segunda-feira, 22 de junho de 2015

A PRAIA DOS SONHOS - PARTE III





A PRAIA DOS SONHOS – PARTE III

Abrir os olhos após dormir quase doze horas seguidas pode deixar as pessoas um pouco confusas. E foi exatamente assim que Anita se sentiu ao abrir os olhos e deparar com as paredes caiadas do quarto simples, as cortinas rendadas que balançavam com a brisa do mar e o gosto rançoso da cerveja da última noite ainda entre os dentes. Olhou para o lado: estava só. Com certeza, Fernando já tinha saído e estava na praia, estirado ao sol feito um lagarto. Ela levantou-se e ficou deslumbrada com a vista da janela: lá embaixo, ela via um mar imenso e verde, areias tão brancas que faziam doer os olhos e um azul dominante. Três faixas de cor: azul por cima, verde-esmeralda no meio e branco embaixo. E dois pontinhos de cor na areia: um menino estava sentado ao lado de seu marido. Ela apertou os olhos para ver melhor. Depois, bocejou e saiu. No corredor, sentiu cheiro de café. Ao chegar à recepção, encontrou Leo preparando uma bandeja de café da manhã: café, leite, pão com manteiga, um mamão e um copinho de suco de laranja. Nada mais. Nada parecido com o café da manhã farto e luxuoso do hotel, mas ela adorou o carinho da flor sobre a bandeja quando Leo a colocou na mesinha e convidou-a a sentar-se. Enquanto tomava seu café, Anita foi logo perguntando:

-Quem é o menino na praia? Seu filho?

Ele riu:

-Não, é meu irmão mais novo. O nome dele é Jorge. Jorginho.
-Ah, sim... e vocês moram aqui sozinhos, Leo?

Ela notou que ele baixou os olhos rapidamente, e uma ligeira sombra escureceu seu sorriso, mas ele logo a mandou embora:

-Não, moramos com nossos pais, mas eles estão viajando no momento, sabe, para comprar algumas coisas para a pousada. Estamos expandindo. Aliás... tive que colocá-los na minha suíte máster. É um pouquinho mais caro do que tínhamos combinado, mas é que a outra está ocupada, e a terceira está sendo pintada... mas dá direito ao café da manhã. Está bom?

Ela concordou com a cabeça, enquanto engolia um pedaço de mamão:

-Está ótimo. 

Anita lembrou-se de que quando tinham chegado, na noite anterior, havia uma plaquinha pintada à mão na outra cabana, onde se lia: “suíte máster.” Ela podia dizer que tinha certeza absoluta que a outra cabana estava desocupada... Mas como a tal plaquinha tinha ido parar na porta do seu quarto? 

Afinal, qual era a verdadeira ‘suíte máster?’  

-Eu pensei que a outra cabana estivesse vazia. Estava escura e silenciosa quando chegamos.

Ele coçou o queixo, dizendo:

-Ah, eles dormem e acordam cedo. Estavam dormindo quando chegamos, e saíram antes de vocês acordarem. Às vezes, passam dias sem aparecer. Vão acampar por aí. São um casal de americanos, acho. A gente se comunica quase que por gestos, eles falam pouco português e eu não falo quase nenhum inglês.

Ela podia jurar que ele estava mentindo, tal o excesso de detalhes, a fala rápida e os olhos que não encontravam os seus... mas Anita resolveu deixar aqueles detalhes de lado, levando em conta apenas a simpatia de seu anfitrião,  e terminando o café da manhã, foi até a praia, onde encontrou o marido e o menino. 

Foram apresentados, e Jorginho estendeu uma mão pequena e hesitante em direção a ela. Quando a apertou, Anita percebeu que ele era frágil como um passarinho machucado. Nunca vira tanta tristeza nos olhos de uma criança, apesar do leve sorriso forçado. A mãozinha do menino era fria, apesar do sol, e a pele muito branca, apesar de morarem praticamente na areia de uma linda praia. Ela achou estranho, mas não perguntou nada. Sabia que aqueles olhos escondiam uma história que não seria contada a alguém como ela. Mesmo assim, gostou imediatamente de Jorginho.
-Jorginho estava me dizendo que gosta muito de pescar, Anita. 

Ela riu:

-Bom pra você. Podem ir pescar juntos! Sabe, Jorginho, Fernando vive procurando companhia para suas pescarias. Agora encontrou uma: você.

Jorginho riu, balançando a cabeça afirmativamente, apontando para um barquinho ali perto que estava amarrado em uma estaca, sobre a areia.

-Se meu irmão deixar, podemos ir no barco dele. Tem motor!

Fernando perguntou:

-E você sabe guiar o barco?

Ele levantou-se, limpando a areia da bermuda, e balançando a cabeça afirmativamente mais uma vez.

-Eu sei sim. Meu pai me ensinou.

Naquela hora, uma máscara de tristeza tomou conta do rosto do menino. Anita perguntou:
-Quantos anos você tem?
-Tenho onze.
-E onde estão seus pais, Jorginho?

Fernando olhou para ela sem entender, já que Leo já tinha dito que eles estavam longe, em viagem de compras para a pousada. Já ia interferir, quando ela olhou para ele e ele imediatamente compreendeu a mensagem: “Deixe o menino responder!”

Mas Jorginho encolheu os ombros, e nada disse. Afastou-se caminhando sozinho pela praia, deixando o casal sozinho. Anita sentou-se ao lado do marido, olhando o mar. Fernando perguntou:

-O que foi aquilo?

-Ora, vai me dizer que você não percebeu que Leo mentiu sobre os pais, assim como mentiu sobre a tal “suíte máster?”  Não existe suíte máster nenhuma, ele só colocou a plaquinha na porta para poder cobrar mais caro. Assim como também não existem outros hóspedes na pousada, além de nós.

Fernando riu, após um momento de confusão.

-Mas você é perspicaz mesmo, hein, Anita? Mas sinceramente? Eu não me importo de pagar um pouco mais, pois percebi que Leo se esforça para cuidar de tudo, e eles precisam muito do dinheiro. Estive conversando com Jorginho, e ele me disse que às vezes, a polícia vem e toma parte do que eles ganham.

Anita arregalou os olhos:

-Mas como?! E ninguém faz nada? E por que a polícia levaria parte do dinheiro deles?
-Segundo Jorginho, eles não tem licença para funcionar. Mas senti que há mais alguma coisa que ele não quis me contar... é difícil falar com ele, a gente tem que arrancar as palavras se quiser obter alguma resposta.

Eles ficaram em silêncio. Um vento morno começou a soprar, deixando o céu totalmente azul, e Anita sentiu o calor do sol queimando-lhe os ombros nus. Vestiu a saída de praia após espalhar mais um pouco de filtro solar. Quando terminou, começou a espalhar o creme sobre o rosto e as costas do marido. Fernando disse:

-Notou o quanto esse menino é triste?

-Notei sim... o que será que aconteceu?

-Não faço ideia, mas para mim, é alguma coisa relacionada aos pais. Acho que eles estão mortos.

-Por que você acha isso?

-Porque ele evita falar neles, e quando fala e eu pergunto alguma coisa a mais, ou ele se cala ou muda de assunto.

-Estranho... bem, mas cuidemos dos nossos próprios problemas, não é? Afinal, estamos aqui de férias.

Fernando lamentou a frieza de Anita. Ela nunca se interessava por crianças. Mostrava-se entediada quando os sobrinhos dele os visitavam, embora fizesse de tudo para disfarçar. Dizia sempre, quando alguém lhes perguntava por que não tinham filhos: "Crianças são um tédio. Não tenho paciência nem instinto maternal, embora eu as ache muito lindas em filmes,  fotografias e calendários. Não é que eu não goste delas; só não quero cuidar de uma."

Durante muitos anos, Fernando compartilhou daquelas ideias, mas conforme o tempo ia passando, ele sentia um vazio por dentro, às vezes... um vazio que ele tentava fingir que não existia, mas que estava lá. Quando via seus sobrinhos ou os filhos de seus amigos, tornava-se criança novamente, brincando com eles. Sentia-se melancólico quando eles partiam, ao contrário de Anita, que aliviada, arrumava a bagunça deixada na casa, cantarolando.

Ela servia os lanches, e quando eles ficavam para passar a noite, arrumava as camas, mas era só: não gostava de interagir com as crianças, preferindo ficar sozinha no jardim, lendo um livro. Era sempre gentil, e as crianças gostavam dela, pois sentiam-se bem tratadas, mas também entendiam que Anita preferia ser deixada em paz. 

Mas Fernando não sabia que Anita ficara muito impressionada com Jorginho e Leo, e que embora tentasse disfarçar, ela não sabia explicar o porquê daquela pequena brecha que começava a abrir-se em seu coração.


