domingo, 31 de janeiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - Capítulo III








O ANJO NO PORÃO

CAPÍTULO III



Uma exultante Vicentina recebeu a notícia sobre o convite para jantar. Escolheu um de seus melhores vestidos, e quando perguntou a Régis qual dos vestidos ela deveria usar na filha, ele logo disse:

-Não, a menina não vai. Sabe, para evitar escândalos. Ainda não estamos casados, e a família é muito tradicional.

Vicentina ficou desapontada no início, mas depois, concordou com ele. Só o fato de que iria a um jantar de família, onde pessoas dignas e direitas estariam presentes, e que ela estaria entre eles, já era o suficiente para deixa-la feliz. Já sentia um amor profundo pelas cunhadas, como se fossem suas irmãs – embora o único contato que tiveram tivesse sido frio e impessoal, nos fundos da casa. Tinha certeza de que, quando elas a conhecessem melhor, ficariam orgulhosas e a chamariam de irmã. Afinal, fariam parte da mesma família!

Desde que fora expulsa pelo pai, por quem não sentiam mesmo muito afeto (era frio e distante), aquela era a primeira vez que  a vida lhe abria portas imensas, e cheias de promessas de felicidade, novas oportunidades de um futuro brilhante para ela e para Regiane, ao lado do único homem que já amara.

Finalmente, viram-se diante dos portões da casa imponente, situada na Avenida Koeller. Foram recebidos por um solene mordomo, que os conduziu até o salão principal. Rosa parecia tão feliz, que Vicentina ignorou o fato de que mal a cumprimentara, e preferiu fingir para si mesma que não percebera a antipatia que as duas irmãs lhe devotavam. Também fechou os olhos ao suor que escorria da testa de Régis, que ele enxugava a todo momento – um sinal de nervosismo que ela conhecia muito bem - , atribuindo tudo ao amor devotado que ele sentia em relação às irmãs: só queria que tudo desse certo!

Vicentina tentava comportar-se de forma austera, sentando-se ereta na ponta do sofá, copiando os gestos das cunhadas. Quando a matriarca chegou à porta do salão, todos se levantaram, e foram feitas as apresentações. Régis sentia-se orgulhoso, pois frequentava ambientes muito finos (mesmo que fosse como copeiro) o suficiente para saber que suas meninas estavam se saindo muito bem e causando ótima impressão.

Foi quando pai e filho adentraram a sala que Régis percebeu uma palidez mortal tomar conta do rosto de Vicentina. Seus olhos encheram-se de lágrimas, e ela engoliu em seco, apoiando-se em seu braço a fim de manter-se de pé. O mesmo se deu em relação ao seu futuro cunhado. O rapaz ficou muito vermelho, empalidecendo em seguida, e passando a gaguejar quase compulsivamente. Todos pensaram que se tratava de nervosismo puro e simples, devido à ocasião que os unia, mas Régis sabia que havia algo mais acontecendo. O jantar foi uma ocasião estranha, na qual todos, exceto por Régis, Vicentina e Alfredo – o noivo -, falavam pelos cotovelos, planejando os detalhes da festa de casamento e da viagem de lua-de-mel à Paris. Régis percebeu que Vicentina e Alfredo mal tinham tocado na comida, e aquilo o deixava cada vez mais apreensivo, pois já intuía o que poderia estar acontecendo: Alfredo só poderia ser um frequentador do prostíbulo, e reconhecera Vicentina!
Depois do jantar, Vicentina deitou-se virada para a parede, evitando maiores intimidades, e deixando Régis com medo de fazer a pergunta que não queria calar. E ele preferiu não fazê-la. Mas seus maiores medos se confirmaram na manhã seguinte, quando, ao chegar na casa das irmãs, deparou com Rosa aos prantos, segurando nas mãos uma carta meio-amassada, entregue bem cedo por mensageiro, as letras borradas pelas lágrimas. Fiorela tentava consolá-la, mas  deu um passo adiante ao ver chegar o irmão, gritando:

-Veja só o que você fez com a nossa irmã! Tudo por culpa daquela... daquela...

-Mas o que está havendo, Fiorela? Por que está chorando, Rosa?

E ele tomou das mãos de Rosa a carta, lendo-a em silêncio, e sentindo seu rosto queimar. Na carta muito formal, Alfredo desmanchava o noivado, dizendo que infelizmente, ao saber das origens da noiva do irmão de Rosa, o pai o proibira de unir-se àquela família. Dizia lamentar profundamente o ocorrido, mas ele mesmo, querendo seguir uma carreira honesta de doutor, não poderia ter o seu nome ligado a pessoas não distintas. terminava a carta friamente, com apenas uma palavra: "Saudações.”

Régis embolou a carta, jogando-a com raiva no chão. Andava de um lado a outro, proferindo obscenidades a respeito de Alfredo, até que Fiorela mandou que se calasse, pois estava piorando a situação de Rosa. Só então ele lembrou-se da irmã, ajoelhando-se ao lado dela, e segurando-lhe as mãos, disse:

-Querida irmã, com sua beleza, certamente logo encontrará um cavalheiro distinto que a queira. Vou me embora; levarei comigo o motivo de sua vergonha, e você e Fiorela nunca mais ouvirão falar de nós. Gente como eles tratará de manter segredo pelo que aconteceu, pois não hão de desejar o nome da família envolvido em escândalos, e tudo será esquecido.
Mas quando Rosa ergueu os olhos para ele, Régis tomou um grande susto: não viu mais a alma da irmã. Alguma coisa tinha se perdido dentro dela para sempre.

Rosa subiu para o seu quarto, de onde não saiu durante vários dias. Vestiu-se de negro, e jogou fora todas as suas roupas coloridas e leves, substituindo-as pelas roupas da velha tia falecida que tinham sido socadas em um baú no sótão, e todas eram escuras, velhas, pesadas e feias. Prendeu os longos cabelos  sedosos em um coque na nuca, e durante toda a sua vida, seria aquele o seu penteado, e aquela a sua indumentária. Jamais voltou a enamorar-se de ninguém. Nenhum rapaz desejara desposar aquela criatura taciturna, que mais parecia um abutre disfarçado.

Ela apareceria mais tarde, em fotos de família como uma criatura de olhar triste e enviesado, calçando sapatos largos e quadrados, uma jovem vestida de idosa por dentro e por fora.
Os dias que se seguiram foram difíceis para Fiorela, pois não sabia lidar com a depressão da irmã. Ao mesmo tempo, o irmão desapareceu novamente, deixando para trás a filha e a mãe de sua filha. Vicentina, grávida do seu terceiro filho, desesperou-se; Diana disse lamentar muito, mas não poderia ficar com ela e mais uma criança; as coisas estavam difíceis naqueles tempos de guerra. Além de tudo, aquele não era um lugar bom para se criar crianças, e como Vicentina fosse uma mulher extremamente fértil, provavelmente acabaria por engravidar outra vez. Diana já não queria mais problemas, pois já fizera por ela mais do que a própria família tinha feito. Porém, em um último gesto de bondade, deixou que Vicentina ficasse por lá com sua filha até que o seu terceiro bebê nascesse; escreveu à irmã na fazenda, e esta aceitou alegremente o filho que, segundo Diana, alguém abandonara em sua porta em uma noite de inverno. Assim, Antônio ganhou um irmão, mas só descobriria o parentesco entre eles muitos anos mais tarde.

Vicentina deixou a casa levando consigo alguns vestidos – presentes de Régis – e vendendo às meninas os demais, pois precisava de dinheiro para manter-se e à filha. Vendera também, muito à contragosto, sua única joia, uma pulseira de esmeraldas e ouro que ganhara de uma tia rica em seu décimo quinto aniversário. Conseguira contatar o irmão em segredo e convencê-lo a levar-lhe a pulseira, o que ele fez a contragosto. Com aquele dinheiro, conseguiu alugar um quartinho no Hotel Royal.
Mas o dinheiro foi acabando, e ela viu-se com o aluguel do quartinho vencido e a filha às margens de passar fome; voltou à vida. Recebia cavalheiros em seu quarto discretamente, após as dez da noite, enquanto a filha dormia alheia à tudo, em um bercinho ao lado da cama.

