quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte IV



 




A partir daquele dia em que Maria visitou-a, Aurora decidiu abrir-se um pouco mais, e ambas tornaram-se grandes amigas. Maria também vivia sozinha, em um pequeno apartamento em um sobrado na cidade. O prédio pertencera aos seus pais, e no térreo, que ela alugava,  funcionava uma padaria. Ela transformara um dos quartos em um estúdio onde confeccionava suas peças de artesanato, e assim ia vivendo. As duas novas amigas passaram a frequentar a casa uma da outra diariamente, e Aurora sentia-se grata pela presença constante de Maria, após tanto tempo de solidão. Ela sabia que poderia confiar nela. Afinal de contas, sua própria mãe o dissera de uma forma bastante direta!

Maria tinha um namorado, Pedro, que estava terminando a faculdade de direito, e que por isso morava em outra cidade. Ele vinha apenas nos finais de semana, e então as duas amigas ficavam separadas para que Maria e Pedro pudessem ficar juntos e a sós. E durante os finais de semana, Aurora cuidava de suas coisas, tentando driblar o sentimento de solidão. Contentava-se com apenas uma amiga, pois sabia que não podia deixar que seu nome ou suas atividades ficassem conhecidos demais, ou eles a encontrariam... quando fazia alguma leitura de cartas, era sob a condição de que o consulente mantivesse segredo absoluto de suas atividades, e como seus poucos clientes gostassem muito dela e não quisessem perder a graça de seus serviços, até aquele momento ela tinha conseguido manter sua atividade quase incógnita. Não cobrava pelas leituras; acreditava no que sua mãe lhe ensinara (mas jamais cumprira): "Dê de graça o que de graça recebeste." Mas mesmo assim, Aurora recebia muitos presentes, que estavam espalhados pela casa.

Sua amizade com Maria era baseada em muito respeito e confiança, e ela contava-lhe apenas o que queria contar. Por exemplo: contara-lhe que deixara alguém na cidade de onde viera, e as razões porque o amor deles era impossível. Contara sobre a morte da mãe, mas não sobre as suas circunstâncias, e deixara a amiga saber que não gostaria que soubessem que ela estava ali, mas não revelara os motivos. Nem mencionara sua verdadeira identidade ou seu verdadeiro nome. Maria aceitava o que a amiga lhe revelava sem mais indagações. Sabia que Aurora precisava de tempo para confiar totalmente nela, e que o fato de ter partilhado pelo menos parte de sua história com ela já era uma grande prova de confiança. Maria sabia sobre os dons paranormais de Aurora, mas prometera não falar sobre eles com ninguém. 

Em um certo domingo, Maria achou que já era hora de apresentar seu noivo Pedro à sua melhor amiga. De manhã cedo, enquanto Aurora tomava o café da manhã, ela chegou à casinha na floresta de mãos dadas com o noivo. Aurora ficou muito feliz em conhecê-lo, e logo convidou-os a entrar e partilhar de sua mesa, onde havia um delicioso bolo de nozes que ela acabara de assar, e um bule de café quente e forte. Colocou mais duas xícaras à mesa, e todos comeram felizes.

Pedro estava fascinado pelo sorriso de Aurora. Observava cada gesto seu, e pensava que apesar da moça ter uma beleza simples, que precisava ser descoberta aos poucos, seu charme e magnetismo pessoal eram muito grandes. A voz da moça parecia música aos seus ouvidos. E mais encantado ainda ele ficou quando ela, desaparecendo pelo corredor, voltou trazendo um violão e, para surpresa de ambos, começou a tocá-lo e cantar uma antiga canção popular. Nem mesmo Maria sabia daquele dom da amiga! O casal ficou ouvindo-a tocar, hipnotizados. 

Enquanto ela cantava, Pedro percorria com os olhos  os pés descalços de Aurora, as unhas pintadas de vermelho, a correntinha de ouro no tornozelo esquerdo, a saia de tecido leve caindo suavemente sobre o contorno de suas pernas. Deteve-se entre as protuberâncias arredondadas levemente apertadas contra o corpete branco rendado, os cabelos presos em um coque desfiado, a pele levemente rosada das maçãs de seu rosto. Apertava com força a mão de Maria, como se aquele gesto fosse impedi-lo de pensar nas coisas que estava pensando que gostaria de fazer com sua amiga.

A luz da manhã entrava pela janela, filtrando-se por entre as copas das árvores, e ia incidir sobre os olhos de Aurora, dando-lhes uma aparência mágica, como se fossem duas bolinhas de vidro brilhante e claro. Até mesmo Maria estava fascinada pela amiga.

Quando ela finalmente silenciou seu canto, colocando o violão encostado à parede da sala, os dois pareciam em transe, olhando-a em silêncio; finalmente, após ela pigarrear um tanto sem jeito, o casal começou a aplaudi-la, e Maria, com lágrimas nos olhos, disse:

-Eu nem sabia que você tocava violão e cantava! Nossa, foi maravilhoso! Você deveria estar em um palco! Não concorda comigo, Pedro?

Ele gaguejou, tentando recuperar sua naturalidade:

-É claro! Aurora, você toca e canta bem demais! E consegue passar tanta emoção ao que faz... foi... muito bom, lindo mesmo...

Beijando o rosto do seu noivo, Maria acrescentou, enquanto Aurora agradecia com um gesto de cabeça e um sorriso:

-Eu não te disse que ela era absolutamente especial? E este é apenas um de seus dons!

-Hum... nossa, eu gostaria de saber quais são os outros!

Naquele momento, fez-se um silêncio embaraçoso, e Maria percebeu que tinha falado demais; para consertar a situação, sugeriu:

-Por que não vamos todos nadar? Está uma manhã linda e ensolarada lá fora! 

Dizendo isso, enquanto Aurora ia vestir um maiô, o casal ficou sozinho esperando por ela, sentados nos degraus da varanda. A manhã clara, ensolarada  e perfumada pelo jasmineiro plantado por Aurora , que se entrelaçava entre os caibros da varanda, despejando suas folhas e flores pelo telhado, fazia com que a atmosfera  parecesse carregada de magia.  

Logo Aurora juntou-se a eles, e os três foram caminhando pela mata até uma linda cachoeira próxima. O ruído das águas caindo sobre as pedras era refrescante, e a água cristalina brilhava ao toque dos raios do sol. Sentaram-se um uma grande e lisa pedra, e começaram a despir suas roupas, ficando apenas com seus trajes de banho. Pedro reparou que Aurora tinha a pele branca e perfeita, sem manchas. Imediatamente, apaixonou-se pelas suas pernas fortes e e levemente musculosas. Para tentar concentrar-se em alguma outra coisa, perguntou à Aurora:

-Aurora, Maria me disse que você estudou biologia. Por que não procura algum trabalho em sua área? Bem, me desculpe por perguntar...

Ela soltou os cabelos, que caíram como se fossem uma outra cascata negra a competir em beleza com as águas que tinham à sua frente:

-Na verdade, fiz biologia por outros motivos. Acho que não faz mais sentido... eu gosto do que faço! Adoro trabalhar na feira e vender meus produtos. E saber sobre ervas, plantas, animais... em me ajudado bastante, sabe?  Eu amo a natureza, e leio tudo o que me cai nas mãos sobre ela. 

Ele pareceu ainda mais curioso:

- Mas você poderia trabalhar fazendo pesquisas em uma universidade, por exemplo...

Maria interrompeu-o:

-Hei, deixe a minha amiga em paz! Ela faz o que gosta, só isso. Vamos dar um mergulho?

E os três pularam na água, rindo e brincando. O toque gelado fez com que Aurora se sentisse realmente viva, como já não se sentia há algum tempo. Em volta deles, o cenário era idílico: pássaros, árvores, a mata verdejante, a luz do sol, pequenos insetos e borboletas. Aquele seria um dia que ficaria na memória daqueles jovens por toda a vida. 

Quando o sol já se despedia, eles já estavam de volta à casa de Aurora, e saboreavam uma deliciosa macarronada preparada por ela. O apetite dos três era como o de lobos, pois tinham passado o dia todo na cachoeira, nadando, conversando e alimentando-se apenas das amoras silvestres que Aurora colhera por ali. 

Quando se despediram, já ao cair da noite, Pedro perguntou à Aurora, já na porta de casa, se ela não tinha medo de ficar sozinha naquele lugar tão ermo, e ela respondeu:

-Não! Adoro este lugar, amo esta casa, e dou graças todos os dias por ter podido comprá-la. A natureza sempre é uma ótima companhia. Melhor do que algumas pessoas que conheci... 

Ele notou uma sombra passando pelo rosto dela, mas seguindo as instruções que Maria lhe dera, não perguntou mais nada. Mas quando já caminhava de mãos dadas com a noiva em direção ao carro, antes de entrar, ele ainda olhou para trás, e gravou a imagem dela de pé no meio da varanda semi-escurecida e salpicada de vaga-lumes. 

