segunda-feira, 10 de junho de 2013

ACEITAÇÃO



ACEITAÇÃO - PARTE 1


Passei aquela manhã terrível tentando compreender a presença daquela jovem no velório de meu marido.  Entre as minhas lágrimas, notei - e todos notaram; apenas fingiram não perceber para não causar-me constrangimento - aquela mocinha, menos da metade da minha idade, que chorava compulsivamente, embora tentasse ser discreta. Os cabelos loiros caíam em cachos sobre os ombros. Vestia uma blusa cor-de-rosa de lã macia, e calças jeans. Era do tipo 'mignon'. Não consegui ver a cor de seus olhos, pois usava enormes óculos escuros, que só retirava para secar as lágrimas - ocasiões nas quais mantinha-se de cabeça baixa. Não falou com ninguém, e ninguém falou com ela. 

Vi quando Gertrudes e Zilá, minhas melhores amigas, conversavam baixinho enquanto dirigiam olhares curiosos e zangados àquela jovem. Achei melhor não fazer nada, nem aproximar-me dela. Tércio, meu falecido marido, estava morto. De nada adiantaria vasculhar um passado que nem sequer existia mais, um passado que seria, de repente, embrulhado junto com o presente e o futuro e atirado em uma cova. Eu nunca fora do tipo que sofre sem necessidade. Procurava minimizar meus sofrimentos, de maneira muito prática. Alguns me diziam fria por causa de minha atitude, e nem percebiam que era a minha maneira de continuar e tentar ser feliz, pois já sofrera muito na vida.

E fora Tércio quem resgatara-me de meus sofrimentos ao trazer-me para sua vida, salvando aquilo que restava da minha, e intensificando-a. 

Após o sepultamento, recebi as condolências finais de minhas amigas, e as foram-me ditas as frases clichés em ocasiões como aquelas - "Se precisar, me ligue, estou aqui," "Força, a vida continua," "Ele era um bom homem," "Está com Deus, descansou" e outras frases que se diz tentando significar alguma coisa quando tudo perde o significado e nada há a ser dito. Certifiquei minhas amigas de que estaria bem e de que não, não seria necessário que uma delas passasse a noite comigo, pois queria ficar sozinha. Quando todos se foram, tomei um táxi e fui para casa. A tarde já ia longe.

Apenas quem já perdeu alguém sabe exatamente o que significa chegar em uma casa vazia que estará sempre vazia dali em diante. Ver as roupas ainda penduradas no varal, o livro começado sobre  a mesinha de cabeceira, as chaves jogadas no console, o perfume sobre a cômoda e em todo lugar da casa... é preciso acostumar-se com o fato de que a gente jamais vai se acostumar. É preciso saber que aquela pessoa se foi, e pronto; nem todas as lágrimas a trarão de volta. Mesmo assim, a gente as chora em profusão. Só de raiva, impotência e teimosia. E saudade. mas a saudade não vem logo após o sepultamento. Ela é caprichosa. Vem mais tarde. Vem de repente, quando a gente desperta durante a noite e depara com o travesseiro ao lado onde deveria haver uma cabeça repousando. Vem quando a gente escuta algo interessante no rádio, ou vê algo interessante na TV, e não tem com quem comentar. A saudade é muito caprichosa mesmo! Ela se esconde na caixa de fotografias que cai no nosso pé quando a gente abre o armário do corredor. Vem no cheiro da comida do vizinho, que era o prato preferido de quem se foi. Fica tatuada e adormecida na pele, e desperta nas noites frias. Às vezes, é trazida até nós por uma canção que a gente escuta de repente. Ou vem assim, do nada. Apenas vem. Porque está lá, aonde o outro não está. A saudade substitui uma presença.

Deixei-me mergulhar em meu mar de fossa e de luto durante as duas semanas seguintes. Não fui trabalhar. Dei folga à Rose, minha funcionária. A loja de presentes permaneceu fechada. Atendi a apenas duas ligações, apenas para certificar as minhas amigas de que eu ainda estava viva; depois, pedi que me deixassem em paz. Disse que as avisaria, caso eu morresse. 

E após as duas semanas durante as quais não atendi à porta, não tomei muitos banhos, não comi muita coisa e nem passei muito tempo de pé, achei que era chegada a hora de aventurar minha cara para fora do edredon. É verdade, a vida continua, e até o luto cansa. Eu ainda era jovem, estava no auge de meus 42 anos. Havia muito a se fazer. Ainda teria que cuidar da papelada do inventário, abrir a loja, acionar o seguro de vida de Tércio (engraçado como os seguros de vida só funcionam depois que a gente morre), enfim, voltar a ter algo parecido com uma vida.

Lembrei-me de uma cena no hospital, assim que fiquei sabendo que Tércio não tinha resistido ao enfarto fulminante; uma amiga de minha sogra, que a acompanhava, bradou ao saber da notícia: "Se pelo menos vocês tivessem tido filhos, agora estaria amparada!" Tive que me segurar para não quebrar a cara dela! Um filho teria feito com que Tércio permanecesse vivo? Em que um filho seria capaz de amparar-me? Eu é quem teria de ampará-lo, e sozinha agora! Tem gente que não sabe mais o que fazer para mostrar-se indiscreta e inconveniente. Minha sogra pediu-me desculpas, mas no fundo, eu sei que ela pensava da mesma forma. 

Liguei para ela assim que me desenterrei dos edredons. Naquelas duas semanas, ela não me telefonara nenhuma vez. Não éramos grandes amigas. Sei que ela não aprovou-me desde o início, e que fez tudo o que estava ao seu alcance para que Tércio se casasse com a ex-namoradinha de infância. Ela foi fria e monossilábica ao telefone. Nem perguntou como eu estava. Compreendi que aquela era a primeira e última vez que a contataria após a morte de Tércio, pois não tínhamos realmente nada a nos dizer.

Liguei para minhas amigas, Gertrudes e Zilá. Elas ficaram realmente contentes ao ouvirem a minha voz. Eu fiquei feliz de saber que elas tinham ficado felizes. Minhas melhores amigas formavam um lindo casal - sim, elas eram um casal, e mais um motivo para que minha sogra me odiasse. 
Tomei um bom, e morno, e perfumado com sais, e longo banho de banheira. Chorei de novo. Sempre choraria, todos os dias.

Reuni a papelada que achei que seria necessária para o testamento. Cuidaria de tudo no dia seguinte mesmo. Passei uma vassoura na casa, pois o barulho do aspirador me desintegraria. Tirei o pó. Joguei o edredon das dores na máquina de lavar. Tomei uma xícara de café bem forte e comi uma bolacha salgada. Joguei fora as frutas podres da fruteira e o leite azedo da geladeira.
 Ao abrir as panelas que estavam sobre o fogão, deparei com o estrogonofe e o arroz - nossa última refeição juntos antes de eu receber a notícia, duas horas após ele ter voltado para o escritório de pois do almoço ,cobertos de pelos verdes. O cheiro era tão terrível, que joguei fora as panelas também.

Pronto; primeiras urgências resolvidas.

Agora, a vida, essa urgência que é a mais urgente das coisas.








terça-feira, 4 de junho de 2013

O MESTRE





O MESTRE 

Eu estava perdido, sem saber para onde ir ou em quem acreditar. Desejava ardentemente que os céus se abrissem e que uma luz branca e brilhante descesse sobre mim, e dissesse: "Faça isto!" ou "Venha por aqui!". Escolher um caminho a seguir tinha se tornado um dilema sem fim, e eu vagava pelo mundo procurando por meu Mestre. 

Alguém havia me dito que "Quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece." E eu acreditei. Achava que estava pronto, mas nada do Mestre aparecer. Sim, eu estava perdido, cada vez mais perdido.

