençol branco e vaporoso. Abro os olhos e vejo a fronha branca perto do meu rosto. Olho para cima e vejo o teto branco. Melhor dormir o máximo que eu puder.

Não sinto tristeza ou alegria, medo ou euforia, fome ou sede, saudades ou tédio. Não tenho memórias. Nem sequer sei como me lembro do meu próprio nome. Não me lembro da aparência do meu rosto ou da cor dos meus olhos. Também não sei qual a minha idade. Às vezes, quando acordo, vejo meu cabelo castanho sobre a fronha, cuidadosamente arrumado. Parece que alguém o escovou. E o lençol que me cobre, bem esticado e limpo, também parece ter sido colocado sobre mim com muito cuidado. Olho minhas pernas e braços, meu tronco, pés e mãos e vejo que sou muito magra, mas que talvez nem sempre tenha sido assim. 

Toco minha pele e não sinto qualquer sensação de frio ou calor.
Acordei ontem, hoje ou um dia – ou em qualquer outro local no tempo – e havia flores sobre a mesa de cabeceira. Uma mancha colorida que divisei em meio a total brancura, ainda semi-adormecida, entre minhas pálpebras que começavam a se abrir. Primeiro, aquela mancha de cor não me surpreendeu, pois em algum lugar da minha memória, ela pareceu normal; mas súbito arregalei os olhos, sentando-me na cama e esfregando os olhos: ela ainda estava ali, agora não mais uma mancha, mas um lindo buquê de flores do campo coloridas. Dentro de minha cabeça, compreendi que eram minhas preferidas. Estendi a mão e segurei-as, tirando-as de dentro do vaso. Acariciei meu rosto com elas e senti algo muito leve que roçava contra a minha pele, mas não consegui aspirar nenhum perfume. De olhos fechados, eu consegui realmente ver as cores, o que de alguma forma me parece estranho. Quando abro novamente os olhos, as flores  desapareceram, assim como o vaso sobre a mesa de cabeceira.

Agora, eu às vezes ainda encontro flores sobre a cabeceira. Certa vez, de olhos fechados, eu vi uma luz fraca e bruxuleante no meio da escuridão, como se fosse a chama de uma vela; mas tudo foi muito rápido, fugaz e impreciso. Ouvi também os sussurros. Pareceu-me que alguém chorava, um soluço profundo cortando o silêncio.

Chego à janela e vislumbro a mesma paisagem. Sinto um doce cansaço. Assisto ao por do sol, e quando chego à fase final, logo antes de tudo tomar a agora conhecida tonalidade dourado-suave, percebo algo a mais no céu que não vira jamais: um desenho fino e curvo, branco-brilhante, cujo brilho aumenta de intensidade conforme escurece. Fascinada, reconheço o luar. Uma lua crescente. Pouco a pouco, surgem pontos coloridos e brilhantes de luz aqui e ali: estrelas. Pela primeira vez desde que cheguei (e lembrem-se, não sei quando cheguei) sinto algo mais intenso: um pouco de alegria. Agora, penso, não estou mais tão sozinha! Mas... eu nunca tinha me sentido só antes! De onde vem este pensamento?

Tenho novos motivos para olhar à janela: o céu crivado de estrelas, e a lua, que cresce como o ventre de uma mulher grávida. Novos pensamentos vão surgindo todos os dias. Toco meu ventre, e sei que um dia, não sei quando, eu já estive assim, grávida como a lua. Esta certeza deixa-nos ainda mais próximas.
As flores à mesa de cabeceira passam a estar lá toda vez que desperto. Acho também uma pulseirinha dourada, muito fininha e delicada. Coloco-a no pulso, prendendo o fecho, e olho para ela longamente. Alguma coisa parece querer surgir... mas sou distraída por um ruído de asas, que atrai-me até a janela. Olho para o céu, e vejo uma garça branca passando, logo seguida por outra e mais outra, até que um enorme bando de pássaros surge! Encantada pela sua beleza, sinto uma lágrima rolar pelo meu rosto. A sensação de algo molhado e quente surpreende-me. Seco-a com o dorso da mão, e ao olhar para o meu pulso, onde havia colocado a pulseira, ela não está mais lá. Debruço-me à janela para acompanhar o voo das garças, mas elas também desaparecem.