Depois que eles se foram, Aurora sentiu uma súbita brisa fria envolvê-la rapidamente, e as folhas do jasmineiro tremeram à sua passagem. Sabia muito bem que Pedro sentira-se atraído por ela, e tinha muito medo do que ele poderia pensar. Não queria ferir sua amiga. Não o faria. Talvez fosse melhor, ela pensou, evitar encontrá-lo daquele dia em diante, e ela faria todo o possível para que fosse assim. 








sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte III




João sentia ainda muitas saudades de Rúbia, a quem não via há dois anos. Lembrou-se de seu aniversário, e sentado à mesa luxuosa de seu escritório, recordou-se de como o tinham comemorado pela última vez:

Era noite de sexta feira. A lua estava brilhante, e o campo de golfe, quase claro como o dia. Após escutarem música e conversarem sobre alguns problemas que João tinha em seu relacionamento com o pai - Rúbia sempre era boa ouvinte e conselheira - ele pediu-lhe que esperasse e foi até o carro, de cuja mala tirou um bolo de aniversário e uma garrafa de refrigerantes. Nunca se esqueceu da alegria e da surpresa estampadas no rosto dela. Comeram bolo e antaram o tradicional Parabéns a Você, o que arrancou algumas lágrimas de sua amiga, e ao final, fizeram uma guerra com o que restara do bolo. 

Veio-lhe a sensação que ele teve ao vê-la coberta pelo glacé rosado: lamber cada centímetro da sua pele. Mas naquela época, ele soube conter-se, pois não queria estragar a amizade com ela.

João olhou para fora, e viu lá embaixo o asfalto brilhante pela chuva que caía, tornando tudo cinzento e triste. Carros e buzinas, pessoas apressadas, horas marcadas (tinha cinco minutos antes da próxima reunião). Naquilo é que transformara-se a sua vida. Sabia que, na sala ao lado, seu pai estava feliz e satisfeito, pois teria quem levasse os negócios da família adiante. Mas João sentia-se vazio e triste. Sua vida não tinha sabor desde que Rúbia se fora. Conhecera várias mulheres depois dela, mas todas elas vazias debaixo da capa de beleza e sofisticação. Mulheres que seu pai dizia serem perfeitas para ele - aliás, qualquer uma que fosse sorridente, loira, bela, magra, "de boa família" e superficial, cumpriria o papel ideal para ser sua esposa aos olhos do pai. Aos trinta e dois anos, João ainda não encontrara a mulher de sua vida. Ou melhor, encontrara-na, mas por medo e preconceito, deixara-a ir embora.

Sua mãe notava-lhe a tristeza, e sabia que João lamentava a perda de Rúbia. Mas ela mesma, apesar de ver a infelicidade do filho, sabia que jamais seria possível colocar Rúbia no contexto de suas vidas - ainda mais depois de tudo o que acontecera, e que quase arruinara a carreira do filho. Se não fosse pela firma de advocacia da família, a influente família Medeiros - cujo filho João colocara na cadeia - faria com que João não encontrasse trabalho em lugar algum daquela cidade ou daquele estado.

Ali, a chuva caía em gotas cinzas e frias. Mas há muitos quilômetros de distância, na casa do caminho de pedras, o sol brilhava sobre tudo. Com certa melancolia, Aurora comia uma fatia de bolo preparado por ela mesma, junto a uma pequena vela acesa, quando alguém bateu palmas lá fora. Ela olhou pela cortina fechada, entre as aberturas dos bordados, e viu-a lá novamente, de pé, esticando o pescoço para a casa: Maria. Achou melhor fingir que não tinha ninguém por lá. Não queria amizades. maria fazia de tudo para ser sua amiga. Mas amigos, cedo ou trade, começam a fazer perguntas, e Aurora não gostava de perguntas. 

Gostava de Maria - ela tinha uma barraca junto à sua na feira, e vendia também os seus produtos: brinquedos educativos feitos por seu pai. Era simpática e faladeira (eis o problema...). Já se convidara algumas vezes para tomar um chá na casa do caminho de pedra, mas Aurora fazia-se de desentendida.

Por trás da cortina, Aurora viu quando Maria aproximou-se e começou a bater, chamando-a pelo nome. Aborrecida, decidiu que ficaria quietinha dentro de casa, mas ao virar-se para sair da janela, esbarrou em um vaso de vidro com flores que pertencera à sua mãe, e este caiu com um estrondo, espatifando-se no chão. "Droga!", murmurou. Ficou triste por quebrar um dos poucos objetos que eram lembrança de sua mãe. Lá fora, Maria escutou, e repetiu: "Aurora! Você está aí?"

Aborrecida e muito contrariada, Aurora armou-se de um sorriso amarelado e foi atender Maria na varanda.

-Olá, Maria, como vai?
-Olá! Finalmente! Está tudo bem?
-Sim, eu... estava dormindo um pouco depois do almoço, e derrubei um vaso sem querer...
-Oh, sinto muito. Quer que eu volte outra hora?

Aurora pensou que desejaria que ela não voltasse nunca mais, mas respondeu:

-Não, tudo bem... o que você deseja?

Maria sorriu, estendendo-lhe um pacote:

-Nada de importante... estava trabalhando, quando, movida por um impulso, resolvi comprar-lhe um presente. Não sei bem porque... espero que goste!

Maria insistiu para que ela pegasse o pacote, e caindo em si, Aurora sentou-se na cadeira de balanço com o pacote sobre o colo, começando a abri-lo. Enquanto fazia aquilo, ouviu claramente a voz de sua mãe, a dizer-lhe: "Pode confiar nela, filha. Você precisa de uma amiga. Ela é boa pessoa." Tentou não demonstrar sua emoção, mas as lágrimas caíram quando, ao abrir o pacote, Aurora deparou com um vaso de flores exatamente igual ao que acabara de quebrar! 

Surpresa pelas lágrimas de Aurora, Maria começou a tentar adivinhar-lhes os motivos. Ficou bastante sem graça. Não sabia como agir. Prontamente, Aurora enxugou as lágrimas com as costas da mão, e sorriu-lhe, agradecendo pelo presente.

-Desculpe... obrigada, Maria!

-Não gostou?...

-Eu adorei! É que há muito tempo não ganho um presente. É isso.

Maria sorriu-lhe:

-Que bom! Não vai me convidar para entrar?... Sabe, eu sempre quis ver esta casa por dentro!
-Por que? Não há nada aqui que...
-As pessoas dizem que é assombrada, e por isso a família Soares não conseguia vendê-la, até que você chegou. Esteve à venda por muitos anos!

Aurora sorriu:

-Ora, talvez por isso a tenham vendido tão barato. E isso explica o péssimo estado de conservação. Mas vamos entrar. Não repare, não pude reformar muita coisa ainda...

As duas entraram na casa, e Maria logo olhou a fatia de bolo com a vela acesa ao lado.

-E seu aniversário?

Aurora, censurando-se por esquecer-se de apagar a vela e esconder o bolo antes que entrassem, tentou consertar a situação:

-Não!

-Mas... o bolo e a vela.. são para quem?

De repente, um pensamento veio-lhe a cabeça; um pensamento que a fez rir de alegria, e sentir-se mais tranquila. Mentiu:

-São para minha mãe. Seria o aniversário dela. 

Apontando para o chão, ela mostrou o vaso quebrado, que era igual ao que Maria trouxera:

-Veja; acabei de quebrar este vaso, que foi um presente dela, e que é igualzinho ao que você me trouxe!

Maria abaixou-se junto aos cacos, pegando alguns deles.

-Mas isto é incrível, Aurora! Sabe, não pode ser apenas coincidência, afinal, eu senti vontade de comprar este vaso e dá-lo a você, assim, de repente... sua mãe pode estar lhe mandando uma mensagem.

Aurora sorriu:

-É, eu sei. Éramos muito unidas. E eu já entendi a mensagem. Vamos tomar um café?

-Prefiro um de seus chás mágicos.

Aurora estancou, a caminho da cozinha:

-Chás mágicos? Por que disse isso?

Maria ficou vermelha, e muito sem graça.

-Não sei... simplesmente me veio à cabeça. Coisas engraçadas me acontecem quando estamos juntas. Como quando a vi pela primeira vez, há quase dois anos... uma voz, sei la´, um pensamento talvez, alguém ou alguma coisa me dizia que eu deveria tentar ser sua amiga. Mas você não é lá muito receptiva. 

-E, eu sei. Me desculpe.

Aurora começou a caminhar novamente para a cozinha, mas Maria segurou-a pelo braço:

-Aurora, gosto de você. Não estou aqui para fazer-lhe perguntas ou vasculhar sua vida. Estou aqui porque sei que você precisa de mim, precisa de uma amiga. Sei que vive aqui sozinha, e que não vê muita gente, a não ser as pessoas que vem consultá-la nas cartas... ou seus clientes na feira. Saiba que estou aqui sem qualquer interesse pessoal.

Aurora murmurou:

-Obrigada, Maria, eu sei.

As duas caminharam até  a cozinha, e Maria sentou-se à mesa enquanto Aurora preparava o chá e colocava as xícaras, colheres e pires sobre a mesa. 

-Amei sua casa, Aurora! É linda, e tudo tão carinhosamente enfeitado! Você tem mesmo mãos de fada!

-Herdei este dom de minha mãe (Pensou que herdara também muitos outros dons, mas ficou em silêncio sobre eles).

-Mas me diga: como começou essa coisa de ler cartas  fazer previsões?

Aurora ficou algum tempo em silêncio antes de responder, e Maria achou-se atrevida demais por ter perguntado. Desculpou-se:

-Sinto muito, mas você sabe que não acontece muita coisa em Vinhedo, e você tem sido o assunto da cidade desde que chegou. 