Fiorela casou-se, e com a permissão do marido, convidou Rosa a morar com eles em sua nova e espaçosa casa. Cedeu à Rosa a edícula, onde ela viveu solitária a maior parte do tempo, passando a ficar muitas horas lendo e tricotando em sua cadeira de balanço. Mal sabia ela que aquela seria a sua casa até idade avançada, e que viveria e morreria ali. Tornar-se-ia a tia mais querida dos sobrinhos, a Tia Rosa, que dava-lhes sempre muitos presentes e que sempre tinha uma maçã bem vermelha para ofertar a quem chegasse. Aos poucos, o amor pelos sobrinhos e a lida da casa tomar-lhe-iam o lugar da amargura, e ela voltaria a ser a criatura doce e ágil que sempre fora. Porém, Alfredo ocuparia sempre um lugar secreto em seu coração, um lugar escondido de todos, ao qual ela retornava sempre todas as noites antes de adormecer. Nunca saberia ela que também ocupava um lugar semelhante no coração dele, que jamais a esqueceria – mesmo já casado e pai de vários filhos. Passariam um pelo outro na rua e não se cumprimentariam, mas seus olhares lhes trairiam sempre, e as batidas aceleradas de seus corações sempre os fariam lembrar daquele habitante secreto.

Rosa nunca mais mencionou o nome de Alfredo. Quando os sobrinhos às vezes lhe perguntavam por que nunca se casara, ela suspirava e desconversava, ou então respondia: “Porque eu não quis. Preferi tomar conta de vocês.” Mas tudo isso deu-se bem mais tarde nesta história.

Antes disso, selou-se o destino de Vicentina.

Sozinha, com pouco dinheiro, má alimentada e levando uma vida promíscua na gélida cidade de Petrópolis, ela acabou adoecendo; contraiu sífilis. Não teve dinheiro para o tratamento, mas a causa da doença ter se espalhado e agravado rapidamente, não foi esta; poderia ter recorrido à ajuda de Diana, que certamente, não se recusaria a ajuda-la mais uma vez. Ela mesma tinha dito que, caso ela precisasse, que a procurasse – mas Vicentina não o fez; poderia também  ter se encaminhado a um hospital público. Mas no fundo, Vicentina não queria curar-se; queria morrer. Não via mais motivos para continuar viva. Olhava para o rosto da filha, e pensava que junto dela, a menina jamais poderia ter um bom futuro. Assim, um dia bateu à porta da casa de Fiorela, levando a menina nos braços. Sua aparência doente penalizou Fiorela e Rosa, que receberam Regiane em sua casa e cuidaram dela. Também tentaram providenciar cuidados médicos para a mãe – “já ouviu falar da penicilina?” Porém, esta recusou-se a tratar-se.

Regiane, aos quatro anos de idade, passou a viver no casarão junto com as tias e a prima recém-nascida, a qual Fiorela deu o nome de Lea. Sentia muita falta da mãe, e chorou muito no início, mas logo acostumou-se a nova vida, pois percebeu que seria aquela a vida que lhe estava sendo oferecida dali por diante. 

(continua...)






quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO II







O ANJO NO PORÃO


CAPÍTULO II



Regiane crescia a olhos vistos. Era mantida nos fundos da casa, e quando a mãe estava trabalhando, a cozinheira tomava conta dela. No começo, Vicentina não conseguia entregar-se aos clientes, até que passou a beber. Quando bebia, era como se assumisse uma outra personalidade, saindo de dentro de si mesma e esperando do lado de fora, enquanto uma outra alma assumia seu corpo. Tornou-se uma das preferidas daquele lugar, e tinha vários clientes em uma só noite. Certa vez, suas regras não vieram por dois meses, e ela viu-se em frente à Diana contando-lhe sobre sua desgraça. Esta mandou que o doutor viesse imediatamente, e ele apenas confirmou suas suspeitas: Vicentina estava grávida novamente!

Diana ficou furiosa. Tantas e tantas vezes tinha ensinado a ela como evitar filhos, e mesmo assim, ela aparecia com mais uma gravidez! Chorando, Vicentina argumentava, dizendo que estava sempre tão embriagada, que nem se dava conta do que acontecia com ela. Diana decretou:

-Você vai tirar essa criança!

Vicentina mostrou-se apavorada; há apenas uma semana, uma das meninas morrera ao fazer um aborto. Não queria morrer, por mais desgraçada que sua vida fosse, pois aprendera a amar sua filha, e não podia imaginar deixá-la sozinha no mundo. Diana, que era durona mas tinha bom coração, ficou em silêncio por algum tempo, e finalmente, falou:

-Então você mandará a criança para minha irmã, em São Paulo. Ela será criada em uma fazenda, comerá do bom e do melhor. Terá uma vida bem melhor que a sua. Você poderá visitar seu filho uma vez por ano, durante as férias. Minha irmã não pode ter filhos, e vai ficar feliz. Mas não diga a ela que tipo de negócio temos por aqui! Ela nem desconfia, pensa que estou trabalhando em casa de família.

E assim foi feito. Vicentina sentiu-se muito triste ao separar-se do filho recém-nascido, mas conformou-se quando Diana ofereceu-se para pagar sua viagem até a fazenda em São Paulo a fim de conhecer seus novos pais, e foi onde ambas deixaram o bebê – um menino que ela batizou como Antônio, pois desconfiava que este era o nome do pai biológico. Dora, irmã de Diana, que ignorava as atividades da irmã em Petrópolis, e recebeu-as com gosto e gentileza, derramando-se em mimos sobre Antônio. O marido também logo apaixonou-se pelo menino. Trabalhavam na fazenda, onde ocupavam uma pequena casa e levavam uma vida simples, mas nada lhes faltava. 

Vicentina despediu-se entre muitas lágrimas. Concordou em mentir sobre sua verdadeira identidade, e assumiu diante do casal a personagem que Diana criou para ela: uma jovem viúva de guerra passando por dificuldades financeiras. Ela achou que seria melhor para o bebê. Durante a viagem, acabou por consolar-se com as palavras de Diana, que disse:

-Pense bem, você fez o melhor por ele. Minha irmã e o marido ficaram muito felizes e o tratarão muito bem, assumindo-o como filho, e ele terá uma boa vida. Que outra vida melhor você poderia oferecer a ele? Se eu fosse você, faria o mesmo a respeito da pequena: daria para adoção!

Aquela última frase indignou Vicentina:

-Jamais! Minha filha há de ficar comigo, e acredito que Deus proverá para que ela cresça feliz e saudável. Não pretendo levar essa vida que levo para sempre, Diana. Um dia, eu terei um lar, e darei um lar digno à minha filha!

Diana suspirou, assumindo uma expressão de incredulidade, e nada mais disse a respeito. Dias depois, Vicentina voltou ao trabalho no bordel.

Certa manhã, por volta das dez horas, quando todas dormiam a fim de recuperar-se da longa noite, as mulheres foram despertadas por fortes batidas na porta da frente. Algumas vestiram seus robes, ajeitando os cabelos com as mãos e prendendo-os em coques no alto da cabeça, seguindo Diana em direção às escadarias de madeira, de onde podiam ver quem as estaria incomodando àquela hora, enquanto outras, como Vicentina, viraram para o lado, continuando a dormir. Diana abriu a porta e deparou com um rapazola pálido que segurava um chapéu, nervosamente. Foi logo explicando:

-Estamos fechados, senhor. Volte mais tarde, após as nove horas.

Já ia fechando a porta, quando ele a empurrou devagar, e perguntou:

-Por favor, senhorita... Vicentina Leme vive nesta casa?

Diana abriu a porta, olhando-o dos pés à cabeça, perguntando:

-Depende... quem é o senhor?

-Por favor... meu nome é Régis Costa. Estou à procura de Vicentina Leme. Ela mora aqui?

Diana logo lembrou-se do nome do cavalheiro que engravidara uma de suas meninas, e que era o pai de Regiane. Sem tentar ser gentil, mandou que ele entrasse e se sentasse, enquanto o fuzilava com o olhar:

-Ela mora aqui, sim. Ela e sua filha, Regiane! Não sei se Vicentina deseja vê-lo novamente. Mas vou perguntar.

E sumiu escadaria Acima. Régis olhou para o topo das escadas e deu com as muitas “meninas” que o observavam, e fez uma leve mesura, erguendo a aba do chapéu e sorrindo-lhes. Elas soltaram gritinhos de satisfação. Uma delas desceu e foi até a cozinha preparar-lhe um café, enquanto as outras, sentadas nos degraus, aguardavam o desfecho da história. 