Mas depois daquela primeira aparição, há outras. Certa vez (usarei a palavra ‘vez’ a fim de definir melhor a minha total falta de noção de tempo) desperto com o pio suave de um passarinho pousado à janela; em outra ocasião, um colibri sobrevoa a minha cama quando abro os olhos. Desta vez, avisto as primeiras árvores surgindo no horizonte, e uma pequena elevação, uma colina, quando o sol toca a linha fina do chão. 

Aos poucos, a paisagem vai mudando. Eu passo também a sentir menos cansaço.
É noite de luar. Olho para fora, e assisto enquanto uma estrada se forma em direção à casa. Ela é estreita e sinuosa, e logo surgem árvores e arbustos floridos ao longo dela. À esquerda, vejo um lago que não estava ali antes... mas antes do quê? Novamente, ouço meu nome sendo sussurrado, mas sem soluços ou choro. Quando me viro, há flores e velas sobre a mesa de cabeceira; acostumei-me à presença delas. Sei que elas desaparecerão assim como surgiram, e outras reaparecerão depois.

É de manhã. Acordo, e sinto um forte impulso de caminhar até a porta e, segurando a maçaneta redonda de cerâmica branca, girá-la. Por que nunca havia pensado nisso antes? Agora, parece a coisa mais natural a se fazer, e não consigo entender por que não o fizera antes. Giro a maçaneta, e a porta simplesmente se abre. Vejo um corredor longo e vazio, e a luz forte do dia que entra por uma janela no final deste. Debaixo dela, um lance de escadas largas e sinuosas, acarpetadas de rosa claro. Começo a descê-las. Estou descalça, como sempre. Meus passos não produzem qualquer ruído. Não há nada, além do silêncio e da luz que a tudo ilumina.

Chego ao sopé da escada. Olho em volta, e vejo uma sala vazia toda branca. Há apenas um piano junto à janela, e parece-me natural caminhar até ele e tocá-lo. Escolho um clássico: Chopin. Enquanto toco, sinto como se alguém me observasse. Tenho certeza de que este alguém também escuta a música, e pensa em mim. Ergo os olhos, e há flores presas em um ramo sobre o piano. Deixo-me ficar ali, aproveitando aquelas sensações agradáveis, até que as flores começam a desaparecer. Agora, estou de pé no meio da sala, e não há mais piano. Olho para a porta diante de mim, do outro lado da sala vazio. Eu a percorro silenciosamente, e ao chegar à porta, agarro a maçaneta e abro.

Estou diante de uma luz forte e branca. Fecho os olhos por alguns instantes, entreabrindo-os até acostumar-me à claridade, que aos poucos, torna-se suportável e então, agradável. Piso do lado de fora. Sinto uma brisa leve e fresca envolver meu rosto. Diante da casa, a estrada me convida.

Começo a caminhada, parando de vez em quando para olhar em volta. São tantas cores brilhantes que me cercam e me encantam, pois passei tanto tempo vendo sempre quase tudo branco, que eu paro várias vezes. Olho para baixo, e vejo que há um par de sandálias macias e confortáveis calçando meus pés, e que visto uma túnica reta e vaporosa, verde-clara. Mas eu não consigo lembrar-me quando troquei de roupa. Meus cabelos estão enfeitados com flores. Passo as mãos levemente sobre eles, tentando localizá-las, e algumas se desprendem. O dia está belíssimo, e vejo muitos pássaros. Ouço o ruído agradável de uma cascata, e caminho em direção ao som. Por trás de uma fileira de árvores, sob uma colina de pedras, paro diante da rocha por onde escorre a água cristalina. Aproximo-me da cascata, e olho meu rosto no espelho da água. Sinto uma certa apreensão, pois não sei o que vou enxergar. Aproximo-me devagar da borda, e vejo o céu refletido no espelho da água. Há algumas nuvens vaporosas (não havia nuvens antes). Aproximo-me mais um pouco, e vejo na água as copas das árvores próximas. Meu rosto surge no meio delas. O medo da estranheza logo passa, mas sei que há alguma coisa acontecendo, pois eu sinto não sou tão jovem quanto mostra aquele espelho d’água. Tenho certeza que minha idade é superior a cinquenta anos, mas a face que vejo é a de uma menina de, no máximo, vinte anos. Mesmo assim, eu sei que ela e eu somos a mesma pessoa. Fico sentada à beira da água, acostumando-me comigo mesma. Também aproveito para apreciar a linda paisagem e o calor agradável do sol. O barulho da cascata é muito relaxante, e o canto dos pássaros torna tudo ainda mais calmo e maravilhoso.

