terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

A RUA DOS AUSENTES - PARTE 1




A RUA DOS AUSENTES

 

PARTE 1 – A RUA E A CIDADE

 

Algumas pessoas acreditam que as casas têm almas. São vestígios e influências das almas que as habitaram ao longo dos anos, mas também possuem uma alma própria, uma personalidade, que se cria independentemente de quem vive ou viveu nelas. O Feng Shui ensina que há vários fatores que influenciam a energia de uma casa: o local onde ela é construída, se é voltada para o norte ou para o sul, se os cômodos são harmoniosamente distribuidos, se os habitantes são pessoas que brigam muito ou se são pacíficos, se passam veios d’água sob o terreno, etc., e cada um desses e de outros  fatores não mencionados aqui dirão se uma casa e suas energias são saudáveis ou não.

Para outras pessoas, uma casa nada mais é do que um lugar para onde se volta à noite após o trabalho, como um dormitório, uma caixa que os abriga apenas. Não se preocupam sequer em decorá-la ou limpá-la, nem sentem qualquer vínculo com ela. Ao escolherem uma moradia, levam em conta somente a conveniência do local onde ela se encontra, sem se importarem com coisas como a vizinhança, o barulho, se há árvores por perto ou não. Basta que esta casa ou apartamento estejam situados próximos ao local de trabalho ou estudos.

As casas da Rua do Silêncio, que ficava na pequena cidade montanhosa de Pico Negro, eram todas construídas há mais de cem anos (dizem que, algumas delas, há mais tempo do que isso)  são da primeira espécie. Pelo menos, é o que a história conta. A Rua do Silêncio, segundo dizem, foi escolhida por antigos membros de uma seita misteriosa devido à sua proximidade com um bosque, que fica bem ao final desta rua sem saída, e das muitas árvores antigas, que existiam antes das construções e que foram preservadas até os dias atuais. Era uma rua larga, de calçadas também largas, e as casas ficavam alguns bons metros de distância umas das outras. O bosque era cercado por um lago muito profundo, e a única entrada por terra era através da rua. Devido às lendas que foram crescendo ao longo dos anos (e de alguns afogamentos que ocorreram no local, de adolescentes que decidiram desafiar uns aos outros nadando no lago nos anos setenta), os moradores da cidade evitavam o local, alegando que seria perigoso ou até mesmo, assombrado.

Também era fato conhecido (embora ninguém mais se lembrasse de como eles haviam surgido) de que a geometria das casas seguia uma ordem estabelecida, e que todas elas tinham o mesmo número de cômodos, dispostos exatamente da mesma maneira. Todas elas eram casas brancas. Todas elas ficavam no fundo do terreno, tendo a parte dos fundos bem próxima e voltada para a floresta, totalmente impossível de ser avistadas por quem passasse na rua (mesmo que apenas os próprios moradores o fizessem). Todas elas tinham um pequeno lago com uma fonte no terreno do jardim da frente, e a água de cada fonte jorrava das mãos, jarras ou  bocas de figuras mitológicas, como Pan, Diana, dragões, fadas, etc.

Por causa do grande número de árvores dispostas em ambos os lados, a Rua do Silêncio não era exatamente uma rua ensolarada e luminosa. O sol incidia principalmente no verão, entre oito da manhã e cinco da tarde, sendo filtrado pelas folhas das árvores e indo iluminar os quintais protegidos por grades de ferro. Já nos meses mais frios – final de outono e todo o inverno – o grande astro dava o ar de sua presença apenas entre dez da manhã e duas da tarde, pois passava rente às copas das árvores do bosque. Sendo assim, o musgo grudava em espessas camadas de veludo verde escuro nos cantos dos muros, calçadas e troncos de árvores, e a rua tornava-se especialmente fria e úmida nesta época.

Não era qualquer pessoa que tinha acesso à Rua do Silêncio; sendo uma rua sem saída, era também uma rua com entrada limitada por uma guarita, sempre vigiada. Apenas os moradores e seus convidados podiam entrar. Por esse motivo, e também devido às histórias contadas sobre as pessoas que lá moravam e a seita misteriosa à qual pertenciam, entrar na Rua do Silêncio era como um rito de passagem para grupos de crianças e adolescentes, que apostavam que seriam capazes de circundar a guarita pela mata e de, entrando na rua, pular a cerca de alguma casa, tocar a campainha e sair correndo antes de serem descobertos.

E assim tem sido por muitos anos, desde que a rua existe, e muitas das histórias contadas (ou inventadas) sobre os moradores e suas casas vinham dessas visitas furtivas feitas pelos adolescentes – embora com a total desaprovação dos pais destes.

As treze casas eram daquele tipo de casas dos tempos em que as construções eram obras de arte: o esmero estava presente em cada detalhe, grade, formato de telhado (todas elas tinham a fachada de chalés vitorianos, com algumas variações) e jardins. As casas tinham roseiras de várias cores, e também folhagens exóticas que não eram encontradas facilmente entre as plantas locais. E tudo parecia crescer e florescer sem muito esforço, assim como o musgo nos caminhos de pedras que levavam do portão às portas de entrada das casas. Havia total harmonia entre as construções, mas mesmo assim, mas dizia-se que cada casa tinha a personalidade de quem nela morava.

Sim, o verbo está no passado. Porque nos dias de hoje, dizem que ninguém mais vive na Rua do Silêncio – a não ser Lázaro, o vigia, um homem muito velho, de cuja idade ninguém se lembra mais, porém cada pessoa daquele bairro afirma têlo conhecido quando criança, e ele já era velho desde então. Em tempos antigos, Lázaro era visto na mercearia, nas farmácias, nos mercados e demais estabelecimentos comerciais, sempre dirigindo um elegante Buick preto cuja origem era desconhecida – (alguns diziam que tinha sido presente de um dos moradores da rua), fazendo compras e cumprindo tarefas que lhe eram encomendadas. Porque os habitantes não eram de sair muito, nem de se relacionar com outras pessoas que não morassem na Rua do Silêncio. Lázaro respeitava a privacidade de seus patrões e jamais tecia qualquer tipo de comentário sobre suas vidas. “Era mais fiel do que um cão,” as pessoas diziam. Talvez por isso tivesse mantido seu emprego há tanto tempo.

E nos dias de hoje, todos afirmam que o vigia atual é outra pessoa, pois não seria possível que alguém vivesse por tantos anos, já sendo tão velho. Ninguém se lembra mais quando Lázaro tinha começado a trabalhar como vigia na Rua do Silêncio, ou quem cumpria sua função antes dele, e quando alguém toca no assunto, durante as conversas tardias nos bares do bairro, ou nas calçadas onde mulheres seguram suas vassouras e fingem estar varrendo, as pessoas ficam estranhamente confusas e acabam mudando de assunto.

Os antigos dizem que os moradores das treze casas da Rua do Silêncio eram pessoas muito misteriosas. Era difícil ver uma delas, pois quando saíam de casa, era quase sempre no final da tarde ou à noite, em seus carros luxuosos cujas janelas estavam sempre fechadas. Ocasionalmente, porém, alguém dizia ter visto um deles, dizendo ser pessoas muito elegantes que  sempre vestiam marrom, preto ou cinza. Mas quando alguém pedia mais detalhes sobre eles, ninguém conseguia se lembrar de mais nada. Era estranho.

Dizem que havia crianças em algumas casas, mas elas não frequentavam as escolas locais, nem tinham amigos na vizinhança.

Duas gerações viveram e morreram naquele bairro, e por isso, a Rua do Silêncio foi aos poucos sendo esquecida, tornando-se uma lenda muito vaga, uma história que os antigos contavam, algo como uma lenda urbana, e apesar da presença constante na guarita  de um homem velho com cara de poucos amigos que diz chamar-se Lázaro, ninguém tem mais paciência de ficar especulando sobre mais nada. E assim, todos concluíram que os moradores das treze casas da Rua do Silêncio já tinham ido dessa para melhor ou se mudado para outros locais, e que as casas estão todas desabitadas, e que os herdeiros, desinteressados nos antigos mausoléus cuja manutenção deveria custar muito caro, mantém Lázaro na guarita apenas para vigiar o que resta do seu patrimônio até que as casas sejam vendidas. Mesmo assim, ninguém parece interessado em comprá-las.

Apesar da placa enferrujada onde se lê “Rua do Silêncio,” as pessoas se referem ao local apenas como Rua dos Ausentes, justamente por acreditarem que ninguém mais mora ali, a não ser Lázaro, que habita uma casinha modesta no começo da rua, junto à guarita.

O restante do bairro tinha sido invadido pelo progresso, mas a Rua dos Ausentes conserva-se intacta, imutável, com todos os seus mistérios e segredos imaginados e inimagináveis.

Se há algum poder mágico sobre a rua que faz com que os moradores da cidade a deixem em paz nos dias de hoje, é controverso. Alguns acreditam que sim, há alguma coisa estranha a respeito da rua; já outros, menos supersticiosos, declaram que é tudo bobagem, uma lenda criada pelos próprios moradores para que ninguém invada suas propriedades.

Se você chegasse junto à guarita nos dias de hoje e olhasse através das grades de ferro, veria além delas uma curva fechada em rua larga de paralelepípedos cobertos de musgo, ladeada por pinheiros e eucaliptos. Mal conseguiria vislumbrar a ponta do telhado da primeira casa, que fica à direita. E é claro, veria também a casinha branca encardida pelo musgo e pelo passar dos anos onde habita nosso controverso Lázaro (ou seja lá quem for). Há, quase sempre, fumaça saindo pela chaminé. Raramente alguém vê Lázaro na cidade nos dias atuais, pois dizem que ele se rendeu à tecnologia e faz a maior parte de suas compras de casa, através da internet. Mas ninguém tem certeza. As pessoas adoram especular sobre a vida alheia. Os mais imaginativos afirmam que Lázaro se alimenta de caça e pesca, e de algumas coisas que ele mesmo cultiva. Na verdade, ninguém sabe.