(continua...)




segunda-feira, 8 de junho de 2015

A PRAIA DOS SONHOS - PARTE II





Do outro lado da cidade, um casal de turistas tenta aproveitar o calor do sol em uma praia movimentada. Em volta deles, vendedores ambulantes gritam seus pregões, e um alto-falante berra uma música de axé com uma letra irritante. Uma criança passa correndo e gritando no meio das esteiras onde os dois descansam, jogando-lhes areia. Um cão a segue. Uma mulher arma sua barraca bem junto a deles, tapando o sol. Os dois se entreolham enquanto ela começa a espalhar seus pertences na areia: ela começa a armar suas cadeiras de praia, enquanto o marido deposita um enorme isopor sob a barraca. Duas crianças ranhetas começam a brigar. A mulher grita com elas, e uma delas começa a chorar alto.

O casal se entreolha mais uma vez, e sem nada dizer, começam a recolher suas coisas. Hora de voltar para o hotel. Na recepção lotada, precisam esperar dez minutos até que o recepcionista lhes estenda a chave do quarto. Depois, aguardam ainda mais pela sua vez de entrar no elevador cheio. Ao abrirem a porta do quarto, uma lufada de ar gelado quase os congela. A mulher exclama:

-Nossa! Eu já tinha pedido para não ligarem o ar condicionado tão alto desse jeito!

O marido, ao chegar no banheiro, diz:

-E não trocaram as toalhas de novo. Eu pedi hoje de manhã. 

Um carro de som tocando música de má qualidade passa berrando na avenida lá embaixo. A mulher olha as ruas lotadas de carros, vendedores ambulantes e turistas. Os dois tiram as roupas suadas e cheias de areia, e enquanto a banheira enche, sentam-se lado a lado na cama. Mais uma vez, chegam a um acordo silencioso: precisam dar o fora dali, daquelas férias infernais. É Anita, a esposa, quem fala primeiro:

-Vamos alugar um carro, ouvi dizer que existem ainda algumas praias desertas lá para o norte. Quem sabe, encontramos o nosso pedacinho de paraíso para finalmente começarmos a celebrar nossos vinte e cinco anos de casados?

-Você está certa. Vou fazer isso agora mesmo, assim que dormir um pouquinho...
-Agora mesmo ou assim que dormir um pouquinho, Fernando? Eu não vou aguentar ficar aqui mais um dia.

-Vamos tomar um banho juntos primeiro – ele sugere, com olhar malicioso.

Horas depois, os dois estão colocando as malas em um carro alugado e rumando para o norte. Sem destino certo, sem saber onde se hospedarão, ou aonde chegarão. Alguém sugeriu um lugar chamado Praia dos Sonhos, mas disse que ficava muito longe do centro, cerca de três horas de viagem, e que só havia um único hotel ruinzinho e duas pousadas, que deveriam estar com seus poucos quartos alugados no mês de janeiro. Mas garantiram que haveria poucos turistas naquela área, devido à falta de infraestrutura. Anita e Fernando adoraram aquele comentário sobre a falta de infraestrutura, e decidiram partir imediatamente. 

Após dirigir por uma hora, Fernando viu que a estrada asfaltada deu lugar a uma de terra batida, que ficava cada vez mais esburacada e difícil. Teve que parar o carro uma vez para livrar-se de um galho de árvore no meio do caminho, e Anita ficou morrendo de medo, achando que fosse uma tentativa de assalto, mas nem mesmo ladrões andavam por ali. Mato de um lado e de outro. Buracos e solavancos sob um sol infernal... graças a Deus, o carro tinha ar condicionado. Mas de repente, a estrada estreita começa a alargar-se e os dois percebem que o mato começa a rarear, e a paisagem se abre. Eles deparam com um mar verde-esmeralda após uma enorme faixa de areia fina e branca.

Anita e Fernando saem do carro, sentindo o vento morno cheirando a maresia, e ficam por alguns instantes contemplando a beleza da paisagem. A praia deserta e maravilhosamente silenciosa os atrai para um mergulho. Antes de entrar na água, enquanto se despe, Anita olha em volta e de repente tira toda a roupa - inclusive o biquini - antes de jogar-se nas águas verde-esmeralda. Mas o sol já se despedia, e eles sabem que precisam encontrar um lugar para passarem a noite, e assim, entram no carro novamente. Após mais ou menos trinta minutos, Fernando dirige entre um corredor de pequenas casas pintadas com cores suaves, e centão  chega a uma pequena vila.

Percebem um pequeno movimento de pessoas - na maioria, turistas estrangeiros. Saem do carro, e de mãos dadas, caminham entre diferentes sotaques, até chegarem em frente a um aconchegante restaurante cujo telhado é feito de palha. A noite apenas começara, mas atraídos pela música e pela suavidade das luzes dos pequenos lampiões sobre as mesas rústicas, o casal decide entrar para comer alguma coisa. 

Logo são atendidos por um simpático rapaz (Anita logo nota sua pouca idade e a beleza do seu rosto de menino). Ele vai logo se apresentando, enquanto estende um cardápio para o casal:

-Bem-vindos ao nosso restaurante! Meu nome é Leo, e vou servi-los esta noite.

Anita e Fernando se entreolham, e Fernando diz, após olhar o cardápio com Anita durante algum tempo:

-Obrigada, Leo. Acho que vamos pedir duas cervejas por enquanto, e também... uma porção destes bolinhos de peixe... são bons?

Leo sorri, iluminando a noite:

-Bons? são os melhores que vocês já comeram. Mais alguma coisa?

Anita sorri. Fernando sente uma empatia imediata com o rapaz, e acaba se apresentando:

-Não, é só por enquanto. Desculpe, esquecemos de nos apresentar, Leo. Meu nome é Fernando, e esta é Anita, minha esposa.

-Tudo bem com vocês? Estão vindo de onde?

É Anita quem responde:

-Nós estávamos na cidade, mas tem muito movimento por lá. Queríamos um lugar mais tranquilo. Acabamos de chegar.

Os olhos de Leo brilham:

-Então já tem onde ficar?

Fernando respira fundo:

-Na verdade, ainda não... tem algum hotel por aqui?

-Bem, aqui na vila só temos um hotel e uma pousada, mas já estão cheios. Mas eu tenho uma pequena pousada, a meia hora daqui. Ainda tenho um quarto livre. Se quiserem eu digo como chegar lá. Ou então vocês me esperam sair, e eu os levarei até lá. Costumo sair às onze da noite.

Anita sorri:

-Obrigada! Acho que vamos querer sim.

Fernando a olha com censura, pois acabavam de chegar em um local desconhecido e ela já estava aceitando convites de estranhos. Às vezes, ele se irritava com a falta de cuidado da esposa e sua facilidade exagerada em confiar nas pessoas e em fazer amigos. Ele diz:

-Bem, na verdade, Leo, agradecemos sua atenção, mas vamos pensar. 

O sorriso do rapaz apaga-se por um instante, mas mesmo assim, ele concorda com a cabeça, sorri novamente pedindo licença, e vai providenciar o pedido. 

O dono do restaurante, "seu" Manuel, que escutara a conversa toda, aproxima-se da mesa:

-Boa noite. Meu nome é Manoel, e sou o dono do restaurante. Podem confiar em Leo, ele é um rapaz excelente. Mora na cidade há alguns anos, todos o conhecem por aqui. É boa pessoa!

Anita sorri, e ela cutuca a perna de Fernando sob a mesa. Ele ainda tenta argumentar:

-Mas... não tem nenhuma vaga por aqui mesmo, na vila?

-Com certeza não. O hotel é bem pequeno, e a pousada, idem. O lugar que Leo ofereceu é sua única opção. É bem simples, humilde mesmo. Mas tem água limpa, chuveiro, uma boa cama e um teto sobre a cabeça.

Fernando responde dizendo que vai pensar melhor, e "seu" Manuel se afasta. O casal discute em voz baixa, e acabam concordando em ficar na pousada de Leo. 

(continua...)




quarta-feira, 3 de junho de 2015

A PRAIA DOS SONHOS - PARTE I







Mais uma vez, Leo levou seu barquinho a motor para o mar. Cortou com ele a oposição das ondas, ouvindo o protesto destas quando batiam com força no casco do barco, jogando-o para cima. Às vezes ele pensava que a madeira não resistiria, mas o barco era antigo e forte. Era o barco de seu pai. O mesmo que ele cuidou com carinho durante todos os anos em que Leo vivia. Gaivotas seguiam-no de longe, gritando sobre sua cabeça e projetando a sombra das asas em seu rosto. Leo olhava para elas, agitando os braços e gritando: “Não tenho nada para vocês, amigas. Vão procurar os barcos dos pescadores.” Mesmo assim, elas o seguiam, como se zelassem por ele.