Aquela declaração assustou Aurora. Tudo o que ela não queria, é ser notícia ou chamar a atenção. Mentiu novamente:

-Ora... ler o futuro, ou ler as cartas, é usar muita psicologia, e dizer o que as pessoas querem ouvir baseada naquilo que elas mesmas me contam espontaneamente. 

-Então você é uma farsante?

-E quem não é?

Ambas deram uma risada amigável, que quebrou o gelo entre elas.

-Bem, agora acho que não mais terei clientes, não é, Maria?

-Fique tranquila, não contarei a ninguém... em troca de uma fatia desse bolo maravilhoso que você estava comendo!

E as duas passaram a tarde conversando sobre receitas de bolo, pessoas da cidade e amenidades. Maria fazia de tudo para não mais fazer perguntas indiscretas, pois notou que a sua nova amiga não gostava de ser questionada. Deixou que ela revelasse sobre si mesma apenas o que desejava revelar - e não era muita coisa - e apenas ouviu, sem fazer perguntas. Aurora mostrou-lhe alguns novos trabalhos que tinha começado, e o restante da casa. Após quase duas horas que passaram como o vento, Maria despediu-se, pois não queria chegar muito tarde em casa. Ficaram de se encontrar novamente na feira, no dia seguinte - sábado.


(continua...)







quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte II




Sentada à varanda de sua casa, Aurora lembrava-se de fatos do passado. Principalmente, lembrava-se da vida feliz que tivera com a mãe. As lembranças afloravam, vivas e límpidas, e era como se ela pudesse de repente estender a mão e tocá-las: 

Era de manhã bem cedo. Rúbia e sua mãe Marta tomavam café da manhã, antes que ela saísse para a escola. Naquela época, Rúbia tinha apenas doze anos de idade. Admirava muito sua mãe; admirava-lhe a beleza forte e quase agressiva, o porte esguio, a voz poderosa, o olhar prescrutador. Sabia que sua mãe a lia por dentro, e que jamais seria capaz de esconder qualquer coisa dela. 

Ninguém, aliás, o conseguia: Marta era considerada uma bruxa, e ganhava a vida dando consultas paranormais. Se ela adivinhava realmente o futuro ou se tinha uma capacidade muito grande de manipular pessoas, ninguém sabia ao certo; mas suas previsões concretizavam-se noventa e nove por cento das vezes. Rúbia nunca conhecera o pai, embora mãe não evitasse falar no assunto. sabia que seu pai nada significara para sua mãe; tinha sido apenas o portador do esperma com o qual a concebera, aos quinze anos de idade, por livre e espontânea vontade. Rúbia sabia que tinha sido fruto de uma gravidez desejada, pois Marta, através de um sonho, ficou sabendo que logo perderia seus pais e ficaria sozinha no mundo. Teve a filha porque quis, para fazer-lhe companhia e ter alguém para amar. Sempre dizia  que ela era mulher e homem o suficiente para que ambas sobrevivessem sem o seu reprodutor, e era verdade, pois nunca faltara-lhe nada e a figura paterna, na verdade, não lhe fazia falta. Às vezes, ela via os pais de suas amigas na escola. Ao invés de sentir inveja, não sentia nada. Achava que tinha sorte por ter a mãe mais bonita, mais jovem (Marta a tivera aos dezesseis anos) e mais poderosa do mundo.

Aprendeu a conviver com os muitos namorados da mãe, que entravam à noite e às vezes saiam da sua ampla e confortável casa de manhã cedo, furtivamente. Nunca ficavam para o café, e nunca eram mencionados. Não passavam de "amigos" que iam e vinham muitas vezes. Mais tarde, Rúbia descobriria que alguns deles eram pais de suas amigas. 

Mas sabia que ela e a mãe seriam sempre assim: ela e a mãe. Ninguém se intrometeria em suas vidas. Ela não teria um homem para fiscalizar a hora em que chegava em casa, quem eram seus namorados, seus amigos, e quais eram os lugares que frequentava (sempre ouvia suas colegas reclamando dos pais por causa daquelas coisas). 

E apesar de ser criada com muita liberdade, Rúbia jamais fora ensinada a não ter limites; sua mãe os impunha, e ela os respeitava. Uma das regras: jamais tocar em drogas. E sempre dizer onde estava. 

 Naquele dia, à mesa do café, Rúbia tomara uma decisão e decidira comunicá-la à sua mãe obtendo-lhe a aprovação: disse-lhe que só se entregaria a quem realmente amasse. A mãe riu de sua decisão, dizendo que sexo era apenas sexo, nada mais, mas jamais a contestou depois daquilo. Aceitou o lado romântico e quase puritano da filha, e no fundo, arrependia-se por não ter feito o mesmo há muitos anos... perdera o grande amor de sua vida devido o que ele chamara, naqueles tempos, de "sua promiscuidade." Mas ela pensava: "Se os homens podem divertir-se por aí, por que não as mulheres?  Não estou prejudicando ninguém!" E levava seu lema à sério, o que lhe rendia poucas amigas do sexo feminino... as outras mulheres a temiam e invejavam. 

Mas todas elas batiam à sua porta repetidamente, atrás de suas previsões e poderosos chás de ervas que serviam a vários propósitos, embora aquelas consultas fossem mantidas sempre em sigilo: todas sabiam sobre Marta, e todas a consultavam, mas o assunto ficava submetido às conversas muito íntimas em banheiros públicos femininos. Na sociedade, Marta simplesmente não era mencionada, pois não existia. 

Certa vez, uma mulher chorosa e desesperada consultou-a, pois desconfiava que o marido tinha uma amante. Da greta da porta, Rúbia ouvia todas as consultas sem ser vista, embora a mãe soubesse muito bem de seu esconderijo. Rúbia notou que sua mãe tornou-se um tanto sem-jeito ao descrever a tal amante do marido de sua consulente, pois vira a si mesma nas cartas... abrindo uma greta da porta para ver melhor o rosto da mulher, Rúbia precisou tapar a boca para conter uma gargalhada: era a mãe de uma de suas amigas, cujo pai já vira entrar e sair daquela casa algumas vezes... a amante da qual ela desconfiava era Marta, sua própria mãe! A pobre mulher, de desesperada que estava, nem percebeu.

Quando a mulher saiu, enxugando as lágrimas e levando na bolsa os chás e as instruções para espantar sua rival, Rúbia entrou na sala. A mãe olhou para ela, dizendo:

-Os homens são tolos, e não sabem manter segredos.

-Mas... mãe, esta é...

A mãe olhou para ela muito séria, e levando o dedo indicador aos lábios, sinalizou-lhe uma ordem de silêncio. Nunca discutia com ninguém os casos de suas clientes. O fato é que Rúbia nunca mais viu aquele homem adentrar sua casa, e dias depois, deparou com o casal feliz em uma confeitaria.

Muitas vezes, Rúbia questionava consigo mesma as atitudes da mãe; afinal, elas iam contra tudo o que ensinavam-lhe na escola sobre moral, retidão, bons costumes. Mesmo assim, ela a amava acima de todas as coisas, e as duas jamais brigavam, pois Rúbia decidira que a moral e os bons costumes poderiam ser conceitos perfeitamente flexíveis. Sua mãe nunca prejudicava ninguém - pelo contrário, ajudava a todos que a procuravam com seus chás, panaceias e consultas. Na outra cidade onde moraram, Rúbia já a vira curar muitas doenças de pessoas desenganadas por médicos, embora ela jamais aconselhasse a ninguém deixar de fazer os tratamentos. 

Certa vez, um homem chegou em sua casa com um enorme tumor do lado esquerdo do rosto. Os médicos diziam que era inoperável. Deram-lhe um triste prognóstico, e o pobre homem, ao saber sobre Marta, decidiu recorrer a ela como sua última chance de cura. Marta não gostava de trabalhar com curas. Tinha pavor de tornar-se alguma espécie de guru, e de atrair peregrinações novamente à sua casa (tinham vindo de uma outra cidade, pois tornara-se insuportável morar lá devido às longas filas de pessoas que viam nela alguma espécie de santa milagreira e faziam fila à porta de sua casa implorando que Marta as curasse). Exigiu-lhe que mantivesse segredo sobre o tratamento, ou não o ajudaria. Também prometeu-lhe que só poderia curá-lo se ele mantivesse segredo para o resto de sua vida, sob a pena de, se revelá-lo, ter de volta a doença. Ele concordou.

Marta cuidou dele, que mudou-se para sua casa. Aplicou-lhe ervas e unguentos, fez com que tomasse chás várias vezes ao dia e alimentou-o apenas de frutas, verduras, legumes e sucos naturais. Ao mesmo tempo, passava muitas horas conversando com ele, e ajudou-o a livrar-se de muitos dos ressentimentos que carregava consigo, aconselhando-o, após certa melhora, a procurar seus desafetos, perdoar-lhes e pedir-lhes perdão. Meses após o tratamento, o tumor diminuíra consideravelmente de tamanho, e o homem (para espanto dos médicos) pode ser operado e obteve a cura. 