A Rua dos Ausentes (vamos usar este nome, o mais popular, daqui em diante) e suas histórias estiveram adormecidas por muitos anos, desde que o último morador foi visto. Mas ela não morreu; suas casas permaneceram adormecidas (quem sabe, seus estranhos moradores também estivesse imersos em um profundo sono), esperando que alguma coisa acontecesse. Quase esquecida, a rua aproveitou-se da passagem do tempo para criar novo fôlego. E na calada da noite, enquanto a cidade dormia, algo estava em ebulição dentro daquelas casas, saido pelas chaminés e subindo pelos troncos das árvores, indo mergulhar nas profundezas verdes do lago.

E foi em uma manhã fria de junho, sexta-feira 13, que a cidade ainda sonolenta de Pico Negro viu chegar um antigo carro fúnebre preto reluzente, dirigindo vagarosamente pelas ruas  geladas pelas temperaturas baixas da noite, indo em direção à Rua dos Ausentes. As crianças que estavam a caminho da escola paravam boquiabertas, apontando para ele. Os donos das pequenas casas comerciais, mercadinhos e padarias chegavam até as portas de seus estabelecimentos, seguidos por funcionários mais afoitos que logo eram enxotados de volta para os seus postos de trabalho, todos eles tecendo comentários especulativos em voz baixa.

Sr. Antônio, português de nascença, um homem de sessenta e dois anos que vivia com sua esposa Maria e proprietário da Padaria do Pão Português, torceu o bigode, e sua esposa (mais velha que ele alguns anos e que ostentava um buço considerável) repetiu o gesto do marido.

Logo, o Mario’s único pub da cidade, estava cheio àquela hora nada usual. As doze mesas de quatro cadeiras cada e o velho balcão de madeira escura com dez assentos encontravam-se totalmente lotados, e algumas pessoas permaneciam de pé, espalhadas em grupos de três ou quatro, todos bebericando cafés e chás batizados com licores e rum.

E foi por volta do meio-dia que o carro fúnebre passou de volta, cruzando novamente o centro da cidade em direção à estrada. As pessoas deixaram seus afazeres novamente para observar a fumaça do cano de descarga desaparecendo em direção ao sol.


 




(Continua)




 

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

O ANDARILHO





 Não conseguia ficar parado por muito tempo - por isso, todos o conheciam como O Andarilho. Ninguém se lembrava quando ele tinha aparecido na cidade. No início, chamou atenção devido à sua figura tristonha e calada. A maneira como ele alugou um quarto na pensão local sem fazer qualquer exigência, e já na manhã seguinte desapareceu mata adentro por três dias, despertou a curiosidade alheia. 


Mas apenas momentaneamente.


Ele não era de muita conversa, e nem dava abertura a perguntas íntimas. Vivia a sua vida e não pisava duro no viver alheio. Nada perguntava, nada queria saber. Seu ofício consistia na venda de peças de bijuteria que ele mesmo fabricava e vendia, mas as pessoas achavam que sua renda não provinha dali; era apenas um hobby. O que ele ganhava através da venda de suas pobres peças com certeza não seria suficiente sequer para pagar o aluguel do seu quartinho.


E ele de vez em quando sumia mata adentro por três dias. Certa vez, um grupo de adolescentes seguiu-o para ver o que fazia. Viram-no pescando no rio, descansando sobre as pedras escaldadas pelo sol de inverno, observando os pássaros. 


Havia uma pequena caverna onde ele se escondia quando chovia. Os meninos viram quando ele entrou nela, mas apesar de terem ficado horas observando-o de seus esconderijos, jamais o viram sair. Quando o dia cedeu lugar ao crepúsculo, eles voltaram para suas casas e para seus pais aflitos. O Andarilho só retornou três dias depois. 


O Andarilho era uma dessas figuras curiosas, quase folclóricas, que existem em todas as cidades. Ele envelhecia seus anos, as pessoas iam envelhecendo junto com ele, novas pessoas nasciam, outras morriam e algumas iam embora pra sempre da cidade. E ele estava ali. E de vez em quando, ele sumia. Por três dias.


Até que um dia ele não voltou. Cinco dias se passaram antes que alguém decidisse que seria melhor ir atrás dele. 


Encontraram suas roupas dobradas dentro da caverna, sobre os sapatos gastos. Dele, nem sinal. Vasculharam o rio, a mata, os vãos sob as montanhas. E então desistiram. E quando o fizeram, se deram conta de que não sabiam nem mesmo o seu nome verdadeiro. Um deles decidiu que deveria haver algum registro sobre ele na pensão. E foram todos até lá para verificar.


O dono da pensão - o mesmo, desde que O Andarilho surgira - verificou seu grosso e encardido livro de registros, e encontrou o dia no qual O Andarilho tinha chegado. Não foi nada difícil, já que poucas pessoas se hospedaram na pensão decadente naquela época. 


Ele tinha escrito o nome dele ali, e também registrado um número de documento. Havia também uma assinatura, ele se lembrava bem. 


Mas ao abrir o livro naquela página, percebeu que nada mais havia. Estava vazia. Em branco.


O Andarilho sumiu. E de repente, sua figura tornou-se lenda local, nome de loja e de alameda. Alameda do Andarilho. Logo, surgiram relatos sobre algumas pessoas que o viram ascender em uma nuvem, e de milagres que havia realizado. Construíram um templo em sua homenagem, e os peregrinos começaram a chegar. Todos contavam lendas sobre como ele tinha ascendido aos céus e sido levado por uma nave interestelar. 


Enquanto isso, seu corpo jazia no fundo negro do rio, preso sob uma pedra. Mas os milagres continuavam. E os peregrinos chegavam. E a cidade prosperava. 




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

SOB CONTROLE




 Joanna chegou àquela festa à qual preferiria não ter ido - mas como vocês já devem saber, muitas vezes sacrifícios são necessários para que se mantenha a paz... sua mãe havia implorado para que ela fosse; afinal, não aguentava mais dar desculpas pela sua ausência nas reuniões de família. 

Assim que Joanna pôs os pés na porta, viu a prima Margareth, filha do aniversariante, vir quase correndo em sua direção:

-Demorou por que? 

- Oi, Margareth, tudo bem? Boa noite pra você também.

Desvencilhando-se da prima, Joanna tentou levar seu presente ao aniversariante, seu tio Lúcio, que dava gargalhadas em um grupo de amigos de risos amarelos após ele mesmo ter contado (quem sabe, pela milésima vez) uma de suas piadas sem graça. Ao vê-la, o tio pegou o presente, e sem abri-lo, jogou-o dentro de uma caixa de papelão junto com outros presentes e aceitou os cumprimentos de feliz aniversário, lascando mais uma gracinha:

- Olá, querida sobrinha! Grato pela sua nobre presença desta vez, já que nas últimas duas festas você não compareceu. Mas e o cara metade? Não veio?

Joanna deu uma risadinha, sentindo todos os olhos presos nela:

- Ele está em uma viagem de negócios, tio. 

Lúcio riu, e procurando a aprovação dos demais com os olhos, umedeceu os lábios antes de soltar mais um comentário profano:

- Viagem de negócios, hein... sei... e essa viagem deve ser alta, loira, com peitões...

Joanna franziu as sobrancelhas e não respondeu, pedindo licença e se afastando, sentindo os olhos alheios pregados em suas costas e escutando a gargalhada insana do tio. Tia Helga passou com uma bandeja de copos de uísque barato, e Joanna, agarrando um deles, entornou o líquido garganta abaixo sem pensar. Ao sentir o peito e a garganta queimarem, ela fez uma careta.

Resolveu sentar-se em uma poltrona afastada do grupo, enquanto observava a festa. Mas sua paz durou bem pouco, pois logo viu sua avó caminhando em direção a ela:

-Não fala mais com os pobres, menina?

-Ah, oi, vó, desculpe, não vi a senhora.

-Então precisa colocar óculos o quanto antes. E como vão as coisas?

Logo, duas outras tias idosas juntaram-se a elas. A mais velha, ao sorrir, deixou aparecer o batom vermelho na ponta do dente. Joanna tentou soar simpática:

-Está tudo indo bem, vó. E a senhora, tudo bem?

-Melhor se eu pudesse morrer conhecendo meu bisneto antes. Já engravidou? Ainda não? Qual o seu problema?

A tia do batom no dente emendou:

-A função do casamento é ter filhos. Mulher que não tem filhos não é natural. E você já passou dos trinta, pelo que eu sei.

A outra tia acrescentou, arregalando os olhos:

-Você sabe... o relógio biológico...

A avó concordou com a cabeça, enquanto Joanna olhou o seu relógio de pulso - não o biológico:

-Sabe, está ficando tarde. Preciso ir. Amanhã tenho que acordar cedo.

A avó respondeu:

-Mas amanhã é sábado! Fica mais um pouco.

-Mas eu tenho uma reunião logo cedo, e...

A avó interrompeu-a:

-Já disse, você vai ficar até partir o bolo, é falta de educação sair da festa antes do bolo.

O rosto de Joanna esquentou, e ela respirou mais profundamente, se perguntando o que ela estava fazendo ali. De repente, uma das tias começou a falar com detalhes da sua cirurgia de apêndice, dos sintomas, sobre como ela descobriu o problema, o que o médico tinha dito. A tia do batom emendou a conversa falando sobre seu colesterol, e a avó abriu a bolsinha para mostrar os remédios controlados que tomava.

 Ao olhar para o outro lado da sala, Joanna deparou com Cláudia, sua irmã mais velha, olhando para elas com ar divertido. Joanna arregalou os olhos, pedindo para ser resgatada, mas Cláudia soltou uma gargalhada e sumiu no corredor em direção à cozinha. As duas nunca tinham sido grandes amigas, e Cláudia sustentava uma certa inveja da irmã mais nova.

Uma hora mais tarde, com uma dor fininha no meio dos olhos e bocejando sem parar, ela finalmente conseguiu uma brecha para interromper a conversa, ao ver sua própria mãe adentrar a sala trazendo o bolo de aniversário. Disparou:

-Olhem, é o bolo. Já vão cantar parabéns.

E dizendo aquilo, levantou-se correndo, seguida pelas três "gentis" senhoras. Uma delas falou às suas costas: 

-Mas Joanna, você não me explicou ainda: não tem filhos porque não quer ou porque é seca mesmo?