E quando ele chegava naquela parte além das ondas e via a praia lá longe, desligava o motor. Olhava as quatro casinhas no alto da colina, que tinham vista para o mar verde lá em baixo: a que ele morava com Jorginho, seu irmão mais novo, e as outras três; duas estavam terminadas, e a última ainda não tinha portas, janelas ou qualquer acabamento. Leo sonhava em um dia termina-la, e também às outras que ficaram apenas no território dos sonhos dos pais. O terreno onde seriam construídas, uma ao lado da outra, fora riscado bem fundo com uma concha do mar, mas o vento apagara a maioria daquelas marcas, enchendo-as com as areias do esquecimento. Mas tinha coisas que nem o vento podia apagar.
Leo deitou-se no fundo do barco, e enquanto olhava os raios de sol formando arco-íris entre seus cílios, ficou imaginando que a vida era boa, e que seus pais o esperavam lá na praia, e que Jorginho brincava feliz e inocente com seus carrinhos. Tentou, mais uma vez, fazer o tempo voltar àquela noite do acidente, e fazer com que nada daquilo tivesse acontecido. Já tinha pensado em ir embora; mas ir para onde? Tinha apenas 22 anos de idade e precisava tomar conta de um irmão de onze anos. Não tinha emprego, nem muita instrução; terminara o segundo grau, e passou raspando. Nunca pensou em fazer faculdade, pois em sua mente, seria dono de um grande hotel na Praia dos Sonhos.

Praia dos Sonhos. Melhor seria Praia dos Pesadelos!

O paraíso podia ser um lugar triste. O paraíso podia ser um lugar onde os sonhos morriam cedo, antes de amadurecerem, e onde garotos ficavam sem os pais enquanto ainda precisavam tanto deles. Quando Jorginho falava em ir embora, Leo não queria nem ouvir. Dizia que não queria sair da Praia dos Sonhos, pois o pai e a mãe estavam ali, enterrados naquele pequeno cemitério, e ainda tinha a Tia Cora, que vinha uma vez por semana limpar a casa, lavar e costurar as roupas e cozinhar para eles. Mas ela não podia recebe-los em sua própria casa, pois o marido vivia repetindo que “Aquele tal Leo é um sonhador, nunca será nada de bom e pode ser uma má influência para nossos filhos... e eu não quero responsabilidade com os filhos dos outros; bastam os nossos dois.”  Portanto, contato com os primos, eles não tinham. Nem sabiam direito qual era a aparência deles. Viviam isolados naquelas casinhas, que distavam meia hora de carro da vila. 

Leo levava Jorginho à escola de manhã, buscando-o na hora do almoço. Usava uma velha motocicleta que trocara pelo que sobrara do jipe após o acidente que matara seus pais. Jorginho tinha poucos colegas na escola, pois quase todos riam dele por causa de suas roupas puídas e dos seus pés sempre calçados com sandálias havaianas. Troçavam dos seus cabelos um pouco  longos e repicados, cortados em casa, as raízes castanhas e as pontas alouradas com parafina, como fazem os surfistas. Apesar de morarem junto à praia, Jorginho evitava o sol. Tinha a pele branca e as bochechas pálidas. Se fosse até a praia, colocava camiseta e chapéu, e besuntava o resto do corpo com filtro solar. Não queria que pensassem que ele passava o dia todo na praia e não estudava ou trabalhava, pois ele ajudava o irmão quando tinham hóspedes. Nem mesmo durante as férias, como era o caso, ele gostava de ficar ao sol.

Não havia muitos empregos para jovens como eles naquela cidadezinha. Aliás, não havia muitos empregos para ninguém, e a cidade dormia a maior parte do ano, despertando apenas no verão, quando chegavam os turistas. Leo trabalhava de garçom nas noites de quinta e sexta. Era o único emprego que conseguira por lá, em um restaurante típico da vila que servia frutos do mar. Manoel, o dono do restaurante, tinha sido amigo de seu pai, e dera-lhe aquele emprego apenas para ajudar os meninos, pois não precisava de mais um garçom; não pagava um salário, mas deixava que Leo ficasse com vinte por cento das mesas que servia, e as gorjetas ficavam todas para ele. Recebia pouco, mas era o que ajudava quando o dinheiro da pensão acabava, sempre antes do final do mês. 
Leo às vezes conseguia um hóspede no final de semana, mas as instalações das casinhas não eram nada boas... os lençóis eram velhos e tinham alguns furos que tia Cora remendava. As paredes precisavam de tinta, e a água para o banho era salobra. Também precisava de móveis novos, pois os que tinham eram velhos e gastos. Ele fazia de tudo para acomodar os poucos hóspedes: varria bem o chão, e lavava os lençóis com sabão perfumado e enxaguava com água de anil, para que ficassem bem branquinhos. Colocava flores que ele mesmo colhia sobre as mesinhas, tirava o pó todos os dias, e às vezes, colocava alguns bombons sobre a cama com um cartãozinho escrito “Sejam bem vindos.” Contava sempre a mesma história, que apesar de não ser verdadeira, encantava os turistas: a pousada estava em construção, mas segundo o projeto dos arquitetos e do engenheiro, ainda demoraria um ou dois anos para que tudo ficasse pronto, mas seria um prazer tê-los como hóspedes assim mesmo. E ele faria um preço especial pela “suíte master,”  já que o quarto comum estava em reformas. E ele levava os hóspedes para um pequeno tour no seu terreno junto à praia, mostrando a pilha de tijolos e a pilha de areia, os caibros e as louças. Mantinha o terreno sempre capinado e limpo para que não desse a impressão de que a obra estava abandonada. Quando alguém perguntava pelos seus pais, ele sorria e dizia que os dois estavam viajando, buscando coisas bonitas para colocar no hotel: “Móveis, enfeites, roupas de cama e mesa, você sabe, esse tipo de coisa.”
Se acreditavam nele, eu não sei; mas não havia ninguém que não ficasse encantado pela sua simpatia e alegria. Quando os hóspedes iam embora, Leo distribuía alguns cartões de visita e pedia que eles o recomendassem aos amigos e parentes. 

Naquele final de semana não tinham conseguido nenhum hóspede ainda, mas Leo ainda tinha algum dinheiro da semana anterior, quando um grupo de gringos pousara ali por quatro dias. O fato de não possuírem restaurante ou serviço de quarto também não contribuía para que conseguissem muitos hóspedes. Se alguém sentisse fome no meio da noite, precisava pegar o carro e dirigir meia hora até a vila, ou três horas até a cidade.

Leo economizava o mais que podia, mas às vezes, perdia quase tudo o que ganhava. Quando ia para a cidade, tinha que tomar muito cuidado para não dar de cara com a dupla de policiais, pois quando isso acontecia, eles o surravam e tomavam-lhe o dinheiro. Deixavam apenas um pouco para a comida, dizendo que o garoto menor não tinha culpa de nada, e que só não matavam Leo  por causa de Jorginho. E Leo voltava para casa machucado, tentando sem sucesso esconder os hematomas do irmão. Jamais reagia às surras, pois no fundo, ele achava que as merecia por usar maconha e ser um péssimo exemplo para o irmão mais novo. Mas apesar das tentativas de não deixar que o irmão percebesse seu estado, às vezes as surras eram mais exageradas, e ele chegava com um olho roxo, sangue na camisa, ou cortes pelo corpo ou então mancando, e Jorginho chorava enquanto tentava, com um pedaço de algodão e água boricada, fazer-lhe curativos. Ele sorria, dizendo: “Deixa disso, 
Jorginho, eu estou bem, já disse. Só caí da moto outra vez.”

Mas Jorginho sabia muito bem da verdade, embora não discutisse com o irmão.
Os dois sempre tinham sido muito unidos, e mais ainda após a morte dos pais, há cerca de um ano e meio. Jorginho, que tinha sido sempre uma criança alegre e cheia de vida, tornara-se muito triste. Dava a impressão de que uma sombra estava sempre pairando sobre seu semblante, mesmo nas poucas vezes em que ele sorria. Perder os pais tinha sido muito traumático, assim como descobrir que sua tia Cora, que era também madrinha dele e do irmão, não os levaria para sua casa por causa do marido. Foi um choque muito grande para Jorginho descobrir que ele não tinha mais ninguém adulto no mundo, a não ser Leo, que parecia recusar-se a crescer. Ele tomou para si a silenciosa responsabilidade de cuidar do irmão, e a levava muito à sério.  As pessoas da vila comentavam que o menino mais novo parecia ser mais maduro que o mais velho, que gostava de andar por aí em sua motocicleta nas noites de sábado e domingo, deixando o irmão menor sozinho em casa. Mas aqueles comentários em nada afetavam a amizade dos dois irmãos. Jorginho compreendia que um rapaz na idade de Leo precisava de namoradas. Garotas. Festas. Sabia que ele andava lá para as bandas da parte vermelha da cidade, onde estavam os bares de reputação duvidosa que vendiam drogas, as garotas fáceis, os garotos das motocicletas. Mas sabia que seu irmão era bom. Sabia que ele jamais o abandonaria, só queria se divertir um pouco, e aquela era a única diversão daquele lugar. 