Súbito, todos escutaram um grito agudo vindo do quarto ocupado por Vicentina, e logo depois, ela desceu as escadas ainda de camisola, esquecendo-se de vestir seu robe, correndo em direção a Régis. Quis abraçá-lo, quis beijá-lo; mas parou diante dele, com lágrimas nos olhos. Ele também parecia muito emocionado, e logo abriu os braços e estreitou-a entre eles. Para Vicentina, foi como se de repente o mundo voltasse a girar da maneira certa novamente, após um longo período de enjoos e tonturas. Para Régis, que já quase arrependera-se de ter voltado (percebeu que Vicentina obviamente tornara-se uma das prostitutas da casa; se ele estava ali, era por pura culpa, e por insistência das irmãs, que achavam que ele deveria assumir a filha, que não deveria pagar pelos erros dos pais) aquele abraço era muito difícil. 

Vicentina nem queria saber por onde ele andara. Não importava que ele a tivesse abandonado, pois afinal de contas, estava de volta. 

Ela afastou-se dele e segurou-lhes as mãos, dizendo:

-Eu sabia, dentro do meu coração, que você voltaria e nos levaria para casa com você!

Régis tentou não magoá-la mais uma vez, e novamente, não disse a ela a verdade: que não a queria de volta, apenas viera pela filha pequena. Ao invés disso, ele improvisou uma história mais suave:

-Sim, querida, mas você há de compreender que eu não tenho onde cair morto... 

Viu a decepção estampada nos olhos dela:

-Certamente, pretendo dar a você e à pequena um lar, mas você precisa ter paciência. Estou ainda trabalhando de copeiro em outra cidade, mas estou economizando, e acredito que em breve...

Vicentina nem esperou que ele terminasse de falar, disposta a crer no que quer que ele pudesse dizer a ela que lhe oferecesse um pouco de esperança. Abraçou-o com força, beijando-o apaixonadamente. As mulheres bateram palmas. Somente Diana parecia impassível, olhando a cena com ares críticos.

Régis olhou no rosto da mãe de sua filha:

-Onde ela está?

Vicentina sorriu:

-Dorme. Mas vamos, quero que você a conheça logo!

Conduziu-o pela cozinha até o quarto da cozinheira, onde a menina dormia em um berço, ao lado da cama da senhora que tomava conta dela, e que dormia profundamente. Régis olhou pela primeira vez o rosto da filha, e sentiu que uma imensa camada de gelo acabava de quebrar-se ao meio em seu peito. Tocou-lhe as bochechas rosadas de leve, e com ternura, sussurrando:

-Qual a idade dela?

-Vai fazer três anos.

-Ela é... linda, absolutamente linda! 

Vicentina pegou-o pela mão, levando-o para fora do quarto. Na mesa da cozinha, aguardavam-nos duas xícaras de café e um prato de biscoitos. As moças tinham sido mandadas de volta aos seus quartos por Diana, e eles estavam a sós. Tomaram o café. Régis parecia faminto, e devorou todos os biscoitos do prato. Confessou que acabara de chegar de viagem, e que não comera no trem porque estava muito nervoso. Vicentina achou melhor contar logo a ele:

-Régis... quando você me deixou, eu... meu pai expulsou-me de casa, e me vi em maus lençóis. Diana acolheu-me, e em troca, eu... bem... você precisa saber que... 

Ele interrompeu-a:

-Não importa. Não diga mais nada. 

Aquelas palavras fizeram com que uma luz brilhasse, deixando o coração de Vicentina aquecido. Régis continuou:

-Como já disse, não tenho condições de tirá-la dessa vida agora; mas farei de você a minha exclusiva. Pagarei para que apenas eu visite seu quarto, você será somente minha. Cuidaremos de nossa filha, e...

Vicentina sentiu as lágrimas quentes de indignação começando a jorrar de seus olhos:

-Está me propondo que eu seja a sua... a sua... prostituta particular?

Ergueu-se da mesa tão depressa, que derrubou a cadeira atrás de si. Régis ergueu-se também, e recolocando a cadeira no lugar, pensou rápido, e disse:

-Não, você não me entendeu, querida... é temporário! Não tenho como acomodá-las em outro lugar, e a proprietária da casa não vai aceitar que você fique aqui de graça, então vou pagar por isso, e serei seu único homem! É como se estivéssemos alugando um quarto na casa, é apenas isso!

Vicentina levou a mão ao peito, aliviada, deixando um sorriso desenhar-se em seu rosto. Régis percebeu que ela acreditaria em qualquer coisa que ele dissesse, e teve pena dela por um momento. A culpa novamente arranhou seu coração. Aproximou-se dela, tentando ser mais terno:

-Estou cansado... vamos subir para o seu... para o nosso quarto, querida? 

E assim foi feito. Passaram dias e dias na cama. Régis recebera por seu período de férias no trabalho conforme combinado com seus patrões, e pagava Diana semanalmente pela exclusividade com Vicentina. De manhãzinha, enquanto as outras dormiam, eles vestiam Regiane com as roupinhas que o pai lhe comprara, e iam passear nos jardins do museu, ou então, empurravam a menina em seu carrinho pelas calçadas da avenida Quinze de Novembro, parando para comer sonhos na Padaria Alemã. Vicentina nunca se sentira tão feliz!

E Régis nunca se sentira tão pressionado!

Amava a menina de todo coração, mas não sentia o mesmo em relação à mãe. Dormiam juntos, e quando isso acontecia, era muito bom, mas quando pensava nas centenas de outros homens que já haviam passado por aquela mesma cama, sentia um certo asco, o que não acontecia ao olhar Vicentina como se ela fosse apenas uma prostituta comum. Sabia, em seu coração, que não conseguiria casar-se com ela. Não poderia fazer dela a sua esposa. Tentava pensar no que poderia dizer-lhe quando a hora de voltar a Niterói e reassumir seu trabalho chegasse. Pretendia levar a menina e colocá-la aos cuidados de suas irmãs, ou quem sabe, pagar alguém para tomar conta dela em Niterói, mas não queria a mãe por perto. O que faria?

Tentava aparentar que amava Vicentina, enchendo-a de mimos e cuidados. Comprava-lhe vestidos finos, do tipo que as senhoras distintas usavam, e andava com ela pelas ruas de braços dados, mas sempre que percebia uma pessoa conhecida olhando para eles, sentia vergonha. 

Enquanto isso, Rosa, sua irmã, estava comprometida com o filho de um rico médico local, de família muito tradicional. Estavam noivos, e a data do casamento seria marcada em um jantar formal dali a alguns dias. A família do noivo queria a presença da família da noiva, e aquilo estava deixando Régis apreensivo. Poderia ir sozinho, mas se Vicentina ficasse sabendo, seria profundamente magoada. Pensou em pedir conselho às irmãs. Rosa achou que ele deveria assumir de vez a família, casando-se com Vicentina e dando-lhe uma vida digna, deixando o passado para trás; Fiorela , indignada, foi totalmente contra a ideia, fazendo uma lista dos motivos pelos quais o irmão deveria ficar longe de Vicentina:

-Pense bem, irmão; ela é uma prostituta! Dizem até que teve outro filho... ela não lhe contou nada?! Viu, é uma mentirosa! O que? Você também tem um outro filho, em Niterói? Filho da empregada da casa, que está sendo criado por madame??? Ora! Mas que complicação! E você também não disse nada a ela... bem, mas dizem que o vício fica na mulher da vida... ela nunca conseguirá ser fiel a um homem só, precisará de muitos outros homens para satisfazer-se!

Rosa, perdendo a paciência com a fala incoerente da irmã, gritou:

-Cale-se, Fiorela! Nunca ouvi tantas bobagens juntas! (virando-se para o irmão) E você teve mais um filho em Niterói? Na verdade quantos são? Apenas dois. E você diz isso assim, com essa calma toda? Você arruinou sua vida, Régis! Espero que não arruíne a nossa. 

Finalmente, após um longo silêncio, durante o qual os três irmãos fitaram os desenhos do tapete, Rosa decidiu:

-Leve Vicentina ao jantar. Ela é uma mulher educada, afinal. Só espero que o tempo no prostíbulo não tenha mudado isso. Depois, vocês se casarão e mudarão o destino de minha sobrinha, dando a ela um lar cristão. Quanto ao seu filho bastardo em Niterói... bem, outros estão tomando conta dele. Pelo menos, não está crescendo em um prostíbulo. Ou está? Não? Graças ao bom Deus!



(CONTINUA...)


