segunda-feira, 17 de março de 2014

A Ilha Sem Barcos - Parte VI




A noite fora longa. Há dias procuravam pelo barco de Carlos,desaparecido com o jovem casal a bordo, mas apesar da dedicação e do esforço da guarda costeira e dos pescadores locais, não havia nem sinal deles. Sequer destroços do barco tinham ido dar na praia, como geralmente acontecia quando havia algum naufrágio. 

Quatro dias se foram. Cecília levava uma bandeja de chá para Nina e seus novos hóspede, Genaro, pai de Décio e Antônio, pai de Liana. Antônio aceitou a xícara que lhe foi estendida, enquanto Genaro recusou-a com um breve agradecimento e um gesto de cabeça. Sentia-se culpado por tê-los mandado àquela ilha. Ouvira a história contada por Nina e Cecília várias vezes, e tentava entender o porquê daquela atitude intempestiva de sua nora. Já percebera que Liana era uma moça mimada e volúvel, mas ao mesmo tempo, gostava dela pela sua doçura. Não conseguia imaginá-la maltratando pessoas. Já Antônio entendia muito bem a atitude da filha em relação a Rosalba, que já conhecera de vista, pois a vira rondando o hotel e Nina a apontara para ele. Quando olhou para ela, Antônio entendeu imediatamente a reação da filha. Entretanto, decidiu calar-se, pois sabia que Liana não gostava de tocar naquele assunto. Mas lembrou-se com carinho e saudade de Diana, a gêmea de Liana, que nascera com problemas mentais, e que morrera aos quinze anos de idade.

Estava perdido em seus pensamentos, quando a voz de Nina despertou-o de seus devaneios:

-Você está bem, Antônio? Precisa de alguma coisa?

Ele suspirou:

-Estou bem, obrigado. Apenas angustiado, muito angustiado.

Ele se levantou, e foi sentar-se na varanda, olhando o mar que jogava sua espuma cinzenta contra a areia. Onde estaria sua filha? Estaria viva? Lágrimas vieram-lhe aos olhos, mas ele conseguiu contê-las. De nada adiantaria chorar; só conseguiria afligir os demais.

Nina e Genaro observavam Antônio, enquanto Cecília recolhia as xícaras de chá e as levava de volta à cozinha. Nina de vez em quando olhava Genaro com o canto do olho, tentando perceber melhor seus sentimentos.  Genaro estava calmo, apesar de triste, e não demonstrava a mesma ansiedade de Antônio. Ambos eram viúvos, e não tinham outros filhos. Ela notara que Cecília corava toda vez que Genaro falava com ela. Em todos aqueles anos, nunca vira a amiga agir daquela forma, quase como uma adolescente nervosa quando Genaro estava por perto. Mas ele  tratava Cecília com cortesia e distância. Ela sabia que aquela não era a ocasião propícia para que sua amiga e seu hóspede começassem um romance, mas ela sentia que havia algumas fagulhas entre os dois, e que fossem outras as circunstâncias, certamente os dois se envolveriam. Nina era muito experiente em assuntos de amor - tivera cinco maridos - e sabia reconhecer uma mulher apaixonada, e Cecília mal conseguia disfarçar.

Sua amiga Cecília ainda era uma bela mulher, e ela e Genaro formariam um belo casal.

Nina pediu licença a Genaro, e foi até a cozinha falar com a amiga:

-Como você consegue, Cecília?

Distraída com as xícaras que enxugava e guardava, Cecília exclamou:

-Hum?...O que?
-Ficar sozinha todos esses anos.
-Ora... por que a pergunta agora, Nina?
-Curiosidade... jamais indaguei sobre sua vida particular, mas eu ás vezes penso que você tem algum segredo do passado...

Cecília sorriu:

-Eu?! Mas não tenho mesmo... minha vida sempre foi comum... quero dizer, eu sempre fui uma mulher rica e tive dinheiro para gastar à vontade na minha juventude. Mas não tenho nenhum segredo. talvez você esteja achando isso porque tenho andado um tanto ausente ultimamente. Mas é por causa dos últimos acontecimentos. 

-Não, não é. Aliás, você está muito tranquila quanto ao destino daqueles três. Acha que estão vivos?

Cecília guardou a última xícara, dizendo:

-Tenho certeza absoluta... não me pergunte como, mas sei que eles estão vivos, e estão bem. Gostaria de poder dar a Antônio e Genaro esta mesma certeza, isso os acalmaria. Mas como dizer-lhes?... "escutem, não se preocupem com seus filhos, eles estão bem. Eu sei porque tenho um pressentimento?" Eles com certeza achariam que estou zombando deles.

-Realmente... melhor não dizer nada mesmo. Mas acho que você poderia ajudá-los de outra forma, quero dizer... pelo menos, ajudar Genaro. 
-Mas como?
-Aproxime-se dele. Ele parece ser mais frio que Antônio, mas no fundo, acho que é só fachada. Aproxime-se, converse com ele. Tente deixá-lo mais tranquilo.

Cecília sorriu, olhando a amiga com o canto do olho, a mão na cintura:

-Ora, você hein? O que está sugerindo, Dona Nina?

-Eu? Nada... mas confesse que você tem uma quedinha por ele...

Cecília corou, baixando os olhos e estendendo a mão sobre a mesa, para segurar as mãos de Nina:

-Ele é um homem atraente... sim, confesso que faz meu tipo. E que desde que cheguei aqui, ele foi o único homem que realmente me despertou esse tipo de ... sentimento.

Nina olhou-a firme nos olhos:

-Invista! Dê a si mesma mais uma chance!
-Não é o momento. Ele só consegue pensar no filho e na nora.
-Fique por perto. Estenda-lhe a mão. Não fuja. Agora vá lá.

Cecília olhou bem nos olhos de Nina, que estava muito séria. Depois, levantou-se e encaminhou-se para o salão, onde Genaro ainda estava sentado pensativo, o queixo na mão. Ela respirou fundo, ajeitando os cabelos com a mão, e foi sentar-se em frente a ele. Genaro saiu de seu transe apático, olhando para ela e dando um leve sorriso que derreteu-lhe o coração. 

-Gostaria de poder ajudá-los. Não sei o que dizer. Gostaria de conversar?

Genaro olhou-a por alguns instantes antes de responder:

-Essa angústia... nem mesmo os homens que contratei conseguem algum sinal de vida. Você, que conhece bem essas ilhas... acha que eles estão vivos ainda?

Cecília pensou antes de responder, tentando escolher bem as palavras:

-Bem... eu não sei como dizer-lhe isso, mas... 

Ela olhou para ele, procurando coragem para concluir seus pensamentos.

-Continue...
-Eu sei que eles estão bem. Estão vivos, e bem.

Alguma coisa no olhar dela acendeu nele uma chama forte de esperança, e Genaro sentiu seu coração aquecer-se de repente. Ao mesmo tempo, ao olhá-la melhor, percebeu o quanto era bonita. Encantou-se por seu corpo ainda esguio, e reparou nos lindos olhos azuis de Cecília, encantando-se com seu sorriso.

-Não sei o motivo, Cecília, mas eu acredito em você. 

Ela sorriu. Ficaram se olhando durante um tempo, e por alguns segundos, Genaro esqueceu-se de sua dor. Naquele momento, Antônio entrou, esfregando as mãos:

-Está gelado lá fora!

Cecília levantou-se, dizendo:

-Vamos acender a lareira.

Genaro seguiu-a com o olhar.

* * * * 

Na ilha, Carlos observava o casal adormecido sobre o colchão. Chovia lá fora, e ele tinha acendido um fogo na velha lareira da casa. Tinham limpado um pouco o lugar, tornando-o pelo menos habitável. Ele pescara alguns peixes e caranguejos, e Décio colhera cocos, bananas e amoras. Percebia que Décio fazia de tudo para que Liana não precisasse trabalhar, protegendo-a como se ela fosse uma criança, e Liana deixava-se ser tratada assim, sem fazer a menor questão de colaborar com nada. Carlos pensava no quanto Décio era manipulado pela jovem e linda esposa, e que aquilo não poderia acabar bem... 

Acreditava que em breve alguém os encontraria naquela ilha, e não estava preocupado. Mas Liana estava sempre choramingando, assustada e mau-humorada. E agora dera para ter pesadelos e acordar chorando no meio da noite, despertando todos. Falava de visões com uma menina. Décio tentava acalmá-la, até que ela adormecia novamente nos braços dele.

As noites envolviam a casa, e outros personagens circulavam por ali, além deles. Personagens que em breve conheceriam pessoalmente.