(CONTINUA...)



terça-feira, 26 de maio de 2015

As Ruas das Árvores que Choram - Histórias em Petrópolis





Petrópolis é uma cidade charmosa. O Centro Histórico é um lugar gostoso de se percorrer à pé, pois o trânsito, com o passar do tempo, tornou-se muito mais intenso do que a cidade pode suportar. Muitas pessoas estão vindo morar aqui, o que tem causado uma lamentável explosão demográfica. É só percorrer as ruas de Correias e Itaipava para ver a quantidade absurda de condomínios de luxo que estão sendo erguidos por la´. Só fico pensando no que será da cidade depois que estiverem prontos e habitados; haverá água para tanta gente, já que com as mudanças climáticas e o aumento de população a falta d'água já se faz notar? Como ficará o trânsito, o que as pessoas terão que fazer para ir ao trabalho todas as manhãs? Imagino quilômetros de engarrafamentos. Acho que Petrópolis não foi feita para crescer assim, não há espaço.

Ao mesmo tempo, opostas aos condomínios de luxo, há as comunidades que surgem em todos os lugares: encostas de montanhas, beiras de estradas, terrenos baldios que são invadidos sem que ninguém faça nada para impedir. A violência já começa a aparecer por aqui, e já não é mais tão seguro andar pelas ruas de Petrópolis à noite. Há histórias de assaltos a residências, estupros, assassinatos e tráfico de drogas. Lamento muito pela nossa cidade... nosso pequeno paraíso está sendo destruído aos poucos. 

Mesmo assim, Petrópolis será sempre uma das cidades mais lindas que conheço. Já estive em  alguns lugares ao redor do Brasil, e digo, com certeza, que ainda não vi cidade melhor para se viver. E tanto é verdade, que todos os dias pessoas se mudam para cá, deixando suas cidades. Conheço muitos Petropolitanos que preferem ter que comutar para o Rio todos os dias a fim de chegar ao trabalho a mudar-se para lá, e cariocas que, mesmo continuando a trabalhar no Rio, mudam-se para Petrópolis. 

O mercado de trabalho aqui é restrito; não há investimento nesta área. Os impostos são altos e não há incentivos fiscais, o que não ajuda em nada para que o quadro melhore. Os aluguéis de imóveis comerciais no centro da cidade são um verdadeiro absurdo, e as lojas não conseguem sobreviver à especulação imobiliária que está nas mãos de poucos proprietários da maior parte dos imóveis, que exigem luvas gritantemente absurdas na renovação de contratos, o que obriga comerciantes a fecharem suas lojas. Há um verdadeiro cartel imobiliário na cidade. 

O valor dos imóveis residenciais para aluguel e vendas também ultrapassa bastante os valores encontrados em outras cidades. Viver em Petrópolis é caro. 

É preciso que alguma coisa seja feita, antes que nossa cidade se perca para sempre. Tenho medo de que, daqui a alguns anos, as árvores que choram tenham, realmente, motivos para chorar. 


FIM

segunda-feira, 18 de maio de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - Histórias em Petrópolis


foto de família: minha irmã Dal e meu falecido sobrinho Ricardo; minha sogra, minha mãe, Tia Rosa, eu e meu marido, então, namorado. Há 30 anos.




Meu avô era da época em que todo homem usava chapéu e gravata. Lembro-me de quando ele nos visitava - morava em Niterói, pois trabalhava como copeiro na casa de madame Nair de Tefé. Chegava trazendo sempre bolsas e mais bolsas cheias de guloseimas, e algumas ele distribuía entre os meninos que ajudavam-no a carregar as sacas do táxi até  a nossa casa. Era sempre uma festa quando ele chegava, e apesar de sua morte ter ocorrido quando eu tinha apenas oito ou nove anos de idade, ainda me lembro dele muito bem; meu avô tinha características marcantes. Por exemplo, não comia carne, era espírita Kardecista, chegou a fazer parte do Partido Integralista por algum tempo (minha mãe contou-me que quando Getúlio Vargas assumiu a Presidência, ele e muitos outros queimaram seus uniformes verdes nos fundos de quintais), sempre usava chapéu e teve muitas mulheres.  Além disso, era extremamente generoso, ao ponto de abrir mão de suas casinhas para abrigar pessoas que não tinham onde morar. Tais pessoas abusaram muito de sua boa vontade. Meu avô sempre dizia que imóvel não se vende, se compra.

Quando ele e sua família, os D'Agostinni, chegaram a petrópolis fugindo da Primeira Guerra, vindos da Itália, meu avô era bebê. Naquele tempo, ele se chamava Rezier D'agostinni, mas ao fazer o registro de nascimento aqui no Brasil, não sei por que cargas d'água ele foi rebatizado como Rogério Agostinho. Acho que abrasileiraram seu nome. Mas meu avô acabou usando ambos os nomes, o que causou muita confusão na hora de preparar o inventário dos poucos bens que ele deixou. A família D'Agostinni acabou se dispersando, entre Agostinhos, D'Agostinhos e outras variações. Minha mãe, por exemplo, era Ruth Agostinho. 

Quando chegaram por aqui, meus avós compraram a casa onde, mais tarde, minha família veio a morar. Também compraram uma bela casa na antiga Rua João Pessoa, atual Nelson de Sá Earp, que existe até hoje. Hoje, no andar térreo funciona um restaurante e também uma franquia das Empadas Brasil. Na divisão de bens, meu avô ficou com a casinha onde minha família morou a vida toda enquanto nós, os filhos, éramos solteiros. Mais tarde, ele também comprou um pequeno terreno no antigo Bairro Indaiá - hoje São Sebastião - e outro em Visconde de Itaboraí.  Minha mãe dizia que tudo o que compraram foi conseguido juntando dinheiro com as vendas das frutas e legumes que vendiam de porta em porta. 

 Na época que ele comprou o nossa casa,  não havia absolutamente nada naquele bairro. A estrada era de terra, cheia de matos, e com pouquíssimas casas. O bairro foi sendo construído em volta da nossa casa. Minha mãe contava que, quando foi morar lá, ao casar-se, sentia-se muito sozinha. Aos domingos, depois que as crianças começaram a nascer, a família ia à pé para a casa de minha avó, mãe de meu pai, no Bairro Duchas. É bem longe. Muito longe para se ir à pé levando crianças no colo, bolsas com fraldas e mamadeiras e outras coisas. Mas durante muito tempo, não havia ônibus. No final do dia, eles faziam todo o caminho de volta. Imagino a cena: meus pais com crianças adormecidas subindo no escuro a enorme ladeira que levava à nossa casa, cansados, após um domingo cheio. 

Quando meu avô morreu, minha mãe vendeu os terrenos do Indaiá e de Visconde de Itaboraí, indo contra a máxima sagrada de meu avô de que terra não se vende, se compra. Mas no fim, o que nos resta mesmo é "Aquela parte que nos cabe nesse latifúndio..."

As fotografias do meu avô , em preto e branco, mostram um homem bonito e elegante, sentado em um dos bancos da Praça D. Pedro, ou caminhando pelas calçadas quadriculadas da antiga Petrópolis, ou vestido de índio com amigos, fingindo caçar. Meu avô era um homem bastante bonito, e talvez por isso tivesse muitas mulheres. Aos poucos, minha mãe foi fazendo contato com seus irmãos "ilegítimos:" um deles, meu tio David, que ninguém sabia se era realmente filho de meu avô, e mais dois irmãos em Taubaté, São Paulo. Quando os irmãos de São Paulo vinham passar uma temporada com alguns membros da família, a nossa pequena casa ficava cheia! Era uma festa... aliás, duas: quando chegavam e quando iam embora. 

Passeando pelas ruas e praças de Petrópolis, constato que muitas das árvores que choram hoje são as mesmas que choravam na época em que meu avô vivia. Ele também passou por elas. Ele sentou-se nessas praças por onde eu passo, e talvez tenha visto muitas carruagens onde eu hoje vejo carros e ônibus. Ele fazia compras em lugares como a Casa D'ângelo - hoje, um bar e restaurante badalado - e quem sabe, na Sapataria Schettini, Casa Sloper, Confeitaria Obelisco (atual Padaria Petrópolis) e Modas De Carolis. Passo pelas casas onde minha mãe morou quando pequena: em uma delas, hoje funciona a Águas do Imperador. O Colégio Nossa Senhora do Amparo ainda existe, mas sem o internato. No Bairro Duchas, onde meus avós por parte de pai moravam, ainda moram alguns parentes daquelas épocas, mas perdi contato com eles. A casa de meus avós foi demolida. 

Havia um rico senhor da família Moscatel que comprou todas as casas simples daquele bairro. Eu não me lembro dele, era muito pequena quando meus pais iam passear no gramado da chácara dos Moscatel após o almoço de família na casa de minha avó. Meu avô por parte de pai trabalhou para aquela família, e por isso, tínhamos permissão para circular por lá. A única coisa da qual eu me lembro, é de um gramado muito verde, inclinado, sobre o qual eu rolava. E o sol passando pelas folhas das árvores, o brilho em meus olhos quando eu olhava para cima. E é claro, uma sensação de estar segura e protegida. Ainda tenho algumas peças do faqueiro que minha mãe recebeu de presente de casamento da família Moscatel. Ela enrolou as poucas peças que restavam com um elástico, embrulhadas em um bilhete que dizia mais ou menos o seguinte: "Ana, guarde estas peças, você que dá valor a estas coisas. São uma relíquia de família, as únicas peças que restaram do meu faqueiro de casamento."

