quinta-feira, 2 de maio de 2013

Flores Secas - Parte II





Flores Secas - Parte 2



Hoje é um dia triste. Como têm sido tristes todos os dias de minha vida desde que ela se foi. Às vezes tento não pensar, mas isso está na minha cabeça o tempo todo. Este é meu primeiro pensamento quando acordo de manhã, e o último quando me deito. 
Mas hoje é um dia especialmente triste, pois hoje é nosso aniversário de casamento: 22 de Dezembro.
Se ela estivesse aqui, talvez eu nunca tivesse ficado sabendo de nada. E poderíamos ter continuado levando nossa vida normalmente, e se eu nuca soubesse de nada, não teria sofrido, e não haveria o que perdoar. Eu ainda escuto o som de seus passos pela casa, assim que acordo. Somente neste momento eu sou feliz, embora a ilusão dure apenas alguns segundos. Apesar de eu ter ordenado que o jardim fosse destruído , as margaridas teimam em brotar. Quando estou muito triste ou muito furioso, eu mesmo vou lá e as arranco com minhas próprias mãos durante a noite, quando todos estão dormindo. Mas a maior parte do tempo, acho melhor apenas ignorá-las. Passo por elas e percebo sua brancura com o canto dos olhos, mas finjo que elas não estão ali, embora tentar fingir que elas não existem seja a melhor maneira de perceber que elas estão ali o tempo todo.
Talvez, se ela tivesse me contado tudo eu teria ficado furioso, é claro, mas com o tempo, devido ao meu grande amor por ela, eu tenho certeza de que a teria perdoado. Pois eu ainda a amo perdidamente. Ou talvez não a tivesse perdoado, pois meu orgulho é quase tão grande quanto o meu amor, mas pelo menos eu saberia que ela continuaria viva, em algum lugar neste mundo, onde poderia ser encontrada, onde eu poderia, a qualquer momento, ir até lá e dizer a ela que eu a perdoava, ou pedir que ela me perdoasse por eu não tê-la perdoado logo.


De vez em quando eu me pergunto se ela me amava. Então eu me lembro da maneira que ela me olhava, de seu tom de voz quando falava comigo, das vezes em que eu acordava no meio da noite com sua cabeça em meu peito, os cabelos esparramados sobre meu coração. Escuto seu silêncio, quando, eu erguia os olhos de minha leitura de repente e topava com os olhos dela presos em mim, como se estivesse adorando minha própria imagem. E quando estávamos juntos, quando fazíamos amor, não importa o que tivesse acontecido durante o dia , os problemas que pudessem ter surgido, as guerras ao redor do mundo, a morte, a fome, o desamor, nada importava, e ficava imediatamente reduzido a nada diante da intensidade daqueles momentos, onde tudo o que importava era estar com ela. Eu colocava meu nariz bem junto de sua nuca, e quase sufocando, aspirava seu cheiro para dentro de meu corpo sofregamente, um elixir que curava todas as feridas, acendia todo o meu ser e transmitia vida a cada centímetro de meu corpo. Talvez por isso eu nunca tenha adoecido no período em que permanecemos juntos; porque ela era a minha cura. E a minha loucura.
Meus amigos comentavam o quanto ela era perfeita, o quanto eu era um homem de sorte. As esposas de meus amigos buscavam a companhia dela como se quisessem absorver um pouco de seu brilho, de sua beleza e de seu entusiasmo pela vida, que era realmente algo contagiante, nunca visto. E Margarida conseguia doar-se sempre um pouco a qualquer pessoa que se aproximasse dela, mesmo àquelas mulheres que eu percebia que a olhavam com inveja e falso carinho. Eu tentava preveni-la, pois para mim a coisa mais terrível que poderia acontecer seria que algum dia alguém a magoasse, mas ela apenas sorria e dizia que estava tudo bem.
Ela cuidava de nossos filhos zelosamente, muitas vezes fazendo com que a babá se sentisse um tanto deixada de lado, pois ela mesma fazia questão de levar Lucinda à escola , e ela mesma sempre se levantava à noite para atender às necessidades de nossas crianças.




A visão mais doce que me resta é a de uma tarde de verão. Tinha acabado de chover, e de repente , Lucinda apontou para algo no céu pela janela da sala. Todos corremos para olhar, e vimos um lindo arco-íris que se estendia de um lado ao outro da rua. Margarida pegou Diogo no colo, e, dando a mão à Lucinda, fez sinal para que eu os seguisse. Levei ainda alguns segundos para fazê-lo, pois estava procurando meus chinelos, e assim que cheguei ao jardim, vi que ela tinha depositado Diogo sobre uma toalha no gramado, e que ela e Lucinda brincavam descalças sobre a grama, emolduradas pelo arco-íris. Fiquei parado ali durante algum tempo, não querendo perturbar a paz daquela cena. A luz da tarde era vívida, pois apesar de ter parado de chover há pouco tempo, havia muitas nuvens enegrecidas no céu, mas o sol se infiltrava através de suas brechas. Fotografei aquela cena com os olhos da minha mente.
Diogo agitava as pernas e braços no ar, sorrindo para alguns passarinhos que pousaram numa árvore próxima. Achei que aquilo tudo parecia uma cena de filme. E compreendi que eu vivia minha vida assim , como num filme, onde tudo era bonito e todos eram felizes, e senti-me invadido por uma onda de gratidão por ter aquela vida, aquela família, aquela mulher.