(continua...)


quarta-feira, 12 de março de 2014

A ILHA SEM BARCOS - PARTE V




A Ilha Sem barcos - Parte V


Quando Carlos abriu os olhos e olhou em volta, a tempestade havia passado, e um dia frio e nublado descansava seu peso sobre seus ombros. Sentiu no rosto e no corpo o desconforto da areia molhada, e o primeiro pensamento que lhe veio foi: "naufragamos!"  Ergueu-se devagar, a fim de ter certeza de que não estava ferido, e foi a procura do jovem casal. Achou-os logo adiante, e ambos também tinham acabado de despertar e estavam um pouco confusos. A moça tinha os lábios roxos, e tremia de frio e de medo, os olhos arregalados, olhando em volta.

-Aonde estamos, que ilha é esta?

Carlos olhou em volta novamente, tentando achar um ponto de referência, mas não encontrou nenhum.

-Não sei, senhora... em todos esses anos eu conheço o arquipélago como a palma da minha mão, e nunca pisei aqui.

Décio ergue-se, passando a mão pelo corpo para sacudir a areia molhada.

-Precisamos nos aquecer. Precisamos encontrar alguma coisa para comer. Onde está o barco?

Carlos suspirou, olhando a praia:

-Não o vi. Acho que o perdemos, senhor.

De repente, Liana ergue-se, apontando para Carlos e gritando:

-A culpa é toda sua! Estamos nesta situação por sua causa! Como pode concordar em nos trazer sabendo que haveria uma tempestade?
-Mas eu pensei que ela só cairia à noite e que poderíamos navegar com segurança. 
-Bem, já que você gosta de pensar, então pense em uma solução para nos tirar daqui o mais rápido possível!

Décio tentou abraçá-la para que ela se acalmasse, mas ela o empurrou:

-Pensando bem, seu pai é o culpado de tudo! Foi ele quem nos mandou para esse lugar infernal! Onde já se viu, presentear-nos com uma viagem de lua-de-mel a um lugar frio, onde só chove?! E onde vive uma louca! E agora o que faremos para sair daqui? Estou com fome e frio!

Décio e Carlos se entreolharam, enquanto Liana se afastava, caminhando rápido pela orla. Eles a seguiram a alguns metros de distância.

-Senhor, precisamos ficar calmos e permanecer juntos. Não conheço esta ilha. Não sei que perigos pode haver por aqui. Se eu fosse o senhor, diria a moça para ficar calma.
-Liana está nervosa, é só isso, e acho natural. Logo ela se acalma e pede desculpas, não se preocupe. Ela não irá longe antes de cair em si.

Minutos depois, após caminharem pela orla cercados por uma paisagem desolada de mar e areia que não mudava, Carlos achou melhor adentrar a ilha e ver o que encontrava. Pediu que Liana e Décio esperassem por sua volta. 

Encontrou alguns coqueiros carregados, que lhes seriam muito úteis. Também passou por algumas moitas de amoreiras crivadas de frutos, e percebeu que havia pequenos roedores que poderiam servir-lhes de comida. Apalpou o bolso, e aliviado, constatou que seu isqueiro ainda estava lá, junto com o maço de cigarros. Embora os cigarros estivessem arruinados (jogou o maço fora com pesar) o isqueiro ainda funcionava, e seria muito útil. Sua faca também se encontrava no bolso traseiro da calça.

Caminhou por dez minutos, e chegou às ruínas de uma velha mansão. Achou-a estranhamente habitável: apesar das paredes descascadas, as janelas e portas estavam em bom estado, e o telhado ainda estava no lugar. Percorreu a casa com os olhos, e percebeu que tinha sido bonita um dia, e que seu estilo antigo era parecido com algumas casas de Pérola. Ouvira alguém na ilha dizer que eram casas Vitorianas. Bem, aquela casa também deveria ser Vitoriana. Aproximou-se, e testou a porta; estava trancada.

Com a faca, tentou abrir a fechadura, mas não conseguiu; teria que arrombar. Tomou distância, e quando se preparava para chutar a porta, esta se abriu vagarosamente, como num filme de terror. Carlos sentiu arrepios; mas decidiu entrar, pois aquela casa servir-lhes-ia de abrigo. A escuridão lá dentro fez com que ele arregalasse os olhos para ver melhor. Reparou no piso de madeira nu e sujo, mas em bom estado. Havia uma lareira bem grande na parede central, e uma poltrona velha e gasta em um dos cantos. As janelas não tinham cortinas. As paredes tinham sido brancas, mas agora estavam mofadas e enegrecidas.

Pisou devagar, testando o madeiramento do chão, que rangeu, mas continuou firme sob seus pés. Seguiu por um corredor que levou-o a uma grande cozinha muito suja, o piso de azulejos quadriculados em creme e vermelho. Ainda havia algumas panelas penduradas sobre a pia quebrada. No meio, uma mesa de madeira cercada de cadeiras muito velhas. 

Voltou pelo mesmo caminho, e testando os degraus com cuidado, chegou ao segundo andar da casa, onde estava muito escuro. Havia um corredor cheio de portas fechadas que ele abriu e viu que tratavam-se de quartos vazios, mas havia uma cama com colchão em um dos quartos. Também havia um banheiro no final do corredor, muito sujo, cuja janela estava aberta, e cipós entravam por ela, grudando-se às paredes. 

Novamente do lado de fora, circundou a casa e viu que havia um encanamento que entrava pelas paredes. Seguiu-o e foi parar em uma mina d'água. Ora, a casa tinha água encanada. Será que o sistema ainda funcionaria? Ficou curioso; voltou para dentro, e abriu a torneira da cozinha, que após chiar e derramar uma grande quantidade de lama e folhas secas, deixou sair água limpa. Carlos achou tudo aquilo incrível; quem teria morado ali?

Viu que uma porta na cozinha levava a três pequenos quarto, provavelmente, feito para os antigos empregados da casa. Em um deles, achou um baú; abriu-o, e viu que continha algumas roupas muito antigas, mas que estavam em bom estado. Elas seriam úteis também. Separou para si uma camiseta bege, uma blusa de lã marrom e um par de calças de lã cinza. lavou-se na cozinha e vestiu-se com elas, colocando suas roupas molhadas para secar após enxaguá-las na pia.

Voltou à praia para buscar o jovem casal. No caminho, apanhou algumas amoras que colocou em uma das panelas  que achara na casa.

Décio e Liana estavam sentados sobre a areia, abraçados. pareceu-lhe que ela chorava. Os dois ergueram-se ao vê-lo se aproximar. Décio adiantou-se:

-E então? O que é isso? Que roupas são essas?

-Achei em uma casa antiga. Tem umas coisas lá que nos servirão, e ela será nosso abrigo esta noite.

Liana sorriu:

-Então a ilha é habitada?
-Acredito que não... a casa é velha, e fica numa clareira na floresta. Não há mais nada em volta. Nem sei como ela está de pé! Não imagino como alguém pode tê-la construído em um lugar como esse.

O sorriso de Liana desmanchou-se, enquanto ela aceitava as amoras que Carlos oferecia a eles. Décio perguntou:

-Mas você acha que é seguro lá dentro?

-Bem, eu acho que é melhor do que aqui fora. Ainda mais porque parece que vem aí outra chuvarada. Veja!

Apontou para o céu enegrecido, e os três caminharam juntos para a casa.

As amoras apenas serviram para despertar-lhes o apetite. Chegando à casa, eles quebraram os cocos e tomaram a água, comendo-os depois. Também beberam muita água da mina. mas continuavam com fome. Liana reclamou:

-Mas... este lugar está imundo! Como poderemos ficar aqui? 

Carlos pensou no quanto a moça parecia mimada e egoísta. Décio consolou-a novamente:

-Não se preocupe, amor. Amanhã daremos um jeito de limpar um pouco.
-Mas... pode ter aranhas! Eu morro de medo de aranhas!

Carlos interrompeu-lhes:

-Acho melhor irmos lá fora catar lenha antes que a chuva comece.

-Mas eu vou ficar aqui sozinha?!

Carlos riu sarcasticamente, respondendo:

-Não... na verdade, eu acho melhor a senhora vir junto para ajudar-nos a carregar a lenha, ou não teremos o suficiente para a noite toda. E sabe, quando o fogo apaga, os animais peçonhentos se achegam...

Liana olhou para Décio, procurando por apoio:

-Mas eu vou ter que carregar lenha? Isso é um absurdo!
Décio estava pronto para intervir a favor dela, mas foi interrompido por Carlos:

-Acho que vocês dois ainda não se deram conta do que está acontecendo aqui nessa ilha: nós somos náufragos, e não estamos em um hotel de luxo. Cada um vai ter que fazer a sua parte se quiser sobreviver!

Assim, os três saíram em silêncio e recolheram a maior quantidade de lenha que puderam carregar em várias viagens, até que finalmente, a tempestade caiu.

