sábado, 4 de maio de 2013

Flores Secas - Parte VII







Diogo estava sentado no banquinho de madeira, junto ao portão da casa de seus avós. Eles lhe disseram que teria uma visita naquela tarde, e ele olhava ansioso para a estradinha curva que seguia depois do portão da casa , entre as muitas árvores, sumindo de vista, tentando segurar sua expectativa. Seria sua mãe? Será que ela estaria vindo para ficar junto deles?

Finalmente, viu quando três pessoas se aproximavam da casa, vagarosamente, iluminadas pelo sol poente. Naquele momento, ele se levantou. Havia duas pessoas mais velhas e um homem, mais jovem, que sorriam para ele. Os mais velhos se apresentaram como Hugo e Idalina, seus avós maternos; e o rapaz apresentou-se como Fernando, seu tio, irmão de sua mãe. 



                                                     
Cândida passeava pelos cômodos do casarão, apreciando sua obra de bom-gosto. Trazia um grande sentimento de justiça. Pensava que , finalmente, após tanto sofrimento, desfrutava do que era seu por direito. Pena que sua mãe não estava mais viva. Pena que ela não tinha irmãos, nem ninguém que realmente a amasse. Pena que seu coração tornara-se duro e frio, impenetrável. Tinha tudo o que sempre sonhara, e ao mesmo tempo, não tinha nada.
Continuava a dar suas festas, que iam ficando cada vez mais mal-faladas. Mas começava a enfadar-se delas.
 Notava que quando andava pela rua, os homens viravam as cabeças para olhá-la, com voracidade nos olhos, e as mulheres – quando acompanhadas de suas crianças – viravam-lhe o rosto, puxando os filhos para junto de si. Era conhecida como Cândida, a devassa. Alguns atá diziam que o casarão tornara-se um antro de prostituição, onde o amor e o sexo eram obtidos através de altas taxas. Mas pelo menos isso, não era verdade. Cândida tinha dinheiro de sobra, administrando tudo o que Amaro juntara durante todos aqueles anos em que vivera afastado da beleza, em sua vida espartana.Ademais, seus advogados tinham finalmente conseguido localizar a fortuna de Margarida em um banco Suíço, graças à Guiomar, que devolveu-lhe uma chave e alguns documentos que achara num bauzinho que pertencera à Margarida. Claro, não sabia do que se tratava, mas Cândida sabia muito bem.
Agora, tinha mais dinheiro do que conseguiria gastar em muitos anos. E ela fazia questão de não economizar em nada. Fora os bens e propriedades , das quais ela tinha vendido algumas, havia muito dinheiro acumulado nos bancos. E o cheque de pagamento mensal , que era entregue religiosamente pelos sócios de Amaro. 


Sabia que os advogados já moviam em silêncio uma ação contra ela, a fim de bloquear os bens de Fernando. Queriam evitar que ela dilapidasse toda a fortuna. Mas, como única herdeira dos bens, não estava sendo fácil para os advogados defenderem a fortuna de Amaro. Sem contar que ela mesma contava com excelentes advogados, que sempre ganhavam as ações que moviam contra ela.E Cândida tinha a favor de si o fato de que pagava todos os meses para manter Amaro na clínica onde estava internado, uma instituição caríssima. Ela no fundo sentia pena dele, e pensava nele como mais uma vítima de Margarida.
Até ia visitá-lo, mas ele apenas olhava através dela. Ela tentou conversar com ele. Disse-lhe quem era. Contou-lhe sua estória. Mas Amaro parecia não poder ouvi-la. Num dado momento, movida pela piedade, ela segurou-lhe a mão. Aquele gesto inesperado fez com que ele a olhasse e a enxergasse pela primeira vez. Mas não disse nada, voltando à sua apatia após alguns segundos. Mas durante aqueles poucos momentos em que ela estava ali, segurando-lhe a mão, ele criou vida novamente. Ela percebera. E também percebera o quanto Amaro ainda era um belo homem, embora destruído. 
Depois disso, ela passou a contratar os melhores médicos para cuidar dele. Queria relatórios semanais sobre tudo o que acontecia com Amaro: os tratamentos a que era submetido, suas menores reações, o que lhe davam para comer, etc. Mandou que redecorassem seu quarto no hospital, pagando muito caro por isso. Assim, ele não se sentiria mais como um doente, pensava ela. 