Joanna mal acreditava no que tinha acabado de escutar. Virou-se tão bruscamente, que acabou esbarrando na mãe, fazendo com que o bolo se esparramasse no chão. Ela instintivamente cobriu os lábios com as mãos, enquanto a tia berrava:

-Mas que desastrada! 

O tio bradou:

-Paguei uma nota preta nesse bolo para isso! Como você conseguiu estragar tudo, menina?

Enquanto a mãe tentava recolher o que tinha sobrado do bolo, ajudada pela esposa de seu tio aniversariante, a irmã gargalhava. A avó desferiu um doloroso beliscão em seu braço:

-Mas que porcaria, Joanna! Isso é coisa de hormônios! Teus hormônios não estão sendo utilizados como devem, e dá nisso! Destempero!

Naquele momento, Joanna explodiu; sentiu a sala tornar-se cada vez mais abafada, como se as paredes se curvassem sobre ela. Viu a raiva e o escárnio no rosto de cada um dos parentes e conhecidos - alguns riam, outros cochichavam, outros xingavam. De repente, Joanna não era mais ela mesma. Ou então, quem sabe, finalmente ela se tornara ela mesma?

-Vão todos vocês para o inferno - ela gritou.

Houve um silêncio geral, interrompido apenas por alguns 'ohs' escandalizados. Aquilo apenas incentivou-a:

-Quero que vocês todos vão para os quintos dos infernos! Comam esse bolo do chão como porcos que são! Lambam o piso, e depois sirvam-se de bebida no vaso sanitário! Eu odeio vocês! Desde sempre, tenho sido abusada e criticada por todos vocês, que só são gentis comigo quando precisam de alguma coisa! Mas agora acabou a assistência jurídica gratuita, por parte de meu marido, e as consultas médicas gratuitas da minha parte! Vão todos para os quintos dos infernos! Eu não aguento maaaaais!!!

Lentamente, Joanna acordou do seu próprio delírio, enquanto sua mãe, que tinha conseguido salvar uma parte do bolo, espetava nele algumas velinhas. O "Parabéns a você" começou a ser cantado, seguido pelo tradicional "É pique!", e depois pelo irritante "Com quem será."




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

A MENINA E O LEÃO


Era uma vez uma menina que adotou um leão perdido que ela achou na floresta, junto à sua fazenda, enquanto ela mesma também estava perdida. Ela se apaixonou pela beleza dos seus olhos dourados, e a maciez aveludada do seu pelo, que se deitava ao peso dos seus dedos vagarosos.

Os dois voltaram juntos para a casa da menina, e naquela noite, eles conversaram até adormecer, se aquecendo junto à lareira, enquanto uma noite fria e branca se desenhava lá fora, nas molduras das vidraças. 

Na manhã seguinte, ao preparar o café da manhã, ela percebeu que o leão não se agradava das coisas que ela comia; ele queria carne. Mas por algum motivo, ele se fez de cansado demais para ir à caça do seu próprio alimento, e então a menina, com pena do leão, resolveu fazer aquilo por ele. Assim estabeleceu-se um acordo silencioso entre os dois: ela caçava para o leão e ele protegia a casa enquanto ela estivesse fora, caçando ou trabalhando.

Às vezes a menina chegava em casa e não encontrava o seu leão; ele desaparecia por horas e horas, só voltando à noite, faminto e cansado. Um dia ela resolveu segui-lo para ver para onde ele ia, e surpresa, descobriu que o leão tinha uma família - pai, mãe e irmãozinhos. Ele sempre levava um pedaço da sua carne - a que a menina caçava - para alimentar sua família. Ela teve pena, e convidou a todos para viver com ela na fazenda.

Logo, ela percebeu que teria que trabalhar muito mais a fim de sustentar a todos eles, que nada faziam, a não ser tomar conta da fazenda enquanto ela estava fora. E isso eles faziam muito bem, pois ninguém mais se aproximava do local! O carteiro, o leiteiro, o padeiro e os amigos da menina desapareceram de vista ao serem recebidos por leões ferozes ao tentar visitá-la. Logo, a menina mal mantinha contato com sua própria família. E a família do leão era absorvente e muito exigente.

Quando estavam todos em casa, a menina percebia que eles a deixavam de fora das conversas e atividades. Quando ela os interrompia, tentando fazer parte do grupo, era olhada com desdém e tratada com complacência e indiferença. Às vezes, eles deixavam bem claro que ela jamais seria uma deles, pois não tinha o mesmo pedigree. A mamãe leoa era muito ciumenta, e fazia de tudo para humilhar a menina. Os leõezinhos, muito dependentes e frágeis, estavam sempre pedindo coisas ao leão, recusando-se a aprender a fazer as coisas sozinhos, e também eram demasiadamente ciumentos. Papai leão, um patriarca feroz, defendia a sua clã de qualquer admoestação da menina, dizendo que ela deveria sentir-se honrada por ter permissão de pelo menos permanecer perto deles.

Mas a menina amava o leão, e fazia tudo por ele, que só era realmente bom com ela quando precisava de alguma coisa. 

Um dia, a menina adoeceu, e não pôde sair para caçar a comida dos leões. Eles até cuidaram dela no início, mas logo se cansaram. Após três dias de cama, eles a devoraram, repartindo suas carnes magras entre eles. Depois, voltaram para a floresta a procura de outra menina que lhes desse guarida.




sexta-feira, 28 de outubro de 2022

A VISITA DO AVÔ - conto curto


A tarde tinha sido quente, e o sol se punha entre as cores fortes do horizonte, o canto insistente das cigarras  e os piados dos sabiás se recolhendo para dormir. Georgia brincava nos degraus que de sua casa que davam para a cozinha, alheia ao canto modorrento das cigarras e a tudo o mais que acontecia em volta dela. Sua mãe estava no banho.

Rapidamente, a noite tomava o espaço. Georgia ergueu a cabeça ao ouvir ruídos de passos vindos da lateral da casa, e ao ver o avô, que parou junto à parede e abriu os braços, ela correu na direção dele, largando sua boneca nova sobre o degrau. O avô enfiou a mão no bolso do paletó, e retirou-a cheia de balas que a menina recolheu na saia do vestido, indo depositá-las na mesa da cozinha enquanto o avô a seguia. 

No fogão, a panela de pressão chiava no fogo baixo. O avô depositou sobre a mesa um pacote, onde havia um doce de leite que era metade de chocolate, geleia marmorizada e algumas maçãs perfumadas. Georgia estava feliz ao ver o avô, que não aparecia muito, pois morava longe. Ao mesmo tempo, ela sabia que alguma coisa estava errada, embora não soubesse dizer o quê.

O avô e a menina conversaram durante algum tempo. Ele perguntou sobre as coisas da escola, e ela mostrou a ele a sua boneca nova, sentando nos joelhos do avô. A conversa ia bem, enquanto  lá fora o canto dos sabiás e cigarras tinha sido substituído pelo cricrilar dos grilos. Dentro da  casa só havia luz, mas a porta da cozinha que dava para o quintal dos fundos estava aberta, mostrando a escuridão intensa e aveludada que se acumulara. 

Georgia percebeu que, aos poucos, a escuridão se aproximava dos degraus, subindo um a um. Ela se sentia segura na presença do avô, entretanto. Mas de repente, ele ficou sério, dizendo:

-Georgia, minha querida, eu não posso ficar muito tempo. 

Ela não entendeu nada, pois a mãe sequer tinha terminado o banho, e ele nunca ia embora tão rápido. 

- O avô não vai dormir aqui hoje?

Ele sorriu tristemente, dizendo que não, e acrescentou:

- Só vim para me despedir de vez. Estive esse tempo todo olhando por vocês, mas agora eu preciso ir embora. 

Georgia sentiu que estava crescendo aos poucos no colo do avô, e foi sentar-se em uma cadeira que arrastou para ficar bem em frente a dele, de onde ela podia olhá-lo melhor. Ela só então notou que ele não parecia mais tão velho. O avô segurou as duas mãos da agora moça, dizendo:

-Antes de ir, preciso alertar a você: algo muito ruim está para acontecer no mundo. 

Georgia ficou confusa:

-Mas... eu e a mamãe ficaremos bem?

O avô olhou-a profundamente antes de responder:

- Não se preocupe, sua mãe já está comigo há alguns anos. Você não se lembra, Georgia?

E ela se lembrou. Não havia ninguém tomando banho, e nem poderia haver, pois sua mãe já estava morta há treze anos. 

Ao olhar novamente para o avô, percebeu que ele estava um pouco transparente em algumas partes, o que a deixou bastante desconfortável, pois lembrou-se que o avô morrera quando ela tinha oito anos de idade, há mais de vinte anos. Ele ainda pôde dizer:

- Pegue todo o dinheiro que você tiver, e compre comida e água. Compre enlatados, coisas que duram, pois estão chegando tempos em que será muito difícil comprar certas coisas. Compre velas, querosene, remédios, e consiga uma arma para se proteger. Avise ao seu marido. Considere plantar alguma coisa, você tem um quintal grande. 

E então Georgia se lembrou que era casada. 

Havia muitas perguntas que ela gostaria de fazer ao avô, mas não havia mais tempo.

A escuridão começou a entrar pela porta da cozinha cada vez mais rápido. Ela pensou em fechar a porta, mas estava paralisada. Fechou os olhos por um curto espaço de tempo, e ao abri-los novamente, o avô tinha desaparecido e ela estava completamente cercada pela escuridão, que acariciava sua pele de maneira mórbida e com dedos extremamente gelados e ásperos. 

Georgia despertou no sofá da sala de seu apartamento, o coração disparado. Lá fora, os sabiás e cigarras cantavam. 