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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO I






O ANJO NO PORÃO


CAPÍTULO I

Carruagens e alguns automóveis passavam na rua em frente à confeitaria D’Ângelo naquela tarde fria de sábado. Vicentina torcia os dedos sobre a mesa, diante da xícara de chá quase vazia, enquanto olhava o movimento da rua pela vitrine de vidro que separava sua mesa da calçada. As árvores da Praça D. Pedro estendiam sua sombra sobre os transeuntes, e algumas manchas de sol formavam pontos de luz no calçadão da praça. Vicentina olhava as outras mulheres que passeavam, desfilando com suas sombrinhas e saias plissadas, algumas de braços dados com cavalheiros distintos que usavam ternos e chapéus de feltro aparentemente caros. Pensava em sua própria vida, enquanto sentia o medo correr pela sua espinha dorsal como se fosse algum bicho criado em suas próprias entranhas. A ansiedade passava pelo seu coração acelerado e subia pela sua garganta, causando espasmos de nervosismo. Apesar do dia frio, ela suava sob a blusa creme de gola alta e punhos rendados. 
Régis sempre a deixava esperando. Uma bela dama sozinha, sentada à mesa de uma cafeteria, despertava muitos olhares masculinos mal-intencionados, e alguns cochichos femininos. Vicentina já tinha falado sobre aquilo com Régis algumas vezes, e ele sempre prometia que não se atrasaria mais. E jamais cumpria sua promessa. Régis jamais cumpria qualquer promessa, se esta demandasse algum esforço de sua parte, e embora soubesse muito bem disso, Vicentina sempre o perdoava, quando ele chegava e derramava a luz de seus olhos azuis no rosto dela, tirando-lhe o juízo. Ela o perdoava, como se estivesse feliz por ele deixa-la perdoá-lo.

Vicentina viu que um cavalheiro solitário na mesa em frente a dela a olhava fixamente, sem o menor pudor. Sentiu o rosto corar quando viu que ele se levantava, caminhando em direção a ela. Tentou ignorá-lo, mas quando ele estava de pé diante dela, viu-se obrigada a olhá-lo. Ele fez uma leve mesura, e com uma voz que denotava ao mesmo tempo demasiada autoconfiança e uma pitada de arrogância disfarçada de gentileza, ele disse: 
-Fico me perguntando o que uma jovem dama tão bonita estaria fazendo sozinha em uma tarde fria como esta, neste café tão movimentado.
Ela ergueu os olhos, sem saber o que dizer, pois a voz lhe faltou. Foi quando uma voz conhecida sobrepôs-se à frase que ela começava a emoldurar no fundo de sua garganta:
-Ela aguarda seu esposo, cavalheiro. Agora, se nos dá licença...
Vicentina olhou por trás do cavalheiro arrogante, e deu com os olhos faiscante de Régis. O invasor desculpou-se e colocou o chapéu, retirando-se da confeitaria de cabeça erguida e a passos largos. 

Régis sentou-se junto a ela, demonstrando preocupação:
-Ele a molestou?

Ela controlou a voz assustada, e respondeu:
-Nada disso teria acontecido se você chegasse no horário marcado, mas acho que isso é esperar demasiado de você, não é, Régis?

Ele desculpou-se dizendo com um leve tom de impaciência:
-Sinto muito... mas Madame Fonseca deu um almoço para quinze pessoas. Não pude vir mais cedo, já que, como você já sabe, eu sou o copeiro. 

Ela rebateu:
-Se você sabia disso, por que concordou com o horário que eu determinei? Poderíamos nos encontrar mais tarde.

Ele relaxou as feições do rosto, e Vicentina viu o vinco entre as sobrancelhas dele se desmanchando, e o sorriso que ele deu em seguida desmanchou a zanga que ela tentava sustentar.
-Me perdoe, querida. Não voltará a acontecer.

E embora ela soubesse que se tratava de mais uma mentira, acreditou nele. Régis chamou o garçom, pedindo um cálice de licor, e outra xícara de chá e doces para Vicentina. Após o chá, vendo que a tensão no rosto dela não se aliviava, e notando seu gesto nervoso de apertar os dedos das próprias mãos sobre a mesa, Régis indagou:
-Mas vejo que você está muito tensa, Vicentina. O que aconteceu?

Ela enxugou rapidamente uma lágrima que tentava cair, e depois, outra, antes de responder, a voz abafada, com medo de que alguém mais a escutasse, embora no burburinho do salão fosse praticamente impossível escutar o que alguém estaria conversando na outra mesa. Ele a fez repetir, desta vez, chegando a cabeça mais para perto dela, e ela disse mais uma vez:
-Eu estou esperando um filho.

Era o ano de 1935, época em que as mulheres deveriam casar-se virgens, e viver para seus maridos, filhos e lares. Mulheres solteiras grávidas representavam uma desgraça para si mesmas e também para suas famílias, e muitas delas eram expulsas de casa com seus rebentos na barriga, enquanto outras mais abastadas eram afastadas de casa até que parissem suas crias, que eram então colocadas para adoção ou jogadas em internatos, e então a mãe poderia voltar para casa como se nada tivesse acontecido e arranjar rapidamente um bom casamento. 

Vicentina viu o sangue sumir do rosto de Régis. Ela começou novamente a chorar. Algumas pessoas das outras mesas a observavam discretamente, sussurrando comentários umas com as outras. Pelo menos, era o que ela pensava que estaria acontecendo. Sentia-se o alvo de todos os olhares, a vítima de todas as acusações. Uma mulher perdida, de reputação duvidosa, que não mais se encaixaria entre os grupos de senhoras e senhoritas distintas. Talvez passasse a ser disputada por homens de má fama, e quem sabe, teria de vender seu corpo para sobreviver, como faziam as meretrizes de quem sua mãe falava com tanto desdém (Ela mal sabia que estava profetizando sobre si mesma!). Mas tudo aquilo só aconteceria se Régis não quisesse assumir a paternidade de seu bebê, casando-se com ela e dando-lhe seu nome. Vicentina brincava com a renda do punho de sua blusa, evitando encarar Régis. Ele segurou a mão dela, obrigando-a a olhar para ele:

-Não se preocupe, minha querida. Vamos nos casar, tudo será consertado. Providenciarei os papéis. Será uma cerimônia discreta, apenas para os membros de nossas famílias. Alugaremos uma casinha nas Duchas, e seremos felizes.

Ela sentiu que um enorme peso saia de suas costas. Todas as promessas que Régis quebrara até então foram totalmente apagadas de sua memória, e restou, sentado em frente a ela, segurando sua mão, o olhar doce espalhado por toda a superfície do seu rosto, um homem digno de confiança, honrado, responsável, que a amava a cima de tudo. Vicentina conseguiu sorrir. Eles saíram de braços dados, como todos os casais felizes que ela observava com inveja minutos antes, ela mesma, voltando a ser uma daquelas dignas moças de família. 

Régis deixou-a no portão de casa (os pais de Vicentina não o apreciavam), pedindo que mantivesse segredo dos pais por enquanto, e ela prometeu não dizer nada. Tentou mostrar-se tranquilo para ela, mas assim que ela entrou em casa, o desespero que sentia veio à tona. Como poderiam casar-se, se ele era um simples copeiro que morava na ala de empregados da casa onde trabalhava? Além de tudo, não tinha certeza se a amava... lembrou-se da jovem que conhecera no dia anterior, quando caminhava pelos jardins do Museu Imperial... seu nome era Hanna, e ela era descendente de alemães. Falava português com um sotaque carregado, cometendo charmosos erros de pronúncia e gramática. 

Ao chegar em casa, porém, recuperado o seu senso de responsabilidade, anunciou às irmãs, Rosa e Fiorela: “Vou casar-me.” Rosa arregalou os olhos:

-Com quem, se me permite perguntar? Com a mulher do padeiro, ou a tal Hanna que conheceu no museu ainda ontem, ou quem sabe, com ... como é mesmo o nome dela? Vicentina, a filha do dono do mercadinho? Bem, é claro, esqueci-me do nome das outras duas, mas talvez você possa me refrescar a memória.

Ele pareceu zangado:
-Ora, não seja sarcástica, irmã. O sarcasmo não lhe cai bem.

Fiorela interferiu:
-Ela tem razão! Você é um moleque irresponsável quando se trata de mulheres, Régis! Vai casar-se com quem? Espero que seja alguém de bem, pois eu e Rosa precisamos também arranjar bons casamentos, já que não temos pais que os providenciem para nós... não acabe com a reputação desta família!

Os três perderam os pais dois anos antes, devido a tuberculose, e desde então, Régis passou a viver na mansão de seus patrões, pois não era conveniente que continuasse a viver sozinho com as irmãs. Dulce, uma velha tia viúva do Rio de Janeiro, passou a viver com elas, mas teve um mal súbito e faleceu um ano depois de mudar-se.