Percebo a presença de outros animais que eu ainda não vira por ali: coelhos, cães, gatos, lagartos, leões, tigres, elefantes. Ao invés de sentir medo, a presença deles apenas me deixa ainda mais tranquila. Sinto que eles não me farão nenhum mal, ou uns aos outros, pois todos convivem pacificamente, e brincam com as da sua espécie.

De repente, uma emoção forte toma conta de mim: reconheço um daqueles animais, um Cocker Spaniel dourado. Sei que se chama Pipo, e que um dia, ele foi meu. Tenho absoluta certeza! Pela primeira vez, abro a minha boca e a voz sai: “Pipo!!!” ele me vê, ergue as orelhas e vem correndo em minha direção! Pula em meu colo, e nós nos abraçamos. Novamente, sinto lágrimas escorrendo de meus olhos. Ficamos abraçados durante um longo tempo, até que ele se afasta e olha para trás, latindo, como se me chamasse. Compreendo que devo segui-lo, e despeço-me com pesar daquela paisagem.

Ele caminha adiante, parando de vez em quando para assegurar-se de que eu o estou seguindo. Apesar de ter a sensação de estar caminhando há bastante tempo, eu não sinto cansaço. Meus passos são leves e ágeis. Meu caminhar flui sem qualquer dificuldade ou dor. Lembro-me de que um dia senti fortes dores nos pés e nas costas, dores que me deixavam sem poder caminhar durante semanas.
A estrada se bifurca, mas Pipo parece não ter dúvidas sobre o caminho a seguir. Continuamos por uma rua de paralelos, muito bonita e arborizada. Há algumas casas pequeninas e coloridas, e Pipo me guia até uma delas, de cor azul. Ao chegar ao portão, ele late feliz. Vejo que a portinha branca se entreabre, e uma estranha emoção toma conta de mim. Antes de ver os rostos dos seus ocupantes, eu adivinho quem eles são: meu pai e minha mãe! Ao me verem, eles abrem os braços felizes, e eu corro para abraçá-los. Enquanto nos abraçamos, olho para dentro da casinha e vejo uma lareira acesa, e dormindo junto a ela, está Giorgio, meu gato angorá. Lembro-me que ganhei-o  de presente no meu aniversário de quinze anos. Pipo entra na casa, juntando-se a ele. Ver os dois juntos causa-me uma certa confusão, pois adquiri Pipo muitos anos depois que Giorgio desapareceu de casa.

Mas todos estes pensamentos e lembranças ocorrem em uma fração de segundos, me parece. Concentro-me na presença de meus pais, que eu sinto, estiveram ausentes de minha vida durante muito tempo... noto que eles estão bem jovens. Nem parecem ter idade suficiente para serem meus pais. Nós nos sentamos nas escadas da porta da frente da casa, enquanto a tarde cai. Conto-lhes sobre a minha vida. Falo das coisas que tenho feito, e é estranho para mim que de repente eu me lembre de tudo. Conto-lhes sobre meu primeiro casamento, fracassado após os abortos espontâneos que tive e também sobre meu segundo casamento com Pablo, um homem maravilhoso que me ajudou a resgatar a minha autoestima, com quem eu finalmente tivera filhos. Falo sobre Renato e Angélica, seus netos. Eles parecem saber tudo sobre eles, mas mesmo assim, ouvem-me com atenção. Com orgulho, conto-lhes que Renato é médico, e Angélica, assistente social. Sei que falamos sobre muitas outras coisas dolorosas, mas esta parte é um tanto obscura para mim. Sempre que tento lembrar-me das coisas que dissemos, sou acometida por uma grande tristeza. Mas eles me disseram para que eu não me sentisse culpada ou triste por nada, pois tudo fazia parte de um plano...