A mãe ensinava-lhe tudo o que sabia, e Rúbia também viu brotarem seus dons mediúnicos. As plantas pareciam falar com ela, revelando-lhe segredos sobre suas propriedades, e ela aprendeu a usá-las rapidamente. Às vezes, tinha visões de pessoas falecidas que falavam-lhe, pedindo-lhe que transmitisse recados aos vivos. Nem sempre o fazia, pois tinha muito medo daquelas coisas, e sabia que apesar de serem procuradas justamente por causa de seus dons mediúnicos, algumas das mesmas pessoas que por vezes se utilizaram deles as criticavam em público.

Aquelas memórias trouxeram outras que Aurora não desejava. Levantou-se, e foi cuidar das suas plantações. Enquanto o fazia, recordou-se que era seu aniversário. Fazia 29 anos de idade. Mas não; era o aniversário de Rúbia, uma pessoa que morrera há dois anos. Aurora fazia aniversário no mês de maio, como diziam seus novos documentos, e tinha 27 anos.

(continua...)


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Casa do Caminho de Pedras - Parte I




Caminhemos por esta floresta, até chegarmos a uma clareira ampla, onde há uma casinha de madeira um pouco caidinha, mas muito bem cuidada. Na varanda, pendem do teto alguns feixes de ervas que lá foram colocadas para secar. Ao lado da porta, um tacho cheio de frutas: amoras, bananas, limões, goiabas, morangos silvestres, tangerinas, abacates, figos e outras frutas que são facilmente encontradas nas árvores que abundam por ali sem que ninguém as tenha plantado. Com elas, ela faz geleias e compotas que de tão deliciosas, são disputadas na cidadezinha de Vinhedo, onde tudo é vendido. Quando não há frutas disponíveis nas árvores, as pessoas trazem as suas próprias frutas para que ela prepare as compotas e doces.

Olhemos para a lateral direita da casa, e veremos uma pequena horta onde estão plantadas algumas verduras e tomates. Parte é vendida em uma barraca na feira, aos sábados, e o que sobra, é consumido pela própria moradora. 

Nos fundos, há um galinheiro. Os ovos vem dali. As galinhas, patos e marrecos podem ficar tranquilos, pois não virarão jantar - pelo menos, enquanto morarem por ali. Porque os filhotes também são vendidos na feira. Há também um pequeno curral, bem rústico, construído pelas mãos da proprietária daquela casa, onde descansa, mastigando seu capinzinho, a Betânia. Dali vem o leite que é usado para produzir manteiga e queijo. Não é muito, mas serve para o próprio consumo. Quando sobra alguma coisa, também é vendido na feira. Perto dela, o Zezé - um cavalo já velho - espera o momento em que seus serviços serão necessários  para transportar os poucos produtos até a feira.

A eletricidade provinha de um gerador que às vezes dava defeito, e era consertado de graça por seu Manoel mecânico, em troca de alguns produtos. Ela tomava seus banhos no meio da cozinha, em uma tina de água quente que era aquecida no forno à lenha. Não havia chuveiro ou banheira no pequeno banheiro. 

O piso da casa era todo de madeira, que era mantida sempre limpa e encerada. Em alguns pontos estratégicos, havia tapetes de malha trançada, muito coloridos, feitos pelas mãos dela. As pequenas janelas envidraçadas, que abriam para dentro da casa, tinham sido pintadas em pátina branca e azul bem clarinho, por ela mesma. Confeccionara cortinas brancas e curtas, de algodão, em cujas barras ela bordara, em linhas pálidas, pequenas rosas em vermelho , lilás e amarelo, entremeadas de folhas em verde bem pálido. As paredes eram amarelas, muito clarinhas, e havia desenhos de flores coloridas em volta dos portais - que é claro, ela mesma pintara. 

Na parede do corredor, um único quadro com o retrato de sua falecida mãe.

Na sala principal da casa de 4X4, havia uma mesa de madeira antiga, meio-quebradinha e gasta, que ela tinha patinado em branco, e duas cadeiras que ela achara no lixo e reformara, forrando os assentos com tecidos de florzinhas miúdas e patinando-as de branco. Em um dos cantos, um sofá de dois lugares em veludo vermelho, um pouco desbotado, que ganhara de uma de suas clientes. Era antigo, e dava um ar de nobreza decadente ao ambiente. Em frente ao sofá, uma estante antiga (também presente de um de seus clientes) que continha alguns livros já gastos de tão lidos.  Do lado de fora das janelas, sobre os largos peitoris, ela tinha colocado vasinhos de barro pintados de várias cores, onde plantara temperos e flores miúdas.

Na cozinha, imperava o fogão à lenha, uma pequena mesa tosca de madeira, escurecida aqui e ali pelo calor das panelas e a calda derramada das compotas, dois banquinhos redondos que pintara de vermelho-vivo e um armário que continha suas poucas louças - a maioria, doações de suas clientes. Sobre o fogão, seu enorme bule de ágata, também achado em uma lixeira, e cuidadosamente limpo e desamassado por ela. Refizera o cabo com um pedaço de madeira que esculpiu à canivete. Ela era muito habilidosa. Em um canto perto da pia, algumas caixas de madeira empilhadas onde ela colocava vidros de maionese ou café, reciclados por ela, que ela pintaria à mão e que conteriam suas compotas.

Também vendia na feira toalhinhas bordadas, paninhos de croché e tricô e alguns quadrinhos pequeninos, com motivos de paisagens, tão bem pintados, que também eram disputadíssimos pelos seus clientes. E assim ela vivia, e ganhava a vida.

No único quarto, havia uma cama de casal (doada por uma cliente ao ver que ela dormia em um velho colchão, no chão) para a qual ela confeccionara uma linda colcha de fuxicos coloridos. Ao lado da cama, sobre uma mesinha pintada de cor-de-rosa pálido, um pequeno luxo: um candelabro de prata para uma vela grossa, que comprara na cidade. Custara-lhe muito dinheiro, mas desde que pusera os olhos nele, pensou no quanto seria bom possuí-lo. Poderia ler à noite, economizando o combustível do gerador. É claro que ela poderia acender sua vela em um prato velho, mas possuir o candelabro tornara-se um sonho de consumo que ela conseguiu realizar economizando por seis semanas. 

Vestia-se com as roupas que ela mesma costurava, ou com roupas que suas clientes lhe traziam e que ela reformava, retingia, recortava e personalizava. Ninguém poderia dizer que se vestia mal, mesmo que não seguisse a moda. Seus vestidos eram simples, mas belíssimos, sempre de cores claras, imaculadamente limpos e bordados por suas mãos de fada. Gostava muito de usar botas, não apenas pela conveniência (havia muita lama e terra por ali) mas também porque elas mantinham seus pés e pernas aquecidos, já que não tinha muitas calças compridas por não gostar delas.

Vivia em paz naquele lugar aonde chegara há apenas dois anos, vinda de uma outra cidade que ficava bem longe dali, e onde deixara a vida de sua mãe e uma história de muita tristeza e incompreensão.

Aquela paz conquistada não tinha sido de graça. Aquele pequeno mundo que ela criara viera de um outro mundo bem mais conturbado, do qual ela precisara fugir para sempre. Chegar até aquele remanso tinha custado muito caro... usara todas as suas economias para comprar aquele pedacinho de terra com a casinha de madeira, no meio do nada. Para conseguir meio de transporte até a cidade, era preciso caminhar entre a floresta por quase meia hora, e ela dava graças por não precisar fazê-lo todos os dias. Quando o tempo estava seco, era fácil; mas se chovia, a lama chegava aos tornozelos. Por isso, ela começou a catar pedras lisas e formar um caminho até a estrada, aonde estava o ponto de ônibus. Precisaria de muitas! Algumas pessoas, ao encontrar alguma pedra que achariam que poderia servir, levavam-na até o caminho e a colocavam lá. Assim, aos poucos, a estradinha até a porta de sua casa ia sendo feita. E sua casa ficou sendo conhecida como A Casa do caminho de Pedras.

Mas quem era a moça que vivia ali? Vamos olhar um pouco para ela, agora que compreendemos seu estilo de vida:

Não era muito alta, e um pouco magrela, devido ao grande gasto calórico que seu trabalho e estilo de vida a submetiam. Tinha cabelos muito negros e lisos, que quando soltos, alcançavam sua cintura, mas por conveniência, mantinha-os quase sempre presos em um coque na nuca. Suas mãos eram lindas: dedos finos e longos, terminando em unhas ovais rosadas, com meias-luas muito brancas, apesar de trabalhar na terra constantemente. Para mantê-las assim, sempre limpas e macias, sempre usava luvas para mexer na terra, e após o trabalho,  limpava-as todas as noites com sumo de limão e uma escova macia. Seu rosto não era realmente bonito - o nariz era um pouco afilado demais, e as sobrancelhas um pouco grossas e muito escuras que ela nunca tirava, davam-lhe um ar meio-desproporcional ao rosto fino e levemente bronzeado. Tinha um ar meio-selvagem/contido, devido ao contraste entre os olhos verde-escuros e o comportado coque, que emprestava-lhe uma aparência respeitável. Os lábios eram finos e delicados, e os dentes eram brancos mas um pouco tortos . 