Cuidou pessoalmente dos detalhes: mandou que cobrissem uma das paredes com tecido xadrez escocês, combinando com uma confortável poltrona que instalou num dos cantos do quarto. Acarpetou o chão com um belo e caro carpete cor-de-chocolate e acortinou as janelas com seda bege. Pôs um vaso de flores na cabeceira da cama que deveria ser trocado a cada dois dias, mantendo assim flores sempre frescas ao lado dele. Também providenciou-lhe trajes mais dignos que ele pudesse usar, abolindo os ridículos camisolões do hospital. Pagava bem aos enfermeiros para que cuidassem de Amaro com especial atenção. 
De vez em quando, ela ia visitá-lo. Sentava-se ao lado dele e lhe falava sobre muitas coisas. Contava-lhe sobre seus anseios de moça jovem, rica e solitária, muitas vezes contando detalhes picantes de seus relacionamentos esporádicos. Ele tornou-se uma espécie de confidente para ela, com a vantagem de que não ouvia o que ela dizia.
Uma vez, perguntou ao médico a idade dele: 44 anos. Ela tinha 22. Amaro poderia ser seu pai. Isso fez com que ela passasse a olhá-lo mais do que com simples piedade, mas com uma certa ternura.
                                                    
Lá de dentro de sua mente, ele contemplava a bela jovem que vinha visitá-lo. Gostava de sua presença, e fragmentos do que ela dizia conseguiam alcançar sua mente, embora ele não pudesse comunicar-lhe isso. Vê-la fazia com que ele se sentisse diferente. 
Mas havia uma memória alojada no canto mais escuro de sua mente, que ele vinha tentando trazer à tona desde o dia em que fora encontrado por Guiomar, caído no chão. Desde então, fechara-se totalmente para o mundo e seu único esfôrço era acessar aquela memória. Mas parecia-lhe que uma força maior tentava afastá-la dele. O rosto de Margarida se sobrepunha entre ele e o que ele queria lembrar. E era o mesmo lindo rosto, mas tomado de pavor. 
Até que um dia, enquanto ainda era madrugada e todos dormiam no hospital, ele acordou com um grito. Logo enfermeiras entraram correndo no quarto, encontrando Amaro sentado em sua cama, banhado em suor. Mas apesar de toda a sua angústia, ele estava de volta. Ele se lembrara.
O homem que agonizava no chão dissera-lhe algo. O que ele dissera ficara apagado de sua mente durante aqueles anos todos, pois o que ele havia dito era terrível demais. Mas, durante um sonho, tudo se revelou.
Ele estava novamente de volta àquele horrível dia. Acabara de chegar em frente à casa, empurrando o carrinho de seu bebê, que estava vazio. Sabia de antemão o que iria encontrar, pois já tinha vivido aquela cena antes. A rua estava deserta e silenciosa, e um vento forte soprava, espalhando folhas secas pelo chão. Deu um passo em direção ao portão, que rangeu quando ele o empurrou. 
A casa estava envolta pela penumbra, mas às vezes uma fraca luz amarelada iluminava a tétrica cena. Um forte cheiro metálico, um cheiro de sangue, chegou-lhe ao nariz.



Ele ouvia um choro de mulher – o choro de Margarida, à medida que ia subindo os degraus da varanda, aumentando de intensidade. Ele deixou o carrinho vazio na varanda, empurrando a porta de casa. O choro era tão forte que deixava-o quase louco, e o vento soprava mais forte. Mas ele precisava continuar, precisava ir em frente e descobrir a verdade. Foi então que ela apareceu na frente dele, bloqueando-lhe o caminho. Ele parou e olhou para ela, e leu em seus olhos a angústia e o medo. Teve pena dela e abraçou-a. Mas quando olhou para ela novamente, seu lindo rosto tinha se transformado em uma horrível máscara. Ele soltou um grito, empurrando-a. Viu quando ela foi erguida pelo vento, como uma boneca, e subiu às alturas, sendo engolida por um tufão cinzento. Ele entrou na casa.
No chão, a mesma cena de anos atrás. Ele sabia que aquilo tudo já tinha acontecido, e não passava de um cenário que ele teria que atravessar para chegar ao que realmente precisava saber. Assim, caminhou até o homem que jazia no chão. Ele agonizava. Mas abriu os olhos e com as forças que lhe restavam, ergueu o braço, puxando a cabeça de Amaro de modo que seu ouvido ficasse bem junto à sua boca:
“Margarida. Ela é minha irmã. Ela matou nossos pais. Ela matou todos nós. Eu tenho... as páginas do diário... a confissão.”
Agora tudo se tornara claro. Ele abolira de sua vida toda a beleza, acreditando que ela o traíra; depois, enlouqueceu, acreditando que ela era inocente. Agora, toda a verdade sobre Margarida viera à tona. E era muito mais terrível do que simplesmente uma traição.
Mas onde estariam as páginas do diário, as que continham a confissão de Margarida?



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