Ele parou em frente ao espelho, e alisando o cabelo com a mão espalmada, retrucou:
-Pois vou casar-me com a mais bela de todas: Vicentina!

Rosa revirou os olhos:
-A filha do dono do mercadinho... bem, pelo menos dizem que é moça direita. 

Fiorela zombou:
-Se fosse, não andaria com alguém como nosso irmão.

As duas riram, e Régis saiu, batendo a porta, zangado. 

Naquela noite, não dormiu. Revirava-se de um lado para o outro na estreita cama em seu quartinho gelado na casa dos patrões, e não era por causa do frio petropolitano. Imagens de um homem casado, precocemente envelhecido, gordo, barrigudo e com crianças gritando penduradas em seus braços e pernas de calças, acompanhado de perto por uma mulher gorda e reclamona, não saíam de sua mente, assombrando cada minuto de sua insônia. Em sua imaginação, a linda Vicentina tornara-se uma feia matrona, sem graça, descompensada e irritadiça. Ele lembrou-se de que tinha apenas  vinte e sete anos de idade (naqueles tempos, homens desta idade já estavam casados e com famílias formadas ou formando-se, mas para ele, sentia-se ainda jovem demais para tais responsabilidades). Enganava a si mesmo, dizendo, com orgulho, que antes pretendia tornar-se doutor; mas ninguém o via empenhado em tal tarefa. Procurara um emprego que lhe permitia uma pequenina renda, mas que era suficiente para suas noitadas, e proporcionava-lhe um lugar para onde ele podia voltar de madrugada sem escutar as censuras das irmãs. 

Quando os primeiros raios de sol filtraram-se entre as venezianas do seu minúsculo quartinho, Régis não aguentou mais: fez suas malas às pressas, encaminhou-se para a rodoviária e tomou um ônibus para Niterói, deixando seus problemas para trás – mais uma vez. 

A pobre Vicentina foi expulsa de casa, assim que o pai percebeu seu ventre aumentado. Colocou-a para fora com a roupa do corpo e um casaco, enquanto sua mãe chorosa a tudo observava sem nada poder fazer. Ela perambulou pelas noites frias de Petrópolis, dormindo em lugares de má fama, mas onde era acolhida pelas prostitutas de maneira caridosa e sem perguntas, desde que pagasse com trabalho pelas suas refeições. Finalmente, fixou-se em um deles, onde ela lavava as louças, limpava o salão, encerava as escadarias, polia a prataria. A grande barriga impedia que ela fizesse “outros serviços.” 

O que mais lhe doía, não eram os olhares escandalizados das “boas senhoras petropolitanas,” e nem o abandono dos pais; não era a falta de dinheiro, os sapatos gastos que ela forrava com jornais e que viviam sempre úmidos, ou a sua marcante e sempre presente solidão. Doíam-lhe as suas memórias dos tempos com Régis, doíam-lhe a falta daqueles olhos azuis derramando-se sobre ela, e a falta da  maciez de sua voz mentirosa em seus ouvidos. Vicentina chegou a indagar às irmãs de seu amor sobre por onde ele andava. Foi recebida na cozinha, pela porta dos fundos, para que os vizinhos não a vissem. As duas trataram-na com certa cordialidade, e lamentaram a covardia do irmão. Mas não puderam dar a ela nenhuma informação sobre o paradeiro dele, pois fora embora sem despedir-se delas. Ofereceram-lhe um pouco de dinheiro, e ela aceitou e agradeceu.

Vicentina deixou a casa sentindo-se totalmente perdida, arrasada. Arrastava sua existência pelo mundo sem nenhuma vontade de viver. Chegou a pensar em dar cabo da própria vida, muitas vezes, e se não o fez, não foi pela criança que carregava no ventre, mas porque  faltou-lhe a coragem.
Enquanto isso, a mãe de Vicentina adoeceu e veio a morrer de desgosto – poucos dias antes que Vicentina desse à luz sua filhinha, Regiane. 

Após o parto, as freiras do hospital explicaram que ela e seu bebê não poderiam permanecer ali;  porém, como fossem muito caridosas, deram-lhe ainda mais uma semana para decidir o que faria de sua vida e da vida de sua pequena filha. Findo o prazo estipulado, ela só teve uma saída, ou seja, voltar para o prostíbulo com sua menininha. Diana, a proprietária, ao ver que Vicentina trazia a filha nos braços, logo aceitou-a de volta, e a menina passou a ser mimada por todas as outras moças. 

Dias depois, prevendo os lucros, mas dizendo que era uma oferta vantajosa principalmente para Vicentina,  Diana chamou-a para uma conversa:
-Você agora tem uma filha, uma vida que depende de você. Não pode mais trabalhar em troca de comida e abrigo, Vicentina. Precisa de um trabalho que lhe dê dinheiro.

Vicentina não entendeu a proposta da outra, e em sua inocência, perguntou:
-Você faria isso por mim?

A outra também não entendeu o que Vicentina estava pensando, e respondeu:
-É claro! Será um prazer.
-Então começarei a procurar um trabalho amanhã mesmo, senhora!

Diana ergueu as sobrancelhas:
-O que? Procurar trabalho? Como assim, menina?
-Bem, a senhora se ofereceu para olhar Regiane enquanto eu trabalho... não é?

A prostitua riu alto, negando com a cabeça:
-Você não entendeu! Eu mesma estou lhe oferecendo um trabalho. O que paga mais por aqui. Você terá direito a assistência médica, dentista, cabeleireiro e massagista. Também ganhará algumas roupas de presente, para começar. 

Finalmente, Vicentina entendeu o que Diana queria dizer:
-Mas... você quer que eu... quer que eu...

Ela nem terminou de falar. 

-Vicentina, você é uma bela mulher. Sabia que algumas de minhas meninas conseguiram arranjar bons casamentos por aqui? E há Genara, que é exclusiva do banqueiro... dá-se apenas a ele. Quem sabe, você não tem essa sorte? 

Vicentina sentiu-se escandalizada, e teve ânsias de vômito, mas achou melhor guardar sua indignação para si mesma. Foi sábia e pediu à Diana um tempo para pensar. 
Na manhã seguinte, ela foi de porta em porta pedindo emprego como criada ou faxineira, mas quando as pessoas ficavam sabendo que tratava-se de mãe solteira, batiam-lhe a porta na cara. Alguns ainda zombavam dela, ou ralhavam com ela. 

Cometera um único erro em sua vida, e era praticamente apedrejada por ele. Compreendeu que o seria pelo resto de sua vida. Nunca mais faria parte daquele mundo, o mundo das moças direitas e senhoras distintas. Nenhum homem se casaria com ela. Fora desprezada até mesmo por sua família. Seu irmão passava por ela na rua, e virando a cabeça para o outro lado, cuspia na calçada. Ao passar pelo pai, este assumia uma postura empertigada, olhando sempre para frente, ignorando-a. 
À noite, tomou a decisão mais difícil de sua vida, e foi falar com Diana. 

(CONTINUA...)





terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Meu Primeiro Namorado - FINAL







22/02/14


Todo mundo me diz que estou errada, como se estar errada fizesse com que um sentimento desaparecesse de repente de dentro de alguém. Minha mãe só fica repetindo: "De que enrascada você se safou!" Fiz as pazes com a Vandinha; afinal, ela e eu sempre fomos amigas. Ela me pediu desculpas, dizendo que estava muito preocupada comigo, e fica repetindo que eu preciso esquecer o Pablo, etc, etc. Como se isso adiantasse... eu sei que ele é bem mais velho, e que teve uma história difícil, e que hoje ele tem uma vida complicada, mas eu gosto dele!

Acho que um dia eu vou conseguir esquecer esse meu primeiro amor, tumultuado, errado, mas que ainda me parece tão certo...


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02/05/2028



Hoje tenho 27 anos de idade, e arrumando as coisas para mudar-me para o nosso novo apartamento, acabei encontrando este diário no fundo de um armário. Muitas coisas mudaram desde então. Cresci, amadureci. Vi o quanto aquele meu primeiro amor parecia tão grande, olhando de tão perto... e o quanto ele cresceu a cada dia, com a distância!

