domingo, 19 de maio de 2013

O Teatro





O Teatro


Era um velho teatro abandonado. A caiação caía aqui e ali, mas os dourados e cristais dos lustres que ainda restavam, falavam de tempos de glória. Entre as paredes, quem fosse mais sensível poderia adivinhar ecos de aplausos e vozes que pediam 'bis' e ovacionavam performances. Alguns dos assentos luxuosamente estofados de vermelho, ainda resistiam. No chão, uma sujeira de muitos anos: velhos programas de ópera, papeizinhos de balas que nem eram mais fabricadas e marcas arredondadas dos muitos saltos agulha que passaram por ali, ainda impressas nas madeiras do piso. Tudo coberto por uma densa camada cinzenta de poeira.

O palco, lindamente adornado por figuras de rostos em madeira trabalhada, ainda tinha aquela atmosfera de sonho que só os teatros muito antigos apresentavam. Ainda estavam penduradas as cortinas de veludo, embora cobertas de pó e rasgadas aqui e ali devido à ação das traças.

E foi numa noite de tempestade, enquanto procurava por abrigo, que ela chegou até ali. Os raios pincelavam a noite com rajadas de uma luz maldita, acompanhada pelo horrível e assustador trovejar da voz de mil deuses. Ela, uma mulher de meia-idade, corria pela rua, tendo alguns livros apertados contra o peito, procurando por uma marquise ou um prédio onde poderia abrigar-se. Seu velho casaco de pele marrom estava totalmente encharcado. Os cabelos pingavam, e seu olhar enlouquecido divagava, enquanto andava rapidamente pelas ruas totalmente vazias. Parecia murmurar alguma coisa inaudível, apertando ainda mais os livros a cada ribombar de trovão.




Finalmente, ela avistou as ruínas do imponente teatro. Correu para lá. A porta da frente estava trancada por cadeados e correntes, embora houvesse uma greta - abertura pela qual ela olhou para dentro, onde reinavam o silêncio e a escuridão. E foi através daquela abertura que ela conseguiu passar. Não conseguia ver nada, e deitou-se no chão, adormecendo.

Na manhã seguinte, ao abrir os olhos, a primeira coisa que ela viu foi o imenso lustre de cristal bem no meio do teto, e levantando-se, apoiou-se nos cotovelos e deu com o palco. O teatro era bem grande, e ecoava seus passos. Sentiu que tinha finalmente chegado ao seu lugar; aquilo tudo era para ela! Ouviu uma tosse; descobriu que não estava sozinha. Outros haviam se abrigado ali antes mesmo dela. Eram uns poucos mendigos que já tinham acendido o s seus fogareiros para preparem um pouco de chá ou café aguado para começarem o dia.

Fazia frio. Seu casaco de pele encharcado fazia com que ela tremesse, mas ela não tinha outros agasalhos. Um dos mendigos dirigiu-se a ela:

-Olá! Se achegue mais, venha aqui desfrutar do calor do fogo.

Ela olhou para ele, considerando a oferta. Ele percebeu, após uma simples olhadela, que a moça vestia roupas de qualidade, embora sujas e rasgadas, e que seu braço era ornado por um reloginho antigo e valioso que já não funcionava. Viu que ela - se não tivesse ganho as roupas de alguém - tinha berço. Percebeu os livros apertados contra o peito e contou-os; eram três.

Ela suspirou, e retirando o pesado casaco de pele - ele o esticou no chão, perto do fogo, para que secasse -  sentou-se junto ao fogo, os livros ainda no colo da saia. Esticou as mãos para o fogo, deixando que o calor descongelasse seus magros dedos, em cujas unhas ainda havia resquícios de esmalte vermelho. O mendigo olhava para ela de soslaio, e sabia que se tratava de alguém de berço. Agora, tinha certeza!

-De onde você vem? - ele perguntou. Ela olhou para ele com um certo desprezo, como se tivesse sido perturbada pelo som de sua voz. Respondeu-lhe:

-Você não me conhece? Não, claro que não... como poderia? Vê-se que você não frequenta os mesmos lugares que eu! Sou uma escritora famosíssima! Já viajei o mundo todo, e escrevi muitos livros. Mas só sobraram esses três...


Naquele momento, o mendigo teve pena dela, pois percebeu que ela delirava, os dedos da loucura acariciando de leve seus cabelos sujos. Por piedade, decidiu incentivar-lhe a fantasia:

-Mesmo? Quanta honra, então! Posso ver seus livros?