As peças ainda existem... estão no sótão, enroladas no bilhete, da mesma maneira que ela as deu para mim. Há muito tempo eu não me lembrava delas, até agora... acho que vou mandar descê-las e conseguir um lugar de honra para elas na minha cristaleira.

(continua...)




segunda-feira, 11 de maio de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - HISTÓRIAS EM PETRÓPOLIS






Quando pequena, e durante minha adolescência, eu brincava nas ruas do meu bairro. Cresci no Caxambu. Mal eu e minha irmã chegávamos da escola e almoçávamos, procurávamos reunir os colegas para jogar queimado, brincar de pique-bandeira ou pique-esconde ou simplesmente, conversar. Lembro-me de algumas festas de São João que fizemos num terreno baldio que nós mesmos capinamos e acertamos. Enfeitávamos tudo com bandeirinhas e bambus, e certa vez, um dos amigos "conseguiu" um pneu usado com o qual alimentamos uma fogueira... aquela fogueira deu muita confusão quando o dono do pneu descobriu!

Durante alguns anos, houve uma casa em obras perto da nossa, e nós íamos lá quando não havia ninguém. Brincávamos de pular nos montes de barro, e chegávamos em casa tão imundas, que um dia a mãe nos impediu de entrar em casa; chovia, e tínhamos feito guerra de lama. Ela ficou furiosa, e mandou que aguardássemos o pai chegar para que ele decidisse o que faria conosco... ficamos no velho barracão onde ele tinha sua oficina, olhando a chuva cair até escurecer. Lembro-me que estava com fome e frio. Depois que ele chegou, deu-nos uma boa bronca, mandou que tomássemos um banho e entrássemos em casa. 

Naquela mesma obra, em outra ocasião, enquanto olhávamos a chuva cair sentados em troncos de madeira, nós sonhamos com o que gostaríamos de ser no futuro... muitos daqueles sonhos (e sonhadores) se foram cedo, arrancados de nós pela realidade. Recordo-me de colegas que morreram jovens, como o Nando e o Cacau. Eram irmãos, sendo que Cacau era filho de criação, e negro. Foi-se aos dezoito anos, com cirrose hepática, e o Nando, aos vinte e quatro, com meningite. 

Um dia, o prefeito decidiu construir uma pista de esqui no bairro Floresta. As obras eram visíveis dos fundos do nosso quintal. Vimos o teleférico sendo instalado, e logo tivemos a ideia de dar uma olhada mais de perto... a gente levava pipas para soltar por lá (eu não gostava de soltar pipas, pois meus olhos nunca aguentaram muita claridade). Lá, nós também pulávamos nas imensas pilhas de barro macio... depois escalávamos a encosta, afundando no barro até os joelhos, e pulávamos lá de cima de novo. 

Uma vez, quando finalmente a 'pista de esqui' foi inaugurada, eu finalmente dei uma volta no teleférico, que já parecia ser velho... eu olhava tudo lá de cima, enquanto um alto-falante  mandava ver na música "Every Little Thing She Does is Magic," do grupo The Police. Até hoje, sempre que escuto esta canção, eu me lembro daquele dia.  Foi a primeira e a única vez. Logo a pista foi desativada, e as obras nunca foram concluídas. Hoje, dizem que ainda existem as ruínas daqueles tempos pretensiosos em que todos pensávamos que nossas casas com vista para o teleférico seriam supervalorizadas, e nosso bairro se tornaria famoso e procurado por turistas do mundo inteiro. A obra toda deve ter sido apenas uma forma de justificar gastos públicos, mas éramos inocentes demais para perceber.

As minhas solas estão acostumadas ao barro vermelho e macio e à água que corria pela rua quando chovia e eu afundava os pés tentando não perder meus chinelos... Parece que a essência daquele barro e daquela água penetrou sob a pele e chegou ao coração, e acho que eu jamais serei capaz de passar muito tempo longe de Petrópolis. Sinto saudades dos tempos em que o clima era mais frio, e nós nos aconchegávamos a cobertores no sofá da sala para ver filmes nas tardes de sábado, comendo doce de abóbora ainda quente. E das vezes em que eu andava sozinha pelas ruas, mãos afundadas nos bolsos de um casaco marrom comprido, com gola de pelo que "herdei" de minha irmã, encaminhando-me para a loja onde encontrava minha outra irmã aos sábados para que, depois do expediente, encontrássemos alguns amigos e fossemos ao cinema ou a algum outro lugar. 

As ruas são as mesmas, as árvores centenárias ainda choram. Mas muitas pessoas se foram, ou simplesmente mudaram, tanto que hoje somos apenas estranhos. As significâncias tomaram outros sentidos menos alegres. Ou quem sabe, elas sempre tenham sido assim; eu é que nunca percebi antes. Só sei que a menina que eu fui ainda caminha por essas ruas levando sua fé de criança, embora esteja à procura de algo ou alguém que jamais encontrará. Eu às vezes tenho pena dela.

(continua...)



terça-feira, 5 de maio de 2015

As Ruas das Árvores que Choram -Histórias em Petrópolis




Às vezes chove forte em Petrópolis. As árvores que choram ficam com seus troncos quase negros, embebidos de tanta chuva, e algumas delas caem. Assim como caem as casas que ficam nos altos dos morros, construídas sem qualquer critério ou noções de engenharia. Elas se desfazem feito papelão, escorregando pelas encostas, levando consigo vidas e histórias. Aqui, todo mundo conhece alguém que morreu em um desabamento. Mesmo assim, as construções ilegais continuam sempre acontecendo, e ao invés de serem detidas, assim que ficam prontas as autoridades responsáveis enviam-lhes carnês de IPTU e contas de água e de luz. Todo mundo sabe, só de olhar, que cedo ou tarde, elas vão cair; inclusive quem vive nelas. Mas quando a defesa civil passa seus alertas, ordenando que sejam desocupadas, ainda há quem prefira permanecer nelas e arriscar a própria vida em prol de fogões e geladeiras.

Uma vez, contaram-me a história de uma dessas famílias que sofreu durante as enchentes de 2011. Vou tentar recontá-la aqui, omitindo nomes e tentando recriá-la, fazendo uma narrativa em primeira pessoa. Não me lembro com detalhes de toda história, e preencherei suas lacunas com minhas próprias conclusões, mas a história é real, aconteceu com pessoas reais, e enquanto eu a ouvia, o terror daquelas pessoas passava diante dos meus olhos. Chorei ao final da narrativa. Tudo aconteceu em janeiro de 2011, dias antes da morte do meu sobrinho, e por isso lembro-me bem daquele ano. Enquanto vivíamos a nossa própria tragédia, outras pessoas também viviam as suas. Alguns perderam tudo o que tinham: casas, negócios, carros e membros da família. Esta é uma destas histórias.

Era noite, e chovia forte no Vale do Cuiabá, onde eu vivia com meu marido. Meus sogros e um sobrinho de cinco anos estavam em nossa casa. Eu estava grávida de oito meses. Tínhamos certeza de que morávamos em local seguro, pois não havia, próximo à nossa casa, morros ou rios. Mesmo assim, quando a luz acabou por volta das dez da noite, senti um calafrio percorrer meu corpo, apesar de ser uma noite quente.

Estávamos no primeiro andar da casa, e eu procurava algumas velas, quando de repente, ouvimos um estrondo indescritível de coisas se quebrando. No escuro, não sabíamos o que estava acontecendo. Lá fora a chuva caía forte. Começamos a ouvir um barulho ensurdecedor de água de rio, e quando meu marido olhou para fora, viu a água brilhando e aproximando-se da casa muito rapidamente. Era uma forte tromba d'água. Logo ele gritou que fôssemos todos para o segundo andar. O tempo todo, eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

Ouvíamos pessoas gritando na escuridão, mas não podíamos fazer nada para ajudá-los. Tinham sido pegos de surpresa, como nós. Troncos de árvores, carros e outros objetos passavam por nossa janela. Logo, a água subiu tanto, que fomos para o telhado, mas foi por pouco tempo, pois a casa ruiu e caímos na água. Não enxergávamos nada, apenas íamos sendo carregados pela correnteza, eu, meu marido e meu sobrinho de cinco anos, nossas mãos fortemente entrelaçadas, e àquela altura, não tínhamos a menor ideia de onde estavam meus sogros. Escutávamos pessoas gritando o tempo todo enquanto éramos arrastados, escapando por pouco - e por acaso - de sermos mortalmente atingidos por um pedaço de árvore. 