Um belo dia (seria mesmo um 'belo' dia?) embrenhei-me por uma floresta, dizendo a mim mesmo: "Das duas, uma: ou encontro meu Mestre nesta floresta, ou uma fera há de me devorar e por fim a essa minha inútil existência." Assim dizendo, fui caminhando floresta adentro, cada vez mais, até que as copas das árvorers estavam tão próximas umas das outras, que eu mal conseguia ver o céu. Tudo tornou-se escuro, e a atmosfera, pesada e úmida.

Nem sei ao certo por quanto tempo caminhei, tendo o chão lamacento e coberto de folhas secas como apoio - e escorregando inúmeras vezes - escutando o sibilar das víboras que me espreitavam e outros estranhos ruídos que nem soube identificar. O canto dos pássaros há muito cessara, pois nem mesmo eles se atreveriam a voar por aquelas paragens. A escuridão crescia, e eu não podia dizer se era dia ou se era noite.



Até que um dia, senti que o chão tornava-se mais firme, e que a claridade aos poucos aumentava. 

Foi nesse dia que eu o vi, sentado sobre uma pedra bem no meio de uma clareira. Um raio de sol incidia sobre seus longos cabelos brancos, e havia uma aura de luz a sua volta.

Fiquei ainda algum tempo a observá-lo. Ele segurava uma pequena vara e escrevia sobre o solo. De repente, ele ergueu a cabeça e olhou bem na minha direção. Quando nossos olhos se encontraram, um arrepio percorreu todo o meu corpo, e ele fez sinal para que eu me aproximasse.

Com o coração cheio de esperança, caminhei em sua direção, sem jamais deixar de olhar para ele. Finalmente, minha busca havia terminado! 

Sentei-me no chão, bem diante dele, e fiquei aguardando suas instruções. Ele apenas olhava para mim, e tão grande era a paz de seu olhar, que até esqueci de que já não comia há vários dias. Ele começou a procurar alguma coisa no bolso de sua camisa, e puxando um cigarro para fora do bolso, colocou-o na boca, dizendo: "Há muito eu esperava por este momento! Você tem fósforos?"

Eu mal pude acreditar no que estava ouvindo! Toda a minha vida dedicada à preparação do encontro com aquele que seria meu Grande Mestre, e ele nada mais era que um homem comum, e ainda por cima, viciado em cigarros? Retruquei:

"Como assim? Eu pensei que você seria meu Grande mestre! Passei dias e dias cruzando esta floresta escura e perigosa apenas para encontrá-lo, e isso é tudo o que você tem a me dizer?"

Ele pareceu surpreso. Respondeu: " Bem, eu não sei o que você quer dizer com essa estória de mestre...nem sei por que você se deu ao trabalho de cruzar a floresta para chegar até aqui. Bastaria ter usado a rodovia", ele disse, apontando-me o caminho mais adiante. "Meu carro está estacionado lá. Esta é uma das florestas mais escuras e perigosas da qual já ouvi falar, e certamente alguém que consegue, sozinho, cruzá-la sem ser morto pelas víboras e por outras centenas de animais selvagens que aqui vivem, com certeza, não precisa de mestre algum."

Dizendo isso, ele se foi.

Naquele dia, tornei-me um iluminado.



segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Cão Negro






Há muito tempo, ele vinha observando aquela casa. Ficava escondido no meio do mato com um binóculo, e sabia a hora e a chegada de todos na casa, os hábitos dos moradores - quem dormia mais tarde, quem acordava mais cedo , o tempo que o portão permanecia aberto antes que cada membro pudesse entrar com o carro. Sabia que quem levava mais tempo, era a filha mais nova, que tinha tirado a carteira de habilitação há pouco tempo. Seria mais fácil quando ela estivesse chegando.

Já teria alcançado seu objetivo há algum tempo, não fosse pelo enorme cão preto que circulava sempre pelo quintal da casa, com ar ameaçador, músculos fortes, olhar atento, sempre farejando o ar. Às vezes, o cão preto olhava diretamente para o ponto onde ele estava, como se pudesse vê-lo. Sabia que estava totalmente escondido, mas sentia o olhar do cão sobre si. Ele era realmente enorme e ameaçador, e seria muito difícil passar por ele. Ou melhor, seria impossível!

Bolas de veneno estavam fora de cogitação, pois apesar de sua profissão pouco ética - ele era um ladrão de residências - amava cães. Tinha vários em sua própria casa. Normalmente, jogava apenas carne com tranquilizantes. Mas apesar de já ter feito a tentativa naquela casa, o cão apenas cheirara o pedaço de carne, sem comê-lo, enterrando-o no quintal. Era treinado...

Já fazia mais de um mês que ele observava, pacientemente. Só que toda paciência tem seus limites. Decidiu jogar a bola de veneno, embora lamentasse profundamente. Mas trabalho era trabalho. E aquela era a casa da vez. Ora, até mesmo os ladrões precisam comer... 




Por saber saber que o cão era treinado, e que possivelmente, não comeria o veneno, daquela vez ele caprichou mais: comprou um bife de filé, fritou-o bem, colocando molhos deliciosos que, acreditava, seriam irresistíveis para o cão. Preparou tudo durante a tarde, e de madrugada, quando a última luz da casa foi apagada, jogou o bife por cima do muro e foi para o seu posto de observação. Tivera o cuidado de usar luvas, para que seu cheiro não contaminasse o bife, confundindo o cão.

Observou atentamente e viu o momento em que o cão aproximou-se do pedaço de carne, cheirou-o e começou a comê-lo lentamente. Não sabia que a família tinha comido bifes no jantar, e que por isso, o cão acreditou que alguém da casa tinha deixado aquele bife para ele. Alguns minutos apenas, e o cão começou a agonizar sobre o gramado. A família acudiu, chamando um veterinário, mas foi em vão: o cão veio a óbito.

Ele resolveu que seria melhor esperar algum tempo antes de entrar na casa, pois a família poderia suspeitar que o cão tivesse sido morto por alguém com a intenção de roubar; assim, aguardou ainda alguns meses.

E foi nas férias de verão que ele decidiu colocar seu plano em ação. 

Pulou o muro em uma noite de quarta-feira. Era um expert em desligar alarmes e abrir cofres, e isso não seria nenhum problema para ele. Andava calmamente pelo jardim, na certeza absoluta de estar só no terreno da casa, quando ouviu um rosnado seco atrás de si. Virou-se vagarosamente, sentindo-se gelar, e deparou com o imenso cão preto, que se preparava para atacá-lo. Tentou correr, mas o cão alcançou-o facilmente, e antes que ele saltasse sobre seu pescoço, o ladrão morreu de um ataque cardíaco.

Quando a família retornou da viagem, encontrou o corpo em decomposição no quintal da casa, e deram graças a Deus pela sua sorte. Justamente no momento em que tinham perdido o cão de guarda, um ladrão sofrera um ataque cardíaco antes que pudesse assaltar-lhes a casa!


Maria dos Cachorros





Maria dos Cachorros

Pisando torto, de pé no chão, ela caminhava claudicante e cingida de trapos. Seu olhar era de louca. Riso frouxo, banguela e sem propósito.
Vivia cercada de cães vira-latas de todas as cores e tamanhos, que tinham verdadeira adoração por ela. Eram seus protetores quando a molecada das escolas se reunia a sua volta, gritando zombarias e atirando-lhe pedrinhas: "Êh, maria dos Cachorros! Êh, Maria Maluca!" Furiosa, a cachorrada partia no encalço dos moleques, que fugiam, deixando-a em paz por algum tempo.

Tornara-se personagem conhecida em Petrópolis. Costumava esmolar pelas ruas, sempre com o olhar perdido e o sorriso sem dentes e aberto, mesmo quando não lhe davam nada. Gostava de dançar em praça pública, ao som de uma música que só tocava em sua imaginação. Acho que era feliz.