Sobre a mesa, havia algumas balas iguais às que seu avô costumava levar para ela quando a visitava.







quinta-feira, 11 de agosto de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - parte 12 FINAL


 



PARTE 12


Joana – a essa altura não consigo mais chamá-la de minha avó – está à porta quando a abro. Ela parece constrangida, carregando uma bandeja com café e croissants como se fosse a empregada da casa. Saio do caminho, e ela deposita a bandeja sobre a cama, mas eu não estou com fome, e me sento à penteadeira, fingindo observar alguma coisa invisível na minha pele. Tenho consciência dos meus pijamas surrados, humilhados diante da roupa impecável que ela está usando às quase dez horas da manhã: blusa de seda rosa- pálida e saias plissadas cor de creme, que caem sem nenhuma protuberância sobre suas pernas, a barra da saia criando uma roda esvoaçante em volta dela quando ela se mexe. Ela diz:

- Quero que você saiba que para mim não mudou nada. Você continua sendo minha neta. E quero manter esse laço com você, agora que nada mais nos impede.

Eu respiro fundo, me virando para ela:

- Para mim mudou tudo, Joana. Descobri que minha mãe nunca foi minha mãe, e que todo mundo mentiu para mim desde a primeira vez que colocaram os olhos sobre a minha cara. E quem poderia ter desfeito essa mentira, apenas a sustentou. Imagine só descobrir que você não é você!

-Não é assim, Valentina. É certo que algumas verdades importantes foram escondidas, e eu jamais compactuei com isso. Paguei o preço por querer dizer a verdade, e o preço foi não poder estar mais próxima a você. Porém, sua mãe... ela fez o que pensou ser melhor para você. E seu pai... bem, não creio que ele tinha realmente muita consciência do que fazia. Sempre foi um egoísta... 

Ela percebe que está indo longe demais:

-Me desculpe, eu não queria falar mal dele.

-Pode falar, já não faz mais diferença nenhuma para mim.

Eu estou quebrada, magoada e  me sentindo um peixe fora d’água dentro da minha própria vida. Meu futuro é uma incógnita. Digo isso em voz alta.

-Meu futuro é uma incógnita, e não vejo nenhuma possibilidade de...

Não consigo completar a frase, pois um nó se forma na minha garganta. E ele dói com força. Ela então me diz algo que me faz despertar de uma forma que eu nunca tinha despertado antes.

-Valentina, não saber o que fazer do futuro tem um lado bom: você pode fazer qualquer coisa, você tem toda a sua vida para escolher o que fazer. Você tem todas – absolutamente todas – as possibilidades diante e você, e se você deixar, eu vou estar por perto para garantir que você possa fazer o que quiser. Terá todo o meu suporte financeiro, apoio emocional, amizade e... amor.

Uma luz se acende em mim. Ela tem toda razão, e percebo que tenho duas escolhas diante de mim: viver sendo amarga o resto da vida, presa ao passado e ao que as pessoas me fizeram, ou então me abrir para a vida, aceitando o apoio e o amor que ela me oferecia. Olho para aquela mulher bela e estranha que tem os olhos marejados e de repente sinto uma fome enorme, e me sento diante da bandeja do café da manhã de pernas cruzadas:

-Em primeiro lugar, vou começar comendo tudo isso aqui. Depois, se você puder, gostaria de conhecer Paris.

Ela sorri, e concordando com a  cabeça, me deixa sozinha.

E nós duas passamos o dia todo juntas, após nos despedirmos de meu avô, que fica muito feliz ao nos ver tão unidas. Ele parece melhor naquela manhã, e passamos algum tempo juntos, conversando e rindo. Descubro que meu avô é uma pessoa doce, acessível e também bondoso. Nada do que meu pai costumava dizer que ele era. Eu sei que o tempo de vida dele está terminando, e me sinto com sorte por conhecê-lo antes disso.

Eu e minha avó entramos em todas as lojinhas e butiques da Monstparnasse, e nos sentamos para almoçar na mesinha de um restaurante que fica na calçada. O motorista coloca as nossas compras no carro. Minha avó me diz que meus primos estão vindo para me conhecer. Logo estaremos todos juntos.

No final da tarde, ao chegar em casa cansada e feliz, verdadeiramente feliz pela primeira vez na vida, resolvo checar as mensagens do meu celular, que andou tocando o dia todo.  

Há duas mensagens de meus tios, as quais decido ignorar. Visualizo e não respondo, pois quero que eles saibam o quanto estou furiosa com eles. Percebo que, na verdade, eu sequer gosto muito deles. Sempre tive aquela tolerância velada em relação à minha tia, e uma certa indiferença beirando à antipatia em relação ao meu tio. E também sentia a mesma coisa vindo deles, talvez uma certa obrigação de tomar conta de mim. Existem pessoas nas nossas vidas que, apesar de as amarmos, não gostamos delas. 

E há uma mensagem gravada  de Jonathan.

“Oi, Valentina, espero que esteja tudo bem por aí. Então... a Pri infelizmente teve um aborto espontâneo, mas ela está bem. No fundo, achou que foi melhor assim, e eu... também... Desculpa estar te contando isso assim, mas... achei que você deveria saber. A gente vai sair do apartamento assim que conseguirmos um outro lugar. (aqui há uma longa pausa). Eu queria que você soubesse que eu sinto sua falta. Não amo mais a Pri. E nem quero ficar com ela. Nós dois concordamos nisso, o lance entre a gente acabou. E eu queria muito recomeçar a nossa história. (outra pausa). Ela está te mandando lembranças e agradecendo por tudo. Mas sabemos que não tem nada a ver ficarmos morando aqui. Bem, a gente ainda vai morar junto, mas só para dividir as despesas. Eu estou com saudades da gente, Valentina. Por favor, responda essa mensagem.”

Escuto a mensagem mais algumas vezes. Também sinto saudades de Jonathan, mas percebo de repente que alguma coisa importante que estava para nascer entre nós também foi abortada pela notícia da gravidez de Pri, e agora tinha sido enterrada. Ainda gosto dele, mas não da forma que eu pensava que poderia vir a gostar. Me sinto indecisa. Fico pensando se deveria voltar ao Brasil e nos dar uma nova chance. Mas acho que não. Como disse Joana – minha avó – eu tinha muita vida pela frente, e os caminhos todos abertos para tomar as decisões que eu quisesse, na hora que eu quisesse. Sem pressa, sem mentiras, sem pressões.

Meus primos chegam hoje à noite. Vou conhecer os filhos de minha prima. Vou saber, pela primeira vez, o que é ter uma família de verdade. Sem mentiras, sem subterfúgios. Acho que eu mereço essa chance de ser feliz e de mudar a minha vida.



FIM










segunda-feira, 1 de agosto de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 11


 PARTE 11


Estou diante da cama onde meu avô descansa. Ele se ajeita ao me ver, estendendo os braços para mim. Caminho hesitante na direção dele, e me sento na cama, deixando que ele segure as minhas mãos. Vejo bondade no seu rosto macilento e consumido pela doença. Olho os vidros de remédios na mesa de cabeceira, e a enfermeira que deixa o quarto discretamente a um sinal de Joanna. As duas cochicham no corredor, e quando minha avó entra no quarto, ela parece ter envelhecido alguns anos. 

Ele não fala nada sobre o meu passado, só me trata e me recebe como sua neta verdadeira. Não fala nada sobre meus pais, não me pergunta sobre nada, a não ser sobre o futuro, se eu preciso de alguma coisa, se eu sou feliz, se eu já decidi o que vou estudar, se eu vou continuar em Paris, morando com eles, ou se eu gostaria de ter meu próprio  apartamento. Tantas perguntas me deixam zonza, e prefiro tentar sorrir e me esgueirar delas. Dez minutos após a minha chegada, a enfermeira entra no quarto, administra mais medicamentos e ele adormece. Este é o contato face a face que tenho com aquele que pensei ser o  meu avô, após muitos anos. 

Na sala de estar, Joanna me deixa sozinha alguns momentos. Eu estou sentada em um sofá confortável, estilo bem antigo. O apartamento nem é tão grande quanto eu imaginava, mas é elegante e muito aconchegante. Há muitos objetos que parecem ser valiosos espalhados sobre os móveis. No centro de uma mesa de jacarandá, um vaso em estilo indiano que parece ser antigo muito caro. As sanefas sobre a s janelas são de  brocado e as cortinas têm tecidos esvoaçantes cor de creme. Há flores, flores naturais espalhadas pelo cômodo. De vez em quando, a enfermeira passa atrás de mim sem fazer barulho, a não ser pelas solas emborrachadas dos seus sapatos rangendo de leve. Existem três sacadas que dão para a rua na sala. Fico curiosa para ver a vista, mas não consigo me mover, de tão pouco à vontade que eu me sinto. Estou com fome. Uma senhora começa a por a mesa para o almoço. Mesa para dois. A enfermeira passa atrás de mim novamente e eu me viro para vê-la carregando um carrinho com um prato de sopa e um pouco de água em um copo alto. 

Joanna entra na sala, e murmura algo em francês. Depois me convida para ir até a mesa e me sentar, enquanto a criada nos serve fatias de pão, água, uma salada verde e vinho. Fico pensando se aquele seria o almoço. Comemos em silêncio, e assim que terminamos, nossos pratos são retirados e substituídos por outros, onde há um pequeno pedaço de carne assada perfumada, arroz e batatas cozidas. Eles comem muito pouco por aqui. Minha enorme fome, antes da doença de meu pai,  estava acostumada a pratos imensos de massas. Faço um esforço para não devorar tudo com apenas duas garfadas. Finalmente, somos servidas de frutas cortadas, queijo e um pudim que mais parece um mini pudim de casa de boneca. Meu estômago ronca alto, esperando pelo prato principal quando já estamos na sobremesa. Entendo o porquê de eles serem tão magros, mas me lembro que eu também sou. Também me lembro que no meu caso, a magreza não é hereditária, que desde a morte de meu pai, eu tinha perdido vários quilos. Joanna me observa, e sinto carinho no seu olhar. Ela às vezes me sorri, e falamos um pouco sobre a comida.

- Gostou da refeição? Está satisfeita?

Minto. Ainda poderia comer aquilo mais três vezes. Não comia nada desde que entrara no avião, na noite anterior, e já passavam de duas da tarde. Mesmo assim, eu sorrio e respondo:

-Sim. Obrigada.

