sexta-feira, 3 de maio de 2013

Flores Secas - parte IV





Diogo está brincando na escola. É hora do recreio. A professora observa as crianças de longe. As meninas brincam de roda, e do lado oposto do pátio, alguns meninos jogam futebol ou bolinhas de gude. Diogo está no segundo grupo. É muito bom nisso. 

Diogo tem um amigo, Plínio. Estudam juntos desde o jardim de infância. Ele também brinca com os outros meninos, mas passa a maior parte do tempo na companhia de Plínio. Os dois têm algo em comum, já que Plínio também perdera a mãe ao nascer, só que é criado pelos avós . Diogo também pensa que sua mãe morreu no parto, embora não saiba muito bem o que significa esta palavra. Alguém lhe explicou que parto é o momento que a gente nasce. Ele pareceu entender melhor.

As professoras da escola são muito solidárias e carinhosas com os dois “pobres órfãos”, como elas os chamam entre si. “coitadinhos, serem criados sem as mães... e o outro menino... ainda bem que não sabe da verdade.”

A escola é onde Diogo sente-se melhor, pois ali, sente-se amado. É um menino popular. Não precisa andar 'pisando em ovos', como na sua casa, a todo momento preocupado em não perturbar a paz e o sossego. 

Mas um dia, Diogo recebe uma triste notícia: Plínio vai mudar-se para uma outra cidade. Isso aconteceria dentro em breve. Diogo sente-se desolado, pois está perdendo seu melhor amigo, aquele com quem ele mais se identifica. Apesar de nunca ter tido autorização para levar seu amiguinho à sua casa, ele é sempre bem-recebido na casa de Plínio, e tratado como um convidado especial, com direito a bolo de chocolate e tudo o mais. Onde mais poderia ser recebido daquela maneira? Nem mesmo em sua própria casa, onde nunca se assam bolos ou se fazem doces de compota e pudins de leite. Nem mesmo no dia de seu aniversário pode convidar seus amigos da escola ou vizinhos. Seu pai, nessas ocasiões, pede que Guiomar compre um bolo na padaria e leve para a escola. Para ele aquilo é normal. Pensa que é assim também com os outros garotos. Até que o convidaram para uma das festas de aniversário, e ele ficou sabendo da diferença.



Os dias passam rapidamente e logo chega a hora de Plínio partir.
O dia seguinte seria o último dia de aula de Plínio naquela escola.
Mas Diogo amanhece com febre, e lá fora chove torrencialmente. Mesmo assim ele se levanta e veste o uniforme da escola, mas ao sentar-se para o café da manhã, notam que seu rosto está vermelho e que ele respira com dificuldades. O pai manda-no de volta para a cama, sob protestos. Diogo resolve explicar que aquele seria o último dia de aulas de seu melhor amigo, mas Amaro é irredutível, e não gosta de ser contrariado. Assumindo um tom de voz frio e cortante, que Diogo sempre temia, aponta-lhe a direção de seu quarto e manda que fique na cama. Ao mesmo tempo, pede a Guiomar que lhe dê um remédio para baixar a febre e dá instruções para que cheque a temperatura do menino a cada hora, e caso a febre volte, que chame o doutor. Depois, vai para o escritório, onde vários clientes importantes já deveriam estar aguardando por ele.
Mas Diogo tem o mesmo temperamento do pai, embora sufocado. E justo naquele dia, este temperamento resolve vir à tona. Assim que Guiomar lhe dá o remédio e checa sua temperatura pela segunda vez, constatando que a febre baixou, e como já se sentisse um pouco melhor apesar da garganta dolorida, Diogo veste o uniforme da escola e sai pela tempestade afora sem nem mesmo lembrar-se de pegar um guarda-chuvas, e ainda chega a tempo de assistir as duas últimas aulas. O problema é que Guiomar logo dá por sua falta, e telefona para Amaro.




Na escola, os dois amigos se despedem e trocam seus endereços em pedacinhos de papel, na esperança de que possam escrever um para o outro, ou quem sabe, visitarem-se quando se tornarem adultos. Mas no caminho de casa, ao puxar de seu bolso encharcado o endereço que o amigo lhe entregara, Diogo percebe que a tinta da caneta está borrada. É impossível ler o que está escrito.
Ao mesmo tempo, Plínio deixa o endereço cair do bolso de seus shorts ao entrar no carro. O papelzinho voa pela calçada e cai numa poça d´'água sem que o menino perceba. O carro se afasta. É o final de uma grande amizade.
Cabisbaixo, Diogo sente que uma mão pesada puxa-no pela gola da camisa molhada e joga-o dentro do carro; é seu pai. Ele permanece calado, enquanto ouve a voz fria e cortante do pai dizer-lhe que ele estava de castigo por uma semana. Não poderá nem mesmo ir à escola. Terá que ficar dentro de seu quarto, com as janelas fechadas e as luzes apagadas, sem brincar, ler, estudar ou sair. Só terá permissão para usar o banheiro, e só fará duas refeições por dia: almoço e jantar. Nada de café da manhã ou lanche.
Ele mal ouve as palavras do pai. Só consegue pensar no endereço perdido do amigo. 