Sua fala era arrastada, difícil de entender. Ela mancava completamente, não só no andar, mas no raciocínio, na fala, na vida. E sem ajuda de ninguém, com todas as suas limitações físicas e mentais, catava papelão para sobreviver. Sempre cercada por seus fiéis companheiros caninos. A gente ogo sabia quando a Maria dos Cachorros vinha chegando, mesmo antes de vê-la, porque se ouvia os latidos da matilha ao longe.

Acho que os loucos não sentem frio, pois muitas vezes passei por ela em noites de inverno e ela estava sem agasalho, descalça, rodopiando sua dança, sorrindo, o vento cantando entre os trapos que a vestiam. Bem, dizem mesmo que Deus dá o frio conforme o agasalho...

Um dia, o jornal da cidade resolveu entrevistá-la. Saiu uma reportagem bem grande, fotografia, chamada na primeira página. Ela dizia ter uma filha que era muito rica, mas que não queria saber dela. Não sei se essa filha realmente existia ou se era parte de seus devaneios. Isso foi há muitos anos atrás, e não me lembro do que mais estava escrito na reportagem. Mas todo mundo comentava, no dia seguinte, a estória de Maria dos cachorros.

Às vezes ela sumia, diziam que estava em um asilo para loucos. Eu ficava tentando imaginar o que os cachorros dela faziam enquanto ela estava 'fora', mas por incrível que pareça, quando ela reaparecia na cidade, eles estavam com ela. Será que ficavam na porta do hospício, esperando ela sair?

Ela sumiu e não apareceu mais. Alguns dizem que ela morreu. Posso imaginar a cena: Maria dos Cachorros sendo guardada em sua tumba pelos seus fiéis cachorros, que uivam para ela em noites de lua.



quinta-feira, 30 de maio de 2013

Sobre as Folhas Secas - Minimalista









Mãe e filho passeiam por um parque em uma manhã cinzenta de outono, quando deparam com um pássaro morto sobre uma pilha de folhas secas. O menino aponta para o pássaro:

-Mãe, o que aconteceu? Por que ele não está voando?

A mãe responde:

-Ele está morto, meu filho. Como estas folhas secas...

O menino olha para as folhas secas, pensa por alguns momentos, e volta a indagar:

-Mãe, quanto tempo dura uma vida?

A mãe suspira, pensativa, elaborando  uma resposta que possa satisfazer a curiosidade da criança:

-Depende, meu filho... uns morrem mais cedo, outros mais tarde... mas o mais natural, é que morramos todos velhinhos, velhinhos, como estas folhas secas.

O menino  pega entre os dedos algumas folhas, e as esmigalha, deixando cair ao solo o pó que se forma. Ao mesmo tempo, olha para a árvore que as deixou cair, e se lembra de que quando eles passam por ali no verão, a árvore está cheia de folhas, e não tem os galhos nus como agora. Olha para a mãe,  limpando das mãos as últimas migalhas do pó de folhas secas e dizendo:

-Você não entendeu minha pergunta, mãe! Eu quero saber quanto tempo dura uma vida!





segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Anel da Verdade - Conto minimalista




Ganhou o anel de presente de um admirador secreto. Na caixa que continha o anel, um bilhete: "Todas as vezes que uma mentira for proferida por quem estiver usando este anel, sua pedra brilhará com grande fulgor."

Nunca se viu uma pedra tão brilhante!


sábado, 25 de maio de 2013

AS DUAS COMADRES






AS COMADRES


Duas comadres conversavam ao portão de suas casas, sentadas em cadeiras de poliuretano que tinham sido colocadas na calçada, sob a frondosa sombra de uma jaqueira. A tarde era quente, e elas, de olhos semicerrados pela claridade do sol, observavam a vida e os vizinhos que passavam.

De vez em quando, uma delas fazia um comentário:

-Olha lá, Dona Maria! Lá vai a Gigi, da casa amarela! Até que enfim pôs a cara pra fora de casa!
-Pois é, Dona Joana! A mulher fica o dia inteiro enfurnada dentro de casa, fazendo só Deus-sabe-o-quê... não sai nem para ir à missa!
-Que pecado!
-Pois é, que pecado! E enquanto isso, a tal da Lurdinha passa o dia inteiro batendo perna na rua!
-Dizem até que está corneando o marido, aquele coitado...
-Coitado!
-Pois é, coitado... também, quem mandou casar com mulher bonita e bem mais nova?
-Falando nisso, e o trouxa do Zezinho que casou com aquele museu?
-É mesmo! Coisa estranha, mulher mais velha com rapaz novo... com certeza, deve ter um fogo entre as pernas que nem maremoto apaga!
-Se é! E enquanto isso, a Maricota... tá sabendo? Dizem que o marido arranjou outra, porque ela é frígida! Não sente nada!
-Nada? Nadica?
-Nadica de nada!

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Alguns minutos depois, Dona Joana retoma a conversa:

-Você viu que pouca vergonha aquele programa de ontem?
-O tal de' rialitichou?'
-Esse mesmo! Foi dia de festa, e depois da bebedeira e da rebolação, aquela esfregação debaixo do edredon... que horror!
-E mesmo! Esse tipo de programa deveria ser proibido!
-E não é que é mesmo?
-Ora, se é! E eu acho que aquela sirigaita loura, a da trança...
-A Juliana?
-Essa mesma! É ela que tem que ser eliminada, pois é a mais falsa ali dentro!
-Você acha mesmo? Eu acho que a morena é pior.
-Quem, a Paula?
-Essa! Eu nunca lembro os nomes direito...

O calor da tarde só aumentava. Enxugando o suor da testa com as costas da mão, Dona Maria comenta:




- Sabe, meu filho anda frequentando um centro espírita.
-Que horror!
-Pois é. Já fiz de tudo para ele parar de ir. Já até pedi ao Padre Jackson para conversar com ele, mas não adiantou!
-Olha, eu conheço uma rezadeira que é tiro e queda! Ela faz cada simpatia que não falha!
-É mesmo? Me dá o endereço?
-Faço melhor: vou lá com você amanhã, topa?
-Topo! Mas... não olhe agora, comadre... mas a filha da Dona Gigi acaba de passar de mãos dadas com aquele motoqueiro!
-O de cabelo comprido?
-Esse mesmo.
-Dizem que não vale nada!... Mas... aquela lá que está chegando, não é a Lucinha, sua filha? Na garupa da motocicleta?!


Empertigando-se, a outra responde:

-É ela sim, ora. Por que?
-Mas não fica bem pra moça de família andar por aí de moto com cabeludos, comadre! Se eu fosse você, dava uma chamada nela!
-Ora, amiga! O padre ensinou que não se deve julgar os outros!
-Tem razão, comadre. Tem razão...

Naquele momento, uma enorme jaca despenca da árvore, espatifando-se no chão, bem aos pés das duas comadres.

domingo, 19 de maio de 2013

O Teatro





O Teatro


Era um velho teatro abandonado. A caiação caía aqui e ali, mas os dourados e cristais dos lustres que ainda restavam, falavam de tempos de glória. Entre as paredes, quem fosse mais sensível poderia adivinhar ecos de aplausos e vozes que pediam 'bis' e ovacionavam performances. Alguns dos assentos luxuosamente estofados de vermelho, ainda resistiam. No chão, uma sujeira de muitos anos: velhos programas de ópera, papeizinhos de balas que nem eram mais fabricadas e marcas arredondadas dos muitos saltos agulha que passaram por ali, ainda impressas nas madeiras do piso. Tudo coberto por uma densa camada cinzenta de poeira.

O palco, lindamente adornado por figuras de rostos em madeira trabalhada, ainda tinha aquela atmosfera de sonho que só os teatros muito antigos apresentavam. Ainda estavam penduradas as cortinas de veludo, embora cobertas de pó e rasgadas aqui e ali devido à ação das traças.