Meu pai foi um cara muito legal comigo naquela época. Tanto que procurou o Pablo, e os dois conversaram. Tudo depois que contei a ele sobre o sonho do Pablo em tornar-se engenheiro, e as demais coisas sobre a vida dele. Sem que eu soubesse de nada, meu pai foi procurar o Pablo e ofereceu a ele uma coisa que ele precisava muito, e tantos outros como ele também precisam: uma chance na vida. Meu pai tirou-o daquele lugar, e denunciou o esquema à Polícia Federal. Os responsáveis foram presos. Os jovens que eram escravizados pelo Gio foram libertados. E o Pablo foi terminar os estudos, e fez engenharia - tudo com a ajuda de meu pai, e sem meu conhecimento.

Quando eu fiz dezenove anos, ele me procurou. Mal pude acreditar! Estava na porta da faculdade, esperando por mim. Quase não o reconheci, então aos 26 anos. Eu fiquei ali, parada feito uma tonta, e ele começou a chorar. Chegou perto de mim, me perguntou se eu ainda sentia alguma coisa por ele. E tudo me voltou! É claro que eu sentia! Então ele me chamou para conversar, contando-me tudo o que meu pai tinha feito por ele, e o quanto ele era grato, pois agora sentia-se à minha altura.

Aprendi que o tempo é uma coisa engraçada: seis anos de diferença de idade contam muito quando a gente tem treze, mas não contam nada se a gente tem 19. E que quando o amor é verdadeiro, sabe esperar e amadurecer até a hora certa.

A propósito: nós nos casamos, e é com ele que eu estou indo viver.


FIM



sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

MEU PRIMEIRO NAMORADO - PARTE IV







12/02/14


Nem escrever eu tenho conseguido, já que minha mãe me vigia o tempo todo! Tirou meu celular e meu laptop. Não me deixa atender o telefone fixo. Ela decide com quem eu posso ou não falar. Agora é madrugada, e estou escrevendo debaixo dos cobertores, com a lanterna acesa. Ridículo! 

Ontem a Vandinha ligou, mas eu não quis falar com ela. Minha mãe encheu a paciência, dizendo que ela era uma boa amiga, uma amiga verdadeira, mas eu respondi que amigas verdadeiras não deduram umas às outras. 

A psicóloga é uma chata. Só fica olhando para a minha cara, e eu não falo nada, e a tola da minha mãe paga ela por isso. Foram duas sessões assim. Eu cruzo os braços e olho para o chão, e ela fica com um caderninho, fazendo perguntas que eu não rtespondo. Ela diz para minha mãe que eu vou "me abrir" assim que estiver pronta. Ou seja: minha mãe não conversa comigo, e eu não vou conversar com uma estranha idiota.

Decidi que amanhã eu vou fugir.

16/02/14

Fugi ontem. Nesse momento, estou chegando na comunidade. Peguei dinheiro dos meus pais dentro de um pote, onde eles guardam para as despesas da casa. Não é muito, mas dá para sobreviver algumas semanas. Tomei um ônibus, e depois outro, e finalmente, peguei uma carona.  Prendi o cabelo e usei botas de saltos para parecer mais velha, ninguém me perguntou nada.  Estou viajando há seis horas, e finalmente, cheguei. São quase seis da manhã, estou esperando as pessoas acordarem para eu procurar o Pablo. Estou sentada debaixo de uma árvore, olhando para uma fogueira apagada, e tem umas garrafas de bebida no chão, espalhadas.

Agora que cheguei, me deu um frio na barriga... sei que não posso ficar aqui, é o primeiro lugar onde minha mãe vai me procurar, e a Vandinha também (ela ainda está aqui, só voltara para casa no final do mês, quando as aulas recomeçarem). Eu decidi que não quero estudar mais. Quero viver assim, livre, na praia, e vou aprender a fazer artesanato, como o Pablo e seus amigos. Vamos viver juntos, e quem sabe, mais tarde, teremos um filho...

16/02/14  (hora do almoço)

O Pablo acordou, foi um dos primeiros, por volta das nove da manhã. Quando me viu sentada debaixo da árvore, pôs as mãos na cabeça e gritou: "Ah, não!" Veio falar comigo muito zangado. Levantei, tentei abraçá-lo, dizendo que tinha vindo para ficar. Ele me empurrou, caí sentada na areia. Ele estava furioso. Ele pegou a prancha dele e foi para a praia. Eu quis ir junto, quis tentar explicar, mas ele não me escutou.

16/02/14 (tarde)

A maior humilhação foi quando a Angélica veio falar comigo... ela se sentou do meu lado (eu estava chorando) e ficou me olhando. Eu quis pular em cima dela e encher aquela cara irônica de tapas, mas achei que minha situação já estava complicada demais, então fiquei quieta. Sequei as lágrimas para ter um pouco mais de dignidade... ela estava comendo um sanduíche e perguntou se eu queria um pedaço, eu disse que não (mas estava morrendo de fome). Nós tivemos uma conversa que foi mais ou menos assim:

-O que você quer, menina?

-Eu quero ficar com o Pablo. Quero viver aqui, junto com ele. Quero casar com ele, ter filhos. Isso é da sua conta?

Ela riu um pouco, balançou a cabeça, terminou de comer o sanduíche:

-Garotinha, quem você pensa que é, o que você sabe sobre o Pablo? Para ele, você significou trabalho, diversão, sei lá. Além disso, pensou que você fosse mais velha. Acha que ele sobrevive vendendo aquelas bijuterias? O Pablo está em outro ramo, se é que você me entende... vem aqui que eu te mostro.

Eu a segui para dentro da mata. Chegamos em uma clareira, e ela me apontou uma pequena plantação. Disse que era erva. Eu não pude acreditar. Ela berrou: "Acorda, o Pablo é traficante! Além disso aqui, ele também vende pó, cocaína, entende?" Eu comecei a chorar. Ela ficou mais doce de repente:

-Escuta, menina, pega as suas coisas e vai embora daqui. Esquece o Pablo. Vocês são de mundos diferentes, nunca poderia dar certo. 

Naquele momento, uma porção de coisas começaram a passar na minha cabeça. Lembrei dos nossos dias felizes na praia, nas saídas à noite com a Vandinha e o Rodney, nas conversas divertidas, naquela noite em que nos beijamos de verdade pela primeira vez, no luau, quando ele disse que estava gostando de mim. Será que era tudo mentira? Eu vi nos olhos dele que ele falava a verdade! Será que ele estava mentindo pra mim?

Eu disse que ia embora, se ele falasse comigo primeiro. A Angélica suspirou fundo, com impaciência, depois me olhou como quem olha para uma criança: "Você parece ter talento para quebrar a cara, hein?"

Depois, fomos voltando para a comunidade. Tinha uma porção de gente comendo, e ela me arranjou um sanduíche. Devorei, e tomei uma coca. A Angélica não é tão ruim assim. Ela me disse: "Sabe como eu vim parar aqui? Meus pais são muito pobres. Meu pai é alcoólatra, e bate na minha mãe, que não reage. Mas... quando ele tentou... quando ele começou a vir atrás de mim, eu... eu falei com ela, e ela disse que era mentira. Sabe, meu pai tentou me agarrar, e minha mãe não acreditou em mim. Eu tinha quinze anos, e vivo aqui desde então. Conheci o Gio - aquele cara alí, tá vendo? (ela apontou para um cara que parecia ter uns trinta e tantos anos, bem mais velho que ela, e que parecia um hippie) e ele me trouxe para cá. Ele é o chefe aqui. A gente trabalha para ele em troca de comida e abrigo. A gente vai ficando, pois não tem outra alternativa."

Perguntei se a mãe dela não a procurava, e ela disse que não. Apontou para outra menina: "Tá vendo a Sandra? Era menina de rua. E aquele ali, de chapéu preto, o Marcos? Ele já esteve preso algumas vezes. Somos um bando de fracassados, ninguém quer a gente por perto. É isso que você quer? Olha, garota, você é... rica, estuda em uma escola legal, tem família, amigos. Isto não é vida pra você."

Perguntei como era a vida do Pablo, antes de ir para lá. Ela demorou um pouco antes de responder: "Não muito diferente da minha. O pai batia muito nele. Depois que o pai morreu, a mãe casou de novo, com um cara muito rico, e ele disse que queria ter uma família nova com ela. A mãe dele é muito bonita, sabe. Mas depois que eles se casaram, ela engravidou, e o Pablo era criança na época, acho que tinha uns dez anos... ele começou a bater no Pablo. O Pablo começou a se envolver com más companhias - nós - (ela riu, um riso triste) - e então, finalmente, quando ele tinha dezesseis anos, o padrasto mandou ele sair de casa. Sou três anos mais velha que ele. Ele tem 21, eu tenho 24. Acho que fui um pouco mãe dele quando ele chegou aqui. A gente se desentende, se entende. Estamos juntando uma grana para escapar daqui."

