sábado, 25 de outubro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte VII





A Casa do Caminho de Pedra – parte VII

Na segunda feira de manhã, antes das seis, Aurora despertou com batidas à porta. O dia ainda estava semi-escurecido.  Ela já sabia quem era, e foi abrir. Enquanto caminhava até a porta, ela ajeitou os cabelos soltos com as mãos, e ao passar pelo espelho do corredor, viu que tinha uma aparência selvagem. Mal abriu a porta, ainda sonolenta,  Pedro saltou sobre ela como um lobo faminto, e ambos foram para sua cama ainda quente. Ficaram ali durante muito tempo, e quando deu por si, Aurora lembrou-se que logo deveria encontrar Maria para ir à cidade comprar um celular. Já eram quase nove horas!

-Pedro você precisa ir embora agora. AGORA!

Pedro, cansado e ainda semi-adormecido nos braços dela, murmurou:

-Hum? Por que? O que deu em você, Aurora?

Ela o sacudiu com força:

-Maria está vindo para cá! Você precisa sair. Nós combinamos de ir juntas à cidade. 

Ao ouvir aquilo, ele deu um salto, e começou a vestir-se apressadamente. Aurora fez o mesmo. Passou uma escova nos cabelos, prendendo-os em seu habitual coque, lavou o rosto e enquanto escovava os dentes, escolheu um vestido para sair. Rezava para que a amiga se atrasasse, como era hábito seu; não queria magoá-la. Decidiu que terminaria tudo com Pedro naquele mesmo dia. Quando estavam ambos quase vestidos, pararam ofegantes diante um do outro. Seus olhares compreenderam que aquilo não poderia continuar.
Beijaram-se apaixonadamente.

O desejo tomou conta de ambos novamente, e tiveram que fazer um enorme esforço para se separarem. Ele  beijou-a novamente e saiu.
Ela olhou em volta, tentando encontrar traços da presença dele na casa. Arrumou a cama, esticando bem os lençóis. Espirrou um spray perfumado no ar para apagar o perfume dele completamente. Ainda sentia o calor das mãos dele sobre certas partes de seu corpo. Sentia-se péssima fazendo aquilo, mas era o que lhe restava fazer.

Enquanto isso, Pedro caminhava para o carro, ajeitando os cabelos com as mãos e colocando a camisa para dentro da calça. Foi quando ele viu Maria parada junto ao carro, de braços cruzados. Seu rosto estava lívido, mas ela não estava chorando. Não conseguiu dizer nada; apenas parou diante dela. As palavras eram inúteis. Foi ela quem falou primeiro:

- Eu... eu e Aurora combinamos de ... 
-Eu sei, Maria. Eu sei... olha, eu sinto muito... isso...
-Por favor, Pedro, não diga nada. Ela... eu... 

Ele tentou abraçá-la, mas ela desvencilhou-se dele, empurrando-o suavemente:

-Não faça isso. Por favor. Só me responda uma coisa: foi só sexo? 

Ele ficou ali parado, olhando para o chão coberto de folhas úmidas. Não sabia responder. Seus sentimentos estavam embaralhados. Achava que não tinha sido apenas sexo. Admitiu que com Maria nunca tinha sido tão intenso como era quando estava com Aurora. Davam-se bem, eram bons amigos e partilhavam dos mesmos gostos, mas a paixão não acendia. Faziam um amor morno. Ele a amava. Mas não estava apaixonado por ela, nunca estivera. Mas o que sentia por Aurora? Sua cabeça estava a ponto de explodir!

Dentro da casa, Aurora sentiu, de repente, um forte calafrio, e teve que se segurar nas costas da cadeira para não cair. Compreendeu que Maria sabia de tudo. Seria melhor ir até lá fora, onde sabia que ela e Pedro conversavam? Achou melhor não ir. Era um momento que pertencia aos dois. Sentiu que Maria não a odiava. Estava magoada, mas não a odiava. Estava tão confusa quanto ela e Pedro. Ela mesma não sabia se ainda amava o noivo. Todos aqueles sentimentos e pensamentos de Maria chegavam até ela como se entrassem pela janela, trazidos pelo vento. Era como se a amiga lhe falasse, mas sem usar palavras. Sentiu que Maria também sentia uma forte atração por ela, e aquele pensamento foi uma grande surpresa; se ela sentia algum ciúme, era mais dela que de Pedro. E também compreendeu que a amiga tentava lutar contra aquele sentimento também estranho para ela própria, e não o admitia.

Aurora também estava confusa: seria igual à sua mãe? Seria realmente a mulher lasciva que Helena, a mãe de Eduardo, a acusara de ser, aos gritos, em uma das sessões do julgamento do filho? Sempre achara que era diferente! O que sentia por Pedro? Mas... esquecera-se do amor de João?

Lá fora, Maria e Pedro estavam parados diante um do outro. Não se olhavam. Ambos olhavam para o chão. Um passarinho chamou-os de volta à realidade, cantado alto em uma árvore próxima. De repente, ele entrou no carro, chamando-a para entrar junto com ele, mas ela balançou a cabeça negativamente, fazendo sinal para que ele fosse embora. Ele insistiu, mas ela disse-lhe para ir embora. 

-Eu estou bem , Pedro, não se preocupe, não vou fazer nenhuma bobagem. Mas preciso ter uma conversa com Aurora.

-Mas... e nós?...

-Não há mais “nós”.

Ao ouvir aquilo, Pedro ainda ficou olhando um pouco enquanto ela se dirigia para a porta da casa, e depois, dando partida no carro, foi embora cantando pneus no caminho de pedras.



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