Joanna sugere que eu vá para o “meu quarto” descansar um pouco após o almoço. Sinto que ela quer um pouco de privacidade, então me deixo conduzir até um pequeno e agradável  quarto, todo pitado de azul claro, onde as roupas de cama e as cortinas são cor de creme. Ao lado da cama, sobre o chão de madeira fosca, um criado mudo antigo onde descansa um pequeno abajur também antigo de cúpula de vidro. Sobre a colcha creme, algumas almofadas em tons pastel. Ao lado da cama, vejo a minha mala. Bem na frente do estreito corredor que divide a cama e a penteadeira, por cima desta, um espelho no qual me assusto com minhas olheiras cinzentas. De repente, todo o cansaço do mundo se abate sobre meus ombros, e eu sinto um enorme sono. Há um pequeno banheiro no quarto, com uma ducha. Tomo uma chuveirada quente e rápida antes de me deitar sob as cobertas e apagar completamente.

Não se foi devido ao efeito dos comprimidos que engoli para segurar a ansiedade (tomei mais um antes de deitar), só volto a despertar na manhã seguinte, com batidas à minha porta. 


(continua...)



Em breve, a parte 12. Estou sem tempo...














quarta-feira, 6 de julho de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 10


SEGUIR PARA TRÁS Parte 10


A viagem foi mais longa e mais solitária do que eu pensava que seria. Tomei remédio para ansiedade antes de embarcar, já que aquela seria minha primeira viagem internacional e sozinha. Meus tios me levaram ao aeroporto. Nos despedimos com abraços desajeitados, e eles me fizeram prometer que eu voltaria. Mas todos sabíamos que aquilo ainda não estava definido.

A tripulação foi muito gentil comigo quando repararam no quanto eu estava insegura. Uma das comissárias até conversou um pouco comigo, e quando pousamos, ela me deu algumas informações sobre como resgatar minha bagagem. Foi muito paciente e carinhosa. 

Segui os outros passageiros e esperei, como ela tinha me indicado, até que minhas malas passaram na esteira. Coloquei-as no carrinho, caminhei até a porta e lá estava minha avó me esperando.

Aquela mulher alta, de cabelos muito brancos elegantemente presos em um coque, é a minha avó. Ela me olha com seus olhos azuis (que nem são tão frios como sempre me diziam ser) e sorri. Vejo que ela está usando calças jeans estilo ‘flair’ e uma blusa branca de mangas longas muito chique, o tecido com caimento perfeito, um laço mole e branco escorregando do pescoço até o meio dos seios. Ela é tão bonita! Imediatamente, eu me lembro de minha mãe e do quanto ela era comum, sem atrativos especiais. Mas logo percebo alguns traços dela no rosto de minha avó. Aquilo me traz lágrimas aos olhos inesperadamente, e eu praguejo baixinho. Seco-as com as costas da mão enquanto caminho na direção dela, tentando parecer segura. Reparo no homem alto e forte, aparentando uns cinquenta anos ao lado dela; o motorista, suponho.

Já não nos vemos há muitos anos. Só conseguia me lembrar do rosto dela ao olhar as fotos. Ela agora parece bem mais velha, mas igualmente bela. Quando chego mais perto, ela me segura pelas mãos e me olha da cabeça aos pés; nos abraçamos, e sinto que o abraço dela é caloroso. Ela diz: “Seja bem-vinda!” enquanto faz sinal ao homem, que pega o carrinho com as minhas malas. Nós o seguimos até o carro, um sedan cuja marca desconheço, mas que é de um azul profundo e parece luxuoso. 

Paris nem é tão bonita assim. Parece uma cidade que já teve seus tempos áureos, mas que agora está um pouco suja. Vejo muita gente pelas ruas – imigrantes, conforme minha avó explica. Mas a Torre Eiffel é implacável, e não consigo segurar um “Uau” de admiração ao vê-la pela janela do carro. Minha avó comenta:

- Paris já foi bem melhor. Se quiser, podemos visitar a torre, mas hoje em dia está até um pouco perigoso, por causa de assaltos. Mas com certeza sua prima ficará muito feliz em levar você. 

-Olho para ela:

-Minha prima? A filha de Tia Agnes, irmã de mamãe?

Ela sorri:

-Claro! Quem mais? 

-Ela está aqui?

- Sim. Vai ficar algumas semanas. Quer conhecer você. 

- Mas... eu não falo francês!

-Não se preocupe. Georgette fala português fluentemente. Já morou e estudou em Portugal durante seis anos. Fez amigos por lá, e de vez em quando, passa algum tempo em Cintra. 

-E meu primo? Ele está aqui também?

- Rodolpho? Não, está morando em Londres. Estuda e trabalha por lá. Mora em uma república, imagine! Poderia ter seu próprio apartamento, mas acha mais divertido assim.

- E quanto ao Tio Charles?

Minha avó balança a cabeça levemente:

-Ele e sua tia se separaram há mais ou menos um ano. Ele vive longe daqui. Tem outra família. A mulher dele tem quase a metade da idade de Agnes, e eles tiveram um bebê recentemente.

Meu estômago dá voltas; ela estava me falando sobre a minha família, e eu teria que conhecê-los um dia. Sei que Tia Agnes é muito sofisticada (conforme meu pai vivia repetindo, ele a chamava de “Aquela metida da sua tia”, embora só tivessem se encontrado duas ou três vezes). E quanto a Georgette, eu não sei nada sobre ela. Só tinha visto uma foto que encontrei entre as coisas dele, depois que ele morreu. Na foto, ela é só uma criança, uma menina bonitinha de cabelos ruivos cacheados. Pergunto sobre meu avô, e ela diz:

- Ele está melhor, por enquanto, mas não sabemos como estará amanhã. A doença dele (o rosto dela se entristece) é um pouco grave, e com a idade...

- Olho para sua pele bem cuidada; sei que minha avó tem algo entre setenta e setenta e cinco anos, embora não aparente, mas que meu avô é bem mais velho que ela. Ela me sorri:

-Mas vamos falar de coisas boas. Como você tem se saído, agora que está vivendo sozinha?

Eu me espanto com a pergunta, pois sei que ela não deseja realmente escutar a história de minha vida desde que meu pai morreu. Por isso, demoro a responder, procurando as palavras certas. Mas acabo dizendo a pior coisa que eu poderia ter dito:

- Escute, vovó...

Ela me interrompe, rindo:

- Me chame de Joana, por favor. Meus netos não me chamam de vovó.

- Ok, Joana. Sei que você e meu avô não gostavam de meu pai. Vim aqui em busca de respostas. 

Ela arregala os olhos, erguendo as sobrancelhas tingidas. Vejo seus lábios se trasformando em uma letra ‘o’, e depois voltando lentamente ao lugar. Surge na minha mente a ideia de que a minha vida não anda para frente, só pra trás. Quanto mais eu me lanço em direção ao futuro, mais a vida me puxa para o passado. Mas compreendo que para seguir em frente, a gente precisa resolver as pendengas do passado. Minha avó põe os óculos escuros, que a deixam com aparência fria e impessoal. Ela diz alguma coisa em francês ao motorista, que começa a retornar, mudando de direção – sei, pois coisas que já tinham aparecidao à janela voltam a aparecer. Penso se ela não vai me levar de volta ao aeroporto, quando ela diz:

-Que respostas você está buscando, Valentina?

Aquilo me pega de surpresa, e hesito ao responder:

-Por exemplo... hã... por que vocês odeiam meu pai? Por que minha mãe praticamente cortou laços com vocês? 

-Você tem certeza de quer mexer nesse ninho de abelhas? Não acha que a vida é bem melhor quando aceitamos as coisas como elas são? Você tem a sua história, e mesmo que seus pais estejam mortos,  você tem uma vida inteira pela frente, para escolher viver como quiser. Talvez muitas coisas mudem, e essa mudança não vai ser para melhor.

Agora eu estou realmente curiosa. Ela parece estar me provocando. O rosto dela é totalmente inexpressivo por trás dos óculos escuros. Ela fecha o vidro que separa os assentos da frente do carro e o nosso. Acho isso chique. Penso, ao mesmo tempo, que talvez meus tios tenham razão, e que ela me convidou apenas para destruir a imagem que eu guardo do meu pai – um tipo de vingança póstuma? Mas isso não faz sentido.

A Torre Eiffel enfeita novamente a paisagem. Olho para ela, e penso que seria muito fácil subir até o topo e me jogar lá de cima, acabando com todos os meus problemas. Enfio a mão no bolso do meu casaco, e tateio meus comprimidos para ansiedade. Eles me trazem algum tipo de segurança. Eu me sinto pequena perto de minha avó... de Joanna. Ela me olha longamente, as mãos no colo, apertando os próprios dedos nervosamente, mas tentando aparentar frieza. Sinto que ela faz um esforço grande para não desmoronar emocionalmente. Joanna diz:

- Antes de qualquer coisa, quero que você saiba que não ter tido muito contato com você enquanto você crescia não tem nada a ver com falta de... amor da nossa parte. Fizemos de tudo, fizemos o possível para que você fosse parte da família, mas seus pais... minha filha... sua mãe, principalmente, não permitiu. No fim, acabamos desistindo de vez. 

-Por que foi assim? Por que minha mãe não ia querer que eu tivesse contato com vocês? Com os meus avós, tios e primos?

-Exatamente porque ela não queria que você descobrisse a verdade sobre ... 

Ela faz um gesto de negação com a cabeça. Retira os óculos escuros, me olha nos olhos, e eu vejo que eles estão úmidos. Ela os aperta com as pontas dos dedos. Eu espero. Pacientemente, em silêncio. Sinto que a minha vida vai mudar radicalmente, mais uma vez, a partir dali. Tenho vontade de pedir que ela pare o carro, e sair correndo de volta ao Brasil. Mas eu me seguro. E ela se solta, as palavras saindo de dentro de sua boca como uma forte enxurrada de águas há muito tempo represadas.

-Você... não é filha de minha filha Bia. Sua mãe se chamava... Fernanda.