E foi numa noite de tempestade, enquanto procurava por abrigo, que ela chegou até ali. Os raios pincelavam a noite com rajadas de uma luz maldita, acompanhada pelo horrível e assustador trovejar da voz de mil deuses. Ela, uma mulher de meia-idade, corria pela rua, tendo alguns livros apertados contra o peito, procurando por uma marquise ou um prédio onde poderia abrigar-se. Seu velho casaco de pele marrom estava totalmente encharcado. Os cabelos pingavam, e seu olhar enlouquecido divagava, enquanto andava rapidamente pelas ruas totalmente vazias. Parecia murmurar alguma coisa inaudível, apertando ainda mais os livros a cada ribombar de trovão.




Finalmente, ela avistou as ruínas do imponente teatro. Correu para lá. A porta da frente estava trancada por cadeados e correntes, embora houvesse uma greta - abertura pela qual ela olhou para dentro, onde reinavam o silêncio e a escuridão. E foi através daquela abertura que ela conseguiu passar. Não conseguia ver nada, e deitou-se no chão, adormecendo.

Na manhã seguinte, ao abrir os olhos, a primeira coisa que ela viu foi o imenso lustre de cristal bem no meio do teto, e levantando-se, apoiou-se nos cotovelos e deu com o palco. O teatro era bem grande, e ecoava seus passos. Sentiu que tinha finalmente chegado ao seu lugar; aquilo tudo era para ela! Ouviu uma tosse; descobriu que não estava sozinha. Outros haviam se abrigado ali antes mesmo dela. Eram uns poucos mendigos que já tinham acendido o s seus fogareiros para preparem um pouco de chá ou café aguado para começarem o dia.

Fazia frio. Seu casaco de pele encharcado fazia com que ela tremesse, mas ela não tinha outros agasalhos. Um dos mendigos dirigiu-se a ela:

-Olá! Se achegue mais, venha aqui desfrutar do calor do fogo.

Ela olhou para ele, considerando a oferta. Ele percebeu, após uma simples olhadela, que a moça vestia roupas de qualidade, embora sujas e rasgadas, e que seu braço era ornado por um reloginho antigo e valioso que já não funcionava. Viu que ela - se não tivesse ganho as roupas de alguém - tinha berço. Percebeu os livros apertados contra o peito e contou-os; eram três.

Ela suspirou, e retirando o pesado casaco de pele - ele o esticou no chão, perto do fogo, para que secasse -  sentou-se junto ao fogo, os livros ainda no colo da saia. Esticou as mãos para o fogo, deixando que o calor descongelasse seus magros dedos, em cujas unhas ainda havia resquícios de esmalte vermelho. O mendigo olhava para ela de soslaio, e sabia que se tratava de alguém de berço. Agora, tinha certeza!

-De onde você vem? - ele perguntou. Ela olhou para ele com um certo desprezo, como se tivesse sido perturbada pelo som de sua voz. Respondeu-lhe:

-Você não me conhece? Não, claro que não... como poderia? Vê-se que você não frequenta os mesmos lugares que eu! Sou uma escritora famosíssima! Já viajei o mundo todo, e escrevi muitos livros. Mas só sobraram esses três...


Naquele momento, o mendigo teve pena dela, pois percebeu que ela delirava, os dedos da loucura acariciando de leve seus cabelos sujos. Por piedade, decidiu incentivar-lhe a fantasia:

-Mesmo? Quanta honra, então! Posso ver seus livros?

Ela voltou a apertá-los contra o peito, negando com a cabeça.

-Calma! Não vou tomá-los de você... Mas diz aí: só estes sobraram por que?

Ela sorriu, erguendo a cabeça:

-Porque todos os outros foram vendidos, é claro! Meu editor é muito bom. E sabe, eu também sou uma excelente atriz. Canto , danço e represento muito bem. Enfim, sou uma artista completa!

-Nossa! Não me diga! Então por que não faz um show para nós?

Os demais mendigos fizeram uma roda em volta dos dois, e aplaudiram o pedido do primeiro. Ela olhou para eles, e sentindo-se amedrontada, levantou-se de repente.

-Eu vou embora...

Mas ao chegar à porta do teatro, viu que chovia torrencialmente, e teve que voltar. Sem nada dizer, sentou-se novamente entre eles, e um dos mendigos ofereceu-lhe uma caneca de plástico com um pouco de chá e um pedaço de pão velho, que ela aceitou sem a menor cerimônia, e devorou imediatamente. Um deles, com ar zombeteiro, perguntou:

-O que é que a madame está fazendo por essas bandas? Se é tão famosa assim, por que está vestida com essas roupas sujas e velhas?

O primeiro mendigo mandou que ele se calasse, pois não desejava ferir os brios da mulher. Mas ela, com ares de dama de alta sociedade, respondeu:

-É que eu estou disfarçada. Sabe como é, gente famosa não pode andar por aí de cara limpa, pois os fãs - eu tenho muitos fãs - nos cercam e nos pedem autógrafos o tempo todo.

Todos começaram a rir alto! A mulher, muito séria, levantou-se, dirigindo-se ao palco:

-Não acreditam em mim, não é? Pois eu vou provar a vocês quem eu sou!


Começou a dançar, e sua dança era quase atáxica; os movimentos eram  desconexos, acompanhados por gritos de loucura, num arremedo de canção. Ela rodopiava, emitindo notas dissonantes, enquanto os mendigos riam até não poder mais; mas no final da performance, eles perceberam que ela tinha conseguido fazê-los rir de verdade, pela primeira vez, em muitos anos. Começaram a aplaudi-la.

E ela, ao erguer a cabeça após curvar-se em agradecimento, com os olhos embaçados pelas lágrimas, levou à mão ao coração e agradeceu novamente. Olhou para o teatro quase vazio, e teve a ilusão de vê-lo cheio, as cadeiras luxuosas ocupadas por cavaleiros de fraque e damas ornadas de jóias. O lustre iluminado brilhou, deixando que faíscas coloridas de cristal chegassem até suas pupilas.

 Ela entrou em um imundo só seu, optando por deixar o que lhe restava de sua sanidade para sempre em algum lugar daquele teatro; a loucura a fazia muito mais feliz.


A Resposta - conto minimalista





Quantas e quantas vezes ela tentou encontrar a resposta... talvez porque nem sempre formulasse a pergunta corretamente; alguém lhe dissera que uma pergunta bem formulada, já continha, em si, a resposta.

Mas não aquela pergunta! Já tinha pesquisado em livros e enciclopédias, tinha tentado achar a resposta na internet, perguntara aos sábios e profetas... mas ninguém sabia responder. Até viajou pelo mundo, tentando, em vão, encontrá-la. Anos e anos de sua vida dedicados ao impossível! Quanta coisa boa havia perdido, devido à sua mórbida obsessão... os anos passaram, ela começou a envelhecer. 


Quem sabe, pensou, com a maturidade, a resposta que desejava não viria até ela? Mas nada aconteceu... os anos trouxeram-lhe problemas de memória. Logo, acometida pelo Alzheimer, faleceu entre as brumas do esquecimento, sem lembrar-se, sequer, qual tinha sido a pergunta.





terça-feira, 14 de maio de 2013

O Apartamento 401





O APARTAMENTO 401

Não me importei com os restos de velas queimadas nos cantos dos cômodos, no dia em que o corretor de imóveis levou-me para ver o apartamento. Achei o aspecto meio-sombrio – afinal, ele estivera fechado durante muitos anos, e precisava de reformas. Além disso, eu tinha acabado de vir de um dia claro de sol para a penumbra úmida de um apartamento fechado. Natural que sentisse um leve arrepio ao entrar.
O preço estava um pouco abaixo do mercado, e o corretor explicou-me que o proprietário estava interessado em vendê-lo logo. Era um apartamento amplo, bem-dividido, e com a vantagem de estar em um prédio antigo de apenas quatro andares, em uma rua não central, e por isso, tranqüila. Eu sempre tivera preferência por apartamentos em prédios antigos, pois os cômodos eram sempre maiores, principalmente as cozinhas e banheiros, em comparação aos cubículos modernos que já tinha visitado. Seria meu primeiro apartamento, digo, meu mesmo, como proprietária, e não simples inquilina. Como todo mundo, eu também tinha o sonho da casa própria, e juntando minhas economias às economias que acabara de herdar de uma tia distante, poderia, finalmente, realizá-lo.