O tempo todo, eu tentava também proteger a minha barriga e a criança que carregava dentro dela. Sentia minhas roupas sendo arrancadas aos poucos pela força da tromba d'água, e o pavor que sentia era algo surreal. De repente, minhas forças começaram a falhar. Eu não tinha mais como segurar a mão do meu pequeno sobrinho, que escorregou da minha, e ele se afastou rapidamente. Eu gritava em desespero, quando chegamos ao que pensei ser uma margem do rio e meu marido, mandando que eu segurasse firme no tronco de uma árvore, disse que iria atrás do menino e que logo voltaria. Gritei para que ele não me deixasse só, mas senti quando ele largou minha mão e desceu na correnteza.

Fiquei ali, agarrada o quanto pude, sentindo um frio e um medo imensos. Tentava proteger minha barriga com um dos braços e segurar-me com o outro, mas o tronco começou a soltar-se da margem lamacenta, e senti que eu descia novamente pela correnteza. "É o fim," pensei. Fechei meus olhos e deixei-me ir, pois não havia mais nada que eu pudesse fazer. Mesmo assim, meu instinto materno fez com que eu abraçasse minha barriga, envolvendo a criança não nascida em um gesto protetor.

A escuridão tornou-se ainda mais negra, e por incrível que pareça, fui envolvida por um silêncio fora de contexto enquanto perdia os sentidos e mergulhava no que eu acreditava que seria a minha morte.

Quando despertei, eu estava deitada de bruços, totalmente nua, sobre um banco de areia. pessoas na outra margem gritavam meu nome e perguntavam se eu estava bem, mas eu não sabia responder. Minha pele ardia em todas as partes do corpo. Percebi que tinha muitos cortes e hematomas, e sangrava. passei a mão pelo rosto, e com as pontas dos dedos, procurei meus olhos. Aliviada, notei que ainda os possuía. Foi quando lembrei-me do meu filho, ao desvirar o meu corpo e sentar-me no banco de areia, olhei devagar para a minha barriga para notar que ela estava intacta, sem um arranhão sequer. Chorei de alívio, enquanto as pessoas pediam-me para ficar calma. Alguém se aproximou e jogou um cobertor sobre mim. Deitaram-me em uma maca. Perdi os sentidos novamente.

Acordei em um hospital. Estava viva e meu filho estava bem. Mais tarde, soube que o corpo do meu marido e sogros tinham sido encontrados, mas o do meu sobrinho continua desaparecido, como tantos outros que foram tragados por uma densa camada de lama naquela noite horrível. Perdi tudo o que tinha. Tive que recomeçar a vida do zero. O que me deu esperanças e forças, foi quando olhei nos olhos do meu filho recém-nascido e enxerguei a vida que vinha deles, e que exigia ser retomada.

Este é o fim daquela história, mas na verdade, ela continua.


(continua...)




terça-feira, 28 de abril de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - HISTÓRIAS EM PETRÓPOLIS





Havia a Rua da Feira. Nunca soube, e até hoje não sei, o nome daquela rua. Só sei que era lá que eu ia com minha mãe uma ou duas vezes por semana, bem cedinho, quando o dia mal amanhecera. Saíamos de casa com nossas bolsas de feira coloridas feitas de couro sintético. A minha era pequena, com quadrados verdes e vermelhos, e eu carregava nela as verduras mais leves: alface, couve, cheiro-verde. Mal chegávamos à feira, e aquele mundaréu de gente carregando sacas enormes, cheiros misturados de flores, peixes, verduras e coisas em decomposição, cães abandonados, os sons dos pregões dos feirantes, tudo ia entrando pelos meus olhos, ouvidos e nariz. Uma confusão de cores, sons e cheiros.

Começávamos ali no início da feira com as sacas vazias. Minha mãe escolhia os tomates, as batatas, as cenouras, as maçãs. Pechinchava com os feirantes. Reclamava quando achava que estava caro. Eu ficava com medo de me perder no meio daquele monte de gente, e ficava praticamente grudada na barra da saia dela. De repente, uma voz atrás da gente: "Dona, deixa eu carregar?" Era um garoto pequeno, pouco mais velho que eu, e eu me perguntava se ele aguentaria carregar aquela saca enorme cheia de legumes. Minha mãe deixava ele pegar em uma das alças, só para dar a ele uns trocados mais tarde. Ele nos seguia por toda a feira, até que acabássemos de comprar tudo, e nos levava ao ponto de táxi ou de ônibus. Hoje, seríamos acusadas de escravizar uma criança!

Eu gostava quando minha mãe ia às compras com minha irmã mais velha, aos sábados, e eu, já adolescente, ficava com a casa só para mim: eu escrevia em meu diário, fumava cigarros "Charm" e escutava música no último volume. Também gostava quando íamos todos juntos às compras: eu (criança), minhas duas irmãs (a outra irmã e o irmão mais velho estavam no trabalho) e nossos pais. Entrávamos no antigo supermercado ENSA - que mais tarde, virou CB, e depois, ABC, e depois EXTRA, e mais tarde, Princesa, e hoje eu nem sei mais. A gente circulava pelo mercado tentando lembrar as regras: "Não peçam nada!" Minha mãe às vezes tinha pena, porque eu ficava olhando os iogurtes caros que não podíamos comprar, e ela pegava um, dizendo: "Termine antes de chegarmos ao caixa!" E eu comia com a mão, passando o dedo no fundo do pote.

As compras de roupas aconteciam uma ou duas vezes ao ano. Meu pai nos levava à loja Mona Modas e fazia um crediário gigante. Comprava um vestido para minha mãe e algumas roupas para nós, crianças. Tínhamos excelentes lojas em Petrópolis, como a antiga Casa Sloper, que vendia de tudo, desde roupas e sapatos a brinquedos, bijuterias e cama e mesa. Era uma loja grande e luxuosa, bem no centro da cidade. Eu adorava comprar lá, mas isso raramente acontecia. Tínhamos a Sapataria da China, a Sapataria Moderna, a Schetini... comprar sapatos era um evento! Eu chegava em casa e ficava andando pelo quintal, olhando meus sapatos novos, com cuidado para não arranhá-los. A vida era difícil. Logo minha mãe ralhava: "Vá tirar esses sapatos, que são de sair!"

Meu pai comprava tudo a crediário: nossa geladeira demorou dois anos para ser totalmente paga. Os móveis de cozinha, as camas, colchões, a TV... tínhamos uma preto-e-branca, daquelas de válvula, que precisava esquentar um pouco antes da imagem aparecer. Ela ficava tão quente, que se tocássemos nela, queimávamos a mão. Meu pai a desligava durante os comerciais, "para esfriar." Um dia, ela queimou. Ao levá-la ao conserto, meu pai exclamou: "Mas eu não sei o que houve! Até desligava na hora dos comerciais, para esfriar!" O técnico riu, e disse: "Foi por isso que ela queimou! Esse liga/desliga/liga/desliga..." Nunca mais ele desligou na hora dos comerciais, mas comprou um estabilizador que pesava uma tonelada e esquentava feito o inferno. Quando ele chegava do trabalho, colocava a mão rapidamente sobre o estabilizador, e se estivesse quente, ele brigava: "Vocês ficam vendo TV o dia todo! Vai acabar queimando, e depois, o ferrado sou eu!" Assim, desligávamos alguns minutos antes que ele chegasse... eu me lembro de ter assistido à suposta chegada do homem à lua, em 1969, aos quatro anos de idade, naquele aparelho de TV...

Quando a TV dos vizinhos queimava, era comum que a família inteira aterrissasse de para-quedas na nossa sala de estar e ficasse lá até tarde da noite. Meu pai ficava furioso, mas não queríamos ofender ninguém, então, quando ele achava que estava na hora dos vizinhos irem embora, ele dava boa noite a todos, e dando a volta por fora da casa, ia até o local da antena e a virava, para que os canais saíssem do ar. Ele fazia aquilo sempre. Não sei como eles não desconfiavam...

Acho que uma das poucas lojas da cidade que resistiram até hoje, é a filial das Lojas Americanas. Quando eu saía do colégio, geralmente ia até lá com alguns colegas. Eles vendiam balas à varejo, e era comum todo mundo pegar uma ou duas quando passava por elas. Todos faziam aquilo, adultos e crianças, e ninguém considerava aquilo como roubo, mas uma vez, sem querer, acabei 'roubando' um caderno: coloquei-o no meio dos outros para pagar quando saísse. Minha mãe pegou um outro caderno, sem reparar que eu já havia pego um. Ela pagou por ele. Ficamos algum tempo fazendo compras, e esqueci-me totalmente do caderno que estava comigo. Só percebi quando chegamos em casa.