Seu nome? Poderia ser qualquer nome. Mas ela escolhera para viver naquela cidade, Vinhedo, um que achava que combinaria com as vinhas que ela vira de dentro do ônibus de manhã cedinho, aquele ônibus que tomara à noite, por acaso, em seu momento de desespero na estação da outra cidade onde vivera; ela vislumbrara vinhas que se perdiam de vista na imensidão daquelas terras: Imediatamente, achou que ninguém a reconheceria por ali, ou suporia procurá-la naquele lugar pequeno e inusitado, há milhares de quilômetros de distância de onde ela vinha. Escolhera por nome Aurora. Porque os céus rosados com voos de pássaros encimavam as plantações e o movimento lento dos primeiros trabalhadores. Porque a névoa da manhã ainda se dissipava ao calor dos primeiros raios do sol. Seria Aurora, deixando para trás a negra vida de Rúbia. Deixaria para trás a noite de sangue e ruína, os gritos acusadores, as lágrimas e as dores causadas pela mentira, a calúnia e a incompreensão daquelas pessoas. Deixaria para trás a vida que tivera com sua mãe - por quem ainda chorava e de quem sentia muita falta, mas que deveria ficar no passado, junto com as outras pessoas e acontecimentos. Isto, se ela quisesse realmente seguir em frente e reconstruir a sua vida.

Assim, pediu ao motorista que a deixasse ali, no meio daquela estrada. Ele ainda perguntou se ela tinha certeza; afinal, não havia nada por ali. Não havia casas, apenas as vinhas em ambos os lados da estrada, e os raios de sol que chegavam, dissipando a neblina. Ela assentiu com a cabeça. Inventou uma história sobre uma tia que morava ali perto e que a estava aguardando. E depois, ficou olhando o ônibus partir, carregando sua única valise, até que ele sumiu lá na frente, na primeira curva daquela estrada tão reta. 

Apertou o casaco contra o corpo para proteger-se do frio. Suspirando fundo, começou a caminhar lentamente, sem saber para onde ir. Carregava em sua pequena valise algumas poucas mudas de roupas e um saco de pano com o dinheiro que João, seu único amigo e advogado, conseguira pela venda da casa, do carro e de seus demais bens. Sentiu-se triste ao lembrar-se de que nunca mais o veria, ele, o único que permanecera ao seu lado depois de tudo o que acontecera. Acolhera-a em sua casa, dando-lhe carinho e abrigo, sem nada pedir em troca. Ignorou as calúnias que circulavam sobre ela e sua mãe. Ajudou-a com a venda do que restara da sua casa, seu carro e um terreno. Insistiu para que ela reconsiderasse sua decisão, e ficasse com ele. Disse que concordaria em mudar-se com ela para qualquer outro lugar, pois ele a amava apaixonadamente (ainda se lembra da surpresa agradável que aquela confissão fora de hora lhe causara. A quentura no coração, de saber-se amada, afinal, por uma única pessoa no mundo todo.  Descobriu que o amava também, e que exatamente por isso, não poderia deixar que sacrificasse sua vida por ela. João era um advogado com uma carreira de sucesso pela frente, que trabalhava em uma grande firma e resolvia casos dificílimos.

 Conheciam-se desde a faculdade, onde ela estudara Ecologia, especializando-se em Botânica. Eram tão diferentes... ele, filho de pais ricos e bem sucedidos, prático, seguro de si; ela, filha de mãe solteira, pai de origem desconhecida, mística e emotiva. mas alguma coisa aproximara os dois, desde o primeiro momento em que começaram a conversar na cantina da faculdade. Uma grande amizade nasceu. 

João a amara desde o primeiro momento, mas sabia que sua família não a aprovaria. Não tinha coragem suficiente para ir contra as normas impostas pelos pais. No fundo, ele mesmo era preconceituoso, e sabia que Rúbia não se encaixaria entre seus amigos. Não havia lugar para ela em sua vida; seria como plantar uma roseira selvagem dentro da sala escura de um apartamento. Assim, amou-a em segredo, embora os dois se encontrassem quase todas as noites de sexta-feira para ir ao cinema, conversar ou simplesmente deitar-se na relva do campo de golfe e olhar as estrelas. E naquelas conversas, ele se apaixonava cada vez mais. E ela também, mas não admitia nem para si mesma; achava-se pouco demais para ele. Evitava aparecer ao seu lado em público, pois sabia que suas roupas simples o envergonhariam diante de seus amigos sofisticados, que nem sequer sabiam de sua amizade.

Uma noite, a paixão aflorou naquele campo de golfe. Talvez tivesse sido pela influência daquela lua cheia azul e  enorme. Quando viram, estavam nos braços um do outro, e ela entregou a João a sua virgindade. E ele a amou calma e cuidadosamente, sabendo que aquilo nunca mais deveria acontecer. E ela deixou-se ser amada, registrando na memória cada momento, sabendo que a vida estava lhe dando um presente que ela deveria devolver dentro em breve. O silêncio que reinou quando eles se separaram (nunca mais tocaram no assunto) registrou e selou a impossibilidade daquele romance. Passaram a se encontrar menos. 

Mas quando tudo aconteceu, ele voltou e ficou ao lado dela. E descobriu que não poderia deixá-la ir embora, sem se importar em contrariar a vontade dos seus pais e atraindo para si a revolta das outras pessoas. Ele defendeu seu caso e colocou na cadeia os assassinos de sua mãe - gente importante e influente. 

Todas aquelas memórias voltaram para ela - agora, chamada Aurora - enquanto ela caminhava devagar, e o sol fazia-se alto no céu. A última memória que teve de João foi do beijo de despedida. Não deixou que a levasse à estação, pois não queria que ele soubesse para onde ela iria. Jogou fora os seus documentos e o celular. 

Rúbia morrera.





quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Minhas Tias - Parte XII - FINAL






Entre os lábios quase fechados, murmurei:

-Vocês acabam de dizer-me que tia Rosana faleceu em um acidente de avião quando voava de Paris para o Brasil... é verdade? Você confirmaram isso? Não há a possibilidade de que a morte dela tenha sido um engano? Porque todo mundo sabe que é muito difícil identificar os corpos após a morte por carbonização...

Meu pai e tia Olga se entreolharam, e foi Nana quem respondeu à minha pergunta:

-Querida, nós temos certeza... foi feita a identificação do corpo através da arcada dentária... e foi encontrado um colar de pequenas esmeraldas junto ao corpo, colar que ela sempre usava. E o corpo não estava totalmente carbonizado. Era possível reconhecer parte das roupas, algumas jóias... e é claro, o DNA. Sua tia Rosana realmente faleceu naquele acidente de avião. Estas identificações são feitas muito cuidadosamente!

Minha cabeça deu um nó cego naquele momento. Levantei-me do sofá, apoiada em meu pai, pois ainda estava um pouco tonta. Já melhor, decidi:

-Sigam-me! Vou mostrar-lhes onde consegui esta manta. Fica a poucos quarteirões daqui. Quem sabe, fui enganada por uma impostora...

Mais uma vez, vi que todos se entreolharam, demonstrando alarme e confusão ao mesmo tempo. Apesar das muitas perguntas, mantive-me calada durante o caminho, e finalmente, chegamos ao portão daquela que eu acreditava ser a casa onde Tia Rosana morava. 

Apontando para a casa, mas sem olhar para ela, eu disse: "Foi aqui que eu e tia Rosana nos encontramos durante as últimas semanas. Nós nos conhecemos quando voltamos de viagem, pai. Naquele dia em que fui levar algumas flores à minha mãe no cemitério. Ela veio caminhando em minha direção... nós nos reconhecemos imediatamente, e ela me trouxe até esta casa..."

Mas quando olhei para dentro do portão, vi apenas uma ruína;  a mesma casa que antes tinha sido belíssima, mas que agora tinha as janelas lacradas por tábuas, e a pintura descascada. O caminho que conduzia à porta, ao invés das flores e do belo jardim, não passava de um matagal confuso. A porta da frente estava encostada. Sem falar com ninguém, e tendo o coração aos pulos, tentando compreender o que acontecia naquele momento e o que acontecera desde o momento em que conhecera tia Rosana, empurrei o portão e entrei. Atrás de mim, meu pai chamou por meu nome várias vezes, mas quando viu que eu não responderia ou voltaria, ele me seguiu, e Nana e tia Olga também.

Entrei na sala, e olhei em volta: apenas uma velha casa vazia. A não ser por um objeto que estava junto à lareira: um cavalete coberto por um pano de cor parda. Caminhei até ele, e lá estava o retrato que minha tia Rosana pintara, onde eu e Diana, minha verdadeira mãe, nos olhávamos à janela daquela mesma casa em algum tempo que ninguém compreendia. A luz difusa da manhã estava sobre nós, dando um ar surreal à cena. Os outros chegaram por trás de mim, e escutei suas exclamações de espanto. Tia Olga estava lívida, e meu pai, branco feito cera, apoiava-se em uma Nana petrificada.

Tia Olga gaguejou:

-Quem... quem pintou este retrato?

Virei-me para eles, dizendo:

-A mesma pessoa que vocês dizem ter morrido naquele acidente: tia Rosana! Ela mesma pintou este retrato durante nossos encontros. 

Meu pai murmurou:

-Não pode ser... isto é impossível!

De repente, algo ocorreu-me:

-Pai... você sabe a quem pertence esta casa?

Ele murmurou:

-Esta casa está fechada há muitos anos... era aqui que eu e sua mãe... digo, sua tia Sarah nos encontrávamos às escondidas. Ela mudou-se para cá a fim de facilitar as coisas para nós. Depois que ficamos juntos, e que tudo aconteceu, nós nos mudamos para a casa onde hoje vivemos, que pertencera à família delas. E esta casa permaneceu trancada, totalmente abandonada... nunca mais conseguimos vir aqui ou fazer qualquer coisa a respeito dela. Ela permaneceu assim durante todos estes anos, trancada, como se guardasse nossos segredos.