Ele ficava no último andar, número 401, o que dava ao proprietário a vantagem de desfrutar de um pequeno terraço, que media vinte metros quadrados. Ali eu planejava colocar alguns vasos de plantas, umas cadeiras, quem sabe até uma pequena piscina plástica no verão. A vista era bonita, dando para a parte principal da rua asfaltada larga e arborizada, algumas poucas casas antigas e os outros prédios igualmente baixos. Apaixonei-me pelo terraço, mais do que havia gostado do apartamento.

As reformas começaram logo depois de fechado o negócio. George, meu namorado, ajudou-me a contratar os trabalhadores e comprar o material necessário. Eu mal podia conter minha alegria, e nós dois saímos para comemorar ao final da primeira semana dos trabalhos de reforma. Fomos jantar em um restaurante caro, e bebemos uma garrafa de excelente vinho.

Como eu tinha que economizar, estava temporariamente morando novamente junto com meus pais, mas confesso que fiquei um tanto decepcionada com a reação de mamãe ao visitarmos o apartamento. Enquanto papai, entusiasmado, dava sugestões para a reforma, ela apenas olhava tudo, caminhando de braços cruzados atrás de nós, sem nada dizer.

Ao perguntarmos o que ela estava achando, ela apenas disse: “Eu não sei... não me sinto tranqüila neste lugar. É como se alguém nos observasse...” papai ralhou suavemente com ela, que não disse mais nada até sairmos. Mas quando chegamos em casa, eu estava na cozinha, preparando uma xícara de chá, quando ela entrou, já pronta para deitar-se:

“Olá, filha, vim desejar-lhe uma boa noite.”
Dizendo isso, ela pegou uma xícara de chá para si mesma e ambas nos sentamos à mesa da cozinha, bebericando nosso chá com biscoitos. Eu percebi que ela queria dizer alguma coisa, mas não sabia como começar. Encorajei-a:

“Algum problema, mamãe?”
Ela me olhou, e após tomar um gole de chá, começou:
“Filha, eu sei o quanto você está feliz com seu novo apartamento, e quero que saiba que pode contar conosco para o que precisar.”
“Obrigada, mas acho que não é isso que você quer dizer-me, mamãe.”
“Olha, Rose, eu sou sua mãe, e jamais gostaria de vê-la magoada, mas preciso falar... eu não gostei daquele apartamento. Ele é... sombrio, triste, e... e...”

Antes que ela continuasse, eu disse:
“Ora, mãe, você nunca aprova as minhas escolhas! Assim como não aprovou meu trabalho, meu namorado, é claro que não ia mesmo gostar do apartamento!”
“Querida, você sabe que mudei de ideia quanto ao George, e sei que ele é um bom rapaz. Acho que só fiquei um pouco apreensiva por ele ser divorciado. Quanto ao seu trabalho, você tem formação em Psicologia, e de repente, resolve abrir uma loja de flores... que não tem nada a ver com seu ramo de trabalho, mas tudo bem, a loja está dando certo, e eu respeito. Mas... aquele lugar me dá arrepios!”

Lá em um canto escuro e distante de minha mente, eu já sabia que ela tinha razão, mas não podia deixar-me levar por superstições. O aspecto sombrio do apartamento era devido ao fato de ele estar fechado há muito tempo, e o elevador barulhento de portas pantográficas também não ajudava, mas após uma reforma, tudo ficaria perfeito. E foi o que eu disse a ela, embora percebesse que não a tinha convencido.
Na segunda-feira seguinte, ao chegar ao apartamento para verificar o andamento das obras, Paulo, um dos pedreiros, veio falar comigo um tanto contrariado:

“Dona Rose, eu não entendo! Colocamos todos os azulejos do banheiro na sexta-feira, e quando chegamos, hoje de manhã, eles estavam todos caídos no chão, muitos deles, quebrados...”
“Ah, não, Paulo! Custaram uma fortuna, você deveria ter tomado mais cuidado!”
“Mas nós fomos cuidadoso, Dona Rose! Olha, eu trabalho nisso há mais de trinta anos, e nunca vi nada assim acontecer. Pode ter sido a umidade, não sei... choveu muito no sábado. Mas olhe... os azulejos que sobraram nas caixas vão ser suficientes para substituir os que quebraram. O jeito é fazer tudo de novo...”

Fiquei enfurecida, e liguei para George, mas ele me garantiu que Paulo e seus dois auxiliares eram da maior confiança, e acabou me convencendo a dar a eles uma outra chance. Naquele mesmo dia, eles recolocaram os azulejos e ficou tudo bem. Paulo fez questão de não cobrar pelo dia de trabalho.

Depois daquilo, outros contratempos aconteceram: a parede da sala, pintada de novo, apareceu com uma enorme mancha marrom-escura, e teve de ser repintada; o cano da cozinha quebrou-se dentro da parede recém-azulejada, e a água inundou o apartamento durante a noite; todo o trabalho na cozinha teve que ser refeito, e apartamento, o corredor e escadas do prédio, tiveram que ser secos. Além disso, tive que pagar pela repintura do teto do apartamento do andar inferior, para onde a água vazou.

Os vizinhos reclamavam do barulho no apartamento à noite, e foi difícil convencê-los de que ninguém ficava à noite no apartamento, e que as reformas eram todas feitas durante o dia. Com medo de que fossem ladrões, pedi a Paulo que passasse uma ou duas noites no apartamento, e os barulhos cessaram.

Além de tudo isso, as lâmpadas novas queimavam em questão de horas, o que fez Paulo pensar que toda a fiação elétrica precisava ser trocada. E mesmo após conseguirmos um eletricista que fez todo o serviço, as lâmpadas queimavam após pouco tempo de uso. Resultado: as reformas que estavam planejadas para durarem apenas seis meses, estenderam-se para quase um ano!

Quando, finalmente conseguimos terminar, meus pais e George ajudaram-me com a mudança em um final de semana. Após arrumarmos tudo, George perguntou-me se eu queria que ele ficasse comigo durante a noite, mas eu disse estar cansada, e preferia tomar um banho e ir cedo para a cama. Assim fiz: após todos saírem, enchi a banheira antiga com água bem quente, meus sais perfumados e mergulhei dentro dela até o pescoço, fechando os olhos. Eu me sentia feliz, tranqüila e realizada.
Alguns minutos depois, percebi que a luz do banheiro tinha se apagado. Fiquei no escuro, e como não havia nenhuma luz acesa nos outros cômodos, enrolei-me na toalha e acendi a luz do corredor, voltando para a banheira em seguida. Mas em menos de cinco minutos, a luz do corredor também queimou-se.

Contrariada, desisti de meu banho, e após vestir-me, fui até a área de serviço para pegar novas lâmpadas. Instalei-as e fui dormir. Tive um sono pesado e sem sonhos, até as sete da manhã, quando acordei e comecei a vestir-me para o trabalho.

Como ainda houvesse algumas caixas para serem esvaziadas, achei minha blusa branca dentro de uma delas, amarrotada... liguei o ferro de passar para poder alisá-la antes de vesti-la. Estava calmamente passando a blusa, quando de repente, o ferro começou a entrar em curto, soltando faíscas; e era um ferro novo em folha! Puxei-o da tomada, com o coração ainda aos pulos, e escolhi outra blusa.
Chamei o eletricista novamente para rever a fiação elétrica naquela semana, mas apesar de verificar tudo pela segunda vez, ele não encontrou nada errado.