Perguntei o que ela queria dizer com "escapar", e por que eles simplesmente não pegavam as coisas deles e saiam, e ela disse: "Não é tão simples assim. O Gio não deixa a gente sair. O último que tentou, apareceu morto. Ele tem ligações com policiais corruptos, e por isso ninguém prende ele. Dizem que tem até político na área... o Gio é o Poderoso, e nós, seus escravos. Ele gosta quando um de nós traz mais gente, e foi por isso que o Pablo trouxe você. Mas quando ele soube que você era menor e tinha família, ele deu uma surra no Pablo, depois que seus pais apareceram aqui naquela noite. O Gio não quer chamar atenção para este lugar."

Perguntei se ela e Pablo se amavam, e ela ficou pensativa: "Não sei. É coisa de pele. Somos iguais, nos damos bem na cama. Mas eu não sei o que é amor. Nunca soube. Nem ele. O Pablo é um cara legal, ele tem bom coração, mas olha... é complicado. Ele não é pra você." Terminei meu sanduíche, ainda confusa com todas as coisas que tinha escutado. Pedi a ela se eu podia falar com o Pablo antes de ir, e ela pegou o celular, marcou um encontro para a gente longe dali. 

18/02/14

Nos encontramos em um quiosque na praia. Eu, carregando aquela mochila enorme, usando calça jeans e botas, naquele calorão, e ele, de bermuda, segurando a prancha. Lindo. Quando vi ele se aproximando do quiosque pela praia, meu coração saltou dentro do peito. Ele estava tão lindo... eu só queria sentir aquela boca na minha outra vez. Mas ele foi frio:

-O que você quer?

-Me despedir de você. Mas antes de eu ir embora, queria saber uma coisa.

-O que?

-Você gostou de mim? Alguma vez foi real pra você?

(Ele me fuzilou com aqueles enormes olhos azuis):

-Eu me amarrei em você, mesmo depois que descobri que você é tão novinha... (ele me fez uma carícia no rosto, e minha pele queimou mais do que com o sol). Por isso eu não quero você aqui. Sabe, isso que eu fiz com você - te atrair - já fiz com outras. Mas você é diferente, eu sei que você não sobreviveria uma semana por lá. Você é inocente. Acho que foi isso que  mais me atraiu. Tão diferente de  mim, tão pura, tão frágil. Eu nunca fui inocente. Não passei por essa fase.

Eu abracei ele. Deixei que meu rosto afundasse no peito nu dele, aspirei seu cheiro de mar. As palavras saíram sem que eu pudesse segurar: "Eu te amo." Ele beijou meus cabelos, e murmurou: "Sei lá... acho que eu também."

A gente se beijou. 

Ele pegou a prancha e foi embora sem olhar para trás. Eu voltei para casa, onde meus pais, desesperados, já estavam ligando para a polícia.  

Acho que amadureci bastante...





segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Meu Primeiro Namorado - Parte III







08/02/14


Muitas coisas aconteceram. O Pablo me levou para uma festa na comunidade dele. Tive que inventar uma desculpa para meus pais, já que a Vandinha e o Rodney não quiseram ir também. Disse que tinha encontrado uma amiga da escola, a Brenda,  e que a festa seria na casa dela, mas a Vandinha e ela não se falam, e minha mãe disse que eu poderia ir sozinha. 

Quando chegamos, vi que era um luau, e achei tudo incrível! Um monte de gente em volta de uma fogueira, dançando, cantando, tocando violão. Percebi que a maioria estava fumando maconha, e até aceitei um traguinho, mas não gostei. Me senti um pouco estranha, a pele formigando. O Pablo disse que a gente precisa se acostumar primeiro, e me disse para pegar leve para meus pais não perceberem. A Angélica (aquela garota que fez cara feia quando me viu com o Pablo na primeira vez que fui lá) sentou perto de mim e começou a me encarar. O Pablo estava longe naquela hora, e não viu. Encarei ela também, e ela disse entre os dentes: "Fedelha!" Perguntei por que ela não gosta de mim, e ela disse, olhando para a fogueira, sem nunca me encarar: "O Pablo é meu namorado. Somos namorados há muitos anos. De vez em quando, ele gosta de sair com uma franguinha, mas eu não ligo, porque sei que ele sempre volta para mim. Já estão transando?" Eu respondi que não era da conta dela. Ela riu, e dessa vez, me olhou, dizendo: "Você é uma pirralha metida e virgem, que não sabe aonde está se metendo. O Pablo é complicado. Não é flor que se cheire." Perguntei por que ela namorava ele, então, e ela disse que era porque os dois são iguais.

Depois de ficar calada um tempo, ela me perguntou o que eu sabia sobre ele, e eu disse que sabia que ele estudava engenharia, que era de São Paulo e que estava passando férias ali, como eu. Ela deu uma gargalhada e respondeu: "O Pablo, estrudando engenharia?! E você acreditou? O Pablo não terminou nem o ensino médio! E ele não é de São Paulo, mora aqui nesta comunidade desde os dezessete anos, quando fugiu de casa, porque o pai surrava ele. Vende maconha e outras coisinhas para sobreviver. Você é uma Patricinha de menor, vai se dar mal!"

É claro que eu não acreditei nela! Depois que perguntei ao Pablo, ele desmentiu tudo... ou melhor, quase tudo. Disse que morava ali, que isso é verdade. E que pretende estudar engenharia, só está esperando as coisas melhorarem, e para isso, está juntando dinheiro. E que fazia artesanato para viver. Me mandou ficar longe da Angélica, pois o lance deles já tinha acabado há tempos, mas ela não aceita. Depois ele foi até ela e vi os dois discutirem feio. Gostei de ver quando ela saiu chorando.

Nós fomos dançar. Estavam tocando uma música romântica, um rock-balada. Ele me beijou várias vezes, e depois me perguntou se eu queria ir para um lugar mais sossegado. Eu sentia o corpo queimar. Tinha dado mais uns tragos, e até que a erva não era assim tão ruim... me deixou totalmente relaxada. Gostei. Ele me apertava forte contra o corpo dele, e senti aquela coisa dura encostando na minha barriga. Não sei muito sobre sexo, o que eu sei aprendi em revistas, na internet ou com amigas. Meus pais não tocam no assunto. Uma vez minha mãe me deu um livro, mas era tão careta que eu nem li. Minha mãe só me disse que a primeira vez tem que ser com alguém que a gente gosta, para ficar na lembrança como uma coisa boa, e pensei se eu gostava realmente do Pablo. Afinal, ele tinha mentido para mim. Mas a respiração dele, cada vez mais acelerada, e as sensações novas em meu corpo, me mostraram que eu estava muito gamada nele.

A maioria das minhas amigas já trasou, e uma delas só tem 12 anos. Vou fazer 14 no mês que vem, e acho que já deveria ter acontecido. 

Então, a gente estava dançando, aquelas coisas todas acontecendo no meu corpo e no dele... ele me chamou para irmos para um local mais sossegado... tive certeza de que ia pintar um lance diferente para mim, e tive que dizer a ele que era virgem ainda. Fiquei com vergonha, mas ele me abraçou, e disse que estava tudo bem se eu não quisesse ir, mas que ele não ia dormir cheio de vontade, e que teria que procurar outra garota para transar. Quase morri de ciúmes ao pensar nele com outra! Me senti mal. Ele falou: "Pensei que você fosse um pouquinho menos careta." Respirei fundo, olhei bem nos olhos dele. Ele estava com uma cara triste, decepcionada mesmo. Abracei ele bem forte, acariciei a nuca dele. E vi que se não fosse com ele, eu o perderia.

Já ia dizer "sim," Quando senti uma mão forte me puxando e mal pude acreditar no que vi: meu pai! E minha mãe estava de braços cruzados, olhando a gente. Vi quando meu pai deu um soco no Pablo, que caiu na areia, e foi a maior confusão, pois o Pablo se levantou e revidou. Minha mãe me segurava pelo braço, e me arrastava para longe. Vi, quando olhei para trás, que umas pessoas separaram o Pablo e meu pai. Meu pai berrou que era para ele nunca mais me procurar. 

Enquanto meu pai dirigia para casa, de olho roxo,  e minha mãe chorava no banco do carona, eu entendi tudo: A Vandinha me traiu. Tinha contado tudo aos meus pais, e eles foram atrás de mim por causa do que ela tinha feito. Invejosa! 