Minha cabeça dá um nó. Fernanda, a primeira esposa de meu pai, era minha verdadeira mãe? Mas como? Tento manter a calma, Meus dedos abrem o envelope do remédio, dentro do bolso, e rapidamente levo um comprimido à boca, engolindo-o sem água, como já estou tão acostumada a fazer. Joanna (não posso mais chamá-la de minha avó) acompanha meu gesto, mas não diz nada. Ela continua:

-Você já escutou esse nome antes?

A percepção de que eu estou em um país estrangeiro, com uma pessoa que não é nada minha, me atinge como uma bala de revólver, e me sinto extremamente só. Sem querer, caio em um choro convulsivo. De pena de mim mesma. De ter sido tão enganada a  minha vida inteira, pelos meus pais, tios, pessoas que eu pensava serem a minha família...

Minha vó me passa uma caixa de  lenços de papel, mas antes, tira um para si mesma. Ficamos as duas chorando, sem nos olharmos, durante alguns minutos. Consigo dizer:

- E sei quem é Fernanda. Minha tia Atena, ela me contou que... Fernanda tinha sido a primeira esposa de meu pai.

Ela concorda com a  cabeça. Diz:

- Ela foi a primeira esposa de seu pai, e estava casada com ele quando ele e Bia se conheceram. Ela engravidou, morreu no seu parto, e seu pai e minha filha... tomaram você como filha natural deles. Seu pai tinha um amigo no cartório que fez a papelada toda. No início, eu e meu marido não concordamos, mas quando a vimos... tão pequena, inocente... nós a amamos no primeiro momento, e estávamos dispostos a fazer tudo por você, Valentina, mas queríamos que você soubesse da verdade. Não queríamos que você crescesse sem conhecer sua verdadeira história. Mas Bia foi contra. E seu pai também. Queriam que você acreditasse que era realmente filha de sua mãe. Por eles, você nem ficaria sabendo que Fernanda um dia existira. 

Minha cabeça começa a doer, mas eu sei que assim que o remédio surtir efeito, a dor passará e eu mergulharei em um confortável estado de semi-torpor. Eu não sei o que fazer com toda essa informação. Joanna continua, escolhendo as palavras agora com cuidado:

- Para nós, você é da nossa família, é a criança que Bia amou e cuidou, e que nós aprendemos a amar também, apesar da distância. 

Me lembro das poucas vezes que eles tinham me visitado, e do quanto tinham sido carinhosos comigo. Também das raras vezes em que nos falamos ao telefone ou através de aplicativo, e do quanto minha mãe sempre permanecia ao lado, monitorando a nossa conversa o tempo todo e decidindo quando ela terminaria. Depois, com meu pai, foi ainda mais difícil manter contato com eles. Ele dizia coisas terríveis sobre a família de minha mãe. Algumas daquelas coisas tinham influenciado a minha opinião sobre eles, de forma que não fiz mais questão de manter contato. 

Me lembro também de que ao arrumar o armário de meu pai, depois de sua morte, eu tinha queimado a única fotografia que eu poderia ter de minha mãe. E se a família dela perseguiu meu pai durante tanto tempo após a morte dela, por que haviam desistido de repente?

Pergunto aquilo à minha avó:

-Onde estão meus verdadeiros avós?

Vejo que ela se sente ferida com o que acabo de dizer, mas não saberia perguntar de outra forma. Ela responde:

- Sinto muito, Valentina, mas ambos já são falecidos. 

-E quanto aos meus tios, primos?...

-Fernanda era filha única. – Ela coloca uma mão sobre as minhas, que estão no meu colo: - Sinto muito.

Eu sinto aquele contato me incomodando, e retiro as minhas mãos de sob as dela. Não entendo o motivo, já que ela foi a única pessoa que me contou a verdade. Peço a  ela que me leve de volta ao aeroporto, mas ela me rebate:

-Por favor, Valentina, você está aqui, passe alguns dias conosco ao menos... nos dê uma chance de nos fazermos conhecer por você. Para nós, você é a nossa neta! Amamos você tanto quanto amamos nossa outra neta. Muitas vezes, a família da gente pode ser definida por outros laços que não os de sangue.

Odeio o que meu pai me fez, e esse ódio começa a ser algo pessoal. Ele mentiu sobre mim, sobre a minha identidade e a minha história; traiu  minha mãe verdadeira, e depois, a mãe que me criou. Envolveu a todos nessa mentira horrorosa e fez o que podia para que eu jamais soubesse da verdade, mesmo após a sua morte. Com a anuência e ajuda dos meus tios. Sinto que a vida que vivi até agora nunca foi minha.


(CONTINUA...)






segunda-feira, 27 de junho de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 9





 Parte 9

Minha conversa com Jonathan não foi nada fácil. Eu descobri que estava mais apaixonada por ele do que eu pensava, e deixá-lo para que se case com outra não estava nos meus planos. Mas a gente não pode planejar tudo. Eu realmente acreditava que tinha resolvido as coisas, mas dois dias depois que a Priscila me visitou, ele socou minha porta de manhã.

Estou tomando café da manhã na cozinha, ainda de pijamas, meio descabelada, e sei que é ele à porta. Respiro fundo antes de abrir, tentando controlar a minha ansiedade que de repente sobe dos meus pés até o topo da cabeça, me deixando trêmula. Os olhos dele estão rodeados por um par de olheiras escuras, e também estão bem vermelhos. Olho para ele à porta, os cabelos úmidos da chuva fina que cai naquela manhã de domingo. Faço sinal para ele entrar.

Ele me segura pelos ombros:

-Eu não posso deixar você, Valentina, eu estou completamente apaixonado! Não faça isso com a gente...

- Minha voz sai tão embargada quanto a dele:

- Não tem jeito, o que a gente pode fazer? Ela tá grávida, Jonathan! 

- Isso é terrível... eu não estou pronto para ser pai de ninguém... eu sequer tenho onde cair morto, ou onde morar com ela... ela não é a mulher que eu amo. Eu não quero isso para a minha vida, Valentina. Não quero ficar ligado a ela dessa maneira. Você não pode me obrigar a isso.

- Mas o que você quer fazer? Se você é o pai dessa criança... não vejo como... 

Eu me jogo no sofá, totalmente esgotada. Minhas mãos tremem. Ele se joga do meu lado, e segura a minha mão com a mão gelada dele. Ambos estamos chorando. No fundo, somos duas crianças perdidas. Chego à conclusão de que a gente precisa de ajuda. Digo aquilo a ele bem devagar.

-Acho que a gente precisa de ajuda, Jonathan. E se vocês contassem para o pessoal da Instituição?

Ele nega com a cabeça:

- É uma saída... mas a Priscila não quer. Sabe que eles vão fazer de tudo para colocar a criança para adoção, ou então vão movê-la para outro tipo de instituição onde ela vai poder ficar com o bebê. Bem, ela cresceu lá, não queria sair. Sem contar com o fato de que eles vão me demitir, pois já sou de maior, e eu vou perder o emprego e o quarto. 

- Mas nem tudo o que se quer, se pode. Vocês precisam achar uma solução então, já que você não quer casar com ela. Ela tem que ceder de algum lado. Ou então... eu posso falar com meus tios. Eles poderiam ter uma solução.

Ele levanta do sofá, as mãos na cabeça:

-O que? Não! Eu nem conheço eles. São dois estranhos para mim. E eu vi a maneira como seu tio me olhou naquele dia que passou de carro e viu a gente na varanda.

Ele se acalma, sentando-se ao meu lado de novo:

-E tem mais, Valentina: eu jamais aceitaria que você abrisse mão do seu aluguel para ceder o apartamento para a gente. Isso é absurdo. 

-Mas... e se fosse só para ela, então? Eu não cobro nada pelo aluguel, ela pode ficar enquanto precisar.

Ele tentou sorrir:

-Você é uma pessoa muito incrível. Mas olha... a gente se conhece há pouco tempo, nossas realidades são diferentes. A gente começou a vida de maneira diferente. Você não tem nada a ver com os nossos problemas, na verdade. Valentina, eu juro que jamais queria ser um problema pra você... mais uma tristeza na sua vida.

Ignoro a última frase dele.

- Mas eu posso ajudar. A única maneira que eu sei ajudar é essa. Vocês se mudam para o apartamento, você arranja um emprego, sustenta seu filho.

Ele tem um sobressalto:

-“Meu filho...” Isso é tão ... estranho.

Sinto vontade de abraçá-lo, mas isso só vai complicar as coisas. Na verdade, eu não queria estar na pele dele. Ou na dela. Eu continuo, com a frieza e praticidade que adquiri de meu pai:

- Você não precisa se casar com ela. Com o tempo, as coisas se ajeitam... vocês podem morar juntos no começo. Depois, você trabalha e pode pagar um lugar pra você ficar.

Ele não responde.

-As coisas às vezes parecem horríveis no início, mas com o tempo, tudo se ajeita – eu digo. Sei que você está desesperado agora, mas... um filho é um filho... não se joga fora.

Ele me olha de um jeito que eu sei exatamente o que ele está pensando, mas tento ignorar meus próprios instintos: por ele, Priscila faria um aborto e acabaria com todo esse problema. E todos viveriam felizes para sempre? Eu duvido. Não viveríamos felizes. 

Ele me olha, e seu olhar vai se modificando, e de repente, sinto que tudo o que mais o preocupa somos nós dois. Este é o problema. É isso que está impedindo que ele faça o que é certo. Eu me levanto e vou até a gaveta da cabeceira, onde pego as chaves do apartamento na gaveta da cômoda. Hesito, sem saber se estou fazendo a coisa certa. Cada passo que eu dou é dolorido, pois eu sei que estou me despedindo dele. Mas eu sou jovem. Ainda amarei outra pessoa. 

Chego na sala, onde o encontro sentado no mesmo lugar, olhando para o chão. Estico as chaves para ele. Ele as olha. Digo:

-Essas são as chaves do apartamento. Não renovarei o contrato, já avisei aos locatários. Ele está mobiliado. Acredito que estará livre daqui a um ou dois meses. Tudo o que vocês precisam fazer, é esconder que a Priscila está grávida até lá. Ele é pequeno, mas dá para começar. O aluguel nem é minha principal renda. Acredite, não preciso dele. Minha mãe me deixou uma boa grana, meu pai me deixou esta casa e um pouco de dinheiro; tenho outras formas de renda.