(continua...)





segunda-feira, 10 de março de 2014

A Ilha Sem Barcos - Parte IV





E "eles" mandaram o vento, como Rosalba havia pedido. 

O mar enfureceu-se, e a pequena embarcação singrava as ondas com violência, enquanto Liana, apavorada, arrependia-se de sua escolha. Décio tentava acalmá-la, mas ele mesmo estava quase perdendo a cabeça. Olhou para a costa já muito distante, e viu que de nada adiantaria voltarem. Perguntou a Carlos, erguendo a voz acima do vento e do barulho das ondas, se ainda faltava muito para chegarem à Fiorde. Carlos olhou-o e respondeu que ainda tinham trinta minutos ou mais pela frente, dependendo de se as águas acalmariam ou não. Ele parecia sereno, acostumado que estava aos ventos e humores do mar. Sabia que uma tempestade se aproximava, mas preferiu não dizer nada aos seus passageiros, pois não queria causar-lhes pânico. Achou que chegariam à ilha bem antes da tempestade, e poderia passar a noite por lá, retornando na manhã seguinte à Pérola.

Mas seus cálculos de velho lobo do mar mostraram-se totalmente equivocados quando, de repente, um vento mais forte literalmente ergueu o barco sobre as ondas, e ele caiu novamente sobre águas duras como pedra. Décio e Liana usavam coletes salva-vidas, e quando ambos foram erguidos e arremessados de volta ao fundo do barco com toda força e ela gritou, ele lembrou-a de que mesmo se caíssem, estariam seguros - embora ele mesmo não acreditasse no que dizia. O rosto de Carlos mostrava toda a preocupação que sentia; já não conseguia disfarçar sua apreensão.  Nunca vira uma tempestade chegar tão de repente. Tentava controlar o barco, mas a tarefa tornava-se cada vez mais difícil. Apesar de experiente, Carlos não estava preparado para aquela tempestade infernal que viera bem  mais cedo e bem mais forte do que esperava.

Os dedos de Décio e Liana estavam brancos devidos à força com que seguravam-se na beirada do pequeno barco. Uma das malas caiu no mar, e Liana viu suas melhores roupas navegarem para longe dela para sempre. Décio, de olhos arregalados, tentava ver atrás de si o que Carlos estava fazendo a fim de controlar o barco, mas não atrevia-se a largar a beirada na qual se segurava. Rajadas violentas de água atingia-lhes em cheio, e ambos estavam encharcados e quase congelando de frio.

* * *


Enquanto isso, no Hotel Miramar, Nina olhava pela janela a chuva torrencial que caía, e sabia que as preocupações e preces de Cecília não eram exageradas. 

* * *


Em sua casinha, Rosalba escutava a tempestade que caía lá fora, e tendo enchido uma bacia d'água que pusera no meio da sala, colocou dentro dela um pequeno barquinho de madeira que ela mesma confeccionara, e com o qual brincava. Agitava as águas com uma das mãos, e com a boca, imitava o ruído do vento. De vez em quando, ela ria alto, um riso de puro sarcasmo. Seus olhos injetados mal piscavam; ela parecia estar em transe sob a luz fraca das velas acesas. O vento entrava pelas gretas, e ela o convidava para brincar com ela.


* * *

Cecília pensava na precipitação e infantilidade de Liana, querendo, à todo custo, deixar a ilha assim tão de repente por causa de um incidente com uma moça que não tinha controle sobre o que fazia ou pensava. Mais ainda, lamentava a decisão de Décio ao concordar com a esposa, cedendo aos seus caprichos e mimando-a como se ela fosse uma criança ranheta. Achava que ele deveria tê-la confrontado; afinal, iriam embora na manhã seguinte. Não era necessário que saíssem tão de repente. 

Mas mesmo tendo estes pensamentos, ela não conseguia deixar de temer por eles, lamentando o perigo que corriam e tentando imaginar o quanto Liana, que ela percebera ser uma jovem mimada, imatura e voluntariosa, poderia estar apavorada naquele mesmo instante. Só restava-lhes rezar e confiar na experiência de Carlos - apesar de achar que ele fosse um pescador um tanto atrevido que vivia arriscando-se em alto mar sem a menor necessidade. Cecília tentava não pensar em sua última visão. Pensando bem, o que ela havia visto? Apenas dois rostos apavorados, além de ouvir  a voz de Ian gritando. E nem era Ian que estava pilotando o barco, e sim, Carlos.

* * *

Rosalba anda brincava com seu barquinho. Com as mãos molhadas, afastou do rosto uma mecha de seu cabelo desgrenhado. Murmurou os seguintes versos :

"Quinze ilhas no arquipélago
Todas elas habitadas
Mas há a décima sexta,
Onde não existe nada...

"Uma moça bem malvada,
E seu príncipe encantado
Navegaram para o mar,
E lá ficaram encalhados...

"Na décima-sexta ilha
Há muitos séculos perdida
Ninguém pisa há tanto tempo,
Que ela já foi esquecida...

"Nem no mapa ela se encontra,
De tão assombrada que é...
Para lá levam as ondas
Tudo aquilo que não é...

E de repente, com um gesto brusco das mãos, Rosalba agitou a água da bacia com toda força, afundando o barco. Minutos depois, ela enxugou as mãos e deitou-se em sua cama, cobrindo-se com suas cobertas sujas e velhas.





quinta-feira, 6 de março de 2014

A ILHA SEM BARCOS - PARTE III




Na manhã seguinte, parecia que um milagre ocorrera durante a noite: o dia amanhecera claro e ensolarado, um convite para uma boa caminha da na praia - já que a temperatura subira alguns graus e o vento amainara. Após despedirem-se do jovem casal que deixava o hotel, Liana e Décio foram dar uma volta pela praia. Ambos estavam descalços, ele, com as pernas da calça dobradas até os joelhos, e ela, de saias de comprimento médio, e aquecida por um xale azul-claro. Caminhavam e apostavam pequenas corridas, parando de vez em quando para olhar o mar, abraçados. 

Rosalba os observava sem ser vista. Nascida na ilha, jamais saíra dali, nem mesmo para visitar outras ilhas do arquipélago. Seus pais, já falecidos, tiveram-na já tarde na vida, o que fez com que ela nascesse com um certo grau de retardamento mental, mas que não a impedira de aprender o suficiente para sobreviver; ela ajudava os pescadores a costurar suas redes e fazia bonecos de madeira que vendia aos turistas. Também ajudava as donas de casa locais em pequenos trabalhos de faxina, que eram-lhe concedidos por pura caridade, já que Rosalba não trabalhava com muito afinco. Era uma jovem calada e solitária. Às vezes, falava sozinha. Dizia conversar com "eles." Vivia em uma pequena cabana sem eletricidade  que herdara dos pais, próxima à praia, e ninguém jamais conseguira convencê-la a ir para outro lugar. Ela mantinha as coisas funcionando por ali o melhor que conseguia; catava lenha para cozinhar sua própria comida e fabricava as vassouras que usava para manter o piso de madeira mais ou menos limpo. 

Ela observava o jovem casal que divertia-se na praia, e seus olhos percorriam as roupas e o cabelo de Liana, e ela sorria quando a outra sorria. Escondida atrás da pedra, Rosalba brincava de fingir que era Liana, e que o jovem moço bonito a abraçava e beijava. Via a si mesma vestida com as roupas da outra, e quase podia sentir a barra das saias de Liana roçando seus tornozelos. E ela ria, ria... de repente, correu para a praia e passou a seguir o casal. Eles logo deram-se conta da presença dela, e também de sua condição mental. Décio, em um gesto protetor, aproximou-se da esposa e passou um braço em volta dela ao ver que Rosalba se aproximava. Liana teve um leve estremecimento de medo, mas tentou sorrir e ser sociável. Ao mesmo tempo, olhou a distância que já haviam caminhado, tentando calcular se conseguiria correr de volta ao hotel caso fosse necessário. Não sabia como lidar com pessoas como Rosalba, e não sabia se ela era agressiva. Olhou o rosto quase bonito da jovem, mas pálido e sujo, entre as mechas de cabelos desgrenhados, as roupas esfarrapadas. Teve mais medo.

Rosalba chegou mais perto, parando diante do casal, olhando-os dos pés às cabeças. Sorria para eles. Estendeu a mão e entregou à Liana uma concha que tinha escondida na palma da mão. Liana estendeu a mão e a segurou, agradecendo ao mesmo tempo que engolia em seco. A outra levantou o braço e tentou fazer-lhe uma leve carícia no rosto, o que fez com que Liana, sem querer, desse um passo para trás a fim de esquivar-se. Na mesma hora, o sorriso no rosto de Rosalba desapareceu, sendo substituído por um olhar magoado e furioso. Ela soltou um grito de dor. Décio tentou proteger a esposa, mas não foi rápido o suficiente para evitar que Rosalba a segurasse pelos cabelos, puxando-os com toda força, enquanto Liana caía de joelhos, tentando soltar-se.