Infelizmente, as boas lojas de Petrópolis fecharam. Hoje, o que mais se vê por aqui são drogarias e lojas de 1,99, a não ser na Rua 16 de Março, onde ainda se pode comprar alguma coisa. Fico pensando: Por que será que todas as lojas que abrem por aqui hoje em dia acabam fechando? Parece que alguém enterrou uma cabeça de burro em algum lugar... quanto às tentativas de shopping centers, elas sempre falham. Acho que petropolitanos não gostam de shoppings. Preferem andar pela rua ao fazer suas compras, mesmo debaixo de chuva ou com frio. Os petropolitanos adoram novidades; quando abre um novo restaurante, loja ou clube, fazem fila na porta; depois de algum tempo, desaparecem, e o negócio acaba falindo por falta de clientes. Não dá para entender!

Temos fama de sermos ricos. Se chegamos a alguma outra cidade e dizemos que somos de Petrópolis, todo mundo nos olha com uma certa reverência ou inveja: "Hum, você é de Petróópolis?!?!" A fama que a Família Imperial deixou por aqui permanece até hoje, e acho que eles pensam que todo mundo aqui tem sangue nobre. Muito pelo contrário: Petrópolis hoje é uma cidade que sofre devido à invasão de suas encostas, desmatamento, uso indevido da água, explosão demográfica - basta dar uma olhada em Itaipava o número absurdo de condomínios que estão sendo construídos, e  eu não sei como essa gente vai circular por aqui quando todos estiverem prontos e ocupados, ou se vai ter água para tanta gente. 

Mesmo assim, ainda desfrutamos de boa qualidade de vida por aqui, na maioria dos bairros.

(continua)








segunda-feira, 20 de abril de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - HISTÓRIAS EM PETRÓPOLIS





"Midnight, not  a sound from the pavement. Has the moon lost her memory? She's smiling alone..."

Ao som desta canção e sob uma lua cheia fantasmagórica, eu fui atraída para fora de casa em um anoitecer frio. Minha mãe veio atrás de mim, para saber de onde vinha a canção. Vinha da casa vizinha. Barbra Streisand cantando "memories."  Nós ficamos escutando aquela música linda no quintal, enquanto o luar branqueava a superfície brilhante das folhas de bananeiras. Quando a música terminou, ficamos algum tempo ainda mudas, como que encantadas por alguma espécie de magia. 

Eu às vezes caminhava pelas ruas invernais de Petrópolis com músicas na minha cabeça, as mãos nos bolsos do casaco marrom de capuz que chegava aos joelhos, os olhos grudados na calçada. Na minha cabeça, como se fosse uma play list, iam surgindo as letras musicadas de Supertramp, Queen, Barbra Streisand, Elton John, Peter Frampton - a galera que fazia sucesso naqueles tempos. Eu às vezes erguia os olhos e olhava para os carros passando, as pessoas, as árvores, o céu. Criava vídeo clipes em minha mente.

Certa vez me perguntaram, enquanto caminhávamos pela Rua Paulo Barbosa em uma sexta-feira movimentada: "Por que você anda olhando para o chão?" Não sabiam que eu via tudo, menos o chão. Mas a partir daquele dia, com medo de que me achassem esquisita, passei a andar de cabeça erguida, olhando para frente. E não vi mais nada. Muitas pessoas reclamavam e me perguntavam por que eu não as cumprimentava. É que eu ia focada naquilo que eu precisava fazer, eu respondia. Tentando não parecer esquisita, eu parecia mais esquisita do que antes.

Eu amava ir ao cinema sozinha nas tardes de sábado. Sentava-me nas cadeiras do balcão do cinema Casablanca, que fica em um hotel que, naquela época, era luxuoso. Não tinha quase ninguém no cinema. Eu ficava ali, totalmente envolvida pela história que rolava na tela, como se fizesse parte dela. Uma vez, estava tão absorvida que nem percebi quando alguém sentou-se ao meu lado. Só notei quando senti uma mão atrevida sobre o meu joelho.

Aquilo foi chocante... acho que eu tinha apenas doze ou treze anos. Olhei para o lado com o canto do olho, e vi que era um homem que fingia estar assistindo ao filme enquanto tentava me bolinar. Ergui-me de repente da cadeira, assustada, e acho que o assustei mais ainda, pois ele levantou-se e saiu, de cabeça baixa, sem olhar para trás.  Nunca contei aquilo para ninguém, pois temia que meus pais nunca mais me deixassem ir ao cinema, mas aprendi que, em um cinema vazio, toda vez que alguém senta-se ao nosso lado, devemos levantar e ir embora o mais rápido possível.

E um dia, cantando "Bohemian Rhapsody," do Queen, entrei na loja onde uma de minhas irmãs trabalhava. Me perguntaram que música era aquela, e eu repeti o que havia aprendido traduzindo a letra com um dicionário. Me disseram que a música era horrível, ridícula, e aprendi que a gente não deve sair por aí falando das coisas que gosta com qualquer um, pois corremos o risco de ser ridicularizados. 

Caminhando pelas ruas de Petrópolis, aprendi a olhar muito, imaginar muito, pensar muito e falar bem pouco. Adolescente, eu às vezes ia sozinha às palestras do Centro de Cultura. Certa vez, assistia a uma palestra sobre racismo, onde a palestrante era uma moça negra muito bonita, mas com o cabelo esticado para ficar como o de uma branca. De repente, ela convidou a platéia a fazer perguntas. Meu coração batia na garganta. E eu me vi abrindo a boca e perguntando a ela por que ela esticava o cabelo, pois se ela se orgulhava de ser negra, não deveria esticar o cabelo. Eu estava tão nervosa que nem me lembro da resposta que ela me deu. Meus ouvidos taparam-se. Só sei que algumas pessoas da plateia se viraram para me olhar, e ao constatarem a minha pouca idade (deveria ter uns quatorze anos), apenas balançaram a cabeça em desaprovação. Aprendi que não se deve fazer perguntas embaraçosas durante palestras.

Eu saía para andar sozinha. Quando tinha dinheiro, comprava algum disco de vinil, e amava andar com meus discos debaixo do braço e levá-los aonde quer que eu fosse. Literalmente, Petrópolis me viu crescer com trilha sonora. Havia uma loja chamada A Musical, que deixava a gente escutar trechos dos discos antes de decidirmos se queríamos realmente comprá-los. Eu ficava sempre muito tempo por lá. Adquiri um gosto eclético, pois escolhia os discos pelas capas, pedia para ouvir e muitas vezes, descobria verdadeiras pérolas. Foi assim que conheci alguns compositores clássicos, e também o Aerosmith, Rick Springfield ( a capa me atraiu porque havia uma foto dele e eu o achei bonito demais), Bee Gees, Pink Floyd e muitos outros. A música era a minha vida. Não fazia nada sem que houvesse uma trilha sonora. Até quando eu sonhava acordada, punha uma musica ou a imaginava. 

Tantas e tantas vezes, lá no meu bairro, nós levávamos o aparelho de som para a rua e cada um levava um disco diferente! Ficávamos lá, escutando música após fazermos ligação direta da caixa de luz de um vizinho... conversávamos, dançávamos, tomávamos Coca-cola com rum e fumávamos escondido. Organizávamos festas de São João incríveis... cada um contribuía com alguma coisa. Eu adorava morar naquele bairro. Hoje, quando vou lá, vejo que quase nada mudou, e fico feliz de ter saído.

(continua...)





terça-feira, 14 de abril de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - Histórias em Petrópolis

O ipê próximo à Praça da Liberdade


Cresci na Petrópolis das baixas temperaturas. No inverno, às vezes elas atingiam quase zero. A cidade era bem mais úmida, o que favorecia o crescimento das hortênsias que pintavam as ruas de vários tons de azul. Minha avó paterna morava em um bairro chamado Duchas. A casa dela ficava no topo de uma ladeira, de frente para a rua, e havia na lateral da casa um morro coberto de Marias-sem-vergonha brancas. Estas flores também são conhecidas como Impacient (já ouvi um jardineiro dizendo “impachent”). Eram muito comuns em Petrópolis, especialmente na subida da Serra, onde proliferavam na beira das estradas em cores que variavam entre branco, laranja, vermelho, rosa-claro, lilás, roxo, rosa-choque e vinho. Com a mudança do clima, hoje são bem mais raras. Crianças, brincávamos de ‘pintar as unhas’: passávamos água nas unhas e colávamos as pétalas sobre elas. Durava pouco, mas era divertido... havia muitas moitas destas flores lá em casa, e minha mãe era uma defensora feroz delas. Quando meu pai capinava o terreno, ela ia olhar toda hora para ver se ele não as estava arrancando. Minha mãe gostava de olhar da rua para a casa e ver as flores espalhadas pelo caminho. 

Mais tarde, as hortênsias foram sendo substituídas por lírios amarelos. Os canteiros da cidade passaram a apresentar estas flores. As hortênsias sumiram, praticamente desapareceram, e a alcunha de Cidade das Hortênsias deixou de ter sentido. Hoje eu as tenho em meu jardim, e adoro abrir a janela de manhã e deparar com elas, plantadas junto ao muro.