Tia Olga deixou escorrer uma lágrima. Nana suspirou. Ninguém tinha uma explicação plausível para o que tinha acontecido. Será que eu tivera uma alucinação?... Mas... e o quadro? Chegando mais perto, tia Olga examinou a pintura:

-Sem dúvida, o estilo é o de Rosana! E a assinatura, inconfundível... foi Rosana quem o pintou! Mas... pode ser que o tenha feito há muitos anos, e que tudo tenha sido simulado!

Nana resolveu a questão. Aproximou-se, cheirando a pintura:

-Não pode ser, pois cheira à tinta fresca. A tela é nova também. Este quadro foi pintado recentemente, e isto é óbvio!

Meu pai assentiu:

-Sim... e eu reconheceria este estilo em qualquer lugar, mesmo sem a assinatura! Será que... ela está viva?!

Enquanto eles discutiam, deixei-me guiar pelo impulso repentino me afastar e de entrar sozinha na cozinha; e foi lá que eu a vi novamente, mas desta vez, como uma aparição transparente. Ela me olhou, enquanto cada fio de pelo de meu corpo arrepiava-se, e sorriu para mim. Ao seu lado, havia uma outra mulher - Diana, minha verdadeira mãe -, que também me sorria, e jogou-me um beijo: imediatamente, eu compreendi (suas palavras vieram à minha cabeça) que ela estivera presa durante muito tempo devido ao seu suicídio, mas que agora estava finalmente livre. Junto a elas, outra forma apareceu: minha outra mãe - na verdade, tia - Sarah. Ela parecia mais jovem, e sua aparência era tão saudável como nunca fora. Ela pediu-me perdão por tudo, e disse que sempre me amou como se eu fosse sua filha verdadeira. Mentalmente, respondi-lhes que eu era uma menina de sorte, pois tinha quatro mães maravilhosas. Então eu me lembrei das mesmas palavras que tia Rosana havia dito quando nos víramos ali pela última vez há apenas algumas horas:

 "A morte não determina o fim da vida, é apenas uma passagem para uma nova verdade. Pode ser que não acredite em mim agora, mas mais tarde, você vai lembrar-se deste momento, e saberá que é verdade. Você vai chorar agora, mas depois voltará a sorrir."

Um ano depois, estávamos em Paris, hospedados em casa de Tia Olga, após o casamento de Nana com papai. Lembrei-me novamente daquela frase, principalmente da última parte: "Você vai voltar a sorrir!", e foi quando, em uma noite em que estávamos todos reunidos - eu, papai, Nana, Tia Olga e meu tio, minha prima Luiza e seu noivo Jean -, em volta da mesa do restaurante de Tia Olga em Paris. Era antevéspera de natal, e todos estávamos comemorando e brindando à família, que reunira-se novamente. Nós ríamos muito, envolvidos pelas bolhas do champanhe que tomávamos, pela atmosfera alegre daquela época, a beleza da cidade e a excelente comida.

De repente, eu escuto, em uma mesa ao lado, uma voz masculina, entre outras tantas vozes que estavam naquele restaurante. Uma voz que tinha algo especial, e que eu escutaria mesmo se estivesse no meio de uma explosão barulhenta de fogos de artifício! Alguém fazia um pedido:

-Camarão com aspargos à moda italiana, por favor.

Olhei para trás, e dei com os olhos dele, o homem da minha vida, que se prenderam aos meus. Ele ergueu sua taça, e eu ergui a minha...


FIM





segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Minhas Tias - Parte XI




Acordei com o rosto preocupado de meu pai debruçando-se sobre mim, e Tia Olga me estendia um copo d'água com açúcar enquanto Nana, alarmada, abanava-me com uma revista. Quando me sentei, garantindo a todos que estava bem, meu pai repetiu a pergunta que havia feito antes de meu desmaio: "Onde você encontrou este pacote, filha?

Encarei-os, com ar desafiador:

-Você sabe muito bem o que ele contém, não é mesmo? Assim como vocês duas também! Ele contém uma linda manta confeccionada pelas mãos da minha verdadeira mãe!

Tia Olga levou a mão à boca, e Nana baixou os olhos. Meu pai, alarmado, deixou escorrer uma lágrima:

-Mas como você soube?
-E vocês pensaram que poderiam esconder a verdade sobre minha verdadeira história a vida toda?

Tia Olga gaguejou:

-Não, querida... nós só queríamos protegê-la desta história... mas... mas quem contou-lhe a verdade?

-Ainda não sei de toda a verdade, e só direi quem me contou o que sei quando vocês me disserem qual é a minha verdadeira história.

Tia Olga e Nana sentaram-se, e depositei o copo com água e açúcar sobre a mesa, após tomar um gole. Elas olharam para meu pai, e ele entendeu que cabia a ele aquela narrativa. Respirando fundo, meu pai cruzou as mãos em frente aos joelhos e começou a sua - a nossa - história. Ouvi tudo, sem interrompê-lo, e tia Olga assentia com a cabeça, enquanto Nana enxugava algumas lágrimas furtivas de vez em quando.

-Bem, Alana... o que eu contei sobre como conheci sua mãe, a história de nosso amor, é verdadeira. Eu falava de Diana, sua verdadeira mãe. Nós nos conhecemos quando eu ainda namorava sua tia Olga, e terminei tudo com Olga para ficar com ela. Nos casamos como você já sabe... mas eu estive dividido o tempo todo entre ela e aquela que a criou, que você acreditou ser a sua verdadeira mãe, na verdade, sua tia Sarah. Eu amava as duas. Não tinha culpa, o sentimento que eu tinha por elas era forte demais e eu não consegui fugir dele, e nem elas. Fiz o possível para ser fiel à Diana, mas Sarah não desistiu de mim, e não me deixou desistir dela. Como você, ela acreditava que não se desistia de um amor verdadeiro, e que deveríamos lutar por ele até o final, doesse a quem doesse. Este pensamento parece ser partilhado por todas as mulheres da família...

Tia Olga enrubesceu, ao dizer:

-É... dividimos não só este pensamento, como também você, meu caro Rodrigo...

Meu pai olhou-a com carinho. O tempo todo, eu notava os olhares apaixonados de nana. Apaixonados e desesperançosos, de uma mulher que aguardou pelo impossível a vida toda, sem qualquer esperança. 

Meu pai continuou sua história:

-Bem, neste entremeio, dividido do jeito que eu estava, ainda chegou-me sua bela Tia Rosana... conheci-a quando já estava casado com sua mãe, pois ela estivera estudando artes em paris, e apaixonamo-nos de imediato. Vivemos um romance tórrido e breve. Foi quando sua mãe descobriu toda a verdade sobre nós.

-Tia Diana... digo, minha mãe descobriu seu relacionamento com todas as outras irmãs?

-Não; no início, ela ficou sabendo de Rosana, mas depois que desmanchamos e ela voltou à Paris, ainda mantive o relacionamento com aquela a quem eu verdadeiramente amava: Sarah. Mas nós fazíamos tudo com muito cuidado, pois não queríamos magoar Diana. Até que um dia, não resistimos mais nos encontrar às escondidas como dois criminosos, e nós dois chamamos Diana para uma conversa e confessamos tudo. Naquele momento, que foi um dos mais difíceis de minha vida, eu estava cheio de arrependimento e culpa... mas se quiséssemos ser honestos com todos, era preciso confessar a verdade!

Só não contávamos com o que Diana tinha a nos dizer: ela estava grávida. De você. Foi um momento desesperador! Mas Sarah foi muito firme, e as duas tiveram uma enorme briga...Sarah disse que não desistiria de mim, e fiquei ao lado dela. Achávamos que um bebê não deveria ser empecilho à nossa felicidade. 

Mudamo-nos para nossa própria casa, e a gravidez de Diana foi adiante. Acompanhei-a em tudo, nunca deixei que faltasse nada a ela... ela recusava-se a ver-me. mesmo assim, eu sempre escrevia-lhe cartas, pensando que um dia pudéssemos ser amigos e que ela me perdoaria... triste ilusão de juventude... Como alguém poderia perdoar o que nós tínhamos feito? Eu a traíra com suas irmãs! Com todas elas...

Naquele momento, meu pai parou. As lembranças e a culpa do que tinha feito ainda queimavam-lhe a alma. Senti muita pena dele. Afinal, a vida pode dar voltas inesperadas, e levar-nos a caminhos estreitos e decisões difíceis. Ele continuou:

-Bem... quando você nasceu, ela impediu-me de visitá-la no hospital. Plantou seguranças à porta para que eu não entrasse. Acho que ela enlouqueceu, pois era vista andando descalça na rua. Tentei ficar com sua guarda, arranjando um bom advogado - e logo consegui, pois aleguei a insanidade da mãe. E eu estava certo, pois logo depois, ela precisou ser internada em uma clínica, e sua tia Rosana levou-a a Paris para cuidar melhor dela. Ela parecia estar melhorando, mas um dia, o inesperado aconteceu: quando estava de viagem marcada de volta ao Brasil, juntamente com sua tia Rosana para ver você, Diana matou-se. Deixou uma carta à irmã e esta manta, pedindo que a entregasse a você - mas algo ainda mais terrível aconteceu...