Mas logo no segundo dia de castigo, Diogo percebe que não poderá aguentar até o final. Numa tarde, sorrateiramente dirige-se à cozinha para pegar um pedaço de pão, pois estava faminto. Já quase achava que sua empreitada estava tendo sucesso, quando ao virar-se para voltar ao quarto, dá de cara com Guiomar de pé entre a porta da cozinha e o corredor. Ela estica a mão, e ele lhe devolve o pedaço de pão.
No outro dia, ele foge pela janela do quarto, segurando-se na calha de chuva. Passa a manhã toda brincando na rua, e aventura-se por um caminho desconhecido, uma direção que ele nunca tomara antes. Era uma pequena vila, uma ruazinha sem-saída, com casas geminadas de ambos os lados, cada qual de uma cor diferente. Acha o lugar encantador, pois as casas têm pequenos jardins floridos na frente, jardins muito bem-cuidados, e das janelas saem sons de música, risos e gritinhos de bebês. As mulheres passam e se cumprimentam, às vezes agrupando-se na calçada e conversando durante algum tempo. 
Numa das casas, o sol da manhã tinge o telhado de dourado. Diogo fica encantado com aquele estilo de vida, totalmente diferente do seu. Sente saudades da escola, dos amigos, de Plínio. Lágrimas lhe vêm aos olhos, e ele resolve voltar para casa antes que percebam sua ausência. Voltaria no outro dia.




Mas, novamente, é descoberto: antes que cruze o portão de sua casa, dá com o olhar enfurecido de seu pai, que saía para o trabalho.
Ele é novamente trancado no quarto e Amaro dá ordens para que todas as suas roupas e sapatos - exceto um short velho - sejam retirados de seu quarto. Assim, ele teria de permanecer em casa, pois não poderia sair às ruas semi-nu. Enfurecido, desta vez Amaro dá-lhe algumas palmadas. Para completar, acrescenta mais três dias ao castigo, avisando-o de que isso seria feito a cada vez que ele tentasse fugir.
Ao ficar sozinho, Diogo chora de raiva e humilhação. Nunca tinham lhe batido antes. Seu único pensamento é vingar-se do pai e de Guiomar. Iria fugir de casa para sempre. Eles iam ver só! Ele iria até a escola e pediria à professora que o deixasse morar com ela. Depois, procuraria o endereço de seu amigo Plínio e os dois iam poder se ver novamente. E ele seria um dia um homem muito rico, tão rico quanto seu pai, e moraria numa daquelas casas que vira na vila. E ela seria pintada de azul, e cada cômodo teria uma cor diferente. Com esses pensamentos felizes e infelizes, adormeceu.
Guiomar acordou-o na hora do almoço. 
Ele está planejando uma fuga. Acha que em três dias, terá conseguido juntar alguma comida para manter-se durante algum tempo. Então, guarda de um almoço um ovo cozido e um pedaço de pão; do jantar, guarda mais um pedaço de pão e frutas. Também põe num saquinho plástico os biscoitos que esquecera na maleta da escola, quando faltou à última aula por estar doente.
Quebra seu cofrinho e consegue algumas moedas. Acha que elas são o suficiente para comprar alguns chocolates.



Está de ouvidos atentos. Assim que ouve o pai sair para o trabalho, fica esperando que Guiomar vá fazer as compras, e quando a porta bate, ele novamente sai pela janela de seu quarto, descendo pela calha. Mas logo percebe que, do outro lado da rua, a vizinha o observa. Ela entra em casa, e ele percebe que talvez ela viesse tentar impedi-lo de realizar sua fuga, e começa a descer mais rapidamente. Antes de chegar ao chão, ele salta da calha e vai cair sobre um pedaço de madeira velha. Um prego entra-lhe quase todo na sola do pé. Ele grita de dor, e senta-se um pouco para recuperar o fôlego, mas a vizinha já está atravessando a rua. Com o coração aos pulos, Diogo puxa o prego do calcanhar com toda a força. O sangue jorra, pois ele está sem sapatos. Veste apenas o shortinho surrado. Sai correndo, mancando pela rua afora, enquanto a vizinha grita seu nome. Deixa pela calçada um rastro de sangue.
Ele pensa em voltar à sua vila querida, mas acha que é melhor fugir para bem longe antes que escureça. Segurando fortemente seu saquinho de suprimentos, ele corre sem parar, ignorando a dor e o sangue que sai de seu pé ferido. Ignora o medo do desconhecido e tenta não pensar na surra que levará, se for pego. Ignora as lágrimas que o deixam com uma visão bastante turva. Também ignora a sujeira pela calçada , restos de comida que o lixeiro deixou cair em sua passagem e que alguém ainda não tinha tido tempo de varrer. Nem percebe a água lamacenta no meio-fio, onde sacoleja o pé ferido por alguns instantes, tentando limpar um pouco o sangue. Ele corre, corre até sua garganta ficar seca e todo o seu corpo, formigando e quente. Corre, até que a dor comece a dilacerar-lhe os membros, o peito arfante, a cabeça. 
Corre até cair.