Na sexta-feira, convidei George para passar a noite comigo. Antes de sair de minha floricultura, escolhi algumas rosas e flores do campo para enfeitar o apartamento, e antes que George chegasse, coloquei-as em vasos espalhados pela casa – sala de estar, mesa de jantar e quarto – e fui escolher uma música, enquanto a carne assava no forno. Mas o aparelho de som não ligou, embora eu tentasse repetidamente. O mesmo se deu com a TV: não ligava.

Quando George chegou, surpreendeu-se, olhando em volta, e pelo seu olhar, percebi que a surpresa não era nada agradável... acompanhei seu olhar, e notei, estarrecida, que as flores que eu trouxera e acabara de colocar nos vasos com água, estavam totalmente secas. Estorricadas, como se tivesse sido expostas ao sol durante muito tempo!
Ele olhou para mim de uma maneira estranha, e sorriu, dizendo:
“Ora, Rose, como a proprietária de uma loja de flores deixa as flores em sua própria casa ficarem feias desse jeito?”

Não sei bem porque, decidi que seria melhor não estragar a nossa noite, e fingindo distração, balancei a cabeça, recolhi as flores e joguei-as no lixo.

Jantamos – ou melhor, tentamos, pois a carne estava estranhamente seca, o vinho tinha virado vinagre e o arroz estava com um gosto metálico horroroso que eu não soube explicar de onde vinha – e fomos para o quarto. 

Na manhã seguinte, George acordou mau-humorado, dizendo que aquela tinha sido a pior noite de sua vida. Eu também não vinha dormindo muito bem, mas disse nada. Perguntei-lhe qual tinha sido o problema, e ele me respondeu que tivera pesadelos horríveis, tão horríveis, que nem gostaria de contar-me a respeito deles. Enquanto tomávamos o café da manhã, ele pegou sua caneca e foi sentar-se no sofá, para assistir a um programa matinal sobre carros do qual gostava muito. Eu ia dizer-lhe que a TV não funcionava, mas não tive tempo, pois ao ligá-la, a imagem entrou normalmente.

No final da tarde, fomos até a casa de meus pais visitá-los. Mamãe logo percebeu que George estava com a aparência cansada, e ele confessou-lhe que não dormira bem. Mamãe não resistiu:

“Ah, é aquele apartamento... eu não disse, Rose?”
Perdi a paciência, mesmo sabendo que ela podia ter razão:
“Mãe, por favor, não me venha novamente com essa história!”
Papai tentou amenizar a situação, mas George interrompeu-o, dizendo:
“A senhora também notou? Notou que tem alguma coisa estranha naquele apartamento?”

Ela ia responder, mas papai mudou de assunto:
“Esqueça, George, essa mania que ela tem de espiritismo faz com que ela veja fantasmas atrás de qualquer pilastra, árvore ou cortina. Minha esposa tem a imaginação muito fértil!”

Enfurecida, mamãe respondeu:
“Não sou apenas eu a perceber, e George não é espírita! O que você sentiu, filho?”
“Não sei dizer... pouco antes de dormir, tive a sensação de que alguém me observava. E tive pesadelos a noite toda!”
“Exatamente! Eu também tive esta mesma sensação, de que alguém me olhava de algum canto!”

Levantei-me e pegando minha bolsa, disse:
“Mamãe, se vocês não pararem com isso, eu vou embora! Imaginem só! Investi uma fortuna naquele apartamento, e toda a herança que tia Janete me deixou! Acham mesmo que vou dar importância a estas... estas... bobagens que vocês enfiaram na cabeça?”
“Tudo bem filha, mas... me desculpe, mas eu não posso mentir para você... mas não vou mais tocar no assunto hoje, prometo. Sente-se, por favor!”

E assim, terminamos aquela tarde desconfortável: mamãe pisando em ovos e trocando olhares significativos com George, papai tentando fingir que nada acontecera e eu, emburrada.

Quando George deixou-me em casa, perguntou-me se queria que ele passasse a noite comigo novamente, mas eu disse que achava melhor que ele fosse para casa descansar; afinal, dormira muito mal. Ele me chamou para ir com ele, mas eu disse que não queria ir, pois ainda precisava arrumar algumas coisas.

Assim que abri a porta e entrei, o telefone tocou. Atendi, antes mesmo de acender as luzes, mas do outro lado da linha, apenas escutei uma respiração forte, que me deixou em pânico. Desliguei, mas o telefone voltou a tocar mal o coloquei no gancho, e novamente, apenas ouvi a respiração do outro lado da linha. Desliguei novamente, e ao acender as luzes da sala, mal pude acreditar no que vi:

Bem no meio da parede, a enorme mancha marrom-escura voltara!
Não pude conter um grito assustado, o que fez com que o vizinho da frente abrisse a porta e me perguntasse se estava tudo bem. Era João, um senhor que morava sozinho, aparentando ter algo em torno de sessenta anos. De vez em quando, a filha o visitava. Ele abriu a porta e ficou me olhando, e finalmente, perguntou-me:

“Está tudo bem com você, Rose?”
Ainda ofegante, perguntei-lhe: “Sr. João... será que eu poderia conversar com o senhor um minuto?” Fiz um gesto convidando-o a entrar, mas ele abriu a porta de seu apartamento, dizendo: “Importa-se se conversarmos aqui?”

Entrei, e ele me trouxe um copo de água, enquanto eu me sentava no sofá da sala.
“Sr. João, eu... nem sei como começar, mas... o senhor mora aqui há muito tempo?”
“Bem, quase cinco anos, por que?”
“Nunca notou nada de... estranho no prédio?”

Ele continuou olhando-me, intrigado, antes de responder:
“Você quer dizer... no seu apartamento, o 401?
“Bem, eu... pode ser... quero dizer, quem morava aqui antes de mim?”
“Quando eu me mudei para cá, o apartamento já estava vazio, mas todos nós escutávamos barulhos vindos dele durante a noite. Como se alguém estivesse dando pancadas fortes em uma mesa de madeira. Às vezes, sons de sinos tocando. Gemidos... achamos que poderiam ser ratos, dedetizamos o prédio várias vezes, e o zelador abria o apartamento com a chave-mestra para dedetizá-lo também, mas os ruídos persistiam.”

Terminei meu copo com água, colocando-o na mesinha de centro. Ele continuou, com um meio-sorriso constrangido:
Uma das vizinhas, a Dona Clara, que era espírita, teve a ideia de fazer um ritual. Bem, eu não acreditava muito nessas coisas, mas...”

“E o que aconteceu então?”
“Entramos no apartamento sem a autorização do proprietário. Ela trouxe um grupo de pessoas, oito ao todo, vestidos de branco. Eles cantaram algumas canções, acenderam incensos,velas, charutos... alguns pareciam ter incorporado alguma entidade – lembre-se, eu não sei se acredito nisso- enfim... no final do ritual, ela despediu-se deles e contou-me que eles tinham visto um espírito dentro do apartamento, mais precisamente, na cozinha. E não se tratava de alguma coisa boa... mas que tinham fechado a passagem para ele, e que os ruídos cessariam.”
“E cessaram?”
“Sim, até você comprar o apartamento e dar início à obra.”
“Mas... então, se isso tudo for verdade, isso significa que de alguma forma, eu reabri este... portal, e o espírito voltou!”




Ele encolheu os ombros. Ao invés de responder-me, sugeriu que eu fosse passar a noite em outro lugar, e chegou a oferecer-me o sofá de sua sala. Agradeci, e voltei ao apartamento. Ou melhor: tentei voltar, pois assim que abri a porta da sala, fui invadida por uma sensação paralisante de medo. Pavor, mesmo! Parecia que havia alguma coisa no ar, dentro da casa, algo muito forte e aterrorizante, impedindo a minha entrada.