Os próximos minutos foram confusos: Décio segurava nas mãos de Rosalba, tentando acalmar seus gritos e soltar Liana, que chorava de medo e de dor. Mas os dedos furiosos da moça fecharam-se firmemente sobre as mechas do cabelo de  sua esposa. Felizmente, Pepe, que caminhava por ali, viu a cena e já corria em seu auxílio. Aproximou-se e, devagar, conseguiu convencer Rosalba a largar Liana, dando tapinhas consoladores em seu ombro, enquanto a puxava delicadamente para longe dizendo palavras de conforto. Lágrimas sujas escorriam no rosto dela. Depois, mandou que ela fosse para casa:

-Vá para casa agora, Rosalba... assim, isso mesmo. Depois eu digo à Flora para levar um pedaço de bolo para você.

Nos braços de Décio, Liana tentava arrumar o cabelo, ainda sentindo no couro cabeludo a dor da mecha arrancada que ficara nas mãos de Rosalba.

-Quem é essa louca, Pepe?

-Calma, senhor Décio... eu não sei o que aconteceu, ela nunca agiu assim antes. Seu nome é Rosalba, ela mora em uma cabana aqui perto. Tem problemas mentais, coitadinha... nunca agrediu ninguém antes.

Liana, ainda chorando, retrucou:

-Ela deveria ser trancada em uma casa de saúde! É perigosa! Onde já se viu, sair por aí atacando as pessoas?

Décio pediu-lhe que se acalmasse:

-Calma, querida, a moça tem problemas...

Assim, despediram-se de Pepe, agradecendo-lhe pela ajuda, e voltaram ao hotel. Liana estava visivelmente abalada e mal-humorada, e Décio tentava acalmá-la. Sabia que as variações de humor de Liana podiam durar um longo tempo, e não desejava desperdiçar a viagem. Ao chegarem na varanda do hotel, Nina os interceptou, preocupada:

-O que aconteceu?

Uma Liana zangada respondeu-lhe, a voz alterada e chorosa:

-Fui atacada por uma louca na praia. De repente, ela surgiu do nada e tentou arrancar-me os cabelos!

-Rosalba?!

Décio concordou com a cabeça, ainda tentando acalmar a esposa.

-Mas ela nunca fica agressiva! É sempre tão calada e amistosa! Rosalba ama as pessoas...

-Posso ver que sim. Essa maluca deveria ser trancafiada em uma cela acolchoada, isso sim! Décio, vamos arrumar as malas, pois eu não fico nessa ilha nem mais um dia!

-Como assim, Liana?! Acalme-se! Não vamos estragar nossa lua-de-mel por causa de um incidente...
-Incidente?! Ora... eu fui agredida, e deveria ir à polícia!

Nina observava a cena, sem saber o que fazer. Percebeu que tivera uma impressão errada a respeito de Liana, que demonstrava ser mais uma ricaça mimada que se achava melhor que todos. Sentiu pena de Décio.

O céu escurecia, como se estivesse submetido ao mau-humor de Liana, e o vento voltou a soprar, estragando a manhã ensolarada. 

-Escute, Liana, não há como sairmos da ilha hoje. Ian foi levar o casal ao continente, e só voltará amanhã, para levar-nos à Fiorde, nossa próxima ilha. Acalme-se. De qualquer maneira, nós iríamos embora amanhã. A tal moça não virá até aqui. Você está segura.

Nina interferiu:

-Na verdade, há Carlos, um pescador que tem um barco à vela que poderia levá-los a Fiorde...

Décio fez sinal para que ela silenciasse, sem que Liana visse.

Naquele momento, Cecília aproximou-se, atraída pelos gritos de Liana, e já interada sobre o que estava acontecendo. Trazia uma xícara de chá de camomila, que entregou à Liana:

-Sente-se, meu bem... eu sinto muito... tome este chá, irá acalmá-la. Rosalba é apenas uma pobre coitada que vive sozinha, e tem tantos problemas... eu sinto muito pelo que aconteceu, jamais pensaríamos que ela um dia agiria desta forma.

De alguma maneira, Cecília teve um efeito positivo sobre Liana, que tomou o chá e acalmou-se. Finalmente, concordou em esperar a chegada de Ian para continuar a viagem como programada.

O incidente passou, e quando parecia que o problema havia sido resolvido e estavam todos sentados à mesa para o café da manhã, de repente Pepe adentra o hotel, trazendo Rosalba pela mão.:

-Ela queria pedir desculpas... peça desculpas, Rosalba.

No mesmo instante, Liana ergueu-se da mesa, gritando:

-Leve essa louca para longe de mim!

Aquilo fez com que Rosalba começasse a chorar e ficasse furiosa novamente. Soltou a mão de Pepe, e pegando uma xícara de café que estava sobre a mesa, atirou-a sobre Liana, errando por centímetros. Todos ficaram atônitos, mas Cecília correu para Rosalba e carregou-a para a cozinha, de onde seus gritos podiam ser ouvidos.  Novos pedidos de desculpas. Nova crise de Liana, que pediu a Pepe que chamasse o pescador Carlos com o barco à vela para levá-los embora. Décio percebeu que seria inútil tentar fazê-la mudar de ideia.

Apesar do vento forte, embarcaram naquela mesma manhã para Fiorde.

Da varanda do hotel, Cecília sentia uma angústia crescente ao ver o casal partir daquela maneira. Rosalba brincava no chão, conversando com algumas conchas que Nina providenciara para acalmá-la. Ninguém ouvia que ela murmurava baixinho:  "Sim, manda o vento, manda o vento..."


(continua...)





terça-feira, 4 de março de 2014

A Ilha Sem Barcos - parte II





A Ilha Sem barcos - Parte II


O almoço transcorreu com muita tranquilidade. Cecília sentou-se à mesa a convite dos seus novos hóspedes, juntamente com Nina e o casal que partiria na manhã seguinte, Mara e Luiz. Formaram um grupo animado, e quando o almoço terminou, passava das três da tarde. Lá fora estava escuro, e o vento passava cantando pelas gretas das vidraças. 

Nina olhava Cecília, como quem tenta ler em seus olhos e gestos o que a deixara tonta enquanto preparava o almoço, já que ela recusara-se a comentar. Teria sido mais uma de suas visões? Nina sabia que as visões de Cecília quase sempre concretizavam-se, embora elas se tornassem mais raras a cada dia, conforme o tempo avançava. Também lembrava-se de quando chegara ao hotel Miramar, há nove anos, e pela primeira vez, tivera a chance de constatar o quanto Cecília era sensitiva: naquela época, houve um naufrágio na costa no qual vários pescadores pereceram. Cecília tivera uma visão sobre ele, e embora houvesse tentado avisar aos pescadores, eles apenas riram de sua angústia e partiram para o mar, deixando Cecília de pé na praia, enrolada em seu xale negro, o olhar ansioso para as ondas, a mão apertando a própria garganta.

 A notícia chegou à noite. Homens com tochas andavam pela praia, entre destroços e corpos. Cecília, amparada por Nina, entre olhares preocupados e espantados de hóspedes e moradores da ilha, era consolada por Nina na cozinha do hotel com xícaras de chá quente e calmantes.

Depois daquilo, houvera outras ocasiões nas quais Cecília tivera suas visões; o mais angustiante, é que as pessoas não acreditavam nela, e o povo da vila começou a tecer comentários  a respeito dela alegando que era uma bruxa, o que fez com que se calasse sobre suas visões. Quando as tinha, tentava interferir nos acontecimentos ruins sem falar delas, mas raramente conseguia mudar o rumo dos acontecimentos.

Liana deixou escapar um leve bocejo enquanto tomavam café no salão. A lareira crepitava docemente, e apesar da conversa animada, o jovem casal passara muito tempo em viagem para chegar até Pérola. estavam visivelmente cansados, e às seis e trinta da tarde despediram-se e foram para o quarto. Mara e Luiz, o casal que partiria na manhã seguinte, também recolheu-se, pois Ian viria buscá-los na manhã seguinte bem cedo para levá-los ao continente. 

Na cama, Liana e Décio conversavam sobre o dia. 

-O que achou de Nina, Décio?
-Hum... não sei. Parece-me simpática. 
-E quanto a Cecília?
-Gosto dela. Mas ela tem um certo ar de mistério.
-Concordo.