Quando chegamos em casa, eu ia direto para o meu quarto quando minha mãe me segurou pelo braço: "Amanhã mesmo essas férias acabam, e você vai para o psícólogo!" É sempre assim: quando eu tiro notas baixas, ou brigo com algum colega na escola, ou fico triste porque meu cachorro morreu, minha mãe me manda para o psicólogo. Não fala comigo. E meu pai só ameaça: "Da próxima vez, você vai ficar de castigo por um ano!" Eles nunca conversam comigo. Uma vez escutei a vovó falando com eles que eles não tinham pulso. Parecia até que tinham medo de mim. Eu concordo com ela: muitas vezes, quero falar sobre as coisas que me acontecem, mas eles não tem paciência para me escutar, só trabalham, vão à festas e me mandam para o psicólogo sempre que tenho algum problema. Queria que meus pais falassem comigo. 

09/02/14

Fui dormir e acordei com os olhos inchados de tanto chorar. Passei uma mensagem para o Pablo, mas ele não respondeu. Passei umas três mensagens, e foi a mesma coisa, até que finalmente ele me respondeu. Nem conheci ele! Achei até que a Angélica pegou o celular dele e respondeu: "Garota, você é problema, e o que eu menos quero agora na minha vida, é mais um. Já tenho muitos. Me esquece!"

Chorei mais ainda. Quando foi dez horas, minha mãe me mandou fazer as malas. A Vandinha ficou na casa do Rodney. Eu não quis falar com ela quando ela foi se despedir, e nem com ele. A viagem de volta pra casa foi horrível. Ninguém falava quase nada, era como se a gente estivesse fingindo que nada tinha acontecido! Eu só pensava no Pablo, e sentia a maior saudade, e mágoa pelo que ele escreveu na mensagem. Decidi que assim que eu tiver uma chance, vou fugir de casa e me mudar para a comunidade com ele. Tenho certeza que ele gosta de mim, ele me disse, e vai ficar feliz quando eu chegar e ele ver que não sou uma garotinha imatura. Vou me entregar a ele totalmente, e nós vamos ficar juntos para o resto da vida.



sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Meu Primeiro namorado - Parte II





31/01/14

A noite começou muito bem: escolhemos uma lanchonete legal, pedimos nossos lanches... Pablo estava mais gato do que nunca! Notei que a Vandinha ficava olhando para ele, e quando eu o apresentei a ela, ela arregalou os olhos e mal pode conter a sua surpresa. Acho que ela ficou com ciúmes porque eu consegui um namorado mais gato do que o dela. Estava indo tudo bem. Rodney e Pablo se deram bem logo de cara, e achei que uma nova amizade ia nascer. Daí, a Vandinha disse que queria ir ao banheiro (e as meninas sempre vão ao banheiro juntas), e quando chegamos lá, ela arrebentou comigo: "Onde você está com  a cabeça? Não viu que esse cara é bem mais velho que você, e que nós?" Ela perguntou quantos anos ele tinha, e eu disse a verdade: que não sabia! Ela berrou: "Você só tem 13 anos, Brenda!"

Fiquei um pouco grilada, mas me contive e mantive a cabeça erguida. Voltamos para a mesa, e quando ela se sentou, a primeira coisa que perguntou, foi: "Pablo, quantos anos você tem?" E ele pareceu meio-sem graça, mas mandou ver: disse que tinha dezenove. Levei um susto, mas como ele é absolutamente, fofo, achei que a idade não tinha nada a ver. Debaixo da mesa, fiz as contas nos dedos: seis anos de diferença. Mas achei que, se eu mentisse sobre a minha idade, estaria tudo bem. Daí mandei ver: "Eu tenho quinze." A Vandinha me fuzilou com os olhos, mas fiz uma cara tão brava, que ela ficou quieta.

O resto da noite foi um pouco tensa... saímos e fomos andar na praia. A certa altura, o Pablo puxou algo de dentro do bolso (ele e o Rodney estavam conversando um pouco longe), e vi que o Rodney mandou ele guardar de volta. Então, o Pablo pareceu meio-aborrecido, e veio sentar do meu lado. A Vandinha foi ficar com o Rodney. Fingi que não tinha visto nada... só de estar perto dele sozinha, eu perdia a voz... achei que ele ia me beijar. Mas quando a gente começou a se olhar nos olhos, aquela coisa toda, a Vandinha e o Rodney chegaram junto: "Vamos voltar para casa, está tarde!"

Estragaram tudo.

Mesmo assim, dei meu telefone para ele, e ele me deu o numero dele.

03/02/14

Eu e o Pablo estamos nos vendo escondido. O Rodney veio com uma conversa sobre aquela noite na praia, dizendo que o Pablo tinha tentado começar a fumar maconha, e que ofereceu para ele. Então foi aquilo que eu vi ele tirando do bolso. Mas muita gente boa fuma maconha, não tem nada a ver, e além disso, ele nunca me ofereceu. Mas a Vandinha fez um escândalo, e disse que se eu continuasse vendo ele, contaria tudo aos meus pais.

O clima está meio-estranho entre a gente, mas estou tentando levar numa boa para que meus pais não percebam. Hoje eles foram almoçar na casa de uns amigos aqui perto, e aproveitei para dar uma escapada com o Pablo. Fomos passear de bugre, foi um dia muito legal!

Infelizmente, tive que dizer a ele que eu tinha que chegar em casa antes dos meus pais. Ele me olhou meio-enviesado, e fez a pergunta que eu mais temia: "Você não tem 15 anos, não é?" Senti o rosto corar... ele disse que estava tudo bem, ele também não tinha 19: tinha 21! Quando eu disse que tinha 13, ele assoviou, e respirou fundo. Prometeu que ia devagar comigo, pois estava gostando de mim. Meu coração quase me sufocou de tanto bater! Ele segurou minha mão, e me deu um selinho. Meu primeiro beijo! E eu nem posso contar pra Vandinha.

Oito anos mais velho! Minha mãe diria que ele é um pedófilo. Mas para mim, ele pode se tornar o amor da minha vida.

04/02/14

A Vandinha teve um troço quando achou o Facebook do Pablo e descobriu a idade dele. Fiz ela jurar que não contaria nada aos meus pais, e ela prometeu, desde que eu jurasse que ia parar de vê-lo. 

Tentei mostrar que ele estava dizendo a verdade sobre de onde vinha, o que fazia (estudava engenharia) e além disso, tinha mais de dois mil amigos, o que para mim, é quase um atestado de pessoa legal. A Vandinha me encheu o saco, dizendo que amigos em redes sociais não significam nada. 

Acho que ela está é morrendo de inveja mesmo!

06/02/14

Ontem eu e Pablo não nos encontramos, eu achei melhor dar um tempo para não dar muito na pinta, e ele concordou. O Rodney veio falar comigo, e me perguntou se eu não acho estranho o Pablo estar sempre sozinho, não falar de seus amigos e nunca me convidar para a casa dele. 

Hoje nos falamos por telefone, e perguntei se eu podia conhecer o lugar onde ele estava ficando. Ele disse que vai me levar lá amanhã.

07/02/14

O Pablo está morando em uma espécie de comunidade, quase um acampamento. Ele disse que o custo é baixo, e por isso, ele fica lá. Os amigos dele são gente mais velha, mas a maioria são legais. Alguns fumaram maconha. Um deles me ofereceu, mas o Pablo me disse para não pegar. O cara, que tinha uma aparência hippie dos anos setenta, riu e perguntou a ele quem era a fedelha cheirando a leite. Pablo ficou furioso, o clima ficou tenso, os ânimos se inflamaram, eu fiquei morrendo de vergonha. 

Tinha uma garota mais velha que pareceu não gostar nada de me ver com o Pablo. O nome dela é Angélica. Ela me mediu de cima em baixo, depois saiu rindo. Me senti péssima, mas nada importa se é comigo que ele quer ficar. E fora esses dois, o resto da turma me tratou muito bem. A Nana, uma garota morena muito bonita, fez uma trança no meu cabelo. Ela era bem mais velha, acho que a mais velha dali. Me disse que o Pablo é um cara legal, mas que mesmo assim, era problemático, e que eu devia tomar cuidado com ele.

Mas o melhor de tudo, e que compensou por todos os fiascos da noite: ele me beijou. E foi de língua. Teve gosto de chiclete de hortelã e um cheiro doce. Senti umas coisas estranhas pelo corpo, acho que eu estou perdidamente apaixonada pelo Pablo.



A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO VII

Fiquei esperando, os olhos presos em Drica, especialmente nos lábios dela, que pareciam pronunciar palavras absurdas enquanto e...