quinta-feira, 18 de abril de 2013

OLHOS NEGROS







Clara e Mara eram gêmeas. Eram quase idênticas, mas Clara tinha olhos negros, e Mara, olhos azuis. Ninguém sabia de onde vinham os olhos negros de Clara, pois a família era toda de pessoas de cabelos e olhos claros. Mas os olhos de Clara eram tão escuros, tão negros, que era difícil enxergar neles qualquer expressão. Só se desmanchavam quando ela sorria. 




As meninas moravam com os pais em uma cidadezinha muito pequena, lá no sul de algum país. Uma cidade onde a maioria das pessoas tinha olhos claros, e mesmo quem os tinha escuros, não os tinha tão negros quanto os olhos de Clara. Mara nascera primeiro: era duas horas mais jovem que a irmã. A mãe costumava dizer que ela praticamente 'escorregara' para fora dela. Clara nascera quase morta: cordão umbilical enrolado em volta do pescoço. Teve que ser retirada à força pela parteira, causando muito sofrimento à sua mãe. Parecia que não queria sair. Mas saiu.



As pessoas da cidade eram muito supersticiosas, e tinham medo dos olhos de Clara. Tudo começou quando as meninas tinham cinco anos de idade, e foram brincar com a filha da vizinha, na casa desta. Dizem que as meninas tiveram uma discussão, dessas discussões bobas de criança, e a filha da vizinha levou um tombo e quebrou  a perna. 





Logo depois, alguém jurou que a samambaia que estava na varanda secara devido aos olhares de Clara.

Quando o vizinho fazendeiro ralhou com as meninas na rua, porque elas estavam irritando o seu cavalo, a produção de leite de um dia inteirinho azedou. 




E muitas dessas histórias foram passando de pessoa para pessoa, as versões cada vez mais aumentadas, e Clara passou a ser cada vez mais temida. As outras crianças começaram a evitá-la, e até seus pais a temiam um pouco. Um dia, ao colocar as meninas de castigo por elas terem quebrado a terrina de sopa, a mãe ficou estarrecida ao ver todos os legumes e verduras da horta murcharem.




Ao completarem sete anos, as meninas exultavam em beleza. Eram as mais lindas crianças da região. Estavam quase sempre juntas, a não ser quando havia um aniversário (para o qual apenas Mara era convidada), ou quando havia alguma quermesse, pois os pais, temendo que Clara aprontasse 'das suas', deixavam-na trancada dentro de casa e levavam apenas Mara. Mesmo assim, às vezes, via-se algum desastre; como no dia em que a máquina de algodão doce produziu algodão amargo.



A direção da escolinha local também passou a proibir a entrada de Clara na escola, pois de repente, o sinal tocava fora do horário do recreio, causando o maior rebuliço entre as crianças, ou a merenda fresquinha estragava na panela.

Um dia, os vizinhos se reuniram em assembléia. As queixas eram muitas. Queriam que os pais das meninas tomassem providências contra Clara. Já estavam cansados de legumes murchos, samambaias mortas, vacas sem-leite, telhados furados, crianças que levavam tombos, algodões-doces amargos e outras peripécias. Ou eles tomavam uma providência, ou a família seria expulsa da cidade.



A mãe ficou desesperada. Não sabia o que fazer, pois apesar de tudo, amava sua filha de olhos negros tanto quanto amava a de olhos azuis. Mas numa manhã de sábado, quando acordou, Clara tinha desaparecido.

Não sabiam que, ciente dos problemas que todos pensavam que ela causava, a menina decidiu fugir para longe dali. 



Ela chorou muito no início, pois sentia saudades dos pais e da irmã. Mas foi caminhando, as lágrimas secando, e ela, crescendo cada vez mais, até que se tornou uma linda mocinha.  




Acabou trabalhando como garçonete em uma lanchonete de uma cidade vizinha. Aprendeu a ler e a escrever, fez muitos amigos e percebeu que ali, a sua maldição não a importunava. Um dia, conheceu um belo rapaz, com quem se casou, e foi muito feliz, para todo o sempre.

Enquanto isso, na sua cidade natal, as colheitas murchavam, o leite secava e as crianças caíam.



2 comentários:

  1. Ué...Será que ela começou a usar lente de contato? rs
    Genial., Ana. Gosto quando você dá esse tipo de fechamento, deixando algo no ar... Cada um que entenda como quiser, né?

    bacios

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  2. MTO BOM, PROVOU QUE O MAL NÃO ERA OS OLHOS NEGROS.
    E EU ACREDITO EM DUAS COISAS, OU A CIDADE ERA AMALDIÇOADA OU O MAL ESTAVA NOS OLHOS AZUIS.
    PREFIRO MINHA SEGUNDA HIPÓTESE, ADOREIS O DESFECHO. MTO BOM. BJS.

    VC ME SURPREENDE A CADA DIA MAIS.

    PATTY.

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