quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte II




Sentada à varanda de sua casa, Aurora lembrava-se de fatos do passado. Principalmente, lembrava-se da vida feliz que tivera com a mãe. As lembranças afloravam, vivas e límpidas, e era como se ela pudesse de repente estender a mão e tocá-las: 

Era de manhã bem cedo. Rúbia e sua mãe Marta tomavam café da manhã, antes que ela saísse para a escola. Naquela época, Rúbia tinha apenas doze anos de idade. Admirava muito sua mãe; admirava-lhe a beleza forte e quase agressiva, o porte esguio, a voz poderosa, o olhar prescrutador. Sabia que sua mãe a lia por dentro, e que jamais seria capaz de esconder qualquer coisa dela. 

Ninguém, aliás, o conseguia: Marta era considerada uma bruxa, e ganhava a vida dando consultas paranormais. Se ela adivinhava realmente o futuro ou se tinha uma capacidade muito grande de manipular pessoas, ninguém sabia ao certo; mas suas previsões concretizavam-se noventa e nove por cento das vezes. Rúbia nunca conhecera o pai, embora mãe não evitasse falar no assunto. sabia que seu pai nada significara para sua mãe; tinha sido apenas o portador do esperma com o qual a concebera, aos quinze anos de idade, por livre e espontânea vontade. Rúbia sabia que tinha sido fruto de uma gravidez desejada, pois Marta, através de um sonho, ficou sabendo que logo perderia seus pais e ficaria sozinha no mundo. Teve a filha porque quis, para fazer-lhe companhia e ter alguém para amar. Sempre dizia  que ela era mulher e homem o suficiente para que ambas sobrevivessem sem o seu reprodutor, e era verdade, pois nunca faltara-lhe nada e a figura paterna, na verdade, não lhe fazia falta. Às vezes, ela via os pais de suas amigas na escola. Ao invés de sentir inveja, não sentia nada. Achava que tinha sorte por ter a mãe mais bonita, mais jovem (Marta a tivera aos dezesseis anos) e mais poderosa do mundo.

Aprendeu a conviver com os muitos namorados da mãe, que entravam à noite e às vezes saiam da sua ampla e confortável casa de manhã cedo, furtivamente. Nunca ficavam para o café, e nunca eram mencionados. Não passavam de "amigos" que iam e vinham muitas vezes. Mais tarde, Rúbia descobriria que alguns deles eram pais de suas amigas. 

Mas sabia que ela e a mãe seriam sempre assim: ela e a mãe. Ninguém se intrometeria em suas vidas. Ela não teria um homem para fiscalizar a hora em que chegava em casa, quem eram seus namorados, seus amigos, e quais eram os lugares que frequentava (sempre ouvia suas colegas reclamando dos pais por causa daquelas coisas). 

E apesar de ser criada com muita liberdade, Rúbia jamais fora ensinada a não ter limites; sua mãe os impunha, e ela os respeitava. Uma das regras: jamais tocar em drogas. E sempre dizer onde estava. 

 Naquele dia, à mesa do café, Rúbia tomara uma decisão e decidira comunicá-la à sua mãe obtendo-lhe a aprovação: disse-lhe que só se entregaria a quem realmente amasse. A mãe riu de sua decisão, dizendo que sexo era apenas sexo, nada mais, mas jamais a contestou depois daquilo. Aceitou o lado romântico e quase puritano da filha, e no fundo, arrependia-se por não ter feito o mesmo há muitos anos... perdera o grande amor de sua vida devido o que ele chamara, naqueles tempos, de "sua promiscuidade." Mas ela pensava: "Se os homens podem divertir-se por aí, por que não as mulheres?  Não estou prejudicando ninguém!" E levava seu lema à sério, o que lhe rendia poucas amigas do sexo feminino... as outras mulheres a temiam e invejavam. 

Mas todas elas batiam à sua porta repetidamente, atrás de suas previsões e poderosos chás de ervas que serviam a vários propósitos, embora aquelas consultas fossem mantidas sempre em sigilo: todas sabiam sobre Marta, e todas a consultavam, mas o assunto ficava submetido às conversas muito íntimas em banheiros públicos femininos. Na sociedade, Marta simplesmente não era mencionada, pois não existia. 