Agora, há muitas estrelas no céu. Finalmente, eles me convidam para entrar e partilham sua casa comigo. Vejo que tudo é muito simples e aconchegante, bem diferente da casa onde eles – nós – morávamos antes. Mas aqui, há paz. Papai me convida para sentar-se em sua poltrona, junto à lareira, e fico acariciando a cabeça de Pipo enquanto Giorgio dorme em meu colo. Ouço a voz de mamãe como vinda de um transe. Ela me pergunta como eu me sinto, e eu respondo que me sinto muito bem. Melhor do que jamais me sentira antes. E ela me promete que um dia terei este sentimento de volta, e que voltaremos a ficar todos juntos, mas que no momento, eu preciso dormir.
 Não quero dormir.

Mas a voz de mamãe parece conduzir-me a uma espécie de transe. Ela pede que eu confie nela, e me entregue ao sono. Vejo, entre minhas pálpebras pesadas, que há outros rostos conhecidos que me olham e sorriem para mim. Reconheço alguns deles: meus avós maternos. Meu avô paterno. Meu primo, que morreu aos dez anos de idade. Minha melhor amiga da escola, Regina, que morreu de meningite. Alguns tios e tias que fizeram parte da minha infância. Acho estranho que eles estejam ali, mas de repente eu me lembro que meus pais também já estão mortos há quase trinta anos!

Eu quero ficar e conversar com todos eles. Quero saber onde estiveram, e o que estão fazendo ali. Minha mente entorpecida parece ser feita de geleia e confusão. Eu sinto que estou indo embora, mas faço força para ficar, pois não quero me esquecer. Grito que eu quero ficar, mas mamãe me acaricia a testa, e diz baixinho em meu ouvido que eu ainda não posso ficar ali. Ainda preciso voltar e viver alguns anos. Há coisas a serem terminadas. Ela diz que dentro em breve, meu marido precisará muito de mim. Ela sussurra em meus ouvidos: “Mais alguns anos, querida. Mais alguns anos...” grito que quero me lembrar. Ela me promete que deixará as lembranças comigo.

Uma menina loira de olhos azuis ainda me diz: “Se eles duvidarem, fale de Roberta e da casa amarela!” foi a última coisa que ouvi, e que ficou ecoando em minha cabeça.
Abro os olhos novamente em meio a um mar de dores. Há muitos tubos em volta de mim, ligados ao meu corpo. Olho em volta, e vejo paredes cinzas, e escuto aparelhos que zumbem. A dor é excruciante. Um homem de cabelos brancos dorme sentado em uma cadeira desconfortável. Reconheço Pablo, meu marido. Também me lembro de que tenho sessenta e seis anos de idade, e o peso dessa descoberta cai sobre mim como uma pedra gigantesca. Quero dizer que estou acordada, que voltei. Não consigo falar, pois há tubos em minha garganta. Consigo emitir um grunhido. Imediatamente, meu marido desperta, e levantando-se, fica ao meu lado, chorando muito e dizendo meu nome. Lembro-me dos sussurros que ouvi quando estava “lá”, e reconheço a voz dele. Olho para a mesa de cabeceira e vejo as mesmas flores que eu enxergava do outro lado, embora as cores não pareçam mais tão brilhantes. Tudo parece triste, cinzento e pesado. Entram médicos na sala, e pedem ao meu marido que saia um pouco.