Ela voltou a apertá-los contra o peito, negando com a cabeça.

-Calma! Não vou tomá-los de você... Mas diz aí: só estes sobraram por que?

Ela sorriu, erguendo a cabeça:

-Porque todos os outros foram vendidos, é claro! Meu editor é muito bom. E sabe, eu também sou uma excelente atriz. Canto , danço e represento muito bem. Enfim, sou uma artista completa!

-Nossa! Não me diga! Então por que não faz um show para nós?

Os demais mendigos fizeram uma roda em volta dos dois, e aplaudiram o pedido do primeiro. Ela olhou para eles, e sentindo-se amedrontada, levantou-se de repente.

-Eu vou embora...

Mas ao chegar à porta do teatro, viu que chovia torrencialmente, e teve que voltar. Sem nada dizer, sentou-se novamente entre eles, e um dos mendigos ofereceu-lhe uma caneca de plástico com um pouco de chá e um pedaço de pão velho, que ela aceitou sem a menor cerimônia, e devorou imediatamente. Um deles, com ar zombeteiro, perguntou:

-O que é que a madame está fazendo por essas bandas? Se é tão famosa assim, por que está vestida com essas roupas sujas e velhas?

O primeiro mendigo mandou que ele se calasse, pois não desejava ferir os brios da mulher. Mas ela, com ares de dama de alta sociedade, respondeu:

-É que eu estou disfarçada. Sabe como é, gente famosa não pode andar por aí de cara limpa, pois os fãs - eu tenho muitos fãs - nos cercam e nos pedem autógrafos o tempo todo.

Todos começaram a rir alto! A mulher, muito séria, levantou-se, dirigindo-se ao palco:

-Não acreditam em mim, não é? Pois eu vou provar a vocês quem eu sou!


Começou a dançar, e sua dança era quase atáxica; os movimentos eram  desconexos, acompanhados por gritos de loucura, num arremedo de canção. Ela rodopiava, emitindo notas dissonantes, enquanto os mendigos riam até não poder mais; mas no final da performance, eles perceberam que ela tinha conseguido fazê-los rir de verdade, pela primeira vez, em muitos anos. Começaram a aplaudi-la.

E ela, ao erguer a cabeça após curvar-se em agradecimento, com os olhos embaçados pelas lágrimas, levou à mão ao coração e agradeceu novamente. Olhou para o teatro quase vazio, e teve a ilusão de vê-lo cheio, as cadeiras luxuosas ocupadas por cavaleiros de fraque e damas ornadas de jóias. O lustre iluminado brilhou, deixando que faíscas coloridas de cristal chegassem até suas pupilas.

 Ela entrou em um imundo só seu, optando por deixar o que lhe restava de sua sanidade para sempre em algum lugar daquele teatro; a loucura a fazia muito mais feliz.


4 comentários:

  1. Olá!Bom dia
    Ana
    Li atentamente seu belo conto...
    vou dar meus pitacos...
    O teatro gastou-se, apodreceu, declina, à força de tanta farsa, de tanta comédia, de tão cínicos dramas , onde a pobreza, a miséria, a fome, são a expressão mais grotesca, deste teatrinho de fantoches que, em lautos banquetes, escondidos , se reúnem, periodicamente, para que a predominância do capital financeiro ganhe corpo, de forma que certos valores do passado fossem substituídos por valores que acentuam o individualismo exacerbado e o lucro fácil, e o povo é mantido alienado e sem cultura , fácilmente manipulável.
    Apesar de dizerem ao contrário,é difícil se acostumar com a ideia de que não nascemos todos com as mesmas chances de brilhar, mas, a alma da atriz continua a mesma.
    Bom domingo
    Beijos

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  2. A vida é um palco onde cada um de nós brilha por si só, mas o teatro teve seus momentos de gloria como tudo na história.
    Um ciclo tudo volta...
    BeijonLisette.

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  3. No princípio pensei reconhecer o espaço de um velho teatro da minha cidade.
    Depois comovi-me com essa pobre grande dama.

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  4. Ana, juro que eu pensei ser essa mulher um fantasma - posto que tua literatura tem esse lado muito bem delineado e deixa a gente na louca expectativa de ler ávidos, até o final. Mas a pobre era apenas uma doida sem eira nem beira... Coitada!

    É isso mesmo ou ela tinha sido uma artista? Afff...

    Gostei do clima de suspense, você é mestra nisso.
    bacios

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