O impacto daquela história chocou-me profundamente. Comecei a chorar de pena de minha verdadeira mãe... agora eu finalmente entendia o porquê da depressão profunda daquela que acreditei ser minha mãe! O sentimento de culpa, o pânico, o pavor de carregar sempre uma história com um final medonho como aquele: o suicídio da própria irmã, cujo amor ela roubara! Meu pai olhou-me tristemente. Nana e tia Olga choravam. Ele continuou:

-Depois de tudo, resolvemos que seria adequado criar você como se fosse filha legítima de Sarah. 

-Então foi por isso que ela não saía de casa... vergonha!

-Exatamente... embora as pessoas não soubessem de toda a verdade. Todos acreditam que  Diana morreu no mesmo acidente de avião que matou sua tia Rosana... fizemos tudo para que a história fosse abafada, e conseguimos.

Algo estava errado... minha mente dava saltos... devagarinho, percebi o que estava errado, o que não se encaixava naquela história toda: meu pai acabara de dizer que Tia Rosana - aquela, que pintou meu retrato e entregou-me a manta que minha mãe confeccionara para mim, tinha morrido em um acidente de avião há anos! Como em um filme de terror, ainda ouvi tia Olga perguntar-me:

-Agora, querida, conte-nos como você conseguiu esta manta, já que quando sua tia Rosana a enviou para o Brasil antes de embarcar em sua última viagem, nós a recebemos e escondemos em um cofre de banco sem que Sarah soubesse.

(continua...)






quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Minhas Tias - Parte X





A notícia da viagem antecipada de Tia Olga causou uma mudança nos planos de tia Rosana. Ao saber da viagem, ela permaneceu calada por algum tempo, como se estivesse determinando o que fazer. Após pensar, andando de um lado ao outro de sua sala, iluminada pelos raios fracos do sol da manhã, ela anunciou:

-Alana, será preciso antecipar meus planos, ou eles terão que ser adiados indefinidamente, e eu não tenho mais tempo.

Fiquei feliz. Finalmente, eu ia saber de toda a verdade! Perguntei-lhe:

-Você vai me contar tudo agora, tia Rosana?

-Vou mostrar uma coisa a você, Alana.

Pensei que ela fosse finalmente mostrar-me o retrato que pintara de mim e minha mãe, mas ao invés disso, ela desapareceu pelo corredor e voltou trazendo uma caixa pequena. Sentou-se no sofá e convidando-me para sentar ao lado dela, abriu-a. Havia fotos e alguns documentos na caixa. Notei que algumas delas eram iguais as que eu tinha em casa, no antigo álbum de família que costumava olhar quando criança, e outras eram diferentes. Ela remexia as fotografias, até que encontrou um pequeno rolo de papel amarelado, que me entregou. Abri-o; era uma certidão de nascimento. Comecei a ler, e vi que se tratava da minha certidão de nascimento, mas o nome de minha mãe era diferente do que constava na certidão que eu tinha em casa! Naquele papel, o nome de minha mãe não era Sarah; era Diana!

Senti meu coração bater em minha garganta. Como poderia ser verdade? Minha mãe era Sarah, pelo menos, foi a mãe que eu conheci! Diana era minha tia, a que eu nunca vira! Olhei para tia Rosana. Achei-lhe muito pálida naquele momento. Corri para o retrato que ela pintara, descobrindo-o, e lá estávamos eu e a estranha que ela dizia ser minha mãe, ambas pintadas de frente uma para a outra à janela daquela casa, a luz diáfana da manhã iluminando nossos perfis. No rosto de Diana - aquela que tia Rosana dizia ser a minha mãe - li uma angústia indizível... Realmente, constatei, minha tia era excelente pintora, e conseguiu captar um omento que ainda não acontecera- e seria quando eu e minha verdadeira mãe estivéssemos frente a frente pela primeira vez.

Tia Rosana deixou que eu absorvesse os últimos acontecimentos, enquanto servia-me uma xícara de chá em silêncio. Tomei um pequeno gole da bebida esverdeada e límpida que ela me oferecera, e um sabor refrescante desceu pela minha garganta. Imediatamente, senti-me melhor, como se a dureza da angústia que petrificara-se em meu peito começasse a dissolver-se de repente. E foi então que as perguntas começaram a surgir, uma a uma, dançando em volta de minha cabeça. Entre elas, uma destacou-se:

-Então... minha verdadeira mãe está viva?!

Tia Rosana pareceu imensamente triste e cansada. Como em um sonho, vi quando ela lentamente negou com um gesto de cabeça. Depois, segurando minha mão entre suas mãos brancas e frias, ela disse:

-Não da maneira como você gostaria, querida sobrinha...

-Não entendo...

-Sua mãe... Diana morreu um mês após você nascer. Mas acredite em mim: ela ainda vive, assim como ainda vivem todos aqueles que se foram antes. A morte não determina o fim da vida, é apenas uma passagem para uma nova verdade. Pode ser que não acredite em mim agora, mas mais tarde, você vai lembrar-se deste momento, e saberá que é verdade. Você vai chorar agora, mas depois voltará a sorrir.

Eu não acreditava em nada daquilo. Sempre fora materialista. Meus pais não me ensinaram nada sobre religião, e como estudasse em uma escola laica, nunca tinha parado para pensar naquelas coisas. para mim, a morte era o fecho que trancava alguém longe dos que o amavam para sempre. alguém que deixara de existir, simplesmente. O que eu aprendera, convivendo com Sarah - a mulher que eu acreditara ser minha mãe - é que a vida pode ser muito triste, na maior parte do tempo. Aprendi que os pequenos momentos de alegria, por mais fugidios que fossem, deveriam ser intensamente vividos, pois duravam muito pouco. Aprendi que as pessoas eram cheias de segredos, pois temiam ser julgadas pelas outras. Aprendi que a morte chegava sempre inesperadamente, mas que na verdade, todos a carregávamos no bolso desde o nascimento.

Muitas coisas passavam pela minha cabeça naquele momento. Depositei a xícara sobre a mesinha. Tia Rosana estava de pé perto de mim, e estendeu-me um embrulho:

-Sua mãe deixou isto para você.

Peguei o pacote, e comecei a desembrulhá-lo devagar. Era uma colcha muito colorida, maravilhosamente trabalhada por mãos que só poderiam ser de alguém muito especial. As tramas e cores pareciam ter nascido juntas, de tão perfeitas que eram. Pareciam uma fotografia! Bem no meio, havia um sol, e em volta, uma paisagem que logo reconheci: a casa onde eu morava! Ali estavam o jardim, e o banco sob as roseiras brancas... a fonte... o gramado, as sombras das árvores em vários tons de verde. Ali do outro lado, as frésias. Sempre as frésias...

Estendendo a colcha no chão, segui a trama do desenho com os dedos. Logo ali, quatro meninas brincavam, e reconheci minhas tias e minha mãe. Meu pai estava ao portão, como se chegasse. E eu entendi que quando ele abrisse o portão e entrasse, as vidas daquelas meninas seriam modificadas para sempre, e toda aquela alegria e inocência teriam fim. Eu lia a história daquelas meninas nos desenhos que minha mãe fizera. Nas beiradas da colcha, em azul profundo, a noite chegava em degradé. Uma noite onde a lua, em todas as suas fases, passeava pelas bordas. Olhei para cima, e entre as lágrimas, avistei minha tia me olhando ternamente. Ela ajoelhou-se ao meu lado, passando a mão devagar sobre a colcha. as fibras moveram-se ao seu toque, revelando um fundo com as cores de um arco-íris. Então percebi que havia um desenho sob o desenho principal, e eram as cores de um lindo arco-íris, cobrindo toda a extensão da colcha! Como era possível que alguém tivesse feito algo tão belo?

 Tia Rosana disse:

-Sei que ainda há perguntas a serem respondidas, querida. Mas é dever de seu pai respondê-las. E de Olga, já que ela também fez parte desta trama. Mas quero que saiba que a intenção de ambos foi a melhor possível. Queriam realmente protegê-la desta história dolorida. Como se fosse possível inventar novas verdades e plantá-las pelo jardim da vida como se fossem simples flores... não; a verdade sempre brotará, e prevalecerá sobre as flores plantadas de maneira artificial, sufocando-as. Não importa quanto tempo leve. Agora enxugue suas lágrimas, e vá para casa. Peça ao seu pai e a Olga que terminem esta história. Isso mesmo... e leve esta colcha, guardando-a com carinho. Sua mãe a teceu para você enquanto estava grávida.

Eu carregava a colcha pela rua com medo de que se desmanchasse, abraçada ao pacote. Carregava a minha história. De alguma maneira, eu sentia que tudo estava chegando a uma conclusão, e eu não sabia ainda se deveria estar alegre ou triste. Eu suspeitava que não mais iria rever minha tia Rosana, e de repente lembrei-me de que deixara o retrato lá... quando saí, esqueci-me totalmente dele. Mas algo me dizia para não voltar, e seguir para casa. 