Ele começa a chorar muito. Balanço as chaves diante dele, minha voz se eleva:

-Pega logo, Jonathan! Não torne tudo ainda mais difícil. E olha... neste envelope tem grana. Leve a Priscila ao médico. É meu ginecologista pessoal, ele vai indicar um bom obstetra.

-Eu me sinto... humilhado.

-Não é hora para ter orgulho. Uma criança depende de vocês.

- Mas e nós, Valentina?

-Não tem mais “nós.”

Tento fazer a minha voz soar dura, mas ela se quebra no meio da frase. Ele me abraça forte de repente, e eu me deixo ficar de olhos fechados nos braços dele. 

E então estão acabadas as tardes passeando com ele. As tardes sob as cobertas assistindo filmes, as voltas no caminhão da Instituição. Fim das tentativas tão árduas de controlarmos a nossa libido, os nossos instintos. Não mais carinhos, não mais o cheiro dele, a batida na porta que me elevava o espírito. Solidão de novo. A mais pura, intensa, imensa solidão. Eu estou voltando. Estou seguindo para trás.

Dezesseis dias depois, estou sentada diante dos meus tios. Sei que perdi peso de novo. Meus tios me olham, mas não fazem comentários sobre as roupas mais largas que o normal, embora me olhem com preocupação.

- E então, Tia Atena, é isso. Resolvi aceitar o convite da minha avó.

Meus tios estão me olhando, incrédulos. Estamos sentados na cozinha da casa deles, tomando uma xícara de chocolate quente. Tio Heitor parece indignado, mas quando ele vai abrir a boca, Tia Atena dá um chute nele por baixo da mesa. Eu sei, pois ela erra o chute e acaba me acertando.  Deixo escapar um “ai”, mas todo mundo entende tudo. Ele respira fundo e não diz nada, mas vejo o rosto dele ficando vermelho e sei que ele vai explodir a qualquer momento. Tia Atena diz:

-Mas... o que fez você mudar de ideia tão rápido? Você me disse que estava começando a namorar...

-É, mas não deu certo. E eu quero passar um tempo com meus avós, pois eles também são a minha família. 

Eu não quero contar a verdade toda porque sei que Tia Atena e Tio Heitor vão ser contra eu deixar o Jonathan e a Priscila morando lá. Mas o apartamento é meu, e eu faço o que quiser. O inquilino acabou vagando o apartamento mais cedo, e Priscila e Jonathan se mudaram para lá. Falei com eles por telefone. Nenhum dos dois pareciam estar felizes, mas pelo menos, estavam aliviados. Jonathan conseguiu um emprego de barman em um bar badalado da cidade, enquanto Priscila conseguiu um emprego online trabalhando de casa. A vida continuaria para todos nós. 

Mas estou diante dos meus tios agora, decidindo a minha vida; continuo:

-Não vou me mudar para lá, vou ficar apenas alguns dias ou semanas.

Tio Heitor explode finalmente:

-O suficiente para aquela ... aquela senhora encher sua cabeça contra o seu pai! Ela vai inventar uma porção de histórias horríveis sobre ele – ele berra.

Eu perco a compostura:

-E por que ela faria isso? Meu pai está morto, e minha mãe também. Ela não teria motivos. Eu não tenho nada a ver com essa história deles.

Tia Atena tenta acalmar os ânimos:

-Parem de gritar, ou então os vizinhos vão chamar a polícia... Heitor, ela tem direito a visitar os avós. 

Ele a fuzila com o olhar. Eu alinhavo tudo:

-Ela tem razão. Tenho o direito, e vou. De primeira classe. No próximo mês.

-Mas você ainda estará em período de aulas! – ele diz.

-Mas eu já passei de ano, tenho nota sobrando. Posso ir um mês mais cedo.

Tio Heitor bufa de indignação:

- Acho que seu pai cometeu um erro enorme emancipando você! Deveria tê-la deixado sob a nossa guarda!

Arregalo os olhos:

-Sério? Por que? Eu sei muito bem cuidar de mim! Meu pai fez um ótimo trabalho comigo, tio. Não precisam se preocupar. Não estou aqui pedindo permissão, tio, apenas comunicando minha decisão. Afinal, devo muito a vocês. (Abrando o tom de voz).

Tia Atena está coma cabeça apoiada na mão, cotovelo sobre a mesa, enquanto desenha círculos com o dedo no tampo de madeira. Sei que eu os estou decepcionando. Mas é a minha vida.

Mais tarde, nós jantamos juntos a macarronada quase fria e sem sabor da minha tia, que naquela noite estava ainda pior, e então, após ajudá-la a lavar os pratos, eu me despeço deles e vou embora para casa. 


(continua...)





segunda-feira, 13 de junho de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - PARTE 8


 Parte 8


Eu e Jonathan temos passeado muito por aí, à pé. Ele deixa o carro da instituição aqui em casa no meio da tarde e nós vamos andar. Não tem muitas casas onde moro, mas tem uma estrada linda, um parque que ninguém frequenta que fica a mais ou menos meia hora à pé daqui de casa (nem sei por que alguém construiu um parque onde não tem ninguém) e a gente gosta de sentar no banquinho velho de madeira, ou de nos balançarmos nos balanços enferrujados. Quando começa a escurecer, o céu fica lindo, em tons de laranja, e nós voltamos para casa. E quando chegamos em frente ao meu portão, já é noite. Ele entra no caminhão e vai embora. 

Eu entro em casa e vou fazer os deveres da escola, ou assistir a um filme. Raramente convido Jonathan para entrar durante a noite, pois tenho medo do que possa acontecer, da gente não conseguir resistir. Quando o convido, nós comemos alguma coisa e nos sentamos um pouco na varanda. Mas ele nunca demora muito, pois se descobrirem na instituição, que ele anda usando o carro para vir namorar, não vão mais deixá-lo usá-lo. A gente se vê duas ou três vezes na semana, e ficamos juntos por umas três horas, um pouco mais, um pouco menos.

Tio Heitor passou aqui ontem à noite de carro, justamente no momento em que eu e o Jonathan estávamos sentados de mãos dadas na varanda. Ele diminuiu a marcha, baixou a cabeça para me olhar, buzinou e acenou. Acenei de volta. Pensei que cedo ou tarde, tia Atena ia aparecer por aqui para indagar sobre o Jonathan. Mas o que eles tem com a minha vida? Sou emancipada. Dona do meu nariz. 

Bem, ela me liga na mesma noite:

- Oi, Valentina. Tudo bem? Só estou ligando porque fiquei preocupada... Heitor me disse que viu um rapaz na sua varanda.

Ela sempre vai direto ao assunto. Respondo:

- Ah, é o Jonathan. Um amigo. Na verdade, estamos namorando.

Escuto a respiração dela acelerar:

- Mesmo? Ahn... que bom, fico feliz que você ... mas...

- Pode ficar tranquila, Tia Atena, eu sei me cuidar. Por isso meu pai me emancipou antes de morrer. Porque ele sabia a filha que tinha.

Achei que dizendo aquilo, ela entenderia o recado, mas minha tia continua a falar:

- Claro, claro, mas... é seu primeiro namorado, e se quiser conversar sobre isso, é só me chamar. Você sabe, precisa ter cuidado.

- Ainda não transamos, se é o que você quer saber. Mas eu sei me cuidar, tenho aulas sobre isso na escola. E meu pai me deu muitos livros sobre o assunto. Não se preocupe, tia.

Silêncio por alguns segundos.

- Valentina... eu sinto como se você estivesse nos expulsando da sua vida. Cada vez nos vemos menos. E sempre que eu ligo, você se mostra tão escorregadia... quase hostil. Por que? Fiz alguma coisa errada?

Sinto pena dela, mas penso que eu também sento a mesma coisa a respeito deles. Eram casados há tanto tempo, e  como viviam sem filhos desde sempre,  acho que me afastar seria melhor para todos.

-Não, tia. É que eu tenho sentido vontade de ficar mais sozinha, seguir, aprender a viver. Mas eu sei que posso sempre contar com vocês. Amo vocês dois.

-Nós também a amamos, Valentina. E por favor, vê se aparece por aqui. Traga seu namorado.

-Ok. A gente liga para marcar alguma coisa. Beijos, tia.

Mas até hoje, tal visita não aconteceu. Porque outras coisas aconteceram.

Estou em casa, mais ou menos cinco dias após minha conversa com tia Atena. É bem cedo ainda, manhã de sexta-feira, e estou pronta para ir à escola. Estou terminando de tomar café quando a campainha toca. Vou atender a porta, achando que é Tia Atena, mas para minha surpresa, deparo com alguém que eu jamais esperaria ver na minha porta algum dia.

Priscila.

Ela me olha. Eu a olho. Ela realmente me olha, da cabeça aos pés, talvez fazendo as mesmas comparações que eu fiz ao ver a foto dela. Ela parece triste, pois com certeza, chegou às mesmas conclusões que eu. Sinto vergonha por ela estar se sentindo tão humilhada. Vejo que lágrimas chegam até a beirada dos olhos dela. Mas ela as segura firme. Sinto que ela está arrependida de ter vindo. Ela abre a boca, como se fosse dizer alguma coisa, mas de repente os lábios dela se curvam para baixo e ela vira as costas, começando a se afastar da casa. Sem pensar, bato a porta atrás de mim e saio atrás dela.

Ela chega ao ponto de ônibus, e se senta no banquinho de madeira, sem me olhar. Eu me sento ao lado dela, e de repente, pego em sua mão. Nós nos encaramos. Digo:

- Vamos lá para dentro conversar?

Ela concorda com a cabeça, e sei que ela está com aquele nó horrível na garganta, que vai fzer com que ela transborde se tentar falar. Mas eu a conduzo de volta até minha casa. Abro a porta, ela entra e para para olhar em volta. Acho que ela nunca entrou em uma casa de verdade. Ela diz:

-É bonito aqui...

