sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A CASA DO CAMINHO DE PEDRAS - PARTE V





A Casa do Caminho de Pedras - parte V



Bem longe daquele paraíso, Helena e seu marido, Jorge Medeiros, tomavam um drink antes do jantar. Helena sentia muita falta de seu filho, Eduardo, que tinha sido mandado para longe dela devido ao que para ela significava "um mero acidente de percurso": o assassinato de Marta Fernandes, mãe de Rúbia (ou de Aurora). Ela pensava no quão insignificantes eram aquelas duas mulheres, e no que elas representavam para a sociedade local: nada! Seu filho apenas tentara fazer justiça ao vingar-se daquelas aproveitadoras que tinham matado sua irmã Jane. A família estava destroçada para sempre, e uma daquelas ditas "bruxas" ainda estava solta pelo mundo, Deus sabe onde. Quem mais ela poderia ferir? Quais famílias seriam destroçadas, como a deles, devido à libido incontrolável daquelas mulheres? 



Sentado junto à lareira apagada, olhando fixamente para as achas empilhadas, segurando seu copo de uísque, Jorge tinha os mesmos pensamentos. Já tentara localizar Rúbia algumas vezes, a pedido da esposa, mas fora em vão. Ela tinha desaparecido. Achava inútil tentar encontrá-la; achava melhor que ambos focassem, naquele momento, em elaborar, junto a bons advogados, uma maneira de pedir um novo julgamento para seu filho Eduardo, e libertá-lo da prisão. Afinal, já se perguntara - e perguntara várias vezes à Helena - qual seria a vantagem de encontrarem Rúbia, e embora tivesse formulado a pergunta, temia a resposta que ela nunca dera claramente. Helena alegava que só gostaria de ter certeza que ela estava bem longe de sua família. Mas Jorge, conhecendo bem o temperamento forte da esposa, temia que ela estivesse planejando outra vingança.



Jorge ainda podia lembrar-se da única noite que passara naquela casa, há muitos anos, bem antes que tudo aquilo acontecesse. Ainda podia sentir nas pontas dos dedos o calor da pele de Marta naquela única noite de amor e luxúria que tiveram. Ela não negava fogo, e também não era seletiva quanto aos homens com quem dormia. E todos que a conheceram carnalmente tiveram a mesma opinião: Marta era uma mulher linda, maravilhosa e muito versada nas artes do amor e do sexo. Não tinha medo da vida e nem hesitava quando se tratava da busca do prazer. E o melhor de tudo: ela não queria nada de nenhum deles, a não ser divertir-se um pouco, e portanto, não corriam o risco de sofrerem ameaças e chantagens da parte de Marta. 



O incrível, pensava Jorge, é que apesar dos muitos amantes que tivera, Marta sempre fora respeitada por todos eles. Nenhum deles jamais conseguiu dizer uma só palavra de desabono à sua conduta, apesar de tudo. A única preocupação que eles precisavam ter em mente era que jamais se apaixonassem por ela, pois Marta não era de ninguém... e aqueles que se apaixonaram, destruíram suas vidas familiares em vão, pois ela não os aceitou; pelo contrário, censurou-os severamente! Mas tais notícias se espalhavam, e as mulheres da cidade passaram a odiá-la, apesar de ainda procurarem por seus cosméticos milagrosos e suas leituras de carta. "Assim são as mulheres", pensou Jorge.