Decidi entrar no carro e passar a noite com George, mas não mencionei nada sobre o que tinha se passado; apenas menti, dizendo-lhe que havia mudado de ideia e decidido aceitar seu convite. Eu sabia que ele não tinha acreditado... mas não insistiu.
Na manhã seguinte, resolvi não ir trabalhar, e avisei a meus funcionários que passaria o dia em casa. Eu precisava desvendar aquele mistério, e se o problema era meu, e havendo algum perigo, achava que tinha que fazê-lo sem envolver outras pessoas.

Apreensiva, girei a chave na fechadura, e abri a porta. A luz da manhã i
Invadia a sala, e pássaros cantavam lá fora. A atmosfera estava leve, como se nada houvesse por ali, pelo menos, nada de errado. Subi as escadinhas para o terraço e sentei-me ao sol. Fiquei ali pensando, tentando tomar uma decisão. Nunca acreditara em almas do outro mundo, e jamais aceitara os convites de mamãe para participar das reuniões do centro que ela frequentava. Tinha ‘puxado’ o lado cético de papai. Mas chegara um momento em minha vida em que tudo o que enxergava, estava envolvido por uma nuvem de dúvidas. Eu não imaginara nada daquilo – as flores murchas, as luzes se queimando, os azulejos que caíram durante as obras, os aparelhos que não funcionavam direito, as manchas na parede – tudo acontecera realmente. A mancha ainda estava lá! Teria que dar conta dela. Com este pensamento, voltei à sala e, olhando a horrível mancha, disse em voz alta: “Vou dar conta de você primeiro!”

Peguei a lata de tinta na área de serviço, pincel e bandeja. Fiz a mistura e comecei a repintar a parede. Terminei uma hora depois. O resultado ficou bom. Satisfeita, eu disse:

“OK! Esta é a minha casa, e se você quiser ficar aqui, vai ter que entender que quem manda, sou eu! Comporte-se ou então, dê o fora!”
Naquele exato momento, vi a mancha voltando a formar-se diante de meus olhos, desta vez, em vermelho-escarlate, e o toque do telefone quase me fez cair da escada. Atendi, e novamente, a respiração do outro lado da linha. Berrei:

“Escute aqui, seu... seu... desgraçado! Acha que pode divertir-se às custas dos outros? Quem está aí? Quem está aí?”
Uma voz de mulher fez-se ouvir, entre muita estática: “Você... vai morrer!”
“Ora, vá para o inferno!”
“Você vai morrer! Vai morrer! VAI MORRER!!!”

Puxei o telefone da tomada, assustada demais para fazer qualquer outra coisa. Dizia a mim mesma, no meio de todo o terror que tomava conta de minha mente, minha própria voz tentando passar pelas camadas de medo: “Acalme-se, deve haver uma explicação para tudo isso... você vai conseguir desvendar tudo... tudo vai ficar bem!”
Olhei para a parede, e vi que a mancha tinha se tornado novamente castanho-escura. O telefone celular tocou, trazendo-me de volta à realidade. Atendi, apreensiva, mas era mamãe. Nervosa, caí em prantos e contei-lhe tudo.

Ela me encorajava a contar, pedia detalhes. Quando eu já estava no final do relato, ouvi uma gargalhada na linha.
“Mamãe, como você pode rir deste jeito?!”
“Rose, do que está falando? Eu não estou rindo, é claro que não!”
“Está sim,” gritei. Ela reafirmou que não faria algo assim, enquanto a gargalhada ressoava em minha cabeça. Joguei o celular contra a parede, espatifando-o. Vinte minutos depois, mamãe e papai tocavam a campainha. Abri a porta correndo. Eles me abraçaram. Mamãe falou:

“Rose, você vai para casa conosco. Não pode continuar neste lugar.”
Papai olhava a mancha na parede, enquanto tentava montar meu celular quebrado. Eu já estava convencida a ir com eles, mas quando toquei a maçaneta para abrira porta para que pudéssemos sair daquele lugar, ela não girou.

A noite caiu de repente. Tudo ficou escuro e sombrio. Abracei-me a meus pais, enquanto, ao nosso redor, as coisas dentro do apartamento chacoalhavam, e a mancha na parede se abria e uma horrível forma não humana desenhava-se aos poucos. Depois, tudo ficou muito confuso, e pensamos, muitas vezes, que estamos dentro de um mundo onírico, aonde pesadelos estranhos se intercalam. Tudo é irreal. E ao mesmo tempo, tão real! Não sinto meu corpo. Mas sei que estou aqui. Sinto a presença de meus pais, e eles, a minha, mas não nos vemos. Na maior parte do tempo, não vejo nada, mas quando os pesadelos chegam, e começo a enxergar, preferiria não ver. É tudo tão feio, sombrio... estamos presos aqui. Por favor, ajudem-
nos!




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A médium largou a caneta. Estava ofegante, e suava frio. Teve que ser segurada pelos participantes da sessão espírita, ao tentar levantar-se. As pessoas sentadas à mesa soltaram as mãos umas das outras, terminando o ritual.

Um dos participantes aproximou-se da médium que conduzira a sessão, perguntando-lhe em voz baixa:

“E então? Acha que pode ajudá-los?”
Ela suspirou, antes de responder:
“Não sei... bem, pelo menos, já conhecemos parte da história deste local. Seria preciso ficar sabendo do que aconteceu antes. Mas infelizmente, o antigo proprietário desencarnou logo após vender o apartamento à moça, Rose... e ele não tinha parentes. E depois que os corpos de Rose e seus pais foram encontrados aqui, a prima que o herdou vendeu o apartamento sem nem sequer entrar nele.”

Ela parecia muito cansada. Ele perguntou:
“Você está bem?”
“Sim... apenas um pouco cansada, você sabe... bem, a polícia não encontrou evidências de um assassinato ou suicídio. A causa mortis para os três foi ataque cardíaco. Ao mesmo tempo. Parece que todos morreram à mesma hora. Os vizinhos dizem ter ouvido gritos, e quando o senhor do apartamento em frente tocou a campainha, e viu que a porta estava entreaberta, achou-os todos mortos, caídos no tapete da sala.”
“Muito estranho... acho que estamos diante de um dos casos mais estranhos que já estudamos.”

Enquanto os médiuns discutiam na cozinha, um jovem casal estava sentado no sofá da sala, ambos muito assustados, olhando fixamente para uma mancha marrom na parede em frente a eles.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

O LOUCO DA PRAÇA





Quando conseguia algum dinheiro, ele comprava algo para matar a fome ( apenas para manter-se vivo, pois não sentia gosto nenhum em alimentar-se) e com o restante comprava cachaça. O homem que trabalhava no bar já o conhecia, e ele nem precisava dizer-lhe nada; colocava alguns trocados amassados sobre o balcão e o outro lhe trazia um salgadinho que tinha sobrado do dia anterior e um litro de cachaça barata. O Louco apanhava seus pertences , virava as costas e saía, e nenhum diálogo se estabelecia entre eles. Na verdade, o Louco só abria a boca para pedir, mesmo assim, apenas se estritamente necessário, quando o simples ato de estender a mão não surtia efeito. 

Dividia o que conseguia com um cão de pelos castanhos, que o seguia aonde quer que fosse. Não que ele dispensasse ao cão a atenção e carinho que um dono geralmente dedica ao seu animal, mas ambos compreendiam que só tinham um ao outro, e que tudo o que conseguiam um do outro, por menos que fosse, era melhor do que nada.