Eu a puxo, fazendo-a sentar-se no sofá. Ela se senta, e percebo que ela dá uma mexidinha nos quadris, tentando adaptar-se à maciez do sofá. Percebo que eu gosto dela. E isso não é bom. Ela me olha, aceitando o copo de suco que eu estendo para ela. Bebe um gole, depois mais dois, depositando o copo sobre a mesinha de centro. Priscila é uma menina tímida, percebo que ela não sabe como começar a falar comigo. Vejo os olhos dela furtivamente pousando sobre quase tudo na casa. Coisas que ela nunca teve. Ela demora-se sobre a lareira. A TV de 50 polegadas. A estante cheia de livros. Minha casa é um pouco bagunçada, mas aconchegante. Noto que se eu não disser nada, poderemos ficar ali durante muito tempo, então eu arrisco:

- Meu nome é Valentina. Mas acho que você já sabe. Como encontrou minha casa?

Ela gagueja:

- Eu me escondi no caminhão um dia. Queria saber aonde o Jonathan estava indo. Quando terminamos, ele não me disse nada sobre outra garota, mas eu sabia. Queria saber quem ela era... quem você é. Mas ele só me disse que nosso namoro estava morno demais, e eu achava melhor ficarmos apenas amigos. Jurou para mim que você nem existia.

Ela riu, eu continuei muito séria. Respondi:

- Ele veio aqui um dia buscar as roupas do meu pai... ele morreu há alguns meses, sabe.

-Sinto muito por você.

Senti sinceridade nas palavras dela.

- Então... nós começamos a conversar, ele um dia me disse que tinha namorada. Eu disse que não me envolveria em um triângulo amoroso. Então ele saiu daqui feito uma bala, nem se despediu. Depois ele voltou, dizendo que tinha terminado tudo com a namorada. Eu não sabia nada sobre você... quero dizer, antes de eu... antes de eu me apaixonar por ele.

A cada palavra que eu dizia, embora tentasse ser cuidadosa, eu sabia que a fazia sofrer. Mas ela precisava saber. Ela estava ali para isso. Não queria mentiras, nem seria justo.

Ela respirou profundamente:

- Sua casa é linda. Deve ser legal morar aqui.

-É. Quero dizer, acho eu já me acostumei, mas penso em vendê-la um dia. É muito grande só para mim.

-Como você consegue ficar aqui sozinha? Não tem medo?

Essa foi a primeira vez que pensei que morar sozinha em uma casa afastada poderia ser perigoso. Encolhi os ombros:

-Não sei... simplesmente nunca pensei nisso. Mas talvez eu devesse, sei lá.

Ela concordou com a cabeça.

-Mas acredito que você não está aqui para falar da minha casa, né?

- Não. Na verdade... fiquei surpresa quando você me reconheceu. Não esperava por isso.

- Jonathan me mostrou uma foto sua uma vez. Eu pedi a ele. Queria saber como você é.

Ela olha para si mesma, instintivamente levando a mão ao rabo de cavalo para ajeitá-lo. Algumas mechas de cachos escapam do elástico.  Ela alisa as calças jeans. Ergue as duas mãos deixando as palmas para cima, em um gesto de impotência:

-Bem, eu sou assim, como você está vendo. Não sou bonita, não sou glamourosa, não me visto bem. Cada peça que você vê em meu corpo foi doada por outras pessoas. Todas as minhas roupas são de segunda mão. Até mesmo esse anel no meu dedo. Mas eu tinha Jonathan, então tudo fazia sentido para mim. Até você chegar na vida dele e virar tudo de cabeça para baixo.

Ela ergueu a voz um pouco na última frase, me fitando.

-Escute, se você veio aqui para fazer eu ficar com pena de você, isso não vai funcionar.  Pensei que você fosse melhor que isso. Afinal, ele falou muito bem de você. 

Ela riu, erguendo-se do sofá e caminhando até o outro lado da sala:

-Pena de mim? Não preciso da sua piedade, Valentina. Só queria que você me entendesse. E eu vim porque eu estava curiosa sobre você. E sabe, você é bem mais bonita do que eu, enfim, eu perdi pra você.

- Que eu saiba, não estamos em uma competição, Priscila. Eu não tirei o Jonathan de você, eu não teria entrado nessa história se...

-“Se” o que? Quando ele te disse que tinha namorada, você poderia ter dado um pé nele.

-Mas como, se ainda nem estávamos namorando? E eu disse para ele que não seria um terceiro elemento na vida de ninguém!

Ela dá uma gargalhada maldosa, e eu me sinto tão oprimida, que deixo a sala.

Estamos ambas gritando. Vou até a cozinha e pego um copo de água, bebendo tudo. Ela vai atrás de mim. Recosta-se no alpendre, de braços cruzados, me olhando. Diz:

-Desculpa, eu não queria parecer grosseira.

Concordo com a cabeça:

-Nem eu.

-Sabe, minha vida não é nada fácil, e agora então... eu vim aqui porque não tinha outra saída! Eu estou grávida, e não quero abandonar meu bebê como a minha mãe fez comigo! Eu só tenho 17 anos, porra! Se eles descobrirem que eu estou grávida, vão tomar meu bebê e dar para adoção! É isso que eles fazem lá na Instituição.

Meu coração parece inchar, obstruindo a minha fala. Sinto meu rosto enrubescer: então ela está grávida do Jonathan! Cada palavra dela é como um punhal na minha garganta. Porque eu estou irremediavelmente apaixonada por Jonathan.

Eu me apoio na parede para não desabar. Olho para ela, que tem os olhos vermelhos, e vejo as lágrimas rolando no rosto dela. Digo a primeira coisa imbecil que me passa pela cabeça:

-Há quanto tempo você está grávida?

- Quatro meses.

Instintivamente, olho para a barriga dela, disfarçada pelo blusão de lã bem largo, cujas mangas cobrem as mãos.

-Ele sabe?

- Não. Ainda não. 

- E por que você não contou ainda?

-Porque eu ... porque ele terminou comigo. Na verdade, eu não sei o que eu vou fazer da minha vida. Mas achei que eu precisava vir aqui e contar a você.

Pronuncio as palavras mais árduas que eu preciso pronunciar:

- Você quer que eu termine com ele?

Ela demora a responder.

-Eu não sei... não sei se adiantaria alguma coisa. Isso não faria o Jonathan se apaixonar por mim de novo. Mas acho que  se ele resolvesse assumir o filho até eu fazer 18 anos, pelo menos ele poderia me ajudar. Já tem 21 anos. É maior de idade. Pelo menos isso já me deixaria mais tranquila. Ao mesmo tempo, o Jonathan não tem nada, nem um lugar para morar com meu bebê. 

Ela se senta na cadeira, colocando os cotovelos sobre a mesa e a cabeça entre as mãos. Priscila é o retrato do desamparo, do puro desespero. Ela precisava de um rumo, de um apoio. A única coisa que eu não deveria ter dito sai da minha boca, em palavras desajeitadas:

-Já pensou em tirar?

Ela me encara:

-O que? Matar meu filho? Nunca! Seria prático para você, não?

Percebo a tolice do que eu acabo de dizer:

-Me desculpe, isso foi... estúpido da minha parte. Desculpe. Eu quero ajudar. Como posso ajudar?

Ela diz, enxugando o rosto com a manga da blusa:

-Eu vou contar ao Jonathan hoje mesmo. Daqui a pouco, a barriga vai aparecer. A gente precisa tomar uma decisão. Depois a gente volta a conversar, quero antes ver a reação dele.

- Você acha que eu devo terminar tudo com ele, não é? Isso facilitaria as coisas?

-Não vim aqui pedir isso. Só vim porque estava curiosa sobre você.

-Mas você não está sozinha, Priscila, eu quero ajudar. Olha... eu... meu pai me deixou um apartamento que está alugado. Não é grande, mas... o contrato vence daqui a dois meses. Eu posso deixar você morando lá.

Ela balança a cabeça:

-Mas eu sou de menor, não posso morar sozinha. A não ser que eu me casasse.

Eu entendo logo a lógica daquele drama. Eu tenho que abrir mão do Jonathan. Eu tenho que cortar pela raiz uma linda plantinha que já estava crescendo e se tornando uma linda planta tão verde e tão bonita.

-Eu sei que não.

Ela se aproxima de mim, mas eu me recuso a encará-la. Ambas estamos cheias de sentimentos confusos. Ela me diz:

- Vocês não precisam terminar. A gente se casa de mentirinha. 

-Mas você gosta dele.

- É verdade, eu gosto dele, mas do que adianta se ele não gosta mais de mim? Olha...  tudo isso que aconteceu não é culpa de ninguém, mas quem tem menos culpa disso tudo, é esse bebê que eu estou esperando.

Coisas práticas surgem em minha cabeça:

-Você já foi a um médico?

-Ainda não. Não tenho como ir sem que o pessoal da Instituição fique sabendo de tudo. 

-Ok, eu vou te levar no meu médico.

Vejo o pânico nos olhos dela.

-Não se preocupe, eu pago a consulta e os exames. E eu posso pagar. Vou ligar hoje mesmo para marcar uma consulta.

Ela hesita, e me olha desconfiada:

-Por que você faria tudo isso por mim?

Rebato:

-Por que não faria? Você está aqui, e precisa de ajuda. Ou é orgulhosa demais para colocar a vida do seu bebê em risco? Olha, Priscila, eu sou a única pessoa que pode te ajudar agora. Sejamos realistas, o Jonathan não tem um centavo no bolso. Ele me disse que o salário que ele recebe na instituição é bem baixo.

-Mas não é obrigação sua me ajudar.

Meus sentimentos estão misturados dentro de mim. Eu tenho pena dela, e a odeio ao mesmo tempo. Também odeio o Jonathan. Eu não queria estar envolvida em uma história como essa. Mas eu estou. Ela está aqui, na minha frente. Eu sou a única pessoa no mundo que pode ajudá-la. Na minha cabeça (meu pai sempre me ensinou a ser prática e a pensar rápido) eu já tenho tudo resolvido: eu vou pedir o apartamento quando o aluguel vencer, e o Jonathan se casará com ela, e os dois se mudarão para lá, e eu... eu vou para Paris. 



A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...