Liana suspirou:

-Deve ser solitário, viver aqui. Quero dizer, para Nina.
-Lembre-se que o hotel ferve em época de temporada. Além disso, Nina já tem bastante idade, e os mais velhos preferem os lugares calmos e silenciosos, onde podem entregar-se às suas lembranças.

-Nossa, você está filosófico!

Ele riu, enquanto ela beijava-lhe o rosto.

-Bem, é que me parece óbvio que ela é uma velha milionária - afinal, a diária do hotel não é nada 'baratinha' - que não deve ter família, ou se tem, não se dá bem com eles. Com certeza, veio para a ilha a fim de passar seus últimos anos em paz.
-E com o que paga aqui, com certeza não deixará muita herança para ninguém... mas olhe como estamos maldosos! Discutindo sobre a vida de pessoas que nem conhecemos direito.

Eles se abraçaram.

-O que faremos amanhã, Décio? Se o tempo não melhorar e não pudermos ir à praia?
-Bem... eu tenho uma excelente sugestão: faremos o que viemos aqui para fazer.
-O dia todo?
-O dia todo!

Eles riram. Exaustos como estavam, logo adormeceram nos braços um do outro.

A noite caiu sobre o hotel silencioso. No corredor, apenas o velho carrilhão marcava as horas, entrecortando o ruído distante do mar e do tamborilar da chuva no telhado. Sombras projetavam-se nas paredes do hotel, quem sabe, espectros de tempos antigos. Em sua cama, Cecília revirava-se sem conseguir conciliar o sono. Tivera uma de suas visões, e sempre ficava muito angustiada naquelas ocasiões, principalmente quando a visão não estava clara. Ela só conseguia lembrar-se que era alguma coisa sobre os novos hóspedes. Ouvira o barulho do vento, e vira seus rostos flutuando no ar. A voz de Ian. Um grito. Ela virou-se novamente na cama. Precisava decidir o que fazer.
Não podia dizer-lhes simplesmente: "Olhem, sou uma mulher solitária que tem visões esquisitas, e vi algo sobre vocês que não sei o que significa." Teria que pensar. Quem sabe, quando a ocasião propícia se apresentasse, ela compreenderia melhor o que tinha visto?

Levantou-se da cama, e foi preparar uma xícara de chá de camomila. Ao chegar na cozinha, deparou com Nina sentada à mesa, e duas xícaras de chá quente. Ela sorriu:

-Você sempre se adianta. Como sabia que eu viria? Afinal de contas, sou eu quem tem as visões por aqui.
-Eu a conheço, Ceci. Sabia que precisava conversar. O que você sentiu?
-Não sei bem...

Cecília sentou-se, mexendo o chá com a colher, concentrada no movimento em espiral.

-Eu vi o rosto dos dois pairando no ar, em meio a muito vento. Uma grande ventania.
-Algum acidente? Mortes?...

Ela sentiu um calafrio, mas disse:

-Um acidente, talvez. Mas não haverá mortes. Posso afirmar com certeza.

Nina sorveu um gole do chá, aliviada.
-E o que você vai fazer a respeito?
-Ainda não sei...
-Ceci... se me permite uma opinião... acho que o destino de cada um é algo no qual não se deve interferir. A vida é o que é, e cada um passa pelas experiências que precisa passar.
-Mas você não acha que essas visões, esse dom que eu não sei de onde veio e que começou quando coloquei os pés nessa ilha, existem por algum motivo? Quero dizer... se eu as tenho, se elas me foram dadas, talvez por Deus, não seria para tentar prevenir acontecimentos ruins?
-Quem sabe?... Se você realmente crê que as suas visões lhe foram dadas, por que acredita que esse alguém que as deu a você não tenha ele mesmo o poder de interferir em seus próprios assuntos?
-Ora, eu sei que você é agnóstica, Nina.

Nina sorriu-lhe, estendendo a mão sobre a mesa para segurar a mão da amiga:

-Sim, é verdade. Não tenho uma religião, mas sei que o universo não é obra do acaso. Já vi muitas coisas nesses meus setenta e cinco anos para ser tão tola a ponto de acreditar que as coisas não fazem nenhum sentido. Mas quem sabe, essas visões sejam um dom seu, para que você use em seu próprio favor?

-Como assim? Eu nunca consegui ver nada sobre mim mesma.
-Talvez porque você lute muito contra elas. Deixe que venham!

Aquelas palavras bateram fundo em Cecília; era verdade. Ela lutava contra aquelas visões, ao ponto de repeli-las com todas as forças quando sentia que elas iriam chegar. Tinha medo delas. Não pelo que ela poderia ver a respeito dos outros, mas a respeito dela mesma. Desde que chegara à Pérola como proprietária do hotel, deixara para trás muitos acontecimentos tristes e pessoas das quais preferira fugir. O Arquipélago de Hidra era o seu refúgio. Ali, ninguém poderia encontrá-la. Ali, seus segredos do passado ficariam sempre adormecidos.

Olhou para a amiga, apertando-lhe a mão novamente.

-Bem, é tarde. vamos dormir.


(continua...)



domingo, 2 de março de 2014

A Ilha Sem Barcos






Todos os lugares e personagens e fatos deste conto são  fictícios.



A Ilha Sem Barcos - Parte I

Liana e Décio, de mãos dadas, olhavam as águas borbulhantes e profundamente azuis que se agitavam em bolhas conforme o motor do barco avançava sobre elas, e após a passagem, a trilha de rastro borbulhante ia, aos poucos, reintegrando-se às ondas. Era um dia frio e caía uma chuva fina que encharcava a madeira do barco ainda mais que os respingos da água do mar. Ian, o timoneiro, vestia uma blusa de lã muito grossa de cor cinzenta que parecia ter sido feita à mão por alguma mulher e presenteada a ele em uma data especial. Seus cabelos muito loiros e longos apareciam sob o chapéu, e a água da chuva percorria os cachos em espiral e ficavam suspensas como pedrinhas de diamante nas pontas do cabelo.

Liana, ao contrário, vestia um  longo sobretudo impermeável negro e muito elegante, e seus longos cabelos ruivos estavam totalmente escondidos sob a boina vermelha. Seu marido Décio (eram recém-casados em lua-de-mel) tinha os cabelos castanhos cortados rentes ao crânio, destacando o formato bem-feito de sua cabeça e a beleza máscula do seu rosto, onde descansavam um par de belos olhos verde-musgo, cuja cor era ainda mais ressaltada pelo verde-escuro de seu casaco pesado de feltro. Seu queixo quadrado e forte perdia a dureza ao desmanchar-se em um sorriso todas as vezes que Liana apontava alguma ilhota distante ou fazia alguma observação sobre a beleza desolada das nuvens enegrecidas sobre suas cabeças. Na verdade, Liana falava sem parar a fim de disfarçar seu desconforto, pois nunca gostara muito de barcos. Não pode recusar, entretanto, quando o sogro ofereceu-lhes de presente a caríssima viagem de um mês pelas Ilhas Hidra como presente de casamento - além do belo chalé decorado que os esperava quando estivessem de volta à casa.

As Ilhas Hidra eram um arquipélago de quinze pequenas ilhas no mar do Norte, famosas não apenas pelas belezas naturais de suas falésias, que transmutavam-se em cores que variavam do areia mais claro ao vermelho mais intenso conforme a luz do sol incidia sobre elas, mas também por suas florestas tropicais, spas caríssimos e culinária impecável. Não eram visitadas por turistas de classe média, pois as Ilhas Hidra eram consideradas turismo de primeira-classe. Naquela época do ano - início da primavera e portanto, fora da temporada de turismo - eram tranquilas e pouco frequentadas, o que, segundo o sogro, cairia como uma luva para uma viagem de lua-de-mel.

Liana apertou a cintura do marido, aconchegando-se mais a ele; o frio do final da manhã era intenso. Ele apertou o corpo da esposa em resposta, e retirando seu cachecol, passou-o em volta dela. Naquele momento, a voz de Ian chegou-lhes: "Vejam! É Pérola!" 

Liana suspirou de alívio; Pérola era a primeira ilha do Arquipélago de Hidra. Ao desembarcarem, despediram-se de Ian - que passaria a noite na ilha e partiria de manhã, voltando dentro de três dias para levá-los à próxima ilha - e dirigiram-se ao hotel em um táxi. A chuva cessara, mas o céu pesado permanecera. O frio ainda era intenso, e o casal não via a hora de chegarem ao hotel e comerem alguma coisa quente. O motorista do táxi era um senhor simpático, aparentando sessenta e tantos anos, e após colocar as malas no carro, apresentou-se:

"Bem-vindos a Pérola! Meu nome á Pepe. É sua primeira vez na ilha?"

Liana sorriu, estendendo-lhe a mão:

 "Muito prazer, Pepe. Sou Liana, e este é meu marido Décio. E...sim, é a nossa primeira vez nas Ilhas Hidra."