Aparentava ter uns cinqüenta anos, devido à emaranhada barba crescida, com uns fios grisalhos e foscos, e também por causa das roupas escuras, sujas e fedorentas. O cabelo, uma massa opaca e repugnante, ia-lhe até os ombros, sem corte, sem cor e sem brilho. Como eu já disse, aparentava ter cinqüenta anos, mas na verdade, tinha apenas trinta e cinco. 

Costumava abrigar-se nos jardins dos fundos da Catedral, onde as pessoas raramente iam, a não ser `a noite, quando os casais de classe média-baixa, as prostitutas e os travestis iam procurar por alguma moita sombria que lhes servisse de motel. O Louco fingia nada ver. Nem se sentia excitado, pois há muitos anos não pensava em sexo, e seu próprio membro só era tocado quando precisava satisfazer suas necessidades fisiológicas. 

Se era noite de lua, ele preferia dormir no banco de pedra, que forrava com alguns jornais ou panos sujos, e ficava olhando o céu até que se sentia parte da constelação, e navegando no espaço sideral, adormecia. Quando chovia, uma pequena gruta de mais ou menos metro-e-meio de altura e dois de comprimento, onde ficava a imagem de Nossa Senhora ( ele nunca soube qual Nossa Senhora era aquela) lhe servia de cama. Acomodava-se como podia sob o pequeno altar, tomando cuidado para não causar nenhum dano ( não por devoção, mas por não querer ser enxotado de lá). Mal clareava o dia, ele pegava sua tralha e saía dali antes que o padre abrisse a igreja. Já estava neste arranjo há mais de um ano, e nunca ninguém o perturbara. Pelo contrário, durante as comemorações dos dias santos o padre tornava-se tão caridoso que até lhe servia um prato de sopa ou dois. 

Assim navegava em sua existência: como um rato de porão. E nem almejava ser nada mais do que aquilo. Não tinha memória. Não sabia seu nome, ou de onde tinha vindo, ou se alguém em algum lugar talvez chorasse por ele. Era completamente só, e como não tinha memória, este fato não o incomodava realmente, pois não sabia o que era ter companhia. Alguns mendigos tentaram aproximar-se dele, mas depois de ter tido sua garrafa roubada mais de uma vez, ele aprendeu a desencorajar qualquer tentativa de aproximação; soltava um grunhido profundo, quase pré-histórico, e quem quer que fosse, afastava-se dele imediatamente. 

Talvez por este motivo ficara sendo conhecido pela alcunha de “O Louco da Praça”. 

Num dia de sol, enquanto estava sentado em seu banco de pedra olhando para o nada, percebeu que uma mulher se aproximava dele. Pigarreou, pronto a emitir seu grunhido gutural, mas ao vê-la de perto, o grunhido sufocou-se. O sol por trás dela, formava uma aura de luz à volta de sua cabeça. Seu hábito parecia-se com aquele da santa da gruta, com um véu cobrindo-lhe a cabeça tão completamente que nenhum fio de cabelo ficava de fora. Ele esfregou os olhos com ambas as mãos, pensando tratar-se de uma alucinação. E o cheiro dela... era o cheiro de maçãs frescas, um cheiro que quase trazia à sua memória alguma lembrança enterrada que ele não conseguia atinar. Parecia que a qualquer momento suas lembranças começariam a jorrar para fora de sua cabeça, enquanto uma dor seca percorria cada parte do seu cérebro.Mas nada aconteceu.

Bem, após hesitar um pouco, a mulher esticou o braço e colocou-lhe uma maçã grande, bem vermelha e brilhante diante do nariz. Como ele não fizesse menção de pegar a fruta, ela sacudiu-a levemente, e sorriu. Aquele sorriso despejou-se diante dele como um rio de água fresca diante de alguém a morrer de sede. Ele pegou a maçã, levou-a às suas narinas e aspirou-lhe o cheiro, esfregando-a pelo rosto e pescoço, depois levando-a à boca e desferindo-lhe uma suculenta dentada. O sumo escorreu-lhe pelo canto da boca, e ele lentamente espalhou-o pelo rosto com os dedos. Queria ter aquele cheiro. Nisso, a mulher sorriu-lhe novamente, virou as costas e se foi. Ele ficou ali, saboreando sua maçã até o fim, e de repente a maçã era a mulher, a mesma carne branca, o mesmo cheiro suave porém penetrante, e antes que ele percebesse, seu órgão sexual tornou-se vivo como um vulcão extinto que, após mil anos , entrasse novamente em atividade. Ele dirigiu-se para trás de uma moita e desajeitadamente fez o que pôde para aplacar a fúria de seu vulcão.




A vida passou a ter um significado para ele depois aquele dia. A cachaça tinha mais sabor, e ao invés de entorpecer-lhe os sentidos, parecia trazer de volta o calor do vulcão que havia estado extinto dentro dele. A santa dentro da gruta fazia com que ele se lembrasse da mulher, a única lembrança que ele finalmente tinha. Mas desejava que ela pulasse do passado de volta para ele. Os dias e as noites sucediam-se lentamente, e ela não voltava. A doce lembrança começava a tornar-se levemente amarga e dolorida. 

Começou a sentir-se melancólico nos dias chuvosos. Ficava sentado dentro da gruta, olhando a goteira que pingava no chão, e o som da pequena enxurrada que descia pelo meio-fio parecia o som de milhares de pessoas que choravam. Muitas vezes, sua memória tinha quase explodido de volta à sua mente, e nesses momentos ele sentia uma forte pressão dentro do cérebro, mas nada vinha à tona. A mulher passou a ser sua obsessão. Queria que ela fosse o receptáculo da sua lava vulcânica. Sentia frustração a cada vez que via seu prazer a transbordar-se sobre as folhas dos arbustos.

Um dia, algumas crianças apareceram para brincar no jardim da catedral. Ele acordou com seus gritos e correrias, e como estivesse mais melancólico naquele dia em especial, puxou de lá do fundo de sua alma um uivo pré-histórico que fez com que as crianças saíssem em debandada, uma delas esquecendo uma prancheta com um caderno e um estojo de lápis e canetas. O Louco abriu o caderno e viu que conseguia ler o que estava escrito ali. Achou estranho. Notou que havia muitas folhas brancas, e ficou algum tempo a folhear o caderno, as folhas brancas soltando um cheiro de papel e chiclete de menta ao serem viradas. Quase sem pensar – aliás, ele nunca pensava muito – pegou um lápis e começou a desenhar. Pouco a pouco , foram surgindo formas e mais formas da ponta de seus dedos: lugares, pessoas, objetos. Ele não sabia seus nomes, mas as imagens jorravam aos borbotões, e ele ficou o dia todo desenhando-as, até que a escuridão da noite tornou impossível que ele continuasse. 

Adormeceu com o caderno e o lápis sobre o colo. 

Na manhã seguinte, vieram as palavras. Elas simplesmente surgiam em sua mente, alinhando-se no papel de um modo quase automático, rimando entre si, ritmadas, profusas, através de uma caligrafia longa e simétrica. Era como se ele estivesse psicografando a si mesmo, pois percebeu que sua vida, de algum modo, estava contida naquelas palavras e naqueles desenhos. Faltava um fio, um elo de ligação para que finalmente se lembrasse de tudo.

À noite, veio a dúvida: haveria alguma coisa em sua vida que valesse à pena ser lembrada? Se sua memória o tinha deixado, não seria melhor que tudo continuasse como estava? Porque toda vez que alguma coisa ameaçava vir à tona, ele sentia aquela dor enorme... aquela angústia...

Mesmo a lembrança da mulher e da maçã, que tinham sido a única coisa boa que lhe acontecera da qual podia se lembrar, agora causava-lhe apenas dor e sofrimento.

Por isso, quando a mulher finalmente reapareceu com sua maçã, encontrou apenas um caderno sobre o banco de pedra, cheio de imagens, cheio de palavras. 


A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...