Ergueu os olhos e deparou com Helena na mesma posição que ele, olhando para as mesmas achas apagadas, totalmente ausente. Segurava, como ele, um copo de uísque - que passara a segurar com muita frequência durante as horas mais absurdas do dia, inclusive pela manhã. Preocupava-se com ela, e com a dor que ela sentia pela ausência dos filhos. Sentia-se quase culpado por ter sido amante da mulher que causara tudo aquilo à sua família. Sua esposa Helena, antes tão alegre e elegante, que comparecia aos melhores eventos sociais sempre impecavelmente vestida, andava pela casa usando um robe antigo e chinelos, e os cabelos, antes tão bem arrumados, desgrenhados e grisalhos. As unhas que costumavam ser brilhantes e esmaltadas, eram agora cortadas bem curtas e sem esmalte. Não aceitava mais convites das amigas para sair ou comparecer a eventos. Passava o dia todo em casa, e muitas vezes, ele a encontrava chorando. Apesar dos remédios receitados pelo médico, Helena muitas vezes sofria de insônia, e nessas ocasiões, ele a escutava andar pela casa chamando o nome da filha morta. Certa vez, encontrou-a conversando com alguém que, segundo ela, estava sentada no sofá. Ao perguntar-lhe com quem ela estava falando, Helena respondeu: "Não está vendo? É a nossa filha Jane! Não está linda?"



Jorge acreditou que seria efeito da medicação. Levou-a para a cama, e como ela pedira, disse 'boa noite' à filha morta. A partir daquela noite, Helena começou a beber mais. Muitas vezes, bebia até dormir. Trancava-se no escritório com o álbum de fotografias dos filhos e bebia até adormecer. Jorge escutava seus soluços, mas ao bater à porta, ela só pedia que ele a deixasse em paz. Os empregados da casa tentavam cuidar dela o melhor possível, e entravam no escritório usando a chave mestra para levá-la para o quarto depois que ela dormia. Todos tinham muita pena de sua esposa, mas Jorge sabia que eles comentavam pelos cantos, e que muitos na cidade já sabiam do estado no qual ela se encontrava. Ele às vezes notava que seus amigos mudavam de assunto quando ele chegava, se entreolhando. Pigarreavam, e o acolhiam mais efusivamente que o normal. 



Sua vida, antes tão maravilhosa e movimentada, reduzira-se àquilo: solidão, silêncio, lágrimas. Não tinha mais a presença alegre dos filhos pela casa. naquelas horas, ele também odiava Marta, mas odiava ainda mais ao Dr. João, amigo de Rúbia, que tomara o caso da morte da mãe de sua amiga como se fosse pessoal caso e condenara seu filho. Seus amigos diziam que ele apenas fizera seu trabalho, mas Jorge sentia ânsias de vômito toda vez que passava pela casa de João ou encontrava com ele casualmente. Tentava conter-se; afinal, já havia problemas demais em sua vida. Os dois cumprimentavam-se formalmente, e ele notava uma certa culpa nos olhos do rapaz.



Perdido naqueles pensamentos, Jorge ouviu a empregada chamar para o jantar. Levantou-se, e segurando a mão da esposa, conduziu-a até a mesa com ele. Ajudou-a a sentar-se e foi tomar o seu lugar em frente a ela. Via que ela apenas brincava com a comida. 



-Helena, você precisa comer alguma coisa.



Ao ouvir aquilo, ela sorriu tristemente, e levou uma pequena garfada à boca, que mastigou mais que o necessário e com grande dificuldade, engoliu. Tomou um grande gole de bebida alcoólica e colocou outra pequena garfada na boca. Jorge observou:



-Você anda bebendo demais. Precisa parar!

Helena deixou cair uma lágrima e deu um longo suspiro antes de responder:

-E o que me resta ainda? Me diga, Jorge...



Ele largou a comida, e foi sentar-se ao lado dela. Tomou-lhe o garfo das mãos, e começou a alimentá-la ele mesmo. Ela demorava a engolir, mas ele conseguiu fazer com que ela comesse um pouco. Ao mesmo tempo, ele tirou-lhe o copo de uísque e fez com que ela tomasse um pouco de suco. 

Depois, ajudou-a a trocar-se para dormir, deu-lhe os remédios e colocou-a na cama, cobrindo-a. Quando voltou para jantar, viu que a comida esfriara, e pediu à empregada que esquentasse um prato para ele mesmo. Mas depois que ela o serviu, não conseguiu comer mais. Pegou seu casaco e saiu pela noite, caminhando sem rumo.




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