Enquanto apertava a mão de Décio, Pepe olhou-os por um instante e compreendeu logo que eram um jovem casal em viagem de lua-de-mel; afinal, quem iria visitar as ilhas naquele tempo gelado? Miramar, o único hotel da região, estava vazio, e além do casal recém-chegado, havia um outro que deixaria a ilha na manhã seguinte e também Nena, uma senhora idosa que morava no hotel.

Entraram no carro, e Pepe foi dirigindo devagar, aproveitando para mostrar alguns pontos interessantes da ilha - embora, infelizmente, a grande maioria das encantadoras  lojinhas que vendiam produtos da região -pequenos presentes, roupas e jóias de pérolas - estivessem fechadas e só voltassem a abrir no verão. 

A estradinha que levava ao Hotel Miramar era estreita e sinuosa, e as curvas, precisas e rápidas. Lá embaixo, a vista era deslumbrante, pois o mar agitado explodia suas espumas brancas pela orla deserta, e o céu de chumbo dava à paisagem um ar quase surreal. Após quinze minutos, chegaram ao Hotel e despediram-se de Pepe, que deixou-lhes um cartão caso precisassem de seus serviços. Explicou que naquela época, os motoristas de táxi iam trabalhar no continente, e apenas ele ficava na ilha.

O casal chegou à recepção e olhou em volta: Miramar era um hotel pequeno, montado em uma antiga mansão - possuía apenas dez quartos - e tinha o ar aconchegante de uma casa residencial. Amaram tudo o que viram: as paredes pintadas de creme e salmão, os lustres de cristal que pendiam do teto, as poltronas estofadas com tecidos floridos, os tapetes antigos em ótimo estado de conservação, as conchas enormes sobre o balcão da recepção, a  imensa  lareira onde crepitava um fogo que emitia um delicioso calor pelo cômodo. 

Foram recebidos por Cecília, a proprietária, uma bela mulher aparentando cinquenta anos. Ela deu-lhes as boas-vindas e ajudou-os a levar as bagagens para o quarto, abrindo as cortinas quando eles entraram e chamando-lhes a atenção para a paisagem maravilhosa da qual desfrutariam; Liana chegou à sacada, e não pode deixar de soltar uma exclamação ao encostar o rosto no vidro: "Que lindo!" Décio juntou-se a ela, e Cecília observou-os sorrindo, lembrando-se da primeira vez que ela mesma, como hóspede daquele hotel, tivera a mesma reação, há vinte e cinco anos. 

Contou-lhes sua história, como fazia sempre que recebia novos hóspedes:

-Quando cheguei a esta ilha pela primeira vez, com um grupo de amigos, eu tinha apenas vinte  anos. Fiquei absolutamente encantada. Passei a vir todos os anos, e inclusive, hospedei-me aqui em minha lua-de-mel também. Mas infelizmente, fiquei viúva aos vinte e cinco anos... e ao mesmo tempo, soube que o hotel estava sendo vendido; não hesitei em comprá-lo, e desde então, passei a administrá-lo. Não é muito lucrativo, mas não consigo imaginar minha vida sem ele! Aqui eu vivi os melhores anos de minha vida...

Décio e Liana se entreolharam ao perceberem os olhos marejados de sua anfitriã. Liana dirigiu-lhe um sorriso de solidariedade:

-Que bela história!

Décio exclamou:

-Parabéns! Você tem um lugar maravilhoso aqui.

Cecília sorriu, secando uma lágrima:

-Bem... obrigada! Mas desculpem-me, eu sempre falo demais... acredito que desejem descansar antes do almoço. Vou deixá-los em paz. Gostaria de dizer que qualquer coisa que precisarem, podem chamar-me na recepção, os números estão sobre a cabeceira. Nesta época, dispenso quase todos os funcionários, e ficamos apenas eu e uma camareira. Portanto, provarão do meu tempero! Espero que gostem.

-E o que teremos para o almoço, Cecília? - perguntou Décio.

Ela ergueu a cabeça, e com orgulho, anunciou:

-Vocês comerão a melhor mariscada de suas vidas, acompanhada de salada de camarão, arroz  e vinho branco.

Liana sentiu sua boca aguar.

Quando ficaram a sós, Liana começou a encher a banheira, e utilizando-se dos sais e espumas que encontrou no banheiro, preparou-lhes um excelente banho quente, onde permaneceram mergulhados  pela próxima hora e meia.

Enquanto isso, na cozinha, Cecília dedicava-se à preparação do almoço com esmero, enquanto cantarolava uma velha canção da ilha. Picava os temperos: coentro, cebolas, alho. Olhava o cozimento dos mariscos e camarões, com cuidado para que não passassem do ponto, e jogava um pouco mais de água de coco no molho. O vapor do fogão deixava as vidraças da cozinha embaçadas, e um aroma delicioso espalhava-se pelo corredor.

Percebeu uma presença atrás de si e deu com Nina, a velha moradora do hotel. As duas se entreolharam. Nina segurava sua belíssima bengala com cabo de madrepérola, na qual sequer se apoiava, carregando-a consigo apenas pelo charme impactante que ela causava aos observadores. Tinha os cabelos cuidadosamente arrumados em um coque.

-Bom dia, Cecília. Novos hóspedes, não?

-Olá, Nina, Sim, acabaram de chegar. É sua primeira vez na ilha. 

Nina largou a bengala em um canto da parede, e pôs-se a pegar pratos e copos no armário, e a levá-los para a sala de jantar do hotel. Ambas já se conheciam há muitos anos, e eram muito amigas. Era comum que Nina ajudasse Cecília fora da temporada, quando esta estava sozinha na cozinha.

-E que tal eles são? Mais um casal em lua-de-mel?
-Sim, Nina. Parecem simpáticos! O rapaz é um príncipe. Acho que nunca vi um homem tão bonito...

Nina cutucou-a, brincando:

-Controle-se, sua velha assanhada! Além do mais, ele é casado!

As duas riram:

-E com uma moça lindíssima. Seus nomes são Décio e Liana. Você vai gostar deles!

-E quanto tempo vão ficar?

-Bem, eles tem reserva para dois dias. Pretendem conhecer as outras ilhas, suponho.
-Apenas dois dias? Hum... mal... esta época é sempre difícil para o hotel. Qualquer um já teria fechado as portas... se não fosse por mim, você já estaria falida!
-Eu jamais fecharei as portas, Nina.
-Eu sei. É por isso que eu ainda estou aqui. Para onde mais eu iria? Algum asilo de velhos?

Cecília riu alto, enquanto escorria a água dos camarões, arrumando-os na travessa:

-Ora, você sabe muito bem que eu a levaria comigo aonde eu fosse. Pare de fazer-se de vítima.

Naquele instante, Cecília teve uma súbita tontura, e segurou-se na beirada da mesa. Nina caminhou até ela, olhando-a com preocupação:

-O que aconteceu, Ceci?... Você está bem?

Cecília não escutou a voz da amiga. Diante de seus olhos, descortinava-se uma paisagem diferente... uma paisagem que ela não desejava ver.


(Continua)














segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

MALDADES - FINAL






Conheci outra pessoa. Rogério é doce, terno, apaixonado. Com ele, sinto-me segura. Não posso dizer que o amor que sinto por ele seja tão forte quanto o que eu sentia por Sean, mas ao menos, levamos uma vida sem sobressaltos, feliz, e sinto-me segura.

Tivemos um bebê, uma linda menininha que hoje tem cinco anos de idade. Seu nome é  Ângela.

Um dia, vi-a brincando com um envelope amarelado. Reconheci a carta de Sean. Corri para ela:

-Onde achou isto, Ângela?

Sorrindo, ela me estendeu a carta:

- No armário da mamãe.

Quando cheguei ao quarto, vi que Ângela tinha aprontado uma das suas artes: toda a minha roupa estava jogada no chão, a porta do armário escancarada, e meu álbum de fotografias aberto, com várias fotos espalhadas pelo chão. Entre elas, o envelope que eu recebera de Sean há anos atrás. Lembrei-me que o tinha guardado dentro do álbum de fotos, e esquecido totalmente do assunto.

Eu agora estava curada. Sean era apenas uma sombra do passado, como em sombras se transformam todos os amores perdidos. Resolvi abrir a carta e lê-la. Por que não?

Sentei-me na cama. Rasguei o envelope, e vagarosamente, abri a carta.

“Minha Ana,

Eu nem sei como começar a dizer-lhe o que eu tenho a lhe dizer. O que fiz á imperdoável. Agi como um cafajeste. Você não o merecia. Mesmo assim, se você tiver que me julgar pelos meus atos, espero que possa me ver como um fraco, não como um cafajeste.