Certa vez, uma mulher chorosa e desesperada consultou-a, pois desconfiava que o marido tinha uma amante. Da greta da porta, Rúbia ouvia todas as consultas sem ser vista, embora a mãe soubesse muito bem de seu esconderijo. Rúbia notou que sua mãe tornou-se um tanto sem-jeito ao descrever a tal amante do marido de sua consulente, pois vira a si mesma nas cartas... abrindo uma greta da porta para ver melhor o rosto da mulher, Rúbia precisou tapar a boca para conter uma gargalhada: era a mãe de uma de suas amigas, cujo pai já vira entrar e sair daquela casa algumas vezes... a amante da qual ela desconfiava era Marta, sua própria mãe! A pobre mulher, de desesperada que estava, nem percebeu.

Quando a mulher saiu, enxugando as lágrimas e levando na bolsa os chás e as instruções para espantar sua rival, Rúbia entrou na sala. A mãe olhou para ela, dizendo:

-Os homens são tolos, e não sabem manter segredos.

-Mas... mãe, esta é...

A mãe olhou para ela muito séria, e levando o dedo indicador aos lábios, sinalizou-lhe uma ordem de silêncio. Nunca discutia com ninguém os casos de suas clientes. O fato é que Rúbia nunca mais viu aquele homem adentrar sua casa, e dias depois, deparou com o casal feliz em uma confeitaria.

Muitas vezes, Rúbia questionava consigo mesma as atitudes da mãe; afinal, elas iam contra tudo o que ensinavam-lhe na escola sobre moral, retidão, bons costumes. Mesmo assim, ela a amava acima de todas as coisas, e as duas jamais brigavam, pois Rúbia decidira que a moral e os bons costumes poderiam ser conceitos perfeitamente flexíveis. Sua mãe nunca prejudicava ninguém - pelo contrário, ajudava a todos que a procuravam com seus chás, panaceias e consultas. Na outra cidade onde moraram, Rúbia já a vira curar muitas doenças de pessoas desenganadas por médicos, embora ela jamais aconselhasse a ninguém deixar de fazer os tratamentos. 

Certa vez, um homem chegou em sua casa com um enorme tumor do lado esquerdo do rosto. Os médicos diziam que era inoperável. Deram-lhe um triste prognóstico, e o pobre homem, ao saber sobre Marta, decidiu recorrer a ela como sua última chance de cura. Marta não gostava de trabalhar com curas. Tinha pavor de tornar-se alguma espécie de guru, e de atrair peregrinações novamente à sua casa (tinham vindo de uma outra cidade, pois tornara-se insuportável morar lá devido às longas filas de pessoas que viam nela alguma espécie de santa milagreira e faziam fila à porta de sua casa implorando que Marta as curasse). Exigiu-lhe que mantivesse segredo sobre o tratamento, ou não o ajudaria. Também prometeu-lhe que só poderia curá-lo se ele mantivesse segredo para o resto de sua vida, sob a pena de, se revelá-lo, ter de volta a doença. Ele concordou.

Marta cuidou dele, que mudou-se para sua casa. Aplicou-lhe ervas e unguentos, fez com que tomasse chás várias vezes ao dia e alimentou-o apenas de frutas, verduras, legumes e sucos naturais. Ao mesmo tempo, passava muitas horas conversando com ele, e ajudou-o a livrar-se de muitos dos ressentimentos que carregava consigo, aconselhando-o, após certa melhora, a procurar seus desafetos, perdoar-lhes e pedir-lhes perdão. Meses após o tratamento, o tumor diminuíra consideravelmente de tamanho, e o homem (para espanto dos médicos) pode ser operado e obteve a cura. 

A mãe ensinava-lhe tudo o que sabia, e Rúbia também viu brotarem seus dons mediúnicos. As plantas pareciam falar com ela, revelando-lhe segredos sobre suas propriedades, e ela aprendeu a usá-las rapidamente. Às vezes, tinha visões de pessoas falecidas que falavam-lhe, pedindo-lhe que transmitisse recados aos vivos. Nem sempre o fazia, pois tinha muito medo daquelas coisas, e sabia que apesar de serem procuradas justamente por causa de seus dons mediúnicos, algumas das mesmas pessoas que por vezes se utilizaram deles as criticavam em público.

Aquelas memórias trouxeram outras que Aurora não desejava. Levantou-se, e foi cuidar das suas plantações. Enquanto o fazia, recordou-se que era seu aniversário. Fazia 29 anos de idade. Mas não; era o aniversário de Rúbia, uma pessoa que morrera há dois anos. Aurora fazia aniversário no mês de maio, como diziam seus novos documentos, e tinha 27 anos.

(continua...)


Um comentário:

  1. Ai meus sais! Bruxas, fadas, Rúbia e Aurora... Será que Rúbia irá aflorar em Aurora???? Aiiii posta logo a outra parte.

    bacios curiosos rs

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