Na época da quaresma – e isto acontece até hoje, graças a Deus – Petrópolis cobria-se de amarelo e roxo. As quaresmeiras e manacás-da-serra em flor são uma coisa linda de se ver! A gente olha para as florestas e, entre as muitas espécies de árvores, vemos aquelas manchas coloridas de flores. Em setembro, são os ipês... rosas, amarelos e roxos. Árvores enormes - ou bem pequenas ainda, como as que foram plantadas no centro histórico - proporcionam um espetáculo inesquecível que dura apenas uma semana. Próximo à Praça da Liberdade existe um ipê famoso. Fica no jardim de um prédio, bem na entrada, e a floração é tão abundante e magnífica, que todo mundo para a fim de fotografar e admirar. Eu mesma tenho várias fotos dele. 

Cresci entre as hortênsias, Impacients, quaresmeiras, manacás-da-serra, lírios amarelos e Ipês. Quando comecei a trabalhar, acordava nas manhãs geladas de inverno, bem cedo, tomava banho e me vestia para ir ao trabalho, e enquanto caminhava eu via a minha respiração e as das outras pessoas acumulando-se diante dos nossos rostos feito nuvens brancas. 
A luz da manhã é sempre linda no inverno. Adoro ver quando ela começa a dissolver a névoa ainda sonolenta que descansa sobre as montanhas e ruas! Aos poucos, o dia branco transforma-se em um dia de céu azul límpido como não existe em nenhum outro lugar do país. O céu de Petrópolis é o céu mais azul que eu já vi; quando ele cisma de ser azul, nada o supera. É tão bom sentar-se ao sol de inverno e sentir como ele aquece sem esquentar demais, sem invadir ou incomodar! Sentir o vento frio deixando o rosto rosado é delicioso, e a pele esticada parece até ficar mais jovem. Eu amo o frio e o inverno, e lamento profundamente que o clima tenha mudado tanto nos últimos anos. 

Quando criança, eu podia brincar com várias espécies de besouros coloridos, alguns nacarados, e outros, listrados, que comiam as folhas dos bambuzais, e com as joaninhas coloridas que se alimentavam das vassourinhas (arbusto baixo que antigamente era amarrado em feixes e usado para varrer). Havia também muitas espécies de lagartas vermelhas, cor-de-laranja, verdes e pretas. Dizem que elas queimam muito, mas felizmente, nunca toquei em uma delas. Também havia aquelas de pele muita fria e lisa, verdes, amarelas, listradas, azuladas, algumas muito grandes, que eu deixava passear sobre os meus braços. Havia muitas espécies de insetos que já não se vê mais por aqui. 

E os vaga-lumes... eram tantos, que pareciam estrelas descansando sobre o capim e as árvores. Eu gostava de pegá-los e coloca-los dentro de um vidro. Amava vê-los acender e apagar. Mas sempre os soltava logo depois. As noites Petropolitanas eram cheias dessas criaturinhas, piscando e piscando, em luzes azuladas, amareladas, verdes e brancas. Hoje em dia, dificilmente eu vejo algum. Às vezes eles aparecem por aqui no verão, e eu os vejo na mata em frente à casa. Raramente um deles aventura-se pelo jardim. E as joaninhas e besouros também são bem mais raros... 
Eu morava no bairro Caxambu, rua Flávio Cavalcante. A rua tinha este nome em homenagem a um grande apresentador de TV daqueles tempos. Ele era nosso vizinho. Muitas vezes, quando brincávamos na rua, ele passava em seu carrão com motorista, e acenava para nós, crianças, que precisávamos interromper o nosso jogo de bola toda vez que passava um carro. As pessoas gostavam de fazer turismo na chácara de Flávio Cavalcante, e as visitas eram permitidas. Ele era uma pessoa simples e acessível. Quando eu era bem pequena, fui com minha família, mas acho que eu era tão pequena que não me lembro. Quando ele foi embora, o terreno onde ele morava foi loteado e algumas casas de luxo foram construídas por lá. Não sei como se encontram, ou quem mora nelas hoje em dia; mas ficou o Morro do Flávio. Adolescente, fazíamos excursões para o morro. Chegávamos lá em cima e tínhamos diante dos olhos a vista do nosso bairro e cidade, cercada de montanhas azuis.

Certa vez, na ocasião da passagem do Cometa de Halley, meu então namorado, eu e algumas pessoas organizamos uma subida ao Morro do Flávio à noite para ver o cometa passar. Estava muito frio. Subimos tudo no escuro, à luz de nossas lanternas e com muita neblina. Chegando lá, nós no sentamos cobertos por um enorme plástico preto para evitar de ficarmos molhados pela neblina gelada, e aguardamos. Mas tudo o que vimos, foi a neblina. Após algumas horas, descemos o morro, frustrados e quase congelados. 

Eu também subi algumas vezes o Morro do castelinho, no Bairro Morin. A subida era cansativa, mas valia a pena, pois a trilha era linda, cercada de árvores e pequenos riachos. Lá em cima, podíamos ver a Bahia de Guanabara. Venta muito por lá, e o tempo todo, e por isso, nos agasalhávamos bem. Certa vez, cismei em calçar um par de tênis novos para fazer a subida. Cheguei lá com os pés cheios de bolhas, mas para não dar o braço a torcer, aguentei tudo calada. Dizem que hoje é perigoso subir o castelinho, e que há muito lixo nas trilhas. Infelizmente, nada fica para sempre. Parece que aonde quer que o ser humano chegue, em breve só resta destruição. 

(continua...)




domingo, 12 de abril de 2015

As Ruas das Árvores que Choram - Histórias em Petrópolis




AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM – PARTE II

Caminhar pelas ruas arborizadas de Petrópolis, sem pressa. Olhar bem os casarões antigos, as mansões bem conservadas que ficam ao longo da Avenida Koeller, Rua Ipiranga, Santos Dumont, D. Pedro, Barão do Rio Branco, Rua da Imperatriz. Muitas delas foram transformadas em pontos comerciais, devido ao alto custo de manutenção e o tombamento pelo Patrimônio Histórico. Caminhar pelo centro da cidade, e ver os poucos sobrados históricos que sobraram e conservaram-se como eram originalmente. Visitar pontos turísticos como o Museu Imperial,  A Encantada( casa onde viveu Santos Dumont) o Museu de Cera, O Palácio da Princesa Isabel, O Trono de Fátima, o Palácio de Cristal... percorrer o burburinho da Rua Teresa, ficar engarrafado no trânsito da Rua do Imperador, tomar café nas padarias, lanchonetes e casas de chá da Rua Dezesseis de Março depois de fazer compras nas lojinhas, e finalmente, sentar-se para descansar em um dos bancos da Praça D. Pedro, enquanto se observa as pessoas e carros passando. 

Uma cidade pequena. Uma cidade planejada – a primeira cidade planejada do Brasil, embora haja controvérsias. Mas o planejamento há muito “desplanejou-se” com a invasão das encostas, a superpopulação e a construção desenfreada de prédios e condomínios de luxo em áreas que deveriam estar preservadas. 

Mas eu quero falar de uma outra Petrópolis, uma cidade que foi planejada, antes de tudo, no céu. A cidade onde as árvores choram. Não sei se elas choram também em outros lugares, mas sempre que alguém senta-se sob uma das árvores de Petrópolis, ou permanece sob elas durante algum tempo, se ficar atento logo perceberá que está sendo espargido de leve por um líquido misterioso. Não sei se é seiva ou chuva acumulada nos galhos, mas mesmo em épocas de seca, quando eu fico no jardim de casa sob meu pé de laranja, sinto um leve borrifo que faz a pele arrepiar. Eu não quero saber se o mesmo acontecesse nas outras cidades, com outras árvores. Quero acreditar que somente as árvores Petropolitanas choram. Prefiro erguer os olhos para as copas verdejantes e ver a água borrifada de repente, assim do nada, e acreditar que alguma fada invisível está sentada em um dos galhos espargindo seu perfume. 

Nestas ruas eu escrevi a minha história. As casas são testemunhas da passagem do tempo sobre a cidade e seus habitantes. Muitas das pessoas que conheci, e com quem convivi, já não mais fazem parte desta paisagem, mas é como se os seus passos tivessem ficado marcados nas calçadas, e seus olhos permanecesse entre as copas das árvores, e eles me veem enquanto eu passo. Me perdoem se um dia vocês por acaso (ou por vontade própria) vierem parar aqui e não conseguirem enxergar nada do que eu digo; se a magia e a beleza que eu vejo e sinto em Petrópolis não chegar até o coração de vocês, eu peço desculpas. É que eu nasci aqui. A primeira coisa que eu enxerguei quando vim ao mundo, foi o céu Petropolitano pela janela do quarto onde fui parida, num 29 de setembro obscuro. Meus primeiros passos foram dados aqui, e minhas primeiras palavras – lidas e escritas – foram proferidas aqui. E é enxergando esse mesmo céu que me recebeu que eu pretendo fechar os olhos, quando chegar a minha hora. 

(continua...)



A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...