Mas eu não podia ficar ao seu lado convivendo com um fantasma: o fantasma da minha culpa.

Tenho uma confissão a fazer. Sei que depois de ouvi-la, você talvez tenha ódio de mim. Eu fui um fraco, e acabei me envolvendo com uma outra pessoa enquanto estava com você, e eu não consegui lhe contar a verdade, pois temia feri-la. Ainda mais sendo esta pessoa a sua melhor amiga: Clara.

Depois que ela morreu, vi o quanto você estava sofrendo por ela, e não suportava vê-la sofrer por alguém que não merecia. Ao mesmo tempo, eu sabia que eu mesmo também não merecia seu amor. Todas as vezes que eu olhava para você, o fantasma de Clara se colocava entre nós. Mesmo eu tendo decidido, na noite anterior, que eu não mais me relacionaria com ela, Clara ameaçou contar tudo a você.

Depois que a festa no Johnny’s terminou, ela apareceu  no sítio de madrugada. Eu já não agüentava mais olhar para ela. Clara estava sendo inconveniente, se impondo a mim, como se eu fosse alguma espécie de monstro que a seduzira, ela, a pobre mocinha inocente. Ela queria que eu me sentisse culpado por tudo. Mandei-a embora e afirmei-lhe que eu já tinha tomado a minha decisão, e que eu iria ficar com você. Ela saiu feito uma louca, dizendo que contaria a você tudo o que tinha acontecido entre nós dois; quando ela havia jurado, prometido, que se eu me decidisse por você, ela não interferiria e voltaria para Paris.

O resto você já sabe. Eu fui um covarde duas vezes: a primeira, por me deixar envolver com alguém como ela; a segunda, por ter praticamente fugido da cidade sem nem sequer ter me despedido de você.

Agora você já conhece meu lado negro.

Não tenho o direito de pedir a você que me perdoe. Mas, se ainda houver alguma esperança de ficarmos juntos novamente, ou se você ainda quiser esclarecer alguma coisa, ligue para o número de telefone que está nesta carta. Se você não ligar em uma semana, entenderei que você não quer mais me ver, e não voltarei a procurá-la.

Mas saiba que estar longe de você é uma dor constante. Sinto muito a sua falta, e se você ainda me quiser, apesar de tudo, tenha certeza de que será diferente. Eu prometo.

Você nem imagina o quanto está sendo difícil para mim ficar sem você.

Sean.”

Ao terminar de ler a carta, e relê-la algumas vezes mais, eu ainda não tinha certeza do que estava sentindo. Aquele número de telefone... será que ele ainda poderia ser encontrado através dele? Num impulso, corri para minha bolsa, apanhei o celular e disquei. Não tinha a menor ideia do que diria se ele atendesse, e nem sequer pensei em Rogério. Agi por impulso. Meu coração pulava dentro do peito a cada toque. De repente, após o quarto toque, ouvi o ‘click’, indicando que alguém tinha atendido. Mas a voz que me disse ‘alô’ do outro lado da linha não era de Sean. Tratava-se de uma voz feminina. Mesmo assim, apesar do medo que eu sentia, tinha que ir até o final daquela estória, nem que fosse para revê-lo ainda uma vez mais e concluir o adeus que ficara no ar.

-Alô! Gostaria de falar com Sean, por favor.

Silêncio do outro lado da linha.

- Quem está falando?

-Aqui é... é uma velha amiga, eu pensei... não nos vemos há muitos e muitos anos, e acabei de chegar de uma longa viagem e achei que talvez Sean, ainda ...

-Aqui é Judy. A mãe dele. Qual o seu nome?

- Meu nome é Ana.

-Bem, Ana... eu sinto muito, mas Sean não poderá falar com você. Ele... ele faleceu há dois anos.

Senti o mundo girar. Não podia desmaiar, pois estava sozinha em casa com Ângela. Sentei-me na beirada da cama e procurei respirar fundo algumas vezes.

-Como aconteceu?

- Eu... ele...

Notei que tinha despertado lembranças dolorosas na pessoa que falava comigo, e me senti muito cruel e indiscreta.

-Olhe, não precisa falar nisso se não quiser, está bem?

-Está tudo bem, é que ainda é muito difícil.  Mas eu estou bem. Você está bem?

- Não. Não tenho certeza. Você sabe quem eu sou?

- Não... quero dizer, você é uma velha amiga de Sean, pelo menos é o que você me disse.

- Meu nome é Ana. De Santo Onofre. Ele nunca falou de mim?

Silêncio do outro lado. Um suspiro.

-Oh, Ana, sim claro, eu sinto muito, muito mesmo...

Ela começou a chorar.

-Gostaria de poder encontrá-la pessoalmente. Tenho muitas coisas a lhe contar. Estou morando em uma cidade próxima da sua.

Anotei o endereço. Marcamos um encontro para o dia seguinte. Pedi a mamãe que ficasse com Ângela e disse a Rogério que iria viajar para ajudar uma velha amiga de faculdade que precisava de mim, mas que voltaria no dia seguinte.

Nos encontramos em um restaurante no centro da cidade onde ela estava morando. Quando cheguei, Judy já esperava por mim. Era uma mulher muito bonita, aparentando ter uns sessenta e poucos anos. Mal pude conter minha emoção ao ver nos olhos dela os olhos de Sean. Os mesmos olhos que me olharam tantas vezes, os olhos que haviam me cativado completamente desde a primeira vez que nos víramos.

Ela me cumprimentou com um aperto de mão polido, e convidou-me a sentar com um gesto tímido e um pequeno sorriso.

- Como vai, Ana?

-Eu estou bem.

Mas as lágrimas finalmente começaram a jorrar, enquanto a imagem dela ficava cada vez menos nítida diante de mim.

-Eu sei de tudo o que aconteceu. Sei de tudo. Sean contou-me tudo em detalhes. Ana, você não imagina o quanto ele estava arrependido do que fez. Ele amava muito você. Posso dizer com segurança que você, Ana, foi a única mulher que meu filho amou na vida. Ele nunca conseguiu se perdoar pelo que fez com você. Meu filho ... fraquejou. Mas sua amiga Carla era uma mulher vivida, experiente, e muito bonita. Ele simplesmente não conseguiu resistir às investidas dela. Você deve saber que é difícil para um homem... mas ele amava você. Ele mesmo me disse isso muitas e muitas vezes.

-Por que ele nunca disse isso a mim?

- Porque ele achava que não tinha o direito, depois de tudo que tinha feito com você. Sabendo que você estava inocente naquela estória sórdida.

Olhei-a nos olhos. Estava mais calma.

-Não, Judy. Eu não estava inocente. Eu sabia de tudo. Descobri na noite anterior à morte de Clara.

Ela levou uma mão à boca, num gesto de surpresa.

-Eu ouvi uma conversa entre os dois. Mesmo antes daquela noite eu já desconfiava, mas não queria confrontar Sean. Achava que seria melhor se eu lutasse por ele de uma outra forma. Mas após a morte de Clara acabei achando que as coisas se ajeitariam e voltariam a ser como eram antes. Triste ilusão...  ele se foi, fugiu de mim.

-Ele fez aquilo porque era fraco. Sentia-se muito mal pelo que tinha feito. Eu sei que é difícil acreditar no que vou lhe dizer, mas Sean era muito ético e muito digno. Acho que na verdade ele estava confuso, não sabia lidar com a situação, ou como contar a você, e ao mesmo tempo, não conseguiria viver com você tendo aquela mancha negra entre vocês. Eu o aconselhei a colocar tudo em uma carta. Ana, estive ao lado dele durante aqueles seis meses antes dele tomar coragem e escrever para você, e sei o quanto ele estava sofrendo. Vi meu filho definhar aos poucos, emagrecer, perder o interesse pela vida. Posso afirmar-lhe que apesar de ter agido mal, ele fez o melhor que sabia.

- Eu entendo.

- Depois que ele escreveu a carta, contando tudo, ele começou a sentir-se mais leve. Esperou por sua resposta durante toda a semana. Mas como não a obteve, chegou à conclusão de que ele não a merecia e que você não o tinha perdoado.

-Eu não li a carta. Quero dizer, eu a li  ante-ontem, quando minha filha... eu sou casada agora. Minha filhinha derrubou umas coisas de dentro do armário, e acabei encontrando a carta, e aqui estou eu.

-Fico feliz que você tenha refeito sua vida.

-Sim, eu agora vivo ... bem. Mas eu tenho que desabafar, me desculpe pelo que vou lhe contar, afinal, mal nos conhecemos.

- Diga o que quiser, Ana.

- Eu nunca deixei de amar Sean. Nunca o esqueci. Ele lhe contou da festa de aniversário no Johnny’s?