 Acho que durmo novamente, mas a cada vez que desperto, fico mais tempo acordada. Mais alguns dias se passam, e eles retiram os aparelhos aos poucos. Consigo respirar sozinha, mas ainda não posso falar. Todo o processo é muito lento. Sinto muita sede e fome, mas eles dizem que ainda é cedo para alimentar-me.
Após alguns dias, alguém me deixa beber um pouquinho de água. Depois, uma sopa rala e de gosto ruim. Fortaleço-me. Meus filhos vem me ver todos os dias. Fico muito alegre quando eles vem, mas não consigo mover-me ainda, e meus braços estão muito inchados, mas escuto o médico dizendo que é normal e que dentro em breve irei para um quarto comum.

Aos poucos, vou me recuperando. Sou transferida para o quarto, e começo a murmurar as primeiras palavras. Minha garganta dói. Todos estão tão felizes e parecem tão surpresos ao me ver novamente bem! Consigo perguntar ao meu marido: “Há quanto tempo?...” Ele parece preocupado. Olha para nossos filhos. Eles balançam a cabeça, concordando. Meu marido responde a minha pergunta: “Quase dois anos...”
Aquela revelação cai sobre mim como uma tsunami. Eu estivera desacordada durante quase dois anos! Eles me contam, aos poucos, sobre o acidente de carro – eu tomara um táxi para casa após fazer compras em um shopping, e uma carreta atingiu o carro. O motorista morrera na hora, e eu tivera sérias sequelas neurológicas. Mas o médico está muito surpreso e otimista com meus rápidos progressos, e acredita que eu poderei voltar a andar.

Mamãe cumpriu sua promessa: ainda me lembro de tudo o que aconteceu. Quero contar tudo à minha família.

Alguns meses se passaram. É véspera de natal. Faremos uma confraternização entre os membros da família mais próximos à noite. Estou muito bem, as dores desapareceram e nem preciso mais usar a bengala para andar de um lado para o outro da casa. Meus filhos virão. A esposa de Renato está grávida, e Angélica ficou noiva – finalmente – e diz que querem se casar em breve. Estamos todos muito felizes. Preparei uma ceia de natal muito especial, com o prato favorito de cada um deles. No meio da mesa, um vaso com flores do campo. Meu marido saiu para comprar o champanhe. Eu ensaiei o meu relato muitas e muitas vezes, não desejando omitir nenhum detalhe. Escrevi tudo em um caderno, que usarei enquanto contar a minha história.
Após a ceia, onde todos comemos e nos divertimos, eu digo a eles que quero contar uma história; algo sobre o tempo que passei ausente. Eles se entreolham, e permanecem na mesa, enquanto eu começo a contar-lhes tudo. Quando me perco ou sou tomada pela emoção, recorro às minhas notas no caderno. Lara, minha nora que está grávida e que é espírita, parece ser a única a compreender-me, pois quando termino, um silêncio mais ou menos longo paira sobre a mesa. Finalmente, Renato, que é médico, começa a dizer que eu tivera uma alucinação por causa da medicação pesada que recebera. Nego; não concordo. Sei que foi verdade. Meu marido nada diz, mas ateu convicto, sei que ele não acredita em mim.

Angélica também parece duvidar, e meio sem graça (é a primeira vez que trazia o noivo em casa e sente-se envergonhada pelo meu relato), arremata: “Há muitos mistérios entre o céu e a terra.” E muda de assunto. Eu insito, mas eles apenas me olham com piedade no olhar. Nada mais dizem, mas sei que não creem em nada da minha história. De alguma forma, eu sei que é importante que eles acreditem. Então me lembro da menina loira de olhos azuis: “Se eles não acreditarem, falem de Roberta e da casa amarela!” e é o que faço; grito: “E o que vocês me dizem sobre a Roberta e a casa amarela?”