E ser novamente encontrado e levado para sua casa, algumas horas depois.
Ele acha que está sonhando, e é bem melhor assim. Ficar acordado dói horrivelmente. Dói mais ainda o olhar de censura do pai. Dói também a indiferente competência de Guiomar, ao cuidar dele. Dói quando alguém fala alguma coisa perto de seus ouvidos. Ouve apenas um som distorcido. A cabeça dói, e têm espasmos terrivelmente dolorosos se alguém o toca. Mas quando está no outro lado – o mundo dos sonhos- ele encontra-se com uma linda mulher loira que está dormindo em uma cama. Ela ás vezes acorda por alguns instantes e sorri para ele. Ali não há dor.
Ele olha para cima e vê a cortina azul-desbotada esvoaçante, e compreende que está dentro do quarto proibido . Em sua própria casa.
Ele poderia ficar horas sentado ali olhando aquela mulher dormir. Mas às vezes eles o trazem de volta. E toda a dor recomeça, os espasmos, o ódio que cresce cada vez mais dentro dele, e ele acha que às vezes grita bem alto, achando que assim poderá fazer com que eles o deixem em paz.
Ele está novamente olhando para a linda dama. Finalmente, ela se apoia em seu antebraço, erguendo-se ligeiramente da cama. Parece um pouco tonta, mas sorri docemente ao vê-lo. Aponta para o armário, e ele entende que ela quer mostrar-lhe alguma coisa. E ele sabe exatamente o que fazer.
Abre o armário, e sob a seda de lindos vestidos, ele encontra um caderno de capa marrom. Ela diz a ele que volte e diga aos outros . Quer que fale com eles da existência do caderno. Mas ele não quer voltar. Ele lhe mostra a dor. Ela promete que será só por alguns instantes, e que depois eles ficariam juntos para sempre. Mas ele precisa voltar mais uma vez. Ela promete que segurará a dor dele dentro dela.



E ele mais uma vez abre os olhos em seu quarto. Fica surpreso ao sentir que não sente mais nada. E seu pai vêm até ele, com um olhar ansioso e preocupado – preocupado pela primeira vez. Mas apesar do medo que ele lê nos olhos do pai e da gratidão que ele expressa , através de suas lágrimas, por ele estar de volta, Diogo sabe que é tarde demais para eles. O pai segura o corpo macilento do menino em seus braços, beijando-lhe a testa. Diogo faz sinal para que ele aproxime o ouvido de seus lábios, e Amaro obedece-lhe. E conta-lhe sobre a existência de um caderno de capa marrom, que está dentro de seu antigo quarto, o quarto que ele partilhava com sua mãe. Diz que ela mesma pedira a ele que lhe falasse sobre o caderno. Confuso, Amaro deposita o menino cuidadosamente sobre o travesseiro. Olha para ele, achando que Diogo estivera delirando. Mas , mais uma vez, o menino suplica-lhe que vá à procura do caderno.
Hesitante, Amaro deixa o quarto e pega o molho de chaves que por anos estivera trancado no armário da estante, no escritório. Aperta-o em suas mãos e leva-o aos lábios. O cheiro de ferrugem desperta-lhe, e ele finalmente cria coragem e dirige-se à porta do quarto.
Guiomar, que nesse momento aparece no patamar da escada com uma bacia e panos úmidos para a a febre de Diogo, estanca, ao vê-lo girar a chave do quarto proibido.



Ele entra rapidamente. O cheiro de mofo penetra suas narinas, fazendo-no espirrar. Deseja sair logo dali, e sem olhar para os lados, acende a luz central e corre para onde o menino lhe indicara. Surpreso, ao enfiar a mão por sob as bainhas dos vestidos, seus dedos encontram a capa dura do caderno, que permanecera ali todos aqueles anos. Ele agarra o caderno e sai do quarto, girando novamente a chave . Passa por uma Guiomar aparvalhada e entra no quarto de Diogo, sendo seguido por ela. Quer mostrar-lhe o caderno, para tranquilizá-lo, mas os olhos vidrados do menino não vêem mais nada.
Automaticamente, Guiomar faz o sinal da cruz.   




  




Um comentário:

  1. Ana, você consegue prender minha atenção e lamento quando o capítulo termina. Não imaginei que o menino ia morrer, mas o caderno, certamente, trará respostas ao pai. Bjs.

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