E a pior cena de minha vida foi quando cheguei em casa e deparei com a coisa mais terrível que alguém pode ver: minha família morta. E um estranho deitado entre eles, agonizando. Eu fui tomado por uma onda de choque, e por instantes, não senti realmente nada. Apenas que minha vida era novamente parecida com a de um filme, só que de terror. Aproximei-me dele porque, dentre todos, era o único que se movia. Apenas o som de sua respiração agonizante enchia a sala. Ajoelhei-me ao lado dele sem tocá-lo. Apenas olhei para ele. 
Ele voltou seu olhar em minha direção. Mas não tenho certeza de que me enxergava. Ele pronunciou algumas palavras, mas eu não consigo lembrar-me do que ele disse, e logo depois, sua cabeça pendeu para o lado e ele morreu.
Só então verifiquei como estavam os outros: meus pais estavam mortos em meio a uma poça de sangue. Minha filhinha parecia adormecida. Minha mulher tinha a cabeça repousada nos joelhos do tal homem. Ela fitava o vazio com seus olhos vidrados. De um buraco em sua têmpora esquerda corria um rio de sangue. A arma do crime no chão, ao lado da mão direita do homem.
Acho que ainda fiquei sem reação durante algum tempo, mas o choro de Diogo me trouxe de volta à realidade, no exato momento em que Mirna, nossa empregada naquela época, entrava na sala. Ocorreu-me a lembrança de que ela tinha ido ao supermercado, e que acabara de chegar. Acho que ela gritou. Achei absurdo que ela gritasse, pois estavam todos adormecidos e ela poderia perturbá-los. Eu disse isso a ela. Sua reação foi sair correndo porta afora, gritando por socorro. Nunca mais a vi.



Depois... bem, os vizinhos chegaram, e havia repórteres do lado de fora, e depois levaram os corpos dentro de sacos plásticos. Eu assisti a tudo sentado no sofá da sala, ansioso pelo momento quando tudo estaria terminado e eu poderia me levantar e voltar para casa e contar a todos sobre o filme horrível ao qual eu acabara de assistir. Mas daí eu me lembrava de que não havia ninguém a quem contar. Estavam todos mortos. Todos?... não, não todos; havia Diogo. Apenas Diogo, pois também declarei-me morto.
Passei a dormir no quarto de hóspedes, pois não suportei mais entrar no quarto que fora nosso. Pedi a alguém que transferisse minhas roupas para o novo quarto, e depois tranquei o antigo sem nem sequer olhar para dentro, com todos os objetos que lá estavam, e nunca mais entrei nele e nem permiti que alguém o fizesse.
Logo comecei a ouvir os comentários sobre a vida dupla de minha mulher, da qual quase todos os nossos amigos já suspeitavam. A polícia tentou identificar o corpo do homem morto na minha sala de estar, mas não conseguiram encontrar nenhuma evidência sobre quem ele seria. Foi sepultado como indigente, já que não possuía nenhum documento, e esquecido por todos, menos por mim.




Nunca fui ao cemitério visitar minha família. Achava que não fazia sentido. Eles não existiam mais, e isso era um fato incontestável.
Alguns meses depois do ocorrido, eu não suportava mais todas aquelas lembranças, mas ao mesmo tempo, não conseguia sair daquela casa. A beleza me deprimia. Minha vida era bela, e tinha se acabado; minha filha, que era linda, estava morta, e minha linda esposa , que também estava morta, era uma mentirosa. Meus pais, que eu tanto amava, e que me amaram profundamente e me ensinaram a conviver com a beleza, estavam mortos. As cores das paredes e cortinas me cegavam. As flores me sufocavam. A música me incomodava profundamente. A presença de outras pessoas era insuportável para mim, embora eu não tivesse coragem de ser descortês. Mas com o tempo, minha frieza falou mais alto e as visitas de condolências foram terminando.

