domingo, 7 de abril de 2013

A CASA FALA




A CASA FALA

Você que passa por mim e vê apenas uma construção em ruínas, certamente nem sequer imagina minha história... já abriguei gerações e gerações dos mais diferentes tipos de pessoas. Já fui de todas as cores, e há muito não sou mais tão parecida com meu projeto original, pois fui sofrendo acréscimos e modificações a fim de adaptar-me às necessidades das pessoas que me habitaram.


Por exemplo; esta fonte em ruínas bem no meio do jardim, já foi o local de um romance ilícito, cujos encontros se davam à luz do luar durante as madrugadas, enquanto dormia serenamente, naquele quarto à esquerda do andar superior, a dona da casa. Isto foi há muitos e muitos anos. Eu fui testemunha do momento em que, despertando de repente e não achando seu esposo dormindo ao seu lado, ela instintivamente (talvez, quem sabe, dominada por minha influência um pouco maléfica) correu até a janela e viu, cá em baixo, os arroubos vergonhosos daquela paixão roubada. 


Eu senti exatamente o ódio que cresceu dentro dela, e que foi, aos poucos, impregnando minhas paredes, silenciosamente, dominando cada cômodo de minha existência, até que cresceu e, amadurecendo, culminou em um silencioso assassinato (do qual apenas eu e a assassina em questão tivemos ciência). Eu assisti a tudo: vi enquanto ela, com mãos trêmulas, manipulava o veneno que colocaria na taça de vinho oferecida ao marido, e o momento no qual ele, caído ao chão e se contorcendo em dores, estendia a mão à sua esposa, que apenas o fitava com seu olhar frio, sem ter dentro de si uma réstia sequer de arrependimento.



A causa mortis foi dada como ataque cardíaco, e o corpo foi velado entre estas paredes que vos falam.

Mas também houve momentos felizes aqui, dentro de mim. Vi crianças virem ao mundo, vi festas de aniversário, núpcias e comemorações, ocasiões nas quais fui ornada de flores, as cores de minhas paredes renovadas, os jardins e passagens exteriores, ricamente decorados com todos os tipos de pedras, flores e arbustos. Confesso que eu ficava muito orgulhosa, quando transeuntes detinham-se em frente ao meu portão e, admirados, teciam-me elogios.



Pertenci a muitos donos; tantos, que perdi a conta... sou apenas uma velha casa abandonada, mas cheia de memórias. Mesmo assim, sei que ainda posso exercer fascínio sobre algumas pessoas, como você, que no momento, me admira. Se tiver coragem, convido-o a empurrar vagarosamente este portão enferrujado - sem assustar-se com o ruído lamurioso que ele produzirá - e vir conhecer o meu interior. Verá que ainda me resta muita beleza.


Saiba que alguns fantasmas ainda sobrevivem em mim, recusando-se a deixar-me (ou talvez seja eu que recuso-me a deixá-los ir), e eles podem vê-lo e ouvi-lo, e quem sabe, seguí-lo para fora daqui durante algum tempo, assombrando seus dias e talvez tornando-os bem mais interessantes. Mas eu não me preocupo, pois sei que eles sempre retornam a mim.



Enquanto percorre meus cômodos, saiba que eles já foram percorridos por condes e condessas, e até por uma princesa que, em visita, ficou hospedada no Quarto Azul. Sobre o parquete do salão principal, muitas valsas já foram dançadas, muito champanhe derramado.



Sei que meu fim pode estar próximo. Há alguns dias, fui examinada pelos proprietários de uma construtora, e li em seus pensamentos, paredes de um prédio moderno. Toda a minha estória será jogada ao vento, e pousará sobre estas colinas que ora me abrigam, até que ela desapareça para sempre no ar, como as cinzas de um morto.



Peço-lhe que seu encantamento seja o suficiente para que consigas retratar a minha imagem e eternizar-me em alguma parede, onde o que hoje sou poderá continuar a existir, de alguma forma, mesmo que limitadamente.


2 comentários:

  1. NOSSA ANA. QUE ARRASO FOI ISSO?
    MEU DEUS.
    CHOCADA E PASSADA.

    DETALHE QUE JÁ DE IMEDIATO EU ENLOUQUECI COM O TÍTULO, JÁ TIVE CERTEZA QUE SERIA O MÁXIMO. UMA CASA QUE FALA, QUE IDÉIA GENIAL. MEUS PARABÉNS.

    EU AMEI DE VERDADE.

    BJS NO TEU CORE.
    PATTY.

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  2. Afffff, como foi que eu perdi esse conto? MEUS SAIS, como assim?

    Que idéia genial esta, e com certeza impregnada de histórias embranhadas nas células desses tijolos.

    Adoro esse tipo de narrativa e, eu bem queria entrar nessa casa, sabia? Teria mais histórias a contar.rsrs...

    Arrasou (de novo)!
    bacios

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