Quando abri a porta da frente, deparei com Tia Olga e papai sentados no sofá da sala, conversando animadamente, enquanto Nana servia-lhes um café. Ambos olharam para mim quando entrei, e vi que seus sorrisos foram morrendo conforme notavam minha expressão e as lágrimas em meu rosto. Percebi que papai engoliu em seco ao ver o pacote que eu carregava, e logo entendi que aquela não era a primeira vez que ele o via. Nana correu em minha direção, preocupada, ao me ver chorando. Soube naquele instante que ela também conhecia a origem daquele pacote. Vi, como se fosse em câmera lenta, a xícara cair da mão de Tia Olga e espatifar-se no chão, enquanto meu pai se levantava e sua voz distorcida chegava até mim:

-Onde você achou isso, filha?

Depois, senti que tudo escurecia, e acho que fui amparada pelos braços de Nana.


(continua...)



segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Minhas Tias - Parte IX








Fui buscar minha prima Luiza no aeroporto, com tia Olga e meu pai. Fiquei feliz ao saber que papai estava mostrando-se bem mais receptivo à presença de Tia Olga em nossas vidas. Eu agora faria questão de participar daquela família de verdade, pela primeira vez, e não via a hora em que teria a permissão de tia Rosana para comunicar a todos que nós estávamos nos vendo.

Eu e Luiza nos damos bem logo no início, e levei-a a passear por todos os lugares bonitos e interessantes que eu conhecia em minha cidade, o que levou apenas dois dias, pois minha cidade não era muito grande e não tinha muitas atrações turísticas, a não ser por alguns museus. 

Luiza era uma adolescente inquieta, simpática e com a exuberância polida da mãe na maneira de falar e colocar suas opiniões. Falava bem o português, mas com um forte sotaque francês, pois não vinha muito ao Brasil. Era alta, muito magra, tinha cabelos castanhos e escuros cortados à altura do ombro, com sofisticada franja Chanel que emoldurava seu rosto de boneca e seus belos olhos castanho-esverdeados (que, segundo ela mesma, puxara do pai). Meu tio não pode acompanhá-la, pois estava muitíssimo ocupado, mas mandou dizer-me que seria um prazer receber-me na casa da família em Paris a qualquer momento. Meses mais tarde, quando tudo passou, tive o prazer de conhecê-lo e constatar que era um homem muito gentil, educadíssimo e sofisticado.

Tive que faltar às muitas das visitas à tia Rosana naqueles dias, mas ela foi compreensiva. Disse que eu aproveitasse bem a presença da minha prima, e não me preocupasse. Perguntei pelo retrato que ela estava pintando, e ela disse que assim que tudo ficasse mais calmo, ela me deixaria vê-lo. 

Nana tratava muito bem à minha tia e prima, mas eu sabia que ela resignadamente recolhia-se ao que ela mesma chamava de ‘seu papel’ naquela casa quando as visitas estavam presentes, e nunca aceitava os convites insistentes de papai para que se sentasse conosco à mesa, como sempre fazia. “Sei meu lugar,” ela repetia, “E não quero parecer uma intrusa aonde eu sei que minha presença não é adequada. Não passo de uma empregada.” Papai não entendia o seu tom magoado, já que Nana sempre fizera parte daquela família, e exasperava-se com ela. Certa vez, ao comentar o quanto achava estranha a atitude dela, eu soltei:

-Não percebe que Nana está enciumada? 

Meu pai pigarreou, corando:

-Não diga tolices, Alana!

-Não é nenhuma tolice, pai. Abra os olhos! Nana sempre foi apaixonada por você. Desde sempre!

Ele riu:

-De onde você tirou isso?

-Ela mesma me confessou, há alguns dias. 

Vi, no rosto dele, a surpresa; meu pai corou novamente:

-Ora... se isso é verdade, como foi que eu nunca percebi?

-Você sempre teve olhos apenas para minha mãe. Nunca percebeu os olhares das outras mulheres para você, pai? Impossível!...

-Bem, sim, mas elas não me interessavam!

-Ah, não interessavam, o que quer dizer que a partir de agora...

El deu uma gargalhada:

-Não, não vá tirando conclusões precipitadas, filha. Ainda é cedo....

-Não, pai, não é! Você tem idade suficiente para não desperdiçar nenhum minuto de sua vida.

-Está me chamando de velho?!

Rimos, e eu me corrigi:

-Não, apenas acho que apesar do amor que unia você e minha mãe, ela se foi, e agora você está livre. E com todo respeito, pai, não os estou julgando, mas todo mundo via que o amor de vocês era doentio, estranho... minha mãe tinha muitos problemas...era uma pessoa muito doente.

Uma sombra tomou conta do seu rosto, e ele ficou muito sério, olhando as próprias mãos que descansavam cruzadas sobre a mesa do escritório:

-Alana, eu gostaria que jamais voltasse a falar de sua mãe desse jeito... vamos deixar com que sua memória descanse em paz, como ela merece.

-Desculpe, pai... é que...

-E pare de ficar tentando arranjar-me relacionamentos. Se isto acontecer, a decisão e a escolha serão minhas.

Ele foi categórico, e só restou-me assentir com a cabeça, engolindo em seco.

A cozinha da casa de tia Olga era um mundo à parte! Havia de tudo o que alguém poderia pensar, tecnologicamente falando, mas eu percebia que ela preferia usar os instrumentos mais tradicionais; moía os temperos e carnes usando um velho moedor manual, ao invés dos modernos processadores automáticos, e justificava-se dizendo que a boa comida precisava do contato artesanal do cozinheiro, pois só assim ele conseguiria colocar nela o sabor de sua alma.

-Mas então por que você tem todos estes acessórios?

-São presentes de fornecedores e clientes amigos. Eu os recebo, agradeço e aposento-os nas caixas. Célia é quem os espalha por aí, e os usa quando deseja. 

Célia era sua ajudante e governanta no Brasil, e tomava conta da casa em seus longos períodos de ausência. Era uma senhora aparentando sessenta e poucos anos, calada, simpática e discreta, com quem tive pouco contato, pois ela não aparecia muito quando havia visitas na casa. 

Tia Olga mexia em seus acessórios, separando o que seria necessário para seu próximo prato (eu e meu pai tínhamos sido seus convidados várias vezes desde que eu a conhecera, e realmente, comer o que ela preparava era um privilégio). Naquela noite, ela me disse que me ensinaria a preparar um prato especial; camarão com aspargos à moda italiana.

Eu prestava atenção enquanto ela separava os ingredientes: aspargos, camarões graúdos, azeite, mostarda, suco de limão, alcaparras, tomates cereja, sal e pimenta. Ela manuseava tudo com maestria, e eu seguia seus movimentos, hipnotizada. 

Quando pudemos, finalmente, nos sentar para saborear aquela delícia, meu pai, que trouxera um vinho maravilhoso, e Luiza, que chegara mais tarde pois era avessa à cozinha, nos acompanharam. Todos adoramos o prato!

Após o jantar, ainda sob o efeito do vinho, eu me sentia feliz, tranquila e leve, como há muito tempo não me sentia. Descobri que adorava minha tia Olga e minha prima Luiza. Ela perguntou-me:

-Prestou atenção à preparação do prato, Alana?

-Sim, tia, lembro-me bem dos ingredientes... mas não estou certa quanto às quantidades.

-Isto é algo que cada um deve descobrir por si, e é assim que damos personalidade aos pratos que preparamos. Um chef jamais é igual ao outro, mesmo quando preparam o mesmo prato! Você precisa ir descobrindo, testando as quantidades, e acima de tudo, deve acrescentar um ingrediente extra que fará parte do prato – o seu camarão com aspargos! O “Camarão à Alana!”

Todos rimos, mas eu levei tudo muito à sério. Ela acrescentou:

-E não se esqueça nunca de colocar toda a sua alma e atenção ao prato que estiver preparando. Não o faça com pressa, ou quando estiver de mau humor ou triste, pois estas coisas passam para o sabor da comida. Deixe lá fora qualquer aborrecimento, e assim, garantirá o sucesso do seu prato. Lembre-se que precisará, dentro em breve, saber preparar o Camarão à Alana muito bem!

Entendi imediatamente o que ela quis dizer; dissera, quando nos conhecemos, que o homem que viria a ser meu marido pediria aquele mesmo prato em um restaurante, e que através disto, eu ficaria sabendo quem ele é.

Meu pai, limpando a boca com o guardanapo branquíssimo de minha tia, finalizou:

-E amanhã mesmo você pode começar a praticar lá em casa.

Enquanto comíamos a sobremesa – um maravilhoso sorbet de cerejas – tia Olga anunciou que precisaria viajar dentro de dois dias, pois tinha que visitar seus restaurantes. Protestei:

-Mas você disse que ainda ficaria por um ou dois meses!

-É verdade, mas houve um imprevisto. Estamos construindo um novo restaurante no México, e minha presença é necessária para os retoques finais e a inauguração. Houve alguns imprevistos – na verdade, muitos -, e minhas férias terminarão mais cedo, como quase sempre acontece... 

Luiza sorriu tristemente:

-Eu vou voltar para Paris também, Alana. Ainda estou em período de aulas, só vim mesmo para conhecê-los.

Senti meu coração murchar, mas as duas me convenceram a passar alguns dias com elas em Paris, dentro de alguns poucos meses. Minha tia me disse que eu precisaria daquelas férias, e quando o fez, acho que só eu notei a seriedade de sua expressão.

Encerramos a noite às duas da manhã, muito alegres e levemente sonolentos.



(continua...)








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