Contratei uma mulher para tomar conta de meu filho, pois eu não poderia fazê-lo sozinho. De todas as que eu entrevistei para o cargo, decidi por Guiomar, pois ela falava pouco, nunca sorria, não tinha família e não fez nenhuma pergunta. Não era bonita, nem muito jovem. Passou a ocupar um dos quartinhos dos fundos da casa, e raramente era vista em qualquer outro aposento que não fosse a cozinha e suas dependências, a não ser quando entrava para varrer os cômodos e tirar o pó. Quando eu tinha muito trabalho no escritório e não jantava em casa, passava dias sem sequer vê-la. Ou a meu filho. E ela nunca fazia perguntas, e nem me censurava por isso, como faria qualquer outra mulher.



Alguns dias antes do dia que estava marcado para que Guiomar começasse em seu novo trabalho, contratei um grande caminhão e mandei que levassem embora todas as cortinas, tapetes, objetos decorativos, quadros, obras de arte e tudo o mais que achei que fosse supérfluo ou belo demais. Até mesmo grande parte de minhas roupas. Depois, eu contratei um pintor e mandei que pintasse tudo de branco-gelo, a cor mais feia que havia no catálogo.
Quando Guiomar chegou, ergueu as sobrancelhas ao deparar com as mudanças na casa, pois na primeira vez em que ela estivera ali, tinha visto um ambiente belo e luxuoso. Mas ela não fez nenhuma pergunta. Acho até que pensou no quanto seria mais fácil para ela executar o trabalho de casa agora, com tão poucos móveis e objetos. Guiomar era assim: nunca indagava sobre o que não lhe dizia respeito.
Às vezes me ocorria a ideia de que talvez Diogo nem sequer fosse meu filho. Eu não conseguia amá-lo de verdade, e conforme Diogo foi crescendo, eu sentia uma certa repulsa todas as vezes que ele me estendia os braços para que eu o pegasse no colo. No início tentei superar este sentimento, mas logo  tocá-lo passou a ser uma coisa tão difícil que parei de fazê-lo. Mas sempre havia também a suspeita de que ele de fato fosse meu filho, então nunca consegui odiá-lo realmente, e meus sentimentos por ele permanecem sempre em um ponto neutro. 


Mas hoje consigo passar alguns minutos com ele quando chego do trabalho, verificando seus deveres de casa antes que ele vá dormir. Ele me olha de uma maneira estranha, e detesto o modo como ele mendiga minha atenção e fica todo eufórico quando a consegue. Nestes momentos, comparo-o a um cachorrinho abanando o rabo para o dono. 
Ele estuda no melhor colégio da cidade. Não quero que digam que não lhe dei uma boa educação. Mas me recuso a comparecer às reuniões de pais e professores, ou a qualquer festividade da escola. No início ainda me esforcei para comparecer a algumas, mas notei a maneira como me olhavam e o modo condescendente com que algumas pessoas me tratavam, o que me dava nojo, e nunca mais compareci. 
No último dia dos pais deparei com um cartão feito à mão, deixado sobre minha mesa de cabeceira.
Ao abri-lo, estava escrito: “pai:”; em seguida, um grande espaço em branco e a assinatura de Diogo.
Senti uma boa dose de culpa, e naquele final de semana levei Diogo ao jardim zoológico. Ele pareceu muito surpreso com o convite, mas na hora marcada, esperava por mim sentado na beiradinha do sofá da sala, cabelo molhado penteado para trás, shorts e meias três-quartos, sapatos engraxados e brilhantes.
Foi uma experiência constrangedora. Mostrei-lhe os animais, que ele observou com olhos espantados. Meio sem-jeito, expliquei-lhe algumas coisas que eu conhecia sobre os hábitos de alguns deles, e ele ouviu com atenção. Depois, paguei-lhe um sorvete e esperei , ambos sentados num banco do zoo, até que ele tomasse seu sorvete. Depois, fomos para casa. Ninguém falou dentro do carro, no trajeto de volta. 
Acho que Margarida não teria aprovado meu comportamento, mas isso não importa agora. 
Não amo meu filho, mas me importo com ele e com o que vai ser dele.


 

4 comentários:

  1. Bonito, Ana. Bonito, como sempre. Abraço.

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  2. Nossa, Ana, que triste! A forma como narra é especial, prende a atenção e nos deixa torcendo para que tudo mude. Mas não deixa de ser o conto, triste. Bjs.

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  3. AI QUE TRSITE, EU CHOREI SABIA?? DE DÓ DESTA FAMÍLIA TODA, DA MULHER QUE MORREU, DO HOMEM QUE PERDEU FAMÍLIA E PENSA TER SIDO TRAÍDO E DO GAROTINHO QUE PERDEU A MÃE E NAO TEM O AMOR DO PAI.

    MAS EU ADOREI LER TUDOO.
    SO QUERO SABER SE TEM CONTINUAÇÃO.

    BJS LINDONA. PATTY.

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  4. Ai, ai, ai,
    Sofri com o personagem principal e
    especialmente com o menino. E ao
    terminar a leitura, me senti aliviada
    em saber que a história é ficção.
    Muito bom.

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