-Sim, contou. Disse-me que após a festa Clara o procurou, ameaçando contar tudo a você se ele não o fizesse. Foi quando ele terminou tudo com ela.

-Mas ela me procurou no dia seguinte pela manhã. Judy, eu nunca contei isso a ninguém, nem a minha mãe.

Ela inclinou-se em minha direção, para ouvir-me melhor.

- Eu estava lá. Quando ela morreu. Assisti toda a cena.

-Oh... mas por que você...nunca contou isso a ninguém?

-Porque eu poderia ter evitado. E não o fiz. Eu sabia que ela estava ali para me contar toda a verdade, e para tentar me afastar de Sean. Ela queria virar a estória a seu favor, fazendo-me terminar o relacionamento com ele, deixando o caminho livre para ela.

Ela pareceu confusa. Contei-lhe toda a estória, e foi como se tudo estivesse acontecendo novamente diante de mim. Judy ouviu tudo em silêncio, e quando terminei, ela respirou fundo. Achei que ela estaria escandalizada com minha frieza, mas ela pousou sua mão sobre a minha, fazendo uma breve carícia.

-Eu teria feito o mesmo. E não tenho certeza de que você teria conseguido evitar o acidente, se tivesse gritado. Essas coisas acontecem rápido demais, é difícil prever o que teria acontecido se, e se... não se sinta culpada por isso, Ana. Considere que Deus tem seus caminhos, e se Ele quisesse, Ele teria evitado a morte de Clara.

Senti um grande peso saindo de meus ombros. Passara todos aqueles anos sentindo-me sufocada por guardar aquela estória dentro de mim, e por tanto medo de ser censurada ao contá-la para alguém, que jamais o fizera. E aquela mulher, uma perfeita estranha, mas que no fundo, tinha tantas coisas a ver comigo, me ouvira e me compreendera sem me censurar um só minuto.

-Agora sei porque Sean escolheu você.

Vi que ela estava tentando conter as lágrimas, e eu também. Ficamos em silêncio por alguns instantes, olhando para a toalha de mesa. O garçon trouxe-nos as bebidas que tínhamos pedido, e tomei um gole generoso de vinho. Ela também.

-Mas Ana... por que você ligou? Se agora você é uma mulher casada?

-Porque eu queria ver Sean mais uma vez...

Recomecei a chorar.

-Precisava passar tudo a limpo. Quem sabe, para recomeçar minha vida com meu marido e deixar o passado para trás, ou até mesmo... não sei, fazer tudo diferente e ter uma nova chance com Sean.

-Você deixaria tudo para ficar com ele? Mesmo depois de tudo?

- Eu não sabia, mas agora eu sei: sim, Judy. Eu deixaria tudo para ficar com ele.

Ela enxugou uma lágrima com a ponta do dedo.

-Obrigada por estar sendo tão sincera comigo, Ana. Muito me conforta saber que ele era amado, e que você o perdoa.

-Eu o perdoo, é claro que eu o perdoo! Como poderia não perdoá-lo? Eu ainda o amo, Judy, eu o amo demais, e nem sequer sabia disso!

Tomamos mais um gole do vinho. O garçon trouxe nosso pedido, e em silêncio esperamos que ele nos servisse. Mas nenhuma de nós tocou na comida.

- Judy, eu sei o quanto deve ser difícil para você... mas como Sean morreu?

Ela respirou bem fundo, fechando os olhos por um instante. Quando me olhou, só pude ver uma grande paz em seus olhos, e não a dor que eu esperava; paz, ou resignação.

- Ele sofreu um acidente de carro. Tinha saído para buscar o pai no aeroporto. Aconteceu quando eles estavam voltando.

-E seu marido? Ele está bem?

- Ele também faleceu no acidente.

Fiquei muito chocada por tê-la feito reviver tudo aquilo.

-Oh, Judy, eu sinto muito, por favor, me perdoe!

-Está tudo bem, Ana. Você foi sincera comigo, e serei com você; nós estávamos nos divorciando. Iríamos contar a Sean naquela noite. Mas ele nunca ficou sabendo. Meu marido tinha uma outra mulher. Eu havia descoberto tudo há algum tempo , e quando tentei falar com ele sobre o assunto, ele simplesmente disse que queria o divórcio.

Percebi que ambas tínhamos partilhado grandes segredos.

Ela sorriu para mim, tranqüila.

-Mas tudo isso agora é parte do passado.

Após o almoço, perguntei-lhe se eu poderia visitar o túmulo de Sean. Ela assentiu, e fomos juntas ao cemitério, e deixei algumas flores no túmulo de Sean, junto com as últimas lágrimas que chorei por ele. Judy se afastou enquanto eu estava ajoelhada, olhando a pequena fotografia de Sean que estava na lápide. Quando ergui os olhos, ela tinha ido embora.

Nunca mais nos encontramos.

Voltei para casa e para Rogério. Quando cheguei já era noite, e ele foi me receber à porta de braços abertos, envolvendo-me num caloroso abraço. Ângela veio correndo juntar-se a nós. Compreendi que minha vida agora é esta, e que consigo ser muito feliz a maior parte do tempo, vivendo-a.

Basta deixar para trás as sombras e erros que todos cometemos no passado.


FIM




MALDADES - PARTE VII





Cheguei ao sítio de Sean. Tinha acabado de chover, e um arco-íris cruzava o céu. Achei a paisagem muito linda e muito triste. Parei o carro sob uma árvore. Eu precisava ser forte, ter coragem para fazer o que eu tinha ido fazer. Olhei para o pátio, e lembrei-me do dia em que tínhamos ficado noivos. Estávamos tão felizes! Se não fosse por Clara... estaríamos casados, vivendo juntos no sítio, talvez sentados à varanda olhando aquele arco-íris e fazendo planos para o futuro, planejando nossos filhos.

Entrei.

Lá dentro, tudo cheirava à adeus. O relógio cuco tiquetaqueava , e seu som enchia a casa vazia. Chamei por Sean, mas ele não respondeu. Ouvi passos arrastados; era Rita.

Ela pareceu muito surpresa em me ver. Arregalou os olhos e me olhou como se eu fosse um fantasma.

-Boa tarde, Rita. Onde está Sean?

-Boa tarde, dona Ana. A senhora por aqui? Ele viajou. Disse que não volta mais. Pensei que a senhora tinha ido com ele.

-Como assim, foi embora e não volta mais, Rita?

-Mas a senhora não sabia?! Meu Cristo!

-Foi embora para onde?

- Para o estrangeiro!

Ela se aproximou de mim, fazendo-me sentar no sofá.

-Sinto muito, dona Ana, muito mesmo. Vocês formavam um casal tão bonito! Mas “seu” Sean vendeu o sítio. Foi embora. Eu só estou aqui arrumando as minhas coisas, pois vou embora também. O novo dono chega amanhã. Eu vou ficar na casa de uma prima até arranjar outro trabalho. Quem sabe, o novo dono do sítio queira me contratar... nunca se sabe, não é? “Seu” Sean deixou uma carta de referências para mim. Se não conseguir o emprego de volta, eu...

Eu prestava atenção ao que ela me dizia sobre seus planos, tentando desligar-me da minha própria realidade. Minutos depois, Rita foi até a cozinha me preparar um café. Automaticamente, dirigi-me ao quarto de Sean. De repente, tudo era apenas uma brincadeira e ele estaria lá, sentado na cama, esperando por mim. Me abraçaria, começaríamos tudo novamente.

Mas a cama estava arrumada, impecável. Sobre a cômoda, um vidro de colônia esquecido. A colônia que eu lhe dera de presente de Natal. Peguei o vidro, abri e aspirei o perfume. As lágrimas finalmente desceram , tornando-se cascatas quentes sobre meu rosto.

Ele me dera a maior prova de desamor, indo embora sem nem mesmo despedir-se de mim, tratando-me como se eu fosse nada. Ele levara Clara com ele, em seu coração, e deixara tudo o que eu representava para trás, naquele vidro de perfume.

Derramei o conteúdo do frasco no chão. Virei as costas, saí do quarto. Passei por Rita , que segurava uma xícara de café, e saí da casa, sem nem mesmo olhar para trás.

Seis meses depois, recebi uma carta. Reconheci a caligrafia de Sean no envelope, e embora meu coração estivesse partido, eu simplesmente não pude abrir a carta. Eu sabia que ela provavelmente continha algumas desculpas que ele listara a fim de dar-me alguma satisfação. Talvez ele falasse de seu amor por Clara e do quanto ela lhe fazia falta.

Joguei a carta na gaveta da mesa de cabeceira, onde ela permaneceu por algumas semanas. As semanas tornaram-se meses, os meses tornaram-se anos.



A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...