Imediatamente, um silêncio desce sobre a sala, enquanto meu marido e meus filhos se entreolham, muito pálidos. Alguma coisa muda. Agora, eu sei que eles acreditam em mim. Angélica começa a chorar copiosamente, e deixa a mesa. Renato vai atrás dela. Meu genro e nora acham que este é um assunto de família, e nem sabem do que se trata; constrangidos, pedem licença e vão tomar vinho na varanda. Ficamos eu e meu marido sentados à mesa.
Ele me olha. Vejo vergonha e medo em seu rosto. Sinto que ele quer falar, mas não sabe como começar. Então, ele suspira profundamente e começa a sua história:

-Eu acredito em você agora, Helga. E vou explicar-lhe o porquê.
“Há muito tempo, quando as crianças eram ainda pequenas, eu fui buscá-las na escola um dia e Angélica pediu-me se eu poderia dar carona a uma de suas coleguinhas. O nome dela era Roberta. Ela morava em uma casa amarela. Gostei dela assim que nos conhecemos. De alguma forma, achei que nós tínhamos muitas coisas em comum, o que descobri durante as nossas conversas no carro, quando eu a levava em casa. Ambos gostávamos de filmes de faroeste. Tínhamos o mesmo tique nervoso, de coçar o queixo quando estávamos pensando no que dizer. No começo, achei que ela estava imitando-me, mas depois percebi que era natural. Também notei que ela e Angélica tinham algumas semelhanças físicas, e davam-se muito bem, como duas irmãs. Um dia, ao deixá-la em casa, a sua mãe veio abrir a porta – ela não tinha ido ao trabalho naquele dia. Eu a reconheci imediatamente: era Janice, uma moça com quem tive um relacionamento rápido... quando você estava grávida de Roberta. Então eu compreendi tudo: Roberta era minha filha!
Ao ver-me tão surpreso, Angélica, que na época tinha doze anos, confessou que já sabia de tudo: que as duas eram irmãs. A própria Roberta contara a ela. Mas prometeu-me não comentar nada com você antes que eu mesmo criasse coragem para falar. Logo, Renato também ficou sabendo. Era o nosso segredo.”

Eu fico estupefata. Jamais suspeitara de nada! Penso naquele segredo pairando entre nossa família durante todos aqueles anos. Penso em algumas vezes em que, inadvertidamente, eu entrara no quarto das crianças e notara conversas que terminavam assim que me viam; em algumas delas, o pai estava junto. Eles disfarçavam, dizendo que tratava-se de um jogo de detetives. Eu acreditava. Houve um período em que os três ficaram muito deprimidos e misteriosos, logo após um acidente que matou uma amiga de escola que eles costumavam levar em casa. Era Roberta!

Ele continua seu relato:
-Eu ia contar-lhe tudo, Helga... mas houve o acidente no qual ambas morreram... elas não tinham outros parentes. Nós três achamos melhor não contar nada e esquecer o assunto. Assim, manteríamos a família unida. As crianças tinham muito medo da sua reação, e ao mesmo tempo, não queriam que você sofresse. Elas me pediram que não constasse nada.

Eu estou chorando e sentindo-me enganada. Mas ao mesmo tempo, penso nos anos felizes que vieram depois. Penso em tudo o que eu vivi naqueles dois anos, e sei que o que aconteceu poderia ser perdoado. Ele descobrira que tinha uma outra filha; ficou conhecendo-a, e perdeu-a logo em seguida. Havia castigo maior? Como eu poderia pensar, sequer, em puni-lo?

De repente, lembro-me de uma fotografia que Angélica tirara com os colegas de classe num final de ano; corro até lá, e pegando o porta retrato, começo a percorrer os rostos sorridentes; identifico a menina que eu vira quando estive fora. Aponto-a e digo ao meu marido:

-Ela é esta aqui. Eu sei, porque eu a vi.

Ele concorda com a cabeça. Meus filhos estão sentados na sala de estar, e escutam toda a conversa. Eles vem me abraçar, pedindo desculpas, mas eu digo-lhes que nada tenho a desculpar-lhes. Agiram como acharam que seria melhor para todos.

Nós terminamos a noite de natal. Meus filhos foram embora há meia hora. Estou sozinha na sala de estar, e lembro-me de tudo o que vivi. Lembro-me do rosto daquela menina, Roberta, e sei que jamais conseguiria odiá-la. Compreendo que a vida é grande e infinita. Escuto novamente as palavras de minha mãe quando ela disse que em breve estaríamos todos juntos novamente. “Mais alguns anos...”




A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...